C a r ta s d o C la u str o
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
Virgínia Buarque
Universidade Federal do Rio de Janeiro Colégio Pedro TI
RESUMO
Durante 16 anos, a filha do historiador Capistrano de Abreu, Madre Maria José de Jesus, vivendo sob rigorosa clausura, manteve correspondência com seu pai. Através dessas cartas, Madre Maria José buscou não somente sociabilizar suas práticas e dar sentido àsmesmas, como também tomou-as instrumento de um apostolado letrado, visando obter a conversão de Capistrano àfé católica. A despeito de não ter atingido seu intento, sua escrita epistolar fornece novos indícios para uma interpretação histórica do processo de configuração da subjetividade, em suas inter-relações com a cultura e o poder.
PAIA VRAS-CHAVE
Capistrano de Abreu, correspondência, subjetividade.
RESUMÉ
Durant seize ans, Ia fille de I' historien Capistrano de Abreu, Mêre Maria José de Jesus, vivant dans Ia plus rigoureuse réclusion du cloitre, a maintenu une correspondance avec son pêre. A travers ces lettres, Mêre Maria José n'a pas cherché seulement àsocialiser ses pratiques etàleur donner un sens, mais aussi elle les a transformées en un instrument d ' un apostolat lettré, visant àobtenir Ia conversion de Capistrano àIa foi catholique. Même si elle n'a pas arteint le but assigné, ses écrits épistolaires fournit de nouveaux indices pour l'interprétation historique du processus de configuration de Ia subjectivité, dans ses interrelations avec Ia culture et le pouvoir.
MOTS-CLÉS
Capistrano de Abreu, correspondance, subjectivité.
Em outubro de 2003, como parte do C olóquio C a pistr a no de .Abr eu,
organizado pela Universidade Federal do Ceará, tive a oportunidade de coordenar um estudo de três dias, que versou sobre a abordagem biográfica
na pesquisa histórica, mediatizada pela escrita epistolar, O objeto privilegiado por aquela discussão foi a correspondência mantida ao longo de 16 anos, de 1911 a 1927, por Honorina de Abreu, depois conhecida como Madre Maria José de Jesus, e seu pai, Capistrano de Abreu. Interpunham-se entre ambos, além dos pesados ferrolhos da clausura conventual, diferentes compreensões acerca do mundo, da história e da vida. Tal impasse foi também por mim analisado em obra lançada pelo Museu do Ceará,1 onde pude discorrer com
maior detalhamento acerca das ambigüidades e das contradições deste relacionamento que, contudo, jamais teve desfeitos seus vínculos amorosos.
Nos meses subseqüentes, retomei tal temática, desdobrando-a em uma questão específica, em diálogo com a perspectiva teórica voltada para a reconstituiçâo da subjetividade através de procedimentos escrirurários.' neles incluindo a correspondência.' Neste sentido, apresento, neste ensaio, algumas hipóteses preliminares, formuladas em resposta a um duplo objetivo: interpretar o processo de tessitura da identidade social e religiosa de Madre Maria José de Jesus, delineado através de sua prática epistolar, destacando sua singularidade frente às concepções portadas por Capistrano de Abreu; analisar a operacionalidade dessa escrita no bojo do projeto intentado pela Madre - e nunca concretizado - de conversão de Capistrano ao catolicismo.
Para tanto, selecionei como fonte as 31 cartas que, enviadas pela
Madre a Capistrano, constam de seu
xwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
E p isto lá r io , acervo compilado nos volumes 6 a 11 da C a u sa C a n o n iza tio n is 5 er u a e D ei M a r ia e Io sep h a Iesu ,o.CD. Tal documentação é aqui entrecruzada a extratos da correspondência
de Capistrano de Abreu,' que porventura mencionem sua relação com a filha ou com a opção religiosa por ela assumida. Ainda em relação a essas fontes, considerei ser desnecessária sua sistemática remissão em notas, o que tornaria a leitura lenta e descontínua, preferindo identificá-Ias no corpo do texto por indicação do autor, do destinatário e da data das mesmas.
A
PRÁTICA EpISTOlAR DE MADRE MARIA JOSÉ DE JESUSMadre Maria José de Jesus nasceu em 1882, sob o nome de batismo de Honorina de Abreu, sendo a filha primogênita do historiador Capistrano de Abreu. Em janeiro de 1911, aos 29 anos de idade, decidiu afastar-se da
b elle ép o q u ecarioca para assumir a vida monástica no Convento de Santa
Teresa, no Rio de Janeiro, onde viveu por 48 anos, até a sua morte, em 1959. Nesse espaço sócio-religioso, as monjas viviam inseridas em um cotidiano de clausura estrita, distanciadas de contatos físicos com o mundo exterior e regidas por uma rigorosa normatização quanto às comunicações
internas - com horários de absoluto silêncio entrecortados por momentos de pouco falar.
Face a tais impeditivos, as religiosas recorriam a bilhetes e cartas para sociabilizarem seus sentimentos e práticas, bem como para dar se~tido aos mesmos. Os hábitos conventuais de escrita feminina, embora previstos nos códices eclesiais, deparavam-se, contudo, com vários entraves e mediações: a dificuldade de uma utilização individual do tempo pelas monjas, geralmente direcionado para as necessidades coletivas da Comunidade; a consulta prévia da correspondência por parte das prioras e mestras de noviças, o que era considerado um exercício de renúncia da privacidade e, portanto, da possessão de si; a constante carência de condições materiais adequa?as para a escrita pois, em função do voto de pobreza, os. conventos carm~htas femininos dispensavam mobiliário como mesa e cadeiras, e mesmo objetos como papéis e tinta - muitas vezes, os bilhetes eram escritos em embrulho de pão, ou ainda no verso de folhas já escritas. Assim, Madre Maria José, em 25 de fevereiro de 1919, escu ava-se com Capistrano por uma demorada lacuna na correspondência:
Não repare, meu pai, quando levo muito temp sem lhe escrever, pois não imagina como sou sobrecarregada de obrigações importantes. De vez em quando tiro tempo do sono, mas sempre que o faço fico doente. Ainda há duas ou três semanas, fui fazer isto e tive que ficar mais de uma semana na cela com uma forte constipação e bronquite com bastante febre. Uma noite passei toda em claro com asma e febre de39°e mai . Agora estou boa, mas resolvida a ser mais cautelosa, pois assim em vez de lucrar tempo, perco mais.
