L
UIZM
AURO DOC
ARMOP
ASSOSA metrópole cinqüentenária
Fundamentos do saber arquitetônico
e imaginário social da cidade de
Belo Horizonte (1897-1947)
Belo Horizonte
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas Universidade Federal de Minas Gerais
L
UIZM
AURO DOC
ARMOP
ASSOSA metrópole cinqüentenária
Fundamentos do saber arquitetônico
e imaginário social da cidade de
Belo Horizonte (1897-1947)
Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em História.
Orientadora: Prof. ELIANA REGINA DE FREITAS DUTRA -UFMG
Belo Horizonte
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas Universidade Federal de Minas Gerais
A meus pais.
Agradecimentos
A professora Eliana Dutra, por suas argutas observações, por suas proveitosas críticas e indicações, pelo seu incentivo à descoberta de meus próprios caminhos, pelo constante estímulo e apoio que marcaram a sua orientação desta dissertação.
A Márcia Michelin Laboissière, companheira de tantas histórias, que além de ter dado uma inestimável contribuição à realização deste trabalho desde o seu início, no levantamento de fontes, na leitura dos ensaios iniciais e em discussões e sugestões, compartilhou as dúvidas, as aflições e as escolhas com amorosa atenção.
Aos professores e colegas do curso de Mestrado em História, com os quais tive o prazer de um convívio onde a dedicação ao trabalho somou-se a uma estimulante camaradagem.
A Carla Simone Chamon, pela sua solidariedade ao longo deste percurso. A Marco Antônio Marinho Júnior, pela colaboração na coleta de fontes. Aos funcionários do Arquivo Público Mineiro e das Bibliotecas da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas e da Escola de Arquitetura da UFMG, pelo prestimoso atendimento.
A CAPES, que me concedeu uma bolsa de estudos.
Aos amigos e a todas as pessoas que contribuíram e me apoiaram neste trabalho, sou imensamente grato.
Sumário
Introdução... 6
1. Cinqüentenário de Belo Horizonte ... 14
1.1. As comemorações do cinqüentenário ...17
A solenidade e os discursos oficiais ...21
Outras comemorações ...25
1.2. Os topos do discurso laudatório sobre a cidade ...27
"Vertiginoso progresso" ...30
Origens e evolução da cidade ...50
2. A Nova Capital: o território e o local. ... 70
2.1. Centralidade e salubridade nos estudos dos locais ...85
2.2. A organização econômica do território e a noção de progresso...112
3. A construção da Nova Capital. ... 135
3.1. O modo de composição urbana da Planta Geral ...141
Aspectos barrocos e o modo de composição da área urbana ...143
Os arquétipos da cidade ideal e os paradigmas utópicos de ordenação ...167
3.2. A regulamentação da ocupação e edificação da Nova Capital...177
Os limites da cidade: população, densidade e extensão. ...177
Diretrizes da ocupação inicial ...189
Distribuição do espaço ...193
Regulamento de Construções ...201
3.3. A ocupação inicial do espaço...207
4. Da capital à metrópole ... 219
4.1. A "jovem metrópole" dos anos 30: Para uma grande cidade ...223
A industrialização e o papel civilizador da capital ...224
A cidade sob o ponto de vista do urbanismo ...234
Embelezamento e Remodelação...246
Regulamentos das construções ...257
Um novo ciclo na arquitetura da capital...263
4.2. A "grande metrópole" no anos 1940 ...274
Considerações finais ... 292
Introdução
Esta pesquisa iniciou-se tendo por objeto a arquitetura da cidade de Belo Horizonte nos anos 30 e 40. Este período é considerado por vários estudos historiográficos da cidade como caracterizado por grandes transformações, sob diversos aspectos, que iniciam, nos anos 30, uma marcante modificação da cidade construída segundo o plano urbanístico delineado no final do século XIX, cuja consolidação ocorreu durante os anos vinte. Interessava-nos abordar conjuntamente os fatos e as estratégias dos processos de construção urbana que determinaram estas transformações e as imagens da cidade que sustentavam ou que refletiam estes processos. Sendo a Nova Capital construída a partir de um plano urbano, buscávamos compreender estas transformações, relativas às funções e a forma da cidade, em relação às disposições estabelecidas por seu plano inicial e à arquitetura da cidade consolidada até os anos vinte.
Por arquitetura da cidade não nos referimos à arquitetura das edificações tomadas isoladamente, mas à arquitetura da própria cidade, enquanto uma construção social ao longo do tempo, como propõe Aldo Rossi1. Neste conceito
de arquitetura da cidade incluem-se o traçado urbano, seus lugares e edifícios polarizadores, sua ocupação no plano horizontal e no vertical e as características tipológicas das edificações, enquanto um processo histórico de formação. A arquitetura da cidade não se refere apenas à estrutura material da cidade, mas também, e de maneira indissolúvel, às imagens coletivas produzidas ao longo de sua construção. Como observa Argan, o espaço urbano "não é feito apenas daquilo que se vê, mas de infinitas coisas que se sabem e se lembram, de notícias"2.
1 Rossi, Aldo. La arquitectura de la ciudad, Barcelona. Gustavo Gilli, 1981.
2 Argan, Giulio Carlo. História da arte como história da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1992,
Verificando diversos artigos publicados na imprensa durante os anos 30 e 40, constatamos freqüentes alusões à transformações das funções e da forma da cidade, as quais agrupamos em torno de quatro temas: o papel da capital, a expansão ou o crescimento urbano, a remodelação do traçado da área urbana, e os novos modos de edificação na área central, ou seja, o surgimento dos chamados arranha-céus. Estas transformações eram caracterizadas como uma remodelação da cidade ou ainda como um novo ciclo evolutivo da Capital.
Por ocasião do cinquentenário da Nova Capital mineira, em 1947, foram publicados um grande número de artigos na imprensa e ainda algumas edições comemorativas, constituindo um conjunto de discursos sobre a cidade, em geral de caráter laudatório, que apresentou-se para nós como um registro sintético das apreciações da cidade naquele momento, bem como de sua relação com o passado. Nestes discursos, identificamos temas recorrentes que definiam certas perspectivas dominantes na percepção e avaliação da cidade. De modo geral, considerava-se ter ocorrido nos últimos dez anos um "vertiginoso progresso", alterando radicalmente a "fisionomia arquitetônica" e os hábitos da cidade. O surgimento e proliferação dos "arranha-céus", bem como a expansão da área urbanizada eram tomados como índices visíveis deste progresso, que alterou, num curto prazo, a constituição arquitetônica da cidade bem como os seus hábitos, elevando-a à condição de metrópole. Além deste fato, saudava-se o início da industrialização e previa-se que em breve a cidade se tornaria um centro industrial e não apenas a capital administrativa e cultural do estado - papel que se considerava ter sido predominante até os anos 20.
Afinal, a cidade há pouco saíra da gestão do "prefeito-furacão" Juscelino Kubistschek (1940-45), que executara um amplo programa de modernização, em diversos setores, que incluía medidas como: expansão e asfaltamento da rede viária, implementação de núcleos urbanos satélites - a Cidade Industrial e a Pampulha - e de novos bairros, início de um programa de habitação popular - com o conjunto do IAPI -, patrocínio oficial à arte moderna, como no conhecido
conjunto arquitetônico da Pampulha. Ao mesmo tempo, os edifícios de vários andares - os chamados "arranha-céus" se disseminavam na área central da cidade e a periferia urbana se adensava e expandia: sinais e empreendimentos de uma novo modo de construção urbana.
