• Nenhum resultado encontrado

RECURSO ESPECIAL Nº 1.328.901

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2022

Share "RECURSO ESPECIAL Nº 1.328.901"

Copied!
14
0
0

Texto

(1)

Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 1.328.901 - RJ (2012/0028072-3)

RELATORA : MINISTRA NANCY ANDRIGHI

RECORRENTE : COSTABELLA EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA E OUTRO

ADVOGADO : MAURA LANNES CARUSO CARVALHO E OUTRO(S) RECORRIDO : H MAX EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA ADVOGADO : ESTER DE FÁTIMA CORTICEIRO

RECORRIDO : MELIÁ BRASIL ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA E COMERCIAL LTDA

ADVOGADO : ALINE GONÇALVES BRAGA EMENTA

RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE RESCISÃO CONTRATUAL CUMULADA COM PEDIDO DE INDENIZAÇÃO. PROMESSA DE COMPRA E VENDA.

INCORPORAÇÃO IMOBILIÁRIA. ALEGAÇÃO DE OFENSA A DISPOSITIVOS CONSTITUCIONAIS. DESCABIMENTO. APLICAÇÃO DA LEGISLAÇÃO CONSUMERISTA. INTERESSE RECURSAL. AUSÊNCIA.

SUSPENSÃO DO PROCESSO. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO.

SÚMULA 211/STJ. DECADÊNCIA DO DIREITO AUTORAL. NÃO CONFIGURAÇÃO. PRETENSÃO DE RESCISÃO CONTRATUAL POR DESCUMPRIMENTO DO PRAZO DE ENTREGA. INCORPORADORA E CONSTRUTORA QUE NÃO TOMARAM TODAS AS CAUTELAS NECESSÁRIAS E POSSÍVEIS PARA A REGULARIZAÇÃO AMBIENTAL DO EMPREENDIMENTO. CASO FORTUITO OU FORÇA MAIOR. NÃO CARACTERIZAÇÃO. CULPA DE TERCEIRO. NÃO AFASTAMENTO DA RESPONSABILIDADE DO AUTOR DIRETO DO DANO.

1. O recurso especial não é a via adequada para a análise de violação de dispositivos constitucionais, matéria afeta ao Supremo Tribunal Federal de forma exclusiva pela Constituição Federal.

2. Ausente o interesse recursal das recorrentes em relação à inaplicabilidade da legislação consumerista à hipótese dos autos. Acórdão que não decidiu a lide com base em normas de proteção e defesa do consumidor, nem tampouco considerou estar a recorrida em situação de hipossuficiência.

3. O acórdão recorrido, apesar da interposição de embargos de declaração, não decidiu acerca dos argumentos invocados pelas recorrentes quanto à necessidade de suspensão do processo, o que inviabiliza o julgamento do recurso especial quanto à questão. Aplica-se, neste caso, a Súmula 211/STJ.

4. A pretensão do autor não cuida de anulação dos compromissos de compra e venda de imóvel por vício de consentimento, mas sim de rescisão contratual por descumprimento da cláusula que previu o prazo de entrega das unidades. Desse modo, inaplicável aos autos o prazo decadencial previsto no art. 178, II, do Código Civil.

5. O atraso na entrega das unidades ao promitente comprador, para ser

considerado caso fortuito ou força maior, deve decorrer de fato inevitável e

imprevisível, o que não ocorreu na hipótese em tela. Incorporadora e construtora

que não tomaram todas as cautelas necessárias e possíveis para o regular

(2)

Superior Tribunal de Justiça

licenciamento ambiental de empreendimento de grande porte em local de notório interesse ambiental.

6. A culpa de terceiro não exime o autor direto do dano do dever jurídico de indenizar, mas tão somente lhe assegura o direito de ação regressiva contra o terceiro que criou a situação determinante do evento lesivo.

7. Recurso especial parcialmente conhecido e, nesta parte, não provido.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da TERCEIRA Turma do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas taquigráficas constantes dos autos, por unanimidade, negar provimento ao recurso especial, nos termos do voto do(a) Sr(a). Ministro(a) Relator(a). Os Srs. Ministros Sidnei Beneti, Paulo de Tarso Sanseverino e Ricardo Villas Bôas Cueva votaram com a Sra.

Ministra Relatora. Ausente, justificadamente, o Sr. Ministro João Otávio de Noronha.

