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Sibele da Silva Costa

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Academic year: 2021

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Sibele da Silva Costa

JOAQUIM FRANCISCO DE ASSIS BRASIL VERSUS JÚLIO PRATES DE CASTILHOS: ACERTOS E/OU RUPTURAS (1874-1891).

Santa Maria, RS 2012

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Sibele da Silva Costa

JOAQUIM FRANCISCO DE ASSIS BRASIL VERSUS JÚLIO PRATES DE CASTILHOS: ACERTOS E/OU RUPTURAS (1874-1891).

Trabalho Final apresentado ao Curso de Graduação em Ensino e Pesquisa em História, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de –

Licenciada em Ensino e Pesquisa em História.

Professora Orientadora: Me. Roselâine Casanova Corrêa

Santa Maria, RS 2012

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Sibele da Silva Costa

JOAQUIM FRANCISCO DE ASSIS BRASIL VERSUS JÚLIO PRATES DE CASTILHOS: ACERTOS E/OU RUPTURAS (1874-1891).

Trabalho Final apresentado ao Curso de Graduação em Ensino e Pesquisa em História, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de –

Licenciada em Ensino e Pesquisa em História.

______________________________________________________ Prof.ª Me. Roselâine Casanova Corrêa – Orientadora (UNIFRA)

______________________________________________________ Prof. Dr. Carlos Roberto da Rosa Rangel (UNIFRA)

______________________________________________________ Prof. Dr. Leonardo Guedes Henn (UNIFRA)

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AGRADECIMENTOS

Agradeço à minha família, em especial, à minha mãe, Beatriz da Silva Costa, e ao meu marido David Garcia Cavalheiro, que estiveram sempre ao meu lado incentivando-me e apoiando-me durante os anos dedicados à vida acadêmica.

À professora e amiga Rose Corrêa, pela paciência, pela dedicação e pelo comprometimento com que me orientou durante a realização deste trabalho.

Aos meus colegas de curso, em especial a Daiane, Emanuela, Fabiana e Carlo pela convivência diária, pelo companheirismo e pela cumplicidade que tivemos durante o processo acadêmico.

A todos que me incentivaram durante esta caminhada Muito Obrigada!

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Júlio de Castilhos era o ímpeto, Assis Brasil, o método; [...] um sentia a obsessão da seita; o outro interpretava melhor as ações da democracia [...]. De resto a mesma pureza de alma, a mesma integridade moral os adornava. (Claudio J. B. Todeschini, 1978).

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RESUMO

Esta pesquisa tem como objetivo demonstrar a trajetória política de Joaquim Francisco de Assis Brasil (1857-1938) e Júlio Prates de Castilhos (1860-1903), apontando os seus acertos como aliados políticos em prol da implantação da República e destacando os motivos que os levaram a ruptura tanto política quanto pessoal. Para atender esse objetivo foram utilizadas fontes bibliográficas e documentais, como o jornal a Federação, presente no Arquivo Municipal Moysés Velhinho, e A Reforma, pertencente ao acervo do Museu José Hipólito da Costa, ambos em Porto Alegre. Dessa forma, foi possível apontar o empenho de ambos em propagar a ideologia republicana no Rio Grande do Sul com a fundação do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR) em-(1882), bem como a criação de um órgão midiático: o jornal A Federação (1884). Além dos acontecimentos políticos e pessoais que levaram J. F de Assis Brasil e Júlio de Castilhos ao rompimento abordou-se o autoritarismo de Castilhos em tomar decisões sem o aval dos demais correligionários, bem como a elaboração da Carta Constitucional de 1891 que Castilhos redigiu-a sozinho, seguindo os moldes da doutrina positivista de Augusto Comte. Doutrina que se tornou o embrião para a ruptura entre Assis Brasil e Júlio de Castilhos.

Palavras-chave: Joaquim Francisco de Assis Brasil; Júlio Prates de Castilhos; República; Positivismo.

ABSTRACT

This research aims to demonstrate the political career of Joaquim Francisco de Assis Brazil (1857-1938) and Julius Prates de Castilhos (1860-1903) pointing his successes as political allies in favor of the establishment of the Republic and highlighting the reasons that led them to break both political and personal. To meet this goal we used bibliographic and documentary sources, such as newspaper Federation, present in the Municipal Archive Moyses Velhinho and The Reformation belonging to the Museum José Hipólito da Costa, both in Porto Alegre. Thus, it was possible to point to the commitment of both to propagate the republican ideology in Rio Grande do Sul with the founding of the Republican Party Riograndense (PRR) (1882), as well as the creation of a national media: the newspaper Federation (1884). Besides the political and personal events that led J. F de Assis Brazil and Julio de Castilhos approached to break up the authoritarianism of Castilhos to make decisions without the agreement of that other fellow, as well as the drafting of the Constitutional Charter of 1891. Where Castilhos wrote it alone following the mold of positivist doctrine of Auguste Comte. Doctrine that became the embryo to the rupture between Assis Brazil and Julio de Castilhos.

Keywords: Joaquim Francisco de Assis Brazil; Julius Prates de Castilhos; Republic; Positivism.

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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO...8

2. ASSIS BRASIL E JÚLIO DE CASTILHOS: O INÍCIO DA AFINIDADE POLÍTICA...11

3. RETORNO À PROVÍNCIA: MOMENTO DE CONSOLIDAR OS IDEAIS REPUBLICANOS...13

4. PROCLAMADA A REPÚBLICA: SURGEM AS PRIMEIRAS

DIVERGÊNCIAS...19

5. DOUTRINA POSITIVISTA: A CAUSA DA RUPTURA ENTRE J. F. DE ASSIS BRASIL E JÚLIO PRATES DE CASTILHOS...22 6. A VIDA POLÍTICA DE ASSIS BRASIL E JÚLIO DE CASTILHOS APÓS A

RUPTURA...25 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS...31 8. BIBLIOGRAFIA...33

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1. INTRODUÇÃO

A presente pesquisa teve como objetivo geral demonstrar a trajetória política de Joaquim Francisco de Assis Brasil (1857-1938) e Júlio Prates de Castilhos (1860-1903), indicando os seus acertos na condição de aliados políticos e enfatizando os motivos que os conduziram a ruptura política e pessoal.

O referido tema é essencial para compreendermos como estava estruturado o cenário político no Rio Grande do Sul da segunda metade do século XIX e início do século XX, destacando o fim da Monarquia e o advento da República. Diante destes acontecimentos políticos, Assis Brasil e Júlio de Castilhos empenharam-se para a implantação da República, fundaram no Rio Grande do Sul o Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), em oposição ao Partido Liberal (PL) partido do regime Monárquico. Além de criar o periódico a Federação - órgão do PRR - juntos, conseguiram firmar a ideologia Republicana no sul do país.

Logo após a implantação da República, divergências políticas foram surgindo entre Assis Brasil e Júlio de Castilhos. O caráter autoritário de Castilhos, atrelado à doutrina positivista, se fez presente na elaboração da Carta Constitucional de 1891. J. F. de Assis Brasil refutava esta ideologia e, com o passar do tempo, tornou-se um crítico quanto às práticas positivistas. Diante dos fatos, a ruptura política e pessoal entre os dois foi inevitável.

Assim sendo, este texto abordou a relação política e pessoal entre Joaquim Francisco de Assis Brasil e Júlio Prates de Castilhos descrevendo a trajetória política de ambos, apontando os fatos e a ideologia política que os uniu diante de uma causa, a implantação da República, e os motivos que levaram ao rompimento que estava ligado a outra ideologia, o Positivismo.

Para a consecução dos objetivos propostos, partiu-se da seguinte problematização: qual foi a ideologia que os uniu politicamente e o motivo que os levou ao rompimento político e pessoal?

a) Identificar o contexto político que o Rio Grande do Sul estava vivendo nas últimas décadas do século XIX, período em que Assis Brasil e Júlio de Castilhos iniciavam a relação de amizade.

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b) Apontar todo o empenho e ações políticas de ambos para difundir o regime republicano no Rio Grande do Sul.

c) Abordar os fatos que os levaram ao rompimento tanto político como pessoal. Sendo assim, para responder ao problema e aos objetivos que norteiam esta pesquisa, empregaram-se de dois tipos de fontes: bibliográficas e documentais. O trato com as fontes bibliográficas consistiu em uma revisão de literatura acerca do tema mencionado. A partir disso, realizou-se uma pesquisa historiográfica do contexto político vivido no Rio Grande do Sul na segunda metade do século XIX e no início do século XX. Quanto às fontes documentais, utilizaram-se jornais republicanos entre os anos 1891 e 1892, cujo intuito foi demonstrar os artigos que eram descritos durante o período em que ocorreu a ruptura entre Assis Brasil e Júlio de Castilhos.

