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Vista do O gênero notícia e a análise linguística.

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Academic year: 2021

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O gênero notícia e a análise linguística: uma abordagem

educomunicativa para o trabalho na escola

Rafaela Salemme Bolsarin Mestre em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas. Graduada em Comunicação Social -

habilitação em Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho".

Resumo

O objetivo deste artigo é apresentar uma proposta para o trabalho com notícias na escola por meio da análise linguística, a partir da leitura/escuta de textos, visando à integração dos eixos de ensino da língua portuguesa: leitura, produção de textos e análise linguística. Para isso, buscamos conceituar a análise linguística apresentando alguns pontos principais para o trabalho metalinguístico nesta perspectiva e destacando a relação que se estabelece no diálogo com os gêneros discursivos. Assim, interessa-nos discutir a abordagem da análise linguística na leitura de gêneros jornalísticos para que possamos, enfim, apresentar uma proposta para o trabalho com notícias. Desta forma, compreendendo que a análise linguística deve funcionar como uma ferramenta para ampliação das práticas dos alunos enquanto leitores e produtores de textos, entendemos que sua fusão com os gêneros na escola permitirá que os alunos se apropriem, de fato, da língua materna, sendo capazes, não só, de compreender textos, mas de refletirem também sobre as condições de produção e circulação dos mesmos.

Palavras-chave

Análise linguística; gêneros discursivos; notícias.

Abstract

The purpose of this article is to present a proposal for the work with news in the school through linguistic analysis, from the reading / listening of texts, aiming at the integration of the axes of teaching of the Portuguese language: reading, text production and analysis linguistics. For this, we seek to conceptualize the linguistic analysis presenting some main points for the metalinguistic work in this perspective and highlighting the relation established in the dialogue with the discursive genres. Thus, we are interested in discussing the approach of linguistic analysis in the reading of journalistic genres so that we can, finally, present a proposal for working with news. In this way, understanding that linguistic analysis should work as a tool to expand students' practices as readers and producers of texts, we understand that their fusion with the genres in the school will allow the students to appropriate, in fact, the mother tongue, being capable not only of understanding texts, but also of reflecting on the conditions of production and circulation thereof.

Keywords

Linguistic analysis; discursive genres; News.

Introdução

Desde que foi proposta, em 1984, por Geraldi, na obra “O texto na sala de aula”, a análise linguística (AL) tem trilhado um longo caminho para chegar, de fato, à prática da escola. Oficialmente, a AL se configura hoje como um dos três eixos principais para articulação dos conteúdos de Língua Portuguesa, a saber: prática de escuta e leitura de textos, prática de produção de textos orais e escritos e prática de análise linguística (BRASIL, 1998). Assim, ao lado da leitura e da produção de textos, que se posicionam como práticas de uso da língua materna, a AL assume a função de reflexão, que deve ser desenvolvida a partir e por meio dos usos da língua.

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Desde que foi cunhada, a AL surgiu como uma proposta de “articulação entre a atividade de sala de aula e a concepção interacionista de linguagem” (GERALDI, 2006, p. 59), o que nos permite compreender que a AL é muito mais do que uma mera mudança metodológica no ensino de gramática, uma vez que rompe com o conceito da língua enquanto código para se associar a uma nova concepção de linguagem que se baseia na interação. Desta forma, destaca-se que “não se trata de um ensino ‘renovado’ de gramática, ou do que se tem denominado recentemente ‘gramática contextualizada’, mas de uma outra maneira de tratar os fenômenos linguísticos na escola” (MENDONÇA, 2006b, p. 96).

Associada a esta nova perspectiva, outra mudança importante ocorreu no ensino de língua portuguesa: a centralidade no trabalho com os gêneros. Assim, da mesma forma que a AL privilegia o texto enquanto unidade de estudo, as orientações curriculares mais recentes propõem que o trabalho pedagógico com os textos seja feito com base nos gêneros (BRASIL, 1998). Por esta razão, o objetivo deste artigo é apresentar uma proposta de trabalho educomunicativa com gêneros por meio da AL, a partir da prática de leitura, buscando levantar possibilidades e ilustrar atividades que integrem o uso da linguagem e sua reflexão na sala de aula.

