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Rev. Bras. Psiquiatr. vol.28 número2

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Academic year: 2018

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Livros

Rev Bras Psiquiatr. 2006;28(2):166-7

Fronteiras da Terapia Cognitiva

Salkovskis PM, editor. São Paulo: Casa do Psicólogo; 2004. 460 p. ISBN 85-7396-380-8

Paul Salkovskis, organizador da obra Fronteiras da Terapia Cognitiva, novamente se mostra um pesquisador, docente e terapeuta de primeira linha. A presente obra demonstra o ex-pressivo impacto do trabalho de Aaron Beck, criador da aborda-gem cognitiva, para a formulação conceitual, pesquisa e prática clínica de transtornos psicológicos e psiquiátricos.

Vários profissionais de renome ofereceram seus conhecimentos especializados, discutindo em profundidade questões conceituais, metodológicas e técnicas da terapia cognitiva, demonstrando, em panorâmica, o amplo alcance do pensamento de Beck para a prática terapêutica. Jovens pesquisadores e terapeutas em forma-ção certamente se beneficiarão com esta leitura.

Ao mesmo tempo, Beck, nesta obra, foi convidado a apresentar e discutir, de maneira sistemática, as mais recentes transforma-ções conceituais da abordagem que criou: o leitor entrará em contato com a noção de “modos” e o conceito de “cargas”, carac-terizando a abordagem cognitiva como uma teoria em andamen-to. Beck didaticamente reviu os conceitos originais e propôs os acréscimos que julgou necessários, em compasso com as contin-gências reguladoras das formulações teóricas. Para ele, os novos conceitos auxiliam na compreensão de fenômenos complexos.

Em termos gerais, poucos autores dos demais capítulos tece-ram seus comentários a partir das reformulações conceituais que Beck julgou essenciais. Teasdale foi uma das exceções: no Capítulo 2, assimilou as transformações de Beck, formulou o conceito de Subsistemas Cognitivos Integrativos (SCI) e estabele-ceu um paralelo com o conceito de “modos”. Parece cedo de-mais para se proceder à avaliação do impacto dos novos concei-tos sobre a prática dos outros pesquisadores e clínicos na abor-dagem cognitiva e talvez haja um intervalo de tempo entre a

elaboração de um conceito e sua disseminação entre a comuni-dade. Uma explicação alternativa é de que a teoria não precisa-ria destes acréscimos para responder às demandas clínicas, sob a ótica de seus praticantes.

No Capítulo 4, Clark e Steer avaliam, com rigor e didatismo, as pesquisas disponíveis acerca de validação dos conceitos básicos; evidências favoráveis ao cognitivismo recebem igual atenção que dúvidas e aspectos a esclarecer. Por outro lado, o capitulo de auto-res auto-respeitados como Weissenburger e Rush decepciona o leitor: discutem a interface mente e cérebro (ou biologia e cognições) com base em pesquisas realizadas apenas até 1993. O intervalo de tempo entre os dados por eles discutidos e a publicação deste capí-tulo prejudicou sensivelmente a análise realizada.

Há capítulos de extremo valor para a formação de terapeutas, independentemente de serem cognitivos, comportamentais ou de outra abordagem: neles, são detalhadamente apresentadas intervenções clínicas, ensinam-se habilidades do terapeuta (empatia, por exemplo) e diversos problemas clínicos recebem formulações bem estruturadas (tanto em termos de suas variá-veis de controle, como das condutas terapêuticas). Nesta cate-goria, destacam-se (além das contribuições de Salkovskis) os trabalhos de Burns e Auerbach, o capítulo de Padesky, Clark e David, o texto de Chambless e Hope, o de Vitousek, além do capítulo de autoria de Liese e Franz.

Uma questão epistemológica que permaneceu praticamente sem discussão, mas cujos sinais transparecem em vários capítu-los, é o estabelecimento de fronteiras e a avaliação da compati-bilidade entre o cognitivismo e as abordagens freudiana (ocasio-nalmente mencionada por outrora estudiosos desta forma de entender o homem) e a comportamental (há quem se apresente como cognitivo, enquanto outros autores não hesitam em escre-ver seus capítulos com base no que denominam terapia comportamental-cognitiva). Não há respostas prontas e consensuais para esta discussão complexa, de natureza filosófi-ca, conceitual, metodológica e tecnológica. Apenas destaco que, nesta obra de terapia cognitiva, há certamente influência de outras correntes de pensamento, o que pode, ou não, ter ocorri-do de maneira consciente e planejada.

Por fim, três pequenos inconvenientes da edição brasileira: o capítulo 18 (de Sbrocco e Barlow) foi prejudicado por receber uma tradução de qualidade bastante inferior à dos demais capí-tulos (a página 382 nos oferece uma amostra do problema), com tradução linear das construções típicas da língua inglesa. Em outro capítulo, dois cochilos de revisão: “sesejos” (p. 412) e “ourecaída” (p. 413). Por fim, julgo inaceitável que o manuseio cuidadoso da obra, pela autora da resenha, já tenha produzido folhas soltas da lombada...

Salkovskis merece a gratidão de toda a comunidade pelo seu senso de justiça e generosidade para com Beck, pela riqueza dos próprios escritos e pelos acertos na escolha dos temas e autores dos capítulos. Beck e a terapia cognitiva foram realmen-te apresentados com uma vitalidade que cativa o leitor, seja esrealmen-te um principiante ou experiente profissional.

Regina Christina Wielenska

Doutora em Psicologia Experimental, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo (SP), Brasil

Referências

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