Brasília (DF), 06 de maio de 2014(Data do Julgamento)

MINISTRA NANCY ANDRIGHI

Relatora

(3)

Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 1.328.901 - RJ (2012/0028072-3) RELATORA : MINISTRA NANCY ANDRIGHI

RECORRENTE : COSTABELLA EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA E OUTRO

ADVOGADO : MAURA LANNES CARUSO CARVALHO E OUTRO(S) RECORRIDO : H MAX EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA ADVOGADO : ESTER DE FÁTIMA CORTICEIRO

RECORRIDO : MELIÁ BRASIL ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA E COMERCIAL LTDA

ADVOGADO : ALINE GONÇALVES BRAGA Relatora: MINISTRA NANCY ANDRIGHI

RELATÓRIO

Cuida-se de recurso especial interposto por COSTABELLA EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA E OUTRO, com fundamento no art. 105, III, “a”, da Constituição Federal, contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ/RJ).

Ação: de rescisão contratual c/c pedido de indenização, ajuizada por H MAX EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA, em face de COSTABELLA EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA, JOÃO FORTES ENGENHARIA S/A e MELIÁ BRASIL ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA E COMERCIAL LTDA, por atraso na entrega de duas unidades em empreendimento imobiliário cuja obra foi embargada por força de decisão liminar exarada pela Justiça Federal a pedido do Ministério Público. Postula a autora: (i) a devolução do preço pago; (ii) indenização pelas despesas de ordem tributária e pelos encargos que incidiram sobre as unidades; (iii) o ressarcimento do valor relativo às comissões de corretagem (e-STJ fls. 3/31).

Sentença: julgou extinto o processo em relação à ré MELIÁ BRASIL

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA E COMERCIAL LTDA, por ilegitimidade

passiva, e julgou parcialmente procedentes os pedidos iniciais, para decretar a

rescisão dos contratos de promessa de compra e venda e condenar, solidariamente,

(4)

Superior Tribunal de Justiça

as rés COSTABELLA EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA e JOÃO FORTES ENGENHARIA S/A à restituição de todos os valores despendidos pela autora, com o acréscimo de correção monetária e juros de mora, ficando os ônus sucumbenciais distribuídos na proporção de 30% (trinta por cento) para a autora e 70% (setenta por cento) para as rés (e-STJ fls. 785/794).

Acórdão: manteve a decisão unipessoal do Relator, que negou seguimento à apelação interposta por COSTABELLA EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA E OUTRO e deu parcial provimento ao apelo da autora, com vistas a condenar as rés ao pagamento da integralidade dos ônus sucumbenciais. O acórdão foi assim ementado (e-STJ fls. 923/924):

AGRAVO INOMINADO EM APELAÇÃO CÍVEL. AGRAVO CONTRA DECISÃO MONOCRÁTICA DO RELATOR QUE NEGOU SEGUIMENTO AO RECURSO DAS RÉS. CIVIL. CONTRATO DE PROMESSA DE COMPRA E VENDA DE IMÓVEIS. RESCISÃO PLEITEADA PELO PROMITENTE COMPRADOR MOTIVADA PELO ATRASO NA ENTREGA DA OBRA.

INCORPORADORA E CONSTRUTORA QUE NÃO SE CERCARAM DE TODAS AS CAUTELAS AMBIENTAIS. QUESTIONAMENTO JUDICIAL PELO MINISTÉRIO PÚBLICO. PEDIDOS DE RESCISÃO CONTRATUAL E DE DEVOLUÇÃO DOS VALORES DESPENDIDOS. PROCEDÊNCIA PARCIAL. ILEGITIMIDADE PASSIVA DA TERCEIRA RÉ RECONHECIDA.