Nesta proposta, escolhemos trabalhar com gêneros jornalísticos, tendo como objeto as notícias, atendendo a uma demanda de seleção de gêneros básicos para domínio escrito e oral dos alunos ao longo da progressão escolar. Desta forma, situamos o presente artigo na perspectiva de dialogar com o professor da educação básica, tendo em vista que é na prática da sala de aula que as propostas pedagógicas se materializam, de fato, para a ampliação das competências e habilidades dos alunos.

Análise linguística e o trabalho com gêneros

Tendo em vista que a AL deve ser realizada sempre em articulação com os eixos de leitura e produção, esta se configura como “um meio para os alunos ampliarem as suas práticas de letramento, já que [a análise linguística] auxilia na elaboração e compreensão de textos orais e escritos dos mais diversos gêneros” (MENDONÇA, 2006c, p. 74). Neste sentido, a AL pode ser considerada essencial no trabalho com gêneros discursivos, uma vez que as reflexões linguísticas promovidas por meio desta prática possibilitam a compreensão dos gêneros, de suas formatações e das relações que eles estabelecem com o contexto social.

Da mesma forma que a AL já é constituída a partir de uma perspectiva sociointeracionista, os enunciados (que são a materialização dos gêneros) devem ser vistos também no processo de interação. Assim, de acordo com Fiorin (2008, p. 61), “o gênero estabelece, pois, uma interconexão da linguagem com a vida social. A linguagem penetra na vida por meio dos enunciados concretos e, ao mesmo tempo, pelos enunciados a vida se introduz na linguagem”.

Tendo isso em vista, podemos entender que o trabalho da AL com gêneros não pode ser prescrito em regras e normas fixas, uma vez que, ainda que os gêneros sejam “tipos relativamente estáveis de enunciados” (BAKHTIN, 2003, p. 262), sua materialização ocorre somente por enunciados concretos e estes, por sua vez, são irrepetíveis. Desta maneira, para trabalhar pedagogicamente com um gênero, o professor precisará sempre estudá-lo para se familiarizar com ele, conforme recomenda Mendonça (2006c, p. 76-77):

[...] o docente deve articular sempre o conhecimento macro sobre o gênero – função social, formas de circulação, interlocutores privilegiados, temas freqüentes, organização geral da informação – e o conhecimento micro a

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79 respeito – estruturação dos períodos, escolha de palavras, expressões, etc. Dito de outro modo, o professor deve estar atento para o fato de que essa organização micro dá sustentação para que o gênero cumpra sua função social; as escolhas lingüístico-discursivas presentes num dado gênero não são aleatórias, mas ali estão para permitirem que um gênero funcione socialmente.

Para a autora, portanto, o trabalho com gêneros por meio da AL deve ser baseado na análise e na reflexão da função social do gênero estudado e da adequação das escolhas linguísticas em relação à situação comunicativa da qual o gênero faz parte. Assim, tendo em vista estas recomendações gerais e a noção de que é preciso conhecer os gêneros para se trabalhar com eles, iremos nos deter agora aos gêneros jornalísticos.

Gêneros jornalísticos: porque e como trabalhar

Tendo em vista a enorme variedade de gêneros do discurso circulando socialmente, faz-se necessário um processo de seleção para o trabalho na escola. Pensando nisso, os Parâmetros Curriculares Nacionais recomendam que é preciso priorizar escolhas envolvidas em situações públicas de uso da linguagem, valorizando ainda aquelas que possam “favorecer a reflexão crítica, o exercício de formas de pensamento mais elaboradas e abstratas, bem como a fruição estética dos usos artísticos da linguagem, ou seja, os mais vitais para a plena participação numa sociedade letrada” (BRASIL, 1998, p. 24).

Nesta abordagem, os gêneros jornalísticos aparecem como possibilidades de trabalho para o professor, uma vez que são considerados privilegiados para a prática de escuta e leitura de textos. Para os documentos oficiais, esses gêneros devem ser selecionados para o trabalho com os alunos porque fazem parte da realidade social e do universo escolar deles. Assim, dentre as categorias sugeridas pelos PCNs, os gêneros jornalísticos estão demarcados como gêneros de imprensa, indicados tanto para a prática de escuta e leitura quanto para a produção de textos, sejam eles orais ou escritos.

