Dossiê
ARRÁBIDA, TERRITÓRIO DA ESPIRITUALIDADE:
GEOLOGIA, ARQUEOLOGIA E ARTE*
Luís Jorge Gonçalves**
Mila Simões de Abreu***
Cláudia Matos Pereira****
Resumo: a Cordilheira da Arrábida é um pedaço da paisagem mediterrânica nas margens do Oceano Atlântico. Neste texto analisam-se as diferentes estratégias de ocupação deste território, desde a emergência do género Homo até à conquista portuguesa da Arrábida, em 1199. Trata-se de uma visão de longa duração, onde se procura compreender como o homem utilizou esta paisagem singular, no seu contexto envolvente. A Arrábida ao longo da história foi espaço de habitat, de atividade subsistência e de espiritualidade. Este texto resulta do conhecimento adquirido por cerca de cem anos de investigação e de sete anos de prospeções arqueológicas (2007-2014). São apresentadas algumas leituras inéditas. Palavras-chave: Arrábida. Arqueologia. Habitat. Espiritualidade. Arte.
ARRÁBIDA, A SPIRITUAL TERRITORY: GEOLOGY, ARCHAEOLOGY AND ART
Abstract: the Arrábida mountain range falls within a Mediterranean landscape on the shores of the Atlantic Ocean. This article analyses occupation strategies of this terri-tory, from the emergence of the genus Homo to the Portuguese conquest of Arrábida in 1199. It is a long-term vision which seeks to understand how people used this unique landscape in the context of its surrounds. Throughout history, Arrábida was a space for habitat, subsistence activities, and spirituality. The disclosure is the result of knowledge acquired during a hundred years of research and seven years of archaeological surveys (2007 – 2014). It also presents several unpublished visions.
Keywords: Arrábida. Archeology. Habitat. Spirituality. Art.
* Recebido em: 21.04.2020. Aprovado em: 15.08.2020.
** Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes, Centro de Investigação e Estudos em Belas-Artes da Universidade de Lisboa. E-mail: [email protected]
*** Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Centro de Estudos Transdisciplinares para o Desenvolvi-mento. E-mail: [email protected].
**** Centro de Investigação e Estudos em Belas-Artes da Universidade de Lisboa. E-mail: claudiamatosp@ hotmail.com
S
ituada a cerca de 40km ao sul de Lisboa, a Cordilheira da Arrábida tem uma dimensão aproxi-mada de 35 por 6km (figura 1). O seu alinhamento é de Oeste/Sudoeste-Este/Nordeste, sendo que a vertente sul está voltada para o Oceano Atlântico. Posiciona-se entre a Latitude de 38º 26’ Norte a 38º 35’ Norte e entre a Longitude 8º 52’Oeste a 9º 06’ Oeste. Apresenta uma superfície de 108.210km². A sua altitude varia entre 0 e 510metros. Corresponde a uma região situada entre a foz do rio Sado, a Sul, e a foz do rio Tejo, a Norte.Figura 1: Situação da Cordilheira da Arrábida na Península Ibérica Fonte: Google Maps, 2020.
Foi no início da Era Mesozoica, há cerca de 250 milhões de anos, que se começou a demarcar a área geográfica, onde se veio a formar a Cordilheira da Arrábida. Dessa Era, com recuos e avanços do mar, são encontradas sequências sedimentares, essencialmente, carbonatadas (calcários e dolomi-tos), margosas e detritos, da Época do Jurássico Inferior. São ainda observáveis vestígios do território, anterior à sua formação e do Oceano Atlântico, através das pegadas de dinossauros, na Pedreira do Avelino, com 150 milhões de anos, na Pedra da Mua, com 145 milhões de anos, e nos Lagosteiros, com 130 milhões de anos (CAETANO et al., 2016).
A Cordilheira da Arrábida é uma cadeia de enrugamento. Há cerca de 20 milhões de anos, na
Era Cenozoica, e na Época do Miocénico Superior, deu-se a sua formação, da compressão tectónica
africana e euroasiática. Estes movimentos compressivos geraram picos em torno dos 3000 metros. Nos movimentos regressivos, tornou-se em uma ilha, há cerca de 18 milhões de anos. Há cerca de 5 milhões de anos, as erosões já tinham dado à Arrábida a atual configuração.
Esta Cordilheira é formada, de Este para Oeste, pela Serra de S. Luís (395m), Serra do Louro (230m), Morro de Palmela (260m), Serra dos Barris (255m), Serra do Formosinho (510m), Serra do Risco (380 metros, no Píncaro), vale tifónico de Sesimbra, Serra da Achada e a plataforma do Cabo (entre os 180-130m de altitude).
Dos seus pontos mais altos, como a Serra do Formosinho, consegue-se vislumbrar a foz do Sado e o Oceano, a Sul, e o rio Tejo, a Norte. No século XVII, Frei Agostinho da Cruz escreveu um poema onde realça esse olhar:
Alta Serra deserta, donde vejo As águas do Oceano duma banda, E doutra já salgadas as do Tejo:
(Elegia III do poema Arrábida)
A Serra do Risco, com 380 metros, no Píncaro, constituiu um marco da geologia, por ser a maior vertical calcária sobre o mar do continente Europeu (CAETANO et al., 2016). Trata-se de uma serra especial, porque a sua forma apresenta o perfil de uma face humana. Esta aparência da Serra do Risco levou o poeta da Arrábida, Sebastião da Gama, a descrevê-la como uma “onda fossilizada”. A Norte desta Cordilheira situa-se a Lagoa de Albufeira, com ligação ao Oceano Atlântico. Trata-se de uma área lagunar, na atualidade, que foi até há 5 milhões de anos a foz do Rio Tejo. A sua proximidade faz com que tenha feito parte do mesmo ecossistema.
O facto de a Arrábida ser uma cadeia montanhosa calcária leva a que exista um extenso número de cavidades cársicas. Estas foram abundantemente utilizadas pelos homens em diferentes épocas, como espaço de habitat provisório, como local de sepultura e lugar de rituais (CALADO et.al., 2009; FRANCISCO, 2016).
A sua natureza calcária, exposta a Sul, torna esta Cordilheira um ecossistema especial. Trata-se de uma paisagem mediterrânica em pleno Oceano Atlântico. Como escreveu o geógrafo Orlando Ribeiro “a Cadeia da Arrábida é difícil para a ocupação humana, pela natureza agreste dos seus solos” (RIBEIRO, 1986). Aos maquis, com os seus solos difíceis para a agricultura e expostos a Sul, juntam-se vales onde as terras permitem práticas agro-pastoris, não impedindo que os homens ocupasjuntam-sem a Arrábida, como local de habitat e de exploração dos seus recursos naturais. A sua flora é mediterrânea, mas o Oceano Atlântico não deixa de influenciar o coberto vegetal. Espécies como o zambujeiro (Olea
maderensis), aroeira (Pistacia lentiscus), carrasco (Quercus coccifera), tojo (Ulex europaeus), sobreiro
(Quercus suber), alfarrobeira (Ceratonia síliqua), medronheiro (Arbutus unedo), camarinha (Corema
álbum), esteva (Cistus ladanifer), pinheiro manso (Pinus pinea) estendem-se pela cadeia montanhosa,
ou encontram-se em locais específicos.
A Arrábida tem uma grande visibilidade na paisagem circundante. Quem se dirige de nascen-te para poennascen-te, nota que ela é observável a cerca de 50 km, destacando-se como uma referência no horizonte. O mesmo acontece para quem vem do Sul, pelo mar, onde este maciço se impõe na costa marítima.
A Arrábida é uma região onde se realizaram diferentes prospeções arqueológicas sistemáticas, desde o início do século XX. As últimas prospeções arqueológicas e espeleológicas foram realizadas entre 2007 e 2014 e deram origem a duas publicações (CALADO et al., 2009; GONÇALVES et al.,
2016). A partir dos dados recolhidos, apresenta-se uma perspetiva de quais foram as estratégias de
ocupação do seu território, em cada período, e de como houve aproveitamento dos recursos em cada momento. Mas esta Cordilheira é um território que apela à espiritualidade e, por isso, vai-se olhar para este lugar como espaço de Santuário, onde necessariamente há distintas visões espirituais, em diferentes períodos temporais.
PRIMÓRDIOS DA OCUPAÇÃO HUMANA DA ARRÁBIDA
Os contextos do Paleolítico inferior são ainda mal conhecidos e pouco abundantes. Foram identificados sítios do Olduvaiense, referidas ainda como ‘Pebble culture’ ou ‘Vilafranquiano médio’, em uma área a norte da Arrábida, junto da Lagoa de Albufeira (AZEVEDO et al., 1979). O reconheci-mento foi realizado à superfície, em contextos do Pleistoceno, com conglomerados de calhaus rolados de quartzito (cerca de 70%) e quartzo (cerca de 30%), em áreas denominadas Quinta do Perú, Quinta
dos Arcos, Besteza da Mó. Trata-se de terrenos arenosos e argilosos, em uma zona de influência da bacia do rio Tejo, que pode ter constituído área lagunar (AZEVEDO et al., 1979). No entanto, não existem cronologias absolutas.
Nas áreas costeiras da Arrábida foram também caracterizados restos de indústrias líticas em diversas praias, com abundância de seixos de quartzito e, em muito menor quantidade, de nódulos de sílex. Estes locais estão concentrados no litoral a Sul e a Oeste, nas proximidades do Cabo Espichel. Os vestígios para esta cronologia antiga são ainda escassos, não estão contextualizados e, em muitos casos, carecem de provas mais conclusivas.