Das fontes bibliográficas, priorizaram-se as obras de Carlos Reverbel (1996), Artheniza Rocha (1995), Sérgio da Costa Franco (1996) e Mozart Soares (1996). Através da pesquisa realizada com base nos estudos destes autores, foi possível relacionar a trajetória de vida dos políticos pesquisados, destacando os momentos que os uniram e os acontecimentos que levaram ao inevitável afastamento político.

No que tange ao contexto político e ideológico no Rio Grande do Sul no período retratado, destacam-se os trabalhos de pesquisa de Sandra Pesavento (2002), Ana Luiza Reickezigel (2007) e Ricardo Rodríguez (2007) como referência para o presente estudo.

Das fontes primárias, privilegiaram-se fragmentos de artigos dos jornais A Federação e A Reforma, constantes no acervo do Museu José Hipólito da Costa e do Arquivo Municipal Moysés Velhinho, ambos em Porto Alegre (RS).

Este texto está dividido em cinco subtítulos: 1) Assis Brasil e Júlio de Castilhos: o início da afinidade política, que aborda a infância de Assis Brasil e Júlio de Castilhos no interior da província, e dos primeiros ensinamentos que ambos tiveram sobre a ideologia republicana. Em seguida, trata do primeiro encontro de ambos no curso preparatório para o ensino superior em Porto Alegre e a imediata afinidade política que descobriram possuir. Dava-se o início de uma amizade fraternal, que se estendeu até a Faculdade de Direito de São Paulo e o retorno à província, sempre engajados na luta republicana.

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2) Retorno à província: momento de consolidar os ideais republicanos, apresenta as dificuldade que Assis Brasil e Júlio de Castilhos encontraram para difundir a ideologia republicana na província, para cooptar eleitores e fazer oposição ao Partido Liberal de Gaspar Silveira Martins. Além da astúcia em formar um partido nos moldes republicanos (PRR) em um país monárquico, e fundar um jornal A Federação, órgão do Partido Republicano, e que se fez presente no combate à Monarquia.

3) Proclamada a República: surgem as primeiras divergências, traz à tona as primeiras divergências políticas entre Assis Brasil e Júlio de Castilhos, logo após a Proclamação da República. O primeiro descontentamento político ocorreu, quando Castilhos, definiu o apoio á Deodoro da Fonseca, a Presidente do país, sem consultar as bases do partido, enquanto Assis Brasil apoiou Prudente de Morais. Havia ali um desacordo entre ambos. Outro fator que veio a agravar o relacionamento entre os amigos foi o projeto da constituição sul-rio-grandense, que Júlio de Castilhos redigiu sozinho, introduzindo princípios positivistas nela, dos quais Assis Brasil discordava.

4) Doutrina Positivista: a causa da ruptura entre J. F. de Assis Brasil e Júlio Prates de Castilhos trata da doutrina implantada no Rio Grande do Sul por Castilhos nos moldes Positivistas de Augusto Comte (1798-1857) e que, no Estado, ficou conhecida como regime Positivismo-Castilhista. Assis Brasil não corroborava esse ideário político, ou seja, o rompimento político e pessoal já era inevitável.

5) A vida política de Assis Brasil e Júlio de Castilhos após a ruptura aborda a trajetória política de J. F. de Assis Brasil e Júlio Prates de Castilhos após o rompimento, agora, como inimigos políticos e pessoais. Trata dos acontecimentos políticos que envolveram o Estado e os fatos que se desenrolaram até o surgimento do governo provisório, culminando com a renúncia de Júlio de Castilhos e a ação política que o fez retornar ao governo e escolher o seu sucessor, Borges de Medeiros (1898-1908/1913-1928). Este perpetuou o modelo positivista-castilhista, que Loiva Félix (1996) chamou de regime castilhista-borgista. Neste subtítulo, também se faz considerações sobre o caminho político que Assis Brasil seguiu após a queda de Deodoro da Fonseca do governo nacional. Sua partida para o exterior como diplomata, e o retorno ao Estado, regressando, então, à vida pública e ao combate ao governo Borges de Medeiros.

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2. ASSIS BRASIL E JÚLIO DE CASTILHOS O INÍCIO DA AFINIDADE POLITICA.

Políticos importantes na história do Rio Grande do Sul, Joaquim Francisco de Assis Brasil (1857-1938) e Júlio Prates de Castilhos (1860-1903), se tornaram aliados políticos ao defenderam a implantação da República, como opositores defenderam seus ideais políticos.

Ambos nasceram no interior da província do Rio Grande do Sul. Joaquim Francisco de Assis Brasil era natural de São Gabriel, filho de um estancieiro da região, Francisco de Assis Brasil e de dona Joaquina Teodora de Bem Salinas. Júlio de Castilhos era o oitavo filho do casal Francisco Ferreira Castilhos e Carolina de Carvalho Prates, fazendeiros de Vila Rica (atualmente, município de Júlio de Castilhos).

Durante a infância, tanto Assis Brasil como Júlio de Castilhos receberam as primeiras noções sobre a ideologia republicana. Para Júlio de Castilhos, “as ideias republicanas estavam presentes no lar através das histórias contadas por sua mãe e da lembrança do avô farroupilha” (FRANCO, 1996, p. 12).

J. F. de Assis Brasil recebeu grande influência do professor Taveira Junior1 quanto às ideias republicanas, no entanto, esse assunto não era de todo desconhecido dele, pois um velho amigo que frequentava a sua residência “costumava relatar ao menino as ideias e os valores farrapos” (ROCHA, BINATTO, CARDOSO, 1995, p. 39).

Tanto Assis Brasil quanto Júlio de Castilhos, durante a infância, já possuíam algumas noções sobre as ideias republicanas, de modo que, na adolescência, se tornaram simpatizantes e militantes das ideologias republicanas, e, ao longo dos anos, tiveram papel importante no processo de transição da Monarquia para a República.

Ao cumprirem os seus estudos primários, Assis Brasil e Júlio de Castilhos foram matriculados no curso preparatório para o ensino superior em Porto Alegre, no colégio sob a direção do professor Fernando Ferreira Gomes. “Entre eles houve então forte identificação em torno de posicionamentos políticos” (ROCHA, BINATTO, CARDOSO, 1995, p. 39). Eram dois jovens visionários, possuíam os mesmos valores, almejavam por mudanças e, além disso, foram encontrando outras afinidades entre si:

1 “Poeta e humanista de alta representatividade intelectual na então província, porém era discriminado e

mal visto por influentes setores políticos e sociais; pois participava do movimento abolicionista, o que era bastante incômodo para uma cidade cuja economia era ocasionada pelo braço escravo devido à concentração das charqueadas” (ROCHA, BINATTO, CARDOSO, 1996, p. 39).

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Tinham o mesmo gosto pelo estudo severo, pela análise metódica dos fatos, pela indagação das graves crises sociais e a mesma vocação, através da imprensa, a inflexível diretriz de ordem, construção e liberdade que se vitoriosa, daria ao Brasil a Federação e a República (ROCHA, BINATTO, CARDOSO, 199, p. 39).

Este período marcava o início do que seria para ambos uma amizade fraternal. Terminado o período de estudos em Porto Alegre, era hora de deixar a província do Rio Grande do Sul e ir para a Faculdade de Direito de São Paulo. “Lugar de grande foco de campanhas liberais, de ideias revolucionárias e de disputas políticas” (ROCHA, 1995, p. 40).

Este foi um ambiente favorável para os dois jovens, tanto que Júlio de Castilhos:

[...] encontrou campo favorável ao desenvolvimento de suas tendências republicanas. E foi também durante o curso jurídico, que adquiriu os primeiros conhecimentos da doutrina política e filosófica de Augusto Comte (FERREIRA, 1978, p. 54).

No entanto, J. F. de Assis Brasil,

[...] encontrou ali os elementos suficientes não só à sua formação profissional jurídica, como a implantação de uma cultura geral voltada, sobretudo, para estudos filosóficos, sociólogos, literários e históricos (ROCHA, BINATTO, CARDOSO, 1995, p. 40).

A Faculdade de Direito de São Paulo era palco de novas ideias que estavam sendo discutidas no país, centradas na reação científica que tinha respaldo no positivismo2, no darwinismo3, no materialismo4, entre outras correntes de pensamento provenientes do século XIX. “Entre os estudantes, todavia, as ideias do materialismo e do positivismo já repercutiam com intensidade.” (FRANCO, 1996, p. 28).

