Alberto da Silva Moreira**, Ivoni Richter Reimer***
A RELIGIÃO NA POLÍTICA:
UMA APRESENTAÇÃO*
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* Recebido em: 18.11.2019. Aprovado em: 18.11.2019.
** Doutor em Teologia (Westfälische-Wilhelms-Universtät, Münster) e Ciências da Reli gião (UMESP). Docente no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC Goiás. E-mail: [email protected]
*** Pós-doutora em Ciências Humanas (UFSC). Doutora em Teologia/Ciências da Religião (Universität Kassel). Graduação em Teologia (EST São Leopoldo). Docente na PUC Goiás (PPG em Ciências da Religião). E-mail: [email protected]
A P R E S E N T A Ç Ã O D O D O S S I Ê
A
s ligações entre as religiões e a política são tão antigas quanto as civilizações e perpassam tanto o nível local como o regional e o internacional. As conexões dos grupos e movimentos religiosos com as formas estabelecidas de administra-ção do poder e do Estado sempre variaram muito, tanto geograficamente como ao longo do tempo. A própria teoria moderna do Estado surgiu na Idade Média tardia justamente como esforço teórico (e político) para delimitar as respectivas jurisdições e competências entre o Papa e o Imperador, entre o chamado poder espiritual e o poder material. Um modelo de estreita cooperação entre trono e altar foi por exemplo o sistema do padroado régio no Brasil. Mesmo depois da republicana separação entre igreja e Estado através da Constituição de 1891, a religião, no caso sobretudo o catolicismo, sempre esteve próxima, quando não diretamente envolvida, na política. A ditadura militar entre 1964 e 1985 opôs, pela primeira vez, Igreja e Estado, mas desde a retomada da democracia, tanto o campo religioso como a arena política brasileira se diversificaram de forma impressionante. Hoje temos igrejas e grupos religiosos que fundam, organizam e financiam partidos políticos, engajam-se e aos seus fiéis de forma explícita em campanhas eleitorais, mantém lobbies poderosos e bem organizados no Con-gresso, rateiam entre si em nível local ou nacional fatias do poder, quando não utilizam estratégias de médio e longo prazo para a ocupação de cargos e funções
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no aparato estatal, em vista dos seus interesses confessionais e de sua visão de mundo. Por outro lado, em aberto questionamento à tese acerca da perda de rele-vância das religiões na esfera pública, nenhum partido político brasileiro parece querer renunciar ao apoio político de certas instituições religiosas, como as igre-jas pentecostais. Contudo, tal cenário não é exclusivo do Brasil.
Em termos globais, as religiões também continuam influenciando a política nacional ou mun-dial, tanto nos países islâmicos, como no Oriente Médio e na África, mas também em Israel, na Rússia, na Índia e em muitos países asiáticos, nos Estados Unidos e na América Latina. Se em países europeus a discussão sobre a presença da religião na política se organiza em torno do tema da laicidade e do direito (ou não) da manifes-tação religiosa no espaço público, em muitos contextos asiáticos e africanos há uma interferência direta das religiões na política formal ou uma apropriação e uso plane-jado de elementos religiosos, sobretudo tradicionais, por parte dos agentes políticos no cenário político local. Frequentemente a forte presença da religião ou de elemen-tos religiosos tradicionais na política de países como Israel e Índia aparece através da sua conjugação com o nacionalismo autoritário, com regimes políticos que não possuem ampla base social de apoio e recorrem, por isso, a uma legitimação adicio-nal por parte da religião. No contexto brasileiro, as últimas eleições demonstram que também entre nós, um nacionalismo autoritário e conservador de direita, de recorte claramente neoliberal na orientação econômica, igualmente recorre a uma parce-ria com aquelas religiões e grupos religiosos/confessionais que podem lhe oferecer uma forte ‘autoridade moral’, que o legitimam por meio das crenças, atribuindo-lhe suposta confiabilidade e retidão (moralista), visto que tal autoritarismo estaria defen-dendo ‘a família’, as ‘tradições’ e ‘os valores’ do Ocidente cristão.
Como chegamos a essa situação? Que interesses perseguem as igrejas e instituições religiosas quando se engajam numa disputa eleitoral e nessa luta política? Têm as religiões uma teologia política própria que orienta as suas práticas no campo político? Qual o papel dos valores e influências religiosas na política oficial? Como ficam os conflitos inter-religiosos e as atividades e parcerias ecumênicas? Por que parece (re)surgir um nacionalismo autoritário que se combina com uma religião do cotidiano, de forma a cooptar os mecanismos do aparato estatal? Como se constituirão as relações de poder com e entre grupos ‘minoritários’? Como enfrentar os fundamentalismos religiosos na definição de políticas públicas próprias de uma sociedade democrática?