Contudo, não se pode atribuir à gestão de JK a transformação da cidade apontada pelas avaliações publicadas no Cinquentenário, nem restringi-las ao seu período (1940-5). O programa de modernização ocorrido neste período havia sido precedido, ao longo da década de 30, por discussões, planos e ações no sentido de uma remodelação ou modernização da cidade, notadamente na gestão do prefeito Negrão de Lima. Além disso, verifica-se também empreendimentos e processos no âmbito privado que sinalizavam e instituíam novas formas econômicas e construtivas na cidade - tais como a proliferação dos bairros periféricos (as chamadas "vilas") e o primeiros "arranha-céus".
Se a afirmação de um vertiginoso progresso pelo qual passava a cidade nos últimos anos e a percepção das transformações da fisionomia da cidade era um lugar comum no ano do Cinquentenário (1947), identificamos então pelo menos duas perspectivas a respeito: para alguns, estas transformações, iniciadas a partir dos anos 30, modificavam drástica e incessantemente a fisionomia da cidade estabelecida até os anos vinte e traziam um novo tempo para a cidade - que, sob alguns aspectos era caracterizado como uma ruptura em relação ao passado; outros, reconhecendo a amplitude das recentes transformações, compreendiam-nas como parte de um ciclo evolutivo que caracterizaria a história da cidade, estabelecendo uma certa continuidade das transformações com o passado. Estas duas perspectivas, muitas vezes associadas, colocaram para nós o problema das relações que o processo de transformação reconhecido nos anos 30 e 40 mantinha com a cidade construída a partir do plano urbano da Nova Capital, definido no final do século XIX. Tomamos assim este problema como o objeto central de nossa dissertação.
De modo geral, o conjunto das apreciações acima mencionadas sobre a cidade no seu cinquentenário, ao apontar para a uma transformação da cidade, por um lado indicavam a emergência de uma nova forma urbana e novos papéis da capital, e por outro, qualificavam estas transformações como uma metamorfose - ou seja, como a realização de um príncipio inerente à cidade - ou ainda como um ciclo evolutivo, iniciado com a própria construção da cidade planejada para ser a Nova Capital do estado. Estas apreciações apresentavam portanto uma imagem da cidade, como uma obra em contínuo progresso, definida a partir de um princípio ordenador, porém em contínua transfiguração de sua forma, como uma característica da capital desde sua fundação.
Entendemos por imagem da cidade não apenas as interpretações ou as representações da cidade e de suas transformações, mas também à própria construção da cidade enquanto um fato social, em seus componentes técnicos ou instrumentais e em seu componentes simbólicos, como aspectos indissociáveis - tomando como referência o que propõe Castoriadis a respeito do imaginário social3. Assim, as imagens sociais da cidade não se reduzem, para
nós, a posteriores representações simbólicas de sua construção, mas são também intrínsecas aos processos efetivos de construção da cidade. Buscamos portanto compreender esta imagem da cidade desde os fundamentos e os processos de sua implementação inicial como cidade planejada.
Cabe aqui algumas considerações preliminares a respeito do plano e da construção de Belo Horizonte - a Nova Capital mineira fundada no final do século XIX. Belo Horizonte, construída para ser a Nova Capital do Estado de Minas Gerais, logo após a instituição da República, foi uma cidade caracterizada por ter sido fundada a partir de um planejamento assentado em procedimentos
3 Castoriadis, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
técnicos. A própria escolha do local, embora tenha sido uma decisão política, foi objeto de minuciosos estudos realizados por engenheiros e um médico. O plano da Nova Capital, foi elaborado segundo uma previsão de população e estabelecia zonas diferenciadas e hierarquizada, definidas em seus traçados e em seus modos de ocupação. A despeito do rigor geométrico do traçado da área principal e do grande controle exercido pelo Estado na implementação inicial, o plano não definia um configuração urbana acabada e inteiramente a cargo do poder público; previa-se uma implementação por etapas, bem como deixava uma abertura à expansão.
O período da fundação da cidade (1897) até meados dos anos trinta pode ser considerado como de construção e consolidação da cidade enquanto, predominantemente, a nova capital do estado de Minas Gerais. Neste período, suas funções e sua vida urbana se relacionavam basicamente com a condição de capital, de centro político, cultural e de serviços, sendo a atividade industrial pouco significativa em relação à outras cidades mineiras, ainda que se verifique um certo crescimento econômico, seja decorrente da própria atividade construtiva, seja do desenvolvimento das atividades comerciais e de serviços e industriais que se estabeleceram na Nova Capital. Do ponto de vista da configuração urbana e arquitetônica, o que acontecia era um desdobramento, ou seja, a construção efetiva, do plano urbanístico de Aarão Reis e dos pressupostos urbano-arquitetônico nele implícitos. Ainda que ocorressem algumas modificações localizados do plano inicial, em linhas gerais, seu desenho foi mantido. Quanto a dinâmica da ocupação urbana então ocorrente, o que se verificava nos parece coerente com seus pressuposto implícitos - e com a política do Estado de gestão do loteamento - , ou seja, o fato da ocupação da então chamada área urbana (dentro dos limites da avenida do Contorno) se dar a níveis muito baixos, enquanto rapidamente se formava uma periferia em torno. Quanto ao perfil das edificações e suas estratégias de configuração, pode-se dizer que, em linhas gerais, até os anos trinta, se situavam dentro de um mesmo
modelo de assentamento, de um mesmo esquema de organização interna e dentro de um mesmo repertório estilístico, ligado à tradição academicista e eclética.
Tomando como ponto de partida a imagem de uma transformação da cidade nos anos 30 e 40, enunciada pelas publicações por ocasião do cinquentenário, definimos como questão a ser problematizada por nossa dissertação, a relação desta transformação com o plano inicial da Capital. Interessa-nos investigar e discutir até que ponto estas transformações, relativas à função e a forma urbana da Capital, consistiriam numa ruptura dos pressupostos e das diretrizes formuladas por este plano, ou se elas poderiam ser compreendidas como uma possibilidade aberta pelo próprio Plano. Buscamos então compreender e interpretar a imagem da cidade definida no processo de mudança e construção da Nova Capital mineira, com o objetivo de avaliarmos em que medida e sob quais aspectos as transformações verificadas nos anos 30 e 40 poderiam ser consideradas como uma ruptura deste plano ou como compatíveis com os dispositivos deste plano, impondo indiscutíveis modificações na forma urbana.
Um comentário de Aarão Reis, o engenheiro planejador da Nova Capital, em artigo publicado em 1926 à guisa de avaliação de sua empreitada, trouxe importantes subsídios para a discussão da questão acima mencionada: "preparei e armei apenas o 'esqueleto' [...]. Aos mineiros tem cabido a árdua tarefa de 'encarnar' esse corpo jovem". O grande potencial desta metáfora é que, mesmo afirmando o caráter acabado e irretocável de seu plano, Reis reconhece a cidade em construção, o que implica reconhecer seu plano como sujeito à transformações. Resta saber até onde pode-se falar de uma permanência ou de uma transformação - radical ou gradual - do seu caráter fundamental. Constituiu-se esta numa questão problematizada por esta disConstituiu-sertação, questão essa que foi
desdobrada nos diversos componentes que definiram a imagem da cidade, seja a da Nova Capital, seja a da metrópole dos anos 30 e 40.
Definimos como ponto de partida de nossa dissertação, a análise dos discursos publicados no ensejo das comemorações, relativo às transformações dos papeis da capital e da fisionomia e dos modos de construção da cidade - que constituem o tema do primeiro capítulo. Situando nossa análise no ponto de vista daquele momento, este capítulo constitui-se num prelúdio às questões discutidas nos demais capítulos. A partir dos aspectos da imagem da cidade delineada pelos discursos do Cinquentenário, mais especificamente quanto às relações entre as transformações então observadas dos papéis e da forma urbana definida a partir da fundação da Nova Capital.