Na grande efervescência cultural de São Paulo, os jovens discutiam todas as novas tendências de modernidade. Assis Brasil e Júlio de Castilhos posicionavam-se a favor do novo, do moderno em oposição ao que já estava ultrapassado, no caso o regime monárquico. Contudo, era necessário divulgar as ideias republicanas.

Juntamente com o grupo de sul-rio-grandenses que estudava em São Paulo, Assis Brasil e Júlio de Castilhos, fundaram o Clube Vinte de Setembro e o periódico A Evolução (1879), no qual pregavam a ideologia republicana.

Enriquecida a cada ano de novos participantes essa agremiação acadêmica e seu jornal marcaram época, dentro da Faculdade e nas fileiras dos chamados

2 “Sistema filosófico que só considera válido o modelo de aquisição de conhecimentos baseados em fatos

e dados observáveis” (HOUAISS, 2004, p. 585).

3

“Teoria de evolução que se baseia na seleção natural para explicar origem, transformação e perpetuação das espécies, fundamentada nas ideias de Charles Robert Darwin” (HOUAISS, 2004, p.208).

4 “Doutrina filosófica que acredita que a matéria é capaz de explicar todos os fenômenos naturais, sociais

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republicanos históricos. Entre outros, foram seus colegas, Alcides Lima, Homero Batista, Ernesto Alves, Borges de Medeiros, Barros Cassal, Germano Hasslocher, Vitorino Monteiro, Álvaro José Gonçalves Chaves. (REVERBEL, 1996, p. 19).

Muitos destes colegas foram grandes aliados políticos na época em que foi implantada a República (1889). Entre estes ex-colegas de faculdade pode-se mencionar o sucessor de Júlio Prates de Castilhos ao governo do Rio Grande do Sul, Antônio Augusto Borges de Medeiros (1898/1908-1913/1928), que continuou o modelo político Castilhista na direção política do Rio Grande do Sul.

Entretanto, no meio acadêmico, Júlio de Castilhos não sintonizava muito com os demais colegas devido ao seu temperamento sério, recatado e de poucas palavras, mas se destacava como jornalista acadêmico, publicando artigos polêmicos em que criticava a monarquia (FRANCO, 1996).

Diferentemente de Assis Brasil, que possuía uma excelente oratória e uma veia poética, no entanto, ambos eram defensores da República, dois jovens que se “distinguiam dois lutadores iguais em ação, mas de gêneros diferentes” (TODESCHINE, 1978, p. 22) e que usaram de suas aptidões para difundir seus ideais republicanos.

Ambos estavam engajados nesse desafio de implantar no sul do país um regime republicano. Concluído o curso de Direito, Castilhos e Assis Brasil retornaram ao Rio Grande do Sul, prontos para trabalharem a favor da implantação de um Partido Republicano.

3. RETORNO À PROVÍNCIA: MOMENTO DE CONSOLIDAR OS IDEAIS REPUBLICANOS.

No Rio Grande do Sul, havia dois partidos políticos: o Partido Conservador de pouca representatividade na província e o Partido Liberal que “era a principal força política, representando os interesses dos pecuaristas locais, que constituíam a elite econômica” (KUHN, 2002, p. 103).

Ambos os partidos estavam ligados diretamente ao Império, porém, mesmo com discursos distintos, o Partido Conservador defendia a centralização administrativa, enquanto o Partido Liberal pleiteava reformas que dessem maior autonomia às províncias (KUHN, 2002). Entretanto, não existia um partido de oposição.

Assim, Júlio Prates de Castilhos, ao retornar a Porto Alegre, “abriu banca de advocacia. Dedicou-se ao jornalismo e à carreira política” (SOARES, 1996, p. 25),

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enquanto Joaquim Francisco de Assis Brasil, “na sua volta para o Rio Grande do Sul, percorreu a cavalo, durante meses, a província, pregando a liberdade, a federação5, a república6 e a democracia7” (ROCHA, BINATTO, CARDOSO, 1995, p. 42 ). Ideias novas que traziam de São Paulo e que precisavam difundir pelo interior da província.

No entanto, havia uma dependência tanto econômica quanto política do sul do país em relação ao governo central. Mas como não havia um partido que questionasse as decisões que vinham da capital, todas as medidas tomadas tanto na esfera política quanto econômica eram acatadas na província (PESAVENTO, 2002).

Este foi o cenário econômico e político que J. F. de Assis Brasil e Júlio Prates de Castilhos encontraram ao regressar à província. Recém-formados, tanto Castilhos quanto Assis Brasil, assinalariam o começo de grandes transformações na vida social e econômica da Província sul-rio-grandense.

A despeito de todas essas transformações materiais, perdurava no plano político o absoluto predomínio do Partido Liberal, agremiação tradicionalmente forte na Província, robustecida pelo comando único e decisivo de um líder excepcional: Gaspar Silveira Martins. (FRANCO, 1996, p. 25).

Gaspar Silveira Martins (1834- 1901) nasceu em Bagé, cidade fronteiriça com o Uruguai, cumpriu os seus estudos em São Luís e Rio de Janeiro no curso secundário e, em Recife, na Faculdade de Direito. Ao retornar ao Rio Grande do sul, logo entrou para a política, elegendo-se deputado, aos 26 anos (REICKZIEGEL, 2007).

Silveira Martins tornou-se uma das figuras mais importantes no Rio Grande do Sul no período da Monarquia. Usava a sua oralidade para conquistar mais adeptos partidários. Sendo assim, o Partido Liberal tornou-se o mais importante partido político no sul do país. “Para alguns, ele foi à principal liderança política no Rio Grande, ao final da Monarquia” (REVERBEL, 1996, p. 32).

Era preciso implantar, no Rio Grande do Sul, um partido aos moldes republicanos. “Mediados por um grupo de jovens vindos do centro do País, no qual faziam parte Júlio de Castilhos e J. F. de Assis Brasil, era preciso firmar o ideal republicano no Rio Grande do Sul” (REICKZIEGEL, 2007, p. 24-25). Foi fundado, então, o Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), no ano de 1882, seguindo os moldes do Partido Republicano Paulista (PRP).

5

“União de Estados independentes sob um governo central soberano” (HOUAISS, 2004, p. 337).

6“Forma de governo em que o poder é exercido por indivíduos eleitos pelo povo por tempo determinado”

(HOUAISS, 2004, p. 640).

7

“Governo em que o povo exerce soberania. Sistema comprometido com a igualdade ou a distribuição igualitária de poder” (HOUAISS, 2004, p. 215).

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Com a criação do PRR, foi possível começar uma intensa propaganda na província a favor da República, “dentro de um contexto político dominado pelo Partido Liberal, mas que começava a se desgastar pelo seu imobilismo frente aos problemas enfrentados pelo Império” (PESAVENTO, 2002, p. 53).

Mesmo assim, como descreve Reverbel (1996, p. 11), “a cúpula republicana tomara corpo, mas o eleitorado era minguado”. Havia nos municípios pequenos Clubes republicanos e era preciso organizá-los, e, através da primeira Convenção Republicana (1882), isso foi possível. Mas somente no ano seguinte Castilhos e Assis Brasil; conseguiram organizar um Congresso nos moldes Republicanos, no qual teve início a estruturação do movimento organicamente e, nesta mesma ocasião, ficou estabelecida a criação de um órgão republicano, em que seria possível explanar as ideias republicanas e combater a Monarquia, nascendo, assim, o jornal A Federação (1884).

Sendo assim, foi possível, propagar as ideias republicanas e cooptar novos adeptos por meio das colunas do jornal A Federação (1884) do qual Júlio de Castilhos deveria tornar-se redator chefe. No entanto, ele recusou esse convite, deixando o cargo em aberto. Em seu lugar, foi escolhido o paulista Venâncio Aires8. Mesmo não tendo aceitado, de imediato, o cargo de redator, “Castilhos colaborou com o jornal, escrevendo várias colunas criticando a Monarquia” (FRANCO, 1996, p. 42).

Mesmo assim, não foi fácil conquistar eleitores para o Partido Republicano Rio-grandense (PRR). Em fins de 1884, J. F. de Assis Brasil e Júlio de Castilhos candidatam-se ao cargo de deputados provinciais. A campanha eleitoral foi árdua, para os republicanos, o objetivo em concorrer nos pleitos eleitorais era difundir a ideologia republicana.

Júlio de Castilhos partiu de vila em vila, cidade em cidade, em busca de novos adeptos a causa republicana encontrava quase sempre um ambiente de indiferença, quando não de aberta hostilidade (FRANCO, 1996, p. 39).

