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em foco
Economia da saúde no Brasil
MARCELO GURGEL CARLOS DA SILVA
[...] a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados, como os de EntreDoiro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitá-la, dar-se-á nela de tudo, por bem das águas que têm.
PERO VAZDE CAMINHA (?-1500), Carta a El-Rei D. Manuel E por amor de Cristo lhes peço que percam a má opinião que até aqui do Brasil tinham, porque lhes falo a verdade, se houvesse paraíso na terra, eu diria que agora havia no Brasil.
RUY PEREIRA, S. J. (1560) O Brasil é um vasto hospital.
MIGUEL PEREIRA (1871-1918), Discurso de saudação a Aluísio de Oliveira
Nós somos na Terra o grande milagre do amor!
MÁRIO DE ANDRADE (1893-1945), Prisão de Luxo
É de forma sumária apresentada a situação da economia da saúde no Bra-sil, com destaque para a criação da Associação Brasileira de Economia da Saúde — ABrES, em 1989, com o objec-tivo primordial de congregar técnicos, docentes e outros profissionais com inte-resse na área da economia da saúde e, nesse campo, contribuir para o desen-volvimento, a difusão e a aplicação de técnicas, métodos e conhecimentos. Coube à ABrES fomentar e/ou propi-ciar a realização das primeiras expe-riências em ensino e a pesquisa em economia da saúde no país.
As actividades de formação em Econo-mia da Saúde no Brasil incluem discipli-nas integrantes da grade curricular de
alguns programas de pós-graduação (mestrado e doutorado) da área de Saúde Pública ou de Economia e dois cursos de especialização e cursos de curta duração concentrados em poucos estados brasileiros, como São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Bahia.
Marco de suma relevância para a con-solidação da economia da saúde deu-se, a partir de 2000, com a assinatura de Acordo de Cooperação Técnica entre a República Federativa do Brasil e o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, representado pelo Department for International Develop-ment — DFID, para a execução das actividades do Projecto de Economia da Saúde («Fortalecendo sistemas de saúde para reduzir desigualdades»). O Projecto de Economia da Saúde tem por objectivo aumentar a capacitação nacional em economia da saúde e incrementar a utilização do seu instru-mental na tomada de decisões sobre políticas de saúde.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva é professor titular de Saúde Pública e coordenador do mestrado académico em Saúde Pública da Universidade Estadual do Ceará (UECE).
O número de grupos de pesquisas espe-cíficos, ou que abriga linhas de pesqui-sas em economia da saúde, cresce inces-santemente, demonstrando maturidade, além da fertilização de massa crítica, via inclusão de novos pesquisadores, com a consolidação de centros gerado-res de conhecimentos e de aporte de tec-nologias inovadoras. O escoamento da produção intelectual tem sido efectivado principalmente por meio da publicação de trabalhos completos em actas de con-gressos, capítulos de livros e artigos em periódicos científicos editados no Brasil e no exterior.
Por fim, espera-se que a economia da saúde ofereça parte dos instrumentos, de forma a garantir um Sistema Único de Saúde mais eficiente e concorrendo para diminuir as disparidades de clas-ses, além das geográficas deste país, rico e pobre ao mesmo tempo, híbrido de país desenvolvido e em desenvolvimento, aportando benefícios para todos os seg-mentos sociais da população brasileira.
em foco
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1. IntroduçãoComo área de conhecimento, a economia da saúde está fortemente consolidada na maioria dos países desenvolvidos, e, dada a sua impor-tância para o sector saúde, a Orga-nização Mundial de Saúde tem pro-movido o seu uso e estimulado a sua adopção para orientar as políti-cas de saúde nos países em desen-volvimento e naqueles ainda subde-senvolvidos (The World Bank, 1993).
Depois da crise económica no financiamento dos sistemas de saúde, como consequência das mudanças no perfil epidemioló-gico das populações, dos maiores investimentos no sector, devido aos avanços tecnológicos, e do alargamento da cobertura dos ser-viços às populações não cobertas, os países, industrializados ou não, reconheceram a necessidade de reduzir os custos do sistema até níveis controláveis, através da implementação de mecanismos de controle económico que garantam e dêem suporte na tomada de deci-são no âmbito da saúde (Sousa e Tello, 2001).