transparece no texto redigido por Gemma d'Alba, em 1917:
"[..J
xwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
ép r eciso mu ita p r u d ên cia , mu ito tin o e, so b r etu d o , u ma b a se d e só lid o s p r in cíp io s,
p a r a n o s a b a la n ça r mo s n a esca b r o sa missã o d e en sin a r , visto q u e fa la mo s em
n o me d a Ig r ~ ja d e J esu s C r isto [ . ..} a n tes d e tu d o , u ma co n sta n te vig ilâ n cia
so b r e a n o ssa lín g u a JJ.6
A despeito de todas essas limitações, as monjas escreviam, e muito. Assim, Madre Maria José deixou o legado de uma coletânea epistolar bastante expre~siva, associada
à
singularidade de seu percurso biográfico. Essa monja f01pnora do Carmelo de Santa Teresa por 27 anos, espaçados em 9 triênios, época em que liderou um importante processo de renovação dos costumes monásticos e de fundação de novos conventos. Além disso, por sua amizade pessoal com D. Sebastião Leme da Silveira Cintra, cardeal arcebispo do Rio de Janeiro entre 1930 e 1942, mas de quem já era dirigida espiritual desde 1912, esteve diretamente envolvida no processo de Restauração Católica promovido pela hierarquia eclesiástica no Brasil. Tais vínculos, efetivados principalmente através de uma intensa produção escrita, foram registrados noM emo r ia l,obra publicada alguns anos após sua morte, na qual transparece o olhar já hagiográfico vertido sobre a Madre:Aconteceu Nossa Madre ficar gripada, e logo pediu para ir para a enfermaria. Uma das filhas inquietou-se; devia estar sofrendo muito para deixar o Noviciado, quando lá ficava mesmo atacada de asma. Visitou-a, indagou qual o motivo de assim proceder. Tranqüilizou-a Nossa Madre, explicando-lhe necessitar de mais silêncio e recolhimento para fazer um trabalhinho. Junto del~ estava uma folha escrita e, como a irmã era Porteira, acrescentou que mais tarde fosse buscar carta para D. Leme, nosso venerado Superior.
Na inauguração do Monumento do Corcovado - Cristo Redentor - Sua
Emcia. leu o [...] ato que, ao terminar, declarou ter sido feito por uma Carmelita Descalça a seu pedido [...]
Alguém presente àsolenidade da inauguração contou àIr. Porteira a leitura do ato; esta logo lembrou-se do "trabalhinho" e do envelope remetido a D. Leme, e arranjou então uma cópia das que foram impressas pela Liga Feminina da Ação Católica. D. Leme, interrogado sobre a autoria do ato, revelou o nome de N. Me. Maria[osé.'
Em face da relevância conferida a seu aposto lado letrado, concomitante a uma trajetória considerada emblemática na Ordem do Carmelo Descalço, a correspondência de Madre Maria José não foi destruida - as freiras, os familiares e os amigos a conservaram como recordação e como textos modelares de espiritualidade, enquanto, de acordo com os costumes conventuais, a maioria das cartas recebidas pelas religiosas era
queimada depois de lida, uma vez que as monjas não dispunham de armários nas celas onde pudessem guardar recordações ou objetos pessoais. Hoje, esse acervo epistolar, juntamente com o conjunto de seus escritos, encontra-se arquivado no Convento de Santa Teresa, integrando também o processo de canonização da Madre junto
à
Santa Sé (aberto em 1989), condição que o reveste de um caráter documental oficial, ultrapassando-se as fronteiras de uma escrita eminentemente privada.8Através das cartas que endereçava a Capistrano, constantes deste acervo, Madre Maria José buscava confortar o pai pela dor sofrida com a separação imposta pelo claustro, assegurando-lhe ter alcançado a felicidade pessoal. Esse argumento foi incessantemente utilizado pela religiosa, na esperança de que Capistrano viesse a aceitar melhor a opção que ela fizera, como nesta missiva, de 10 de janeiro de 1925:
Ah, meu pai, o amor paterno é essencialmente desinteressado, por isso não lamente a dor que lhe causei, porque foi a minha felicidade neste mundo e espero que também no outro. Seu sacrifício foi bem recompensado ... Creia, meu bom pai, que me sinto tão feliz na vida religiosa que constantemente estou dizendo comigo mesma: Se eu, em vez de ser uma, fosse mil, não deixaria um só dos meuseusno mundo, consagraria todos a Deus; e o mesmo digo se fosse milhões e milhões, quer de mulheres, quer de homens, e ainda que tivesse segura a salvação eterna, fosse qual fosse o estado que abraçasse. Veja, meu querido pai, que sua filha está contente, e fique também contente,
pois a felicidade dos filhos é a felicidade dos pais.
A correspondência constituía-se, aliás, no único meio possível para uma comunicação entre pai e filha, pois Capistrano, contrário ao ingresso de Honorina na vida religiosa, mostrava-se irredutivel em não mais retomar ao Convento de Santa Teresa, desde o dia em que despedira-se da filha, vestida de noiva para seu esponsório com Cristo, no ádrio do monastêrio. Capistrano, dotado de uma formação cientificista e agnóstica, teve muitas dificuldades para aceitar a decisão de Honorina, como ele mesmo confidenciou a seu amigo Mário de Alenear, em carta datada de 18de janeiro de 1911:
Acho porém o caso dela pior que a morte: a morte é fatal; chega a hora inadiável; em resoluções como a de agora há sempre a crença, certamente errônea, de que o desenlace podia ser outro, e é isto que dói. Só agora vejo como a queria. Passo os dias sem sair, pensando nela, joguete dos sentimentos mais contraditórios, desde a indignação até as lágrimas. Só com os filhos,à
olhos, mas os acessos vão se espaçando e duram menos. [...] Mas basta de Honorina. Peço-lhe que nunca mais se refira a e te assunto, se eu em primeiro lugar não o abordar.
Madre Maria José, porém, não se deixou intimidar pelas escusas do pai, escrevendo-lhe sempre que seus muitos afazeres lhe permitiam e, delicadamente, quando a ocasião lhe parecia propícia, ela evocava a conversão de outros intelectuais ao catolicismo. Neste sentido, em uma única carta ao pai, de 24 de fevereiro de 1925, a Madre mencionou duas situações que considerava exemplares:
Não fique aborrecido comigo e permita que lhe peça, meu bom Pai, que ao menos reze todos os dias, de manhã e de noite, uma Ave-Maria encomendando a Nossa Senhora a hora de sua morte. O Dr. Urbano foi bem feliz, teve a felicidade de re~eber todos os Sacramentos e morrer muito resignado e bem disposto. [...] Há muito tenho para lhe mandar da parte de Brasilina uma lembrança do Dr. Alencar Lima e só hoje me lembrei. Veja como ele também se converteu sinceramente.
