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Rev. Bras. Enferm. vol.38 número2

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PA LESTR A

E N FE R ME I ROS DE H OSP I TA I S DE E NS I NO - CONTR I BU i ÇÃO AO DE BATE

Maria I vete R i beiro de Ol iveira 1

OLIEIRA , M.I.R. Enfermeros de hospitais de ensino -co ntribuição ao debate. R ev. Bras. En. . Bras1ia, 38 ( 2) : 204-2 07 , abr./j u n . 1 9 8 5 .

o Encontro Nacional de Enfeneiros de Hospitais de Ensino inscreve-se , hoje, no calendário cientí­

ico da enfenagem brasileira como um evento dos mais importantes .

.

Isto se deve , certamente , ao crescente nteresse pelo debate sobre o papel dessas instituições, no

amplo contexto do sistema de prestação de seviços de saúde no país. Por outro lado, ninguém inora o

estado de crise a que chegou a maioria dos hospitais universitários, muitos dos quais obigados a cessar,

temporaiamente, suas atividades ou a diÚnul-las sensivelmente , em virtude da mais absoluta falta de

recursos inanceiros para manter o seu funcionamento, a custos cada vez mais crescentes.

Tudo isto indica não apenas a falta de pioidade de políticas govenamentais que fortaleçam o

desenvolvimento social e, dentro destas, do setor saúde e da educação, mas também, a necessidade de

que sejam feitas profundas reformulações na própia tlosoÍa da educação e fomação de proissionais de

saúde e do papel dos hospitais de ensino como núcleo pincipal do aprendizado das práticas de atendi­

mento à saúde .

Assim, as discussões que este Encontro, certamente, ensejará sobre os problemas mais atinentes à

enfenagem nos hospitais de ensino, deve patir, sem dúvida, do exame das inalidades dessas nstitui­

ções, das iiculdades que ora ivenciam e das tendências para integrá-las como recurso altamente espe­

cializado, no atendimento à saúde às comunidades em que estão inseidos.

PreiÚnamente é importante lembrar as oigens dessas instituições.

Durnte a primeira metade deste século, o progresso da meicna, na área biológica, junto com a

prática desenvolvida nos estabelecimentos de ensino mis destacados, deu origem à crença, quase univer­

sal, de que o hospital é o l,ugar ideal para o aprendizado das práticas de saúde .

Nessas instituições de maiores recursos e prestíio se consolidou a utilização do chamado "hospital

de ensino " ou "hospital universitário".

No Brasil, esses estabelecimentos foram criados a partir dos anos 40. Seguindo o exemplo do Hos­

pital de Cl ínicas de São Paulo, da Faculdade de Medicina da USP, o ideal para s

Faculdades de Medicina

era

pode

r

deixar as San tas Casas de isericórdia e desenvolver seus programas num Hospital de Clínicas , g

ran

de e

bem equipado, um centro de referência nacionl ou reionl, especilizado no tratamento

de

enferidades mais raras e mais complicadas, devendo para isto contar com recursos avançados de diag­

nóstico e tratamento , inevitavelmente de lto custo e compleidade .

Esse modelo de instituição vinculou-se , neste país, ao sistema educacionl e , na maioia das vezes,

divorciado das necessidades de saúde ds comunidades, criando um c írculo vicioso , no qual , o sistema

educacional se encontra , principlmente , diigido para satisfazer as exigências do próprio funcionamento

dessa complexa

instituição.

Idealizado portanto, para servir s

inidades do ensino e da pesquisa clíica, os hospitais de clíni­

cas organizaram-se , principalmente , para satisfazer a esses dois objetivos . A seleção de pacientes, números

de leitos da instituição, sa distribuição e agrupamento fortaleciam esse desiderato . Por isto mesmo, esses

1 Professor Adjunto da Universidade Federal da B hia.

(2)

hospitais adquiriram uma estrutura muito especial , com centros de poder administrativo e especi alizado. Este , concentrado nos professores catedráticos e, depois , nos chefes

de

Departamento, ou de Seriços chegam ou chegavam a manter unidades com organização própria e, por vezes, independentes e inancei­ ramente autônomas. Isto acarre ta ou, acarretava , uma série de conlitos na organização, sempre mediadas pelo Conselho Deliberativo do Hospitl.

Ao ensejo da reforma uiversitária, ocorrida ao inal dos anos

60,

com a reestruturação das univer­ sidades, mos trou-se oportuno rever a situação dessas instituições . Na Universidade Federal da Baúa . por exemplo, constituiu-se uma comissão especial para estudar o Hospital das Clínicas . Em diferentes Univer­ sidades do país , idênticas providências foram tomadas.

De imediato icaram evidenciadas as diiculdades para manutenção dessas instituições altamente especializadas mas distanciadas do sistema de prestação dos seviços de saúde da comunidade .