Estes gêneros, inclusive, também estão presentes nos agrupamentos sugeridos por Dolz e Schneuwly (2004), ligados aos aspectos tipológicos da ordem do argumentar (editorial, artigos de opinião, carta do leitor), do expor (entrevista de especialista) e do relatar (notícia, reportagem). Sobre este último, especificamente, no qual se insere nosso objeto de proposta, os autores esclarecem que fazem parte do domínio social da documentação e memorização das ações humanas e que apresentam como capacidade de linguagem dominante a representação pelo discurso de experiências vividas, situadas no tempo.

Neste contexto, a esfera jornalística e seus gêneros próprios encontram respaldo na escola enquanto objetos de ensino-aprendizagem a partir da “necessidade de compreensão e domínio dos modos de produção e significação dos discursos [dessa esfera]” (RODRIGUES, 2006, p. 214). Desta forma, seriam criadas condições, segundo Rodrigues (2006, p. 214), “para que os alunos construam os conhecimentos linguístico-discursivos requeridos para a compreensão e produção desses gêneros, caminho para o exercício da cidadania, que passa pelo posicionamento crítico diante dos discursos”.

Para a autora, outro aspecto importante a ser destacado é a questão política. Assim, a seleção e a utilização de gêneros como a notícia, a reportagem etc. reflete também a importância político-ideológica que a imprensa exerce na sociedade contemporânea. Neste sentido, destaca-se que o jornalismo, por meio dos veículos da mídia de massa, estrutura sua cobertura na legitimação da normatividade e dos grupos dominantes, o que caracteriza sua posição em termos de ideologia e mercado.

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Considerando estas noções, torna-se essencial o trabalho de gêneros jornalísticos associado à AL na escola, uma vez que, para que os alunos sejam capazes de chegar a uma reflexão crítica sobre os enunciados concretos, torna-se necessária a utilização de uma ferramenta que coloque a gramática a serviço da construção de sentidos. Nesta perspectiva, Barbosa (2006) alerta que, para privilegiar aspectos enunciativos no trabalho com gêneros do jornalismo, é preciso ir além da análise da estrutura interna dos textos, buscando provocar questões como: em que veículo o texto foi publicado, qual o público-alvo, qual seu objetivo e posicionamento ideológico, quais os critérios para a escolha do que vai ser publicado e o que não vai, e se é possível relatar fatos com neutralidade.

Nesta abordagem, Faria (2009) defende que o trabalho com gêneros de imprensa na escola pode ser uma proposta pedagógica de grande valor para o professor e muito significativa para os alunos, na medida em que pode atuar como uma mediação entre a escola e o mundo, ajuda a conectar as experiências de vida dos alunos com as notícias, tem potencial para ampliar conhecimentos e pode ajudá-los a refletir criticamente.

Notícia: conhecendo o gênero

Para escolher um gênero e trabalhá-lo na escola, Mendonça (2006a) defende que é necessário que o professor se familiarize com o gênero escolhido, com seu funcionamento e sua circulação. Por esta razão, iremos começar nossa proposta explorando informações sobre o gênero notícia.

A notícia pode ser definida, do ponto de vista da estrutura, “como o relato de uma série de fatos, a partir do fato mais importante ou interessante; e, de cada fato, a partir do aspecto mais importante ou interessante” (LAGE, 2006, p. 17). Assim, os fatos não são ordenados sequencialmente, mas por ordem decrescente de importância, em uma técnica conhecida como pirâmide invertida, que se organiza conforme figura abaixo:

Figura 1: Estrutura da notícia é organizada pela técnica da pirâmide invertida (Fonte: Canavilhas, 2006)

De acordo com esta estrutura, a notícia deve começar sempre pelo lead, que corresponde ao primeiro parágrafo do texto e visa responder às perguntas: quem, o quê, quando, onde e por quê. A respeito deste gênero, encontramos quadros esquemáticos em Barbosa (2006) que detalham a situação de produção da notícia, seu conteúdo, sua forma e algumas marcas linguísticas, que devem ser considerados para o uso pedagógico do gênero. Com base neste trabalho, portanto, elencamos algumas características principais.