Consideramos necessária à investigação e discussão da questão acima formulada, uma ampla compreensão dos processos da mudança da capital mineira e do seu plano urbano. Com o objetivo de compreender os papéis atribuídos à nova capital, o segundo capítulo trata da questão da localização da capital, e mais especificamente, os critérios e os procedimentos pelos quais se pautaram os estudos e discussões a respeito da escolha do local da Nova Capital, como fatores constituintes da imagem da cidade. Procuramos inicialmente analisar as condições e os propósitos da mudança da capital mineira no final do século XIX, logo após a instituição da República. A partir dos procedimentos e critérios da escolha da localidade, buscamos identificar quais os objetivos e papéis que a capital deveria cumprir na ordenação do território do Estado.
No terceiro capítulo, dedicado à configuração urbana e arquitetônica estabelecidas pelo plano urbano da Nova Capital e outras disposições complementares, são examinadas o modo de composição urbano - ou seja, o traçado viário, o zoneamento, os critérios de localização dos edifícios públicos e o regulamento das construções - e as diretrizes de ocupação da cidade. Neste capítulo dedicamo-nos a compreender os fundamentos e os procedimentos da
elaboração da Planta Geral da Nova Capital, as etapas de sua implementação, as perspectivas do crescimento futuro da cidade e o controle de sua ocupação inicial.
O quarto capítulo trata da transformação da arquitetura da cidade entre meados dos anos 30 e meados dos anos 40, objeto dos discursos sobre a cidade no Cinquentenário. Abordamos aqui a mudança dos papéis da capital, o crescimento e a expansão urbana, as obras de remodelação promovidas pela municipalidade, as modificações do regulamento das construções e o surgimento de novos modos de edificação - aspectos que constituíram os marcos da transformação da capital na metrópole moderna neste período.
Ao tratar da relação entre o plano de construção da Nova Capital e as transformações urbanas nos seus primeiros cinquenta anos, esta dissertação apresenta uma abrangente abordagem das análises sobre a cidade, buscando retomar e discutir as questões por elas propostas. Pretende também ser uma contribuição à reflexão sobre a construção da cidade e de seu imaginário, no momento em se já comemora o centenário da inauguração da Nova Capital.
1. Cinqüentenário de Belo Horizonte
"A data é, realmente, digna de todo o apreço, devendo ser festejada com entusiasmo e assinalada com alguma cousa duradoura, que possa estimular as gerações futuras para as festas do centenário."
José Mamede Silva, "Salve, capital de Minas!"1
As comemorações dos qüinquagésimos aniversários, denominadas jubileu, encerram uma tradição milenar da civilização ocidental. O significado de jubileu como o qüinquagésimo aniversário de uma instituição - que se estendeu para aniversário solene em geral - deriva do hebreu jobel, trombeta que de 50 em 50 anos anunciava o ano festivo, denominando também o termo o costume hebraico antigo de remissão de dívidas e culpas de 50 em 50 anos - de onde deriva seu significado católico de indulgência. O tom jubiloso que apresentam as publicações alusivas ao Cinquentenário de Belo Horizonte condiz bem com a tradição destas celebrações. A ocasião ensejou principalmente a proliferação de
discursos laudatórios, muitos assumidamente ufanistas, que celebravam, às
vezes hiperbolicamente, as qualidades do local - no caso, sua excelência climática e beleza paisagística - e a grandiosidade e ousadia de seus fatos construtivos, seja os da fundação da capital, seja principalmente os do período recente. Por outro lado, os discursos cinqüentenários inserem-se numa prática discursiva anterior, cujos ensaios e crônica-reportagens de tom laudatório constituem um sub-gênero épico - pelo tema da realização da civilização mineira e das circunstâncias extraordinárias da construção de uma nova capital planejada nos primórdios da República - que assumem um certo componente trágico - pelo tema do destino da cidade marcado por suas origens, que, para
1 Revista Social Trabalhista, Edição especial comemorativa do cinquentário de Belo Horizonte,
alguns discursos, remonta em seus fundamentos, ao Arraial bandeirante sobre o qual foi construída.
A ocasião solene teve portanto um efeito de instigar tal prática. Contudo, e de ser uma ocasião propícia ao cultivo do amor ao local, dos mitos de suas origens e das glórias dos tempos atuais, o momento cinquentenário impressionou notadamente seus comentadores pela grandeza e pela rapidez das modificações da cidade transcorridas num período recente, seja quanto à forma da cidade, seja quanto aos seus papéis e hábitos.
Apesar de marcada pelo signo da modernidade desde sua construção como Nova Capital do Estado de Minas Gerais, no final do século XIX, a condição de metrópole moderna - enquanto lugar de rápidas transformações, simbolizadas pela imagem do vórtice e da vertiginosidade - emerge a partir de condições incipientemente lançadas nos anos vinte e ampliadas ao longo dos trinta e quarenta, que parecem, no Cinquentenário, consolidar um processo de contínua ruptura com o passado e a instauração de um novo modo de construir e habitar a cidade.
A perspectiva do momento, segundo estes discursos, é a de constatação de um processo de transformações então definitivamente estabelecido porém inexaurível, que trouxe consigo um novo modo de construir, habitar, pensar e contemplar a cidade. Ressaltando-se sempre a intensidade do progresso e a evidência das transformações recentes e então em pleno curso, este processo é também freqüentemente visto como resultado de uma seqüência de fases e ciclos, que se compreendiam e se reforçavam sucessivamente, e que eram, a cada vez, mais rápidos e de maior amplitude - razão pela qual se qualificava muito freqüentemente o progresso de "vertiginoso". Estas fases e ciclos foram definidos por modificações marcantes em determinados setores da produção do espaço urbano e por um conjunto de políticas e empreendimentos promovidos pela gestão municipal ou estadual, que se acumularam e resultaram no quadro que se compunha no Cinquentenário.
Considerando serem os fatos construtivos de uma cidade processos de longa duração e caracterizados por uma inércia, tanto das matérias e tecnologias construtivas (incluídas nestas a arquitetura), como dos hábitos e modos de vida que eles abrigam, pode-se compreender como as transformações na forma e no modo de construção da cidade, acumuladas ao longo destes ciclos e com crescente visibilidade a partir do começo dos 40, na época do Cinqüentenário são vistas ainda com perplexidade, mas propaladas como irreversivelmente estabelecidas. Portanto, ainda que há muito urdida, a ruptura do modo de construir a cidade parece ganhar contornos nítidos neste momento, principalmente quanto à percepção da "volubilidade fisionômica" da cidade. Contemporâneos às estas enfáticas percepções e afirmações de intensas transformações na
forma urbana, nos modos de construções - seja quanto às dimensões ou estratégias compositivas ou estilísticas -, nos hábitos e nos papeis da capital-metróple, alguns dos discursos cinqüentenários manifestam o empenho em reconstituir uma continuidade virtual com o passado, sem deixar todavia de louvar o progresso do presente. Procuram demonstrar um caráter potencial da cidade, alçando das origens do local sobre o qual foi construída a Capital - um arraial de fundação bandeirante do sec. XVIII - e da sua desde então reconhecida excelência climática e paisagística, uma predestinação do papel civilizador que assumiu a nova Capital de realização e monumento do povo mineiro. Contudo, compõem este caráter não só essa qualidade quase imanente do local, mas a ação realizadora do homem, do povo e do Estado, nesta equação, associados. Assumem estes discursos uma indisfarçável admiração pelo "vertiginoso progresso", mas com moderação, como se buscassem uma conciliação entre a percepção entusiasmada - dominante nos discursos consultados - e a evocação nostálgica, resignada ou inconformada, dos bons tempos antigos, característica de uma outra categoria de avaliação da cidade e de suas transformações.
1.1. As comemorações do cinqüentenário
Foram cuidadosa e antecipadamente planejados vários e grandiosos eventos e marcos comemorativos para a ocasião do Cinqüentenário da Cidade, em 12 de dezembro de 19472, segundo informa o historiador Abílio Barreto3.