O Partido Liberal possuía grande representatividade, principalmente nos meios mais tradicionais da sociedade, senhores rurais que se sentiam ameaçados por essas novas ideias defendidas pelo novo partido que surgia (PRR), como a abolição da escravatura, sendo que a mão de obra encontrada nas fazendas e nas charqueadas era a escrava (KHUN, 2002).

O resultado das eleições não atingiu o objetivo desejado, Castilhos obteve uma inexpressiva votação. Mesmo assim, os republicanos conseguiram eleger um dos seus

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correligionários, Assis Brasil, que conquistou uma cadeira na Assembleia Provincial por dois biênios (1885-1886 e 1887-1888). “Sendo o primeiro e único deputado republicano no Rio Grande do Sul durante o regime monárquico” (REVERBEL, 1996, p. 11).

Na bancada parlamentar, Assis Brasil possuía um papel relevante, pois, muitas vezes cabia-lhe tomar importantes decisões.

[...] e quando os monarquistas, divididos entre liberais e conservadores, empatavam nas votações, tocava a ele decidir. Assim além de ser o mais jovem e único representante republicano, exerceu o papel de „fiel balança‟ na Assembleia Provincial sempre que ocorria igualdade de votos entre os representantes dos dois partidos monarquistas (REVERBEL, 1996, p. 11).

J. F. de Assis Brasil, aos poucos, tornou-se um político de grande representatividade e um defensor do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), uma vez que usava a sua oralidade, desde os tempos em que era apenas um estudante de direito, para defender as ideologias republicanas.

Por diversas vezes, confrontou-se diretamente com Silveira Martins na tribuna parlamentar, visto que o líder do Partido Liberal era “o grande representante da monarquia no Rio Grande do Sul” (REVERBEL, 1996, p. 11). Isso não intimidava Assis Brasil que sempre tinha argumentos para defender o seu pensamento republicano. Essas discussões entre Joaquim Francisco de Assis Brasil e Gaspar Silveira Martins seguiam horas entre réplicas e tréplicas na bancada parlamentar (REVERBEL, 1996).

No ano em que Joaquim Francisco de Assis Brasil tomou posse como deputado provincial (1885), casou-se com Maria Cecília Prates de Castilhos, irmã de Júlio Prates de Castilhos. “Deste matrimônio nasceram quatro filhos, Francisco (falecido aos cinco anos de idade), Maria Cecília, Joaquim (falecido aos dois anos) e Carolina” (REVERBEL, 1996, p. 11).

Agora, além de correligionários do mesmo partido, Júlio de Castilhos e Assis Brasil, pertenciam à mesma família.

J. F. de Assis Brasil utilizava a sua oralidade para criticar os atos cometidos pela Monarquia, fazendo-o a partir da tribuna parlamentar. Júlio de Castilhos, por sua vez, servia-se das páginas do jornal A Federação, para escrever artigos que viessem refletir contra a monarquia. Logo se viu frente a um episódio que levaria a derrocada do Império no Brasil: a chamada Questão Militar 9 (1885-1887).

Para Franco (1996, p. 48), “existia no Brasil um exército esquecido, mal organizado, mal instruído e mal pago”. A classe militar não teve grande prestígio

9

Foi uma série de conflitos entre 1884 e 1887 entre oficiais do Exército Brasileiro e a monarquia (FRANCO, 1996).

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durante o Segundo Império (1840-1889), Júlio Prates de Castilhos e Assis Brasil utilizaram a imprensa para atacar e cooptar mais adeptos para a implantação do regime republicano.

Quando do agravamento da crise política provocada pela Questão Militar (1885-1887), valeram-se amplamente do jornal para análises profundamente críticas da grave crise sofrida pelo Império (ROCHA, 1995, p. 48).

Por motivos pessoais, Júlio Prates de Castilhos precisou passar algum tempo com sua família em Vila Rica (atual, munícipio de Júlio de Castilhos). Neste período, Castilhos já estava casado com Honorina da Costa. Deste matrimônio, nasceram seis filhos: Honório, Eugênio, Júlia, Ambrosina, Eugênia e Otília (FRANCO, 1996). Entretanto, mesmo distante da capital, ele não deixou de continuar publicando os seus artigos no jornal A Federação combatendo a Monarquia.

Mesmo afastado da capital da Província, Castilhos seguiu debatendo, através da publicação de seus artigos, a Questão Militar. Além disso, juntamente com a colaboração de Assis Brasil, organizou uma reunião, na fazenda da Reserva, conseguindo cooptar correligionários republicanos de toda parte do Rio Grande do Sul, reunindo ali homens mais idosos e mais ricos, que se misturavam aos jovens republicanos.

Em reunião realizada na Fazenda da Reserva, Júlio de Castilhos foi um dos signatários da ata da reunião, tendo por companheiros nessa solene deliberação de irem até a resolução para impedir o terceiro reinado, Cândido Pacheco de Moraes, Lauro Domingues Prates, Fernando Abbott, José Gomes Pinheiro, Manoel da Cunha Vasconcelos, Júlio de Castilhos, Assis Brasil e Salvador Pinheiro Machado entre outros (TODESCHINE, 1978, p. 67).

Alguns fatores acabavam criando condições para novos colaboradores aderirem à causa, pois o Conde D‟Eu10 gozava de uma enorme antipatia, além da baixa popularidade de D. Pedro II, fatores estes que levavam uma grande parcela da população a opor-se ao III Reinado que, fatalmente, seria exercido pela princesa Isabel.

[...] abalado até os alicerces pela crise da abolição, o Império procurou galvanizar suas últimas resistências para o Rio Grande do Sul, que se revelava um foco de crescente agitação republicana (FRANCO, 1996, p. 56).

Entre os ideais republicanos de implantar a liberdade, democracia, federação, havia outro objetivo que era acabar com a escravidão, sendo que Assis Brasil e Castilhos não aceitavam a forma como os negros eram tratados. Ao receber alguns escravos como parte da herança, Assis Brasil tratou logo de dar-lhes liberdade, pois não admitia que se tratassem negros como objeto de uso pessoal (REVERBEL, 1996).

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Ao retornar à capital, Júlio de Castilhos intensificou as críticas, durante todo o mês de outubro de 1889, quanto à “questão militar”. Vários artigos foram publicados, dando ênfase os aspectos políticos que envolviam o caso. Com isso, Castilhos criticava o descaso com que o Império tratava os militares, além de estimular a agitação da classe armada.

Castilhos debaterá a „questão militar‟ até as vésperas da Proclamação da República. Compreendia-o que o dissídio entre os militares e o poder civil se tornara irremediável e que ainda haveria de ser o estopim para a derrubada da Monarquia (FRANCO, 1996, p. 49).

E estava certo disso, pois, a derrocada da Monarquia veio através de um golpe militar. Ciente dos fatos que estavam ocorrendo à época, Júlio de Castilhos soube articular e buscar o apoio necessário que faltava ao partido, o dos militares.

O ideal republicano que tanto Assis Brasil quanto Júlio de Castilhos lutavam para implantar na Província, agora, já era fato consumado. Cada vez mais adeptos corroboravam essa nova forma de governo.

Para combater essa agitação, foi enviado ao Rio Grande do Sul como presidente Gaspar Silveira Martins. O Partido Liberal (PL) assumia, mais uma vez, o governo da província, após uma hegemonia política dos conservadores. Temerosos pela expansão republicana era a vez deles defenderem o Regime Monárquico. Com isso, “muitos correligionários ressentidos contra a Monarquia, começaram a aderir em massa ao Partido Republicano Rio-Grandense (PRR)” (FRANCO, 1996, p. 57).

O fato era que, no Rio Grande do Sul, a pecuária encontrava dificuldades para renovar o seu processo produtivo, descapitalizado e dependente de um crédito bancário que se revelava insuficiente, somado a outros problemas enfrentados, como o sistema de transportes que se mostrava inadequado. Isso porque a “malha ferroviária estava obstruída, bloqueando o acesso ao único porto da província, localizado em Rio Grande” (PESAVENTO, 1988, p. 93).

Mas não era somente o setor tradicional que estava afetado, havia também uma nova região que ascendia na província: Porto Alegre e a zona colonial do Vale do Rio dos Sinos e da Serra “com suas pequenas propriedades rurais, proporcionando o surgimento do grande comércio e da indústria” (PESAVENTO, 2002, p. 65). Este setor almejava uma melhoria nas estradas e vias férreas, o que proporcionaria uma maior dinamização quanto ao comércio na província.