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heterogêneos e múltiplos, que costumam fazer uma leitura rápida e seletiva do jornal; o redator está subordinado ao editor, que tem amplos poderes para editar a notícia, e ambos obedecem a diretrizes editoriais do jornal; o objeto da notícia são acontecimentos do mundo e o objetivo declarado é de informar o leitor, buscando fazê-lo da maneira mais compreensível, neutra e fidedignamente possível; busca-se a imparcialidade, mas sabe-se que ser totalmente imparcial é impossível, uma vez que as experiências do redator transparecem de alguma forma nas escolhas que ele faz no texto; a notícia é a matéria-prima do jornal; a duração da notícia é fugaz: no caso do jornal impresso, a notícia passa a ser velha já no dia seguinte a sua publicação; há vários tipos de jornais e o tratamento dado às matérias varia conforme o público-alvo, podendo ser mais objetivo ou mais sensacionalista; os jornais são empresas privadas que visam o lucro e sua principal fonte de renda advém da publicidade; o jornal não transmite apenas informação, mas também é formador de opinião; a imprensa manipula e controla informações em escala mundial por meio das agências de notícias; por outro lado, o jornalismo sofre censura interna e externa em qualquer lugar, mesmo em países democráticos.

Em relação ao conteúdo da notícia, há diversos critérios para selecionar o que deve ser noticiado e o que não vale a pena. Assim, baseado em Barbosa (2006), temos como critérios elementares: ineditismo, improbabilidade, interesse para o leitor, apelo e empatia.

Por fim, a autora trata da forma da notícia e das marcas linguísticas, sobre as quais consideramos: estrutura geral baseada no lead e na pirâmide invertida; presença de enunciados mais referenciais, em detrimento dos opinativos; privilégio do modo indicativo e da terceira pessoa, juntamente com o uso de marcas de impessoalidade; evitam-se adjetivos subjetivos e testemunhais; no lugar, utilizam-se palavras que indiquem precisão numérica; verbo principal do lead costuma aparecer no tempo perfeito (se já aconteceu) ou no futuro do presente (se o fato for previsto), a fim de dar mais especificidade; adequação de escolhas lexicais de acordo com o público-alvo (ex: corpo, defunto, presunto, cadáver); utiliza-se o tempo presente nos títulos para aproximar o leitor da notícia e dar ideia de atualidade; conciliação de registros (a fim de favorecer a compreensão do leitor, mas sem perder a aceitação social da formalidade).

Uma proposta para o trabalho com notícias na escola

Como vimos anteriormente, o ensino de língua portuguesa deve ser baseado na integração entre AL, produção e leitura de textos, de modo a combinar os eixos de uso e reflexão da língua materna. Para Mendonça (2006b), esta integração pode se dar basicamente por três procedimentos: AL a partir da produção de textos, a partir de um tópico linguístico específico e a partir da leitura/escuta de textos. Assim, situamos nossa proposta de trabalho neste último procedimento, tendo em vista que, nesta abordagem, deve-se buscar “refletir sobre como a escolha de certas palavras, expressões ou construções linguísticas contribuem para a construção de sentidos de cada texto” (MENDONÇA, 2006b, p. 100).

Para esta proposta, então, foram selecionadas duas notícias, da mesma data (25/06/2015), de dois jornais distintos (O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo) e sobre o mesmo assunto: a lei sancionada pelo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, que proíbe a venda e a produção de foie gras (ingrediente obtido a partir da alimentação forçada de patos e gansos) no município, bem como o comércio de peças feitas com pele de animais criados exclusivamente para a extração de couro.

Para começar, escolhemos a notícia do jornal O Estado de São Paulo1, a qual será

1 Disponível em:

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reproduzida aqui integralmente:

Título: Haddad sanciona lei que proíbe produção e venda de foie gras

Subtítulo: Segundo a Prefeitura, assunto foi tratado no âmbito da legislação ambiental –

parecer da procuradoria-geral havia apontado que intenção de legislar sobre regulação do comércio era inconstitucional

Texto da notícia:

O prefeito Fernando Haddad (PT) sancionou nesta quinta-feira, 25, a lei que proíbe a produção e comercialização de foie gras - fígado de ganso ou pato superalimentado - na cidade de São Paulo. A norma, que foi proposta pelo vereador Laércio Benko (PHS) e aprovada por unanimidade na Câmara, também veta o comércio de artigos nacionais ou importados feitos com pele de animais criados exclusivamente para a extração do couro.

O tema foi alvo de debate e protestos na capital paulista. Segundo a Prefeitura, a administração municipal optou por tratar do assunto no âmbito da legislação ambiental. Um parecer da Procuradoria-Geral do Município havia apontado que a intenção do município de legislar sobre a regulação do comércio era inconstitucional.