Vale acompanhar detalhadamente os episódios da preparação das comemorações, pois através deles percebe-se a forte expectativa oficial quanto ao evento, bem como entrevê-se a situação política da época.
Dois anos antes do evento, em julho de 1945, o Prefeito nomeou uma eminente Comissão, formada pelo Diretor de Obras, pelo Inspetor da Educação e pelo Organizador do recém-fundado Museu Histórico de Belo Horizonte, o próprio Barreto, encarregada de organizar o programa das comemorações. Entretanto, três meses depois, com o fim do Estado Novo e a instabilidade política subseqüente, os zelosos preparativos foram prejudicados, pois a gestão municipal passou por prolongada descontinuidade administrativa, conforme relata Barreto4. Ainda assim, os atribulados acontecimentos da vida política não
foram de pronto suficientes para obstar de imediato o empenho da referida Comissão que, no ano seguinte, "desenvolvendo intensa e contínua atividade, [...] organizou, em linhas gerais, um grande programa de comemorações", para o qual a prefeitura destinou "um crédito de um milhão de cruzeiros para as realizações cinqüentenárias e foi esse o maior recurso financeiro de que dispôs a administração municipal para quanto teria de fazer a respeito"5.
2 A data refere-se à inauguração oficial, em 1897, da Cidade de Minas, como era chamada
então a nova capital.
3 Resumo histórico de Belo Horizonte (1701-1947). BH: Imp. Oficial, 1950. Este livro é uma
ediçào ampliada da matéria publicada, com título homônimo, em um dos suplementos comemorativos do Cinquentenário do jornal oficial Minas Gerais [12 dez 1947, 4ª seção].
4 Idem, p. 170. No período de dois anos e um mês que seguiu-se à gestão de Juscelino
Kubitschek (18 abr 1940 - 30 out 1945), até o empossamento do prefeito eleito Otacílio Negrão de Lima, na data do cinquentenário, a cidade teve cinco prefeitos efetivos, o que dá uma média de cinco meses para cada um.
Previa o "grande programa" das comemorações cinquentenárias os seguintes empreendimentos: "uma Exposição Nacional, uma Exposição Retrospectiva, um Monumento Comemorativo, um Cruzeiro luminoso no pico da Serra e um Álbum", e ainda a realização de festas populares6.
Provavelmente caberia à "Exposição Nacional" demonstrar as qualidades da Capital e do Estado no presente, enquanto a "Exposição Retrospectiva" cumpriria papel equivalente em relação ao passado, ao mesmo tempo demonstrando o progresso da Capital ao longo do tempo, bem como a permanência de um certo caráter essencial à Capital e ao povo mineiro. Embora estas Exposições não tenham se realizado, a análise dos textos sobre a cidade publicados na ocasião do Cinquentenário sugeriu-nos a interpretação acima. Estes textos, conforme veremos mais adiante, apresentam como tema central a intensidade das transformações da cidade, bem como a afirmação da permanência de traços essenciais do caráter da cidade - ou seja, enquanto reconhecem as transformações, empenham-se em demonstrar uma identidade, subsistente e em consonância com a nova face da cidade.
Pretendia-se também realizar marcos de maior permanência a serem inscritos com destaque na paisagem urbana, de modo a perpetuar um momento que se julgava significativo por assinalar a realização da obra monumental que era a própria cidade. Esta era vista na ocasião por Barreto - e por muitos outros - como uma demonstração da
capacidade criadora, empreendedora e realizadora do povo montanhês, pois a verdade é que Minas através de toda a sua existência jamais realizou no passado e no presente e talvez jamais realize no futuro outra obra que tanto a engrinalde de glórias como esse monumento eterno que é a sua nova Capital.7
O desmedido entre o programa das comemorações e os seus recursos fica evidente no "grande monumento comemorativo ao Cinqüentenário da cidade" - bem como de resto no caráter de grandeza que Barreto, personagem
6 Idem, p. 333. 7 Idem, p. 14.
ativa dos acontecimentos, imprime a todos os eventos programados. Este monumento, projetado por José Peret8, não foi erigido, pois a soma das
contribuições arrecadadas junto aos municípios mineiros para tal obra "não foi além de trinta mil cruzeiros, ao passo que o monumento projetado estava orçado em três milhões, cento e onze mil cruzeiros"9, ou seja, mais de cem vezes o
valor dos recursos disponíveis. Mesmo somado ao crédito anteriormente referido de um milhão de cruzeiros, destinados pelo Estado à toda programação do Cinqüentenário, os recursos não seriam suficientes para custear nem um terço desse monumento.
Eram, pois, ambiciosos os planos para os eventos comemorativos, porém as verbas inicialmente destinadas se mostraram insuficientes. Alguns expedientes foram tentados para a obtenção dos recursos à altura das grandiosas comemorações programadas: a "grande Loteria do Cinqüentenário", que seria a principal fonte de custeio das comemorações, não pôde realizada, devido a impedimentos decorrentes da nova Constituição, que exigia sua aprovação pelo Congresso, o que não ocorreu; a Comissão propôs então uma campanha estadual para coleta de donativos por subscrições a serem registradas no "grande Livro do Cinqüentenário", que tendo sido "aprovada pelo Prefeito da ocasião", não foi cumprida pelo seguinte. Assim, devido à insuficiência de verbas frente à magnitude do programado e às descontinuidades administrativas, ao correr da data, as solenidades e festividades do cinqüentenário foram consideradas decepcionantes pelo historiador oficioso da cidade, pois quase nada se realizou das "obras marcantes projetadas" e do que julgava apropriado à data10. Restariam do faustuoso programa oficial as
festividades populares, que também foram bastante reduzidas. A Prefeitura repassou o encargo e as verbas destas festas para a Secretaria da Agricultura
8 Escultor residente em Belo Horizonte, formado na Itália e autor de "bustos, baixos relevos e
outros trabalhos de notaIdem. Idem, p. 290.
9 Idem, p. 333. 10 Idem, ibidem.
do Estado, que quase nada realizou, pois "quase toda a verba de Cr$ 400.000,00, que lhe havia sido entregue foi aplicada em melhoramentos da Feira Permanente de Amostras do Estado". Por estas razões, Barreto conclui sua obra em tom lamentoso:
A instabilidade da administração municipal e, portanto, a falta de uma ação contínua no sentido da orientação dada pela Comissão prejudicaram demasiadamente o plano traçado por esta e Belo Horizonte não pode ter a sua data insigne comemorada grandiosamente como merecia e foi projetado pela Comissão.11
As comemorações oficiais, grandiosamente planejadas, parecem ter sido reduzidas a duas: a promovida pela Prefeitura em homenagem aos "veteranos" - isto é, aqueles "que habitavam Belo Horizonte quando nela se instalou a Capital"12; e a solenidade oficial, realizada a cargo do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, cujos discursos serão comentados a seguir.
A Prefeitura também apoiou indiretamente outros eventos comemorativos, adquirindo pinturas e composições gráficas realizadas no ano cinquentenário, em torno do tema da cidade no presente e no passado, provavelmente tendo em vista a Exposição oficial acima mencionada. Estas obras compuseram uma das duas exposições artísticas que se efetivaram na ocasião do Cinqüentenário, por iniciativas particulares. Publicações nos moldes do "Álbum" concebido pela Comissão das comemorações vieram a se concretizar, como a "Edição especial comemorativa do cinquentenário de Belo Horizonte" da Revista
Social-Trabalhista - uma volumosa coletânea (348 p.) com artigos e reportagens de
vários autores, sobre os diversos setores da vida da cidade e recheada de anúncios de seus patrocinadores - e os suplementos do Minas Gerais, dentre os quais o Resumo histórico de Belo Horizonte (1701-1947) de Barreto, reeditado em 1950 como livro.
