• Nenhum resultado encontrado

A MÚSICA NA EDUCAÇÃO

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2020

Share "A MÚSICA NA EDUCAÇÃO"

Copied!
14
0
0

Texto

(1)

International Scientific Journal – ISSN: 1679-9844 Nº 4, volume 14, article nº 8, October/December 2019 D.O.I: http://dx.doi.org/10.6020/1679-9844/v14n4a8

Accepted: 02/05/2018 Published: 26/11/2019

ISSN: 16799844 – InterSciencePlace – International Scientific Journal Páginas 178 de 240

A MÚSICA NA EDUCAÇÃO

THE MUSIC IN EDUCATION

Maxwell Ferreira Silva1, Gabriela Lelis Euzito Silva2

1Mestrando em Ciências da Educação pela FICS – Facultad Interamericana de Ciencias Sociales, Especialista em Música na Educação pela FACI – Faculdade de Tecnologia de Cachoeiro de Itapemirim, Especialista em Música e Artes pela FAVENI – Faculdade Venda

Nova do Imigrante, Graduado em Licenciatura em Música pelo CBM-CEU – Conservatório Brasileiro de Música-Centro Universitário/RJ. http://lattes.cnpq.br/3390581861256474.

Contato: [email protected].

2Mestrando em Ciências da Educação pela FICS – Facultad Interamericana de Ciencias Sociales, Especialista em Música e Artes pela Faculdade Futura, ICETEC, Brasil, Especialista em Musicoterapia pelo ISEAC – Instituto Superior de Educação de Afonso Cláudio, Graduada em Licenciatura em Música pelo CBM-CEU – Conservatório Brasileiro de

Música-Centro Universitário/RJ. http://lattes.cnpq.br/4312607962503893. Contato: [email protected].

Resumo: Sabe-se que a música é uma ferramenta muito poderosa na construção em distintas partes no desenvolvimento do indivíduo, então, perante ações benéficas proferidas por díspares educadores a respeito do ensinamento da linguagem musical a evolução dos estudantes, este artigo visa destacar a trajetória histórica da música na educação até a sua contemporaneidade. Em meados do século XX a Música e o Canto Orfeônico estavam presentes nos programas das escolas primárias e secundárias, juntamente com o desenho e trabalhos manuais, as artes Teatro e Dança voltavam-se exclusivamente para apresentações em datas comemorativas. A Lei 4.024 de 1961 substitui o Canto Orfeônico pela Educação Musical, não havendo cursos de formações suficientes neste período, outros professores ou indivíduos com habilidades em semelhança atuavam nas aulas de Desenho, Desenho Geométrico, Artes Plásticas e Música. Na Lei 5.692 de 1971, a Arte inclui-se ao currículo das escolas

(2)

como Educação Artística, sendo como atividade educativa, e, criou-se a chamada polivalência no ensino desta. A Lei 9.394 de 1996 segue estabelecendo a Arte como conteúdo obrigatório na educação básica. Entre os anos mencionados, a música faz-se presente como conteúdo em Arte, entretanto, sem garantia em sua efetivação. Em 2006 o MEC divulga algumas orientações curriculares, ficando a cargo de cada unidade escolar ajustar-se mediante suas particularidades. Em 2008 sob a Lei 11.769, a música passou a ser conteúdo obrigatório na educação básica. A Lei 12.287 de 2010 que mantém Arte como componente curricular obrigatório nos diversos níveis da educação básica e desenvolvimento cultural dos estudantes, foi convertida pela Lei 13.417 de 2017 que a sustenta como componente obrigatório da educação básica. A música como mencionada, como conteúdo obrigatório em 2008, foi vetada, assim por meio da Lei 13.278 de 2016 volta-se a disciplina de Arte, juntamente a outras três linguagens artísticas.

Palavras-chave: Música. Arte. Educação. Polivalência. Lei.