De acordo com a Prefeitura, foram analisados precedentes internacionais de proteção das aves do sofrimento no processo de alimentação forçada para a obtenção do foie gras. Nesta quarta-feira, 24, grupos de defesa dos animais fizeram um protesto em frente à Prefeitura para pressionar Haddad a aprovar a lei.

Com cartazes e máscaras representando animais, os manifestantes fizeram um ato silencioso e pediram uma reunião com o prefeito para entregar um abaixo-assinado com quase 100 mil assinaturas solicitando a sanção.

A lei entra em vigor em 45 dias e não afeta o consumo ou uso de produtos já adquiridos ou que venham a ser adquiridos fora da cidade. No caso dos itens em couro, a norma não influencia a venda de vestuário, acessório ou calçados fabricados com base na pecuária em geral.

Tendo em vista as características do gênero notícia, podemos perceber que o texto acima apresenta diversas delas, principalmente no que se refere à estrutura do lead (LAGE, 2006; CANAVILHAS, 2006). Assim, no primeiro parágrafo, a notícia já responde às questões: Quem – o prefeito; Quando – nesta quinta-feira; O quê – sancionou a lei; Onde – na cidade de São Paulo; Por quê – foi uma norma proposta e aprovada pela Câmara. A seguir, seguindo a técnica da pirâmide invertida, os próximos parágrafos trazem novas informações, como a opção pela legislação ambiental, o protesto em defesa dos animais e a posição contrária da Procuradoria-geral. Ao final, a notícia é encerrada com informações sobre consequências dessa lei.

Olhando para os verbos, podemos pensar em algumas questões para AL a partir das características do gênero também e de sua relação com a objetividade do jornalismo. Assim, podemos questionar, por exemplo: Por que o título usa o verbo no presente e o texto usa o verbo no passado? Por que os verbos no texto estão em terceira pessoa? Em que situações também usamos os verbos em terceira pessoa? Por que o tempo presente é utilizado somente no último parágrafo? De maneira geral, portanto, o que se destaca é o padrão do gênero, que utiliza o tempo no presente no título para se conectar com o leitor e, ao mesmo tempo, passar a ideia de que a notícia é nova e atual. Já no texto, o passado destaca o relato de algo que já aconteceu e foi finalizado, enquanto o parágrafo no presente se refere a consequências e, portanto, fatos que ainda não aconteceram, mas são muito prováveis de acontecer. Por fim, a

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organização do discurso por meio de verbos em terceira pessoa indica relato, ou seja, contar algo que aconteceu com outras pessoas, o que também costumamos fazer em nosso cotidiano; entretanto, nas notícias, isso é feito de maneira objetiva, sem marcar verbalmente a presença do repórter.

A objetividade do texto (em detrimento da subjetividade) pode ser explorada também por meio da escolha dos verbos, como “sancionar”, “proibir”, “propor” e “aprovar”, da ordem do fazer, indicando ações ocorridas, e não da ordem do dizer, onde há mais espaço para a subjetividade. Destacam-se também as funções dos adjetivos presentes, que atuam no sentido de particularizar os objetos, e não para avaliá-los.

Sobre os adjetivos ainda, vale a pena problematizar a escolha do termo “internacionais” em “precedentes internacionais” (terceiro parágrafo), que pode atuar como argumento de autoridade na notícia, a fim de legitimar a posição do prefeito. Assim, o texto indica que a Procuradoria-geral de São Paulo apontou inconstitucionalidade na lei, mas o prefeito decidiu sancioná-la com base em precedentes de outros países. Sobre isso, vale destacar que a oração faz referência à prefeitura, indicando que as informações dadas foram fornecidas por este órgão. Portanto, podemos concluir que a escolha do termo foi feita pela assessoria da prefeitura (a quem interessa defender a lei sancionada) e mantida pelo jornal, o que pode ter sido feito de maneira consciente ou não.

