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Ciênc. saúde coletiva vol.15 número2

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Academic year: 2018

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logia da saúde da criança no país. Como enfati-zam Moreira e Goldani, os pediatras deverão ser formados para dar conta de um cuidado amplia-do visanamplia-do à prevenção e tratamento das amplia- doen-ças infantis e também das doendoen-ças do adulto. Isso porque as doenças crônicas não transmissíveis dos adultos se originam na infância, e o melhor controle das doenças ditas “infantis”, como as diarréias, infecções respiratórias e as preveníveis por vacinas, favorece o aparecimento nas crian-ças de doencrian-ças cada vez mais semelhantes às dos adultos. Moreira e Goldani lembram que estudos atuais demonstram que algumas doenças crôni-cas do adulto têm origem em alterações do cresci-mento ainda na fase fetal, com repercussões mais tardias, ao longo da infância até a vida adulta.É urgente o preparo dos pediatras para o que Mo-reira e Goldani chamam de “nova pediatria”, o campo de cuidado da saúde de um ser em cresci-mento e desenvolvicresci-mento para garantir preven-ção e tratamento para injúrias ao longo da vida, buscando garantir a manutenção e até o prolon-gamento da expectativa de vida conquistada ao longo das últimas décadas. Assim será possível resgatar a importância da pediatria e a valoriza-ção profissional dos pediatras, recuperando o interesse dos médicos recém-formados pela es-pecialidade e garantindo atendimento de quali-dade para as crianças em nosso meio.

Referências

Brasil. Lei nº 6.932 de 7 de julho de 1981. [acessado 2009 dez 29]. Disponível em: http://www3.dataprev. gov.br/SISLEX/paginas/42/1981/6932.htm Brasil. Lei nº 11.129 de 30 de junho de 2005. [aces-sad o 2009 d ez 29] . Disp on ível em : h ttp s:/ / www. defesa.gov.br/sau de/L11129.pdf

Brasil. Lei n º 11.381 de 1º de dezem bro de 2006. [ acessad o 2009 d ez 29] . D isp o n ível em : h t t p :/ / www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/ Lei/L11381.htm

Sociedade Brasileira de Pediatria. [acessado 2009 dez 29]. Dispon ível em http://www.sbp.com .br Sociedade de Pediatria de São Paulo. [acessado 2009 d ez 29] . Disp on ível em : h ttp :/ / www.sp sp .or g.br / spsp_2008/in dex.asp

Brasil. Portaria interm inisterial nº 1.001, de 22 de outubro de 2009. [acessado 2009 dez 29]. Disponí-vel em : h ttp:/ / www.in .gov.br/ im p ren sa/ visu aliza/ in dex.jsp?data= 23/ 10/ 2009&jorn al= 1&pagin a= 9& totalArquivos=184

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A visibilidade da criança ao longo da história

The visibility of the child throughout history

Antonio de Azevedo Barros Filho 4

A visibilidade das crianças no mundo adulto, ou melhor, a falta de visibilidade dela não é atual e a história tem nos mostrado esta realidade. Os re-cém-nascidos no mundo romano só eram rece-bidos por decisão do chefe de família. Caso não fossem aceitos (ou seja, tolerados), eram enjeita-dos e abandonaenjeita-dos ou diante da casa ou em al-gum lugar público. Se tivessem sorte, alguém os recolheria ou eram deixados a morte1.

Impressionado com o número de bebês en-contrados no rio Tibre, o papa Inocêncio III criou o Hospital de Santa Maria in Saxia (1201-1204) com o objetivo de acolher as crianças abandona-das e prover-lhes cuidados2.

Ao chegarem ao Brasil, os portugueses fica-ram impressionados com a higiene dos indíge-nas e principalmente com o cuidado que dispen-savam às crianças. Além de serem amamentados pelas mães, as crianças eram transportadas em tecidos pendurados no pescoço (tipóia). Esse era um comportamento abandonado pelos portu-gueses que tran sferiam a am am en tação para amas e com frequência abandonavam as ças. Prática muito comum era se usarem crian-ças e adolescentes como grumetes ou pagens3,4.

Com estas condições extremamente precárias, o destino dessas crianças era bem tenebroso.

Essas são algumas situações pinçadas para ilustrar como a criança era vista através da his-tória. A prática do infanticídio foi sempre co-mum entre diferentes culturas (embora houves-se exceções), assim como o uso de crianças em alianças comerciais ou políticas, por meio de com-prom issos de casam en to en tre fam ílias, logo após o nascimento e às vezes até antes das crian-ças nascerem.

A criança é o pai do adulto, como propõem Moreira e Goldani? Ou um adulto em miniatu-ra? Na verdade, na cultura ocidental, a criança era pensada como um adulto imperfeito5.