Longe de consistir num devaneio, os esforços de Madre Maria José pela conversão de Capistrano amparavam-se em uma efetiva mudança de perspectiva da intelectualidade brasileira, que paulatinamente aproximava-se do catolicismo, em uma expressão de desencanto perante a feição militarista e oligárquica do regime republicano, que até então fora vinculado a representações eminentemente laicas de progresso e civilidade," Paralelamente, o episcopado brasileiro empenhava-se em atrair e organizar o pensamento leigo, mediante a constituição de fóruns letrados, muitos dos quais sediados no Rio de Janeiro, capital federal. Desta maneira, a instauração do Círculo Católico do Rio de Janeiro, instituição que obteve parcos resultados, foi sucedida, em 1921, pela
criação da revista
xwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
A O r d em,seguida um ano depois pela inauguração do Centro D. Vital. Também foi implementada uma dinâmica imprensa católica, ematuação articulada ao Centro e
à
Liga da Boa Imprensa. Além disso, surgia, em 1922, a Confederação Católica do Rio de Janeiro. 10Assim, uma seqüência de novos convertidos - como J ackson de Figueiredo, Hamilton Nogueira, Gustavo Corção, Alceu Amoroso Lima ...-somar-se-ia a uma primeira geração de letrados católicos, então dividida em duas correntes: de um lado, encontravam-se altas personalidades francamente monarquistas, como Eduardo Prado, Afonso Celso, Carlos de Laet; em outro grupo, situavam-se os adeptos do liberalismo político e do regime republicano, como Felício dos Santos e Francisco Badaró." Também nas espacialidades socioculturais comuns
à
intelectualidade carioca, a Igreja fazia-se cada vez142
mais presente, destacando-se o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (do qual, além de Capistrano, faziam ~arte cat?licos renom~dos c?~o Eduardo Prado, Afonso Celso, o padre Julio Mana), a Acadenua Brasileira de Letras (da qual Capistrano declinara do convite para participar, ~as onde ingressara Eduardo Prado e, posteriormente, Alceu Amoroso Lima) e o Colégio Pedro li (onde trabalhara não apenas Capistrano, mas também Jônatas Serrano, sob a direção de Eugênio, de Barr?s Raja Gabagl~a)Y
As cartas de Madre Maria Jose a Capistrano, sugenndo sua conversão, não tiveram resposta satisfatória, Em uma derradeira tentativa, a Madre "en via -lh e a s visita s d o s P a d r es F r a n ca , M a d u r eir a
['.J,
d o P a d r e Na b u co , boje Monsenbor " 13, mas Capistrano faleceria em 13 de agosto de 1927, semconverter-se ao catolicismo.
UMA HERMENÊUTICA DA CONVERSÃO
Esperançosa até o último momento de ver o pai recondu~ido ao seio da Igreja, Madre Maria José não hesitou em empregar para 1SS0 os meios de que dispunha como religiosa: realizando contínuas orações e penitências, ela suplicava a Deus a graça da fé para Capistrano. Além disso, a Madre também solicitava a interferência de freiras amigas, como na carta de 15 de janeiro de 1922, endereçada a Sóror Ana, monja do Convento da Ajuda, a quem afirmava: "C o n to co m su a s o r a çõ es e sofr imentos p a r a co n ver sã o
d e meu p a i e d e meu s ir mã o s. "
Ao mesmo tempo, Madre Maria José não descuidava de suas práticas de persuasão filial, conforme expresso em carta enviada por ocasião do aniversário de Capistrano, em 23 de outubro de 1917: "Q u e desej ten h o , meu q u er id o P a i, d e vê-Io to d o d a d o a D eu s, a r r ep en d id o d e ta n to s a n o s d e
in d ifer en ça r elig io sa , pr ocur a ndo g en er o sa men te co m o fer vo r p r esen te r ep a r a r . o
temp o p er d id o n o p a ssa d o ." Aliás, desde suas primeiras missivas como .monJ; carmelita, como a enviada em 11 de agosto de 1913, Madre Mana Jose indicaria a Capistrano recursos possíveis para alcançar tal mudança de estado:
Meu Pai tenho duas coisas a pedir-lhe, ambas espirituais. A primeira é que se aliste n; Confraria de Nossa Senhora das Vitórias, que há no Colégio dos Jesuítas. O Pe. Semadini disse-me que eu o convidasse. As obrigaçõ.es são só dar o nome e rezar uma Ave-Maria todos os dias. Ora, eu tenho confiança que por essa Ave-Maria V. se venha a converter, como a tantos outros tem
acontecido.
Maria José a seu pai, verifica-se que o pedido por sua conversão sucede-se ininterruptamente: ele consta das cartas redigidas em 1913, 1914, 1917, 1919, 1923, 1924, 1925 (neste ano, foram 4 cartas abordando o assunto), 1926, 1927 (mais duas cartas). Porém, nessa escrita epistolar, se a temâtica da conversão já é expressiva por sua volumosa incidência, ela destaca-se sobretudo por sua configuração como uma modalidade específica de narrativa, de cunho confessional.
Assim, antes de argumentar com o pai acerca das verdades da religião e do destino humano, Madre Maria José empenhava-se por traduzir este discurso em um relato de vida que, entremeado às ações corriqueiras de seu cotidiano, tornava-se muito mais convincente. Desta maneira, seus textos
epistolares emergem como uma "confissão", que
xwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
"desloca o indivíduo de sua finitude de r ejeita do do Ser e, pela lembr a nça ou pela confissã o (r icor da r i},r eliga -o à eter nida de"." Um exemplo expressivo desta escrita confessional, por sua intensa dramaticidade, consta da mesma carta remetida a Capistrano em seu aniversário de 1917:
Eu conheci alguma coisa do que o mundo em sua inexperiência da verdadeira felicidade chama prazer, goro, alegria, e louvo infinitos milhões de vezes a Misericórdia Divina que em sua predileção gratuita para comigo não me deixou conhecer mais; entretanto, eu digo, mil vezes mais feliz fui chorando meus pecados com tanta dor, que o coração quase se me partia, do que nos concertos, nos teatros, nos passeios, nessas diversas vaidades que enleiam o espírito mas não lhe dão verdadeira felicidade [...] Quantas vezes me tem acontecido dormir apenas poucas horas durante a noite e de madrugada, quando o corpo mais precisado estava de descanso, ser despertada pela matraca e pular da cama logo com grande alegria, feliz de começar o dia com sacrifício. Como éfeliz nossa vida toda de sacrifício, de silêncio, de oração! Não me canso de louvar a Deus que tão misericordiosamente me escolheu para tanto bem, e peço àSua Divina Majestade que algum dia toda a minha fanúlia partilhe a mesma felicidade de conhecer, amar e servir a Deus.