Neste contexto, a ideia de República passou a ganhar força, apresentando-se como uma possibilidade alternativa para o encaminhamento dos problemas do Rio Grande (PESAVENTO, 1988, p. 93).

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Na eleição realizada em 1889, em que Castilhos concorreu a deputado geral, os republicanos conseguiram obter uma significativa votação, sendo superior àquela alcançada pelos conservadores. “Diferentemente da campanha eleitoral realizada no ano de 1884, em que o eleitorado republicano era insignificante” (FRANCO, 1996, p. 40).

O empenho de Assis Brasil, único representante republicano na Assembleia Provincial, durante a Monarquia, e de Castilhos (que fez das páginas do jornal A Federação o porta voz das ideias republicanas), começava a dar resultado, juntamente com os jovens que almejavam a República como forma de governo.

Eles conseguiram colocar o Partido Republicano Rio-Grandense (PRR) como o segundo partido mais importante na Província.

[...] consumara-se a polarização das forças: de um lado Gaspar, com a tradição, com as maiores influências econômicas e sociais da Província, como a Guarda Nacional, com a Polícia, com a máquina administrativa; de outro lado os republicanos, com a mocidade, boa parte dos militares jovens, expressiva fração dos cidadãos ainda privados do direito de voto pela legislação eleitoral do Império e o reforço de conservadores (...), que traziam ao partido o combustível do coronelismo municipal (FRANCO, 1996, p. 58).

Além de buscar o apoio em vários setores da sociedade:

O PRR buscou ampliar a sua base social de apoio político, tentando cooptar para seus quadros aqueles setores egressos do complexo colonial-urbano que haviam enriquecido: banqueiros, industriais e comerciantes. Da mesma forma, preocupou-se em incorporar os pequenos proprietários rurais de origem imigrante (PESAVENTO, 1988, p. 95).

Ampliando, dessa forma, o seu quadro de eleitores, no Rio Grande do Sul, as forças republicanas estavam formadas e vinham de toda parte, de modo que era somente aguardar a queda da Monarquia, o que não tardaria a ocorrer.

4. PROCLAMADA A REPÚBLICA: SURGEM AS PRIMEIRAS

DIVERGÊNCIAS.

O jornal A Federação já estava sendo impresso e Castilhos ainda permanecia no local, à espera de notícias. Afinal, a crise que a Monarquia estava vivendo e o afastamento de Silveira Martins da Província rumo ao Rio de Janeiro, geravam grandes especulações (FRANCO, 1996).

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Ao receber a notícia de que a república havia sido proclamada, Júlio de Castilhos imediatamente nomeou, como chefe do Rio Grande do Sul, o Visconde de Pelotas11, logo substituído, sob a contrariedade de companheiros de partido e opositores.

Se por evidente manobra tática, o governo Provisório do Estado era entregue a um chefe militar e de origem liberal, não resta dúvida de que Castilhos e seus companheiros fariam questão de assumir o comando dos postos-chave da administração (FRANCO, 1996, p.61).

Era necessário manter os interesses republicanos no Estado, e evitar à possível ameaça do Partido Liberal (PL) em restituir seus interesses políticos no sul do país.

Qualquer transição que envolvesse a partilha do mando com Gaspar Martins e seu grupo representaria atrelar o Partido Republicano ao carro do triunfo do chefão tradicional. E Castilhos, como os seus companheiros de luta, esperava da República uma transformação total dos velhos métodos políticos e administrativos, uma superação do passado de rotina, de desorganização e de improvisação (FRANCO, 1996, p. 61).

Proclamada a República, era o momento de articular os apoios políticos e colocar, no governo do Estado, pessoas de confiança. No caso do Rio Grande do Sul, o designado pelo Marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892) foi Júlio de Castilhos, que recebeu o convite através de um telegrama: “Por decreto de hoje fostes nomeado governador deste Estado. O governo espera que continues a prestar os valiosos serviços costumados nesse novo posto de sacrifícios” (FRANCO, 1996, p. 65).

Júlio de Castilhos preferiu não aceitar o convite, mas indicou para seu lugar o general Júlio Anacleto Falcão da Frota, sendo Castilhos designado para primeiro vice-governador e Antão de Farias, segundo vice-vice-governador. “Com isso os republicanos continuavam no domínio e em seus respectivos cargos” (FRANCO, 1996, p. 65).

O Marechal Deodoro enviou um convite a Joaquim Francisco de Assis Brasil para integrar o primeiro ministério republicano, no entanto, o convite foi recusado por ele. Porém, aceitou o cargo de Ministro Extraordinário e Ministro Plenipotenciário do Brasil em Buenos Aires, ficando no cargo por pouco tempo, pois logo se candidatou a Deputado da Constituinte Nacional sendo, eleito ao cargo. (REVERBEL, 1996).

Ao todo, eram dezesseis deputados gaúchos, formando uma bancada jovem. Assim como Assis Brasil, Júlio de Castilhos também fazia parte desta comitiva que deixava o Rio Grande do Sul em direção ao Rio de Janeiro.

Apesar das pequenas desilusões que o primeiro ano de experiência republicana proporcionara aos apóstolos da propaganda republicana, malgrado as dissensões que entre eles explodiam, a sessão solene de 15 de novembro terá ensejado grande emoção cívica a todos os moços que, desde a

11

“O Marechal José Antônio Corrêa da Câmera, Visconde de Pelotas era senador do Império pelo Partido Liberal, era o general mais prestigiado da província” (FRANCO, 1996, p. 60).

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adolescência, sonhavam e idealizavam a reforma das instituições políticas da Pátria (FRANCO, 1996, p. 82).

Um fato que levou Júlio de Castilhos a entrar em conflito com alguns correligionários foi quando usou as páginas da Federação para apoiar publicamente a candidatura do Marechal Deodoro à Presidência da República, sem consultar as bases partidárias do PRR (FRANCO, 1996).

Essa atitude de Júlio de Castilhos acabou desagradando muitos companheiros de PRR, dentre eles, o seu grande amigo e cunhado J. F. de Assis Brasil, tendo em vista que, quando foi promulgada a Constituição de 1891, cabia ao congresso eleger o Presidente da República, assim como o seu Vice-Presidente. Através de eleições indiretas.

Este episódio trouxe à tona a primeira divergência entre Assis Brasil e Júlio de Castilhos. Por iniciativa de Castilhos, a bancada sul-rio-grandense deveria votar no Marechal Deodoro. Isso ia contra os princípios de Assis Brasil, que apoiava e votou em Prudente de Morais. (REVERBEL, 1996). Ambos se colocaram em lados opostos a partir da Proclamação da República.

Proclamada a República, viram-se frente a frente às orientações antagônicas dos dois chefes rio-grandenses, até então ligados pelo objetivo comum (TODESCHINE, 1978, p. 25).

Ademais, nas normas do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), a bancada não deveria ter nenhum líder, e o partido nenhum chefe. No entanto, Castilhos destacava-se como uma liderança dentro do PRR (FRANCO, 1996).

Em meados do ano 1891, Júlio de Castilhos retornou a Porto Alegre depois de um período no Rio de Janeiro, onde exercia o cargo de Deputado Nacional. Foi recebido pelos seus correligionários e “proferiu então um discurso, onde prestou contas da conduta parlamentar da bancada republicana, um grande número de correligionários já o apontava como futuro Presidente do Estado” (FRANCO, 1996, p. 93).

Mesmo desagradando alguns correligionários, devido ao seu estilo autoritário, em tomar algumas decisões em nome do partido (PRR), Júlio de Castilhos ainda exercia uma liderança incontestável sobre os demais companheiros de partido (FRANCO, 1996).

As divergências políticas entre Assis Brasil e Júlio de Castilhos acentuaram-se no momento em que foram designados, juntamente com Ramiro Barcelos, a elaborar o projeto da Constituição sul-rio-grandense, “no qual Júlio de Castilhos redigiu sozinho,

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nela introduzindo princípios positivistas de que Assis Brasil discordava” (REVERBEL, 1996, p. 12).

Esse projeto de exclusiva autoria de Júlio de Castilhos foi enviado a Assembleia Constituinte, depois de discutida a emenda. Seria a Constituição promulgada em 14 de julho de 1891. “Nesta mesma data Castilhos foi eleito Presidente do Estado de forma indireta” (TODESCHINE, 1978, p. 69).

5. DOUTRINA POSITIVISTA: A CAUSA DA RUPTURA ENTRE J. F. DE ASSIS BRASIL E JÚLIO PRATES DE CASTILHOS.

O estilo autoritário de Júlio de Castilhos estava vinculado à ideologia Positivista de Augusto Conte (1798-1857), embora de forma reconfigurada.

