Bullying no ensino médio: a percepção de alunos e professores
Bullying in high school: the perception of students and teachers
DOI:10.34117/bjdv6n1-201Recebimento dos originais: 30/11/2019 Aceitação para publicação: 17/01/2020
Adriano Kerver de Sousa
Pedagogo, Coordenador do curso Pedagogia e Extensão Universitária, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local. Centro Universitário Una
Áurea Regina Guimarães Tomasi
Socióloga, mestre e doutora em Ciências da Educação e professora do Programa de Mestrado Profissional Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local. Centro Universitário Una
RESUMO
Este artigo analisa a compreensão e as percepções das demandas em relação a abordagem do bullying como um problema na escola, a partir da perspectiva de professores e alunos de uma instituição da rede estadual de ensino. Propõe-se uma reflexão no sentido de contribuir para que a temática do bullying, bem como preconceito e discriminação, seja de fato, trabalhados por professores, visando a proposta de práticas horizontais que possam assumir uma característica de inovação social. A fundamentação teórica tem como base, autores que discorrem sobre os determinantes do bullying e diferentes formas de ocorrência deste fenômeno. A metodologia utilizada foi a qualitativa, com finalidade exploratória. Como procedimentos de coleta de dados adotou-se a entrevista semiestruturada, que foi transcrita e submetida a análise de conteúdo temático. Os resultados apontam, sobre a necessidade de se trazer à pauta das salas de aula, as origens, causas, determinantes e desdobramentos do bullying, visto que este problema, está presente no dia a dia dos alunos e professores, justificando a necessidade da proposição de discussão do tema aqui tratado.
Palavras-chave: Ensino médio. Bullying. Inovação social. ABSTRACT
This article analyzes the comprehension and perceptions of the demands regarding the approach of bullying as a problem in the school, from the perspective of teachers and students of an institution of the state education network. It is proposed a reflection in order to contribute to the fact that the issue of bullying, as well as prejudice and discrimination, is actually worked by teachers, aiming at the proposal of horizontal practices that may assume a characteristic of social innovation. The theoretical basis is based on authors who discuss the determinants of bullying and different forms of occurrence of this phenomenon. The methodology used was qualitative, with an exploratory purpose. As data collection procedures, the semi-structured interview was adopted, which was transcribed and submitted to thematic content analysis. The results point out the origins, causes, determinants and consequences of bullying, as this problem is present in the daily life of students and teachers, justifying the necessity of proposing discussed here.
1 INTRODUÇÃO
Nos últimos anos, o bullying passou a ser considerado como uma importante questão de saúde pública que afeta crianças e adolescentes em idade escolar. (ALMEIDA et al, 2018). É um tipo de violência, que, enquanto tal, constitui um problema social, com desdobramentos graves e que precisa ser tratado, já que a indiferença em relação a este assunto, também é uma questão a ser considerada. De acordo com Mello et al (2017), “percebem-se lacunas na literatura científica, sobretudo no que se refere ao papel dos estudantes identificados como agressores nas situações de bulllying, sendo foco na vitimização e relatos”.
Diante da necessidade de se conhecer melhor esse fenômeno para poder enfrenta-lo, este artigo trata do relato de uma pesquisa de campo sobre o bullying, realizado em uma escola da rede estadual da cidade de Campo Belo/Mg, buscando compreender a perspectiva de professores e alunos do ensino médio, a respeito dessa modalidade de violência.
A proposta é compreender a percepção de professores e alunos, em relação a este fenômeno de violência, sendo recorrente também no espaço escolar, e que subsidiará a pesquisa no sentido da proposição via produto técnico, de uma atividade que possa abordar o assunto junto a docentes e discentes, numa perspectiva empática.
2 BULLYING, CONCEITO E CONTEXTUALIZAÇÃO
O bullying caracteriza-se como um comportamento com manifestação de violência entre indivíduos, entre os quais, não há relação de poder ou domínio entre eles, configurando-os como pares. Martins (2005) caracteriza o bullying ainda, como um comportamento indisciplinar, uma conduta com características antissociais, podendo vir a desencadear inúmeros problemas na relação entre pares, bem como com a comunidade escolar e com a família. Bandeira e Hutz (2012) enfatizam que, para que o comportamento violento seja caracterizado como bullying, deve estar relacionados à três elementos que os autores apontam como sendo bastante característica da agressão e que inclusive, o diferencia de outros tipo de violência ou violação de direitos: a repetição, o prejuízo para todos os envolvidos e a desigualdade de poder, que se manifestam na relação entre pares e assim, pode configurar uma situação de bullying.
Considerando o bullying, como uma prática embasada em pressupostos de pré conceitos que geram discriminações, Constantini (2006), aponta como agravantes das ações de discriminação, preconceito e comportamento agressivo na escola, fenômenos como a globalização, consumismo e a disparidade econômica, causas macroestruturais de uma sociedade que é muito complexa. Somado a estes fatores, é possível verificar a pressão da mídia sobre as crianças e adolescentes, que oferecem exemplos de vida, ligada à aparência, o que, segundo o autor, caracteriza uma perda dos valores
humanos e morais. “Tais características, podem fazer do bullying um fenômeno sistêmico, isto é, seu alcance pode ir além do cotidiano escolar e se dimensiona dentro de um contexto social, sofrendo influências tanto escolares como familiares e socioculturais. É por isso que envolvidos no bullying não são meramente a vítima e o agressor (bully) abrangendo todos os demais componentes da comunidade escolar”. (Neto, 2011, p.36).
Quanto às formas de manifestação dessa violência, de acordo com Calhau (2009 p.6), para a Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (ABRAPIA), como não existe na língua portuguesa uma palavra que contemple a complexidade do termo, estão associadas à terminologia bullying: “apelidar, ofender, zoar, gozar, encarnar, sacanear, humilhar, causar sofrimento, discriminar, excluir, isolar, ignorar, intimidar, perseguir, assediar, aterrorizar, amedrontar, tiranizar, dominar, agredir, bater, chutar, empurrar, ferir, roubar e quebrar pertences”. Existem ainda, segundo Gomes e Sanzovo (2013), duas categorias nas quais se subdividem as ações de bullying denominadas ações diretas e indiretas. De forma direta, enquadram-se agressões de caráter físico: empurrar, ferir, cuspir, chutar, beliscar, bater, agressões de caráter material (destroçar, furtar, quebrar e roubar). De maneira indireta são consideradas práticas de bullying: (i) de caráter verbal: ofender, xingar, insultar, apelidar ofensivamente; (ii) de caráter psicológicos: perseguir, humilhar; aterrorizar; (iii) de caráter moral: difamar, discriminar, caluniar; (iv) de caráter sexual: insinuar, assediar, violentar e abusar.
Além disso, todas as formas não físicas do bullying podem também ser praticadas por meios tecnológicos. Isso configura, de acordo com Lopes (2005), uma nova forma de intimidação denominada cyberbullying, que nada mais é que o bullying praticado por meio de recursos tecnológicos de interação como celulares e internet, utilizados para as práticas desta violência. Neste sentido, as contribuições de Fajardo et al., também apontam para a atenção na qual deve se dar à escola, no contexto de um ambiente que pode estar especialmente suscetível à situações de bullying:
A violência na escola inclui também situações mais sutis, como atos de discriminação, preconceito, exclusão ou violência simbólica, muitas vezes cometida pela própria instituição educativa. a escola não é só o lugar onde explode a violência, ela participa, também de sua gênese exercendo sobre os indivíduos algum tipo de pressão (FAJARDO et al., 2006, p. 97).
Entre os desdobramentos do bullying para todos os envolvidos, de acordo com Lopes Neto (2005), constata-se desde a queda do rendimento escolar, como problemas emocionais que podem gerar insegurança, a baixa da autoestima, desencadeamento de tendência à depressão até mesmo, tentativas e consumação de suicídio por parte dos alvos. No que diz respeito aos autores da agressão, estes podem apresentar tendência para se tornarem adultos antissociais, considerando-se até mesmo quadros de delinquência.