Este relato confessional encontra-se disposto em uma trama de significados, aqui denominada como "herrnenêutica da conversão"." Em tal semântica, os fragmentos de memória, uma vez encadeados na narrativa, tornam-se recursos discursivos para o reconhecimento do humano como um agente da Trindade na História. Assim, pouco importa se o indivíduo agira em conformidade com a Verdade revelada ou a transgredira - a escrita, vestígio e condição da confissão (imbuída, se fosse o caso, do arrependimento) reordenava e conferia novo sentido a tais práticas, por associá-Ias ao caráter redentor da ação divina.
Tal reordenação também abarcava uma concepção específica de temporalidade, de viés escatológico: ao serem narrados, práticas, pensamentos e sensibilidades (inclusive aqueles tidos como irredutíveis ao modelo de "pessoa cristã") não eram entendidos como alg~ inédito, e sim com~ uma história passada (epopéia da queda e da salvação) e mcessantemente atualizada, ainda que sob nuanças distintas, na vivência diária de cada: ser human~. Assim, escrevendo a Capistrano em 19 de setembro de 1925, Madre Maria
José lhe diria:
Ah! Meu pai, confiando-lhe o mais íntimo de minha alma, confesso-lhe que luto terrivelmente para ser sempre igual, paciente, amável, enfim menos indigna do hábito de Nossa Senhora que trago ... Nunca pensei que fosse tão difícil vencer-se a si mesmo; por issoéque a Escritura diz que aquele que vence a si mesmo émais valente do que o que conquista as cidades. Entretanto, como écheia de consolação essa luta que tem por princípio o amor e cujo alvo éainda o amor!
E era através dessa "hermenêutica da conversão" que a escrita epistolar de Madre Maria José possibilitava-~he, um decisivo .trabalho de auto localização no texto, pelo qual ela constituía-se, concoffiltante~ente, como o indivíduo convertido e o agente da conversão. Sua narrativa era assim formulada como "um a to per for ma tivo que or ga niza o que enuncia .
'S'tgm tcaifi ' {...
J
.La zc o que d itZ'"16 . .A "hermenêutica da conversão" era desenvolvida mediante determinadas operações de linguagem. A primeira de~aspautava-se no ince?t~vo
à
leitura de obras de espiritualidade, tidas como via de acesso a um codigo resignificante das trajetórias de vida; suas r~ferências, ao s~rem apropriada:: e entrecruzadasà
biografia do leitor, propiciavarn-Íhe um ideal de conversao, mesmo que inatingível. Assim, Madre Maria José solicitou várias vezes a Capistrano que lhe obtivesse as publicações que almejava, a fim de melhor percorrer sua jornada espiritual, como na carta de 28 de julho de ~925.: '~que desejo pa r a qua ndo você puder é a lgum livr o do pe. C ha r les ~ a uue; ha tr : s
obr a s dele à venda na Livr a r ia Sa nta C r uiJ que fimciona na Ma tr tz do C or a ça o
de J esus, à r ua Benja min C onsta nt. J esus lhe pa ga r á ". Passado um ano, em 30 de junho de 1926, a Madre cobraria a Capistrano a encomenda não. entregue:
"Meu bom pa i, uma vez ma ndou a qui o Motta pa r a sa ber qua l o livr o que eu,
quer ia da Livr a r ia Sa nta C r uiJ na Ma tr iz do Sa gr a do C or a çã o de J esus. ,E scolht
"D ieu Intime" ou 'J esus Intime", de C ba r les Sa uvé e.: a té hoje na da r ecebi. Se for
esquecimento, r epito o pedido, ma s se é por ser em ca r a s a s obr a s, nã o fa ça sa cr ifício."
apenas as suas preferências, mas também incluíam supostas necessidades daqueles por quem se sentia espiritualmente responsável, como descrito na longa carta enviada a Capistrano, em 10 de janeiro de 1919, na qual a Madre, refletindo sobre a morte do irmão Fernando (de apelido Abril) e o sofrimento
da prima e cunhada, escrevera ao pai:
xwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
"C ecília a in d a n ã o veio cá , ma s me ma n d o u r eca d o q u e vir á a ma n h ã . Vo cê n ã o p o d e ma n d a r co mp r a r a s M ed ita çõ esd e H a mo n p a r a ela ? E u mesmo g o sta r ia d e d á -Ia s, a fim d e exp lica r -lh e o mo d o d e
med ita r e o r a r ".Pouco mais de um mês depois, em 25 de fevereiro, a Madre tocava novamente no assunto: "Na min h a ú ltima ca r ta [ p a r a o ir mã o.Ad n a n o ] , co n tei-lh e q u e C ecília esteve a q u i, e p ed i p a r a ela a s M ed ita çõ es d o H a mo n ".
Capistrano, por sua vez, a despeito de suas resistências a qualquer vinculação religiosa, mas motivado pelo grande afeto que nutria por Honorina, esforçava-se não somente por atender aos pedidos da filha como, antecipando-os, buscava dotar o Convento de obras que viabilizassem o empenho de formação da Madre, que, inúmeras vezes, exerceu a função de mestra de noviças. Assim, escrevendo a João Lúcio de Azevedo, residente em Portugal, em 20 outubro de 1923, Capistrano solicitou-lhe que procurasse uma tradução da C id a d e d e D eu s, de Santo Agostinho, afirmando: "Q u er o ma n d á -Ia à min h a filh a , a g o r a p ela seg u n d a vez p r io r a d a s C a r melita s d e Sa n ta Ter esa .
E la sa b e fr a n cês, la tim e a té a lemã o , in g lês e ita lia n o ; ma s a lg u ma s ir mã s a p en a s
sa b em o ver n á cu lo : g o sta r ia mu ito q u e a s co n fr eir a s sa b o r ea ssem a ig u a r ia ".