11 Idem, p. 336.
12 Revista Social Trabalhista, Edição especial comemorativa do cinquentário de Belo Horizonte,
Ainda que as programações oficiais tivessem sido em grande parte frustadas, as publicações acima mencionadas e diversos outros artigos, suplementos e edições comemorativas sobre a cidade acabaram constituindo, em seu conjunto, o monumento efetivo do Cinquentenário, assim como um registro das imagens da cidade naquele momento.
A SOLENIDADE E OS DISCURSOS OFICIAIS
Na solenidade acima mencionada, a cargo do Instituto Histórico e
Geográfico de Minas Gerais, realizada "na noite do dia 12 de dezembro de
1947", foram proferidos uma conferência por Nelson C. O. de Sena, o "orador oficial, convidado pelo governo da Cidade para a comemoração da Capital Mineira", e um discurso do governador Milton Campos. Abordaremos inicialmente estes dois discursos, não apenas pelo seu caráter oficial, mas também por apresentarem os temas freqüentes nas publicações comemorativas do Cinquentenário.
No primeiro discurso, predomina o tema da fundação e construção da Capital e de seus primeiros anos13. O orador inicia evocando a questão da idéia
da mudança da capital, louvando o acerto da escolha do local, lembrando que já fora a "localidade previamente estudada e escolhida", antes mesmo dos estudos da Comissão de 1893, que então
assinalaram ter encontrado aqui, a um só tempo, um clima altamente saudável, águas de fácil captação, boa topografia, muitas belezas naturais, áreas amplas e disponíveis, posição na parte central de Minas, abundância de materiais de construção.14
13 Nelson de Sena, "O cinquentenário de Belo Horizonte", Revista do Instituto Histórico Geográfico de Minas Gerais, Belo Horizonte, Imprensa Oficial, v. 3, 1946 [1948], p. 8-18; v. IV,
1957, p. 113-125. Sena foi professor do Ginásio Mineiro, mudando-se para Belo Horizonte em 1898. É autor de A terra mineira: Chorografia do Estado de MG [1ª edição, 1922; Nova edição correcta e ampliada, Belo Horizonte, Imprensa Oficial, 1926].
Prossegue o conferencista, abordando tópicos relativos à construção e aos "primeiros tempos" da Capital, que ocupam quase a totalidade de seu discurso: "Origens históricas de Belo Horizonte", sobre o Curral del Rei e sua fundação pelos bandeirantes; "Quanto custou ao tesouro a construção da Nova Capital", comparando-a com a de La Plata e e Camberra, "tão arrojadas como a dos Mineiros", mas que "custaram quantias muitíssimo mais elevadas"; "O ramal férreo de Belo Horizonte"; "Instalação oficial de 12 de dezembro de 1897"; "Reminiscências dos primeiros tempos de vida na capital mineira"; "Antigos moradores de Belo Horizonte, nos primeiros tempos da capital"; e as "Considerações finais sobre a formosa capital mineira". Destacaremos destes tópicos alguns temas, reiterados ao longo do discurso.
As qualidades do meio são mencionadas em várias passagens. Ressalta-se as do clima, de temperaturas "tão suaves, que dão a Belo Horizonte foros de cidade salubre, verdadeiro sanatório natural", as do "sol luminoso que inunda de raios benéficos a metrópole", bem como as qualidades do terreno, "levemente acidentado com pequenos planos interpostos, na série de graciosos morros", conferindo, pela variedade de perspectivas que oferecia sempre à vista o "céu de cobalto", uma "beleza panorâmica" à capital geometricamente traçada, - o que inspirou o cronista João do Rio a "crismá-la Miradouro dos Céus", lembra o orador.
Em suas "reminiscências dos primeiros tempos da Capital", Sena recorda que ao mudar-se para esta em 1898, encontrou-a "ainda na sua infância, quase toda por se calçar, empoeirada nas suas ruas e avenidas quase desertas", contrapondo a "monotonia e desconforto" de então com a "hoje tão notável metrópole". Em seu discurso, são freqüentes as lembranças de aspectos e episódios da "então descampada" e "jovem cidade". O passado remoto é contrastado ao estado atual, acentuando-se os contrastes e sugerindo uma
extraordinária evolução da cidade até à condição metropolitana15. Ainda que não
trate extensamente da condição atual e nem do processo de transformação da Capital, não deixa o orador de ressaltar, em suas "Considerações finais sobre a formosa capital mineira", que
nem só de clima, de paisagem, de ventilação, de espaço, de luz solar, de jardins de parques se constitue o orgulho de Belo Horizonte, pois a cidade, beirando hoje seus 300 mil habitantes, com mais de 40 mil edificações, possue todos os melhoramentos que uma grande Capital moderna já pôde apresentar para o conforto de seus moradores e visitantes.16
Contudo, pondera que seu estado atual já estava virtualmente determinado desde suas origens ancestrais no Arraial do Curral del Rei:
Belo Horizonte foi e é uma cidade predestinada, pois o seu glorioso futuro já vinha assinalado até nas crônicas e reminiscências mais antigas, que a tradição oral conservou e nas quais já se previa que o Povo Mineiro havia de ter aqui a sua mais formidável realização construtiva.17
A permanência dos desígnios estabelecidos no passado, principalmente a respeito da relação entre a fundação bandeirante e a construção da Capital como sendo ambos fatos realizadores da civilização mineira, é um tema repetidamente mencionado nos textos cinqüentenários, como veremos adiante.
Outro tema também freqüente na época, e correlato ao anterior, é o da construção da capital - e seu desenvolvimento posterior - como expressão do caráter mineiro. O orador recorre a este tema ao justificar seu "patriotismo, cheio de justa ufania":
por haver o Povo Mineiro, sempre tão modesto e retraído em seus planos e projetos, se animado a planejar, construir e oferecer à admiração de compatriotas e estrangeiros uma cidade sem igual, em paragem tão distante do oceano e levantada às portas do sertão mineiro, com o arrojo, a energia, a
15 Nelson de Sena, "Belo Horizonte" [Continuação de "O cinquentenário de Belo Horizonte"], Revista do Instituto Histórico Geográfico de Minas Gerais, Belo Horizonte, Imprensa Oficial, v.
4, 1957, p. 115-120.
16 Idem, p. 123-4. 17 Idem, p. 120.
clarividência e a tenacidade de uma gente empenhada em deixar aqui realizado obra tão magnífica e portentosa.18
Destaca-se também neste trecho o papel civilizador do sertão exercido pela Capital, que assim prossegue e cumpre a obra iniciada pelos bandeirantes. Concluindo a conferência com uma "Peroração", na qual dedica-se a piedosas preces pelo "crescente progresso" da cidade, o orador fecha seu discurso com uma retórica chave de ouro, que encerra uma representação freqüente nos discursos cinqüentenários da Capital:
são também meus votos finais por que e para todo o sempre, no coração da terra montanhesa, permaneça esta Metrópole mineira um relicário da Liberdade e um escrínio de Civilização para maior glória de Minas e do Brasil.19
A imagem do escrínio - pequeno cofre para guardar jóias - de Civilização, expressa bem um dos papéis que se atribuía à capital, ou seja, o de pólo civilizador do sertão - já no começo do século formulado no epíteto de "Capital do interior", dado por Rui Barbosa à Belo Horizonte, em discurso por ocasião de sua visita à Nova Capital, publicado em uma outra edição comemorativa do Cinqüentenário. O tema da penetração do progresso e da civilização no sertão, ligado ao objetivo de propiciar uma centralidade à economia mineira, ocorre repetidamente nas considerações sobre a cidade na época do Cinqüentenário.
