DESPACHO DE PROCESSO C-312/97 Ρ

Texto

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DESPACHO D O TRIBUNAL D E JUSTIÇA (Terceira Secção)

25 de Junho de 1998 *

N o processo C-312/97 P,

Augusto Fichtner, funcionário da Comissão das Comunidades Europeias, repre- sentado por Vincenzo Salvatore, advogado no foro de Pavia (Itália), com domicílio escolhido em Varese, 6, via Orrigoni,

recorrente,

que tem por objecto um pedido de anulação do despacho do Tribunal de Primeira Instância das Comunidades Europeias (Quarta Secção) de 9 de Julho de 1997, Fichtner/Comissão (T-63/96, ColectFP, p. II-563),

sendo recorrida:

Comissão das Comunidades Europeias, representada por Gianluigi Valsesia, con- sultor jurídico principal, na qualidade de agente, assistido por Alberto Dal Ferro, advogado no foro de Vicenza, com domicílio escolhido no Luxemburgo no gabi- nete de Carlos Gómez de la Cruz, membro do Serviço Jurídico, Centre Wagner, Kirchberg,

* Língua do processo: italiano.

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O TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Terceira Secção),

composto por: C. Gulmann, presidente de secção, J. C. Moitinho de Almeida e J.-P. Puissochet (relator), juízes,

advogado-geral: G. Cosmas, secretano: R. Grass,

ouvido o advogado-geral, profere o presente

Despacho

1 Por petição entrada na Secretaria do Tribunal de Justiça em 8 de Setembro de 1997, Augusto Fichtner interpôs recurso do despacho do Tribunal de Primeira Instância de 9 de Julho de 1997, Fichtner/Comissão (T-63/96, ColectFP, p. 11-563, a seguir

«despacho recorrido»), que julgou manifestamente inadmissível o recurso inter- posto pelo recorrente que tinha como objecto, por um lado, a anulação da decisão da Comissão de 12 de Fevereiro de 1996 que indeferiu expressamente a reclamação do recorrente de 14 de Fevereiro de 1995 relativa ao seu relatório de classificação para o período compreendido entre 1 de Julho de 1991 e 30 de Junho de 1993 e, por outro lado, um pedido de indemnização pelos prejuízos materiais e morais pretensamente sofridos pelo recorrente.

2 O enquadramento jurídico do litígio e a matéria de facto que está na origem do presente processo constam do despacho recorrido, nos seguintes termos:

«Enquadramento jurídico

1. O artigo 43.°, primeiro parágrafo, do Estatuto dos Funcionários das Comuni- dades Europeias (a seguir "Estatuto") dispõe:

"A competência, o rendimento e a conduta no serviço de cada funcionário... são objecto de um relatório periódico elaborado, pelo menos, de dois em dois anos, segundo as regras estabelecidas por cada instituição."

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2. A Comissão adoptou em 27 de Julho de 1979 as suas disposições gerais de execução do artigo 43.° do Estatuto (a seguir "disposições de execução").

3. O artigo 6.° das disposições de execução prevê:

" O notador elabora o relatório de classificação e comunica-o ao funcionário... Este tem um prazo de quinze dias úteis para o assinar. Nessa ocasião, pode juntar-lhe todas as observações que entenda úteis e, eventualmente, requerer que o relatório e as observações juntas sejam submetidos ao notador de recurso designado no artigo

7. °»

4. Nos termos do artigo 7.° das disposições de execução:

"Após a tomada de posição do notador de recurso... o relatório de classificação é comunicado (ao funcionário), que dispõe de um prazo de quinze dias úteis para o assinar. Nessa ocasião, pode juntar-lhe todas as observações que entenda úteis e, eventualmente, requerer que o relatório e as observações juntas sejam submetidos ao Comité Paritário de Notação.

Se o funcionário o requerer, o relatório de classificação completo e as observações juntas ao mesmo são enviados ao Comité Paritário de Notação para parecer.

O parecer do Comité Paritario de Notação é comunicado ao funcionario e ao notador de recurso. O notador de recurso encerra o relatório de classificação e notifica-o ao funcionário. A classificação é então considerada definitiva".

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Factos e tramitação processual

5. O recorrente é funcionário de grau B 4 no Centro Comum de Investigação de Ispra, em Itália.

6. O seu relatório de classificação para o período compreendido entre 1 de Julho de 1991 e 30 de Junho de 1993 (a seguir "relatório controvertido") continha apre- ciações negativas. Foi-lhe comunicado pela Comissão em 3 de Agosto de 1994.

7. Em 10 de Agosto de 1994, o recorrente formulou observações que tinham por destinatário o notador de recurso, em conformidade com o artigo 6.° das disposi- ções de execução.

8. Por nota de 16 de Janeiro de 1995, o notador de recurso confirmou a primeira classificação atribuída ao recorrente.

9. Por nota registada em 14 de Fevereiro de 1995, o recorrente apresentou uma reclamação nos termos do artigo 90.° do Estatuto, em que pedia a alteração do relatório controvertido e uma indemnização pelos prejuízos materiais e morais que alegadamente tinha sofrido.