Um desses locais denomina-se praia do Forte do Cavalo, na encosta sul da Arrábida, que pode ser representativo destes locais do litoral sul e ocidental desta Cordilheira. Os vestígios líticos podem estar associados ao Homo Heidelbergensis, há cerca de 500.000 anos atrás. Provavelmente correspondem ao Marine Isotope Stage 13 (MIS), entre os 524.000 e 474.000 anos atrás, um período interglaciar, na Europa.
O HOMEM DE NEANDERTAL
O momento seguinte leva-nos para cronologias entre os 106.000 e 86.000 anos atrás (ZILHÃO
et al., 2020) e os 30.930 anos atrás (CRUZ et al., 2008), correspondendo ao Mustierense. Estas balizas
cronológicas integram-se entre os MIS 5b-c-d, ou seja, um o período de oscilação de clima entre gla-ciar e interglagla-ciar, em curva descendente para o período MIS 2, cerca dos 18.000 anos atrás, quando atingiu um período extremo de frio.
A descoberta deste vestígio do Homem de Neandertal na Arrábida ocorreu na Gruta da Figueira Brava (figura 2). Na atualidade esta gruta está encostada ao oceano, a cerca de dois metros acima do nível médio do mar, tal como pode ter estado há cerca de 80.000 anos atrás. No período de há cerca de 30.930 anos atrás, a gruta estaria mais longínqua do oceano, ocupada por uma planície litoral, com cerca de dois quilómetros.
Figura 2: Reconstituição idealizada da Gruta da Figueira Brava ocupada pelos Neandertais. Vista interior. Fonte: Desenho de Cláudia Matos Pereira, 2015.
Nesta gruta foi possível identificar cerca de quatrocentas ossadas de grandes mamíferos. Entre as espécies identificadas estão bovídeos, rinoceronte, cavalos, cabra montês, veado, hienas e javali. A presença de vestígios destes animais sugere que a planície litoral estava povoada por rinocerontes, manadas de bovídeos e de cavalos. A proximidade da montanha permitia a proliferação da cabra montês. Os veados pressupõem uma paisagem de floresta, talvez na vertente norte da Arrábida e na planície litoral. Outras espécies, como o já extinto pinguim Arau-gigante (Pinguinus impennis) e a Foca-anelada (Pusa hispida), também estão documentadas (RAPOSO et al., 2000). O pinguim Arau-gigante teve uma área de extensão no Atlântico Norte, sendo a sua ocorrência documentada, mais a Sul, na Península Ibérica. Foi extinto em 1844, na ilha de Eldey, na Islândia. A Foca-anelada ainda hoje se encontra em paisagens da península escandinava, no mar Báltico e em regiões polares a Norte. A existência associada destas espécies parece remeter para um clima frio, talvez próximo do atual clima do litoral sul da Noruega.
Esta abundância de espécies permitiu ao Homem de Neandertal ter uma vida confortável, com abundância de comida, nestas paragens aquecidas pelo Sol, a Sul. Há cerca de 106.000 - 86.000 anos atrás, houve um aproveitamento dos recursos marinhos através da pesca e da coleta de outros frutos do mar (ZILHÃO et al., 2020). Os vestígios da indústria lítica também são abundantes. Há um predomínio de raspadores, os simples convexos e com denticulados. Os utensílios e os núcleos são residuais. No que se refere às rochas, há um maior predomínio do quartzo, sob a forma de seixos, e calcários, recolhidos em cascalheiras. O talhe levallois não é abundante. Esta gruta pode ter funcio-nado como um abrigo, como apoio ao acesso fácil a recursos da área envolvente. Uma cronologia de 30,930±700 – 30,050±550 anos BP/14C, corresponde a um dente (P4), com incisões intencionais no esmalte dentário (CRUZ et al., 2008).
Estas cronologias mais recentes do Homem de Neandertal na Arrábida são de uma época em que o Homo sapiens já se tinha disseminado pelo continente europeu. O litoral da Península Ibérica parece ter constituído o último refúgio do Homem de Neandertal, que estava num acentuado decréscimo demográfico que o levou à sua extinção. Nesta Cordilheira, os escassos vestígios encontrados parecem ser reveladores da queda das populações neandertais e, portanto, da pouca diversidade genética, que pode ter ditado o seu desaparecimento (RAPOSO et al, 2000).
O HOMO SAPIENS NA ARRÁBIDA E A “VÉNUS” DA TOCA DO PAI LOPES
Sobre os inícios do Homo sapiens, a Arrábida ainda não revelou os seus segredos. Os dados sobre a vivência quotidiana não abundam (SERRÃO, 1994; CALADO et al., 2009; GONÇALVES et al., 2016). Apesar do imenso trabalho arqueológico e de pesquisa espeleológica, em uma área de profusão de grutas, não foi ainda descoberta arte rupestre. Trata-se de “um estranho vazio” (CALADO et al., 2009). O mesmo acontece com a região envolvente (ABREU, 2012 e 2016).
Essa ausência parece, portanto, muito provavelmente ter, como razão principal, as adversas con-dições ambientais para preservação e conservação, tanto de pinturas, como de gravuras. A frequência, por exemplo, das grutas por parte dos nossos antepassados principalmente em épocas mais remotas, faz-nos não excluir que no futuro essa lacuna seja preenchida e que um dia tal, como no resto do país, aí sejam encontrados vestígios rupestres. Curiosamente é exatamente nessa zona que se encontra um dos dois únicos exemplos de vénus conhecidos, até ao momento, em território português. As chamadas vénus, são representações antropomorfas, normalmente de pequenas dimensões, claramente femininas, nas quais os atributos do género, como por exemplo, seios, vulva ou coxas são muito acentuados e mes-mo exagerados e que tipologicamente se inserem naquilo a que se convencionou chamar “arte móvel”. Ao longo dos tempos, devido a características, essencialmente, sexuais as vénus têm sido associadas a possíveis cultos da fertilidade tendo-lhes sido mesmo, por alguns, atribuídas qualidades divinas e assim sendo são publicadas como verdadeiras Deusas Mãe. Tais interpretações podem ser controversas mas a importância no Paleolítico Superior dessas pequenas estatuetas é inegável (DELPORTE, 1979).
Sabemos com segurança que as “vénus” têm uma ampla distribuição geográfica que vai desde a Sibéria às margens do Atlântico, mas com especial incidência num território que se estende entre a Alemanha e a República Checa, sendo também conhecida em outras importantes zonas de ocupação paleolítica, como a Dordonha, em França, e o território central da Rússia.
Cronologicamente a sua presença estende-se desde cerca dos 40.000, nos casos mais antigos, até ao 10.000 anos atrás. Inexplicavelmente as “vénus” são objetos raros em contexto paleolítico peninsular, existindo poucos exemplares em comparação com outros achados de arte móvel. Em Portugal conhecem-se apenas duas. A pequena estatueta feita em osso de rena, encontrada furtivamente nos anos oitenta por um caçador na freguesia de Santiago do Escoural (Montemor-o-Novo), ao que parece não muito longe da famosa gruta decorada com o mesmo nome e identificada nos anos oitenta por George Zbyszewski e Octávio da Veiga Ferreira (1985) e a chamada Vénus da Toca do Pai Lopes. O exemplar de Vénus da Toca do Pai Lopes (figura 3) foi encontrado na atual união de freguesias de São Julião, Nossa Senhora da Anunciada e Santa Maria da Graça, no concelho de Setúbal, numa pequena gruta-abrigo, entretanto desaparecida, que estaria localizada por detrás de um parque de campismo, com igual nome relativamente próximo do mar. Trata-se na verdade de um nódulo de sílex, de cor muito escura, quase negra, muito patinado e com pequenas depressões espalhadas pela superfície. Pouco se sabe com exatidão das circunstâncias do achado não sendo mesmo muito clara a data em que teria realmente tal acontecido. Para uns foi em 1981 (VILAÇA, 1982, p. 21), para outros em Janeiro de 1983 (Banco de Dados Endovélico). De acordo com Manuel Farinha dos Santos, que a publica no volume VI-VII da revista “Setúbal Arqueológica”, com data de 1980-81, foi-lhe entregue em 22 de Janeiro “último” (SANTOS, 1980-81, p. 29), ou seja, em 1983, pois texto tem no seu final a data de 10 de Julho de 1983. Nessas linhas Farinha dos Santos aponta como data da “recolha” o verão de 1982 e no aditamento da sua obra “Portugal Pré-histórico” o mesmo investigador confirma essa data (SANTOS, 1985, p. 179). A discrepância das datas deve-se a meras questões editoriais e talvez a interpretação das mesmas. O volume da revista, publicada pela então Assembleia distrital de Setúbal, saiu em 1983, porém, com data de 1980-81, o que tem assim causado alguma confusão sobre quando foi feito achado.
Figura 3: Vénus. Estatueta do Paleolítico Superior da Toca do Pai Lopes, Setúbal. Fonte: Farinha dos Santos, 1980-1981.
Gomes Moreira que a encontrou e a levou à Farinha dos Santos é descrito como tendo sido aluno do Instituto Politécnico e “bastante interessado pela Arqueologia” (SANTOS, 1980-1981, p. 29).