Já em relação ao conteúdo da notícia, outras questões podem ser levantadas, inclusive propondo uma relação com as condições de produção e leitura do texto, ou seja, marcas de intenções deixadas pelo jornal e diálogo com o público-alvo leitor. Neste sentido, a primeira coisa que chama a atenção é a definição do foie gras. No texto, o conceito aparece em dois momentos: no primeiro parágrafo, com a adjetivação ambígua “fígado de ganso ou pato superalimentado”, e no terceiro parágrafo, em “processo de alimentação forçada”. Assim, é preciso fazer uma leitura em conjunto para concluir que o foie gras é o fígado de ganso ou pato obtido após processo de alimentação forçada. Sobre isso, podemos questionar: A notícia deixa claro o que é foie gras? A falta de explicação pode se relacionar com o fato do Estadão ter como público-alvo leitores mais ricos, que já conheceriam este ingrediente? Ou talvez com o fato de que o jornal já noticiava anteriormente sobre isso e, portanto, julgou desnecessário explicar novamente? Seria possível encaixar no texto uma descrição para conceituar o foie gras para informar o leitor, de maneira adequada ao gênero? Onde e como? Nesta oportunidade, abre-se uma possibilidade para trabalhar com a reescrita coletiva de um trecho, mas sem perder a articulação com a AL, com o gênero e com a reflexão sobre construção de sentido e adequação linguística à proposta da notícia.

Por fim, seria interessante explorar com os alunos os critérios que justificam a presença desta notícia. Assim, considerando o público do jornal e as intenções do veículo jornalístico, por que motivo este fato foi escolhido para se tornar notícia? Sobre isso, vale destacar que é uma novidade, na medida em que criou-se uma lei, é interessante para o leitor e tem apelo junto à comunidade, principalmente se você gosta de comer foie gras, se você usa casaco de pele, se você trabalha com esses artigos ou, por outro lado, se você atua na defesa dos animais. Assim, refletindo sobre os impactos dessa notícia, já é possível pensar também a quem o jornal estaria beneficiando dependendo de sua posição nesta notícia.

A fim de ilustrar uma outra abordagem dentro do mesmo gênero, passaremos agora para a análise da notícia da Folha de São Paulo2, com a reprodução do texto:

Título: Haddad proíbe venda de foie gras em SP

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Subtítulos: Ingrediente terá que deixar cardápio de restaurantes em 45 dias; multa para

descumprimento será de R$ 5.000

Expectativa era que prefeito, apreciador da iguaria, vetasse o texto, inconstitucional segundo Procuradoria

Texto da notícia:

O prefeito Fernando Haddad sancionou, nesta quinta-feira (25), o projeto de lei que proíbe a venda e a produção de foie gras na cidade.

O texto, do vereador Laércio Benko (PHS), havia sido aprovado com unanimidade na Câmara em maio, mas a expectativa era que o prefeito, tido como apreciador do ingrediente, o vetasse.

Ao sancionar o projeto, Haddad contrariou parecer de juristas e da Procuradoria-Geral do Município, que viam inconstitucionalidade no texto --não caberia à cidade proibir a venda de um produto.

O prefeito, no entanto, optou por tratar do tema "dentro do âmbito da legislação ambiental, considerando a manifesta intenção do projeto de proteger aves e animais", segundo comunicado.

A única mudança feita por Haddad foi o prazo para a proibição entrar em vigor, que será de 45 dias, e não imediato. Até lá, o foie gras já comprado poderá ser comercializado sem restrições.

Restaurantes e produtores que desrespeitarem a lei terão o produto apreendido e sofrerão multa de R$ 5.000.

O foie gras --em francês, fígado gorduroso-- é obtido a partir da alimentação forçada de patos e gansos, com a introdução de tubos de silicone na garganta dos animais.

Chefs lamentaram o veto à iguaria. "Também vamos ter que tirar do menu a coxa confit e o magret [peito] de pato", disse Laurent Suaudeau, diretor da Associação dos Profissionais de Cozinha do Brasil, para quem a qualidade desses ingredientes também depende da engorda das aves.

Para Emmanuel Bassoleil, do restaurante Skye, os maiores prejudicados não serão os chefs, mas os consumidores.

"Turistas vão estranhar que isso foi proibido aqui enquanto é liberado em outros lugares", disse. Na Califórnia (EUA), o veto à iguaria foi derrubado em janeiro. "De repente, vamos fazer festivais de foie gras em Campinas."

Já o vereador parabenizou o prefeito "pela coragem". "Proibir foie gras na França é um atentado à cultura, mas aqui ele não vai fazer falta."