Essas e outras questões relevantes estiveram na raiz das motivações que levaram o Nú-cleo de Estudos Avançados em Religião e Globalização (NEARG), ligado ao Programa de Pós-Graduação stricto sensu em Ciências da Religião (PPGCR) da PUC Goiás, a organizar o III Colóquio Internacional “A religião na política: tendências atuais”, em maio de 2019 em Goiânia. Pesquisadores/as de diversas partes do Brasil e do mundo, das pertinências e competências teóricas mais
diversificadas participaram com suas pesquisas e reflexões. O presente dossiê recolhe as principais contribuições dos expositores/as do Colóquio, geralmen-te ampliadas e enriquecidas pelos debageralmen-tes havidos no próprio evento.
São quatro as contribuições internacionais apresentadas para este número especial da Caminhos: O professor Dr. Vincenzo Pace, da Uniiversità degli Studi di Padova/Itália e professor cola-borador do nosso PPGCR, apresentou a conferência Ethno-Religious Movements
Challenging the Secular State. Após tecer considerações acerca do fenômeno dos
fundamentalismos religiosos, apresenta pesquisa bibliográfica e de campo acerca de tais movimentos, com forte expressão popular, no Sri Lanka e na Índia. Como em outros tempos e em outros países, estes entendem a si próprios como repre-sentantes da verdade absoluta e transcendental e têm no Estado secular seu maior inimigo, porque seu poder não está ancorado nem legitimado na religião. Para estes movimentos, a sua religião deve ser a fonte das leis humanas, elaboradas pelo Estado. Com isto, movimentos fundamentalistas religiosos transformam seus princípios religiosos em categorias políticas autoritárias e nacionalistas.
Aprofundando estas reflexões e análises, o professor Dr. José Antonio Zamora, do Ins-tituto de Filosofia do Consejo Superior de Investigaciones Científicas, Madrid/ Espanha, elaborou a conferência e o texto Nacionalismo Autoritário e
“Reli-gião da Vida Cotidiana”: o populismo das classes médias na crise. Com base
em Marx e na observação na ‘religião de substituição’ no contexto da crise atual do capitalismo, apresenta argumentos para compreender as alianças en-tre populismos de características nacionalistas e os novos fundamentalismos religiosos, também chamados de etno-religiões. A imbricação entre a ‘religião da vida cotidiana’ e o nacional-populismo tem sua origem na violenta sociali-zação em sistemas capitalistas, principalmente em tempos de crise.
Adentrando parte do mundo árabe, o filósofo e teólogo muçulmano, professor e pesqui-sador do Centre de Recherches Économiques et Sociales (CERES) da Univer-sidade de Túnis, Tunísia, Dr. Kacem Gharbi apresentou a conferência e o texto
La Religion et la Politique dans le Maghreb Arabe: une relation ambigüe.
Destaca os países Marrocos, Argélia e Tunísia (Magrebe Árabe, na África do Norte) como exemplos, onde se vivem as ambigüidades da presença da reli-gião em espaço público, especialmente após os protestos sociopolíticos após 2011. De acordo com a diversidade cultural e política desses países, também o impacto do Islão tem suas peculiaridades em cada um deles. Diante das ambi-güidades existentes e a diversidade político-cultural, o esforço é de construir uma teologia de libertação tipicamente muçulmana.
O professor Dr. Michael Ramminger, fundador e coordenador do Institut für Theologie und Politik de Münster/ Alemanha, apresentou a conferência e o texto Die Rückkehr der
Religion als Funktion der Krise des Demokratischen Kapitalismus im Deutschen
Kontext. Ele mapeia a situação de igrejas e comunidades religiosas na Alemanha
dentro do contexto da sociedade burguesa secularizada. A crise religiosa e a crise burguesa e/ou democrática não abalam o capitalismo, que não precisa da democracia nem da sociedade burguesa. O “Retorno da Religião em função da crise do capi-talismo democrático no contexto alemão” coloca novos desafios e exigências, que podem ser articulados pelas Teologias Políticas, que passa a ser foco da abordagem. Do Brasil, temos cinco participações em forma de texto:
O Dr. Jung Mo Sung, professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião (UMESP) apresentou conferência e texto sobre Direitos Humanos,
Neolibera-lismo e Religião. A partir da percepção de uma profunda mudança atualmente
existente em relação aos Direitos Humanos, principalmente os direitos sociais, ele reflete e convida à discussão sobre bases e princípios teológicos acerca des-te des-tema e sua relação com a política neoliberal. Enfatiza especialmendes-te a noção da ‘ilusão’ dos DDHH nas sociedades capitalistas neoliberais e apresenta pers-pectivas sobre direitos sagrados, elaborados pelo Papa Francisco.