Abstract: It is known that music is a very powerful tool in the construction of different parts of the individual's development, so, in view of beneficial actions by different educators regarding the teaching of musical language to the evolution of students, this article aims to highlight the trajectory history of music in education until its contemporaneity. In the mid-twentieth century, music and orpheonic singing were present in the programs of primary and secondary schools, along with drawing and handicrafts, the theater and dance arts turned exclusively to performances on commemorative dates. Law 4,024 of 1961 replaces Orpheonic Singing with Musical Education, and there were not enough training courses during this period, other teachers or individuals with similar skills worked in the classes of Drawing, Geometric Design, Fine Arts and Music. In Law 5.692 of 1971, Art is included in the curriculum of schools as Artistic Education, being as an educational activity, and the so-called polyvalence in its teaching was created. Law 9,394 of 1996 continues to establish Art as a compulsory content in basic education. Between the mentioned years, the music is present as content in Art, however, without guarantee in its effectiveness. In 2006 the MEC publishes some curricular guidelines, leaving it to each school unit to adjust according to its particularities. In 2008 under Law 11.769, music became mandatory content in basic education. Law 12.287 of 2010, which maintains Art as a compulsory curricular component at the various levels of students' basic education and cultural development, was converted by Law 13.417 of 2017, which supports it as a compulsory component of basic education. Music as mentioned, as a mandatory content in 2008, was vetoed, so through Law 13.278 of 2016 becomes the discipline of Art, along with three other artistic languages.

(3)

1. A Trajetória da Música Perante a Educação

A música é uma ferramenta muito poderosa de evolução sociocultural econômica, uma vez que pode trazer uma gama de bem-estar para a sociedade e melhoria na qualidade de ensino no aprendizado dos educandos. Diante dos benefícios ocasionados pela música, fazendo o discente um ser pensante e crítico, pode ser que seja adequado inseri-la como disciplina definitiva a grade curricular. Ou será que essa disciplina que está e sempre esteve de maneira subjetiva ao meio escolar não convém para vestir-se com “vida” independente?

Visando adotar novas condutas educacionais, cabe compreender e discutir diante de pesquisas o que é educação musical e suas benfeitorias no ambiente escolar, por meio da trajetória histórica. Fonterrada (2008) apresenta um conceito de que é necessário compreender os atos incididos, propendendo-se a uma amplitude posteriormente:

Surge, assim, dúvidas e inquietações, às quais se juntam expectativas e esperanças quanto aos possíveis rumos a serem tomados pela música nos próximos anos; com esse clima, aflora a necessidade de fortalecer, ou mesmo de estabelecer, a identidade da disciplina e do professor de música. Como parte dessa tarefa, é preciso lançar um olhar ao passado, pois conhecermos quem fomos pode contribuir para compreendermos quem somos e quem pretendemos ser (FONTERRADA, 2008, p. 208).

Entende-se que em meados do século XX, as matérias Desenho, Trabalhos Manuais, Música e Canto Orfeônico anexavam aos programas das escolas primárias e secundárias, considerando o saber diante das culturas predominantes. Os educadores lecionavam com exercícios e modelos convencionais na qual eles optavam diante de manuais e livros didáticos. Sendo o ensino de Arte direcionado ao campo técnico, o professor transmitia os conceitos e padrões estéticos e a função dos alunos era exclusivamente de reproduzir. As artes Teatro e Dança, eram simplesmente implementadas em datas comemorativas. (BRASIL, 1997).

As atividades de teatro e dança somente eram reconhecidas quando faziam parte das festividades escolares na celebração de datas como Natal e Páscoa ou Independência, ou nas festas de final de período escolar. O teatro era tratado como uma única finalidade: a da apresentação. As crianças decoravam os textos e os movimentos cênicos eram marcados com rigor (BRASIL, 1997, p. 25; p. 26).

(4)

Por intermédio do interventor federal do Rio de Janeiro João Alberto, Heitor Villa-Lobos implementou o ensino de música coletivo com o Canto Orfeônico no período de Vargas. Após, Villa-Lobos assumiu a função de supervisor e diretor da Educação Musical do Brasil em 1932, por meio do convite do então secretário de Educação do Distrito Federal, Anísio Teixeira (CRUVINEL, 2005).

A Música apresentou-se por intermédio do Canto Orfeônico, introduzida na década de 30 por Heitor Villa-Lobos. Além da pretensão em apresentar a linguagem musical, incluía-se o Canto Orfeônico que era direcionado ao coletivismo e civismo diante do período político. Perante a implementação, Villa-Lobos encontrou complicações na orientação dos docentes (BRASIL, 1997).

...Villa-Lobos esbarrou em dificuldades práticas na orientação de professores e acabou transformando aula de música numa teoria musical baseada nos aspectos matemáticos e visuais do código musical com a memorização de peças orfeônicas, que, refletindo a época, eram de caráter folclórico, cívico e de exaltação (BRASIL, 1997, p. 26).

Villa-Lobos voltou-se a delinear uma trajetória para o ensino de música.