10. Por decisão de 12 de Fevereiro de 1996, notificada ao recorrente em 20 de Fevereiro de 1996, a Comissão indeferiu expressamente a sua reclamação.»

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3 Em 10 de Maio de 1996, Α. Fichtner interpôs recurso para o Tribunal de Primeira Instância, pedindo a anulação da referida decisão e a condenação da Comissão a pagar ao recorrente um montante, a fixar pelo Tribunal, a título de indemnização pelos prejuízos materiais e morais sofridos.

O despacho recorrido

4 N o despacho recorrido, o Tribunal de Primeira Instância julgou o recurso mani- festamente inadmissível, nos termos do artigo 111.° do Regulamento de Processo.

5 Em primeiro lugar, o Tribunal de Primeira Instância recordou que, segundo juris- prudência constante, embora a apresentação de uma reclamação formal não cons- titua uma condição prévia necessária para a interposição do recurso contencioso quando este diga respeito ao relatório de classificação, o funcionário que optar por apresentar uma reclamação administrativa é obrigado a respeitar o conjunto das regras processuais que regem esse processo, e designadamente os prazos previstos nos artigos 90.° e 91.° do Estatuto, que começam a correr a partir do dia em que o relatório de classificação pode ser considerado definitivo (n.os 17 a 19).

6 Em segundo lugar, o Tribunal de Primeira Instância considerou que, uma vez que o recorrente renunciara à faculdade de recorrer ao Comité Paritário de Notação nos termos do procedimento previsto no artigo 7.° das disposições de execução, o relatório controvertido se tornara definitivo ao ser confirmado pelo notador de recurso em 16 de Janeiro de 1995 (n.° 21).

7 Em terceiro lugar, o Tribunal de Primeira Instância recordou que, nos termos do artigo 90.°, n.° 2, do Estatuto, a autoridade investida do poder de nomeação I-4140

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(a seguir «AIPN») dispõe do prazo de quatro meses para decidir sobre a recla- mação de um funcionario e, no termo desse prazo, a falta de resposta da A I P N equivale a decisão tácita de indeferimento, susceptível de recurso nos termos do artigo 91.°, n.° 3, no prazo de três meses a contar do termo do prazo para resposta.

N o presente processo, o Tribunal de Primeira Instância declarou que, uma vez que a Comissão não respondera expressamente no prazo de quatro meses previsto no artigo 90.°, n.°2, à reclamação do recorrente apresentada em 14 de Fevereiro de 1995, a falta de resposta equivalia a uma decisão tácita de indeferimento, que se considera ter ocorrido em 14 de Junho de 1995, e que competia ao recorrente inter- por recurso da referida decisão tácita no prazo de três meses previsto no artigo 91.°, n.° 3, ou seja, o mais tardar até 25 de Setembro de 1995, dilação incluída.

Dado que o interessado apenas apresentou a petição em 10 de Maio de 1996, o recurso era, assim, extemporâneo (n.os 22 e 24).

8 Em quarto lugar, o Tribunal de Primeira Instância observou que, segundo jurispru- dência constante, o não respeito dos prazos previstos no artigo 91.°, n.° 3, do Esta- tuto não obsta à admissibilidade de um recurso quando o recorrente tenha come- tido um erro desculpável, especificando que a noção de erro desculpável deve ser interpretada restritivamente, apenas podendo referir-se a circunstâncias excepcio- nais em que, designadamente, a instituição em causa tenha adoptado um compor- tamento susceptível de, por si só ou de forma decisiva, provocar uma confusão admissível no espírito de uma pessoa de boa fé que actue com toda a diligência exigida a um operador com cuidado normal. N o presente processo, o Tribunal de Primeira Instância concluiu que o recorrente não apresentara qualquer elemento que permitisse concluir que cometera um erro desse tipo (n.os 25 e 26).

9 Por último, o Tribunal de Primeira Instância considerou que, embora a decisão expressa da Comissão, de 12 de Fevereiro de 1996, fosse susceptível de revelar os motivos do indeferimento da reclamação do recorrente, nem por isso deixava de constituir um acto meramente confirmativo da decisão tácita de indeferimento da Comissão. Ora, segundo jurisprudência constante, é inadmissível o pedido de anu- lação de um acto meramente confirmativo (n.° 27).

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10 Consequentemente, o Tribunal julgou o recurso manifestamente inadmissível.

O presente recurso

1 1 N o seu recurso para o Tribunal de Justiça, A. Fichtner pede a anulação do despa- cho impugnado, a remessa do processo ao Tribunal de Primeira Instância e a con- denação da Comissão nas despesas.

12 Em apoio dos seus pedidos alega, a título principal, que o Tribunal de Primeira Instância considerou erradamente que o procedimento administrativo foi encer- rado no termo do prazo de quatro meses após a apresentação da sua reclamação.