Como especialista em arte Paleolítica, Farinha dos Santos não hesitou em classificá-la como “Vénus”, mas decidiu ouvir outras opiniões e mostrar a peça a outros arqueólogos, como os já citados Georges Zbyszewski e Octávio da Veiga Ferreira, mas também à Carlos Penalva e Mário Varela Gomes. Afirmando que “os resultados obtidos no decorrer destas diligências foram extremamente favoráveis” (SANTOS, 1980-81, 30) decidindo com o apoio de José Manuel Rolão, Luis Miguel Simões e Pedro Encarnação visitar a zona do achado que é descrita como:
uma galeria subterrânea que se abre em formações miocénica do complexo greso-calcário (...) a escassos metros da orla marítima dos estuários do Sado e tem uma pequena área central pe-riodicamente inundada através de três aberturas, devido ao regime das marés. Esta cavidade mede 49, 1m de comprimento e possui alturas que ultrapassam, na maior parte do percurso (...). A superfície da galeria está recamada de areia algo concrecionada, aflorando aqui e além seixos e pedras informes (SANTOS, 1980-81, p. 31).
Acrescenta-se que a boa potência dos enchimentos faz pensar na existência de paleosolos sus-ceptíveis de serem escavados. Tal, porém, infelizmente nunca veio a ser levado a cabo.
Tal como em muitas das “vénus” conhecidas, a da Toca do Pai Lopes tem pequenas dimensões apresentando apenas 102 mm de comprimento, uma largura máxima de 36mm e pesando 85 gramas. As formas humanas aparecem apenas esboçadas. A cabeça está ausente, mas as nádegas e as coxas apresentam-se volumosas e de forma exagerada, tal como é costume em muitas das outras conhecidas. Os seios estão apenas levemente assinalados e as pernas terminam de forma pontiaguda. É inegável a semelhança do pequeno achado com a forma humana, mas a manipulação por parte do homem é bem mais difícil de ser provada. Numa análise atenta, nota-se que foi sujeita à uma ação de abrasão com pequenas marcas e depressões, quase como picotado, espalhadas por toda a superfície, mas tal pode, é verdade, ter acontecido de forma natural e sem intervenção humana. Se Farinha dos Santos (1980-1981) claramente pensa que se trata de um artefacto e atribui-lhe uma datação Madalenense, ou seja, ao período final do Paleolítico Superior, outros, como Raquel Vilaça, são mais cuidadosos (VILAÇA, 1986, p. 20-1) deixando a questão em aberto. O investigador português transcreve parte de uma carta recebida de Henri Delporte, o grande especialista francês de vénus, na qual este afirma “... Je vous envoie une photographie d’une statuette trouvée a Belves (Dordogne) resemblant à la votre...” (SANTOS, 1980-1981, p. 36).
A verdade é que são diversas as figurinhas, muito estilizadas com nádegas exageradas e com muitos poucos outros detalhes, conhecidas no Paleolítico Superior. Tipologicamente a “Vénus” da Toca do Pai Lopes tem, sem dúvida, diversos paralelos como, por exemplo, com a Vénus de Tursac encontrada em Sarlat, no Perigord, a “Vénus” da Pekárna, proveniente da Morávia, atual República Checa, as “Vénus” de Petersfels, descobertas em Engen, na Alemanha ou o pequeno pingente de azeviche conhecido como a Lady de Neuchâtel-Monruz, na Suíça. É realmente semelhante à esta-tueta encontrada em Pré-des-Forges à Marsangy, Yonne, França referida por Delporte à Farinha dos Santos (DELPORTE, 1979). Por vezes tais imagens, sem cabeça, corpo esbelto ou mesmo linear, mas com nádegas salientes, aparecem também gravadas e, até mesmo, pintadas, nas paredes rochosas de grutas como Les Combarelles, Les Trois Frères, Pindal, La Pasiega ou em blocos como os La Roche de Lalinde, na zona franco-cantábrica e, até ao ar livre, como é o caso de uma das figuras femininas de Vale de Vermelhosa, no Douro (ABREU et al., 1996). Genericamente estas figuras são, desde o século passado, chamadas por muitos investigadores de “claviformes”. A zona com a maior concentração desse tipo de imagens é conhecida em Gönnersdorf, em Neuwied, no Estado da Renânia-Palatinado na Alemanha e por isso as Vénus, com esses atributos, são chamadas por vezes de ‘tipo de Gönnersdorf’.
A datação proposta por Farinha dos Santos coloca o “objeto” encontrado na Toca do Pai Lopes, num contexto de final do período das glaciações ou início da época de transição, por volta dos 10.000 anos, ou seja, entre o Pleistocénico e o Holocénico. No caso português, infelizmente, a ausência de claros referimentos ou dos chamados contextos arqueológicos torna difícil uma decisão definitiva quanto à sua cronologia.
Nos últimos anos, pesquisas relacionadas com estudo da vegetação, diante do avanço da presença de grandes pradarias e do movimento de animais, em particular, de manadas de cavalos e auroques, além das numerosas gravuras, principalmente no Douro Português e, em especial no Vale do Côa, tem sugerido que entre 20.000 - 8.000 a.C. podem ter existido migrações humanas (ABREU et al., 2019). Assim, grupos humanos teriam, em certas alturas do ano, quando as temperaturas eram mais frias, se deslocado dos Pirenéus, e mesmo de zonas mais para o Norte, para o atual território português. Atrás de animais que procuravam pastos mais abundantes ou livres da neve e do gelo, os homens dessa época do Paleolítico Superior, atravessavam facilmente o grande vale do Ebro. Provavelmente, passa-vam o inverno em locais de microclimas, mais amenos, como era o caso do Côa, podendo continuar o caminho até ao litoral Atlântico. Tais movimentos podiam ser mais ou menos longos, ultrapassando períodos de um a dois anos. Estas migrações foram fundamentais, inclusive, para uma salutar troca genética entre grupos humanos. O estudo do material lítico identificado exatamente no Vale do Côa aponta para áreas de proveniência que vão dos Pirenéus à zona central da Península Ibérica e à zona de Estremadura Portuguesa. A “Vénus” da Toca do Pai Lopes podia ter sido trazida de uma área onde esse tipo de representação era mais comum do que na Arrábida, onde foi aí deixada.
Ofacto de ser o resultado ou não, de uma intervenção humana, este pode não ser o tema mais importante. Tal como acontece connosco, ao observar a referida “Vénus”, o antigo habitante da zona poderá ter visto e, provavelmente, ter reconhecido atributos antropomorfos, atribuindo-lhe significa-do. Por tal motivo, o remoto habitante poderia tê-la pego, levando-a consigo em seu trajeto. Se a sua presença dentro da gruta teria um significado mais profundo ou se seria fruto do acaso, é mais difícil de afirmar. Resta o facto que como “objeto” deva ser assinalado, levando em consideração as análises e estudos sobre o território onde foi achada, abrindo novos caminhos para investigações futuras. COMUNIDADES DE CAÇADORES RECOLECTORES DO MESOLÍTICO
Desde 2007, a realização de prospeções arqueológicas tornou possível detetar contextos do Me-solítico final, na área costeira, a oeste da Arrábida e no seu limite Norte. Parece aplicar-se “o modelo de litoralização do povoamento” (CALADO et al., 2009). Trata-se de uma região entre os concheiros do Rio Tejo e do Rio Sado. As futuras investigações podem estabelecer conexões entre estas três áreas regionais dos últimos caçadores-recolectores. Nos contextos encontrados, não se identificaram vestígios de fauna malacológica, em contraste com os concheiros dos rios Tejo e Sado. Tratam-se, provavelmente, de sítios ocasionais de habitat. Alguns são próximos do oceano, na área ocidental da Arrábida, casos de Amieira, Rio da Prata, Ribeira da Sachola e Lagoa de Albufeira (CALADO et al., 2009).
Na vertente sul da Arrábida, junto ao mar, houve notícias de um possível Concheiro na Praia de Galapos, na sua área central, mas do qual não há vestígios. No interior desta Cordilheira, há indí-cios do Mesolítico, no sítio conhecido como Lagão, na Quinta de Calhariz, onde passa um pequeno ribeiro, e no sítio de São Simão, na sua área Este (GONÇALVES, 2016).
Na verdade, na região da Arrábida e sua área envolvente, não se dispõe até ao momento, de dados sobre os “sítios e os rituais funerários Mesolíticos, nem, no Tejo-Sado, se conhecem, sem ambiguidade, sítios de acampamento” (CALADO et al., 2009). Tendo em conta que os concheiros correspondiam a sítios de enterramento, podemos estar a estabelecer uma geografia de circulação destas comunidades do Mesolítico entre os concheiros do Tejo e do Sado e região envolvente, onde se insere esta Cordi-lheira. No entanto, as populações Mesolíticas não estabeleceram os seus acampamentos em plena área montanhosa ou vales, mas preferiram as áreas periféricas, onde o acesso ao mar era mais fácil. Não possuímos ainda cronologias absolutas para este período.
COMUNIDADES AGRO-PASTORIS DO NEOLÍTICO E DO CALCOLÍTICO
As primeiras comunidades agro-pastoris, do Neolítico, tiveram uma nova estratégia de ocu-pação na região da Arrábida. Identificam-se povoados no Neolítico Antigo/Médio em áreas de vales, onde havia terrenos propícios à exploração agrícola. Infelizmente ainda não temos datações absolutas para este período, mas de acordo com cronologias relativas, enquadra-se entre os VI e IV milénio a.C.