A implantação do ensino de música deu-se através do canto coletivo. Para Villa-Lobos, esse seria o ponto inicial para a formação de uma consciência musical brasileira, além de sua prática propiciar o desenvolvimento de elementos considerados essenciais à formação musical (senso rítmico, consciência melódica e harmônica e senso estético).

As disciplinas responsáveis por esse treinamento (execução dos valores e entoação dos intervalos) foram respaldadas com a criação de material didático específico: Coletânea de solfejos, Canto orfeônico e Guia prático (PAZ, 2013, p. 18).

Segundo Vasco Mariz (1994), Villa-Lobos nunca foi docente etimologicamente dito, entretanto, anexou um legado histórico na música e educação musical.

Villa-Lobos nunca foi um professor na expressão da palavra. Ensinou esporadicamente, mas não teve tempo e talvez paciência para ministrar classes regulares. No entanto, podemos considera-lo um bom educador e sua ação entusiasta teve papel predominante na implantação do canto orfeônico no Brasil (MARIZ, 1994, p. 158).

Diante da Lei 4.024, promulgada em 1961, sendo esta LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) a primeira lei no âmbito nacional numa estruturação de nível escolar, o Canto Orfeônico foi substituído pela Educação Musical. Nesse

(5)

período, a educação em Arte direciona-se a crescente natural da criança, visando o respeito e as formas de expressão, dentro do processo em que o discente envolve-se com sua criação. Conenvolve-seguinte, surgem novas influencias que apreenvolve-sentam a música como uma expressão artística que além de cantada, pode ser: tocada, sentida, dançada, por meio de dinâmicas desenvolvendo a percepção auditiva, rítmica, movimento corporal, fazendo o educando criar e improvisar dentro das propostas apresentadas.

Os professores da época estudam as novas teorias sobre o ensino de Arte divulgadas no Brasil e no exterior, as quais favorecem o rompimento com uma estética direcionada unicamente à mimese, que demarca a escola tradicional (Entre outras, é importante citar as influências do norte-americano John Dewey, do artista vienense Franz Cisek, do austríaco Viktor Lowenfeld, do inglês Herbert Read e dos brasileiros Augusto Rodrigues e Noemia Varela).

No caso da música, é bem significativa a mudança que ocorre com a introdução da Educação Musical: incorporaram-se nas escolas os novos métodos que estavam sendo disseminados na Europa (São as influências do suíço Emile Jacques Dalcroze, do húngaro Zoltan Kodály e do alemão Carl Orff), como também as contribuições de pedagogos musicais brasileiros (Propostas de musicalização de Liddy Chiafarelli Mignone; método Sá Pereira; João Gomes Jr. entre outros e contribuições de Koellreutter) (BRASIL, 1998, p. 25).

Na década de 60, eram escassos os cursos de formação desta área, sendo assim, docentes distintos ou pessoas com habilidades para tal, assumiam as aulas de Desenho, Desenho Geométrico, Artes Plásticas e Música (BRASIL, 1997). Por meio de pesquisas distintas, é possível deparar-se com a apresentação da Arte no currículo escolar sendo algo vista com indefinições, ambiguidades e até multiplicidades.

A LDB sofre alterações em 1971 diante do regime militar pela Lei 5.692/71, dirigindo-se somente ao ensino de primeiro e segundo grau (PENNA, 2004). Arte passa a ser incluída no currículo escolar com o título de Educação Artística, porém, como atividade educativa e não como disciplina. Maura Penna (2004) profere sobre essas determinadas alterações:

Dessa forma, a “inspiração liberalista que caracterizava a Lei 4.024 cede lugar a uma tendência tecnicista” na Lei 5.692 (Saviani, 1978, p. 187), tendência essa atenuada pelo caráter humanístico da Educação Artística, cuja inclusão é estabelecida como obrigatória “nos currículos plenos dos estabelecimentos de 1º e 2º Graus” – ao lado da Educação Moral e Cívica, Educação Física e Programas de Saúde –, de acordo com seu artigo 7º.

(6)

Assim, sob a designação de Educação Artística, o ensino de arte é contemplado no próprio corpo da lei, enquanto que, comparativamente, a definição das matérias do “núcleo comum, obrigatório em âmbito nacional”, fica a cargo do Conselho Federal de Educação (Lei 5.692/71 – art. 4º). (PENNA, 2004, p 21).

Sabe-se que a música está inseria na disciplina de arte, Figueiredo (2010) aponta que isto ocorreu, entre outros motivos, depois da promulgação da Lei 5.692/1971 a qual tornou obrigatório o ensino de arte e também criou a chamada polivalência.