A ideologia política positivista baseava-se no pressuposto de que a sociedade caminhava inexoravelmente rumo á estruturação racional. Essa convicção e os meios necessários para a sua realização seriam alcançados mediante o cultivo da ciência social. Ante tal formulação, eram possíveis duas alternativas: ou empenhar-se na educação dos espíritos para que o regime positivo se instaure como fruto de um esclarecimento, ou simplesmente impor a organização positiva da sociedade por parte da minoria esclarecida (RODRÍGUEZ, 2007, p. 60).

Os primeiros contatos de Castilhos com a doutrina positivista ocorreram quando ainda era estudante de Direito. Aos poucos, tornou-se um grande doutrinador e foi através do jornal A Federação e da fundação do PRR que Júlio de Castilhos implantou os princípios positivistas no sul do país.

Em sua situação de republicano e adepto do regime federativo, encontrou dois pontos de afinidade, com o pensamento político de Comte: a república e as pequenas pátrias, que correspondiam aos estados federados nos países de grande extensão territorial. (TODESCHINE, 1978, p. 54)

Entretanto, no Rio Grande do Sul, Júlio de Castilhos empregou a doutrina Positivista Castilhista:

O principio básico para o Castilhismo é de que a sociedade caminha inexoravelmente para a sua estruturação racional [...]. Quando uma personalidade esclarecida pela ciência social assume o governo, pode transformar o caráter de uma sociedade que levou séculos para se constituir. A ação política de Castilhos inscreveu-se nesse contexto: não consultou a opinião do povo, nem sequer indagou acerca das condições de receptividade do meio para a sua ação, porque, impelido por um móvel poderoso [...] soube aproveitar o concurso dos fatores predominantes e, de acordo com eles, influir nas multidões, sendo por elas seguido de maneira irrefreável (RODRÌGUEZ, 2007, p. 64).

O Castilhismo tomou forma no Rio Grande do Sul, firmou-se como positivista, porém um pouco diferenciado quanto ao Positivismo de Comte na França. No sul do

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país, a doutrina aplicada era combatida com autoritarismo. A doutrina Castilhista estava enraizada nos seguintes princípios:

[...] para os Castilhistas a Assembléia Estadual estava composta, indistintamente, por todos os grupos sociais, aglutinados ao redor do Partido Republicano Rio-Grandense, que era imaginado como agremiação partidária única, uma vez que não se tolerava o pluralismo partidário e, muito menos, o funcionamento da oposição. [...] os castilhista davam preferência á renovação política, da qual esperavam a mudança moral e espiritual. [...] no castilhismo há uma tendência unificadora em torno do Estado [...], nota-se a tendência a converter tudo em função estatal [...] no sistema castilhista, o escancarado favorecimento da doutrina estatal, através da imprensa do Partido Único e das perseguições, sem piedade, aos jornais da oposição (RODRÍGUEZ, 2007, p. 73-74).

O Estado estava acima de tudo e o autoritarismo de Júlio de Castilhos também. A maneira como Castilhos organizava o seu governo e, principalmente, a Carta Castilhista moldada à base da doutrina Positivista geraram muitos dissabores12 entre companheiros republicanos, em especial Joaquim Francisco de Assis Brasil, seu amigo e cunhado.

J. F. de Assis Brasil recusava aceitar a doutrina positivista, visto que caminhava em direção contrária a sua ideologia liberal.

Ora, dificilmente um homem como Assis Brasil, cujo pensamento político e social era o exemplo típico da proposta liberal, aceitaria o positivismo. Ele considerava o federalismo, a democracia e a evolução das instituições como os verdadeiros sustentáculos do Estado Moderno [...] Assis Brasil rejeitou, portanto, o republicanismo ditatorial e o centralismo, inspirados na vertente ortodoxa do positivismo (ROCHA, 1995, p. 21-22).

Logo que houve a votação para escolher o Presidente da República, em que foi eleito Deodoro da Fonseca, veio à tona a primeira divergência entre Assis Brasil e Júlio de Castilhos. J. F. de Assis Brasil renunciou ao cargo que mantinha. “Logo se tornou dissidente, dentro da Assembleia Constituinte sul-rio-grandense, iniciando-se, assim, o clima de ruptura política com Júlio de Castilhos” (REVERBEL, 1996, p. 12).

Outro episódio que veio a agravar ainda mais a relação entre ambos foi o projeto da Constituição do Estado, cujo teor foi unicamente redigido por Júlio de Castilhos.

A oposição, através das páginas do jornal A Reforma13, criticou o projeto da Constituição do Estado e a maneira que Castilhos almejava governar o Estado.

O architeto do projeto apartou-se da doutrina dos modernos publicitas de direito público, desprezou o elemento histórico do povo para o qual confeccionou a lei fundamental: desprezou ainda os benefícios resultados da prática diurna dos governos onde o systema constitucional, baseado nos princípios da divisão dos poderes, é uma realidade [...] taxando os apologistas deste systema de ignorantes e superficiaes, foi inspirar-se no positivismo de

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“Dissabor, sentimento de tristeza e infelicidade; desgosto” (HOUAISS, 2004, p. 253).

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Comte vassando nos moldes desta escola o projecto cuja beleza tanto admira [...]. Animado da mais pura lealdade ou da mais requintada perfídia, o autor do projecto, certo de que ia ser o primeiro presidente deste Estado, quis ter poderes amplos, girar em uma esphera de acção completamente livre: eis a razão do projecto, onde foram banidos os princípios de um governo livre para abraçar-se as normas de um absolutismo disfarçado (A REFORMA, 1891, p. 1).

Assim como a oposição, J. F. de Assis Brasil, não aceitava a justificativa de Júlio de Castilhos, para o qual era necessário o autoritarismo que continha na Carta Constitucional de 1891. Sendo assim, Assis Brasil tornou-se um crítico quanto à doutrina positivista.

Assis Brasil ansiava por um governo democrático em que “o povo é parte efetiva no estabelecimento das leis e na designação dos funcionários que têm de executá-las e de administrar a coisa publica” (ASSIS BRASIL, 1931, p. 15). Na sua concepção, o povo não devia ser governado por um ditador e cabia ao poder legislativo representar a população, todavia não eram esses princípios que vigoravam na Constituição de 1891.

A constituição de 1891 era autoritária, pois transforma o chefe do poder Executivo em mandatário supremo. O poder Legislativo tornou-se estéril, porque os deputados estaduais reuniam-se durante dois meses por ano, apenas para discutir e aprovar o orçamento do Estado. Pelo novo sistema constitucional havia apenas a verdade positivista, um partido e um ditador (FLORES, 1999, p. 33).

Em um manifesto publicado em 1891, ao deixar o Governo Provisório do Rio Grande do Sul, o dissidente republicano demonstrava o seu pleno desacordo com a doutrina positivista contida na Carta sul-rio-grandense.

Desde que tive conhecimento da extravagância mistura de positivismo e demagogia contida no projeto de Constituição para este Estado, projeto de cuja redação eu também fora oficialmente encarregado, mas que foi exclusivamente composto pelo Sr. Castilhos, sem a minha colaboração, sem a minha assinatura, sem a minha responsabilidade (Assis Brasil apud RODRÍGUEZ, 2007, p. 80).

O aspecto mais relevante quanto à crítica assisista era referente à Carta Constitucional de 1891, voltada à concentração de poderes nas mãos do presidente do Estado. “A Carta castilhista era mais um código ditatorial, que tinha como finalidade perpetuar no poder o Partido Republicano Rio-Grandense” (RODRÍGUEZ, 2007, p.80).

Em repetidas oportunidades, Assis Brasil salientou que a causa da turbulência política no Rio Grande era a ditadura Castilhista. Quando o poder legítimo dos povos é usurpado por um tirano que pretende tirar-lhes a liberdade, cessam todos os vínculos de obediência e é legítima a rebeldia, pois desapareceu a razão de ser do governo. Essa consiste, para o liberal gaúcho, em conservar a vida e as propriedades dos cidadãos, para a liberdade é o maior bem, porque é o fundamento de tudo. (RODRÍGUEZ, 2007, p. 83-84).

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A ruptura entre Joaquim Francisco de Assis Brasil e Júlio Prates de Castilhos era inevitável. Companheiros de luta antes da Proclamação da República, tornaram-se adversários políticos. O pensamento ideológico não era mais o mesmo, restaram apenas mágoas e ressentimentos entre ambos. “Ao rompimento político seguiu-se o rompimento pessoal” (REVERBEL, 1996, p. 12).