2.1 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS DA PESQUISA DE CAMPO
Configurou-se como objetivo da pesquisa, analisar quais tem sido as concepções de professores e alunos do ensino médio de uma escola da rede estadual de Campo Belo/MG, buscando conhecer mais de perto como uma determinada comunidade escolar age frente ao bulying, o que pensam, como definem como agem, que tentativas e se existem de enfrentamento em uma instituição, tendo em vista o desenvolvimento de contribuição técnica na área da educação, com característica de inovação social e potencializadora do desenvolvimento local.
Desta forma, a realização desta pesquisa almejou identificar a compreensão que a comunidade escolar tem a respeito do bullying e quais as práticas da comunidade escolar diante dessas situações. Para tal, optou-se por uma abordagem qualitativa, que, de acordo com Esteban (2010) é contingente às práticas humanas e constrói-se a partir da interação entre os envolvidos na pesquisa. Ao se abordar a questão do bullying é imprescindível que o conhecimento seja construído numa perspectiva significativa, pela interação dos atores com o mundo e a leitura que fazem dele.
A pesquisa foi desenvolvida em uma escola da rede estadual em Campo Belo/MG localizada em um bairro da região central na cidade, instituição que recebe alunos de todas as outras escolas da cidade, tanto públicas municipais e estaduais, bem como particulares, sobretudo a partir do primeiro ano do Ensino Médio. A escola recebe jovens de diferentes bairros, sendo filhos de comerciantes, empresários, contudo, a grande maioria são filhos de operários, trabalhadores rurais, autônomos. Os sujeitos da pesquisa foram os alunos e professores da instituição, ou seja, os envolvidos de forma mais direta no fenômeno do bullying dentro de uma comunidade escolar.
A pesquisa trata-se de um estudo com caráter exploratório, que de acordo com Gil (2008), “tem como característica fundamental, o interesse na aplicação, utilização e consequências práticas dos conhecimentos”
Optou-se pela entrevista como instrumento de coleta de dados porque segundo Minayo (1995), por sua natureza interativa, a entrevista permite tratar de temas complexos que dificilmente poderiam ser investigados adequadamente através de questionários, explorando-os em profundidade, como caracteriza-se uma pesquisa que tem como assunto principal, o bullying.
A seleção dos entrevistados se deu de forma aleatória, sendo informado aos alunos, pela especialista em educação da própria escola, que os que assim desejassem, poderiam participar de uma pesquisa sobre bullying.
Foram convidados 7 (sete) meninos e 10 (dez) meninas, das turmas dos primeiros, segundos e terceiros anos do Ensino Médio, portanto, um total de 17 (dezessete) alunos registra-se que, os alunos de uma turma em específico do segundo ano, apresentaram grande interesse em participar, sobretudo na medida em que o aluno entrevistado, retornava para a sala e contava do que se tratava a
pesquisa, e todos os discentes entrevistados, dessa classe, retrataram na entrevista, que já haviam sofrido ou testemunhado situações de bullying na escola. Além de demonstrarem um interesse maior em compreender sobre este tipo de violência.
Foram entrevistados ainda 9 (nove) professores, que lecionam em todas as turmas do ensino médio da escola, e trabalham com as disciplinas: Matemática, Geografia, História, Filosofia e Educação Física, além da bibliotecária, que atende diretamente a todos os alunos; uma Especialista (Supervisora) que também atende professores e alunos do ensino médio na escola; uma professora de apoio (especialista em Educação Especial e Inclusiva) que acompanha um aluno com deficiência física e a professora do AEE – Atendimento Educacional Especializado, também conhecido como Sala de Recursos.
A ideia inicial, seria de entrevistar 13 (treze) docentes, contudo, alguns professores não atenderam ao convite do pesquisador em participar da pesquisa. Alguns dos docentes se esquivaram do pesquisador, que foi orientado pela direção, que poderia aguardar na sala de professores, pois na medida em que os mesmos tivessem horários livres, teriam a disponibilidade de tempo em conceder à entrevista. Uma professora, marcou um horário para que fosse entrevistada, entretanto, no momento de iniciar a entrevista, disse que não se sentia a vontade para falar a respeito do tema: “[…] eu acho complicado estar falando desse assunto, porque assim, na minha aula não tem muito dessas coisas, eu chego dou minha aula… se começar com graça eu logo chamo a atenção e a gente vai levando, então acho que não vou poder ajudar nessa sua pesquisa”. A professora desistiu da entrevista e pareceu não correlacionar o assunto de que a pesquisa tratava com o seu trabalho, com o seu público e com a escola.
Professores e alunos entrevistados, constituíram uma amostra qualitativa e não representativa, que levou em consideração a variedade, do perfil dos docentes, segundo à área de formação, sexo e tempo de docência no ensino fundamental e médio e por parte dos discentes, meninos e meninas, em idade regular para o Ensino Médio, que, considerando a natureza diversificada do alunado atendido pela escola, compõem uma mostra também diversificada qualitativamente e não representativa. Para análise das informações obtidas nas entrevistas, será foi aplicado o método de análise de conteúdo, por tema, proposto por Bardin (2014), descrito pela autora como um conjunto de técnicas para análise das informações, que tem por objetivo realizar inferências dos conhecimentos relativos às condições de percepção das mensagens obtidas das falas dos entrevistados, e tratadas a partir de procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo.
Dessa forma, após a aplicação do instrumento de coleta de dados proposto nesta pesquisa, os registros foram organizados por temas que possibilitaram a construção de um diálogo e análise dos conceitos de revisão de literatura e pesquisa de campo, convergindo de forma positiva, para o
delineamento da proposta do produto técnico. Os professores foram identificados como P1, P2, P3 e alunos pela sigla A1, A2, A3, assim sucessivamente.
2.2 O QUE CARACTERIZA O BULLYING
O primeiro tema analisado a partir das entrevistas foi sobre o próprio conceito de bullying ou seja, a concepção que a comunidade escolar tem sobre o fenômeno bullying. Ficou bastante evidente é que os alunos identificam a agressão como algo que diminui o outro, que o coloca como inferior e que é uma manifestação de preconceito. Muitas vezes, a prática do bullying é apontada como brincadeira, embora eles apresentem uma consciência de que, essas “brincadeiras” podem ser prejudiciais e que se caracterizam como uma forma de difamação, calúnias, ódio e mentiras.
O que parece determinar essa prática, é o fato do aluno que sofre bullying ter alguma característica que foge à um determinado padrão (corpo, etnia, religião, situação sócio-econômicas) e de acordo com a maioria dos alunos entrevistados, a mídia pode ser uma das fontes de imposição das características que compõem o padrão, ao qual eles se referem e reconhecem produzir um senso comum.
Quando critica alguém, desfaz da pessoa, coloca os defeitos da pessoa, sem se preocupar se a pessoa vai ficar magoada ou não. Ninguém é perfeito né, algumas pessoas são baixinhas, ou são gordas, as vezes são altas demais, magras demais e assim, quando fala, por exemplo, a pessoa tem dificuldade pra emagrecer e você ficar chamando-a de gordinha, muitas vezes isso pode magoar ela, ficar ressentida. Brincadeiras de mal gosto, porque as vezes as brincadeiras passam do limite, tem gente que fala “Ah mas é só uma brincadeira!” As vezes a pessoa é negra, e eles falam “Ô preta, Ô urubu” e aí a brincadeira passa do limite (A2).
Desse modo, concordam que uma vez que alguém esteja fora do padrão, pode começar a receber agressões, de diferentes naturezas, o que pode ser caracterizado como bullying. O relato da maioria dos adolescentes entrevistados, permite inferir que no ensino médio, parece haver uma espécie de transição da forma em que o bullying se apresenta, parece haver até mesmo uma espécie de correlação, que demonstra que, ao longo do ensino médio as formas de agressão migram da maneira direta para a indireta, de acordo com as tipologias apresentada por Gomes e Sanzovo (2013), passam de direta com agressões físicas, para uma forma mais ou camuflada e mesmo que os alunos não tenham consciência disso, não externando com essa palavras, deixam subentendido que a forma da violência vai ficando mais elaborada, tendendo para o que o autor chama de formas verbais indiretas da agressão.
