ACÓRDÃOVistos, relatados e discutidos os autos. Acordam os Desembargadores integrantes da Nona Câmara Cíveldo Tribunal de Justiça do Estado, à unanimidade, em negar provimento aorecurso.Custas na forma da lei.1

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Texto

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AGRAVO INTERNO. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA. ASSOCIAÇÃO CIVIL SEM FINS LUCRATIVOS. INCLUSÃO DE EMPRESA NO PÓLO PASSIVO DA EXECUÇÃO.

IMPOSSIBILIDADE NO CASO CONCRETO.

Para que se efetive a desconsideração da personalidade jurídica se faz necessário que seja alegado e provado o desvio de finalidade ou a confusão patrimonial. No caso dos autos, não restou comprovada nenhuma das circunstâncias a que refere o artigo 50 do Código Civil em vigor.

AGRAVO INTERNO IMPROVIDO.

AGRAVO INTERNO, ART. 557, CPC NONA CÂMARA CÍVEL

Nº 70015206584 COMARCA DE PORTO ALEGRE

DEBIDA PARTICIPACOES LTDA AGRAVANTE

CENTRO DE DESENVOLVIMENTO E TECNOLOGIA - CDT

AGRAVADO

RUBEN EUGEN BECKER E OUTROS INTERESSADO

PEDRO MENEGAT INTERESSADO

LEANDRO EUGENIO BECKER INTERESSADO

ELY CARLOS PETRY INTERESSADO

A C Ó R D Ã O

Vistos, relatados e discutidos os autos.

Acordam os Desembargadores integrantes da Nona Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado, à unanimidade, em negar provimento ao

recurso.

Custas na forma da lei.

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Participaram do julgamento, além da signatária (Presidente), os eminentes Senhores DES. ODONE SANGUINÉ E DES. TASSO CAUBI SOARES DELABARY.

Porto Alegre, 10 de maio de 2006.

DESA. IRIS HELENA MEDEIROS NOGUEIRA, Relatora.

R E L A T Ó R I O

DESA. IRIS HELENA MEDEIROS NOGUEIRA (RELATORA)

Trata-se de agravo de instrumento interposto por DEBIDA PARTICIPAÇÕES LTDA. contra a decisão de fl. 322 que, nos autos da ação de execução que move em face de CENTRO DE DESENVOLVIMENTO E TECNOLOGIA – CDT, indeferiu o pleito de desconsideração da personalidade jurídica para incluir a ULBRA no pólo passivo da demanda.

Sustentou a agravante existir forte vínculo entre o CENTRO DE DESENVOLVIMENTO E TECNOLOGIA – CDT e a ULBRA, porquanto todos os integrantes da executada exercem cargos equivalentes na segunda empresa.

Ponderou ter sido utilizada entidade sem fins lucrativos com intuito de locupletamento, o que configura hipótese prevista no artigo 50 do Código Civil.

Ressaltou existir “clara confusão” entre o patrimônio da CDT e da universidade.

Postulou fosse atribuído efeito suspensivo ao recurso.

Ao final, requereu o provimento do agravo de instrumento, reformando-se a decisão recorrida.

Esta relatora, em decisão monocrática, negou seguimento ao

recurso, fls. 330/333 verso.

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Contra esta decisão DEBIDA PARTICIPAÇÕES LTDA. interpôs o presente agravo interno. Em razões, disse que a decisão recorrida premia a inadimplência e a má-fé comercial dos devedores, repisando os fundamentos do agravo de instrumento. Ao final, requereu fosse reconsiderada a decisão recorrida. Sucessivamente, pugnou pela apreciação do recurso perante o órgão colegiado.

Vieram os autos à minha conclusão em 09 de maio de 2006, fl.

340.

É o relatório.

V O T O S

DESA. IRIS HELENA MEDEIROS NOGUEIRA (RELATORA)

Eminentes colegas, tenho que não merece provimento o presente agravo interno.

Peço vênia para transcrever os fundamentos por mim utilizados quando do julgamento do agravo de instrumento nº 70014998165, os quais adoto como razão de decidir:

Tenho que o presente agravo de instrumento está a merecer negativa de seguimento, porquanto manifestamente improcedente.

Pretende a agravante a desconsideração da personalidade jurídica do Centro de Desenvolvimento e Tecnologia – CDT, para incluir a Universidade Luterana do Brasil – ULBRA no pólo passivo da execução que move em face da primeira.

Quando do julgamento do agravo de instrumento nº 70012550075, em que tive a oportunidade de analisar o pedido de inclusão dos sócios do CDT no pólo passivo, ressaltei não vislumbrar a presença dos requisitos do artigo 50 do Código Civil. Colaciono trecho do acórdão citado, a fim de melhor esclarecer a questão:

(...)

No caso dos autos, a agravada moveu ação de execução de título extrajudicial em face do CENTRO DE

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DESENVOLVIMENTO E TECNOLOGIA – CDT, associação civil sem fins lucrativos.