Nas colunas do jornal A Reforma, os artigos publicados censuravam o modo como Castilhos governava o Estado:

É hoje ditctador do Rio Grande do Sul o Sr. Júlio de Castilhos, o homem público que, nos últimos vintes annos, mais ódios ha levantado contra si. Já tivemos ocasião de dizer nestas colunas que, para chegar a essa posição, o Sr. Castilhos nunca teve hesitações [...] começou lembram-se todos, explorando os sentimentos liberais de nossos patrícios, aos quaes acenava com um franco regimen de democracia pura, sob o qual esse povo se considerava extermamente feliz [...] A palavra-ditactura- jamais foi por elle escripta. Com o máximo cuidado evitava deixar compreender ao povo rio-grandense o sentimento que guiava. Ninguém, ao lêr os seus artigos dos tempos da propaganda, poderia suppôr que pretendia o Sr. Júlio de Castilhos estabelecer no Rio Grande uma dictadura como systema de governo [...] a ditadura é violência, é a minoria subjugando a maioria dos cidadãos, é a brutal violência dos princípios da democracia (A REFORMA, 1891, p.1).

O posicionamento político de Júlio de Castilhos e J. F. de Assis Brasil não era mais o mesmo, autoritarismo de um lado versus liberalismo do outro.

O liberalismo concebido por Joaquim Francisco de Assis Brasil pregava uma democracia, onde as minorias tivessem uma representação através do voto secreto, um judiciário independente, igual para todo o país. Cabia ao Estado defender o desenvolvimento nacional ( BRASIL, 1931).

6. A VIDA POLÍTICA DE ASSIS BRASIL E JÚLIO DE CASTILHOS APÓS A RUPTURA.

Outro momento de dissabor entre Assis Brasil e Júlio de Castilhos esteve relacionado ao golpe de Estado (1891), quando o Marechal Deodoro da Fonseca dissolveu o Congresso Nacional. “Surgiu então uma grave crise em todo País e no Rio Grande do Sul o ato tomado por Deodoro refletiu diretamente quanto ao governo de Castilhos” (TODESCHINE, 1978, p. 68).

Júlio de Castilhos teve responsabilidade quanto à escolha do Marechal Deodoro, para Presidente e devido a essa atitude criou inimizades dentro do próprio PRR. Além de iniciar uma série de desentendimentos com Assis Brasil.

Por outro lado, Castilhos não aceitava o Ministério do Barão Lucena, pois acreditava “que era o responsável maior pelos conflitos entre o Executivo e o Legislativo” (FRANCO, 1996, p. 104).

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Castilhos resolveu “se mostrar indiferente ao problema federal e tratou de manter a ordem no Estado através do autoritarismo” (FRANCO, 1996, p. 104). A oposição liderada por Silveira Martins recaiu sobre a postura adotada pelo então Presidente do Estado.

Uma comissão composta por Barros Cassal, Rocha Osório, o Exército e a Armada, além de Assis Brasil, dirigiu-se ao Palácio, Júlio de Castilhos recebeu a todos, porém:

Foi o leiloeiro Ernesto Paiva, um ex republicano quem usou da palavra para manifestar ao Presidente, depois de breve exposição sobre a situação anormal do Estado, que o povo não podia depositar confiança no seu governo [...]. O final do discurso de Paiva foi em termos quase tímidos- „Doutor! Deixe esse lugar, caia no seio do povo, que amanhã todos lhe farão justiça‟(FRANCO, 1996, p. 106).

Antes desse acontecimento, mais uma vez Assis Brasil procurou Castilhos no Palácio do Governo para saber qual era a sua posição em relação ao Golpe de Estado decretado pelo Marechal Deodoro. Quanto a este episódio, Assis Brasil publicou:

Logo que soube aqui do golpe de Estado [...] fui ao Palácio do Governo, procurei o Dr. Castilhos, que estava com duas ou três pessoas, ás quais pedi que não se retirassem, [...] e disse: que tendo notícia do atentado cometido no Rio, vinha saber como o Dr. Castilhos o considerava e o que pretendia fazer em relação a ele; que eu o procurava como republicano e como amigo pessoal; que sabia de alguns adulões de palácio que levavam aos seus ouvidos que eu conspirava contra o governo dele; que devia saber que o que entre nas havia era divergência de opiniões e que estava certo de que me faria a justiça de concordar que eu podia e devia sustentar as minhas, quando, como e diante de quem quisesse; que no momento, porém, o fato ocorrente era tão grave, que poderia fazer esquecer incompatibilidade menores e colocar-nos a ambos na defesa da liberdade, causa que nos era comum; que eu estava pronto para tudo, inclusive para ir até as bocas dos canhões, se fosse preciso ( Assis Brasil apud REVERBEL, 2007, p. 49).

Mesmo não compactuando com a forma de governo de Júlio de Castilhos, Assis Brasil procurou manter uma relação cordial, em nome dos velhos tempos e em benefício à nação. Entretanto, a decepção veio em seguida:

Nessa ocasião acreditava ainda eu ingenuamente na palavra do amigo, que afirmava na palavra do amigo, que afirmava não conhecer a opinião dos representantes rio-grandenses; entretanto, é hoje sabido e foi atestado pelos próprios representantes que mesmo em dias anteriores ao golpe de Estado, já eles haviam com maior clareza feito saber ao Dr. Castilhos que devia resistir ao atentado (Assis Brasil apud REVERBEL, 2007, p. 50) .

Agora, estava Assis Brasil, cunhado de Júlio de Castilhos, junto a outros dissidentes do PRR, exigindo a renúncia do então Presidente do Estado.

Como descreve Franco, (1996, p. 106) “Castilhos expôs sua conduta política, declarando que abandonava naquele momento o governo, da mesma forma que a maioria dos representantes à Assembleia também resignaria seu mandato”. Naquele

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mesmo dia, o General Domingos Alves Barreto Leite, que deveria ser o Governador Provisório, proclamou uma junta Governativa para administrar o Estado. Ao cargo foi designado o General Rocha Osório, Barros Cassal e Assis Brasil, que se tornou inimigo não somente político, mas pessoal de Júlio de Castilhos.

Esta junta governativa “foi apelidada pela oposição de governicho, que ocupou a presidência do Estado até junho de 1892” (REICKZIEGEL, 2007, p. 27). Foi um governo frágil, que não conseguiu agrupar em torno de si o apoio dos republicanos ortodoxos, que se mantiveram unido a Castilhos. Entretanto, a cúpula era integrada por dissidentes republicanos e a base era representada pelo gasparismo.

Durante o período que o governicho esteve à frente do governo, a junta enfrentou a oposição de Júlio de Castilhos que, mais uma vez, utilizou as páginas de A Federação para agradecer o apoio que teve quando renunciou ao cargo e, principalmente, criticou o governo e, em especial, a conduta adotada por Assis Brasil.

Depois de acentuar as significativas manifestações de estima e solidariedade que recebera em sua queda, frisando que jamais, em momento algum de sua agitada vida política, se sentira tão profundamente emocionado, deplorou o transviamento de seu velho correligionário e amigo (e cunhado) Assis Brasil, „a sua subordinação a paixões efêmeras, a sua culposa imprevidência e a má sorte a queda que vai ficar exposto‟ (FRANCO, 1996, p. 107).

Segundo Reverbel (1996, p. 12), “o chamado Governicho, que era composto por Barros Cassal, Rocha Osório e Assis Brasil, teve duração de apenas cinco dias, de 12 a 17 de novembro de 1891”. Sendo substituído por governantes provisórios até o golpe e a sua derrocada.

No período em que a junta governativa e governantes provisórios permaneceram no governo, tentaram marcar eleições para o governo do Estado, no entanto:

O chamado governicho [...], que se achava no poder desde a derrubada de Castilhos em 12 de novembro de 1891, marcara eleições para uma convenção rio-grandense, porém o pleito foi sendo sucessivamente adiado. Designado inicialmente para 25 de fevereiro, a eclosão de um motim Castilhista em 4 do mesmo mês, na capital do estado, determinou seu adiantamento para 21 de março, depois para 13 de maio e, ao final, para 21 de junho. Antes disso, porém, o governicho foi derrubado a 17 de Junho, e Júlio de Castilhos reposto ao poder. (FRANCO, 2007, p. 134).

Castilhos publicou artigos censurando a maneira como o governo provisório estava administrando o Estado.