No ano de 1973 aprova-se o Parecer CFE nº 1284/73 e a Resolução CFE nº 23/73, sendo, termos normativos relacionados ao curso de licenciatura em Educação Artística. Maura Penna (2010) expõe sobre esses termos normativos:

a) a licenciatura de 1º grau – que capacita para o exercício profissional neste nível de ensino, também chamada de licenciatura curta, em função de sua duração –, que proporciona uma habilitação geral em Educação Artística, com base numa abordagem integrada das diversas linguagens artísticas; b) a licenciatura plena, que combina essa habilitação geral a habilitações específicas, “relacionadas com as grandes divisões da Arte” – Artes Plásticas, Artes Cênicas, Música e Desenho (PENNA, 2010, p. 124).

Conseguinte, Penna (2010) apresenta que diante dessas linguagens artísticas, os mesmos passaram a fazer parte da área de Educação Artística, acrescenta-se, que em 1977, o CFE pronuncia a respeito de sua prática, por intermédio do Parecer CFE nº 540/77, por sua vez, deixando abrangível que dentre distintas linguagens a Música se inclui como uma das linguagens artísticas.

Entre outras linguagens artísticas, este parecer menciona especificamente a música, comentando que os enfoques que lhe eram dados anteriormente – limitando-a à teoria musical ou ao canto coral – não atenderiam, isoladamente, “ao que se espera num contexto mais amplo e novo da Educação Artística” (BRASIL, 1982, p. 13). Dessa forma, fica claro que, do ponto de vista dos preceitos normativos, o campo da Educação Artística engloba a música (PENNA, 2010, p. 125).

Fuks (1991), aborda sobre a polivalência e ao esvaziamento dos conteúdos de cada linguagem artística, ligada a pró-criatividade, também citada pelo autor como caracterizada pelo „laissez-faire‟ [deixar-fazer]. “Difunde-se, portanto, um enfoque ao esvaziamento dos conteúdos próprios de cada linguagem artística. Deste modo, a Lei 5692/71 vem oficializar a pró-criatividade, tendência já dominante,

(7)

de fato, na prática pedagógica escolar” (FUKS, 1991, p 158-159 apud PENNA, 2010, p 126).

Em 1996, Arte passou a ser considerada obrigatória na educação básica, diante da Lei nº 9.394/96, porém, continua a indefinição, ambiguidade, perante aberturas para interpretações díspares no ensino da arte. Maura Penna (2004) diz:

A atual LDB, estabelecendo que “o ensino da arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos” (Lei 9.394/96 – art. 26, parágrafo 2º), garante um espaço para a(s) arte(s) na escola, como já estabelecido em 1971, com a inclusão da Educação Artística no currículo pleno. E continuam a persistir a indefinição e ambiguidade que permitem a multiplicidade, uma vez que a expressão “ensino da arte” pode ter diferentes interpretações, sendo necessário defini-la com maior precisão (PENNA, 2004, p. 23).

A polivalência no ensino de arte refere-se à ideia de que um mesmo profissional poderia dar conta de ensinar Artes Visuais, Teatro, Música e Dança. O Ministério da Educação divulgou em 2006 as “Orientações curriculares para o ensino médio”, compreende-se então, que fica a cargo de cada unidade de ensino, adequar-se à sua própria peculiaridade diante das formas de educar. Tendo em vista que a carga horária da disciplina de Arte, de certa forma, não é ampla e a questão da disponibilidade de docentes capacitados.

O princípio da especificidade das linguagens artísticas pressupõe a superação da prática polivalente que marcou a experiência da Educação Artística (Lei 5.692/71).

O ensino do teatro, da música, da dança, das artes visuais e suas repercussões nas artes audiovisuais e midiáticas é tarefa a ser desenvolvida por professores especialistas, com domínio de saber nas linguagens mencionadas.

O trânsito entre as linguagens deve ser desenvolvido de maneira cuidadosa, evitando as abordagens superficiais e o uso de múltiplas modalidades sem aprofundamento consistente.

Se a realidade da escola não permitir a prática interdisciplinar recomendável, torna-se mais coerente concentrar os conteúdos no campo da formação docente, ou seja, em música, dança, teatro ou artes visuais, tendo como meta a ampliação das oportunidades de acordo com o interesse dos estudantes e as possibilidades da escola (BRASIL, 2006, p. 202).

