PRODUÇÃO LEXICAL PARA UM GLOSSÁRIO TERMINOLÓGICO BILINGUE: LIBRAS E LÍNGUA PORTUGUESA.

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PRODUÇÃO LEXICAL PARA UM GLOSSÁRIO TERMINOLÓGICO BILINGUE: LIBRAS E LÍNGUA

PORTUGUESA.

Vera Lúcia de Souza e Lima

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Maria Cândida Trindade Costa de Seabra (orientadora)

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Em consonância com o item “Estudos do léxico e oferecimento de recursos em Libras:

desafios e perspectivas” este trabalho trata da compreensão de que um dos motivos da ausência do jovem surdo brasileiro nos cursos superiores relacionam-se à barreira lingüística e à escassez do léxico terminológico, em língua de sinais, nas áreas científica e tecnológica. Portanto este trabalho trata da construção do Léxico apoiando-se em estudos da Lexicologia e da Terminologia e origina-se em ações desenvolvidas no projeto de pesquisa “Construção de um Glossário Técnico de termos do Projeto Arquitetônico em Libras”.

É possível encontrar em alguns autores a preocupação com os conceitos a apreensão dos científicos pelos surdos em disciplinas de biologia, física e química, mas ainda desconhecemos a existência de um dicionário terminológico nestas áreas. Por exemplo, a dissertação de Marinho (2007) registra a escassez de termos científicos em Libras e analisa as dificuldades vivenciadas por estudantes surdos, de nível médio, e seus intérpretes nas aulas de biológica. Segundo Carvalho e Marinho (2010) no que diz respeito ao ensino de Biologia e Física A ausência de termos específicos em Libras dificulta o acesso ao conteúdo, cabendo ao intérprete a difícil tarefa de traduzir os conceitos explicados em português pelo professor ouvinte..

A preocupação doa autores supracitados com a conceituação terminológica em Libras nos faz supor que esteja latente a idéia da produção de obras lexicográficas a partir de termos criados em salas de aulas, do nível de ensino médio, no Brasil. Portanto, pode- se prever uma futura produção de dicionários ou glossários terminológicos bilíngües em espaços de tempo cada vez menores entre as publicações.

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Professora do Departamento de Engenharia Civil do CEFET-MG Doutoranda em Linguistica Aplicada.

FALE-UFMG. veralima@civil.cefetmg.br

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Professora da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – Programa de

Pós-Graduação em Estudos Linguísticos candidaseabra@gmail.com

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Observando-se a linha de tempo a produção lexicográfica bilíngüe Língua Portuguesa e Libras, no Brasil, é notável a existência de um grande espaço de tempo entre a produção das principais obras lexicográficas em língua de sinais brasileira. Temos a obra de Flausino José da Costa Gama, considerada a primeira obra lexicográfica em Língua de Sinais Brasileira, denominada “Iconographia dos Signaes dos Surdos-Mudos, de 1875”;

a segunda obra é a do “Linguagem das mãos”, que teve sua primeira edição em 1969, elaborada pelo missionário americano da Congregação Redentorista Padre Eugênio Oates. Mais recentemente foram produzidos dois dicionários, de língua geral, o Dicionário digital da Língua Brasileira de Sinais, editado pelo Instituto Nacional de Educação de Surdos, INES, desde 2005 e, o Dicionário enciclopédico ilustrado trilíngue: Língua Brasileira de Sinais (Capovilla e Raphael, 2001), o primeiro bilíngüe e o segundo inclui uma tradução para a Língua Inglesa em modalidade oral. Cabe registrar que os dicionários acima citados são da tipologia de língua geral, pois não existem, ainda, em Libras, dicionários especializados seja para área ciências, tecnologia ou cultura.

De maneira geral, existem mais estudos teóricos a respeito de obras terminológicas, bilingues, quando se tem duas línguas orais em um mesmo dicionário e tais estudos mostram que as questões relacionadas à equivalência lingüística, fazem dos dicionários ou glossários bilíngües obras complexas. Haensch e Omeñaca (2004, p. 246) apud Silva (2008), observam que “a tarefa lexicográfica bilíngüe é difícil e até ingrata já que se trata de dar equivalentes de unidades léxicas de uma língua (dita língua de partida) em outra língua (dita língua de destino / chegada)”. Os autores afirmam que “para encontrar esses equivalentes faz-se necessário confrontar dois sistemas lingüísticos cujas estruturas léxicas não se correspondem e que possuem como contexto civilizações diferentes e, portanto, possuidoras de diferentes percepções da realidade40

A equivalência, questão que se relaciona diretamente à caracterização da tipologia dicionário bilíngüe, no caso de dicionários ou glossários bilíngües quando colocadas em contato são línguas de modalidade diferentes têm uma equivalência mais complexa.

Dentre os autores da área de Libras que abordam este tema, escolhemos o ponto de vista

de Segala (2010), autor surdo, que trata da tradução e do problema da equivalência

lingüística entre línguas orais-auditivas, e línguas de sinais e refere-se à tradução entre

línguas de modalidades diferentes como no caso da Língua Portuguesa e da Libras

como tradução intermodal e intersemiótica/interlingual. Segalla (2010) realizou sua

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pesquisa analisando o material didático utilizado no programa de ensino a distancia que dava suporte ao curso de Bacharelado e Licenciatura Letras Libras da Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC.

Cabe registrar, que segundo DINIZ, Thaïs. F. N. (2001) a expressão “tradução intersemiótica” foi cunhada por Roman Jakobson em 1959 para conceituar a

“transmutação,” ou “interpretação de signos verbais por meio de signos não verbais” e, que tal expressão se contrasta com “tradução intralingual” e “tradução interlingual”, a expressão “.