Guilherme Carvalho, da Sociedade Vegetariana Brasileira, disse que a sanção é uma "conquista sem precedentes". "O próximo passo é a expansão da lei para todo o Brasil", disse.

Em uma leitura geral, já é possível perceber que esta notícia apresenta características diferentes do texto do Estadão, ainda que ambas pertençam ao mesmo gênero. Mas, antes de fazer uma comparação entre as duas, cabe destacar alguns elementos desse texto em particular.

Com relação ao lead e à pirâmide invertida, observamos que as perguntas principais podem ser respondidas a partir do primeiro parágrafo, ainda que outras informações também importantes estejam distribuídas em outros parágrafos, como o fato de se tratar de uma lei que foi proposta e aprovada pela Câmara dos Vereadores.

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Estruturalmente, o que chama mais a atenção é a presença de entrevistas. Essa escolha indica que o jornal dedicou mais tempo e espaço para o fato e é importante fazer os alunos perceberem que a seleção dos entrevistados e dos trechos selecionados para publicação obedecem a critérios editoriais políticos. Observamos, nesse sentido, que as afirmações dos entrevistados servem para dizer coisas que o jornal não poderia dizer sem elas, uma vez que não são explicações sobre o fato, mas sim opiniões sobre eles. Desta forma, as aspas servem para marcar, não só linguisticamente, mas politicamente também as opiniões. E, para legitimar essas opiniões, adjetivações são utilizadas como recursos para apresentar os entrevistados (MENDONÇA, 2006a).

Outra marcação linguístico-discursiva saliente é a escolha verbal. Apesar da presença dos verbos em terceira pessoa dar o tom de objetividade à notícia, alguns verbos dão margem à valoração, como “contrariou” (terceiro parágrafo), “sofrerão” (sexto parágrafo) e “lamentaram” (oitavo parágrafo). Além disso, o repórter também deixa marcas em outros momentos, como no subtítulo e no segundo parágrafo, quando se refere à expectativa de que o prefeito vetaria a lei. Como não se explicita de quem seria a expectativa, fica a impressão de que seria do próprio jornal ou até de que seria uma manipulação, uma vez que não diz quem é. Entretanto, a marca mais aparente de ideologia ocorre na escolha do verbo do título “Haddad proíbe venda de foie gras em SP”. Lendo a notícia, sabemos que Haddad sancionou uma lei de autoria da Câmara e aprovada por unanimidade pelo órgão. Porém, ao ler somente o título, tem-se a impressão de que foi uma decisão repentina e autoritária do prefeito, o que pode nos levar a questionar a imparcialidade do jornal. Trata-se, portanto, de uma escolha linguística que pode ser refletida junto aos alunos pela perspectiva da AL, trabalhando não só conceitos linguísticos e de construção de sentido, mas conectando tudo isso também com a esfera social de produção e do próprio gênero.

E, para encerrar os destaques, caberia ainda pensar no porquê dessa notícia ter escolhido explicar mais detalhadamente o que é o foie gras. Sobre isso, se focarmos mais no texto, podemos pensar que a escolha foi necessária para que o leitor possa compreender a presença de chefs de cozinha como entrevistados; por outro lado, se focarmos mais na produção, podemos pensar que se trata de um padrão editorial de retomar os conceitos ou que atende uma necessidade do leitor. Ainda sobre o tema, vale questionar o porquê da notícia não ter citado que a lei também proíbe o comércio de artigos feitos com pele de animais criados exclusivamente para retirada de couro.

Para finalizar, acreditamos que seria interessante trabalhar com a comparação entre as duas notícias, a fim de provocar algumas induções a respeito do gênero notícia e da esfera jornalística. Um dos tópicos que podem ser abordados, por exemplo, é a questão da adjetivação e qualificação. Mendonça (2006a) sugere o trabalho com leitura e comparação de textos para que os alunos possam observar casos particulares e chegar a regras gerais. Sobre o tópico linguístico, a autora destaca que, por meio dessa estratégia, é esperado dos alunos que eles percebam que “a adjetivação pode ser construída por meio de várias estratégias e recursos, criando diferentes efeitos de sentido”, que “gêneros diferentes admitem certas adjetivações e não outras, como as notícias com descrições mais ‘contidas’ que uma fábula ou um artigo de opinião” e que “os processos de adjetivação/qualificação, incluídos numa descrição, podem estar além do uso dos adjetivos, revelando-se na escolha dos verbos” (2006a, p. 211). Assim, é possível observar estes processos na comparação das notícias, na medida em que a qualificação do texto do jornal Estadão é mais focada na definição dos objetos, enquanto na Folha os adjetivos e os verbos assumem, por vezes, um papel mais subjetivo, que transmite valoração aos leitores.