Diante dos termos legais e normativos de alcance nacional nos anos de 1970 e 1990, compreende-se que a atual LDB faz menção a arte de caráter ambíguo, ao mesmo período em que os Parâmetros para os ensinos fundamental e médio abrem espaço para música como conteúdo curricular “Arte”, sem qualquer garantia de

(8)

efetivar-se na prática escolar, cabendo essa decisão pedagógica a cada escola (PENNA, 2010).

Santos (2012) apresenta a redação dada pela Lei nº 12.287 de 2010: “Artigo 26, § 2o O ensino da arte, especialmente em suas expressões regionais, constituirá componente curricular obrigatório nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos” (BRASIL, 2010). Porém, esse artigo é convertido na Lei 13.415, de 2017, que diz: “§ 2º O ensino da arte, especialmente em suas expressões regionais, constituirá componente curricular obrigatório da educação básica (BRASIL, 2017).

A Lei nº 11.769/2008 altera o artigo 26, e apresenta-se a obrigatoriedade do ensino da música na educação básica. A Lei 11.769, Brasil (2008):

Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, Lei de Diretrizes e Bases da Educação, para dispor sobre a obrigatoriedade do ensino da música na educação básica.

O Presidente da República.

Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art. 1o O art. 26 da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar acrescido do seguinte § 6o:

“Art. 26. ...

§ 6o A música deverá ser conteúdo obrigatório, mas não exclusivo, do componente curricular de que trata o § 2o deste artigo. ” (NR)

Art. 2o (VETADO)

Art. 3o Os sistemas de ensino terão 3 (três) anos letivos para se adaptarem às exigências estabelecidas nos arts. 1o e 2o desta Lei.

Art. 4o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 18 de agosto de 2008; 187o da Independência e 120o da República. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA. Fernando Haddad (BRASIL, 2008).

Sobre o veto no artigo 2º da Lei citada, Brasil (2008), apresenta a mensagem de veto nº 622 de 18 de agosto de 2008:

“No tocante ao parágrafo único do art. 62, é necessário que se tenha muita clareza sobre o que significa „formação específica na área‟. Vale ressaltar que a música é uma prática social e que no Brasil existem diversos profissionais atuantes nessa área sem formação acadêmica ou oficial em música e que são reconhecidos nacionalmente. Esses profissionais estariam impossibilitados de ministrar tal conteúdo na maneira em que este dispositivo está proposto.

Adicionalmente, esta exigência vai além da definição de uma diretriz curricular e estabelece, sem precedentes, uma formação específica para a transferência de um conteúdo. Note-se que não há qualquer exigência de formação específica para Matemática, Física, Biologia etc. Nem mesmo quando a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional define conteúdos mais específicos como os relacionados a diferentes culturas e etnias (art.

(9)

26, § 4o) e de língua estrangeira (art. 26, § 5o), ela estabelece qual seria a formação mínima daqueles que passariam a ministrar esses conteúdos.” Essas, Senhor Presidente, as razões que me levaram a vetar o dispositivo acima mencionado do projeto em causa, as quais ora submeto à elevada apreciação dos Senhores Membros do Congresso Nacional (BRASIL, 2008).

Santos (2012), explana sobre essa conflitante redação e o exercício docente do especialista natural da licenciatura específica plena, não deixando de acrescentar os aspectos positivos de profissionais músicos como coparticipantes na escola.

É gritante o conflito que a redação do Veto 622 traz. É plenamente dispensável nos determos nesses argumentos apresentados no texto do veto, visto que o mesmo parecer inicia a redação dizendo: “No tocante ao parágrafo único do art. 62, é necessário que se tenha muita clareza sobre o significado „formação específica na área‟”.

Uma das questões que do momento atual, e que tem ocupado os músicos, e de forma especial os educadores musicais, é exatamente essa: o exercício da docência na educação básica pelo especialista oriundo da licenciatura específica e plena, sem negar a positividade da presença de outros profissionais músicos na escola, como parceiros colaboradores (SANTOS, 2012, p. 204).