APELO AUTORAL E DAS DUAS PRIMEIRAS RÉS, BUSCANDO O AUTOR

O AFASTAMENTO DA RECIPROCIDADE DA SUCUMBÊNCIA, A

MAJORAÇÃO DA VERBA HONORÁRIA E A MANUTENÇÃO DA TERCEIRA

RÉ NO POLO PASSIVO, E AS DUAS PRIMEIRAS RÉS, A PRONÚNCIA DA

DECADÊNCIA OU, SUBSIDIARIAMENTE, A REFORMA INTEGRAL DO

JULGADO. DANO MORAL. INEXISTÊNCIA DE PEDIDO. SUCUMBÊNCIA

INTEGRAL EM DESFAVOR DAS DUAS PRIMEIRAS RÉS. PARCIAL

PROVIMENTO AO APELO AUTORAL E NEGATIVA DE SEGUIMENTO AO

DAS RÉS. A pretensão autoral não foi atingida pela decadência em virtude de

se tratar de pedido de rescisão contratual com devolução dos valores

despendidos, e não de reparação civil pura. As duas primeiras rés

desenvolvem atividade empresarial no ramo de incorporação e construção

civil, possuindo expertise necessária para tal, sendo injustificável a alegação

de desconhecimento da necessidade de atendimento das normas ambientais

federais. Competência constitucional legislativa concorrente. Artigo 24, VI e

VIII, da Constituição da República. Ao não se cercarem de todos os cuidados

na seara ambiental, assumiram as duas primeiras rés o risco do

empreendimento. Restando inadimplentes, devem responder por sua mora,

arcando com a rescisão contratual e a devolução dos valores despendidos

pela autora. Sentença escorreita neste particular. De outra sorte, não houve

(5)

Superior Tribunal de Justiça

pedido de compensação por dano moral, motivo pelo qual o pedido deveria ter sido julgado procedente em sua totalidade. Sucumbência integral em desfavor das rés, ainda que mantido o percentual de verba honorária em 10% (dez por cento) da condenação. Pequeno reparo que se impõe. Entendimento do E. STJ e desta Corte de Justiça acerca do tema. Recurso das rés manifestamente improcedente. Negado seguimento ao apelo das duas primeiras rés e dado parcial provimento ao autoral para afastar a reciprocidade da sucumbência, tudo na forma do artigo 557, caput e seu § 1º-A, do CPC. Ausência de argumento novo que justifique a revisão do julgado. Nego provimento ao recurso.

Embargos de Declaração: interpostos por COSTABELLA EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA E OUTRO, foram rejeitados pelo TJ/RJ (e-STJ fls. 940/943).

Recurso especial: alegam violação dos arts. 265, IV, "b", e 515 do

CPC; 1º, 2º e 12, III, do CDC; 178, 393 e 396 do CC; 5º, II e LIV, e 37, § 6º, da

CF. Sustentam que: (i) o TJ/RJ não enfrentou a alegada inaplicabilidade da

legislação consumerista à controvérsia dos autos; (ii) inexistindo relação de

consumo entre as partes, a "teoria do fortuito interno" não pode ser usada como

base para o reconhecimento da responsabilidade civil das recorrentes; (iii) antes

da celebração dos contratos de promessa de compra e venda dos imóveis em

apreço, a licença ambiental do empreendimento já havia sido concedida pelo

competente órgão ambiental estadual; (iv) a posterior exigência pelo Ministério

Público Federal - mediante o ajuizamento de ação civil pública -, do Estudo de

Impacto Ambiental - EIA e do Relatório de Impacto Ambiental - RIMA não podia

ser prevista pelas recorrentes, ocorrendo, na espécie culpa de terceiro, apta a

excluir a responsabilidade pelo atraso na entrega dos imóveis; (v) a divergência

acerca do órgão competente para o licenciamento ambiental não pode ser

considerado fortuito interno associado ao risco do empreendimento; (vi) tendo em

vista que a ação na qual se discute a regularidade da obra ainda está pendente de

decisão, impõe-se a suspensão do presente processo, até que a existência de culpa

ou não das recorrentes pelo atraso seja esclarecida; (vii) operou-se a decadência

(6)

Superior Tribunal de Justiça

do direito de requerer a anulação do negócio jurídico celebrado.

Exame de admissibilidade: o recurso foi inadmitido na origem pelo TJ/RJ (e-STJ fls. 999/1006).

Agravo: interposto por COSTABELLA EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA E OUTRO, foi provido para determinar sua conversão em recurso especial (e-STJ fl. 1042).

É o relatório.

(7)

Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 1.328.901 - RJ (2012/0028072-3) RELATORA : MINISTRA NANCY ANDRIGHI

RECORRENTE : COSTABELLA EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA E OUTRO

ADVOGADO : MAURA LANNES CARUSO CARVALHO E OUTRO(S) RECORRIDO : H MAX EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA ADVOGADO : ESTER DE FÁTIMA CORTICEIRO

RECORRIDO : MELIÁ BRASIL ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA E COMERCIAL LTDA

ADVOGADO : ALINE GONÇALVES BRAGA elatora: MINISTRA NANCY ANDRIGHI

VOTO

Cinge-se a controvérsia a verificar se as empresas recorrentes devem responder pelo atraso na entrega de duas unidades imobiliárias prometidas à venda à recorrida, ou se houve, na hipótese, exclusão de responsabilidade por caso fortuito, força maior ou culpa de terceiro.