A preocupação com o incremento dos custos em saúde e a má utiliza-ção de recursos, invariavelmente escassos, principalmente nos paí-ses menos desenvolvidos, são con-dicionantes da maior importância que justificam a formação de espe-cialistas em economia da saúde para a implementação da maior racionalidade na aplicação dos recursos financeiros, materiais e humanos.
2. A Associação Brasileira de Economia da Saúde
Um dos marcos importantes para a economia da saúde no Brasil foi a criação da Associação Brasileira de Economia da Saúde — ABrES, fundada em Brasília-DF, em 1989. A ABrES é uma sociedade civil, de âmbito nacional, dotada de perso-nalidade jurídica de direito privado, com natureza e fins não lucrativos, e tem por objectivo primordial con-gregar técnicos, docentes e outros profissionais com interesse na área da economia da saúde e, nesse campo, contribuir para o desenvol-vimento, a difusão e a aplicação de técnicas, métodos e conhecimentos. Para a realização de seus objecti-vos, a associação promove: a reali-zação, publicação e divulgação de estudos e pesquisas; a organização de eventos técnico-científicos; o desenvolvimento de recursos humanos; o financiamento de pro-gramas e projectos; a organização e manutenção de serviços de infor-mação e documentação; a coopera-ção com instituições governamen-tais e privadas e com entidades congéneres, nacionais e estrangei-ras.
A análise em economia da saúde foi introduzida no Brasil, nos anos 80 do século precedente, através de estudos desenvolvidos pelo Insti-tuto de Pesquisa Económica Apli-cada (IPEA) sobre o financiamento
da saúde, pela Universidade
Esta-dual de Campinas (UNICAMP) e UERJ sobre a indústria da saúde e pela ENSP/FIOCRUZ sobre a
ava-liação económica e o financia-mento do sector de saúde; poucos
foram os estudos sobre custos desenvolvidos (Ugá, 2002). No entanto, compete, inegavel-mente, a José Duarte de Araújo a primazia entre os autores nacionais que se dedicaram ao campo da economia da saúde, a partir de sua tese Aspectos Económicos da
Saúde e de seus consequentes
des-dobramentos (Araújo, 1974).
3. O ensino da economia da saúde
Na década de 1990, a criação da Associação Brasileira de Economia da Saúde (ABrES) e a proliferação da discussão sobre a implementa-ção da reforma do sistema de saúde brasileiro (e seu financiamento) trouxeram como resultados: disse-minação da análise de economia da saúde sobre financiamentos, ferra-mentas económicas para regulação do sistema de saúde e análise microeconómica em gestão de sis-temas de saúde; criação de ambientes e interesses da introdu-ção das citadas ferramentas; incor-poração dessa área por outras ins-tituições académicas através de desenvolvimento de pesquisa e programas educacionais/formação (Ugá, 2002).
No Brasil, até aos anos 80 do século passado, esse campo de actuação brotou de forma focal em algumas instituições universitárias, como Universidade de São Paulo (USP), Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Univer-sidade Estadual do Ceará (UECE); contudo, na década seguinte, com a instalação da ABrES, foi possível congregar os principais interes-sados no assunto, tendo sido con-solidados esforços no intuito de organizar eventos científicos e de promover a publicação de material especializado, significando grande impulso à divulgação de economia da saúde neste país.
No Ceará, a UECE instituiu a disci-plina de Economia da Saúde nos cursos de especialização em Pla-neamento em Saúde, ofertados na década de 1980, implantando-a como disciplina obrigatória do seu curso de mestrado académico em Saúde Pública — Concentração em Políticas e Serviços de Saúde desde 1994; na Universidade Fede-ral do Ceará (UFC), a matéria existe como disciplina optativa do curso de mestrado académico em
Saúde Pública — Concentração em Epidemiologia.