As estratégias de ocupação da Arrábida alteram-se face ao período Mesolítico. A prova disso observa-se a partir de três povoados ao longo da Cordilheira. Na área mais oriental, o povoado da Quinta de Alcube (GONÇALVES et al., 2016), localizado numa zona de vale, com terras férteis, onde na atualidade continua a haver agricultura. Na área central, outro povoado do Neolítico antigo, como é caso da Roça do Casal do Meio 6. Este sítio localiza-se sobre um território de terras muito propícias para a economia agro-pastoril. Na área mais ocidental, o povoado dos Pinheirinhos tinha, nas suas proximidades, terras favoráveis às práticas agro-pastoris. Nestes três povoados parece denotar-se a estratégia de exploração dos recursos agrícolas e de pastoreio, em desfavor dos recursos marítimos, como ocorreu no Mesolítico. São povoados, relativamente distantes de um acesso fácil ao mar (CALADO et al., 2009).
No que se refere ao Neolítico final, observa-se que na área oriental da Arrábida, foram identificados numerosos locais, com achados avulsos, o que pressupõe uma maior intensidade de ocupação. O mais significativo é o já referido núcleo de povoamento na área da Quinta dos Arnei-ros/Portela da Sardinha. Apresenta uma longa ocupação, entre o Neolítico antigo e o Calcolítico, dada a presença de cerâmica decorada campaniforme e de um artefacto metálico. Na sua vertente central, o povoamento foi mais escasso, dado que a única exceção é “o povoado dos Ouriços (ou dos Prados) (figura 4) cuja efetiva dimensão permanece, no entanto, ainda por definir” (CALADO
et al., 2009).
Figura 4: Reconstituição do povoado dos Ouriços Fonte: Desenho de Cláudia Matos Pereira, 2015.
No Calcolítico a estratégia de habitat alterou-se. Este período correspondeu a diversas trans-formações tecnológicas e económicas, no III milénio a.C. Ao nível tecnológico temos a introdução do cobre.
Embora este metal não trouxesse uma revolução no design dos artefactos do quotidiano, a pedra continuou a ser a matéria-prima base das ferramentas essenciais, como facas e pontas de seta. O cobre é um metal de grande maleabilidade e os utensílios de cobre tornaram-se, essencialmente,
um bem de prestígio. Transportavam uma magia, que constituía na transformação de um objeto sólido em líquido e na forma que se quisesse.
Particularmente importante foi a chamada revolução dos produtos secundários que trouxe para produção agro-pastoril novas espécies, como as leguminosas e o leite, para produção de quei-jo. Houve ainda o aproveitamento da força animal para os trabalhos agrícolas. Esta acumulação de riqueza levou à construção de povoados em altura com fortes sistemas defensivos, constituídos por muralhas.
Estes povoados fortificados estão bem documentados na Arrábida, bem como no sul e cen-tro da Península Ibérica. Nas áreas oriental e central encontram-se os povoados do Pedrão, da Rutura, de Chibanes, do Cabeço dos Caracóis, da Quinta dos Arneiros e do Monte do Vaqueiro. Os casos de Chibanes e da Rotura são casos paradigmáticos de sistemas defensivos muito bem es-truturados e com um grande domínio na paisagem, com acesso a terras férteis. Na área ocidental, os povoados do Outeiro Redondo e do Zambujal, no concelho de Sesimbra, também se localizam em cumeadas que permitiam uma ampla preponderância sobre o território, estando próximos de solos produtivos. Este predomínio sobre a paisagem é particularmente significativo no povoado do Outeiro Redondo, por controlar a melhor passagem para o mar, o vale tifónico de Sesimbra, na área ocidental desta Cordilheira (CALADO et al., 2009).
O Calcolítico final, na transição entre o III e o II milénio a.C., foi marcado, nesta Cordilheira, pela cultura do vaso campaniforme. Estas cerâmicas decoradas tiveram origem na região do baixo Tejo, onde se insere culturalmente a Arrábida, neste período. As datações absolutas apontam para uma cronologia entre os 2400 e os 1800 a.C., nesta região. Sítios arqueológicos, como os povoados de Chibanes e de Rotura e as grutas funerárias artificiais da Quinta do Anjo, têm um número significativo destas cerâmicas. Em contexto funerário foi possível determinar que serviam de reci-piente para substâncias psicotrópicas. Os vasos campaniformes podem ter constituído cerâmicas de prestígio para os seus proprietários. Foi um fenómeno que se disseminou por toda a Europa ocidental, chegando a latitudes como o sul da Dinamarca. A sua moda continuou nos inícios da Idade de Bronze.
Se o habitat deixou vestígios abundantes, também os sítios funerários são significativos nesta Cordilheira. Estão inseridos no quadro mais vasto das manifestações artísticas do megalitismo, que corresponde a um conjunto de valores e de crenças relacionadas com a morte e que, no território português e da Arrábida, desenvolveu-se entre os VI e III milénio a.C.
MEGALITISMO NA ARRÁBIDA
A espiritualidade do Megalitismo, a partir do Neolítico, está presente na Arrábida. Ao mundo dos vivos, através dos povoados, corresponde um mundo funerário. O Megalitismo foi a materialização das práticas funerárias, durante o Neolítico e o Calcolítico, em uma parte da Europa e do Mediterrânio ocidental. Este conceito de Megalitismo corresponde a um conjunto de crenças sobre a morte que se manifestou através de práticas funerárias que resultaram na construção de monumentos, como os menires, os recintos de menires, os dólmenes e os monumentos de falsa cúpula, entre outros. O valor de crenças ligado às práticas funerárias, também se documenta em grutas naturais e em grutas artificiais. Ao Megalitismo, no sudoeste da Península Ibérica, corres-ponde, ainda, um vasto conjunto de artefactos e de arte móvel, que acompanhavam os defuntos. O Megalitismo é sobretudo uma manifestação de arte, reflexo do espiritual que uniu os homens que ergueram os monumentos (GONÇALVES, 2017).
A própria natureza da Arrábida, com a sua imponência na paisagem, na região envolvente, a sua geologia, orografia e proximidade ao oceano configurou um convite aos sentimentos e a rituais que nos escapam. No entanto, a construção de monumentos deixou, aparentemente, pou-cos vestígios. É conhecido o menir do Vale da Palha (figura 5). Existe a notícia de um dólmen na Azóia. Por outro lado, estão documentados os rituais funerários da espiritualidade megalítica, em grutas naturais e em grutas artificias.
Figura 5: Hipótese livre de implantação do Menir no Vale da Palha, onde se observa a Serra do For-mosinho, com 499 m de altitude.
Fonte: Desenho de Cláudia Matos Pereira, 2017.
Figura 6: Menir do Vale da Palha. Vistas: frente e lateral. A escala representa 50 cm. Fonte: Desenho de Cláudia Matos Pereira, 2017.
O menir do Vale da Palha é o mais significativo (figura 6). Apresenta um conjunto de covinhas. Este tema é recorrente em monumentos megalíticos e em arte rupestre (CALADO, 2004; GOMES, 2010; ABREU, 2012) e possui uma grande amplitude cronológica. O seu significado não é fácil, talvez
impossível de determinar, mas colocar hipóteses razoáveis faz parte do processo científico. A sociedade que ergueu este monumento era de agricultores-pastores, populações que viviam da produção de ali-mentos que dependiam dos ciclos anuais, marcados pelo Sol e pela Lua (HOSKIN, 2008; SILVA, 2011). Uma hipótese é que as covinhas talvez possam corresponder a representações da Lua (?) ou do Sol (?), se bem que para esta última hipótese, faltem os raios solares. Todos os anos a natureza morria no Inverno e renascia na Primavera. Os movimentos do Sol (aparente) e da Lua eram a marca visível deste ciclo. Também os homens morriam, como a natureza, e podiam renascer! Vários autores chamaram a atenção para o facto de os menires começarem por ser símbolos antropomórficos e de corresponderem a uma extrema simplificação da figura humana (CALADO, 2004).
No que se refere às grutas naturais, estão identificados vestígios na Lapa do Fumo, Lapa do Bugio, Lapa da Furada, Lapa da Greta, Abrigo da Fazendinha, Lapa do Serrão, Abrigo Murteira 3, Lapa dos Pinheirinhos, Lapa 4 de Maio, Gruta do Sono, Lapa do Chão, Lapa dos Corvos Marinhos e complexo de grutas em torno da Lapa da Cova. Parece haver uma maior concentração na parte ocidental da Arrábida e as grutas estão preferencialmente voltadas para o Oceano, a Sul. Deste conjunto somente foram escavadas a Lapa do Fumo, a Lapa da Furada e a Lapa do Bugio, revelando um considerável espólio arqueológico. Podemos distinguir entre os artefactos funcionais com intervenção artística, como o caso da cerâmica, e o espólio que não é funcional, onde há uma forma e uma decoração, tendo unicamente uma carga simbólica. Na Lapa do Fumo (SERRÃO, 1971) está situada na área do planalto entre Sesimbra e o Cabo Espi-chel, já na encosta sul sobre o Oceano Atlântico. Nesta gruta os horizontes cronológicos correspondem ao Neolítico médio, Neolítico final e Calcolítico. Foram ainda identificados materiais da Idade do Bronze, Idade do Ferro, Romanos e Islâmicos.