I - Da ofensa a dispositivos constitucionais (arts. 5º, II e LIV, e 37,

§ 6º, da CF)

1. O art. 105, III, da Constituição Federal admite a interposição de recurso especial quando a decisão proferida pelo Tribunal de origem “contrariar tratado ou lei federal, ou negar-lhes vigência”, “julgar válido ato de governo local contestado em face de lei federal” ou “der a lei federal interpretação divergente da que lhe haja atribuído outro tribunal”.

2. Não foi outorgada competência ao STJ para apreciar violação de dispositivo constitucional, matéria esta afeta ao Supremo Tribunal Federal de forma exclusiva, a teor do disposto no art. 102, III, “a”, da CF.

3. Incabível, portanto, a análise da suposta violação dos arts. 5º, II e

LIV, e 37, § 6º, da CF.

(8)

Superior Tribunal de Justiça

II – Da ausência de interesse recursal quanto à aplicação da legislação consumerista (violação dos arts. 515 do CPC, 1º, 2º e 12, III, do CDC).

4. As recorrentes aduzem que o TJ/RJ não enfrentou os argumentos tecidos no recurso de apelação acerca da inaplicabilidade da legislação consumerista à controvérsia dos autos, o que, se acolhido, afastaria a possibilidade de embasar a procedência da ação na “teoria do fortuito interno” (e-STJ fls.

949/954 e 970/973).

5. O recurso especial, no entanto, não merece ser conhecido quanto a esta questão, haja vista que nem o acórdão nem a sentença reconheceram a responsabilidade das recorrentes com fundamento em normas do microssistema jurídico de proteção e defesa do consumidor, nem tampouco consideraram estar a recorrida em situação de hipossuficiência.

6. Assim, falta às recorrentes, no particular, o necessário interesse recursal.

7. Ademais, importa ressaltar que a discussão relativa à caracterização de fortuito interno, o qual não exclui a responsabilidade do autor do dano, constitui matéria atinente à responsabilidade objetiva em geral, não sendo exclusiva das relações regidas pelo Código de Defesa do Consumidor.

III – Da ausência de prequestionamento (violação do art. 265, IV,

“b”, do CPC)

8. Argumentam as recorrentes que o presente processo deve ser

suspenso, pois a ação civil pública na qual se discute a regularidade da obra ainda

está pendente de julgamento. Segundo as recorrentes, sem a decisão final da

Justiça Federal acerca da necessidade ou não de prévia apresentação dos estudos

(9)

Superior Tribunal de Justiça

técnicos ambientais ao IBAMA, não se pode afirmar que houve culpa das promitentes vendedoras no atraso da obra (e-STJ fls. 964/966 e 974/976).

9. Todavia, constata-se que, apesar da interposição de embargos de declaração, a questão referente à necessidade de suspensão do feito não foi objeto de apreciação pelo Tribunal de origem, carecendo o recurso especial, quanto ao ponto, do indispensável prequestionamento.

10. Consoante o enunciado da Súmula 211 do STJ, é “inadmissível o recurso especial quanto à questão que, a despeito da oposição de embargos declaratórios, não foi apreciada pelo tribunal "a quo ".

11. Saliente-se, outrossim, que as recorrentes, no recurso especial, sequer suscitaram eventual negativa de prestação jurisdicional por parte do TJ/RJ, o que torna impossível o afastamento da incidência da Súmula 211/STJ.

IV – Da decadência (Violação do art. 178 do CC)

12. As recorrentes defendem, ainda, que a pretensão da autora está fulminada pela decadência, pois a presente ação somente foi ajuizada quando ultrapassado o prazo de 4 (quatro) anos para a anulação do negócio jurídico eivado de erro essencial.

13. Contudo, da análise da petição inicial (e-STJ fls. 3/31), verifica-se que a demanda da recorrida não se trata de anulação dos contratos de promessa de compra e venda por vício de consentimento, mas sim de rescisão contratual, cumulada com pedido de restituição dos valores pagos e indenização por perdas e danos, devido ao inadimplemento da cláusula que fixou a data limite de entrega dos imóveis.

14. Não se cuida, assim, de pretensão sujeita ao prazo decadencial

previsto no art. 178, II, do Código Civil.