Dos livros à oralidade: a "hermenêutica da conversão", na escrita de Madre Maria José, promovia um deslocamento das representações idealizadas para a dimensão tensional da realidade recorrendo a dispositivos da linguagem oral, constituidores de diálogos imaginários e suspensões do discurso. Assim, a utilização de interjeições, interrogações, reticências, configurava um espaço de "interditos":" perante o modelo de virtudes a serem incorporadas, paralelas às tentações e pecados que deveriam ser evitados, emergiam, na rotina da vida e no corpo do texto, resistências, estranhamentos, experiências não traduzíveis. Ao invés, portanto, de ater-se a um formalismo estilistico autocensurado as cartas de Madre Maria José comportavam traços peculiares, como na mis~iva para Capistrano, de 25 de fevereiro de 1919:
Quatro meses ... Parece um sonho. Ainda não me pude acostumar àidéia que meu irmãozinho querido não é mais deste mundo; antes, cada vez me sinto mais ferida e dolorida. Coitadinho! Vivia tão feliz, tão descuidado! Domingo chorei muito na Missa lembrando-me de meu Abrilzinho. Quando saí, ia pelo corredor ladeado de janelas, e estava tão iluminado de sol, o dia tão fresco e bonito, que senti um primeiro movimento de prazer; mas lembrei-me logo de Abril, e não pude conter as lágrimas. E pensei: não, nunca mais
poderá haver alegria para mim neste mundo. [...] Passei o dia 18 muito festejada, mas muito triste. Não recebi visita nem palavra alguma de casa.À
noite senti uma necessidade imensa de uma palavrinha dos meus. Chegando
àcela achei uma carta tarjada de preto e precipitei-me sobre ela, pensando que fosse de Matilde ... Desengano! Era de uma pessoa estranha ... Lembrei-me então que já tinha deixado tudo por Deus, que havia renunciado a tudo; assim deve ser mesmo; mais nenhuma consolação na Terra, Deus só para sempre, no tempo e na eternidade.
Outro relevante aspecto da "her menêutica da conversão" é seu componente de historicidade. A narrativa epistolar de Madre Maria José não continha descrições milagrosas ou visões místicas, nem sinais de predestinação a uma missão sagrada, presentes nos parcos escritos coloniais que retrataram a figura de religiosas, dentre as quais, J acinta de São José, a fundadora do Convento de Santa Teresa que chegou a ser interrogada pela Inquisição." A principal característica do epistolário de Madre Maria José, como de suas demais produções escritas, é a estrita adesão à ortodoxia católica, em consonância às diretrizes do Concílio do Vaticano
I
(1870). Assim, na obra D eu s P r esen te,meditação que inicialmente escrevera para circulação interna no mosteiro e que foi posteriormente publicada, a Madre vincula a relação do fiel com Deus à prática sacerdotal e sacramental, mediação a partir de então tida como indispensável, esvaziando-se um contato direto entre o humano e o Transcendente: "Semp r e ver á [ ...} n o seu p á r o co , em to d o e q u a lq u er min istr o sa g r a d o u m med ia n eir o en tr e D eu s e o s h o men s, u mr ep r esen ta n te d o .Altissimo , u m d isp en sa d o r d o co r p o d e C r isto , u m in str u men to
d ivin o d e p er d ã o , d e g r a ça , d e miser icor dia 'í.í?
Um aprofundamento da análise desta "her menêutica da conversão" nas cartas de Madre Maria José fica parcialmente comprometido pelo extravio das respostas de Capistrano à filha. Pelo epistolário da religiosa, depreende-se que Capistrano escrevia-lhe em datas significativas, principalmente em seu aniversário. Nesta prática, rnantida sem muita regularidade, Capistrano narrava à Madre Maria José as novidades porventura ocorridas em sua vida pessoal, as viagens que realizara, e o transcorrer do cotidiano familiar, enviando-lhe, junto com as cartas, pacotes de chocolates e biscoitos, aliás bastante apreciados pelas irmãs.
Lamentavelmente, apenas a carta datada de 25 de abril de 1927, escrita por Capistrano pouco antes de sua morte, veio a ser preservada, pois Madre Maria José, na condição de religiosa, impunha-se como exercício de ascético desapego destruir a correspondência recebida. Além disso, a quase inexistência de mobília em sua cela de carrnelita descalça impossibilitava a guarda de objetos
privados. Assim, em 1944, Madre Maria José comentava com seu irmão Adriano:
xwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
"Tenho só uma ca r ta do meu pa i, que lhe entr ega r ei. D e memór ia sei uma inter essa ntíssima , que me escr eveu pa r ticipa ndo o noiva do de Abr il. C ostumor a sga r toda s a s ca r ta s, pois tendo voto de pobr eza , gosto de na da possuir ".
Épossível, contudo, esboçar alguma interpretação a partir das respostas de Madre Maria José ao pai. Nelas, verifica-se que as primeiras cartas de Capistrano
à
filha estavam ainda perpassadas de grande ressentimento, conforme se depreende da missiva enviada pela Madre em 20 de fevereiro de 1917:'!Agr a deço-lhe ma ca r ta do dia 18 [...] Bem sei que na da mer eço; entr eta nto, como
a inda estou muito a tr a sa da lia vir tude, r ecebo com ma is a legr ia essa s pr ova s de
ca r inho do que a s pa la vr a s tã o dur a s que em sua penúltima ca r ta me escr eveu". Já por outras narrativas da Madre, pode-se constatar que a mágoa de Capistrano cedia lugar a uma atitude de distanciamento, eivada de tons irônicos (mas não sarcásticos), quando o assunto envolvia questões religiosas. Uma sensibilidade traduzida na carta endereçada por ele a João Lúcio de Azevedo, em 12 de outubro de 1926, na qual perguntava, jocoso: ~ r eligiã o nã o pa r ece com o pã o que, dor mido, nã o desa fia o a petite? " Tal perspectiva, crítica e existencial, em que a crença era diluída em cogitações multifacetadas - do zombeteiro ao histórico -, foi também registrada por Otávio Filho, em sua descrição da última conversa do historiador com o Dr. Felício dos Santos, médico católico que
"r)
insinuou o bem que lhe fa r ia r eceber os Sa ntos Sa cr a mentos. C a pistr a no, com leve sor r isor espondeu, pensa ndo em sua filha H onor ina , esposa de C r isto: 'O r a , F elício, eu sou
ma is a migo de[ esus do que você. Nós somos íntimos ... P ois se ele é meu genr o!'. " 20
SUBJETIVIDADE E CUL1URA
A escrita epistolar de Madre Maria José a Capistrano possibilita ainda uma reflexão acerca das modalidades de articulação entre subjetividade feminina e cultura católica, sem que a primeira seja reduzida aos liames burgueses de uma fé privatizante. Parcela expressiva da historiografia contemporânea, ao abordar tal questão, considera que "[...]a dinâ mica a tr a vés
da qua l se feminiza o ca tolicismo no Br a sil, longe de significa r um investimento
da s mulher es no exer cício do poder sa gr a do, r epr esenta , de fa to, a r ea fir ma çã o de
seu esta tuto su b o r d in a d o "," Uma leitura mais atenta das cartas de Madre Maria José, contudo, suscita "[...] questiona mentos sobr e a cola bor a çã o da 1II1IIher com o poder , sobr e a possibilida de de ser em to -a u to r a s e ma ntenedor a s
da opr essã o de que e/a s pr ópr ia s sã o vítima s, e sobr e a esca ssa consciência qlle
mnita s dela s têm qua nto a os efeitos de ser em pa r ticipa ntes da s r ela ções de poder "Y
Consultando-se as cartas escritas pela Madre ao pai, verifica-se que
a religiosa apresenta-se, com muita freqüência, em uma reconfigu.ração mimética da segunda Pessoa Divina, Jesus Cristo. Não por mera casualidade, um dos livros de devoção mais lidos no Brasil, na virada do século XX, chamava-se justamente Imita çã o de C r isto, sendo a primeir~ obra traduzida por Honorina antes de sua entrada para o Convento, e incessantemente recomendada por ela como leitura
às
irmãs e aos leigos que a consultavam. Tal compêndio era um dos expoentes mais ~eprese~ta~vos de ~m~ v~rtente da espiritualidade católica de fundamental importancra nos pnmordios doCarmelo Descalço, a devo tio moder na ." . ~ .