Buscando envolver em disfarces a sua odiosa dictadura, o governicho pretende fazer crer que se conserva dentro do regimen legal e que vive em nome da lei [...]. A dictadura, pois, já procura disfarçar-se, e não quer mais parecer dictadura [...]. Entretanto, ninguém póde, em boa fé, contestar que, desde o nascedouro, o governicho proclamou destruído pela revolução triumphante todos os aparelhos constitucionais que estavam funcionando e

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subvertida a Constituição do Estado, que havia sido posta em vigor (A FEDERAÇÃO, 1892, p. 1).

Quando foi promulgada a nova Constituição do Estado, Júlio de Castilhos logo tratou de abordar o assunto nos artigos que publicava no jornal A Federação.

A novíssima Constituição inspecionada de relance no conjunto é a reprodução da de 14 de julho, com algumas desnaturações que bastam para fazer d‟ella um desprezível monstrengo (A FEDERAÇÃO, 1892, p. 1).

Durante o período em que esteve afastado do governo do Rio Grande do Sul, Castilhos fez das páginas do Jornal A Federação sua porta voz para criticar o governo da época. Governo que era formado por antigos companheiros de PRR e que, devido ao seu autoritarismo e à doutrina positivista, havia levado ao rompimento político e pessoal com Assis Brasil.

Diante dos acontecimentos, Júlio Prates de Castilhos soube articular, juntamente com seus correligionários, a sua volta ao governo e a queda do Governicho. Castilhos voltou ao cargo com o apoio de Floriano Peixoto (1891-1894), então Presidente da República e através das páginas do jornal A Federação “elogiou o exército e defendeu a ideia de que seu retorno significava a legalidade” (FLORES, 1999, p. 36). A desorganização do Governicho favoreceu o retorno de Júlio de Castilhos ao governo do Estado.

Durante seu governo, Castilhos enfrentou a Revolução Federalista (1893-1895), uma revolta entre Republicanos e Federalistas.

[...] tinha como objetivo a troca da oligarquia que estava no poder, representada por Júlio de Castilhos, pela liderada por Gaspar Silveira Martins, que fora alijada do governo com o golpe de 15.11.1889 (FLORES, 1999, p. 39).

O Partido Federalista foi oficialmente lançado em fevereiro de 1892, “agrupavam-se em torno de seu líder, Silveira Martins, e quem compunha o Partido era Liberais e alguns dissidentes do PRR” (REICKZIEGEL, 2007, p. 27-28).

Durante a Revolução Federalista, o Estado foi assolado por atos de extrema violência por ambas as partes. “Com o fim do conflito o PRR consolidou o seu domínio, pois fortaleceu a máquina politica situacionista quanto à polarização partidária do Rio Grande do Sul” (PESAVENTO, 2002, p. 79).

Júlio de Castilhos governou o Estado por cinco anos (1893-1898); quando se exonerou do cargo, escolheu para ser seu sucessor Borges de Medeiros (1898-1908/1913-1928). Castilhos exerceu com autoritarismo a condução dos negócios políticos do Estado, não se subtraindo à sua constante vigilância a própria gestão administrativa (FRANCO, 1996, p. 168).

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Castilhos faleceu aos 43 anos em decorrência de um carcinoma na laringe, mas o seu legado perpetuou-se no governo de Borges de Medeiros. “Castilhos teria adivinhado em Borges de Medeiros o honesto continuador de sua administração, o inflexível guarda das instituições constitucionais de 14 de julho” (FRANCO, 1996, p. 167).

Em 1898, Castilhos passou o governo a Borges de Medeiros, que herdou uma hierarquizada máquina político administrativa. Com a morte de Júlio de Castilhos em 1903, Borges sucedeu-o também na direção do partido. Apoiando-se nas tradições positivistas, Borges deu seguimento à obra de Castilhos, consolidando no Estado o regime republicano autoritário e centralizado (PESAVENTO, 2002, p. 79).

Joaquim Francisco de Assis Brasil administrou o governo do Estado sozinho, durante um período muito curto, entretanto, havia declarado, publicamente “que se retiraria no momento que caísse o ditador, ou seja, Júlio de Castilhos e o Marechal Deodoro. E assim fez, retirando-se do Estado e do País” (REVERBEL, 1996, p. 89).

J. F. de Assis Brasil retornou ao seu antigo serviço diplomático em Buenos Aires (1892), sendo enviado após para Lisboa como Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário do Brasil. Assis Brasil procurou sempre servir à nação (REVERBEL, 1996).

Permaneceu em Lisboa de 1895 a 1898, quando foi transferido para Washington, onde exerceu o cargo até o ano de 1903. Enquanto exercia o cargo diplomático em Lisboa, Assis Brasil perdeu sua esposa, Maria Cecília Castilhos Assis Brasil, e logo se casou com Lídia Pereira de São Mamede. “Deste segundo matrimonio nasceram oito filhos: Cecília, Lídia, Joaquina, Joana, Francisco, Dolores, Joaquim e Lina” (REVERBEL, 1996, p. 12).

J. F. de Assis Brasil retornou ao país, no ano 1903, através de um chamado de Rio Branco14 para atuar na Questão do Acre15. Dois anos depois voltou a Buenos Aires e ao seu antigo posto até 1907.

Em continuidade, retornou ao Rio Grande do Sul para realizar o seu sonho: a construção da Granja de Pedras Altas (1907). Neste lugar, pode exercer outra função da qual gostava muito: a criação de animais e o cultivo da terra.

Retornou à vida política no Sul do país, quando participou da fundação do Partido Republicano Democrático (PRD) (1908), “juntamente com Fernando Abbott, dissidentes republicanos, e remanescentes Federalistas” (REVERBEL, 1996, p. 22).

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Importante diplomata brasileiro (1845-1912).

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A vida política no Rio Grande do Sul estava nas mãos de Borges de Medeiros, seguindo os mesmos moldes do governo de Júlio de Castilhos, ou seja, o modelo borgista-castilhista, no entendimento de Félix (1996).

Entretanto, para impedir a quinta reeleição de Borges de Medeiros, J. F. de Assis Brasil candidatou-se ao governo do Estado (1922), “agrupado em uma frente denominada Aliança Libertadora” (REVERBEL, 1996, p.22), movimento de oposição que reuniu republicanos dissidentes e antigos federalistas.

O grupo perdeu as eleições, inconformado com o resultado, organizou-se em um movimento armado dando início a Revolução de 23.

Entretanto, como já podiam prever, as urnas deram à vitória a situação. Inconformados, os oposicionistas alegaram fraude e tomaram em armas contra o governo estadual através de uma série de levantes regionais [...] os rebeldes não apenas exigiram a derrubada de Borges do poder como também a revisão da Constituição estadual de inspiração positivista que permitia as reeleições consecutivas do governante (PESAVENTO, 2002, p. 86).

Assis Brasil tornou-se o chefe civil desta Revolução. “Passados dez meses de luta, retornou ao Sul, (estava exilado no Uruguai), para assinar o Tratado de Pedras Altas” (REVERBEL, 1996, p. 23). Neste tratado, ficou estabelecido que a Constituição fosse revisada e que Borges, ao terminar seu mandato, não poderia mais se candidatar a reeleição.

Sempre engajado na vida política sul-rio-grandense, Joaquim Francisco de Assis Brasil fundou o Partido Libertador (PL) (1928) que, no ano seguinte, se uniu ao Partido Republicano (PR), formando a Frente Única, que se fez presente no Movimento da Aliança Liberal, tendo grande relevância na eleição de Getúlio Vargas na Presidência do Estado, destituindo Borges de Medeiros do poder.

Durante o governo de Getúlio Vargas, Assis Brasil exerceu o cargo de Ministro da Agricultura. E ainda foi eleito Deputado Constituinte em 1933. “Renunciou ao cargo no ano seguinte por discordar da reeleição indireta de Getúlio Vargas” (REVERBEL, 1996, p. 23).

Assis Brasil, retirou-se da vida pública e retornou à Granja de Pedras Altas, onde faleceu aos 81 anos de idade (1938). Portanto, durante o no Estado Novo (1937-1945).

Tanto Joaquim Francisco de Assis Brasil quanto Júlio de Castilhos exerceram papéis importantes na vida política do Rio Grande do Sul e, assim, pode-se afirmar que:

Júlio de Castilhos era o ímpeto, Assis Brasil, o método; um era a polêmica, o outro o livro; um sentia a obsessão da seita; o outro interpretava melhor as ações da democracia; um tinha o ponto de vista regional, o outro o ponto de vista nacional; um era o fogo, o outro o clarão. De resto a mesma pureza de alma, a mesma integridade moral os adornava (TODESCHINE, 1978, p. 23).

Referências

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