Em relação às entrevistas com os professores, todos são unânimes em apresentar uma compreensão mais ampla em relação às diferentes formas de bullying, principalmente no sentido de que, a agressão tem início muitas vezes, a partir das brincadeiras, das implicâncias que em seguida desencadeiam perseguições. Os docentes demonstram uma visão até mesmo mais holística no sentido
de ter conhecimento, que de algum modo, a escola tende a reproduzir as segregações que existem no entorno dela, uma compreensão que vai ao encontro das ideias de Silva (2015) ao apontar a escola, como um micromundo, capaz de reproduzir um sistema de classes das sociedades mais desiguais.
Foi recorrente a fala de que apesar de diversos cenários bastante desanimadores de preconceitos, discriminação e intolerância, hoje em dia, fala-se mais a respeito dessas questões o que é considerado bom pelos entrevistados. Alguns professores recordaram que na época em que estudavam muitas vezes, o bullying não era caracterizado como tal e por esse motivo, não recebia atenção e tratamento necessários e que hoje, a escola aos poucos se abre para esta discussão.
Não, assim, eu acho que não né, é porque, por exemplo, eu tenho 35 anos, na minha época muitas brincadeiras pareciam saudáveis e a gente não chamava de bullying. Achava que era brincadeira normal, mas explicando assim, se a gente pensar no hoje, às vezes até era (P9).
2.3 AS EXPERIÊNCIAS COM O BULLYING
Professores e alunos foram convidados a compartilharem as suas experiências com alguma situação de bulllying, seja como vítima, agressor ou testemunhas. De acordo com os entrevistados e os relatos transcritos abaixo, permite-se inferir que o assunto está mais próximo das experiências dos adolescentes, afirmação que vai ao encontro das ideias de Pigozi e Machado (2015) no que diz respeito à relação dos adolescentes com sua realidade, no âmbito social e escolar, considerando esta etapa da vida e suas inúmeras mudanças fisiológicas, psíquicas e relacionais. Fica evidenciado ainda que entre os determinantes do bullying, de acordo com os relatos dos alunos, estão os aspectos biológicos, físicos (intrínsecos) e externos/contextuais (influências sociais) em consonância com os estudos de Beane (2008).
Ao ser indagado se já sofrera bullying e, em caso positivo, que relatasse sua experiência, um aluno do segundo ano do Ensino Médio, respondeu:
Sim, desde o meu sexto ano. O sexto, sétimo, oitavo e nono, foram os piores anos. Eu era muito tímido, então eu era tipo…eu usava aparelho, usava óculos, então eu era o nerd da sala que ninguém gostava de conversar, o chato e tal. Eu meio que relevava, eu não chorava em casa e tal, eu meio que relevava. E tentava entender os meninos que mexiam comigo, porque as vezes a pessoa quem tá fazendo bullying pode ter algum problema que ela está passando e um meio que ela tem pra soltar, tipo, meio que esvaziar essa angústia dela, é diminuindo outras pessoas, é errado, mas a gente também não pode julgar. Eu procurava a diretora, que na época, não era a mesma de hoje em dia, mas ela nunca fez nada e então eu tentava ignorar também. Eu precisei passar no psicólogo, porque hoje em dia eu falo, mas antigamente eu não falava, eu não era assim. Mas com o passar do tempo, psicólogo, ficou bem mais fácil, mas não é todo mundo que tem a oportunidade de passar no psicólogo, as vezes também fica com vergonha, as vezes o bullying é tanto, que a pessoa não tem nem coragem de contar o que está acontecendo, a ponto que ela prefere sofrer e ficar calada, aí vem casos de suicídio, né. Que a pessoa suicida, porque ela prefere acabar com tudo, porque o caminho mais fácil é se matar e acabar com tudo, porque a vergonha de contar e muito grande (A8).
O relato do aluno permite afirmar que o mesmo foi vítima de bullying, pois apresenta aspectos como: a repetição (do sexto ao nono anos), o prejuízo (busca por atendimento psicológico) e a desigualdade de poder (considerando a sala de aula como cenário das agressões e os alunos, como agressores), características que conforme Bandeira e Hutz (2012), evidenciam a prática do bullying. Ainda considerando a fala do aluno, no que diz respeito à prática do suicídio entre pessoas que sofrem esta violência, a fala do aluno é pertinente ao citar este agravante, pois nas palavras de Mello et al. (2017) o bullying é um grave problema de saúde, que pode chegar a provocar depressão e até o suicídio .
A partir da visão dos autores Bandeira e Hutz (2012), ao apontarem características específicas para que uma situação seja considerada como bullying, o depoimento de um dos professores entrevistados, ao responderem terem sido vítimas de bullying ou não, relata uma experiência que o marcou, a qual todavia, a partir da literatura específica, não pode ser classificada como bullying. A experiência relatada envolve pessoas que compõem um mesmo grupo hierárquico, sendo a ofensa realizada por uma professora, a qual poderia ser caracterizada como algum tipo de violação de direito, mas não necessariamente bullying, de acordo com as características apontadas por Bandeira e Hutz (2012)
Eu já sofri bullying de professor uma vez, né... foram várias vezes, mas a que mais me marcou, foi uma vez que o professor falou, eu tava com ... eu tava cursando nessa época aí a sétima série, então eu tava aí com, provavelmente com onze anos, doze anos, não me lembro a idade certa dessa série. Mas a professora falou que a gente fedia, e ficou recomendando que a gente passasse fubá com laranjinha debaixo do braço, entendeu? E sendo que é uma condição do jovem, fazer educação física, entrar suado na sala e coisas nesse sentido. Eu acho que isso foi uma coisa que me marcou muito, porque a gente via o descaso da professora na frente, e também algumas professoras que falavam que a gente não ia ser nada, como eu vim de escola pública e de um meio muito carente, então era meio que predeterminado a nossa condição social (P1).
O mesmo professor, ao apresentar a sua visão a respeito do que é o bullying, também estabelece uma relação direta como sendo a violência, necessariamente entre professor e aluno:
Bom, a minha visão de bullying, que é trabalhada nos meios educacionais, é algum tipo de perseguição, discriminação, que é recorrente contra um aluno, principalmente por parte dos professores, referente a questões da sua personalidade, questões do seu próprio biótipo, é... muitas vezes no Brasil, refletido como apelidos, é... através também de questões ligadas a condição social, por roupas, vestimentas e etc. (P1).
As respostas do professor (P1), embora tenha sido o único entre os docentes, também revela que falta conhecimento a respeito do tema, não só para alunos, como também para professores. Daí a importância de que o tema seja proposto em situações de formação continuada e reflexão dos docentes, para que estes, tornem-se agentes de combate a esse tipo de violência.
A partir da perspectiva de Antunes e Zuin (2008) no que concerne à prática do bullying, estas podem ser direcionadas a grupos de alunos com características específicas, de modo geral, características que fogem a um determinado padrão. Neste sentido, os relatos de alguns alunos, tornam pertinente a correlação dos autores supracitados, no que diz respeito à prática da violência e às características que se distanciam do que se considera, pelo senso comum, como modelo padrão.
Eu nunca sofri, já vi muitos casos na minha sala mesmo, mas eu mesma não sofria. Na sala, os que são mais magrinhos e os mais gordinhos sofrem mais (A4).
Já, já sofri muito, pela minha cor, pelo meu cabelo, pela minha altura, por eu ser gordinha. Por mais que eles falam assim “Ah é uma brincadeira”, eu particularmente me senti ofendida. Mas eu fiquei calada, tentava fingir que eu não estava escutando, tentando largar pra lá, porque falar era pior. A gente fingia que tava levando na brincaderia, mas lá no fundo, machuca, magoa, eu fiquei muito sentida com isso (A6).
Eu já sofri bullying, eu me ofendia com as brincadeiras que faziam comigo, porque eu era gordinho, por ser “escurinho” assim. Aí sempre que fazia uma brincadeira ou a professora falava, eles sempre me olhavam querendo rir, tipo assim, falou em gordinho ou nos escravos essas coisas, eles olhavam pra mim (A10).