Oriunda dos pietismos pré-reformados, essa tradição devoclOnal valorizava acentuadamente a subjetividade (espaço intocável para os novos Estados laicos), sendo retomada pela Igreja, no final do século XIX e início do XX, frente
às
urgências históricas por ela vividas em seu e~b.ate co~. a modernidade. Madre Maria José, educada sob tal cultura religiosa, viria então em seus escritos, a delinear uma conformação afetiva do indivíduo a Jesus,' a Maria, ou a outros exemplos de santidade, pela imitação de su ~ satitudes e valores. Assoma, portanto, uma concepção de imita tio, categona proveniente do pensamento clássico e posteriormente incorpora~a ao cristianismo - '!A imita tio nã o supunha a vida , ma s um modelo de r ea lida de; nã o a vida como modelo, ma s o modelo de um estilo" - 24.
Nas cartas da Madre a Capistrano, a imita do (ou personificação de modelos simbólicos) estava revesti da por inúmeras represen:ações e
expressões de devoção fili~. Assim, em su : ~nte~,locuç~o com o
~:u'
~~dre Maria José referia-se a Si mesma como filha (e nao com.o lrma. o~ "madre") - de Capistrano, seu pai na Terra, quem ela devena conduzir a "Pátria Celeste", mas também de Deus e de Maria, exemplo de mulher consagrada e inspiração"à
perfeição da vida religiosa", como afirmado em missiva datada de 11 de agosto de 1913:Não há como a devoção a Nossa Senhora. Eu, enquanto não amei a esta boa mãe, vivi uma vida péssima, e, se não perdi minha alma, foi porque Noss~ Senhor, em sua misericórdia, me conservou a vida; logo que a ela recorn, tudo o que me parecia impossível se me tornou fácil e suave, e eu não só pude viver como boa cristã, mas logo aspirei àperfeição da vida religiosa. Desde então sempre tenho amado a minha Mãe do Céu o mais possível.' a Ela recorro em tudo, e Ela me tem valido sempre. Experimente, meu quendo Pai, e verá como Maria se mostrará Mãe de Deus pela sua onipotência, e Mãe
nossa pelo seu amor.
A personificação de modelos simbólicos também implicava em sua
historicização: uma vez apropriados, eles adquiriam novos matizes de sentido. ~esta .n:~neIra, col?cando-se na posição de filha, Madre Maria José disporub~:a ao pai, mas sobretudo
à
hierarquia eclesiástica, mais do que uma deferen~la afetlv~; ela explicitava principalmente o compromisso assumido com os projetos capitaneados pelo clero no Brasil. Desta maneira, a Madre escreveu a Monsenhor Maximiano da Silva Leite, em 6 de agosto de 1931:De boa vontade quero ter para com V.Revrna. coração e confiança de filha e espero que N. Senhor me faça esta graça; mas como tenho medo de minha fraqueza, faço notar a V.Revrna. que o amor entre os pais e os filhos não corre parelhas~ antes o.dos pais é mil vezes mais fone, generoso e delicado. [...] ~ coraçao do pai encerra tesouros de amor, de benevolência de perdão de ~ndul~ência, de ~ericórdia para com o filho, Este, pelo contiliio, geralm:nte
e egolsta, duro, ~g~to. Portanto, V.Revrna. no
xwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
seupapel de Pai, terá muitas vezes de ter paciencia com sua filha que, procurará, entretanto, nunca de lhecausar o menor desgosto.
~ercebe-se, em tal historicização, que a imita tio não implicava na reproduçao absoluta ?a forI?aNidealizada, ~e~dobrando-se, pelo contrário, em um p~o~esso ?; ?iferenCl.aç~o entre o sujeito e aima g o ,o que propiciava a ~o~~açao identitária, Tal di~t~ção era operada mediante atos não apenas coibitivos, mas sobretudo criativos, o que não excluía uma acirrada auto-conte~~ão e dis,ciplinam~nto: "D eve-se en ten d er , co m isso , p r á tica s r efletid a s e vo lu n ta n a ~ a tr a vés d a s q U a ls o s h o men s n ã o so men te se fixa m r eg r a s d e co n d u ta ,
ma s t~ mb em p r o cu r a m se tr a n sfo r ma r , mo d ifica r -se em seu ser sin g u la r e fa zer d e
su a VId a u ma o b r a q u e seja p o r ta d o r a d e cer to s va lo r es estético s e r esp o n d a a cer to s cr itér ios d e estilo".25
I E~a mesma dinâmica pode ser apreendida nas cartas de Madre Maria Jose a Capistrano, pelas quais verifica-se que a religiosa mantinha relativa autonomia decisória perante o "pátrio poder". Assim, na missiva de 25 de outubro de 1925, Madre Maria José recusava-se a permanecer
.
.
em silêncio,
n:.
esmo que sua es~nta suscitasse contrariedades ao pai: "Ó meti p a i a ma d o , n a o se ~ b o ,: eça co mIg o , n em d ig a q u e só lh e escr evop a r a fa zer ser mã o {..] Nã omeu P a i, n a ~ p ~ sso a b a n d o n á -Io e n ã o me p r eo cu p a r co m su a sa lva çã o , é imp o ssível.
Se eu fo sse tn d yer en ~ e ~ "". so r te eter n a , n ã o lh e ter ia a miza d e". Nesta última frase,. as relaçoes hierárquicas tornaram-se mais eqüitativas, sendo a "filha" substltuíd~ pela. "amiga", o que dotava o discurso de autoridades distintas.