O nível do Neolítico médio possuía cerâmicas globulares, com asas de suspensão, com incisões em folha de acácia e artefactos em sílex, e um horizonte cronológico de cerca de meados do IV milénio a.C. No horizonte do Neolítico final é onde o ritual funerário foi mais complexo. Neste nível arqueológico, foi identificada uma camada com lajes de pedra, sobre as quais, estavam colocadas as ossadas, de segunda deposição, acompanhadas de micrólitos trapezoidais e lâminas de sílex, colares com contas discoides de calcário e de ardósia, bicónicas e de lenhite, placas de xisto, pequenos ossos de coelho, artefactos em osso e pedra. Sobre estes elementos havia uma deposição de ocre vermelho e o uso de fogo ritual. Os horizontes cronológicos apresentam datações de 3090 ± 160 a.C. (1970, laboratório do Institut für Ur und Frühes-chichte – da Universidade de Colónia, análise K.361). O nível do Calcolítico possui uma sepultura muito remexida, tendo cerâmica campaniforme, braçais de arqueiro e outros artefactos de sílex (figuras 7 e 8).
Figura 7: Lapa do Fumo, deposição ritual.
Fonte: SERRÃO E. C., 1971 Estrato pré-campaniforme da Lapa do Fumo (Sesimbra), In: Actas do II Congresso Nacional de Arqueologia. Coimbra, p. 107-120.
Figura 8: Lapa do Fumo, Placas de Xisto e esculturas de coelho e antropomórfica.
Fonte: SERRÃO E. C., 1971 Estrato pré-campaniforme da Lapa do Fumo (Sesimbra), In: Actas do II Congresso Nacional de Arqueologia. Coimbra, p. 107-120.
A Lapa da Furada (CARDOSO, 2000; SOARES, 2012) tem uma utilização em diferentes épo-cas, sendo que o Calcolítico, apresenta cronologias em torno dos 2700 e 2450 anos a.C. Além do seu numeroso espólio osteológico com:
130 indivíduos, 66 adultos, 32 do sexo masculino e 34 do sexo feminino e 64 crianças e adoles-centes, correspondendo a uma população com baixo nível de lesões ósseas traumáticas (comuni-dade com poucas situações de conflito), boa alimentação proteica (baixo numero de hipoplasias ambientais dentárias), alimentação de grande dureza (acentuado desgaste dentário, definitivos e de leite), polimorfismo genético (muito baixo numero de doenças congénitas), só três ossos apre-sentam marcas que sugerem mordedura de animais de pequeno porte (CARDOSO et al., 1995).
Outra tipologia são as grutas artificias da Quinta do Anjo (SOARES, 2003). Trata-se de um complexo constituído por quatro grutas escavadas na rocha calcária. O seu espólio artístico é consti-tuído por dois ídolos em elipse e quinze placas de xisto, entre exemplares inteiros e fragmentos, e um ídolo cilíndrico em mármore fragmentado (SOARES, 2003).
Não se identificando na Arrábida os monumentos clássicos do megalitismo, como os dólmenes e os monumentos de falsa cúpula, pode-se considerar que este território integrou as culturas megalíticas do IV e III milénio a.C., através das práticas funerárias (GONÇALVES, 2017).
IDADE DO BRONZE
A Idade do Bronze caracterizou-se por uma profunda revolução tecnológica que foi o surgimen-to da liga metálica, que dá origem à esta época, e que termina, definitivamente, com a pedra, como material de suporte das principais ferramentas. O bronze tinha a dureza indispensável para permitir fabricar novos artefactos que tiveram grandes consequências nas formas de organização social. Entre os artefactos mais em evidência estava a espada. As novas armas fizeram emergir novas formas de organização social, onde se evidenciam líderes de territórios mais amplos. No Médio Oriente
sur-giram os primeiros impérios. No solo grego, a Idade do Bronze corresponde ao período micénico e às guerras de Troia, cerca de 1200 a.C. Na Ilíada, de Homero, observamos um conjunto de reis e de heróis que se afirmam como dominando territórios e lutando entre si pelo domínio de outras terras e de rotas comerciais.
Na Arrábida, os resultados das prospeções arqueológicas realizadas entre 2007 e 2014, pare-cem sugerir que houve uma comunidade bem organizada, com diferentes tipologias de povoados. Temos povoados de altura, bem fortificados, povoados abertos, de grandes dimensões, povoados interiores e povoados sobre o mar. Esta diversidade de habitat parece indiciar uma interdepen-dência entre as distintas formas de organização do povoamento. Naturalmente, os resultados são ainda preliminares. Ao fator de organização espacial, temos de introduzir o fator temporal, que ainda não está dissecado. No entanto para este período, ao longo do II milénio a.C. e inícios do I milénio a.C., pode-se ter estabelecido nesta Cordilheira uma organização política e social, talvez com parecenças relativas ao que acontecia com os micénicos na Grécia, e que não deixou vestígios, porque não passou para a memória oral e posteriormente escrita, como aconteceu na Grécia, através dos registos de Homero.
A organização dos povoados sugere que alguns destes espaços estavam em altura para vi-giarem o território de ameaças externas e exercerem um domínio interno. Um dos povoados, na área do Vale do Risco, tem uma dimensão que pode chegar aos 100 hectares, não apresentando qualquer tipo de sistema de defesa. Por outro lado, está vigiado por um povoado de altura, co-nhecido como Castelo dos Mouros, onde as condições quotidianas deviam ser terríveis, devido às dificuldades de acesso e aos ventos constantes. Mas, o mais importante, é que parece ter existido uma rede de espaços sagrados e funerários associados às grutas. Muitas grutas, ao longo da costa da Arrábida, apresentam vestígios da Idade do Bronze, nomeadamente cerâmicas de ornatos de brunidos, provavelmente associadas às atitudes rituais que nos escapam, casos da Lapa do Fumo, da Lapa da Furada, da Lapa do Capitão, da Gruta do Bafo, da Lapa Verde, da Fenda do Portinho (CALADO, 2009; GONÇALVES, 2016).
O grande povoado do Vale do Risco, tem ainda uma sepultura, um pouco enigmática. Trata-se dos monumentos conhecido como Roça do Casal do Meio (CALADO, 1993; HARRISON, 2007) (figura 9). Num período em que as estruturas funerárias megalíticas, com plantas circulares já tinham sido abandonados, este monumento apresenta essa tipologia de planta. Esta originalidade, no contexto do mediterrâneo ocidental, levou Harrison a colocar a hipótese de se tratar de um reaproveitamento de um monumento de falsa cúpula do Neolítico final/ Calcolítico, correspondendo ao final do megalitismo (HARRISON, 2007).
Figura 9: Reconstituição do enterramento na Roça do Casal do Meio
Fonte: Desenho de Cláudia Matos Pereira, 2015. Desenho de planta do enterramento, inspirado em SPINDLER, K.; VEIGA FERREIRA, 1973.
Neste monumento de planta circular, foram depositados dois homens, com cerâmicas e artefactos variados, onde se destacam um pente em marfim, duas pinças de bronze, uma fíbula, um anel e um fecho de cinturão, não havendo armas. Artefactos mais ligados ao mundo da moda e da beleza, do que ao trabalho e às crenças, como acontecia no período megalítico. Também não são artefactos ligados à guerra, como acontece noutros monumentos sepulcrais da Idade do Bron-ze. O monumento está datado de final do século X a.C., ou início do século IX a.C., e situava-se no topo do povoado aberto, do Vale do Risco, com cerca de 100 hectares. Foi um monumento instalado (ou reaproveitado) num local de predomínio sobre o povoado. Os defuntos parecem apresentar a “síndrome do cavaleiro”, deformações ósseas que resultam de terem tido, em vida, uma intensa atividade de montar cavalos. Talvez dois chefes que mereceram as honras do seu povo (CALADO, 2009; GONÇALVES, 2016).
Este mundo da Idade do Bronze parece ter-se desmoronado a partir dos inícios do I milénio a.C., talvez pela chegada de outros povos, ou pelo esgotamento do seu modelo de ocupação do território. Na Grécia, o mundo micénico desapareceu politicamente, no século XII a.C., com as invasões (ou migrações) dóricas, ou o “retorno de Hércules”, como também é conhecido (uma referência, de que os descendentes de Hércules foram exilados, após a sua morte, e retornaram gerações posteriores para recuperar o seu domínio).
Na Arrábida, a memória destas populações da Idade do Bronze perdeu-se. Vão ser neces-sários anos de investigação para se recuperar uma memória que reflete um período de grandes alterações políticas e sociais na Europa e no Mediterrâneo. Nesta Cordilheira pode ter havido todas as condições para a existência de um Proto-Estado. Esta possível entidade teria acesso a vastos recursos agrícolas, marítimos, com condições de defesa de inimigos externos e ainda poderia induzir para uma forte carga espiritual, dada pelas grutas e proximidade ao Oceano Atlântico.
IDADE DO FERRO
O mundo da Idade do Bronze desapareceu definitivamente a partir do início do I milénio a.C. A Idade do Ferro corresponde a um período em que começou a haver fluxos diretos de povos de outras regiões, como o caso dos povos indo-europeus e fenícios.