No momento há dois cursos de especialização em Economia da Saúde em funcionamento: um em Fortaleza, no âmbito da UECE, pa-trocinado pelo DFID, e outro na capital paulista, sob a guarda da Faculdade de Saúde Pública da USP; além desses, a Universidade Federal de São Paulo confere abrigo ao master in Business
Administration (MBA) em
Econo-mia e Gestão em Saúde.
Hoje dez instituições, pelos menos, estão envolvidas com programas de educação em economia da saúde no Brasil. Não se tem ainda um curso de mestrado em Economia da Saúde, mas duas alternativas estão sendo planejadas com apoio da coo-peração técnica britânica: (a) curso de mestrado interinstitucional em Economia da Saúde, promovido por ENSP, UNICAMP, IPEA e outras instituições; (b) «áreas de concentração» (unidades compostas através de disciplinas) da Economia da Saúde dentro de cursos de mes-trado de Saúde Pública (Ugá, 2002).
Presentemente, disciplinas de Economia da Saúde, Financiamento dos Sistemas de Saúde e Avaliação Económica são oferecidas, princi-palmente, nos cursos de mestrado de Saúde Pública, mas também em programas de pós-graduação em Economia Institucional, em Socio-logia e em Economia Social e do Trabalho. Cursos de curta duração, a exemplo de «Introdução à Econo-mia da Saúde» e «Financiamento do Sector Saúde», têm sido também oferecidos. Através do programa de cooperação do Reino Unido/Brasil, sobre economia da saúde foram programados workshops entre as instituições académicas e autorida-des do sistema de saúde com o pósito de ser desenhado um pro-grama de cursos curtos, oficinas de trabalho em áreas específicas da economia da saúde, ferramentas específicas para um suporte
estraté-gico para gestão de sistemas de saúde (Ugá, 2002).
Os programas de educação supra--arrolados têm o suporte de vários programas de pesquisas desenvolvi-dos através de instituições académi-cas nas seguintes áreas: financia-mento do sistema de saúde e descentralização; financiamento do sistema de saúde e economia do sector público; financiamento do sistema de saúde e equidade; méto-dos de afectação de recursos em saúde; custos das intervenções em saúde; análise de custo-efectivi-dade; fármaco-economia; planos de saúde e sua regulação; regulação do mercado de saúde; a indústria da saúde no Brasil; inovações tecnoló-gicas no sector da saúde (Ugá, 2002).
Ao longo da última década, a apro-ximação dos campos da saúde e da economia tem se tornado uma necessidade para todos aqueles envolvidos na academia e nos ser-viços da saúde pública no país. Já existe, inclusive, uma produção de pesquisas e trabalhos, resultante desse esforço, na interface entre saúde e economia. Contudo, muitos deles não estão amplamente difun-didos e criticamente analisados, permitindo o seu uso, em potencial. Ao lado disso, sabe-se que há muito por construir nesse esforço de melhor integrar conceitos e fun-damentos dos distintos campos a fim de que os envolvidos com a política de saúde no país sintam-se seguros com relação a essa parceria e avancem na implementação de uma saúde universal.
4. O Projecto de Economia da Saúde e seus primeiros desdobramentos
4.1. Acordo de Cooperação Técnica do Brasil e Reino Unido
Marco de suma relevância para a consolidação da economia da saúde
deu-se, a partir de 2000, com a assinatura de Acordo de Coopera-ção Técnica entre a República Federativa do Brasil e o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, representado pelo Department for International Development — DFID, para a exe-cução das actividades do Projecto de Economia da Saúde («Fortale-cendo sistemas de saúde para redu-zir desigualdades»). Os recursos financeiros disponíveis são de até 5 milhões de libras esterlinas, oriundos do DFID, e de mais de 2 milhões de reais, provenientes de contrapartida nacional.