J a ~o discor?a~ ~eseussuperiores clericais, Madre Maria José insistia no uso da slmbolog~: fl~lal, d~ forma que sua postura não fosse interpretada como uma desobediência. FOI assim que, angustiada, a Madre escreveu, em
150
15 de maio de 1934, uma longa carta ao cardeal Leme. Iniciada por um pedido de desculpas, essa correspondência logo se desdobraria em veemente oposição
à
decisão tomada pelo capelão, favorável a um empréstimo para construção de casas de aluguel, em terreno do Convento:Faço tudo que está em minhas mãos para poupar omeu bom e santo Pai, mas agora não posso deixar de incomodá-lo. [...] Meu bom Pai, vossa Emcia. é nosso tudo abaixo de Deus. Peço-lhe que tome a peito nossa causa. Não desejo magoar o nosso Padre [Maximiano da Silva Leite] que é tão bom para nós e fica sentidíssimo quando vamos contra o que ele quer. Por outro lado, não desejaria causar-lhe trabalho nem dissabores, mas em consciência não posso concordar com um empréstimo de mais de quinhentos contos quando já demos outro tanto.
Enquanto Madre Maria José constituía sua biografia espelhando-se em padrões hagiográficos femininos, Capistrano, por sua vez, não pautava sua reflexão em nenhum modelo previamente estabelecido, fosse ele de cunho teórico, filosófico ou existencial. Deitado em sua rede, Capistrano lia, lia muito, "o s ma is d esen co n tr a d o s a ssu n to s: fin a n ça s, esca va çõ es n a P a lestin a , p r o b lema s lin g ü ístico s, p o n to s o b scu r o s d e velh a s cr ô n ica s, cr ítica liter á r ia , a s
ú ltima s r evista s estr a n g eir a s {..] Su a cu ltu r a r esu mia b ib lio teca s in teir a s". 26 De
posse de todo esse conhecimento, Capistrano transitava por diferentes referenciais de formulação do saber, buscando transpô-los ao contexto de uma "sociedade brasileira". Assim, afastando-se da ortodoxia positivista e, de certa forma, dos determinismos geográficos, Capistrano mesclou objetos de pesquisa, fontes e bibliografias bastante distintos, ensaiando novas possibilidades metodológicas.
Tal atitude articulava-se com o interesse de Capistrano pelo levantamento documental- para ele, nenhum modelo interpretativo subsistiria
sem o endosso da materialidade do registro -, o que tornava a pesquisa arquivistica um procedimento heurístico. Foi essa postura, inclusive, que norteou a conhecida passagem da carta de 20 de abril de 1904, na qual Capistrano censurara o Barão de Studart: "P o r q u e n ã o d á s a pr ocedência d o s d o cu men to s q u e p u b lica s? P o r q u e mo tivo te in su r g es co n tr a u ma obr iga çã o a
q u e se su jeita m to d o s o s h isto r ia d o r es, p r in cip a lmen te d esd e q u e co m o s estu d o s
a r q u iu a is, co m a cr ia çã o d a cr ítica h istó r ica , co m a cr ítica d e fo n tes cr ia d a p o r
Lepold u o n Ra n ke n a Alema n h a , fo i r en o va d a a fisio n o mia d a h istó r ia ? "
Uma segunda consideração distanciava Capistrano da personificação de modelos simbólicos promovida pela Madre: seu entendimento do conceito de "tradição", oriundo das leituras que fizera de autores gerrnânicos," Ora,
a
xwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
imita tio católica, embora valorizasse bastante a tradição, a concebia de maneira estática, identificando-a com um passado idealizado (principalmente medieval), rejeitando, assim, a possibilidade de mudança. E embora o pensamento alemão sugerisse algumas analogias com a perspectiva católica por sua valorização da cultura (entre as quais uma remissão ao conservadorismo político e ideológico, por sua reação ao modelo revolucionário francês), as grandes diferenças entre ambos eram nítidas para Capistrano. Afinal, o ideário da tradição, presente no pensamento alemão, fora elaborado por Max Scheler, mediante sua distinção da "recordação": enquanto nesta a experiência vivida aparecia como passado, na tradição ela reavivar-se-ia como presente."Capistrano também retomou do pensamento alemão a perspectiva episternológica que concebia a empatia ou afetação como condição de inteligibilidade do outro. Com isto, Capistrano distinguia-se de Varnhagen que, no seu entender, "n ã o p r ima va p elo esp ír ito co mp r een sivoesimpá tico, q u e, imb u in d o o h isto r ia d o r d e sen timen to s e situ a çõ es q u e a tr a vessa , o to r n a co n temp o r â n eo e
cor fidente d o s h o men s e a co n tecimen to s".29 Além disso, a interpretação da história
promovida por Capistrano, desdobrada da reflexão alemã, associava ainda a singularidade das experiências vividas aos "vazios" históricos (às perdas, aos "absurdos"), tantas vezes constituídos nos embates sociais."
Desta maneira, Capistrano também aproximava-se do conceito de
Bild u n g ,o qual concebe a formação cultural não como imitação, e sim como uma participação criativa do sujeito no processo de sua própria formação; o crescente aprimoramento de cada indivíduo, por sua vez, conduziria a uma auto consciência que, no plano coletivo, implicaria na constituição da humanidade qualificada pela cultura (Ku ltu r ). Talvez, inclusive, não fosse coincidência a escolha promovida por Capistrano ao matricular sua segunda filha, Matilde, em 1905, não mais em um colégio católico e sim na Escola Alemã, recém-fundada no Rio de Janeiro.
Tamanhas divergências com o pai, tornadas irrevogáveis com a morte de Capistrano, deixaram Madre Maria José profundamente pesarosa, mas nem assim a religiosa arrefeceu em sua esperança. No mesmo dia em que o pai faleceu, Madre Maria José escreveu a Matilde, indicando os fundamentos de seu consolo: '; Ag o r a , va mo s r eza r mu ito p o r n o sso P a izin h o , n ã o é, M a tild e, n a cer teza d e q u e No sso Sen h o r n ã o d eixo u d e a ten d er a ta n to s sa cr zfício sfeito s
p o r ele d u r a n te ta n to s a n o s e p r in cip a lmen te n estes ú ltimo s d ia s".
NOTAS
IBUARQUE, Virgínia A. Castro. E scr ita sillglllm: Capistrano de Abreu e Madre Maria José. Fortaleza: Museu do Ceará/Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, 2003.