O discurso do governador Milton Campos procura explicar a surpresa dos que se admiram com o progresso da cidade "com apenas cinqüenta anos de existência", principalmente aqueles que têm do "caráter mineiro a impressão de reserva, da modéstia e da medida". Para o governador, estas virtudes decorriam dos "outros traços peculiares à nossa gente, que são o fundamento mesmo daquelas virtudes mais nobres e notórias: a energia e a determinação", adquiridas nas origens deste povo: "Do trabalho das minas, aprendemos a penetrar verticalmente o sentido profundo das coisas; e dos vagares do
18 Idem, p. 122. 19 Idem, p. 125.
pastoreio nos vieram a calma e a tranqüilidade com que nos detemos diante da vertigem do tempo".20
Vê-se neste discurso um exemplo da conciliação da propalada moderação mineira - notável na construção da imagem da mineiridade por diversos intelectuais e literatos - com o surto de progresso assinalado pelas reportagens e crônicas da época. A evocação à tradição se dá num quadro onde domina, na produção discursiva sobre a cidade, o enlevo com o progresso e a aspiração de um modo de vida cosmopolita e atualizado com a civilização moderna, particularmente associada às metrópoles norte-americanas, bem como à São Paulo e ao Rio. Permanece, todavia, como traço distintivo de Belo Horizonte frente às metrópoles nacionais, a suposta capacidade de conciliação entre modernidade e tradição.
OUTRAS COMEMORAÇÕES
Promovidas por iniciativas particulares, foram realizadas duas exposições de pintura: uma de "diversas e magníficas telas inspiradas na história de Belo Horizonte" pintadas pelos "nossos melhores artistas brasileiros", e a outra, também a propósito da construção da Nova Capital, por dois pintores amadores (Gabriela de Melo e Haroldo Galliac) que "reproduziram a óleo, todas as fotografias históricas daquela obra"21.
Ao contrário da Exposição de Arte Moderna, realizada em Belo Horizonte em 194422, as exposições do Cinqüentenário não se filiavam às tendências da
arte moderna. Quanto à segunda exposição mencionada, esta conclusão é
20 Milton Campos, "Discurso do governador", Revista do Instituto Histórico Geográfico de Minas Gerais, v. 3, 1946 [1948], p. 146-7.
21 Barreto, op. cit., 1950, p. 289.
22 Esta exposição, promovida pela administração municipal de Juscelino Kubitschek com o
expresso objetivo de colocar o público mineiro em contato direto com a arte moderna paulista e carioca, provocou reações de rejeição por parte dos críticos mineiros tradicionais e do público. Ribeiro, Marília Andrés. "Juscelino Kubitschek e a arte moderna em Belo Horizonte".
evidente. Quanto à primeira, o mesmo se pode inferir não só por sua temática histórica, como também pelas amostras que dela reproduz Barreto, dentre as quais a que abria o catálogo da Exposição, a "Composição a bico de pena, do artista Julius Kaukal, [...], representando os Governos do Estado e da cidade quando foi esta construída, inaugurada e no ano cinqüentenário"23. Estas figuras,
circundando o brasão de armas da cidade, ocupam dois terços da composição, encimando dois quadros comparativos: um dos tempos do pacato e ordeiro Arraial do Curral del Rei, e o outro da metrópole em vertiginoso crescimento .
Como esta, várias peças comemorativas de artes gráficas foram produzidas para a ocasião, sendo algumas adquiridas pelo Museu Mineiro. São, em geral, composições por montagem de desenhos a bico de pena e fotografias, recortados em contornos caprichosos e dispostos como fragmentos e flagrantes da cidade; apresentam, infalivelmente, o brasão das armas da cidade. Destas, sobressai-se, pela qualidade da fotomontagem, dos desenhos e do arranjo e pelos significados que promove, a "fantasia a bico de pena de J. Kaukal"24. Em
torno do recorrente comparação dos tempos antigos e dos novos, a gravura compõe-se de duas imagens: à esquerda, um desenho de um gracioso e aristocrático casal de crianças, vestidas elegantemente à moda do século XIX, tendo ao fundo o Arraial e o horizonte montanhoso da Serra do Curral; à direita, uma fotomontagem da cidade atual, enquadrando a Praça Sete e os edifícios alinhados ao longo da Avenida Afonso Pena, e em primeiro plano o desenho de um casal adulto, smart e cheios de dinamismo, em seus trajes modernos, talhados com rigor geométrico e despojamento de enfeites; no céu, sobrevoa um avião, completando a imagem de modernidade atribuída à cidade. Entre as duas, o tradicional e indefectível brasão de armas da cidade. Completa o quadro molduras, faixas e louros caprichosos e alusivos ao evento, comprometendo a composição com uma linguagem tradicional, clássica e levemente graciosa, a
23 Barreto, op. cit., 1950, p. 335. 24 Barreto, op. cit., 1950, p. 332.
despeito da modernidade da figura da cidade e do casal atual e do tratamento gráfico desta fotomontagem. As imagens ilustram, em alegorias diversas, o tema da comparação do passado e do presente, ressaltando os seus contrastes.
Das pinturas que fizeram parte desta exposição de pintura sobre a história da cidade, outras duas se destacam por terem sido repetidamente reproduzidas nas publicações comemorativas do Cinquentenário: a primeira, um retrato de João Leite da Silva Ortiz, o bandeirante colonizador da região em que se construiu a Capital, representado como seu fundador ancestral - um quadro a óleo de Delpino Júnior (1947); a segunda retrata a Comissão Construtora, por Aldo Borgati (1947). A análise destas duas obras será feita mais detalhadamente ao se tratar especificamente do imaginário das origens e da construção da Capital nos textos comemorativos.
Vemos neste exame das representações iconográficas relativas à cidade no Cinquentenário delinearem-se os temas da demonstração dos contrastes entre passado e presente, demonstrando a evolução da cidade, bem como a recorrência ao passado, garantindo-lhe uma identidade num momento de grandes transformações.
1.2. Os topos do discurso laudatório sobre a cidade
Como se viu, o Cinqüentenário não desperta interesse pelo brilho dos festejos nem pela grandeza dos monumentos. Foi no campo da produção de textos - reportagens, artigos e ensaios sobre a história e sobre a situação da cidade, em geral, ilustrados por fotografias e corroborados por tabelas estatísticas - que teve-se a maior e mais rica comemoração e registro da ocasião e da cidade na época. Tal é o corpus documental que observaremos em uma análise das imagens da cidade então construídas e propagadas. Os temas centrais desses textos são a percepção das transformações em curso nos
últimos anos - em diversos aspectos da cidade, particularmente em sua fisionomia arquitetônica e nos modos de sua construção - e a relação dessas transformações com o passado.
A propósito das transformações da cidade e de seus lugares nos anos 30 e 40, particularmente quanto às demolições e novas construções de edifícios, Vera Chacham verifica, nas crônicas e artigos jornalísticos sobre o tema, que a avaliação destas transformações se davam, de modo geral, sob dois "prismas": "o nostálgico e o progressista"25. Os comentários progressistas manifestavam
um entusiasmo pelo que se considerava então um "surto de construções", avaliado como um sinal da superação da condição provinciana e burocrática da capital e do "começo de uma nova era para a sua história"26, marcada pela
condição metropolitana e em incessante progresso. Já os comentários nostálgicos avaliam as demolições dos edifícios e as mudanças dos lugares sob o "prisma da perda", notando também, em um destes comentários, "uma certa angústia em relação a 'eterna' reforma, reconstrução, reformulação da cidade"27.
Pondera Chacham que "tais prismas muitas vezes - talvez a maioria delas - não se chocavam frontalmente", pois tanto os comentaristas nostálgicos "se conformavam com as perdas", como os progressistas reconheciam certos inconvenientes das rápidas transformações da cidade, observando que "eram evitadas avaliações extremas"28.
