FILIAÇÃO ADOTIVA: PROBLEMA OU SOLUÇÃO? EUNILDES GONÇALVES SANTOS
INTRODUÇÃO
Trata-se de assunto bastante complexo e de grande relevância. Se algumas vezes é discutido, nem sempre as reflexões conseguem atingir o necessário nível de profundidade. Reconhece-se também tratar-se de tema eivado de preconceito e de desconhecimento, até mesmo por pessoas que tem fácil acesso à informação. Tomá-lo como problema ou como solução vai depender de ponto de vista, baseado na cultura, especialmente nos valores internalizados por cada um.
A hipótese que guia o desenvolvimento deste trabalho é a crença de que o Brasil necessita de uma abordagem diferente para o tema adoção. A questão precisa ser conhecida e discutida da maneira mais ampla, mais real e menos preconceituosa possível.
Como objetivos tem-se a pretensão de dirimir dúvidas sobre a adoção de filhos; fornecer informações básicas acerca deste tema e, conseqüentemente, possibilitar aos interessados uma melhor compreensão sobre o assunto. Assim, o problema, hoje pouco conhecido, de muitas crianças brasileiras poderá ser a solução de muitos pais em curto espaço de tempo. Porém, por mais óbvio que pareça, informações e esclarecimentos abalizados são ainda necessários e bastante válidos para os candidatos à adoção.
O assunto é apresentado em duas partes. A primeira, subdividida em 8 tópicos, trata de conceitos, reflexões, e informações sobre a adoção e o seu processo. A segunda relata uma experiência de adoção.
ADOÇÃO: CONCEITOS, INFORMAÇÕES E PROCESSO 1 O QUE É ADOÇÃO?
É um processo envolvendo aspectos jurídicos, psicológicos e sociais, onde adultos assumem a responsabilidade. Trata-se de processo que exige muita responsabilidade dos pais que irão adotar para as tarefas de criar e educar a criança, envolvendo grande disposição para um relacionamento verdadeiramente afetivo, base da nova relação familiar.
Adotar tem muitos significados, dentre os quais destacou-se: tomar, assumir, aceitar, acolher, tomar por filho; atribuir (ao filho de outrem) os direitos de filho próprio; perfilhar, legitimar. (FERREIRA, 1995, p. 49). A palavra amor tem grande significado no trato deste tema. O verbo amar é a ação cuja prática se espera ocorra de forma incansável, durante o processo de busca, criação e educação dos filhos adotivos.
Este ensaio pretende tratar da adoção de filhos. Porém, vale refletir que outros entes são também passíveis de adoção, embora não se costume usar o termo neste sentido. Por exemplo; adotar amigos, carreira, pátria, cônjuge, pais, outros familiares, empregados, chefes entre outros. Pode-se realmente adotá-los (ou não).
Para haver adoção é preciso existirem pessoas que queiram filhos e se disponham a adotar; e crianças disponíveis para serem adotadas. Schittini Filho (2009) considera a impotência relacionada a adoção, de pais que querem filhos e não podem procriar e pais que têm filhos e não pode criá-los.
A idéia (sonho) de ter um filho por adoção pode permanecer por longo tempo, sendo refletida, amadurecida antes de transformar-se em realidade. Pode ser solução para pais que desejam filhos e não os conseguem por gestação própria.
2 DIFERENTES SOCIEDADES, DIFERENTES PONTOS DE VISTA SOBRE A ADOÇÃO Alguns países consideram a adoção muito mais como uma solução do que como um problema. A França mantém discussão aberta sobre o assunto na televisão. Chama a atenção dos pretendentes à adoção, de forma incansável, para as responsabilidades de quem pretende adotar. Lá existe um lembrete constante na TV de que “uma criança não é uma boneca”. Além disso as restrições naquele país fazem com que alguns pretendentes à adoção despertem do seu sonho de serem pais adotivos: o número de crianças para adoção é bastante reduzido; somente casais com idade entre 35 e 45 podiam adotar. (Informação de 1996).
Esta preocupação está em consonância com a filosofia daquela sociedade com relação à criança de maneira geral; a mãe que trabalha fora pode ficar em licença-maternidade até dois anos para cuidar da criança. Esta tarefa é considerada difícil e complexa para os pais cumprirem sem colaboração. Portanto, o Estado ajuda. Diferente do Reino Unido onde, por não se valorizar o trabalho da mulher fora de casa, quando nasce o filho, a mãe que trabalha fora do lar tem apenas um mês de licença-maternidade – o filho é responsabilidade tão somente da família, o que obriga a mãe desistir do emprego.
Já no Brasil, o trabalho da mulher fora do lar não é nada desprezível. Além de muitas mulheres serem responsáveis pelo sustento de suas famílias, elas assumem a dupla jornada: trabalham fora, em diferentes atividades; além de trabalharem também dentro do lar, nas atividades domésticas. Aqui a criança não tem tanto valor como na França: a mãe que trabalha fora do lar tem somente 4 meses de licença maternidade e, só recentemente, a mãe adotiva faz jus à algum benefício neste sentido. Um olhar diferente do Estado e da sociedade brasileira para a situação das crianças nascidas neste país precisa acontecer sem demora. Ainda nascem crianças de famílias que vivem embaixo de pontes ou dividindo com cavalos as baias destes.