O Projecto de Economia da Saúde tem por objectivo aumentar a capa-citação nacional em economia da saúde e incrementar a utilização do seu instrumental na tomada de deci-sões sobre políticas de saúde. Do lado da oferta, o projecto benefi-ciará as instituições académicas e o IPEA, promovendo e financiando actividades de intercâmbio de conhecimentos, realização de pes-quisas, de disseminação de infor-mações e incremento das relações entre universidades, Ministério da Saúde e secretarias estaduais de saúde; do lado da demanda, o pro-jecto propiciará o desenvolvimento de actividades com o objectivo de sensibilizar gestores e treinar técni-cos e gerentes do Ministério da Saúde e das secretarias de saúde dos estados, inicialmente seleccio-nados, para a utilização das ferra-mentas de economia da saúde, a fim de aumentar a efectividade, a eficiência e a equidade do sistema de saúde brasileiro.
O Projecto de Economia da Saúde deverá ser implementado ao longo de cinco anos, de acordo com directrizes constantes em planos de trabalho anuais. Nos dois primeiros anos, o projecto será implementado no Ministério da Saúde, no IPEA e em duas secretarias estaduais (Bahia e Rio de Janeiro) e, ao final do segundo ano, poderão ser escolhidas mais duas secretarias.
Do lado académico, o projecto irá desenvolver, de início, actividades junto às seguintes instituições: ISC/ UFBA, NEPP/UNICAMP, FEA/ USP e ENSP/FIOCRUZ, com a adesão subsequente da UECE e da UFC.
4.2. A rede de ensino e pesquisa em economia da saúde
Além desses aspectos, está sendo criada a rede de ensino e pesquisa em economia da saúde (REPES) com o objectivo de disseminar informações relacionadas à econo-mia da saúde e promover a integra-ção entre os diferentes actores envolvidos no processo. Também está sendo operacionalizado o ser-viço de informações em economia da saúde, que é disponibilizado pela Internet (www.ipea.gov.br/ economiadasaude).
Como parte do empenho em apro-ximar a economia e a saúde, o V Congresso Brasileiro de Epide-miologia, patrocinado pela Associa-ção Brasileira de Pós-GraduaAssocia-ção em Saúde Colectiva — Abrasco, preocupado com a aproximação da saúde e economia, promoveu a rea-lização da oficina de trabalho «Conceitos e instrumentos da economia da saúde e da epidemio-logia nos estudos de desigualdade», em Março de 2002, em Curitiba. Dela participaram técnicos — economistas, epidemiologistas, médi-cos e sociólogos — provenientes de diversas instituições de ensino e pesquisa do país, bem como agen-tes públicos e especialistas da área de economia da saúde. Esta oficina contou com o apoio do Ministério da Saúde, do Instituto de Pesquisa Económica Aplicada — IPEA e do Department for International Development — DFID, sendo estruturada com base na discussão de questões consideradas pertinen-tes ao tema da desigualdade. O relatório final dos debates reali-zados na oficina foi enfeixado em
oito partes, com a seguinte compo-sição: (1) aspectos conceituais de desigualdade, exclusão, discrimina-ção e iniquidade; (2) medidiscrimina-ção de desigualdades: indicadores econó-micos e de saúde, desenhos metodo-lógicos e trabalhos em andamento; (3) relações de causalidade entre economia-saúde e saúde-economia e as variáveis de confundimento; (4) problemas metodológicos dos estudos sobre desigualdade; (5) rela-ção entre medidas de desigualdade económica e desigualdade em saúde; (6) base de dados nacionais — características, críticas e sugestões; (7) rede de economia da saúde: características, objectivos e estraté-gias; finalmente, (8) sugestões para o desenvolvimento, difusão, forta-lecimento e maior utilização da economia da saúde. As conclusões emanadas dessa reunião são de capital importância para baliza-mento de algumas das principais actividades cobertas pelo Acordo de Cooperação Técnica atrás refe-renciado.