Na inicial de fls. 09/11, se disse credora da quantia de R$

1.298.672,55 (um milhão, duzentos e noventa e oito mil, seiscentos e setenta e dois reais e cinqüenta e cinco centavos), representada por nota promissória.

Esse título foi emitido por Confidelity Asset Management que, segundo as alegações da exeqüente, se encontra falida. A legitimidade passiva do Centro de Desenvolvimento e Tecnologia decorre da sua condição de avalista da cártula.

A exeqüente não logrou êxito em localizar bens da sociedade e requereu a desconsideração da personalidade jurídica, o que foi deferido pela Magistrada singular sob dois fundamentos, a saber: a inexistência de bens do executado e a ausência da prova de integralização de quotas da sociedade/associação.

Contra esta decisão se insurgem os agravantes.

A desconsideração da personalidade jurídica está regulada no artigo 50 do Código Civil vigente, que dispõe, verbis:

Art. 50. Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica.

Da leitura do dispositivo retro, se observa que o legislador pretendeu evitar o abuso de personalidade.

Para que se efetive a desconsideração da personalidade jurídica é necessário que reste alegado e provado o desvio de finalidade ou a confusão patrimonial – circunstância que, de alguma forma, se encontra inserida no primeiro requisito.

Examinando os autos, não há elementos suficientes a se concluir que a condição de avalista da executada originária se deu em negócio jurídico alheio aos fins previstos em seu estatuto, caracterizando conduta ilícita ou indevida por parte de seus administradores e/ou diretores. Ressalto que sequer foi alegada tal circunstância pela agravada.

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Confusão patrimonial, por certo, inexiste. Não há que se falar em fusão dos bens dos administradores com aqueles pertencentes à associação.

Convém ressaltar, ainda, que inexistem quotas a serem integralizadas. Portanto, efetivamente não há qualquer prova de integralização.

O art. 25 da ata de constituição do executado prevê que seu patrimônio será constituído por doações ou bens adquiridos com recursos próprios. Não houve, portanto, divisão de quotas. O artigo 28 do estatuto prevê que o patrimônio da sociedade será revertido a uma instituição congênere em caso de dissolução da mesma. Assim, não haverá benefício pessoal dos administradores/diretores, que sequer percebem remuneração, consoante o artigo 30 da ata em questão.

(...)

Muito do que consignei acima serve para o exame do caso concreto. Permaneço sem conseguir visualizar a presença dos requisitos do artigo 50 do Código Civil.

Sequer descreve a agravante hipótese que poderia demonstrar que o negócio jurídico extrapolou os fins previstos no estatuto do CDT. Assim, não se pode falar em desvio de finalidade.

Resta a análise da alegada confusão patrimonial.

A agravante limita-se a afirmar que há “clara confusão”

entre o patrimônio do executado e da ULBRA. Ocorre que não apontou, concretamente, hipótese fática a emprestar, ao menos, verossimilhança a suas alegações.

Ora, que bens do executado estariam registrados em nome da ULBRA ou vice-versa? Onde está a “clara confusão”? Até prova em contrário – que, aliás, incumbe à exeqüente – presume-se que a ULBRA tenha patrimônio próprio, diverso do patrimônio do CDT.

A simples existência de vínculo entre as duas instituições – que, diga-se, efetivamente se verifica – por si só, não autoriza o Julgador a presumir ocorram hipóteses tais como o pagamento de dívida de uma por parte de outra ou que esta receba créditos em nome daquela. Estas circunstâncias apontadas, sim, poderiam ensejar provimento diverso.

Reitero o que já constou no acórdão do agravo de instrumento nº 70012550075: ao credor incumbia maior zelo ao aceitar a condição de avalista da associação. Se não diligenciou a fim de perquirir acerca da existência de

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bens da sociedade, assumiu o risco de enfrentar esta situação.

Assim, muito embora o esforço da agravante em reformar a decisão recorrida, tenho que esta deva ser mantida por seus próprios fundamentos.

Diante do exposto, com fulcro no artigo 557, caput, do Código de Processo Civil, nego seguimento ao presente agravo de instrumento.

Mantenho a decisão recorrida por seus próprios fundamentos. É que não vislumbro a superveniência de qualquer circunstância a ensejar sua reforma.

Diante do exposto, voto por negar provimento ao recurso.

DES. ODONE SANGUINÉ - De acordo.

DES. TASSO CAUBI SOARES DELABARY - De acordo.

DESA. IRIS HELENA MEDEIROS NOGUEIRA - Presidente - Agravo Interno, art. 557, CPC nº 70015206584, Comarca de Porto Alegre: "NEGARAM PROVIMENTO AO RECURSO. UNÂNIME."

Julgador(a) de 1º Grau: ADRIANA DA SILVA RIBEIRO

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Referências