Na infância eu sofri muito bullying, eu era chamado de magrão, porque eu era muito magro, depois eu usava meu cabelo tipo black, aí eles me chamavam de ET, mas eu também zoava eles, um era mais gordo, outro usava óculos, mas a gente cresceu junto e na época a gente nem sabia que era bullying (A13).
Já eu já sofri bullying, porque minhas… [a aluna parou de falar e ficou muito emocionada, tentando continuar, mas ficou parada por um tempo, emocionada], minhas bochechas [a aluna falou essa palavra bem baixinho], era muito grande e eles me chamavam de fofão, muito! E tipo, isso me afetava muito, hoje em dia parou um pouco, mas eu sofro com isso, me sinto feia. Eu xingava, outra hora eu fingia que não tinha acontecido (A15).
É interessante observar que os relatos, trazem perspectivas tanto de alunos que sofreram, não sofreram ou que sofreram e cometeram bullying, todos, inseridos num processo que Fante (2005) define como uma recusa de aceitação de uma diferença, seja ela qual for, sempre notória e abrangente, envolvendo religião, raça, estatura física, peso, cor ou deficiências.
Alguns testemunhos em específicos, podem levar a compreensão de que, quando o aluno participa como agressor, pode apresentar uma tendência a atenuação dos conflitos decorrentes e uma prática de violência também vivida por ele próprio, conforme a resposta de dois alunos, ambos do segundo ano do ensino médio.
Não era bullying, é que eu era gordo. Me chamavam de gordo, baleia e tal, eu levava na brincadeira mas não gostava. Mas os colegas, eu também mexia com eles, reparava o que tinham de diferente né, e falava. Eles faziam isso comigo também (A9).
Sim, eu até hoje ainda sofro, mas tento não ligar. Dou liberdade pra quem quiser brincar, eu também zoo e também faço bullying com as pessoas, por exemplo, tem o aluno mais gordo, então ele é diferente dos outros, então as pessoas vão usar isso pra brincar com você, falar, “oh gordinho, oh baleia”, então pra mim é tranquilo porque eu também vou olhar o que o outro tem de diferente e brincar uai. Essas brincadeiras são a distração das aulas e no recreio (A3).
Muito, quando eu entrei na sala, não conhecia ninguém. Foi muito desgastante, eu sofri muito porque eu não conseguia enturmar. Eu nunca fui muito feminina, eu sempre tive um jeito masculino, eu sempre tive mais contato com os meninos. Mas eu ficava isolada, porque eles também me zoavam. Aí eu fui trabalhando nisso, eu falava sabe “você me respeita porque eu te respeito, ou então se continuar, vou fazer isso com você também”. Aí eles falavam, “Ah, fala pra professora” porque assim, eles sabem que quando a pessoa tá ali, sofrendo bullying, não vai contar, mas eu contava, não tava nem aí... aí eu fui revidando e eles foram parando e agora que a gente tá maior e já convive muito tempo, as coisas melhoraram pra mim (A12).
A relação estabelecida na fala de um dos entrevistados com o espaço da sala de aula, quase que afirmando ser o bullying uma forma de entretenimento ganha uma validação do conceito apresentado por Lopes Neto (2011) de que não se pode explicar o bullying como causas pontuais, pois o envolvimento dos alunos com este fenômeno é dinâmico e circunstancial.
Ao lado dos alunos que relataram já ter sofrido, conforme mencionado acima, os demais, disseram nunca terem sido vítimas desta agressão, e nesses casos os relatos foram mais breves:
Não, nunca sofri. Quanto as brincadeiras, nunca me ofenderam (A1).
Não, nunca sofri, graças a Deus (A2).
Não, nunca sofri (A5).
Não, eu nunca sofri. Nunca ninguém falou nada (A11).
Nunca sofri bullying não. Só via mesmo (A14) .
As respostas dos professores, demonstraram que a relação da maioria deles é mais distante para com o bullying, entre os entrevistados, apenas dois, afirmaram terem sofrido esse tipo de violência, quando também eram alunos:
Sim, já sofri bullying, eu tinha acabado de mudar de colégio, estudava num colégio menor, no qual eu era bem inserida no meio e meus pais resolveram me colocar num colégio mais forte, num colégio muito grande, na época em Belo Horizonte. Aí, eu entrei pra terceira série do ensino fundamental, antes era o primário. Só que a minha mãe precisava de me colocar no turno da tarde, as vagas para os novatos eram apenas de manhã. Ela conversou com a direção da escola e ela conseguiu colocar os três filhos no turno da tarde, porque ela trabalhava a tarde também . Então eu fui a única novata, numa turma que já tinha seus laços né, já tinha os líderes. E quando eu entrei, eu era quietinha, estava no meu canto, assentava no fundo da sala, a professora começou a me valorizar muito. É... me elogiando, as redações eram ótimas, dava parabéns para mim, então eles tiveram que achar algum defeito em mim... e acharam! Eles viram que ao ler em voz baixo, eu mexia com os lábios e começaram a me
criticar demais, eu percebi que eu fui rejeitada porque tinha notas boas, e era elogiada pelas professora, aí eu acabei sofrendo muito, mas eu contei pra minha mãe, nessa fase é mais fácil pra conversar e os meninos aceitarem. Eu... a professora chamou as meninas que estavam fazendo isso comigo, pra resolver o problema, elas me pediram desculpas, mas no ano seguinte eu passei pro turno da manhã, pois as minhas colegas da outra escola que eu estudava também mudariam pra esse colégio, então de qualquer forma eu me afastei dessa turma, sabe, mesmo com o pedido de desculpas, eu não estava feliz naquela turma não. Eu precisava de mudar e voltei a ser feliz no turno da manhã. Então assim, teve ajuda da minha mãe e teve ajuda da minha professora que gostava muito de mim. Quer dizer, eu sofri bullying por ser uma aluna boa, sabe, no meio de alunos que já estavam naquele grupo e então eu não podia ser aceita, pelo que eu vi (P3).
É... eu já passei sim por uma fase, quando eu vim da roça para Campo Belo, eu falava errado, a minha fala era diferente. E os meus colegas me criticaram muito, e eles me colocaram apelido de “Maria da Roça”, e isso me chateava um pouco, eu ficava bem chateada. Mas um belo dia, eu andei dando uns xingos, chorei e gritei lá na sala e isso parou (P5).
Os dois depoimentos, têm relação direta com uma espécie de discriminação, a partir de aspectos de diversidade social e cultural os quais, conforme Antunes e Zuin (2008) são desencadeadores em potencial, de situações de discriminação que podem gerar situações que configuram bullying.
Faz-se pertinente frisar que entre o grupo de professores entrevistados, a perspectiva dos mesmos quanto ao bullying tem um caráter global, a maioria consegue compreender o que de fato são situações que configuram este tipo de agressão, contudo, é uma relação um pouco mais distanciada, se comparada aos alunos entrevistados. O que chama atenção é o fato de que eles convivem no mesmo tempo e espaço (sala de aula) e ainda sim, as respostas permitem deduzir que relação de professores e alunos são bem distintas, ainda que o fenômeno aconteça num cenário, que envolve os dois grupos.
Essa diferença na forma de encarar a violência, pode se justificar, pelo fato de que o bullying tenha necessariamente que se estabelecer numa relação entre pares, de acordo com Fante (2005) e ainda, pela relação que estes dois grupos tem com a adolescência, enquanto os alunos a vivenciam, para os professores a relação é demasiada saudosista e foi muito recorrente a fala de que na época em que eram adolescentes, as brincadeiras, não eram necessariamente bullying. Encontramos nas palavras de Karnal uma possível explicação para os dois pontos de vista em que o bullying é pontuado pelos professores como algo que lhes aconteceu ou que testemunharam há muito tempo, ao passo que os adolescentes vivenciam atualmente ou vivenciaram muito recentemente essa realidade:
Percepções diferentes sobre o mesmo problema mudam conforme o tempo. A distância no tempo ajuda a mudar a pecepção sobre uma realidade […] a construção do passado como local sem violência é curiosa. É um procedimento, um instrumento de defesa, porque temos uma relação com o presente jornalística e nossa relação com
o passado é histórica. Significa que no presente eu olho tudo dia a dia, e o passado eu olho em bloco (KARNAL, 2017. p. 136-137).