Estes dois movimentos populacionais deixaram as suas marcas na Península Ibérica. No caso da Arrábida, muito pobre em recursos e sem a existência de minérios, parece ter sido muito marginal nestes fluxos. Os vestígios da Idade do Ferro são escassos, não se detetando um modelo de povoamento intensivo como sucedeu na Idade do Bronze. Parece que as populações tentaram evitar esta Cordilheira como habitat.
Em um período com balizas cronológicas, entre o século VII a.C. e primeira metade do século VI a.C., foi descoberto um Santuário fenício-púnico, em 2010, na gruta da Lapa da Cova (figura 10). Trata-se de uma gruta com uma entrada bem visível, a partir do Oceano, à Sul. Há vestígio de práticas rituais, com consumo de vinho, queimas rituais e a deposição de artefactos de adorno, como brincos em ouro, e cerca de duas centenas de contas de colar feitas de várias matérias-primas, como a cornalina, o quartzo hialino e a olivina, além de vidro, ouro e osso. Fo-ram ainda identificadas cerâmicas de torno, correspondendo a ânfora e pithoi, cerâmica manual, atribuíveis ao Bronze Final, que também foram detetados fora da cavidade, quer no caminho a partir do mar, quer no acesso poente a partir da Serra da Achada. Este sítio ainda está em fase de estudo. As populações autóctones da Arrábida ainda estavam em um horizonte cultural da Idade do Bronze, ao mesmo tempo que tinham contato com populações de culturas de tradição fenício-púnica (CALADO et al., 2017).
Figura 10: Gruta da Lapa da Cova. Reconstituição de ritual no interior da gruta.
Fonte: Desenho de Cláudia Matos Pereira, 2015. Planta e corte da gruta baseado em desenho de Rui Francisco (Loia).
Do século VI a.C. temos ainda a primeira descrição deste território, através da chegada de navegadores gregos de Marselha, que deixaram uma narração, utilizada por um poeta romano, do século IV d.C., de nome Avieno, na obra Ora marítima, que chegou até aos nossos dias. Aí se descreve a Arrábida e a região envolvente:
Logo se alcança o cabo Cempsicum [Cabo Espichel] (179). Por debaixo se estende, mais longe, a ilha (180) chamada de Achale [Troia] pelos seus habitantes. Custa a aceitar a narrativa que corre sobre esta ilha por supor um facto, mas tantos são os testemunhos que bastão para confirma-lo. Dizem que nas margens desta ilha o abismo marinho nunca apresenta o mesmo aspecto que o resto do mar. De facto, por todo o lado as ondas possuem um resplendor semelhante à transpa-rência de um cristal e pela profundidade marmórea do mar, é verdade que as ondas têm reflexo azulado. A mudança na superfície do mar está misturada com uma cor repugnante, segundo recordam os antigos, e sempre se apresentou (190) com turbilhões e turvas de imundícies. Os Cempsi e Sefes dominam as colinas escarpadas das terras de Ophiussae [possivelmente a Arrábida e região envolvente] (AVIENO, p. 179-191).
No final da Idade do Ferro, no século I a.C., na área oriental da Cordilheira, temos os povoados do Pedrão e de Chibanes. Trata-se de espaços de habitat que perduraram ao longo do século I a.C., contemporâneos do início da ocupação romana do território da Arrábida. Ao longo século I d.C. estes povoados foram sendo abandonados com o avanço da romanização (SILVA et al., 1986).
ÉPOCA ROMANA
Os romanos chegaram a este território cerca do século II a.C., mas não houve presença efetiva até ao final do século I a.C. Há escassos vestígios do período republicano em povoados indígenas,
como o Pedrão e Chibanes (SILVA et al., 1986), refletindo o consumo de produtos romanos, como vinho. Também se observam vestígios no sítio do Castelo dos Mouros, um local com valor militar, o que é perfeitamente plausível para controle da região, ainda na época republicana. Mas a presença militar no Castelo dos Mouros pode ainda estar associada ao contexto das guerras civis romanas, da fase final do período republicano.
A partir de 27 a.C., com a estabilização da época de Augusto e a reorganização administrativa do Império e da Hispânia, a Arrábida ficou inserida na província da Lusitânia, na qual permaneceu até ao final do império.
No interior da Cordilheira, o sítio de Coina-a-Velha, pode corresponder ao pequeno aglomerado urbano de Equabona. No entanto, os dados são muito escassos para este sítio arqueológico. O maior centro urbano, mais próximo da Arrábida, foi Caetobriga (atual Setúbal), em seus limites orientais, já em área plana, frente à foz do rio Sado.
Esta Cordilheira não parece ter merecido muita atenção durante a época romana, dado que esta região não dispunha de recursos minerais, os solos não eram particularmente férteis e era marginal nas rotas comerciais e aos centros económicos e políticos, administrativos.
No entanto, a Arrábida estava inserida em uma região que foi a maior produtora de preparados de peixe de todo o império romano. O estuário do rio Sado constituiu uma área de intensa exploração das riquezas piscatórias da região. Nesta zona estabeleceu-se, no início do século I d.C., um complexo de pre-parados de peixe, para produção de produtos como o garum, o liquamen, ou conservas de peixe. O garum e o liquamen eram condimentos muito utilizados na gastronomia romana e de preço muito elevado. Para o elaborar utilizava-se as vísceras dos peixes, como a cavala, o atum, as anchovas ou as sardinhas, peque-nos mariscos e moluscos macerados com sal e ervas aromáticas, ficando cerca de vinte dia a repousar, até formar uma pasta. O garum e o liquamen era embalado em ânforas e exportado para as diferentes partes do império, onde era consumido pelos grupos mais abastados, por ser um produto muito caro. O seu uso era, essencialmente, culinário, como condimento, mas também foi aplicado na medicina, para combater mordidas de cães, facilitar a diarreia e para tratar a constipação. Havia ainda uma prática de utilização na cosmética para remover pelos e sardas indesejadas.
A costa sul esteve inserida no vasto complexo industrial do estuário do rio Sado, onde foram construídas fábricas em áreas de fácil acesso ao mar. Os dois locais onde foram detetadas fábricas são na praia do Portinho da Arrábida, num sítio conhecido como Creiro (SILVA et al., 1986), e em Sesimbra. As fábricas eram conjuntos de tanques retangulares e quadrangulares, de diferentes dimensões, com cerca de 130 cm de profundidade, onde se preparava o pescado para os diferentes produtos. A estas fábricas estavam associados galpões para armazenar os produtos e as ânforas de transporte. No Portinho da Ar-rábida foi possível identificar um conjunto de fábricas, com respetivos armazéns e ainda umas pequenas termas. Tratava-se de um lugar longe dos principais centros urbanos, daquela região, pelo que nesse espaço foram construídas residências e, na cultura romana tinha de existir termas para os banhos de limpeza e de relaxamento. Eram termas que ostentavam um certo luxo, com mosaicos e paredes revestidas com frescos. A exploração industrial destes preparados de peixe foi até ao século V, quando o império acabou.
Em outras áreas no interior foram detetados vestígios de exploração agrícola. Dois desses locais são na Quinta de Calhariz, no sítio do Vale da Palha, no centro da Arrábida, onde foi identificada uma pequena exploração agrícola, e na Quinta de Alcube, na área ocidental, onde há uma villa com maiores dimensões.
Encontram-se ainda pequenos vestígios dispersos em grutas, como caso da Lapa do Fumo, onde foram identificadas ânforas. Parece que as grutas podem ter constituído abrigo para pastores, que deixaram pequenos vestígios da cultura material.
Ultrapassar os Cabos de Sagres e S. Vicente, no Algarve, e o Cabo Espichel, na Arrábida, era essencial nas rotas marítimas, entre a área mediterrânica e a área atlântica do império. Estes cabos formavam ângulos de noventa graus, onde as correntes marítimas, associadas aos ventos, tornavam difícil a navegação para as galeras, mais preparadas para o Mar Mediterrânico. O Cabo Espichel, sendo um ponto crítico nas rotas de navegação entre o Norte e Sul do Império Romano, levava a que muitos navios esperassem por boas oportunidades em enseadas próximas. Foi o caso da enseada de Porto Baleeira, a última praia antes do Cabo Espichel, para as embarcações que se dirigiam de Sul para
Norte. Ao largo desta pequena praia, na encosta sul, foi descoberta uma das maiores concentrações de cepos de âncora da Península Ibérica. Este fenómeno resulta de que as embarcações ficavam ai fundeadas até as condições do mar permitirem dobrar o Cabo Espichel. Ao levantar as âncoras, para continuarem as suas navegações, os cepos destas ficavam presos a rochas no fundo mar. Estes cepos de âncoras provam que ao longo da costa houve uma intensa navegação, na época romana.
Não há muitas evidências de que esta Cordilheira tenha sido um lugar de grande sacralidade durante este período. Para os romanos, os promontórios eram espaços onde os deuses pernoitavam e, portanto, os homens estavam interditos de se aproximar durante a noite. Há referências a essa crença para o Cabo de S. Vicente, no Algarve, mas não para o Cabo Espichel. Por outro lado, há a notícia de uma estátua de Neptuno e de um templo que pode ter existido no local da atual fortaleza de Santiago do Outão, segundo referências de 1643 e 1645, descritas no Dicionário Geográfico de Luís Cardoso de 1762 (SILVA et al., 1986). Também se menciona um Templo à Apolo num dos lugares isolados, perto do atual convento de Nossa Senhora da Arrábida. Há ainda referência, numa vertente da Serra de S. Luís, a uma edícula romana, incrustada na rocha e rebocada interiormente com opus signinum e decorada com motivos geométricos, formando losangos. A tradição diz que foi nessa edícula que apareceu S. Luís, que foi tomada pelos pastores como seu protetor.