A limi tação de recursos fmanceiros, até então provenie ntes exclusivamente do MEC - para susten-. tar tão complexa instituição a custos cada vez mais crescen tes - , mostrava, claramente , a inviabilidade de manter-se o esquema organizacionl que dera origem a esses estabelecimentos .

Buscou-se , em algumas instâncias, transformá-los em Fundações com autonoia adinistrativa e orçamentária inanceira, inclusive para atendimento à clientela particular . Noutros casos, as soluções foram mais modestas . Mantido o vínculo com as Faculdades de Medicina, buscou-se o estabelecimento de convênios com a Previdência Social . Tentou-se , em outras situações , concomitante à diversiicação da captação de recursos de outras fon tes além do MEC, encontrar novos modelos organizacionais, já agora, levando-se em con ta s inlidades não apenas do e nsino e da pesquisa, mas da assistência: Assim, a sele­ ção de pacientes e se u agrupamento deveria obedecer às nece ssidades do ensino , bem como da assistên­ cia. Tentou-se , em lgumas dessas instituições, o Sistema de Cuidado Progressivo . Abriu-se oportunidade para a participação de outras unidades de ensino, além da medicina, no órgão deliberativo do hospital . Tais medidas , porém, não se mostraram suicientes para permitir a manutenção dos ideais de organização dos anos

40.

Como principal pressão para mudanças dos objetivos desses hospitais e de sua própria refor­ mulação, está o crescimento do lunado, não apenas do curso de graduação em Medicina , mas os de Enfermgem, Nutrição, lém das residências médicas e dos cursos de pós-graduação . T�dos pressionando por mais espaço e ampiação das facilidades do hospital .

Por outro lado , a s limitações d e recursos inanceiros vêm tomando inviável a tão desejada amplia­ ção de suas instalações, agora para servir também como recurso de mior complexidade de um sistema úerarqizado de saúde .

Essencialmente centrado em doenças e nas ações, que visam, sobretudo, o diagnóstico e tratamento de enfermidades agudas e complicadas, ou para o tratamento hospitlar de pacientes que requerem um cidado especiali zado, como cirurias de grande porte ou de terapia intensiva, os hospitais de ensino , neste país , vivem uma fase d e transição na redeinição d e seus papéis .

É

cresc

ent

e

a crença

de que ,

dessa

complexa e custosa nsti tuição, devem ser excluídos o tratamento de doenças crônicas, as cirurias

de

menor porte ou

tratamentos que poderiam ser, perfeitamente , efe tuados e

m unidades mis simples

e mesmo nos ambulatórios,

consultórios

ou até a

domicio.

Tl

liitação também

se relete

na

u

t

ili

zação

desse ambiente para o aprendizado de

práticas

méicas básicas ou de enfermagem que

podem.

perfeita­ mente , ocorrer, com maior proveito, para os

alunos ,

em ambientes menos

soisticados.

Muitos educado­

res

e

plane

j

adores

da saúde

acreditam mesmo

que a permanência de

alunos de cursos

de

graduação.

das várias proissões de saúde - sobre tudo de Medicina e E n fermage m , deverá se r uma medida e xcepci onal . Esses

hospitais

devem servir, p

rinc

i

palm

ente,

aos alunos da pós-graduação ou dos últimos anos

da

gradua­

ção . ssim, ao

con siderar como correto tl posicionamento . carecerá . também,

de fundamento a prática tradicional de e

stabelec

e

r

critérios de utilização dos recursos

ho

spi

t

alares mínimos sobre

a

b

ase

de rela­

ção entre o número

de leitos e

de

alunos. FE RREIRA

1

acre dita

que a

única

forma

de

deinir-se

o tama­

nho adequado

de um hospital é de

te

n

i

n

ar

a demanda concreta dos serviços

de saúde .

Sem

vi

d

as

. é

necessário ressaltar a p reocupação

pela

manutenção do

padrão de

assistência. sempre tomando como

re'­ f�rê

nc

i

a

o d

e

se

n

vol

vi

m

e

n

t

o cientíico e tecnológico . Assim, importa, também, que tais

instituições desenvolvam a especialização ,

realizem investigações cl ínicas. formem pessoal docente

e s

i

r

vam

também

de apoio técnico para outras u

n

i

dad

es

da rede p rimá

ria

. ou mesmo secundária,

que também participam

da docência

universitái a .

(3)

Se guramente , tais

m

udanças não se processar

ã

o como um passe de mágica .

res

i

st

ê

nc

i

as a vencer, sobretudo dos docentes que , pelo prest ígio da instituição ou pela comodidade de seus se viços, pre ferem concen trar suas atiidades didáticas nesses ambientes , pela forte tradição que esses hospitais e xe rcem. Doutra parte , a tão desejada integração com outros se rviços de saúde da comunidade ainda não se tem mostrado satisf

a

tória.