O testemunho dos entrevistados demonstra que o bullying está presente de maneira significativa na realidade das escolas brasileiras, embora a amostra não seja representativa, permite suspeitar de que este tipo de violência é comum. O fato de em um grupo de 26 pessoas, nove relatarem terem sofrido bullying, se assemelha à situação apresentada por Mello et al. (2017) que indica o aumento deste tipo de violência nas escolas o qual está ocorrendo de maneira mais sistemática e aceita nas relações sociais e as maneiras de tratar os conflitos entre crianças e adolescentes.
2.4 DESENCADEADORES DO BULLYING
Em relação aos fatores que levam a um aluno ou um grupo, a praticarem bullying contra os colegas, dado o cenário apresentado, da escola como sendo um espaço plural, as respostas dos alunos e professores foram muito parecidas neste aspecto. Mais uma vez a resposta dos docentes, é de certa forma, a partir de uma perspectiva mais ampla, e a dos alunos, um pouco mais restrita, respeitada a posição e atuação dos dois grupos (professores e alunos), mas ambos apresentam uma visão de que a violência se manifesta tendo como pressuposto a desigualdade de poder entre pares (neste caso, alunos). Ao serem perguntados então, o que desencadeia, provoca, estimula, enfim o que leva a um aluno ou grupo, atacar os colegas, os alunos responderam:
Eu acho que é para fazer graça ou quer ser o maioral da sala, tipo vou zoar ele pra mostrar que eu sou fodão da sala. Acontece muito bullying em forma de homofobia, noventa por cento dos meninos fazem isso com os alunos gays para se mostrarem que são superiores, acho que um dos maiores motivos é isso (A3).
Sentir superior, por exemplo porque é branco, porque é rico, algo assim (A4).
Ignorância, ódio, idiotice. Ignorância é não ter o conhecimento, ódio, simplesmente raiva sem motivo algum (A5).
Ah porque quem faz bullying olha pra eles (quem sofre bullying) e pensa que ele é fraco. A maioria de quem sofre, as vezes anda mais sozinha, aí eles fazem bullying, porque não tem ninguém pra defender eles (A11).
As respostas evidenciam o desnível na relação entre pares, bem como, mais uma vez, o fato r da vítima apresentar alguma diferença, que serve de alvo da perseguição. Reconhecem o ato como algo que vem a ser praticado por alguém que está desprovido de informação, e formação para o convívio com a pluralidade e uso de força para coerção do outro.
Solicitados a responderem ao mesmo questionamento, os professores apresentam uma visão de que percebem uma grande dificuldade, sobretudo dos agressores em conviverem em sociedade,
respeitar o limite dos outros, e de novo, fica bastante evidenciado que as razões para a diferenciação, tem origem socioeconômica e não somente na sala de aula, conforme proposto por Silva (2015) quando defende que a escola reproduz o sistema social vigente fora dela, inclusive na discriminação de determinados grupos minoritários.
Eu acredito que é uma autodefesa, ou seja, eu preciso atacar, pra poder não ser vítima. Então, eu acredito que são aqueles alunos desinteressados, que vão à escola, como mero passa tempo, porque são obrigados, ou porque questões de recebimento de auxílio, de programas sociais do governo, enfim... são alunos que não tem o propósito de estudar, não almejam, não pleiteiam nada lá na frente (P3).
Bom... é, nas escolas brasileiras o bullying acontece geralmente através de apelidos, de uma forma de chacota, fazer com que o individuo seja ridicularizado, por alguma coisa ligada a seu corpo, a muitas vezes a questões de pele né, cor de pele, como, escondendo o racismo que a gente vê velado dentro da sociedade (P1).
Na minha opinião, os motivos que o levam a praticar bullying contra o colega, é se identificar como, entre aspas, popular, pois gera muitas risadas e acaba sendo reconhecido como líder pela turma, mesmo que seja de maneira errada (P5).
A percepção do professor P5, demonstra justamente o que Silva (2015) chama de classes comuns existentes nas escolas, os populares, os neutros e os excluídos, sendo os populares como aqueles que podem desencadear ações de bullying contra, normalmente, os alunos excluídos. 2.5 A CORRELAÇÃO BULLYING E PADRÕES SOCIAIS
Ao se tratar das motivações que levam um aluno ou um grupo, a segregarem outros alunos, gerando discriminação entre eles, existem fatores que podem ter relação com o meio social em que toda a comunidade escolar está inserida. Inúmeras podem ser as motivações de um grupo assim como são diversas as características de um indivíduo que podem servir de alvo para o pré-conceito, a exclusão e a violência aqui tratada. Autores apontam que características físicas, socioeconômicas, de etnia e orientações sexuais específicas (SMITH, 2002) são consideradas assim como molas propulsoras para que as pessoas que nelas se enquadram se tornem vítimas eleitas, em função da sua vulnerabilidade ao bullying.
A partir das respostas dos alunos e da recorrente expressão “fora do padrão”, durante as entrevistas, foi questionado, de onde vem a ideia de padrão, a que eles se referem, ainda que de forma implícita, os alunos então, responderam:
Muito pela mídia, ela influencia muito, nem sempre o que aparece na televisão é verdade, mas as pessoas veem aquilo como um padrão a ser seguido (A3).
Nunca parei pra pensar nessa resposta, eu acho que não existe padrão, porque por mais que a gente esteja perfeita, alguém sempre vai me achar fora de algum padrão (A4).
Da mídia com certeza, leva muito a isso né, um padrão de altura e de peso e principalmente de peso, que é ridículo, a gente estando com saúde, está ótimo (A2).
Acho que a gente tira ideia de modelos, revistas, tipo.. “Nossa, aquela menina é modelo, linda!” e isso influencia demais (A6).
Acho que todo lugar que a gente vai, na escola, na rua, na televisão, passa muito padrão que tem que ser seguido (A9).
Então a sociedade né, nas redes sociais, na televisão, tem naquelas pessoas, as meninas tudo com o corpinho bem cuidado, com o cabelo todo arrumadinho, geralmente é o cabelo liso, pessoa branca, magra, corpão. Aí a sociedade diz que aquilo é o certo, o normal e a gente tem que mudar. Aí vem o bullying que a pessoa fica se sentindo mal, pode ficar com depressão e ninguém quer isso. Igual eu, tipo assim, sou magra mas estou na academia por isso, por eu ser considerada magra e meu corpo não estar no padrão certo. Então eu tenho na minha cabeça que se eu mudar, eu vou sentir melhor com o meu corpo. A gente tenta entrar no padrão pra evitar esse sofrimento ( A1).
As respostas dos alunos foram bem semelhantes, das que foram transcritas aqui e revelam que existe uma grande preocupação a partir do que é imposto como um padrão e que esse ideário tem como uma importante fonte de disseminação, a mídia. Respostas concatenadas com a perspectiva de Constantini (2006) ao tratar da influência midiática, na formação do senso comum de valores humanos e sua relação com os exemplos de vida, vinculados à aparência, que chegam a pressionar crianças e adolescentes pela busca na inserção nestes padrões.
Ainda neste contexto dos meios pelos quais os alunos são influenciados e constroem sua compreensão de modelos, pode existir uma diferenciação, neste sentido. Fischer (2005) sugere que alunos de escolas públicas recebem esta carga de influência sobretudo por programas televisivos e a internet enquanto alunos de escolas privadas, pressupondo-se ter um poder aquisitivo maior, seguem regras ditadas por um vasto rol de meios de comunicação, como cinema, teatro, videogame e também a internet, podendo ter acesso a conteúdos privados, também na rede.
Neste contexto, Gomes e Sanzovo (2013, p.98) alertam para o fato de que “a difusão da informação, mediante seus variados meios de comunicação, é dinâmica, intensa e veloz, e seu impacto é certeiro e imediato” e esta dimensão e articulação das instituições comunicativas que definem e constroem os modelos sociais existentes.
Os professores também denunciam os meios de comunicação e sua influência sobre a formação das perspectivas dos alunos em relação a padrões e modelos a serem seguidos.