A alusão ao progresso "vertiginoso", "surpreendente", "intenso" e "admirável", é notavelmente freqüente nos discursos cinqüentenários. Como vimos, o tema não é novo. Entretanto o ocasião jubilar não só é propícia à sua proliferação, como parece ser quando ele se manifesta de maneira conclusiva e unanimente reconhecida como em pleno e inarredável curso - ainda que sejam
25 Chacham, Vera. A memória dos lugares em um tempo de demolições: a Rua da Bahia e o Bar do Ponto na Belo Horizonte das décadas de 30 e 40. Belo Horizonte: FAFICH/UFMG, 1994
(Dissertação de Mestrado em Sociologia), p. 180.
26 Idem, p. 109. 27 Idem, p. 184. 28 Idem, p. 180.
diversas sua avaliações do progresso e sutilmente variadas as explicações quanto a sua origem e relações com o passado, como veremos mais detalhadamente adiante. Aponta-se este progresso em todos os setores, sendo muito freqüentemente tomadas as transformações arquitetônicas da "fisionomia da cidade" como fato marcante e demonstrativo deste progresso. Buscando apresentar a emergência de um novo tempo da cidade, estes artigos recorrem à comparação por contraste com o passado, demonstrando a partir de um momento uma ruptura, ou pelo menos uma arrancada, em relação ao papel econômico e à configuração arquitetônica da cidade. Contudo, muitas vezes busca-se estabelecer uma continuidade deste progresso com alguns fatos das origens da cidade.
Ainda que em geral entusiasticamente celebrado, particularmente no campo material e na arquitetura da cidade, o progresso também tem seus críticos e insatisfeitos, que manifestam uma nostalgia quanto a hábitos em extinção e denunciam a perda de valores culturais. Uma outra postura, que por vezes aparece dissimulada naquelas duas, reconhece e louva o progresso, porém com certa moderação, ao mesmo tempo que propõe uma explicação mais ampla, fundada numa evolução progressiva. Sustenta esta postura capitaneada pelo historiador Abílio Barreto - cuja obra constituiu o lugar-comum das referências gerais sobre a história da cidade - um exame minucioso da história da cidade, a partir de um ponto de vista evolutivo, que busca nas origens da cidade como fundamento de uma evolução que se desenvolveria em ciclos ampliados de progresso, resultado da ação do homem e do povo, através do Estado como fator de realização da civilização mineira. Através da análise desta postura atingiremos o cerne das questões e oposições que se evidenciam como centrais e generalizadamente recorrentes nos discursos sobre a imagem da cidade e da história de sua construção: a percepção de um ciclo de transformações nos papeis, na forma, na imagem e nos hábitos da cidade, que colocam uma questão sobre o significado desta transformação como ruptura,
continuidade ou superposição evolutiva em relação ao período inicial da construção da Capital, situado até os anos vinte.
"VERTIGINOSO PROGRESSO"
A audácia e a amplitude da Nova Capital eram temas freqüente nos textos sobre a mesma, escritos por seus habitantes e por visitantes, já nos primeiros anos do século, logo após a sua inauguração. Se o discurso laudatório foi uma prática corrente ao longo de toda a história da cidade, observamos neste discursos características, inflexões, temas e mesmos certos qualificativos característicos de determinados momentos ou períodos.
Desde a inauguração da Capital até os anos 30, as apreciações sobre a cidade destacam as qualidades do seu sítio e do clima, bem como à racionalidade atribuída à regularidade geométrica do seu traçado. Neste período, o tema do progressivo crescimento da cidade também ocorre, porém a ênfase é mais no papel da capital como pólo civilizador, politica e culturalmente centralizador do Estado, do que propriamente nas suas atividades econômicas. Ainda em 1936, um jornalista, ao apresentar uma entrevista com o prefeito Negrão de Lima, pondera:
Não vamos dizer que Belo Horizonte já é uma dessas metrópoles estuantes e trepidantes de movimento e vibração. Mas está no jeito de ser. [...] E chegará a ser metrópole de um povo que progride e se engrandece, apesar dos pesares.29
A avaliação ganha relevância considerando-se que a matéria é ufana e entusiasticamente aprobativa da gestão do prefeito, responsável pela "plena fase de remodelação" aludida em manchete. Neste ano, na ocasião do aniversário, um caderno especial apresenta uma avaliação semelhante a propósito da cidade que será, "em breve, uma imensa metrópole"30. Na mesma ocasião, Barreto
29 "A capital em pela phase de remodelação", Folha de Minas, 24 mai 1936, p. 1. 30 "Bello Horizonte", Folha de Minas, 25 dez 1936, 4ª seção, p. 1.
descreve a Capital como "punjante de vida, palpitante de atividade, esplendente de beleza, em franco surto de progresso, podendo vangloriar-se de possuir foros de grande cidade moderna"31. Já recorre à imagem da vertiginosidade - como o
fará mais adiante (em 1946 e 1947) - avaliando que "o elemento decisivo determinante de nosso progresso vertiginoso de determinado período em diante foi a ligação das linhas férreas", ocorrido no começo dos anos 20. A partir desta última data, para Barreto, a cidade entra numa série de ciclos evolutivos, caracterizados por um progresso crescente e a cada vez mais intenso.
O uso disseminado do topos do "vertiginoso crescimento" ocorre, associado à qualificação da cidade como "metrópole", aproximadamente a partir dos últimos anos da década dos 30. O artigo intitulado "A jovem metrópole" é um exemplo pioneiro da ocorrência dessas imagens:
A metrópole admirável, que surgiu como um milagre à entrada do sertão, é hoje um dos grandes marcos do progresso nacional. [...] O desenvolvimento de Belo Horizonte tem sido realmente vertiginoso. [...] Em quarenta anos os mineiros construíram a sua cidade, e é com grande satisfação que assistem a sua transformação num magnífico centro de progresso e de civilização.32
Na mesma época pode-se observar outras apreciações semelhantes, ao lado de outras que destacam a beleza bucólica e/ou o caráter ordenado da cidade, como vimos anteriormente. A partir daí, o topos do "vertiginoso crescimento" e suas variantes aparecem freqüentemente, em motes de reportagens, durante a administração de JK (1940-5) - a qual é generalizadamente considerada pela imprensa "fecunda", "dinâmica" e "empreendedora". Não se pode deixar de atribuir a ausência de opiniões dissidentes ao cerceamento da liberdade de imprensa e à força da propaganda oficial e oficiosa durante o então vigente Estado Novo (1937-45). Contudo, no período da redemocratização constitucional em que se dá o Cinquentenário (1947), persiste o entusiasmo com o "vertiginoso crescimento" da cidade,
31 Abílio Barreto, "Pelo 39.º aniversário da cidade", Minas Gerais, 12 dez 1936, p. 8. 32 "A jovem metrópole", Folha de Minas, 01 mar 1938, p. 3.
mesmo naqueles que manifestavam, como o historiador Abílio Barreto, uma desaprovação, embora ambígua, ao Estado Novo.
Os artigos publicados na época do cinqüentenário, a respeito das transformações da paisagem urbana e da arquitetura, em geral aludem ao progresso em relação ao arraial e aos primeiros tempos da Nova Capital, e mais acentuadamente, ressaltam uma arrancada a partir de alguns momentos de reorientação político-econômica e de alguns fatos da construção da cidade. Tais marcos, situados na metade dos anos vinte, na metade dos trinta e no início dos quarenta, concorreriam para a nova forma e o novo papel da capital como metrópole, que se reconhecem como em pleno estabelecimento na ocasião do Cinquentenário.