Mas , en

q

ua

t

o o debate con tinua sobre a crise ou a fase em transição desses hospitais, inclusive

quanto à sua absorção pelo Ministéio da Saúde , cumpre, de nossa parte . examinar, dentro dessa imensa ga

ma

de problem

a

s, aqueles atinentes à prática da en

fe

r

m

a

gem

de um mo

d

o ge ral e dos enfermeiros, em particular.

Prel i mi n a rme nte , é bom lembrar ter si do nos ambientes dos hospitais de clínicas e por inluência destes que nasce ram as escolas unive rsitárias de En fermagem.

Por estímulos desses núcleos de "e xcelência cl

í

nica", criaram-se , em diferentes pontos do país as

Escolas e Se rviços de Enf

e

rma

g

em. As escolas foram criadas como uni dades anexas às Faculdades de Medicina. Os Se viços de En

fe

rma

ge

m foram organizados como se rviços anexos auiliares, com a finali­ dad

e

prec ípua de manter alto padrão de atendimento e , sobre tudo , para "ajudar aos médicos em seus trabalhos e pesquisas". Tal organização, poré m , não se deu de modo uniforme . Em algumas situações, proidenciou-se pela sepração d a s organizações de ensino e do se

vi

ço, cada qual c o m seu grupo distin­

to ; o de p rofessores que utilizavam os serviços, mas sem compromisso com a assistência e, de outro lado,

o dos enfermeiros e pessoal auxiliar. distanciado do e nsino e mais comprometido com os obje tivos do

serviço . Subordinados ao diretor administrativo e/ou tutelados pelos poderosos chefes de cl ínicas, o dis­

tanciamento desses dois grupos , professores e enfe rmeiros , tem dado origem ao enfraquecimento dos objetivos mais amplos da assistência de enfemagem.

E m outras situações, os dois grupos de enfermeiros e encarregados do ensino e da assistência, na verade eram constituíd os por um único contingente de pe ssoas - os fundadores da escola e encarregados de organizar os serviços de enfermagem do hospital-escola.

Numa e noutra situação, as iiculdades se acentuavam com a crescente diminuição do tempo dos professores de enfermagem nas atividades de assistência e da participação dos enfe rmeiros nas ativi dades docentes .

O

1 Q

e minário sobre "Integração ensino e seviço de enfe rmagem em hospitais universitáios ",

levado a efeito na cidade do Salvador, sob o patrocínio da Universidade Federl da Bahia e da Organiza­

ção Pan mericana de Saúde , ocorrido em outubro de

1 968,

exainou detidamente a questão . O Relató­

rio publicado, contendo recomendações diriidas às Escolas de Enfemagem, aos docentes e aos Seviços de Enfermagem, mostrava claramente a preocupação com a necessidade de fotalecimento desses dois grupos de docentes e enfe rmeiros como condição essencial para assegurar-se a integração das atiidades

do ensino e da assistência (SEMINÁRIO .

.

.

2 ).

O e studo de uma revisão desse documento tlvez fosse útil um melhor entendimento dos proble­ mas que hoje agravam a tão desejada integração d o ensino e da assistência de enfemagem.

em dúvida, espera-se , também, que a prática da enfe rmagem nesses hospitais possa servir de mode­ lo para outras unidades da comuidade .

devem estar concentrados os melhores recursos materiais e humanos não só da prática médica mas da enfe rmagem também. Por isto mesmo . é responsabilidade nos­ sa, e só nossa, de examinar que proidências devem ser tomadas para que isto ocorra ; que problemas a diicultam ; que somatóia de esforços deverá ser feita.

Nesss complexas unidades, importa que a enfermagem possa ser exercida à altura das exigências de um hospital que a comunidde espera seja do mais lto n ível .

Este Encontro, certamente , propiciará o e xame dessas váias questões e suas recomendações enseja­ rão . por certo, a adoção de meidas que possam contribuir para o continuado apimoramento de nosso trabalho , dentro de uma visão crítica, mas consciente de nosso compromisso ético e socil, como prois­ sionais a serviço das comunidades em que estamos inseridos .

Congratulo-me com os orgizadores deste Encontro e agradeço, desvanecida , o conite que me foi formulado para participar da abertura de seus trabalhos .

(4)

O L I E I R A , N .I . R . Nurse in the school-ho spitals : discuss

con ribution . Rev. Bras. Enl . Brasília. 38( 2 ) : 204-2 0 7 .

abr.fj u n . 1 98 5 .

R E F E R Ê N C IAS B I BL I OG R Á F I CAS

1 . FERREI R A . Joé Roberto . vtisión dei hosp i tal e la

lu: de las nucvas tendencias de la educación

médica. Educ. Med. y Salud, 10 ( 2 ) : 1 40-5 1 , 1 9 7 6 .

2. SEMIN Á R I O SOBRE

INTEGRAÇÃO DE

ENSINO

E S E RVi ÇOS DE

ENfERMAGEM

EM HOSPI­

TAIS NI VERSIT\RIOS . L, S alvador, out. 1 96 8 . Salvador, UFB A/OPA S . 1 96 9 .

Referências

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