N o entender do recorrente, o referido procedimento só foi encerrado com a decisão expressa da Comissão de 12 de Fevereiro de 1996, a qual, tendo em conta os seus próprios termos e o facto de o recorrente ter sido anteriormente convidado a assistir a uma reunião durante a qual foi informado da adopção da mesma deci- são, não pode ser considerada um acto confirmativo. Subsidiariamente, A. Fichtner pede ao Tribunal de Justiça que, nos termos da jurisprudência referida pelo Tribu- nal de Primeira Instância, reconheça o erro desculpável por si cometido.

1 3 A Comissão pede que seja negado provimento ao recurso e que o recorrente seja condenado nas despesas.

14 A Comissão afirma que, como o Tribunal de Primeira Instância decidiu fazendo referência à jurisprudência constante, a decisão expressa de 12 de Fevereiro de 1996 constitui um acto meramente confirmativo que tem como único objectivo fornecer ao interessado esclarecimentos sobre os fundamentos da decisão tácita de indeferi- I - 4142

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mento. Por outro lado, a Comissão considera que o Tribunal de Primeira Instancia observou com razão que o recorrente não apresentara qualquer elemento que per- mitisse concluir que tinha cometido um erro desculpável em matéria de prazo de recurso.

Apreciação do Tribunal de Justiça

15 Nos termos do artigo 119.° do Regulamento de Processo do Tribunal de Justiça, quando o recurso for manifestamente inadmissível ou improcedente, o Tribunal pode, a todo o tempo, rejeitá-lo em despacho fundamentado.

16 Resulta claramente dos termos dos artigos 90.° e 91.° do Estatuto que a falta de resposta da autoridade competente no termo do prazo de quatro meses a seguir à apresentação de uma reclamação equivale a uma decisão tácita de indeferimento, susceptível de recurso contencioso no prazo de três meses a contar da data do termo do prazo da resposta. Foi, portanto, correctamente que, após declarar, no n.° 23 do despacho recorrido, que a falta de resposta da Comissão equivalia a uma decisão tácita de indeferimento, considerada como tendo ocorrido em 14 de Junho de 1995, e salientar que A. Fichtner só apresentou a sua petição em 10 de Maio de 1996, o Tribunal de Primeira Instância decidiu que era extemporâneo o recurso do interessado.

17 Ao contrário do que o recorrente afirma, foi também correctamente que, nos ter- mos da jurisprudência constante do Tribunal de Justiça (v., designadamente, acórdão de 28 de Maio de 1980, Kuhner/Comissão, 33/79 e 75/79, Recueil, p. 1677, n.° 9), o Tribunal de Primeira Instância decidiu que a decisão expressa de indeferi- mento da reclamação, embora susceptível de revelar os motivos do indeferimento, constituíra um acto meramente confirmativo da decisão tácita de indeferimento da Comissão. Essa declaração não é prejudicada pelo facto de a referida decisão expressa referir especificamente que foi adoptada em resposta à reclamação, nem, na falta de qualquer disposição que preveja a interrupção do prazo de quatro meses, pela circunstância de o interessado ter anteriormente sido convidado a assis-

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tir a uma reunião, que foi adiada, e em que foi informado da adopção da referida decisão. Ora, também segundo jurisprudência constante, é inadmissível um recurso que tem por objecto a anulação de um acto confirmativo (v., designadamente, acórdão de 15 de Dezembro de 1988, Irish Cement/Comissão, 166/86 e 220/86, Colect., p. 6473, n.° 16). Assim, o fundamento principal do recurso é manifesta- mente improcedente.

18 N o que respeita à argumentação subsidiária de A. Fichtner, basta observar que o interessado se limita a recordar a jurisprudência referida pelo Tribunal de Primeira Instância relativa às circunstâncias excepcionais que permitem admitir o conceito de erro desculpável. Não adianta qualquer fundamento de direito susceptível de pôr em causa a conclusão do Tribunal de Primeira Instância constante do n.° 26 do despacho impugnado, nos termos da qual o recorrente não apresentou qualquer elemento que permitisse concluir que cometera um erro desse tipo. Assim, o pedido subsidiário é manifestamente inadmissível.

19 Nessas condições, e nos termos do artigo 119.° do Regulamento de Processo, deve ser negado provimento ao recurso.

Quanto às despesas

20 Por força do disposto no n.° 2 do artigo 69.° do Regulamento de Processo, a parte vencida é condenada nas despesas se a parte vencedora o tiver requerido. Embora o artigo 70.° do mesmo regulamento disponha que as despesas efectuadas pelas ins- tituições nos litígios entre as mesmas e os seus agentes ficam a cargo daquelas, a referida disposição não é aplicável, por força do artigo 122.°, aos recursos de deci- sões do Tribunal de Primeira Instância interpostos pelos funcionários ou outros agentes das instituições. Tendo A. Fichtner sido vencido, deve ser condenado nas despesas.

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Pelos fundamentos expostos,

O TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Terceira Secção)

decide:

1) E negado provimento ao recurso.

2) O recorrente é condenado nas despesas.

Proferido no Luxemburgo, em 25 de Junho de 1998.

O secretário R. Grass

O presidente da Terceira Secção C. Gulmann

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Referências

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