A associação do progresso econômico com as novas dimensões urbanas e com a densidade e grandiosidade das construções ocorrem, como se poderia esperar, nos discursos laudatórios publicados pelos arquitetos mineiros em sua recém-fundada revista, mas também na "Edição especial comemorativa do cinquentenário" da Revista Social-Trabalhista,em diversos de seus artigos e sob diversos pontos de vista, e ainda em outros vários artigos da imprensa diária. Além das inúmeras demonstrações e comentários, alguns destes artigos empenham-se em análises mais explicativas que atribuem o progresso e a transformação da cidade a uma reorientação de seu papel no estado, no sentido de ultrapassar as funções de centro político e cultural e atingir o papel de centro econômico e industrial.
Na revista Arquitetura e Engenharia - fundada em 1946 pela primeira geração de arquitetos formados na Escola de Arquitetura de Belo Horizonte, a partir de 193633 - dois artigos alusivos ao Cinquentenário, não assinados e
provavelmente expressando o ponto de vista geral da publicação, manifestam
33 Dentre eles, Raphael Hardy Filho, Shakespeare Gomes, Eduardo Guimarães Mendes Jr. e
Sylvio de Vasconcelos. A Escola foi fundada em 1930, em caráter privado, por um grupo de arquitetos e outros profissionais liberais, porém apenas reconhecida oficialmente em 1940, a nível estadual e a nível nacional em 1944, sendo incorporada, dois anos depois, à Universidade de Minas Gerais.
exemplarmente o entusiasmo com o "vertiginoso progresso" da capital. O primeiro, "Belo Horizonte - A Metrópole de 50 anos", publicado no número inaugural da revista - no ano anterior ao cinquentenário de Belo Horizonte - inicia-se com um resumo que encerra temas recorrentes nos discursos da época:
Do primitivo burgo de Curral del-Rei à moderna metrópole, sede política e centro de irradiação cultural e econômica de Minas Gerais, a evolução operada em apenas dez lustros encerra algo de mágico que, a seiscentos quilômetros do litoral, surpreende, encante e até certo ponto escandaliza o forasteiro menos advertido...34
Ressaltava-se, portanto, o contraste com o antigo arraial, os papéis fundamentais da nova capital e principalmente a rapidez de sua evolução, aqui sugerida como contínua, mas que no desenvolvimento do artigo é apresentada como característica de um período mais recente e em curso. Prossegue o autor com a evocação dos epípetos dados à Capital - gênero discursivo já tradicional nas efemérides35 - em termos semelhantes aos usados por Barreto36: "Coelho
Neto e Paulo Barreto celebraram-na em títulos poéticos: Cidade Vergel,
Miradoiro dos Céus. Outro lírico definiu-a como Acrópole das Rosas. Monteiro
Lobato preferiu Cidade Certa". O articulista acrescenta a estes qualificativos já antigos - referentes às qualidades paisagísticas e urbanísticas (beleza e ordenação) da Capital - outro mais de acordo com sua época, "Cidade-surpresa", considerando que "seu facies arquitetônico apresenta em cada ano transformações e novidades que espantam, num ritmo vertiginoso de progresso e embelezamento".
34 "Belo Horizonte - A Metrópole de 50 anos. Síntese histórica e evolução arquitetural", Arquitetura e Engenharia, n, 1, p. 35-44, mai-jun 1946. A autoria deste artigo é atribuída ao
arquiteto Raphael Hardy em seu currículo.
35 Como se vê em diversos artigos relacionados por Gravatá, Hélio. "Contribuição bibliográfica
sobre Belo Horizonte". Revista do Arquivo Público Mineiro, 1982, p. 9-174.
36 Em "Como nasceu e cresceu Belo Horizonte", [O Diário, 12 dez 1947, p. 4-6] e em Belo Horizonte e sua história [BH: Imprensa Oficial, 1937], citado no artigo que analisamos.
O autor passa então a discorrer, baseando-se em Barreto, sobre "um pouco de história", tendo por objeto o "modestíssimo vilarejo" de Curral del-Rei e os episódios da transferência e construção da capital até sua inauguração. Daí salta para "o período de maior progresso de Belo Horizonte", iniciado a partir da metade dos anos 20, mas - pelo que se pode presumir da avaliação do autor - efetivamente realizado com a construção dos "arranha-céus" e empreendimentos como o conjunto da Pampulha, ocorridos a partir da metade dos anos 30 e acentuados nos últimos anos, transformando a paisagem urbana e demonstrando ser "a marcha do progresso [...] firme e nítida".
Desenvolve a seguir uma comparação entre os primeiros anos da capital e o presente, tomando alguns "índices curiosos de evolução", relativos à número de edificações, pavimentação de vias, transportes, serviços públicos. A comparação evidentemente apresentava marcantes diferenças entre os dois momentos, já que construída sobre o Arraial arrasado, nos primeiros anos a Capital estava ainda em fase de estabelecimento. Em vista do extraordinário crescimento que busca ressaltar por estas comparações, o autor destaca um mais recente, ou seja, a tendência da cidade "tornar-se dentro em breve um dos maiores centros mecano-fatureiros de todo o País". Sua imagem da cidade do momento era, pois, marcada pela admiração do movimento de crescente renovação reconhecida sob diversos aspectos, como vê-se na conclusão deste artigo:
a Capital Mineira é sempre uma surpresa que entusiasma os observadores. Por toda a parte se constrói, se edifica, se aformoseia a "urbs". Há uma vibrante intensificação de trabalho, inequívoca prova da vitalidade econômica e de confiança dos destinos da Capital. Intensificação industrial e comercial pelo maior número de estabelecimentos que se fundam. Intensificação social, intelectual, educacional, [...]. O panorama físico, social e econômico de Belo Horizonte causa entusiasmo àquele que visita a cidade pela primeira vez, e surpreende os que a conheciam há mais de um lustro37.
37 "Belo Horizonte - A Metrópole de 50 anos", Arquitetura e Engenharia, n, 1, p. 35-44, mai-jun
Situando uma transição entre meados dos anos 20 e fins dos 30, o articulista avalia que mesmo alguns fatos inovadores deste período já estavam obsoletos, tal o grau das transformações nele ocorrentes. Considera o autor que, até este período dominava o tradicionalismo no apego às memórias da antiga capital bem como nas escolhas estilísticas ecléticas e na modesta escala das edificações:
Até então, o estilo das residências particulares era deplorável. [...] Fachadas cheias de arabescos, um alpendre com pinturas ingênuas, um jardim ao lado. [...]. Tudo acanhado, primitivo, sem conforto e sem arte. Sentia-se nas menores coisas que o povo ainda morria de saudades da velha capital. Em muitos muros, paisagens ouropretanas. Na praça da Liberdade, uma miniatura ridícula do Itacolomi".38
A "miniatura ridícula do Itacolomi" a que se refere o arquiteto fora uma reprodução em pedra do pico próximo a Ouro Preto, em escala reduzida e com aproximadamente cinco metros de altura, compondo com um pequeno lago uma imitação de um ambiente natural, à moda do paisagismo inglês, cuja influência comparece em outros recantos da referida Praça e no Parque Municipal. O conjunto paisagístico foi removido no começo dos anos vinte, quando a praça sofreu uma remodelação, que lhe imprimiu feições mais classicistas. O monumento, pode ser visto como um totem, um símbolo ancestral que estabelecia uma continuidade com a antiga capital. Sua retirada parece marcaria simbolicamente a ruptura com o tradicional modelo da cidade vigente até os anos vinte, quando também ocorre o primeiro fator do ciclo de progresso apontado, ou seja, a ampliação das ligações ferroviárias.
Contudo, o ciclo parece para o arquiteto realmente ganhar intensidade a partir do final dos anos 30, com o novo porte das construções, comparativamente bem maior que o usual até então. Neste período intermediário emergiu um movimento transformador, que a partir daí ganharia cada vez maior velocidade.