4.3. A Célula Economia da Saúde da Secretaria de Saúde do Ceará
No Estado do Ceará, a Secretaria de Saúde do Estado (SESA) está passando pela implementação de uma ampla reforma de sua estru-tura administrativa, que incluiu a criação e a implantação da Célula Economia da Saúde — CECONS, sendo a primeira secretaria de estado no país a adoptar sector com a especificidade de um espaço institucional destinado à economia da saúde (Brasil. Secretaria Esta-dual da Saúde, 1998). O processo aludido tem recebido suporte téc-nico do Department for Inter-national Development — DFID, que propiciou a realização de con-sultoria, da qual resultou pla-neamento estratégico, onde se contempla a qualificação técnica do pessoal responsável pela
con-dução da respectiva célula (Brasil. Secretaria Estadual da Saúde, 2000).
Com efeito, o programa de modela-gem de gestão da Secretaria de Saúde do Estado do Ceará foi desenvolvido no período de Julho de 1997 a Setembro de 1998, por uma decisão governamental, com o objectivo de redesenhar o modelo organizacional do sistema SESA, em vigência desde 1995, sendo implementado em Fevereiro de 2000 (Sousa e Tello, 2001). Dentro dessa nova concepção foi criada a Célula Economia da Saúde, com o desafio maior de desenvolver estudos e pesquisas capazes de subsidiar o novo modelo de atenção à saúde que está sendo incrementado no Ceará, a partir da atenção primária, vol-tada para a estratégia saúde da família, da atenção secundária, que se organiza na lógica das microrregiões de saúde, e da
aten-ção terciária, através da
imple-mentação de macrorregiões de saúde. A implementação da nova estrutura administrativa da SESA, em particular da CECONS, foi efectivada em Fevereiro de 2000, amparada no projecto de apoio à reforma do sector saúde (Sousa e Tello, 2001).
A CECONS deve ser entendida como um grupo de trabalho da SESA incumbido da mobilização de recursos (humanos e financei-ros) para sua instrumentalização e com a finalidade de contribuir, tanto no nível estratégico, na defi-nição de políticas, programas e prioridades quanto no nível opera-tivo, na gestão dos serviços de saúde, para o alcance de um maior nível de eficiência e efectividade em suas acções. Os resultados, para a SESA, devem ser expressos através de estudos, pesquisas, ava-liações económicas, ou seja, no suporte económico às políticas e à gestão dos serviços de saúde no estado do Ceará (Sousa e Tello, 2001).
5. A pesquisa e a aplicação da economia da saúde
No tocante à produção científica em economia da saúde, o número de grupos de pesquisas específicos, ou que abrigam linhas de pesquisas em economia da saúde, inscritos no directório do CNPq cresce a cada nova versão, demonstrando maturi-dade, além da fertilização de massa crítica, via inclusão de novos pes-quisadores, que permitirão alçar voos mais distantes, com a consoli-dação de centros geradores de conhecimentos e de aporte de tec-nologias inovadoras. Os seis encon-tros nacionais da ABrES já reali-zados apontam para o avanço quantitativo e, sobretudo, qualita-tivo, consoante pode ser apreciado na sequência das actas desses even-tos científicos (ABrES, 1994 e 1999), bem como por meio dos Anais do Seminário Internacional (Ugá e Valle, 1996). Ressalte-se ainda o levantamento do repertório científico em economia da saúde produzido no Brasil efectuado por Vianna (1995), que atentou para a diversidade de temas e autores exis-tentes, sinalizando a promissora capacidade intelectual dos experts da área no país.
O escoamento da produção intelec-tual tem sido efectivado principal-mente por meio da publicação de trabalhos completos em actas de congressos, capítulos de livros e artigos em periódicos científicos editados no Brasil e no exterior. Conta-se também com publicações nacionais, de carácter mais didácti-co ou informativo, didácti-com especial menção para as obras de Ceará (2001), Silva (2001), Piola e Vianna (2002) e Silva (2003), dentre outras, ao lado de várias de cunho mais técnico, a exemplo de Piola (1995), Medici (1994), Zayen et al. (1995), Medici (1997), Marques (1999), etc.