Diante da Lei 11.769 abrem-se mais concursos para professores de música. Perante a Lei, há questionamentos de instituições e de sujeitos sobre a polivalência artística. Sergio Figueiredo (2008), quando presidente da ABEM (Associação Brasileira de Educação Musical) diz:

...muitas universidades aboliram a formação polivalente objetivando a formação específica do licenciado em cada uma das linguagens artísticas. Mas diversos sistemas educacionais preferiam – e ainda preferem – o professor polivalente, capaz de atuar em muitas áreas artísticas. [...] Para muitos sistemas educacionais, a questão das diferentes artes no currículo não tem sido considerada relevante, e esse novo texto da lei indica a necessidade de adequação a esta nova perspectiva. Isto implica a abertura de novos concursos para professores de música nas escolas, sendo esta uma ação que depende de vários fatores, principalmente financeiros. Aliados a estes fatores financeiros estão aqueles relacionados à organização do currículo, onde deverá ser aberto espaço específico para a música (FIGUEIREDO, 2008 apud SANTOS, 2012, p. 207; p. 208).

Tendo percorrido grande parte do território nacional e vivenciado como presidente da ABEM 2007-2009, Figueiredo apresenta como acompanhou a aprovação da Lei:

(10)

A participação da ABEM neste processo, que culminou com a aprovação do Projeto de Lei que institui a obrigatoriedade da música na educação básica, tem sido como parceria do GAP – Grupo de Articulação Parlamentar – com a liderança do músico Felipe Radicetti, do Rio de Janeiro.

A ABEM esteve representada em reuniões onde se discutiram os encaminhamentos deste processo e, também, representantes da associação fizeram parte do GT – Grupo de Trabalho – que assumiu tarefas pontuais durante a campanha pela aprovação do projeto.

A ABEM participou desde 2006 no processo de elaboração do MANIFESTO que foi amplamente divulgado e que teve a assinatura de milhares de pessoas e instituições favoráveis a este movimento (dados mais detalhados no site www.euqueroeducacaomusicalnaescola.org). A ABEM participou, também em 2006, da audiência pública no Senado Federal onde senadores presentes assumiram o compromisso da elaboração do projeto.

Em 2007 diversos membros da ABEM contribuíram com o movimento discutindo ações para sensibilizar os parlamentares para a aprovação do projeto de lei, sempre com parceria nos trabalhos referentes ao processo no Congresso Nacional. Desde 2007 os eventos regionais e nacionais vêm discutindo esta questão do projeto de lei compreendendo que os participantes dos eventos da ABEM são multiplicadores em suas ações diárias.

Em 2008 a ABEM também esteve representada em trabalhos no Congresso Nacional com a finalidade de argumentar em favor do projeto junto aos Deputados da Câmara Federal. Foi importante a participação da ABEM em reunião com o Ministro da Educação, Fernando Haddad, onde foi sugerida – pelo próprio ministro – a criação de uma comissão mista para discutir a matéria, e a ABEM seria uma das integrantes desta comissão (FIGUEIREDO, 2008 apud SANTOS, 2012, p. 209; p. 210).

Segundo Penna (2010), esta lei altera a LDB, que no momento continua vigente, sobrepõe sendo um atual parágrafo do artigo 26, que menciona a música como conteúdo obrigatório, mas não exclusivo, do “ensino da arte” na educação básica. “No entanto, o artigo 3º da referida lei prevê um prazo de três anos letivos para que os sistemas de ensino se adaptem à exigência, projetando a sua implantação, a princípio, até agosto de 2011” (PENNA, 2010, p. 139).

Diante de alguns exemplos de unidades de ensino que aderiram a música em sua grade curricular citadas em Penna (2010), é importante mencionar que perante uma resolução de 2006 do Conselho Municipal de Educação em João Pessoa/PB, foi implementado o ensino das artes nas diversas linguagens, e professores de música atuando na área específica.

Como resultado desta resolução, no final de 2007 foi realizado concurso público para professor de música na rede municipal e vários professores aprovados já foram contratados. Por outro lado, atualmente (1º semestre de 2010) é possível encontrar professores de música atuando na área específica, em escolas municipais, nas séries iniciais do ensino fundamental, na educação infantil e mesmo na Educação de Jovens e Adultos (EJA), espaços estes em que há alguns anos, dificilmente eram

(11)

encontrados professores licenciados na área de Arte (PENNA, 2010, p. 141).

Em momento incluído pela Lei nº 11.769, de 2008, a música passou a ser conteúdo obrigatório, porém vetado, a música volta a disciplina de arte por intermédio da Redação dada pela Lei nº 13.278, de 2016: “As artes visuais, a dança, a música e o teatro são as linguagens que constituirão o componente curricular de que trata o § 2o deste artigo”. O artigo 2º expõe “O prazo para que os sistemas de ensino implantem as mudanças decorrentes desta Lei, incluída a necessária e adequada formação dos respectivos professores em número suficiente para atuar na educação básica, é de cinco anos” (BRASIL, 2016). Será esse único profissional adequado para lecionar ambos conteúdos?