Hoje são os meios de comunicação, nós estamos numa era, da era do corpo perfeito, onde as pessoas buscam, através da academia, através, as vezes até cirurgia, tem aluno aqui, criança bem dizer, que já fez cirurgia pra tentar alcançar esse objetivo, porque o objetivo desse mundo que nós estamos, nesse momento é a busca pela beleza, busca pelo corpo perfeito (P7).
É uma questão cultural, na educação física eu tento trabalhar muito isso. É cortar essa questão, o que é imposto, que a coisa que eles veem na televisão, até mesmo em programa de esporte né, ver achar que primeiro tem que ser todo mundo igual e
segundo não ver o lado da saúde, a vontade de ser daquele jeito fala mais alto só pela aparência, daí quando não é né... já viu...(P9).
O depoimento dos professores, bastante semelhante entre todos os entrevistados reforça o conceito de que o acesso a uma grande quantidade de informações, a que os jovens contemporâneos tem disponível, pode em certa medida, disseminar referências relevantes, mas também as que tratam dos padrões mencionados anteriormente , como mostram Gomes e Sanzovo (2013), ao afirmarem que “o final do século XX e o princípio do século XXI constituem exemplos magistrais para delinear a relação dos jovens com uma grande quantidade de informações”.
2.6 ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO DO BULLYING
Aos professores e alunos, foi solicitado que relatassem quais tipos de atividades a escola já havia desenvolvido nos últimos anos, e que tratassem diretamente da temática do bullying ou de seu enfrentamento.
As declarações dos alunos, demonstram que algumas ações esporádicas e em princípio, sem relação umas com as outras, são propostas para tratar do assunto, no cotidiano escolar, como palestras ou demandas de redação, abordando o tema:
Tem muito tempo, eu estava na sétima série (hoje, no primeiro ano do ensino médio), foi uma palestra. Ah é bom, mas tipo, palestra a maioria das pessoas, quando faz ali no pátio, a gente não presta atenção, porque o povo fica conversando e tinha que ser na sala de aula (A4).
Estudo aqui só há três anos, neste meio tempo, somente palestras (A2).
Que eu me lembre não, mas atividades como redação, muito raramente os professores dão uma e pede pra “nós” falar sobre isso (A1).
Não me lembro bem, só uma professora fez uma redação sobre isso (A6).
Os demais alunos que participaram da pesquisa, responderam que não se lembram de nenhuma ação envolvendo a temática, contudo, não responderam com certeza de que a escola não aborda o tema, a maioria diz que não se lembra direito, a acha que pode ser que tenham falado sim, ou que faz muito tempo e não se lembram exatamente do que foi feito para trabalhar sobre o tema.
Já na perspectiva dos docentes, os entrevistados acreditam que no dia a dia, ainda que de maneira informal, estão sempre falando em bullying, sobretudo, ao repreenderem os alunos, por estarem fazendo brincadeiras com os colegas, que segundo o corpo docente, pode revelar algo sistêmico e que possa estar ocorrendo, também em momentos que não seja somente enquanto os mesmos estão dentro da sala de aula, visto que os professores passam relativamente pouco tempo em contato direto com os alunos, se considerarmos o rodízio de aulas ao longo da semana. De maneira
geral, as respostas não foram muito específicas, em relação o que é de fato, realizado pela escola. As respostas transcritas abaixo, evidenciam de maneira geral, a existência de três opiniões diferentes: aqueles que afirmam que a escola trabalha o tema de forma recorrente e com frequência:
A escola faz sim, algumas campanhas durante o ano, os professores de matérias trabalham de forma isolada, mas como um todo, o corpo docente, preocupa-se com essas questões, o racismo (P2).
Sim, sim, já fizemos várias palestras, fizemos trabalhos com os alunos, conscientização, mas eu nunca presencial presenciei bullying nos três anos que estou aqui na escola (P5).
Outros que admitem que no tempo em que estiveram lá (considerando que não são professores com mais de 5 anos de exercício nessa escola, não se lembram exatamente do que foi realizado:
Tem pouco tempo que eu estou aqui, mas acho que neste período não teve, mas acho que nunca teve nenhum caso pra falar que precisa tratar disso. Na biblioteca tem material, como revistas que falam sobre isso (P8).
Eu nunca participei de nenhum trabalho realizado pela escola sobre bullying, a não ser uma palestra que teve na escola, onde foi convidado alguns pais, professores e alunos, teve uma palestra! Mas um trabalho direto, com uma criança que estava sofrendo bullying e o pai foi convidado a vir aqui, eu nunca participei (P6).
E, enfim, uma terceira percepção na fala de uma professora e também ex-diretora, que apresenta a dificuldade de se trabalhar com os projetos, principalmente os propostos em programas de governos e que envolvem verbas, estes, muitas vezes, são “realizados” no âmbito formal e nem sempre são de fato praticados:
A escola pública, tem projetos obrigatórios a cumprir, constantemente. Mas chegam nos e-mails da direção, com pedido de urgência. A maioria não é executada, apenas preenchemos papéis nas reuniões pedagógica. Mas já houve projetos nesse sentido sim, executados, na maioria das vezes, nas aulas de educação cristã, para os alunos do ensino fundamental. Os alunos do ensino médio, já fizeram apresentações teatrais, excelentes sobre o assunto, nas aulas de arte. Mas foi pouco divulgado, os resultados são positivos, mas de pouca expressão (P2).
Mais uma vez, as respostas de alunos e professores expressam diferentes pontos de vistas, há uma divergência entre o que os alunos e professores alegam no que concerne às práticas de enfrentamento e tratamento do bullying nesta escola. Entretanto, face aos depoimentos de docentes e discentes evidencia-se que ações são imprescindíveis, pois considerando as palavras de Almeida et
al. (2018) o ambiente escolar deve ser um espaço saudável de construção de saberes, de convivência
e socialização, onde todos os envolvidos possam sentir-se em segurança e acolhidos.
2.7 A FAMÍLIA FRENTE AO BULLYING
Tanto a família como o Estado, este representando na escola, podem ser considerados como sendo os principais responsáveis para que as crianças e adolescentes se desenvolvam, essas duas instituições têm os seus deveres e obrigações no que tange a educação como consta no Art. 205 da Constituição Federal (BRASIL,1988: 57) que ressalta: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.” Ainda de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional, a educação é dever da família e do Estado, pautada na liberdade e solidariedade humana, para assim garantir o desenvolvimento pleno do aluno/criança, pautando sempre em igualdade para todos e garantindo sempre um padrão de qualidade no ensino objetivando a criação de sujeitos críticos e participativos na sociedade. (BRASIL,1996) Neste contexto, a pesquisa, interessou-se por sabe de professores e alunos, qual a participação da família, tanto no que diz respeito à situações de bullying, bem como de relações ou episódios conflituosos na escola.
Alguns alunos, evidenciam que em grande parte dos casos, as vítimas não contam às suas famílias, sobre situações de conflito ou bullying, que acontecem na escola:
Muitas vezes nem fica sabendo, ta trabalhando em casa, não sabe o que o filho passa, fica por fora da situação (A3).
Família precisa ser presente. Conversar, observar mudanças de comportamento, porque normalmente, as famílias nem fica sabendo das brigas dos filhos na escola, porque a gente também tem medo de contar (A2).
Muitas das vezes, as pessoas tem medo e vergonha de falar que está sofrendo
bullying, então a família acaba não fazendo nada porque também não ficam sabendo
(A6).
A pessoa sofre calada, nessa faixa de idade, a gente normalmente não conta pros pais, a gente não desabafa e guarda tudo pra gente (A9).
O comentário de um discente em especial, demonstra que os alunos podem sofrer algum tipo de discriminação, dentro do próprio seio familiar, ele relata que já se sentiu discriminado e segundo ele, alguns casos, até mesmo na família pode ser difícil encontrar apoio.