Segundo Sousa e Tello (2001), a inserção e penetração da economia da saúde funciona como estímulo
de renovação e ampliação das fron-teiras científicas relacionadas, em particular, aos problemas ligados à equidade das políticas sanitárias, às técnicas de avaliação económica, à fármaco-economia, à avaliação da tecnologia biomédica, áreas que têm recebido um forte impulso nos últimos anos.
Os utilizadores da informação em economia da saúde podem ser en-tes públicos e privados. Entre os primeiros incluem-se o Ministério da Saúde, as secretarias estaduais de saúde e as secretarias munici-pais de saúde, considerando as suas correspondentes áreas de abrangência, cabendo-lhes decidir quanto à afectação dos recursos no atendimento primário, secundário ou terciário da rede pública; a feitura desses serviços, contratada pelo sector privado, é um outro canal de informação. As unidades de natureza privada, incluindo as filantrópicas, carecem de conheci-mentos em economia para plane-jar, executar e avaliar seus negó-cios, como forma de, em primeiro lugar, garantir a sua sobrevivência empresarial. E, conforme o caso, obter o retorno financeiro e/ou social do capital investido, perse-guindo, incessantemente, a maior eficiência técnica e operacional. A comparação de indicadores de saúde e de nutrição do quintil mais rico com os do quintil mais pobre da população brasileira em 1996 demonstra agudos diferenciais, pri-vilegiando os de rendimento mais elevado, com as seguintes razões entre esses quintis: mortalidade infantil (2,91), mortalidade em menores de 5 anos (2,97), cresci-mento retardado para a idade (10,09), desnutrição grave (4,00) e baixo índice de massa corporal materna (1,63) (Gwatkin et al., 2000).
A análise de dados de inquéritos demonstra a desigualdade a favor dos ricos tanto em termos de saúde populacional como de utilização de serviços de saúde. A análise
tam-bém revelou iniquidades na utiliza-ção de serviços de saúde, parti-cularmente para serviços preventi-vos. Uma das hipóteses levantadas é que a iniquidade no acesso para este tipo de serviço tem sérias implicações para o status de saúde da população de mais baixa renda (Campino et al., 2001).
Embora a assistência à saúde uni-versal seja garantida pela Constitui-ção brasileira, as despesas per
capita com cuidados de saúde são
muito baixas. As despesas privadas em saúde são 50% menores do que as despesas do sector público e indivíduos de grupos de baixa ren-da frequentemente recorrem a ser-viços privados e pagam, do próprio bolso, as despesas incorridas e prémios de seguros de saúde. Tam-bém chama a atenção que serviços de cuidados preventivos de saúde têm o mais desigual padrão de uti-lização, representando, mesmo assim, uma das menores categorias de despesas com cuidados de saúde (Campino et al., 2001).
Sob o enfoque da tendência secular, alguns dos indicadores de saúde actuais, quando confronta-dos com os das décadas de 60 e 70, acusam substanciais mudanças no perfil de mortalidade, onde cla-ramente as doenças crónico-dege-nerativas estão em franca expansão e as doenças infecciosas e parasi-tárias assumem um curso descen-dente, ao mesmo tempo que se assiste à postergação da idade ao morrer entre os brasileiros. Tais mudanças são concordantes com a evidência da transição epidemioló-gica, indicando que, ainda que de modo tardio, mas compatível com as condições de desenvolvi-mento económico da capital cearense, Fortaleza estaria para in-gressar no terceiro estágio de tran-sição epidemiológica — a idade das doenças degenerativas e das provocadas pelo homem — em situação de desfasamento, já que os países desenvolvidos há muitos anos alcançaram o estágio
subse-quente — a idade da regressão das doenças crónico-degenerativas (Silva, 1998).