O professor Dr. Alberto da Silva Moreira, coordenador do NEARG e docente no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião (PUC Goiás), apresentou conferência e texto Esquerda Católica, Pentecostais e Eleições no Brasil: um conflito entre
pro-jetos antagônicos. Apresenta um panorama das interações da religião na política
no Brasil desde 1964 até 2018, destacando grupos católicos de esquerda, ligados à Teologia da Libertação, e grupos neopentecostais que adentraram não apenas a política, mas partidos políticos, claramente de direita. Sua conclusão é que setores católicos de esquerda, além de atualmente enfretarem a tradicional direita católica, agora estão diante de uma religiosa e politicamente expressiva direita evangélica neopentecostal, possivelmente mais poderosa que aquela. Os desafios são muitos e a necessidade de rearticulação e revisão está colocada como possibilidade de enfrentamento nas novas relações e funções da religião nas esferas da política. Apontando para experiências históricas em que movimentos sociais e religiosos feministas
interagem nas relações políticas, com conquistas e revezes na conscientização, mo-bilização e políticas públicas para mulheres, principalmente, a Dra. Ivoni Richter Reimer, professora no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião (PUC Goiás) apresentou palestra e texto As Teologias e Práticas Políticas de Movimentos
(Eco)Feministas. Faz um histórico das ‘ondas’ dos movimentos feministas também
no Brasil e destaca as interações de mulheres no campo da religião, teologia e es-piritualidade com estes movimentos. Dentro do novo contexto político-ideológico nacional e internacional, apresenta alguns desafios que emergem de novas situações e a necessidade de revisão metodológica e estratégica (eco)feminista nesse contexto.
O Dr. Luiz Signates, professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião (PUC Goiás) apresentou palestra e texto Espiritismo e Política: os tortuosos
caminhos do conservadorismo religioso e suas contradições no Brasil. Aponta
para transformações do espiritismo na relação com a política: com característi-cas individualista e moralista, marcado por dinâmicaracterísti-cas de despolitização, mani-festava-se politicamente para afirmar a liberdade religiosa para debater acerca de aborto e pena de morte. Recentemente, em meio à campanha eleitoral de 2018, em Goiânia, Divaldo Pereira Franco, por meio da internet, fez emergir controvérsias que interviram na forma espírita de lidar com temas políticos. Do nordeste brasileiro, o Dr. Emanuel Freitas da Silva, professor na Universidade Estadual
do Ceará, apresenta o texto Uma “afronta aos ideais laicos do estado”: cultu-ra versus religião na plataforma eleitocultu-ral de um pastor-candidato. Desde 2014, o pastor Muralha, candidatando-se para deputado federal pela Bahia, defende que a religião não deveria participar da esfera pública, política. Seu posicionamento é verificável em seu canal no YouTube. Questiona-se seu argumento ‘laicizante’, em vista dos conteúdos apresentados nesse canal, de características cultural religiosas. Também acolhemos, neste número especial, duas Resenhas que versam sobre as
inter-conectividades entre religião na política e política na religião:
O Dr. Danilo Dourado Guerra, professor na Faculdade Araguaia, Goiânia/GO, contribui com a apresentação do livro de Elisabeth Schüssler Fiorenza, Jesus
e a política da interpretação, publicado em 2005, pela Editora Loyola. Não
é recente, mas a temática e os questionamentos não são muito conhecidos no Brasil: as intervenções e os efeitos históricos da interpretação acerca de Jesus nas relações ideológicas e políticas, portanto também socioculturais de pesso-as e instituições cristãs. São motivos relevantes para sua leitura.
O recente livro de Maria Clara Bingemer, Latin American Theology: roots and
bran-ches, publicado pela Orbis Books, 2016, foi resenhado pela Dranda. em
Te-ologia (FAJE), Karen de Souza Colares. Ele trata da TeTe-ologia da Libertação no novo contexto e sob os novos impulsos e motivações da práxis pastoral do Papa Francisco. Trata da história, dos desafios e proposições da Teologia da Libertação, que animam para a leitura.
Como editor e editora deste número especial da Caminhos, nossa intenção, ao entregar esse rico material ao público mais amplo, é fazer avançar tanto a reflexão cien-tífica como contribuir para uma prática política cidadã democrática sempre mais consciente, crítica e responsável.