Lima (2017) pondera sobre a Lei nº 13.278 e a Medida Provisória nº 746:

... tendo em vista que após a aprovação da Lei nº 13.278, de 02 de maio de 2016 (BRASIL, 2016a), e a implantação da Medida Provisória nº 746, de 22 de setembro de 2016 (BRASIL, 2016b), está havendo, por parte dos professores de arte, um certo descontentamento no que se reporta à não obrigatoriedade do ensino artístico no ensino médio, e, também, certa apreensão dos educadores musicais quanto ao uso da polivalência nos processos de ensino/aprendizagem das artes, o que, em tempos anteriores, dificultou o aprendizado da linguagem musical por razões estruturais e infraestruturais a ele relacionadas (LIMA, 2017 p 48).

Contudo, até a presente pesquisa (28 de abril de 2019) essa Medida Provisória nº 746 de 22 de setembro de 2016 passa a ser Convertida na Lei nº 13.415 de fevereiro de 2017. E a Lei 11.769 de 2008 onde a música ingressa como conteúdo obrigatório, mas não exclusivo, é substituído por a Lei 13.278 de 2016, incluindo-a a disciplina de arte.

Em entrevista ao portal de notícias G1, o então presidente da Associação Brasileira de Educação Musical (ABEM) Marcus Vinícius Medeiros Pereira, diz sobre essa mudança na lei:

...a ampliação proposta em 2016 foi importante para fortalecer a arte. No entanto, o fato de a legislação ser “imprecisa e ambígua”, porque nela ainda há a figura do professor de educação artística “polivalente”.

“Teríamos quatro professores [de música, artes visuais, dança e teatro] trabalhando juntos de forma interdisciplinar. Mas a formação de professores é um dos problemas, a única universidade que tem escolas específicas nas quatro linguagens é a Federal da Bahia. No geral, temos um número pequeno de cursos de licenciaturas em dança” (FAJARDO, 2018).

(12)

No entanto, é possível perceber perante está pesquisa a trajetória histórica da música na educação, diante de diversos conceitos por parte de autoridades, educadores e pesquisadores, é possível iniciar uma compreensão de que a ainda há diversos caminhos a serem trilhados a partir deste princípio, para que educadores e educandos possam ser contemplados visto as diversas potencialidades que o ensino de Música pode desenvolver.

Considerações Finais

Compreende-se que ao falar sobre o ensino da Educação Musical nas escolas brasileiras, é essencialmente importante entendermos como se deu o seu processo de implantação, uma vez que conhecendo a sua importância e trajetória no passado, possamos refletir e buscar meios de impulsionar a sua efetivação nas instituições contemporâneas.

Visando conhecer o processo educacional da música no sistema básico de ensino do Brasil, podemos destacar no presente artigo, a função que a música exerce para a valorização sociocultural dos discentes, uma vez que a mesma pode contribuir para o desenvolvimento dos indivíduos, ampliando os processos de ensino e aprendizagem, a cognição, o senso de pluralidade no campo afetivo/social, e as demais benfeitorias adquiridas com a sua vivência.

Buscando argumentar sobre a importância do ensino e a valorização do fazer artístico com as particularidades ao qual cada pessoa se apropria da arte, observa-se que por meio da educação em Arte, o discente pode ampliar suas experiências, a percepção, a sensibilidade, a imaginação e se tornar um ser mais reflexivo e crítico. Porém, diante da polivalência existente no seu ensino, com as modalidades de Artes Visuais, Dança, Teatro e Música, percebe-se que há um esvaziamento dos conteúdos, tendo em vista a carga horária reduzida da disciplina e a questão de se ter docentes especializados em cada modalidade.

Mediante tudo que foi mencionado a respeito das Leis e normas conquistadas na educação, entende-se que a atual LDB refere-se à Arte de forma imprecisa, mas ao mesmo tempo estabelece um espaço para a música como parte do conteúdo

(13)

curricular de Arte, continuando com a polivalência do seu ensino. Entretanto, durante o processo em que a música esteve embasada, podemos perceber um crescimento em estudos na área, com mais profissionais capacitados e tantos outros buscando a capacitação na área da Educação Musical. Cabe-se assim, continuar buscando caminhos e reflexões, através de estudos, para que se possa quebrar as diversas barreiras impostas pelas políticas públicas do país, afim de fortalecer e criar leis para a implementação da Educação Musical como disciplina na grade curricular do ensino básico no país.