Eu acho que a maioria das vezes o bullying pode acontecer na família, igual o outro exemplo que eu dei, a pessoa pode ser lésbica, a família também pode fazer bullying, quando acontece por outros tipos, a família defende, mas por conta dessas coisas de opção sexual, a família costuma nem defender, prefere fingir que nada está acontecendo.Eu mesmo, como eu falei lá quando ‘ce’ me perguntou sobre o bullying, como eu sou bissexual, as próprias pessoas da família da gente não gosta, ainda bem que minha mãe, ela me ajuda, arrumou psicólogo por causa da minha timidez, mas
eu sei que tem muita gente, que tipo assim, já trata a gente diferente, porque não entende né, pensa assim “ah pra que essa sem-vergonhisse” não entende como que as coisas funciona,, então eu acho sim, que as vezes o negócio (o bullying) começa dentro de casa mesmo, e aí quando é assim, ninguém tá nem aí pro que acontece na escola (A8).
Para a mesma temática, as falas dos professores também denotam um certo distanciamento das famílias na vida escolar dos jovens, revelando uma característica interessante, já que as famílias, normalmente, têm interesse numa trajetória de sucesso dos filhos na escola, mas parecem não compreenderem a importância da participação ao longo desse processo. Reali e Tancredi (2005) afirmam que embora os pais demonstrem interesse na escolarização de seus filhos, visto a tamanha importância que tem o estudo na vida de um indivíduo, muitas vezes não demonstram o mesmo interesse na participação na vida escolar da criança.
Nós, professores do ensino médio, denunciamos essa situação para a supervisão pedagógica e até mesmo para direção, mas não sabemos o motivo pelo qual as situações, assim, não são resolvidas, quase nunca. Talvez o alvo seja vulnerável por estar sozinho também, até nas relações familiares. As famílias são muito ausente no ensino médio, muitos quando os procuram para ajudar, negam que tenham problemas desse tipo (P4).
As vezes só fica sabendo quando agrava o caso. Aí a família fica sabendo, e precisa trabalhar, tanto a família de quem sofre como também a família do ou dos agressores (P9).
Não, as vezes que eu presenciei alguma reclamação por bulliyng, geralmente os pais por falta de preparação, são tão violentos quanto quem comete o bullying. Então, é essa proposta de como resolver nunca parte deles, eles simplesmente falam que querem a situação resolvida, ou que vão tomar uma atitude mais drástica, geralmente ou uma agressão ou processos contra a escola. Mas é. propor, nem propor a ação, eles não se disponibilizam muitas vezes nem de tentar conversar com os filhos, quando os filhos são os agressores (P1).
A fala dos professores também evidencia que a família nem sempre é participativa da vida dos seus filhos, no contexto social e escolar. E parece dar atenção à vida escolar dos filhos, somente quando estes apresentam outros problemas que, na visão dos pais, requerem a intervenção ou o conhecimento deles na solução de possíveis situações conflituosas, o que não parece ser o caso de situações de bullying.
2.8 ENFRENTANDO O BULLYING NA ESCOLA NA PERSPECTIVA DA INOVAÇÃO SOCIAL Sendo a escola um extrato da sociedade, segundo Almeida (2017), um possível veículo reprodutor dos preceitos capitalistas, ao qual, várias características negativas são atribuídas, para o enfrentamento do bullying e de outras problemas sociais, a escola precisa preocupar-se então, em buscar caminhos que não reproduzam o modelo injusto ou excludente de sociedade.
Nesse sentido, Carbonell (2002), aponta para a construção de relações mais horizontalizadas na escola, o apreço à autonomia, bem como as práticas inovadoras por parte do corpo docente, e que tenham um caráter permanente e não só esporádico. Visto que o conhecimento não é meramente um conjunto de informações que são transmitidas aos alunos na escola, são princípios, crenças, convicções, valores, símbolos, rituais, linguagens, opiniões, argumentações e outros componentes que estão mais ou menos interconectados e atados como fios de uma rede, é que a escola pode realizar ações para começar modificar a sua realidade.
De acordo com Saviani (2014), e a pedagogia histórico-crítica, é na escola que são produzidas em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida historicamente pelo conjunto dos homens. A educação é entendida como uma mediação no interior da prática social, demonstrando assim, que por mais que suas práticas sejam limitadas e que uma única escola, não possa acabar de uma vez com o problema do bullying, ela deve permanecer atenta e disposta ao enfrentamento, como uma atividade contínua. Além disso, embora esse fenômeno seja recorrente em diversos locais, como em instituições de vários tipos, como na família, nas faculdades, no trabalho, é principalmente nas escolas, sobretudo nos ensinos fundamental e médio, públicas e privadas, que ele ocorre e embora já existam inúmeros estudos e até propostas de enfrentamento, o bullying ainda é um problema longe de ser resolvido ou mesmo minimizado.
Dentro desta temática, foi perguntado aos entrevistados, qual ou quais as possíveis atividades que poderiam ser realizadas, inclusive como sugestão do produto técnico da pesquisa, para que o tema fosse trabalhado junto a professores e alunos e que pudesse fomentar à a participação significativa, o engajamento, visando ações que possam de fato, representarem mudanças no ambiente escolar. A fala dos alunos, aponta para a necessidade de abordar o tema, com sugestões variadas sobre o que poderia ser feito.
Palestras, debates com alunos e professores dentro da sala, entre as salas, no começo eles iam ficar meio assim de falar, mas depois se envolveriam bem (A1).
Professores e alunos fazerem uma campanha, falar sempre e deixar quem está vindo agora, já ensinar o que é certo ou errado. Deixar um cartaz ou bilhete pro outro, ser carinhoso com os outros colegas (A6).
Mostrar pros alunos e para os professores, o que a outra pessoa sente quando sofre
bullying, se colocar mais no lugar da outra pessoa e aceitar ela do jeito que ela é, se
ela é feliz daquele jeito, é o que realmente importa (A9).
Dinâmica, chamar umas pessoas de uma sala, fazer uma roda e cada um expor seus sentimentos, e quem não gosta de brincadeira poder falar, o professor vai explicando que é errado, essas coisas (A7).
Dinâmica, interação entre alunos e professores, porque sei lá com palestra, palestra a pessoa nem é daqui (A6).
Ah pra mim interessante seria um teatro, tipo quem sofre o bullyng, mostra no teatro e na peça a pessoa faz alguma coisa que dá a volta por cima, essas coisas. O professor fazer o papel do aluno que tá tendo bullying (A2).
Um fato a ser destacado, foi que, assim como demonstram as respostas transcritas anteriormente, bem como com as demais, entre todos os alunos respondentes, apenas um não citou a figura do professor, ao responder sobre o que poderia ser significativo ao tratar do tema bullying na escola. Eles parecem depositar na figura do docente, uma certa esperança de que falem sobre o assunto e até mesmo que ajam com empatia, como representado na resposta do aluno 2, ao sugerir que o professor faça no teatro, o papel do aluno que sofre bullying.
Acerca desta observação, Tardif (2002) explana que os profissionais da pedagogia devem ser preparados para lidar com inúmeros desafios suscitados pela escolarização de massa em todos os níveis do sistema de ensino. Afirma ainda que, ao entrar na sala de aula, o professor penetra em um ambiente de trabalho constituído de interações humanas, as interações com os alunos não representam, portanto, um aspecto secundário ou periférico do trabalho dos professores, elas constituem o núcleo e, por essa razão, determinam a própria natureza dos procedimentos e, portanto, da Pedagogia.
Dessa forma, ao desenvolver o labor docente, os professores não buscam somente realizar objetivos, eles atuam sobre um objeto, que são os seres humanos individualizados e socializados ao mesmo tempo, portanto, as relações que eles estabelecem com seu objeto de trabalho são relações humanas, individuais e sociais ao mesmo tempo. (TARDIF, 2002).
Assim, as práticas de enfrentamento ao bullying na escola, poderão assumir um caráter de inovação social, na medida em que a comunidade escolar agir no sentido de “aplicar seus conhecimentos às necessidades sociais através da participação e da cooperação de todos os atores envolvidos, gerando soluções novas e duradouras para os grupos sociais” (BIGNETTI, 2011, p.4).
Em relação à mesma questão, os professores mais uma vez, apresentam uma visão um pouco mais dinâmica e porque não dizer, distante da realidade dos alunos, ainda que dividam o mesmo tempo e espaço, esta distância pode ter relação com a diferença etária entre eles, além de sinalizarem a percepção de que as práticas de enfrentamento ao bullying, devem ir ao encontro de uma concepção horizontal e inovadora da prática docente.