(10)

Superior Tribunal de Justiça

V – Da responsabilidade das promitentes vendedoras pelo atraso na entrega dos imóveis (violação dos arts. 393 e 396 do CC)

15. No que concerne ao mérito do recurso especial, COSTABELLA EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA E OUTRO sustentam que tomaram, antes da celebração dos contratos de promessa de compra e venda das unidades imobiliárias, todas as diligências necessárias para a realização do empreendimento, obtendo a licença ambiental junto ao competente órgão estadual. Aduzem que foram surpreendidas pela postura do Ministério Público, que questionou, junto à Justiça Federal, a não apresentação do Estudo de Impacto Ambiental - EIA e do Relatório de Impacto Ambiental – RIMA ao IBAMA.

Alegam que o atraso na entrega dos imóveis não lhes pode ser imputado, pois o embargo da obra foi determinado por decisão liminar, impossível de ser descumprida. Argumentam que eventual conflito de competência sobre o licenciamento ambiental não pode ser considerado fortuito interno ou risco do empreendimento. Por derradeiro, informam que a decisão liminar de embargo da obra foi posteriormente cassada pelo TRF – 2ª Região, que entendeu ser inoportuna a paralisação sumária do empreendimento.

16. De outro turno, decidiu o acórdão recorrido que, não obstante a coerência das teses de defesa, as recorrentes devem responder pelo atraso na obra, e consequentemente, pela rescisão contratual, pois, ao não se certificarem, quer junto ao IBAMA, quer junto ao parquet federal, acerca da necessidade de elaboração do EIA/RIMA, acabaram por assumir o risco do empreendimento (e-STJ fls. 927/928).

17. Dispõe o art. 393 do Código Civil que "o devedor não responde

pelos prejuízos resultantes de caso fortuito ou força maior, se expressamente não

se houver por eles responsabilizado". E, segundo a definição constante no

(11)

Superior Tribunal de Justiça

parágrafo único de tal dispositivo, "o caso fortuito ou de força maior verifica-se no fato necessário, cujos efeitos não era possível evitar ou impedir".

18. Nesse sentido, para que determinado evento fortuito (como gênero) seja considerado excludente da responsabilidade do devedor pelo inadimplemento ou atraso injustificado no cumprimento da obrigação, faz-se imprescindível que haja a confluência de dois fatores: (i) o evento deve ser necessário , isto é, deve impossibilitar o cumprimento da obrigação e, (ii) o evento precisa ser inevitável , ou seja, a impossibilidade de execução do ajuste deve advir de circunstâncias alheias à vontade do devedor, que não possui meios de evitar ou impedir os seus efeitos (o evento inevitável , portanto, é imprevisível pelo devedor, pois, se fosse previsível, deveria ter sido por ele evitado).

19. À luz de tais conceitos, verifica-se que, na hipótese dos autos, em que pese as alegações no sentido de que obtiveram a licença ambiental do empreendimento junto ao competente órgão estadual, faltou às recorrentes, antes da celebração dos compromissos de compra e venda, a diligência de consultar o órgão federal, o IBAMA, acerca da necessidade de apresentação do Estudo de Impacto Ambiental - EIA e do Relatório de Impacto Ambiental – RIMA.

20. De fato, se a legislação ambiental pode dar margem a interpretações divergentes a respeito da imprescindibilidade dos estudos de impacto ambientais e do órgão competente para a concessão da licença, cabia às recorrentes, grandes empresas no ramo da incorporação imobiliária e construção civil, tomar as cautelas necessárias para o regular licenciamento ambiental do empreendimento, o que uma simples consulta administrativa satisfaria.

21. Como se sabe, o arquipélago de Angra dos Reis constitui região

de notório interesse ambiental, em virtude das áreas de preservação da fauna e

flora lá instaladas, não sendo crível admitir que as recorrentes não pudessem

antever eventual competência federal na regularização de um grande resort a ser

(12)

Superior Tribunal de Justiça

construído no local.

22. Nessa linha de raciocínio, o que está se afirmando é que a necessidade dos estudos de impacto ambiental e o interesse federal na construção do empreendimento poderiam ter sido previstos pelas recorrentes e, consequentemente, o atraso na obra poderia ter sido evitado, caso as empresas recorrentes tivessem tomado as diligências necessárias para a realização de empreendimento de tal porte.

23. Sendo previsível o fato, o requisito de inevitabilidade para a configuração de caso fortuito ou força maior não se caracteriza, restando incólume, dessa forma, a responsabilidade das recorrentes pelo atraso injustificado na entrega dos imóveis, na modalidade culpa por negligência.