Tais resultados guardam consonân-cia com aqueles identificados no Brasil, segundo análise das tendên-cias históricas da saúde da popula-ção brasileira efectuada por Barreto e Carmo (1994), que destacaram os seguintes marcos, dentre outros: a melhoria significativa dos indicado-res de saúde do país; porém com acentuação das diferenças inter--regionais e interclasses sociais, por conta das disparidades regionais e sociais; a tendência do envelheci-mento da população acompanhada de mudanças importantes nos padrões de morbi-mortalidade e na necessidade de serviços de saúde; a complexidade das tensões sociais no meio urbano e rural exacerban-do a violência; a queda considerá-vel da mortalidade por doenças infecciosas e parasitárias, que, todavia, não é acompanhada da redução de mesma magnitude nas hospitalizações por essas doenças. Esses autores aduzem que as fortes mudanças de alguns indicadores de morbi-mortalidade da população brasileira nas últimas décadas, especialmente o aumento significa-tivo da esperança de vida e a dimi-nuição acentuada nas taxas de mor-talidade infantil e de mormor-talidade por doenças infecciosas, levam a crer que ocorreram expressivas melhorias nos padrões de saúde da população. De outro modo, a forma heterogénea como estas modificações acontecem nos dife-rentes espaços sociais, a consoli-dação de novos problemas, a per-sistência ou o recrudescimento das grandes endemias, ao lado de uma crise generalizada do sistema de assistência à saúde, retratam os limites das primeiras evidências mostradas e requerem análises diferenciadas para se compreender esta complexa e paradoxal situa-ção, bem como suas implicações para as políticas de saúde (Barreto e Carmo, 1995).
6. Conclusão
Neste início de milénio, as expecta-tivas são de que o Brasil, daqui para frente, tenha uma população cada vez mais velha e sempre mais venha identificar e a deparar-se com problemas nas mais diversas fases da vida, especialmente os que afectam a terceira idade. É evidente que tais mudanças têm sérias impli-cações do ponto de vista econó-mico, em função dos altos custos que lhes são associados.
Há, por assim dizer, uma necessi-dade premente de adopção de estra-tégias de intervenção, mais efecti-vas e a custos mais baixos, para deter esse processo de agravo à saúde no país. Para isso espera-se que a economia da saúde ofereça parte dos instrumentos, de forma a garantir um Sistema Único de Saúde mais eficiente e concorrendo para diminuir as disparidades de classes, além das geográficas deste país, rico e pobre ao mesmo tempo, híbrido de país desenvolvido e em desenvolvimento, aportando benefí-cios para todos os segmentos sociais da população brasileira.
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Summary
HEALTH ECONOMICS IN BRAZIL This is a brief overview of the situation of health economics in Brazil, with emphasis on the 1989 establishment of the Brazilian Association of Health Economics (Associação Brasileira de Economia da
Saúde — ABrES), an institution primarily aimed at bringing together experts, pro-fessors and other professionals for whom health economics is relevant in a joint effort towards the development, diffusion and application of techniques, methods and knowledge. The Association was re-sponsible for promoting the earliest expe-riences in teaching and research in health economics in Brazil.
The curriculum of formal education in health economics in Brazil shares courses with those of a number of post-graduate programs (both master and doctorate level) in public health and economics as well as two short-term specialization courses offered in a few Brazilian states, such as São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará and Bahia.
The Health Economics Project («strength-ening health systems to reduce inequi-ties»), a hallmark in the consolidation of health economics in Brazil, was launched in 2000 through a technical cooperation agreement between Brazil and the U. K. (including Northern Ireland), the latter of which represented by DFID (Department for International Development). The
ob-jective of the project was to raise the level of knowhow and application of health economics nationwide for improved deci-sion making in health policies.
As a consequence of a higher level of maturity, the number of specific research groups, or groups featuring lines of re-search in health economics, is now grow-ing steadily while the critical mass is be-ing fertilized by the inclusion of new researchers and the consolidation of cen-ters responsible for knowledge generation and technological innovation. Intellectual production has been diffused mainly through the publication of full papers in the proceedings of congresses, chapters in books and papers in scientific journals, both Brazilian and foreign.
It is hoped that health economics will pro-vide a significant part of the instruments required to make the SUS (Sistema Único de Saúde) more efficient and reduce class and geographical inequities in Brazil — a country which is at the same time rich and poor, developed and underdeveloped — and thereby generate benefits for all the segments of society.