Eles gostam muito de projetos, teatros, dinâmicas, fugir da rotina do lápis e do papel. Eles gostam muito de sair da sala de aula (P7).
Eu penso que o trabalho tem que ser gradativo, tem que ser constante, tem que ser cobrado, tem que ser trabalhado, mas também com a família, a primeira a constatar a mudança no comportamento da criança, e do jovem é a família (P3).
Uma atividade que eles sintam prazer em participar, porque aí eles vão querer participar do que for proposto (P9).
Na minha opinião, eu acho que um material ideal tem que ser alguma coisa interativa, porque é... os alunos infelizmente vêm de uma cultura de não ler... de não procurar saber sobre essas informações. E o que eles tem de acesso a algo que tente propor a solução do bullying, são telenovelas, é. e coisas nesse sentido. Então algo relacionado a interação, que tenha uma parte pedagógica, mas que seja um jogo
interacional alguma coisa que faça com que o aluno pense na prática a expressão.
Algo que faça que eles interajam mesmo com a situação, tanto no papel de alguém que sofre o bullying, como no papel de alguém que comete né (P1).
Eu elaboraria um projeto na sala, onde eu encorajaria os meus alunos a procurar ajudar, caso isso acontecesse, falaria também como se defender dos colegas, sem medo, impor-se é a melhor opção. Perguntar o que é que eles preferem se é ficar sozinho, ou junto com o grupo, caso isso venha acontecer. Pra eles não serem Maria vai com as outras, se verem que uma pessoa está ofendendo ou implicando, ao invés de fazer isso também, chegar e aconselhar, falar: “Olha não vamos fazer isso”! Evitar apelidos, mostrar situações onde o adolescente já tenha passado por essa situação e sentiu-se triste, sem querer a ir à escola, voltar chorando pra casa, cheio de perder a hora, inventar desculpas, sintomas de depressão, comportamento estranho, que são as coisas que geralmente acontecem, quando o adolescente é vítima de bullying na escola. Mostrar situações de sofrimento, criar situações nas quais eles vejam que isso não é legal, eu montaria um projeto assim (P2).
Os professores parecem apontar a necessidade de que o trabalho de prevenção e enfrentamento, deve ter um caráter formativo, permanente e precisa se distanciar da rotina da sala de aula. Fica evidenciado nas falas que precisa ser algo que o conecte, consigo mesmos, com colegas e o ambiente em que vivem, para que possa então, ser significativa a ação que se pretende desenvolver. É neste sentido que a prática proposta a partir dos resultados da pesquisa, pretende, em consonância com Messina (2001), propor mudança a partir do local, e além disso propor que de fato algo possa ser feito de concreto, pois embora associe-se mudanças à ideia de promessas, distanciando-a muitas vezes da sua realização prática, compreendendo-a como um processo possível.
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir da pesquisa sobre a compreensão de alunos e professores do ensino médio, em uma escola da rede estadual e ensino, a respeito do bullying, seus determinantes e desdobramentos, foi evidenciada a necessidade de se apresentar uma proposta exequível para que o tema seja tratado em sala de aula.
Os professores entrevistados, em sua maioria, apresenta um conhecimento a respeito do que seja o bullying, relatam já ter sofrido ou presenciado situações desse tipo, quando ainda eram alunos, e de forma geral, afirmam que no dia a dia, sem atividades pontuais a respeito do tema, falam sobre o problema com seus alunos e na medida do que seja perceptível e possível, enfrentam essas situações quando da ocorrência delas.
Os alunos entrevistados, evidenciam que sabem diferenciar situações de bullying de outros tipos de violação de direito, abuso de poder, etc. E afirmam em sua maioria, sentirem falta de ações pontuais e específicas para que o tema seja tratado por todos no ambiente da escola, sentem-se sem o respaldo dos professores e acreditam que, oportunizar o diálogo e dar voz aos alunos que sofrem
bullying, pode ser uma estratégia eficaz na conscientização dos pares, no sentindo de compreenderem
esta violência como algo negativo e que traz muitos prejuízos a quem sofre e a quem pratica. Neste sentido é muito importante pensar em outros estudos a respeito do bullying, para que as demandas apresentadas e não contempladas por essa pesquisa, possam receber atenção e direcionar novas ações, que visam a transformação local, por meio de práticas científicas e educacionais inovadoras.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA. Felipe Mateus de. Repensando a escola na sociedade capitalsita a partir do caso do
colégio Goyases em Goiânia. Revista Posição. Ano 4, Vol.4, Abr./Jun. 2017.
ANTUNES, Deborah, C.; ZUIN, Antônio Álvaro, S. Do Bullying ao preconceito: Os desafios da barbárie à educação. Revista Psicologia & Sociedade, n. 20, v. 1, p. 33-42. 2008. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-71822008000100004&script=sci
_abstract&tlng=pt>. Acesso em 28 de fev. 2018.
BANDEIRA, Cláudia de Moraes e HUTZ, Claudio Simon. Bullying: prevalência, implicações e
diferenças entre gêneros. Psicol. Esc. Educ. [online]. 2012, vol 16, n.1, pp.35-44. ISSN: 1413-8557.
Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/pee/v16n1/04.pdf. Acesso em 25 Abr. 2018. BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016.
BEANE, Allan L. Proteja seu filho do bullying. São Paulo: BestSeller, 2008.
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988.
BRASIL, LDB. Lei 9394/96 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. 1996. Disponível em: < www.planalto.gov.br >. Acesso em 24 set. 2018.
CALHAU, L. B. Bullying: o que você precisa saber: identificação, prevenção e repressão. Niterói: Impetus, 2009.
CARBONELL, J. A aventura de inovar: a mudança na escola. Porto Alegre: Artes Médicas, 2002 CONSTANTINI, Alessandro. É preciso criar uma cultura contra o bullying. Aprendiz (on line). Set. 2006. Disponível em: http://portal.aprendiz.uol.com.br/content/e-preciso-criar-uma-cultura-contra-o-bullying. Acesso em 31 Mar. 2018.
ESTEBAN, M. P. S. Pesquisa qualitativa em educação: fundamentos e tradições. Porto Alegre: Artmed, 2010.
FANTE, Cleo. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 2ª edição. Campinas. Editora Versus, 224 p. 2005.
GOMES, Luiz Flávio; Et al. Bullying e prevençãoo da violência nas escolas: quebrando mitos,
construindo verdades. São Paulo: Saraiva, 2013. – Coleção saberes monográficos.
KARNAL, Leandro. Todos contra todos: o ódio nosso de cada dia. Rio de Janeiro: LeYa, 2017. MARTINS, M. J. D. O problema da violência escolar: uma clarificação e diferenciação de vários
conceitos relacionados. Revista portuguesa de educação. Braga. V.18, n. 1, p. 93-115. 2005
MELLO, Flávia Carvalho Malta; Et al. A prática de bullying entre escolares brasileiros e fatores
associados, Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2015. Revista Ciência & Saúde Coletiva, 22
(9): 2939-2948, 2017. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/csc/v22n9/1413-8123-csc-22-09-2939.pdf Acesso em: 20 Dez. 2017.
MINAYO, Maria Cecília de Souza. (Org). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 6ª ed. Rio de Janeiro: Petrópolis, 1995.
MESSINA, Graciela. Mudança e inovação educacional: notas para reflexão. Cadernos de Pesquisa, n. 114, n. 2, nov. 2001. p. 225-233
NETO, Aramis Antônio Lopes. Bullying: saber identificar e prevenir. São Paulo: Brasiliense, 2011. SAVIANI, Demerval. A Pedagogia Histórico Crítica. Revista Binacional Brasil Argentina. V.3 nº 02. P.11 a 36. Vitória da Conquista, Dezembro de 2014.
SMITH, P. K. (2002). Intimidação por colegas e maneiras de evitá-la. In D. Debarbieux & C. Blaya (Eds.), Violência nas escolas e políticas públicas (PP. 187-205). Brasília, DF: Unesco.