PALEOCRISTIANISMO NA ARRÁBIDA
Os dados sobre a origem do cristianismo nos confins ocidentais do Império Romano são ainda muito escassos. As mais antigas referências às comunidades cristãs, na Lusitânia, estão datadas de meados do século III, o que as torna tardias. Na Arrábida não há alusões às primeiras comunidades cristãs. No entanto, parecem existir marcas que monges anacoretas cristãos deixaram nas Grutas das Janelas, no Vale das Lapas, na área ocidental, através de cerâmicas muito rudimentares (CALADO et
al., 2009). Podem estar datadas dos séculos V a VII.
Esta Cordilheira era um espaço que possuía características naturais para atrair devotos cristãos que procuravam uma aproximação à Deus. Estava próximo do grande oceano, tinha imensas grutas e era despovoada. Funcionava como lugar de retiro, na semelhança do que acontecia com o deserto no Egipto, com as florestas da Europa e as costas rochosas da Irlanda. A Arrábida reunia condições naturais muito propícias ao isolamento e ao encontro com Deus. Esta fase pode corresponder ao fim do Império Romano, cuja desvinculação desta região ocorreu em 411, quando o imperador Honório concedeu a província da Lusitânia aos Alanos. Em 413, esta região passou para o controle dos Visi-godos. Destes tempos, os vestígios materiais são muito escassos.
PERÍODO ISLÂMICO
Em 711, a Península Ibérica foi invadida pelo califado Omíada, movido pela fé islâmica. Esta Cordilheira entrou em uma nova fase da sua história de ocupação humana, fazendo parte do
Al-Andaluz, designação da Península Ibérica pelos muçulmanos. No contexto das diferentes entidades
políticas da época islâmica, que ocorreu até 1199, a Arrábida herdou o nome, do árabe al-râbida, que significava espaço de oração (CATARINO, 2000).
O período islâmico perdurou na Arrábida até 1199, integrando as diferentes entidades políticas desta civilização, no Al-Andaluz. Os estudos sobre a época islâmica ainda estão em uma fase inicial. Temos a toponímia, a arqueologia e a historiografia, como fontes para a construção de uma narrativa. Palmela emergiu como o principal centro urbano. Estava implantada em um penhasco que oferecia boas condições defensivas, na parte oriental da Arrábida. Tinha uma boa visibilidade sobre o estuário do rio Sado e as terras à Norte que se estendiam até ao estuário do rio Tejo. No atual castelo de Palmela, foi possível identificar marcas desta presença, particularmente de cerâmicas datadas de entre os séculos VIII e XII.
Próximo de Palmela, na Serra do Louro, identificou-se a Alcaria do Alto da Queimada. Possui uma datação entre os séculos VIII e XII acompanhando as diferentes fases da história política islâmica. Aí foram descobertas estruturas de habitação construídas em pedra calcária irregular e uma pequena
mesquita rural, com dois mihrâb, dos períodos emiral (756-929) e califal omíada (929-1009). Neste edifício descobriram-se, ainda, dois fragmentos de omoplatas de bovídeo com a inscrição “Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso” e dois rolinhos de chumbo com conexão religiosa”. Nesta pequena aldeia viviam populações dedicadas ao aproveitamento dos recursos agrícolas e pastoris (FERNANDES, 2004). O território ocidental da Arrábida continuou a apelar ao isolamento e os religiosos muçulmanos tomaram o lugar dos cristãos, indo povoar os lugares ermos junto ao mar. Deixaram as suas marcas, através das cerâmicas, em grutas ao longo da costa, como são os casos da Lapa do Jerónimo e da Lapa do Fumo, onde se identificaram cerâmicas comuns. Ao mesmo tempo em que procuravam estar mais próximos de Deus, também vigiavam a costa.
A partir de 844, os Vikings surgiram nestas latitudes. Com seus navios, foram atacando os princi-pais centros urbanos da região, como Lisboa e Alcácer do Sal. Ao longo da costa da Arrábida, os drakkars dos Vikings, passavam nas rotas para Sul. Eram observados pelos religiosos muçulmanos, que também vigiavam as costas, avisando, da sua proximidade, aos principais centros urbanos, como Alcácer do Sal. No século X, esta Cordilheira pode ter acolhido espaços de Madraças, ou escolas corânicas, no contexto das diferentes visões que surgiram do islão, naquele período. No ano de 2009, na sequência dos trabalhos da carta arqueológica de Sesimbra, foi descoberta na Lapa 4 de Maio, no Vale das Lapas, na povoação de Azóia, uma placa de madeira de cedro da Arrábida, datada do século X, com o versículo 39 do Corão (figura 11). O topónimo Azóia significa espaço de oração e estudo, ou capela. O sítio do Vale da Lapas é um conjunto de pequenas grutas, ou abrigos, em redor de um vale. Foi nesse espaço que se encontrou cerâmicas dos séculos V a VII, muito rudimentares que podem estar associadas aos monges anacoretas cristãos. Com a chegada do islão, este espaço de sacralidade foi apropriado pela nova reli-gião, sendo o modelo seguido noutras áreas como a mesquita de Damasco, ou a mesquita de Córdova, anteriormente igrejas cristãs. Na Arrábida observamos o mesmo modelo dessa apropriação do sagrado. O sítio do Vale das Lapas, na Azóia, concentrava todas as características para manter essa sacralidade e tornar-se espaço para uma escola corânica. Ainda nos nossos dias, se conserva a prática de ensinar os versículos do Corão em tábuas de madeira, como é o caso da Aldeia de Aït Hamza, nas montanhas do Alto Atlas, em Marrocos (NOUIGA et al., 2015).
Figura 11: Placa de madeira da época islâmica (século X), descoberta na Gruta Quatro de Maio, em julho de 2009. Fotografia de Rui Francisco (Loia).
Fonte: Disponível em: http://fotoarchaeology.blogspot.com/2010/06/lapa-4-de-maio-tabua-arabe. html. Acesso em: 01 jan. 2020.
No período final da época islâmica e com o intuito de defender a Arrábida, pode ter surgido uma presença militar mais densa. Em Coina-a-Velha, o sítio romano deu lugar a uma ocupação islâmica, com fins militares (FERNANDES, 2004). Em Sesimbra, também parece ter existido uma presença militar, no sítio do atual castelo, com uma pequena estrutura fortificada, de que não existem vestígios conhecidos e que, de acordo com alguma bibliografia resistiu até cerca de 1165, ao primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques. Em escavações arqueológicas realizadas neste castelo apare-ceram escassas cerâmicas da época islâmica, em uma área fora da muralha da vila do atual castelo, podendo ser o resultado de uma limpeza do terreno, antes de se iniciar a construção do atual castelo da vila de Sesimbra.
Na gruta da Lapa do Fumo foram descobertas setenta e seis moedas, do tipo Quirates, espécie monetária em prata, cunhadas em Beja e em Silves, havendo seis moedas relativas ao período do Almorávidas (1094-1145) e as outras setenta de vários reinos Taifas. A sua datação parece indicar que na época da primeira conquista cristã da Arrábida, ocorrida por volta de 1147 as moedas foram escondidas, em diferentes bolsas, no subsolo da gruta (TELLES ANTUNES, 1999; SIDARUS, 2001) e ficaram esquecidas...
No Cabo Espichel existe ainda a única marca da presença islâmica que continua edificada. Trata-se de uma Qubba (também Kubba ou Kubbe, em português Cuba), ou seja, um túmulo de mestres islâmicos, coberta por uma cúpula. Foi erguido sobre oceano atlântico, voltado para o Norte marcando a sacralização do Cabo Espichel pela cultura islâmica (figura 12). No século XV foi convertido na capela da aparição de Nossa Senhora do Cabo Espichel, perdurando até aos nossos dias.
Também na toponímia permaneceram as marcas da presença islâmica, desde logo em Ar-rábida. Outros topónimos ainda continuam a fazer parte do quotidiano deste território, como Albufeira, Alcube, Alfarim, Alpertuche, Azeitão, Azóia ou Zambujal. Os topónimos Azeitão e Zambujal dão a entender que houve uma grande importância da cultura da oliveira e da pro-dução de azeite, para a economia local, dado derivarem da palavra árabe para azeitona, o fruto da oliveira: Azzaytoune (زيتون). O termo Zambujal deriva de zambujeiro que corresponde a uma oliveira selvagem.
Figura 12: Qubba (Cuba) do Cabo Espichel. Fonte: Fotografia de Cláudia Matos Pereira, 2018.
Em 1147 iniciou-se a conquista da região, ao reino taifa de Badajoz, por D. Afonso Henriques (1128-1185), primeiro rei de Portugal. Palmela foi a primeira vila da região a ser conquista. A ofensiva Almóada, de 1190/91, levou à perda desta região, até 1199, quando foi reconquistada por D. Sancho I (1185-1211), entrando definitivamente para a esfera portuguesa. O avanço do território português para Sul fez com que a Arrábida deixasse de ser terra de fronteira, a partir de 1217, com a conquista de Alcácer do Sal, por D. Afonso II (1211-1223). Iniciou-se o período de colonização.