4 Departamento de Pediatria, Universidade Estadual de

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A partir do Renascimento e mais acentuada-mente com o advento do Iluminismo, foi-se de-senvolvendo uma visão da criança e se discutin-do meios de criá-las visandiscutin-do a sua conservação. Com Erasmo (De Pueris), John Locke (Pensami-entos sobre la Educacion) e Jean-Jacques Rous-seau (Em ilio), começou-se a discutir a impor-tância da atenção à criança para que ela se desen-volvesse de maneira mais saudável e com forma-ção mais sólida. Com o advento da revoluforma-ção industrial, mudou o papel da família e passou-se a valorizar a mulher como enfermeira, como cui-dadora e como amante, e a criança como res-ponsabilidade do pai. No início do século XIX, surgiram os primeiros hospitais para tratar cri-anças. Aos poucos, a pediatria começou a se de-senvolver, e se iniciam investigações sobre a fisio-logia da criança.

Os resultados estão aí. Várias doenças que acometiam as crianças desapareceram ou estão sob controle. A mortalidade infantil caiu drasti-camente ou vem caindo em pratidrasti-camente todas as partes do mundo. A prevalência de desnutri-ção caiu e hoje já existem mais pessoas sobrepe-sadas do que desnutridas. No entanto, parece que, ao se controlar um problema, outros apa-recem. Estamos enfrentando uma epidemia de obesidade e as doenças infecciosas comuns estão sendo substituídas pelas alérgicas.

Embora hoje protegida por lei, significa que a criança esteja sendo adequadamente valoriza-da ou entendivaloriza-da? O que se vê atualmente é que as pessoas não têm paciência com as crianças. Hoje, as crianças e os adolescentes são considerados hiperativos, ansiosos, deprimidos, com distúr-bios de comportamento, com dificuldades esco-lares e, para isto, são excessivamente medicaliza-dos. Não seriam estas, na verdade, reações sau-dáveis a um mundo definido exclusivamente no interesse do adulto? Justifica-se quantidade de medicamentos correspondentes a cada “proble-ma” que estão sendo prescritos para eles ?

Com a atividade de atendimento a crianças e adolescentes com obesidade, tenho comentado com colegas que o crescimento deste problema entre eles é uma manifestação clínica de uma for-ma de abandono.

Em um mundo regido pelo adulto (e não es-tou aqui sugerindo que seja regido pelas crianças, mas que o adulto as considere em suas especifici-dades), este se coloca em primeiro lugar, com os mais diferentes argumentos e cuidando da crian-ça no tempo (pouco) disponível ou pagando al-guém para cuidar dela (o que alguns vêm cha-mando de terceirização do cuidado à infância6).

Assim não se ensina a criança a comer. É mais fácil colocá-la para receber a alim entação em mamadeira e deixada presa em um chiqueirinho em frente à televisão. Estabelece-se, assim, uma situação de sedentarismo, hiperalimentação e ex-cesso de informação, com frequência inapropria-da. Vêem-se hoje crianças com sete ou oito anos de idade que ainda chupam chupeta, tom am mamadeira e se alimentam com comidas que der-retem na boca. Isso traz outros problemas: alte-rações da arcada dentária, constipação intestinal, obesidade e carência de micronutrientes.

Negligenciada dessa forma, não deve causar surpresa uma adolescência com envolvimento com drogas e alcoolismo e inclusive violência.

A criança pode ser o pai do adulto nas pers-pectivas da biologia humana, do desenvolvimento em suas diferentes facetas, mas não tem sido nas perspectivas histórica e social. Isso se reflete nas decisões políticas sociais e até de políticas cientí-ficas. Reflete inclusive na valorização dos profis-sionais que se encarregam delas como os profes-sores do ensino fundamental ou pediatras, por exemplo. Apesar das mudanças que ocorreram na sociedade nos últimos 150 anos, a criança ain-da é vista de forma marginal. Quais serão as con-sequências? Teremos que pagar para ver. Ou não.

Referências

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pé-rio Rom ano ao ano m il. São Paulo: Schwarcz Ltda.;

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Marcilio ML. A roda dos expostos e a criança aban-donada na História do Brasil. 1726-1950. In: Freitas MC, organizador. História Social da Infância no

Bra-sil. São Paulo: Cortez; 1997. p. 51-76.

Rocha JM. Introdução à história da puericultura e

pediatria no Brasil. Rio de Janeiro: Edições Nestlé;

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H eywood C. A H istory of Childhood. Cam bridge: Polity Press; 2001. p. 2.

Martins FJ. A criança terceirizada. Campinas: Papi-rus; 2008.

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Referências

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