24. Significante, neste contexto, é a lição dada por Arnaldo Rizzardo, no sentido de que “apresenta-se como inevitável o evento se aponta uma causa estranha à vontade do obrigado, irresistível e invencível, o que sói acontecer caso não tenha concorrido culposamente o agente. Não agindo precavidamente, desponta a culpa, o que leva a deduzir não ter sido inevitável” (Responsabilidade Civil, 6ª edição, Rio de Janeiro: Forense, 2013, p. 87).

25. Assim, não se vislumbra evento fortuito (do qual são espécies a força maior e o caso fortuito) apto a afastar a responsabilidade das recorrentes pela mora na entrega das unidades.

26. Por outro lado, ainda que se pudesse argumentar sobre a existência de culpa de terceiro na produção do evento danoso (atraso na entrega dos imóveis), o dever das recorrentes de indenizar a autora da presente ação também se manteria.

27. Com efeito, a circunstância de afigurar-se, no desencadeamento

dos fatos, culpa de terceiro, seja este particular ou o próprio Poder Público, não

exime o autor direto do dano do dever jurídico de indenizar, mas tão-somente lhe

assegura, na sistemática do Código Civil, a ação regressiva contra o terceiro que

(13)

Superior Tribunal de Justiça

criou a situação determinante do evento lesivo.

28. Consoante destaca Arnaldo Rizzardo, “na responsabilidade civil domina o princípio da obrigatoriedade do causador direto pela reparação dos danos causados” (Responsabilidade Civil, 6ª edição, Rio de Janeiro: Forense, 2013, p. 87).

29. Portanto, o fato de a ação civil pública na qual se discute a regularidade ambiental do empreendimento não ter sido ainda julgada no mérito, não influencia o resultado da presente demanda, uma vez que as recorrentes, na qualidade de incorporadora e construtora, respondem diretamente perante os adquirentes das unidades autônomas pela execução da incorporação e pela conclusão das obras no prazo acertado.

30. Esta é a disposição constante no art. 43, II, da Lei 4.591/64, a qual criou todo um sistema de proteção dos tomadores das unidades autônomas.

Confira-se, ipsis litteris :

Art. 43. Quando o incorporador contratar a entrega da unidade a prazo e preços certos, determinados ou determináveis, mesmo quando pessoa física, ser-lhe-ão impostas as seguintes normas:

(...)

II - responder civilmente pela execução da incorporação, devendo indenizar os adquirentes ou compromissários, dos prejuízos que a estes advierem do fato de não se concluir a edificação ou de se retardar injustificadamente a conclusão das obras, cabendo-lhe ação regressiva contra o construtor, se for o caso e se a este couber a culpa.

31. Dessa forma, perante a autora da ação, devem as recorrentes responder pelo atraso na entrega das unidades contratadas.

Forte nestas razões, CONHEÇO PARCIALMENTE do recurso

especial e, nesta parte, NEGO-LHE PROVIMENTO.

(14)

Superior Tribunal de Justiça

CERTIDÃO DE JULGAMENTO TERCEIRA TURMA

Número Registro: 2012/0028072-3 PROCESSO ELETRÔNICO REsp 1.328.901 / RJ

Números Origem: 192396220088190209 20082090189544 201113712220

PAUTA: 06/05/2014 JULGADO: 06/05/2014

Relatora

Exma. Sra. Ministra NANCY ANDRIGHI Presidente da Sessão

Exmo. Sr. Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA Subprocurador-Geral da República

Exmo. Sr. Dr. SADY D´ASSUMPÇÃO TORRES FILHO Secretária

Bela. MARIA AUXILIADORA RAMALHO DA ROCHA AUTUAÇÃO

RECORRENTE : COSTABELLA EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA E OUTRO ADVOGADO : MAURA LANNES CARUSO CARVALHO E OUTRO(S)

RECORRIDO : H MAX EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA ADVOGADO : ESTER DE FÁTIMA CORTICEIRO

RECORRIDO : MELIÁ BRASIL ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA E COMERCIAL LTDA ADVOGADO : ALINE GONÇALVES BRAGA

ASSUNTO: DIREITO CIVIL - Coisas - Promessa de Compra e Venda CERTIDÃO

Certifico que a egrégia TERCEIRA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:

A Turma, por unanimidade, negou provimento ao recurso especial, nos termos do voto do(a) Sr(a). Ministro(a) Relator(a).

Os Srs. Ministros Sidnei Beneti, Paulo de Tarso Sanseverino e Ricardo Villas Bôas Cueva (Presidente) votaram com a Sra. Ministra Relatora.

Ausente, justificadamente, o Sr. Ministro João Otávio de Noronha.

Referências

Documentos relacionados