CONSIDERAÇÃO FINAL
A Arrábida foi espaço de agricultores, de pastores e de pescadores. Construíram-se castelos e fortalezas para defender a costa marítima. Atraiu religiosos e edificaram-se conventos, como o Con-vento Franciscano dos Arrábidos. Esta Cordilheira tornou-se palco de devoções, surgindo diferentes santuários no seu território, como o Santuário de Nossa Senhora do Cabo Espichel. Foi ainda espaço de lazer para a nobreza portuguesa, erguendo-se palácios de veraneio, como a Quinta de Calhariz. Mas esta é outra história. Hoje, a Arrábida é uma área natural protegida, desde 1976.
Referências
ABREU, M. S. de. Rock-Art in Portugal: huistory, methodology and traditions. Vila Real, 2012. ABREU, M. S. de. A vénus Paleolítica da Toca do Pai Lopes. In: No Tempo das Grutas - Carta
Arqueológica e Espeleológica da Arrábida (Concelho de Setúbal). Lisboa, p. 119-122, 2016.
ABREU, M. S. de; ARCÀ, A.; FOSSATI, A.; JAFFE, L. Palaeolithic rock engravings at Vermelhosa, Côa Valley Archaeological Park, Portugal. In: Atti del XIII Congresso UISPP, 3. Forlì, A. B. A. C. O Edizioni, p. 121-125, 1996.
ABREU, M. S. de; CRESPI, A.; ROCHA, J.; JAFFE, M. Rock art, vegetation and animals in the corridor Castilain-Leonese/Portuguese Extremadura research. Poster. XXVII VALCAMONICA
SYMPOSIUM - 40 anni del sito UNESCO Arte Rupestre della Valcamonica, 2019.
AVIENO. Orla Marítima. José Ribeiro Ferreira - introdução, versão do latim e notas, Coimbra, Instituto Nacional de Investigação Científica, 1985.
AZEVEDO, T. M.; CARDOSO, J. L.; PENALVA, C.; ZBYZEWSY, G. Contribuição para
o conhecimento das indústrias líticas mais antigas do território português: as jazidas com Pebble Culture da formação de Belverde. Península de Setúbal (Vilafranquino médio). In: Setúbal
Arqueológica, V. Setúbal, Assembleia Municipal de Setúbal, p. 31-45, 1979.
CAETANO, P.; Costa, C.; Rocha, M.; Brissos, J.; Sanches, A. A geologia no apoio à investigação arqueológica - uma carta litológica para o Concelho de Setúbal. In: No Tempo das Grutas - Carta
Arqueológica e Espeleológica da Arrábida (Concelho de Setúbal). Lisboa, 2016, p. 65-82.
CALADO, M. 0 monumento da Roça do Casal do Meio. In: Medina, J.; Gonçalves, V. S., (ed.).
História de Portugal. Lisboa: Ediclube, 1, p.353-356, 1993.
CALADO, Manuel. Menires do Alentejo Central. Lisboa, 2004.
CALADO, M.; GONÇALVES, L.; FRANCISCO, R. et al. O Tempo do Risco. Carta Arqueológica
de Sesimbra. Sesimbra, Câmara Municipal de Sesimbra, 2009.
CARDOSO, J. L. O litoral sesimbrense da Arrábida. Resenha dos conhecimentos da sua evolução quaternária e das ocupações humanas correlativas. In: Sesimbra Cultural, 4. Sesimbra, Câmara Municipal de Sesimbra, p. 5-12, 1994.
CARDOSO, J. L. Na Arrábida, do Neolítico antigo ao Bronze final. In: Actas do Encontro sobre
Arqueologia da Arrábida, Lisboa, Instituto Português de Arqueologia p. 45-70, 2000. (Trabalhos
de Arqueologia; 14).
CARDOSO, J. L.; Cunha A.S. A Lapa da Furada (Sesimbra). Resultados das escavações
arqueológicas realizadas em Setembro de 1992 e 1994. Sesimbra, Câmara Municipal de Sesimbra, 1995.
CATARINO, H. “Topónimos Arrábida e a Serra da Arrábida”. In: Sesimbra Cultura, 1. Sesimbra, Câmara Municipal de Sesimbra, p. 5-17, 2000.
FERNANDES, I. C. Castelo de Palmela: do Islâmico ao Cristão. Palmela, Câmara Municipal de Palmela/Colibri, 2004.
FRANCISCO, R. Inventário da Espeleologia: Considerações sobre a Morfologia e Génese do Património Espeleológico da Arrábida Oriental. In: No Tempo das Grutas - Carta Arqueológica e
Espeleológica da Arrábida (Concelho de Setúbal). Lisboa, 2016, p. 136-245.
GOMES M. V. Arte Rupestre do Vale do Tejo um ciclo artístico-cultural Pré e Proto-Histórico. Lisboa, 2010.
GONÇALVES, L. J.; CALADO, M.; FRANCISCO, R.; QUERIDO, R.; SOARES, R.; CÂNDIDO, M. J. No Tempo das Grutas - Carta Arqueológica e Espeleológica da Arrábida (Concelho de Setúbal). Lisboa, 2016.
GONÇALVES, L. J.; PEREIRA, C. M. Arte Megalítica na Serra da Arrábida (Portugal):
monumentos e esculturas de arte móvel. In: BCSP Bollettino del Centro Camuno di Studi Preistorici, v. 43, 2017.
HARRISON, R. J. A revision of the late Bronze Age: burials from the Roça do Casal do Meio (Calhariz), Portugal. In: Beyond Stonehenge: Essays on the Bronze Age in honour of Colin Burgess. Oxford, Oxbow Books.
HOSKIN M. “El estudio científico de los megalitos. La arqueoastronomia”. In: PH 67, Especial Monográfico, Boletin del Instituto Andaluz del Patrimonio Histórico”, 2008, pp. 84-91. NOUIGA, D.; NOUIGA M. Cette Lumière. Casablanca, 2015.
RAPOSO, L.; CARDOSO, J. L. A Gruta da Figueira Brava (Setúbal), no contexto do Paleolítico Médio Final do Sul Ocidente Ibéricos. In: Actas do Encontro sobre arqueologia da Arrábida. Lisboa:
Instituto Português de Arqueologia, p. 7-19, 2000.
RIBEIRO, O. A Arrábida: esboço geográfico. Sesimbra, 1986.
SANTOS, M. F. Estatueta paleolítica descoberta em Setúbal. (notícia preliminar). In: Setúbal
Arqueológica, n. 6-7. Setúbal, p. 29-37, 1980-1981.
SANTOS, M. F. A estatueta feminina paleolítica descoberta em Setúbal no quadro da fenomenologia mágica da arte quaternária. In: Boletim da Academia Portuguesa da História, 47, 1982.
SANTOS, M. F. Pré-história de Portugal. Lisboa, 1985.
SERRÃO E.C. “Estrato pré-campaniforme da Lapa do Fumo (Sesimbra). In: Actas do II Congresso
Nacional de Arqueologia. Coimbra, 1971, pp. 107-120.
SERRÃO E. C. Carta Arqueológica do Concelho de Sesimbra: do Vilafranquiano Médio até 1200
d.C. Lisboa, 1994.
SILVA, C. T.; SOARES, J. Arqueologia da Arrábida. Parques Naturais. Lisboa, 1986.
SIDARUS, A. A moeda luso-árabe em Sesimbra. In: Conhecer Sesimbra. Patrimónia: identidade,
ciências sociais e fruição cultural, n. 7. Lisboa, Patrimónia, Associação de Projectos Culturais
e Formação Turística, p. 15-20, 2001.
SOARES, J. Os hipogeus Pré-Históricos da Quinta do Anjo (Palmela) e as economias do simbólico, Setúbal, Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal/Assembleia Distrital de Setúbal, 2003.
SOARES, R. A Arrábida no bronze final: a paisagem e o homem, Lisboa, 2012.
SPINDLER, K.; VEIGA Ferreira, O. da. Der spätbronzezeiitliche Kuppelbau von der Roca do Casal do Meio in Portugal. In: Madrider Mitteilungen, n. 14, 1973.
SPINDLER, K.; CASTELLO Branco, A. de; BARROS, A. de; ZBYSZEWSKI, G.; VEIGA Ferreira, O. Da. Le Monument à couple de l´âge du bronze final de la Roça do Casal do Meio (Calhariz).
TELLES ANTUNES, M. Restos de Tesouro de moedas islâmicas nas imediações de Azóia (Sesimbra).
In: Arqueologia Medieval, n. 6. Porto, p. 133-137, 1999.
VILAÇA, R. Arte Paleolítica. In: História da Arte em Portugal, v. I. Lisboa: Edições Alfa, p. 15-21, 1986. ZBYSZEWSKI, G.; FERREIRA, O. V. Uma estatueta madalenense tipo Laugerie Basse encontrada em Portugal. In: Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, n. 26, p. 207-211, 1984-1985.
ZILHÃO, J.; ANGELUCCI, D. E.; ARAÚJO Igreja, M.; ARNOLD L. J.; BADAL, E.; CALLAPEZ P.; CARDOSO J. L.; ERRICO F. d. Last Interglacial Iberian Neandertals as fisher-hunter-gatherers. In: Science v. 367, 27 mar. 2020.