2Cf. CERTEAU; Michel de.A escr ita da H istôr ia . Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982; Id. A invençã o do cotidia no. Petrópolis: Vozes, 1994. FOUCAULT, MicheL P r oblema tiza çà o do sujeito: psicologia, psiquiatria, psicanálise. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1999; Id. Oque é 11m a utor ? Lisboa: Vega/Passagens, 1992.
} Cf. CHAR TIER, Roger (org.).La cor r esponda nce: les usages de Ia lettre au XIXe siêcle.
Paris: Fayard, 1991; GAL VÃO, Walnice Nogueira e GOTLIB, Nádia Battela (org.).
P r eza do senhor ; pr eza da senhor a : estudos sobre cartas. São Paulo: Cia. das Letras, 2000. AGUIAR, Flávio et alli (org.). Correspondência, diários e prefácios. In:G êller os defr onteir a : cruzamentos entre o histórico e o literário. São Paulo: Xamã, 1997.
4RODRIGUES, José Honório (org.).C or r espondênda de C a pistr a no de .Abr e«. 3' ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasilia: INL, 1977. 3 VoL
5VALDÉS, Adriana. El espacio literario de Ia mujer em Ia colonia. In: PIZARRO, Ana
(org.). Amér ica La tin a : palavra, literatura e cultura. São Paulo; Memorial; Campinas: Unicamp, 1993. V. 1.
6D' ALBA, Gemma. Regina Apostolorum ou Maria SantÍssima ensinando a suas filhas o
triplice aposto lado da oração, do sofrimento e do zelo.Lei/lir a s C a tólica s, Niterói, n. 334,
fasc. X, 1917. p. 15.
7CARMELITA DESCALÇA (Ir. Marina do Sagrado Coração de Jesus). Memor ia ! da vida
da Ma dr e Ma r ia J osé de [ esus, ca r mdita desca lça .Rio de Janeiro: Convento de Santa Teresa,
1968. p. 191-193.
8GALLIAN, Dante Marcello. Ma dr e MC I/ia J osé de J eslls 110ca minho da per feiçã o. São Paulo: Paulus, 1997.
9 SEVCENKO, Nicolau. Liter a tu r a como lIIissr io.3'ed. São Paulo: Brasiliense, 1989. 10CASALI, Alípio. E lite ill/elec/I/(,j e r esta ur a çã o da Igr eja . Petrópolis: Vozes, 1995.
\I VILIAÇA, Antônio Carlos. Opellsa mell/o C C /tólico110Br a sil. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
12NEEDELL, Jeffrey D. Belle époql/e /r opica l:a cultura de elite no Rio de Janeiro da virada do século. São Paulo: Cia das Letras, 1991.
\} MONTEIRO, Honorina de Abreu.
°
avô que eu conheci. Revista do IH G B, Rio deJaneiro, n. 221, out-dez, 1953. p. 187. .
14KRISTEVA, Júlia. Amar, segundo Santo Agostinho. In: Ogênio feminil/O : a Vida, a loucura, as palavras. Tomo I: Hannah Arendt. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. p. ~3.
15Esta noção de herrnenêutica foi tecida em afinidade com o pensamento de Michel de
Certeau: "L'esseude! u'est douc pa s 11I/cor ps de doa r ines (ce sem p/IIMt I'if.fet de ces pr a tiques et sur tout le pr odni! d'illtc/pr é/a /io/lS Ibéologiq/les postér ieur es}, ma is Iafo n d a ctio n d'~tI cha m] : O tl
se déploien: des pr océdur es sP écifiqllcs: /11Iespa ce et des dispositfs". CER TEAU; Michel de.La
fa ble ,,!)'stique, 1. Paris: Gallimard, 1982. p. 26.
16Id. A illvmçà o do cotidia no. Op. cit, p. 249.
17CER TEA U; Michel de. A linguagem alterada. A escr ita da H istór ia . Op. cito
19JESUS, Maria José de, madre.
xwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
D e« : pr eswle. São Paulo: Paulus, 1996. p.77.20OCTÁVIO FILHO, Rodrigo. A vida de Capistrano de Abreu. Revista do IT-TG B, Rio de Janeiro, v. 221, 200-212, out.-dez. 1953. p. 61.
21NUNES, MariaJosé Rosado. Freiras no Brasil. In: PRIORE, Mary del (org.) ..H istór ia da s IIIIIlber es 1/0 Br a sil. 2' ed. São Paulo: Contexto, 1997. p. 491.
22Verbete "Poder/Domínio". In: D ia oná r io de teologia felllil/ista . Petrópolis: Vozes, 1997. p. 398.
13 GALILEA, Segundo. As r a izes da e.r pir itlla lida de la tino-a mer ica na . São Paulo: Paulinas,
.1986. p. 23-24.
24COSTA LIMA, Luiz, Ocontr ole do illla gil/á r io. São Paulo: Brasiliense, 1984. p. 54.
25FOUCAULT, Michel. H ister ia da sexua lida de 2: o uso dos prazeres. 8' ed.Rio de Janeiro: Graal, 1984. p. 12.
26 Discurso de Pandiá Calógeras em homenagem a Capistrano. Apud: CÂMARA, José
Aurélio Saraiva. C a pistr a uo de .Abr e«. Rio de Janeiro: José Olympio, 1969. p. 122-123.
l7 "E ssa epistelJ lologia bistonsta , qlle se difil/ill C O IIIRa l/ke, ct/ja obr a conhecia , c qlle se a per feiçoa r ia
C O IIID iltbey e lV'ebC l; C a pistr a no desenuoiueu sem qllc pa r a isso necessita sse estr euer 1111Ima nua ! de lIIetodologia histônca [c.]". WHELING, Arno. Acervo. Rio de Janeiro, v. 12, n. 1-2, p. 27-36, jan.-dez. 1999. p. 31.
28MANNHEIM, Karl. O significado do conservantismo. In: Ka r l MC IIIl/búlII:sociologia. São Paulo: Ática, 1982.
29Apud: Lima Sobrinho, Barbosa. Capistrano de Abreu historiador. RC llÍs1t1doJI-IGB,
Rio de Janeiro, v. 221, 67-91, out.-dez.1953, p. 76.
JO "C npistr a no sentia a H istor ia , I/C IOa obser ua ua a pcl/a s. C oibia o la to, ma s ta ///bé/// {/ emoçà o
e a i/J /a gil/a çcio cr ia dor a [..j E le sente com o povo, 'dur a nte tr ês sécutos sa l/gr a do c r essa ugr a do, ca pa do e r eca pa do', r ejubila -se com sua s uitor ia s e sofr e com sens ma r tir ios".