Outro ponto a ser trabalhado linguisticamente são os títulos. Observando-os comparativamente, podemos problematizar a diferença de sentido gerada pelas posições dos verbos, dos predicados e dos núcleos, por meio de estratégias da análise sintática, por exemplo. Sobre isso, sem precisar se preocupar com termos e nomenclaturas, o que chama a

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atenção é que, no título do Estadão, quem proíbe é a lei (que foi sancionada pelo prefeito), enquanto no título da Folha quem proíbe é o prefeito. Politicamente, a diferença linguística é enorme.

Por fim, conforme problematiza Barbosa (2006), podemos aproveitar a análise comparada para questionar os alunos se é possível relatar fatos com neutralidade. Afinal, o que se conclui com as notícias propostas, é que as escolhas linguísticas causam efeitos de maior ou menor neutralidade, mas, de qualquer forma, toda escolha linguística é uma escolha e, sejam elas conscientes ou não, refletem a presença do jornalista, do editor, e de quem mais interferiu no texto. Assim, defende Barros (2002, p. 204), “uma ‘notícia’, em princípio, deveria apenas registrar os fatos de maneira objetiva, imparcial e descomprometida. (...) No entanto, na prática, observa-se que a própria escolha do ângulo do relato demonstra um certo comprometimento do jornalista com o fato”. E esse comprometimento aparece, como vimos, na escolha do que é noticiado, dos dados que serão colocados ou não, na seleção dos entrevistados e no discurso, de modo geral.

Enfim, por meio das duas notícias, de dois jornais diferentes, buscamos esboçar uma proposta de trabalho com AL a partir da leitura de textos, visando destacar pontos a partir de escolhas linguísticas que o professor pode explorar em sala de aula a fim de analisar suas contribuições para a construção de sentidos, sejam eles explícitos ou implícitos. Por isso, nosso objetivo não foi estabelecer uma sequência didática ou propor um projeto, mas sim apresentar alguns conceitos e ilustrar possibilidades no trabalho de AL com o gênero notícia.

Considerações finais

Tendo em vista que a AL não é um fim em si mesma, mas sim uma ferramenta que deve ser aliada à leitura e produção de textos para ampliar as habilidades e competências dos alunos (MENDONÇA, 2006c), buscamos ilustrar neste artigo como trabalhar com uma proposta educomunicativa de AL a partir da leitura de notícias. Assim, situamos a atividade de AL em integração com os demais eixos da língua portuguesa, buscando refletir sobre aspectos linguísticos e discursivos sempre a serviço da construção de sentido.

Nesta abordagem, procuramos investigar as escolhas linguísticas de maneira relacionada com a situação comunicativa em análise e com o gênero do qual faz parte, propondo o diálogo entre o texto estudado e suas esferas sociais. Assim, acreditamos que o exercício de AL, quando integrado com os demais eixos da língua materna e com o estudo de gêneros, oferece oportunidade de apropriação da metalinguagem e do gênero aos alunos, permitindo que, ao final da educação básica, eles possam ter domínio crítico e autônomo no trato com diferentes enunciados.

Neste cenário, os gêneros jornalísticos se posicionam entre aqueles considerados essenciais para o domínio de escrita e leitura dos alunos (BRASIL, 1998), sendo a notícia um dos gêneros principais dessa esfera. Desta forma, considerando sua importância e sua proximidade dos alunos e professores, buscamos apresentar uma proposta de trabalho que tivesse potencial tanto para a reflexão pela AL quanto pela abordagem dos gêneros.

Por meio da proposta, enfim, procuramos apresentar ao professor da educação básica uma possibilidade no trabalho com AL e gêneros na sala de aula, com o objetivo de ilustrar mediações desta abordagem por meio de diversos tópicos linguísticos. Assim, o que se destaca é que este trabalho conjunto não só é possível, como pode ser multiplicador também, uma vez que promove a reflexão não só da linguagem a favor da construção de sentidos no texto, mas também das condições de produção e de como elas são moldadas em relação ao leitor.

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