Referências

BRASIL. Lei nº 11.769, de 18 de agosto de 2008. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Lei de diretrizes e bases da educação, para dispor sobre a obrigatoriedade do ensino da música na educação básica. Brasília, DF, ago. 2008. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11769.htm>. Acesso em 28 de abr. 2019.

BRASIL. Mensagem nº 622, de 18 de agosto de 2008. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Lei de diretrizes e bases da educação, para dispor sobre a obrigatoriedade do ensino da música na educação básica. Brasília, DF, ago. 2008. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/Msg/VEP-622-08.htm>. Acesso em 28 de abr. 2019.

BRASIL. Lei nº 12.287, de 13 de julho de 2010. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional,

Brasília, DF, jul. 2010. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2010/Lei/L12287.htm#art1>. Acesso em 27 de abr. 2019.

BRASIL. Lei nº 13.278, de 2 de maio de 2016. Que fixa as diretrizes bases da educação nacional, referente ao ensino de arte, Brasília, DF, mai. 2016. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/lei/l13278.htm>. Acesso em 24 de fev. 2018.

BRASIL. Lei nº 13.415, de 16 de fevereiro de 2017. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional,

Brasília, DF, fev. 2017. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/L13415.htm#art2>. Acesso em 27 de abr. 2019.

(14)

BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: arte / Secretaria de Educação Fundamental – Brasília: MEC/SEF, 1997.

BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: arte / Secretaria de Educação Fundamental – Brasília: MEC/SEF, 1998.

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Orientações curriculares para o ensino médio: linguagens, códigos e suas tecnologias. Brasília, 2006.

CRUVINEL, Flavia Maria. Educação musical e transformação social – uma experiência como ensino coletivo de cordas / Flavia Maria Cruvinel. – Goiânia: Instituto Centro-Brasileiro de Cultura, 2005.

FAJARDO, Vanessa. Lei que torna o ensino de música obrigatório na rede pública completa dez anos, mas não é implementada. Reportagem 13 de out. 2018, G1 – São Paulo, 2018. Disponível em: <https://g1.globo.com/educacao/guia-de- carreiras/noticia/2018/10/13/lei-que-torna-o-ensino-de-musica-obrigatorio-na-rede-publica-completa-dez-anos-mas-nao-e-implementada.ghtml>. Acesso em 29 de abr. 2019.

FONTERRADA, Marisa Trench de Oliveira, 1939 – De tramas e fios: um ensaio sobre música e educação. - 2ª ed. – São Paulo: Editora UNESP; Rio de Janeiro: Funarte, 2008.

MARIZ, Vasco. História da música no Brasil / Vasco Mariz. – 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1994.

PAZ, Emerlinda A., 1949. Pedagogia musical brasileira no século XX. Metodologias e tendências. 2.ed. revista e aumentada – Brasília: Editora MusiMed, 2013.

PENNA, Maura. A dupla dimensão da política educacional e a música na escola: I – analisando a legislação e termos normativos. Revista da ABEM, Porto Alegre, V. 10, 19-28, mar. 2004.

_______________. Música (s) e seu ensino / Maura Penna. 2. ed. rev e ampl. – Porto Alegre: Sulina, 2010.

SANTOS, Regina Marcia Simão. Música, cultura e educação: os múltiplos espaços de educação musical – Porto Alegre: Sulina, 2012.

Referências

Documentos relacionados

O modelo conceitual procura mostrar quais são os elementos de informação tratados pelo sistema, para que mais adiante se possa mostrar ainda como essa informação é transformada pelo

Uma segunda hipótese foi de que não haveria diferenças nas práticas educativas maternas e paternas aos 24 meses da criança, a exem- plo do que foi constatado no estudo

O Documento Orientador da CGEB de 2014 ressalta a importância do Professor Coordenador e sua atuação como forma- dor dos professores e que, para isso, o tempo e

Colhi e elaborei autonomamente a história clínica de uma das doentes internadas no serviço, o que constituiu uma atividade de importância ímpar na minha formação, uma vez

•   O  material  a  seguir  consiste  de  adaptações  e  extensões  dos  originais  gentilmente  cedidos  pelo 

[r]

A Vector Network Analyser is used to generate the transmitted signal and to collect the received signals, being both in the frequency range of 100 MHz to 3 GHz.. Figure 3.4:

Also due to the political relevance of the problem of repressing misguided employment relationships, during the centre-left Prodi Government (2006-2008) and the