O projeto de pesquisa “Construção de um Glossário Técnico de termos do Projeto Arquitetônico em Libras” foi criado com a intenção de promover o ensino e a aprendizagem profissional do estudante surdo, portanto cabe ressaltar que, segundo Kilian et al (2012)

Raramente, produtos terminográficos são criados a partir do perfil e das necessidades dos aprendizes de uma área de especialidade em determinada situação comunicativa, ou seja, para um público constituído por aqueles que ainda se encontram em um período de formação, seja ela técnica ou acadêmica .

Formação de Sinais/Palavras em Libras

A partir da constatação da não existência, em Libras, da maioria dos termos técnicos da área do Desenho Arquitetônico, procedeu-se um processo metodológico objetivando promover a criação dos sinais que são palavras em Libras.

Em primeiro lugar os informantes precisavam compreender o conceito em Libras e em Português para posteriormente criar o sinal. A criação dos sinais acontecia a partir de ampla discussão, intermediada pelo intérprete, entre os informantes surdos juntamente com as especialistas da área. Estima-se que após a oficialização da Libras como língua, no Brasil, a mesma passará por grande produtividade. Assim, Felipe (2006, pg. 201), parte da concepção de que “o sinal, nas línguas gestual-visuais, corresponderia ao que vem sendo chamado, nas línguas oral-auditivas, de palavra, ou seja, item lexical e mostra como ocorrem os processos de formação de sinais na Libras”

Mudanças ou variações lingüísticas são uma constante em toda e qualquer língua, já que

nenhuma língua existe em isolamento por si mesmo. Assim, não é possível estudá-las

como algo inerte ou paralisado. Essas variações e/ou mudanças ocorrem, especialmente,

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pela interação entre os usuários de uma mesma língua ou de outras línguas. Um dos resultados de tais alterações ou modificações são os empréstimos lingüísticos. Segundo Higa (1973), baseando-se em Weinreich (1953), a aquisição de novas unidades lexicais se dá pela necessidade prática de nomear algo novo que está entrando em sua cultura/vocabulário/léxico e que já existe em outra.

Trataremos aqui, como exemplo, a questão do empréstimo lingüístico. Carvalho determina:

[...] o mundo, as ciências, as técnicas e os costumes evoluem rapidamente; há urgência de nomear as novidades. Não se pode aguardar resultados de estudos prolongados e, na maioria das vezes, as normas apenas consagram nomes já em uso. (Carvalho, 2002, p.

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Além dessa primeira classificação, é importante citar ainda outra classificação dos empréstimos, ainda segundo Carvalho:

[...]o termo empréstimo designa uma palavra estrangeira adotada pela língua, empréstimo externo, mas também pode ser usado para designar um termo de linguagem especial ou técnica que passou para o uso geral, empréstimo interno. (Carvalho, 1983, p.

44) [grifo é nosso]

Dubuc também cita essa distinção:

[...] o empréstimo é um fenômeno através do qual se transfere uma unidade léxica de um sistema ou de um subsistema linguístico a outro. Existem dois tipos de empréstimos:

o empréstimo externo, extraído de um sistema linguístico estrangeiro e o empréstimo interno, extraído de subsistemas diferentes dentro do sistema lingüístico em questão.

(Dubuc, 1999, p. 150-1)

Todas as afirmações linguísticas acima relembradas fazem parte da estrutura construtiva

das línguas orais, mas também são perceptíveis nas línguas espaço-visuais, como é o

caso da Língua Brasileira de Sinais. Portanto, para Carvalho e Marinho (2010) a criação

de novos sinais, em Libras, pode ocorrer de três modos: (i) por meio de empréstimos da

língua portuguesa, (ii) por expansão semântica de um item lexical já existente na Libras,

ou (iii) pela formação de um novo lexema a partir de processos morfológicos. A

compreensão dos fenômenos envolvidos na criação de sinais e do contexto em que isso

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ocorre tem implicações pedagógicas relevantes para o ensino das disciplinas ao aluno surdo.

Podemos perceber o surgimento de empréstimos de característica externa bem como empréstimos de característica interna na Libras. Tomaremos como exemplo a construção da lexia Engenharia de Produção. Temos já dicionarizada a lexia Engenharia. Veja:

Essa lexia já faz parte do vocabulário geral ou comum dos surdos usuários da Libras.

Porém, com o advento dos surdos no círculo acadêmico surge a necessidade de incorporar a esse vocabulário geral lexias terminológicas, como, por exemplo, a nomeação de cursos superiores ou técnicos específicos. Tivemos essa experiência de, no grupo trabalhado, produzir sinais referentes a esse tipo de lexia. É o caso da lexia Engenharia de Produção, que foi assim descrita:

Nesse caso, mantiveram-se do sinal já dicionarizado parâmetros como o movimento, a direcionalidade e o ponto de articulação, o que reflete característica do empréstimo interno; pois, a criação do sinal Engenharia de Produção acompanha características do sinal Engenharia. Mas, as mudanças refletem também o empréstimo externo_ oriundo da língua portuguesa. A Libras se apropriou da língua portuguesa ao definir como parte do neologismo a letra P (referente à inicial do tipo específico da engenharia em questão) para determinar o hipônimo

Concluindo, a fonologia das línguas orais auditivas trata da combinação dos sons para

formação de palavras, já a fonologia das línguas de sinais tratam de como os gestos

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são organizados para formar os sinais que são as palavras nas línguas de sinais.

Portanto, afirmamos com Quadros e Karnop (2004) que a língua de sinais brasileira apresenta amplas possibilidades de estudo nas áreas da fonologia e da morfologia, mas que as pesquisa nestas áreas ainda são escassas especialmente no que se refere à Libras.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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