3 A DECISÃO DE ADOTAR E O PROCESSO DE ADOÇÃO
No Brasil o processo de adoção não é tão fácil como, muitas vezes, se desejaria. Mas o nível de exigência não impede a quem realmente está motivado a ser mãe ou pai pelo processo adoção. Entretanto, trata-se de uma decisão que precisa ser bem “amadurecida”, precisa de um tempo de “gestação” suficiente para entender e acolher as orientações profissionais e conhecer a realidade na prática – as dificuldades e realizações das pessoas que já vivem esta experiência, esta realidade.
A decisão de adotar é só o início do processo que poderá ser longo e deverá ser muito bem refletido. Em um primeiro momento é uma escolha unilateral dos pais, mas, se for bem sucedida, esses deverão ser também aceitos pelos filhos, o que vai depender dos laços afetivos construídos entre pais e filhos.
É preciso conhecer com bastante clareza as motivações que levam os pais à adoção do filho do que pretendemos incluir em nossas vidas, criando condições para que se desenvolva como pessoa em estável relação de afeto.
O processo jurídico poderá ser mais ou menos demorado, a depender de uma série de circunstâncias inclusive idade e sexo da criança que se deseja adotar. O que a justiça quer é certificar-se de que a criança terá na família substituta e o acolhimento de que necessita, sendo envolvida em relacionamento afetivo e se terá cobertura para suas demais necessidades. Pois, o objeto fundamental da adoção é a criança. Assim, cumpridas as formalidades legais, existindo a criança disponível para a adoção, a espera não é tão longa.
Esse período de espera é salutar, embora impaciente muitos pais. Nele haverá alguns contatos entre os profissionais responsáveis pela adoção e os pais adotivos, havendo oportunidade de verificar a firmeza de propósitos sobre a decisão e o que será oferecido à criança especialmente do ponto de vista emocional, pois trata-se de pessoa fragilizada que traz uma história de vida cheia
de sofrimentos e precisa criar novos laços afetivos. Além de imatura e dependente, tem direitos e necessidades.
Os técnicos envolvidos oficialmente com a adoção tratam de encontrar uma família adequada para cada criança. Buscam conhecer as condições de cada candidato – motivações para adotar, saúde física e psíquica, equilíbrio emocional, ambiente familiar oferecido, clima moral e afetivo adequados, situação material e econômica, e, principalmente, capacidade de amar aquela criança que está se propondo a adotar. A finalidade precípua da adoção é o bem estar do adotando. Tanto os técnicos da Vara da Infância e Juventude quanto o Ministério Público manifestam-se sobre a adoção que só será deferida pelo juiz se o interessado satisfazer os requisitos legais.
4 REQUISITOS PARA A ADOÇÃO
Na legislação brasileira existem 2 tipos de adoção: adoção civil, “comum” ou “tradicional” para maiores de 18 anos prevista nos Artigos 368 e seguintes do Cód. Civil e a outra é a estatutária prevista no Artigo 39 e seguintes da Lei 8.069/90, Estatuto da Criança e Adolescente (ECA), para menores de 18 anos.
O interesse aqui recai sobre o segundo tipo que inclui a criança (menor de 12 anos) e o adolescente (maior de 12 e menor de 18 anos). A adoção estatutária atribui ao adotado a condição de filho com os mesmos direitos e deveres do filho de sangue ao mesmo tempo que desliga o adotado de vínculos com os pais e demais parentes de sangue. (ECA). Com a adoção extingue-se, por sentença, o pátrio poder dos pais naturais, não se restabelecendo nem com a morte dos pais adotivos.
Podem adotar os maiores de 21 anos, independente do estado civil – solteiros, casados, separados judicialmente, divorciados, cuncubinos que mantenham união estável. Parece curioso que a mulher só ou o homem só possam adotar. Mas no Brasil, ser só não é impedimento para adoção de filho. Na França apenas casais podem ser pais adotivos. Na realidade brasileira uma das exigências é que o adotante tenha, pelo menos, 16 anos mais que o adotando.
Antes da adoção definitiva há um período de guarda para adaptação de ambos à nova situação. O estágio de convivência é estabelecido pelo juiz da Infância e Juventude, sendo variável também em função da idade da criança.
5 MOTIVAÇÕES E IDEALIZAÇÕES VERSUS A REALIDADE DA ADOÇÃO
As razões que levam pessoas a quererem filhos são as mais variadas,. Entre os motivos declarados, costuma-se ouvir: medo da solidão, continuidade da família, dar sentido para a vida, ter herdeiros entre outros. No caso da adoção é importante atentar-se para o fato de que muitas pessoas que adotam já têm filhos biológicos. Nesta hipótese, além dos motivos já citados, outros podem ser acrescentados: substituir a natureza; “resgate” para filhos perdidos durante a gestação ou após o nascimento (em diferentes idades), para ter a quem dar amor...
O desejo de ser mãe ou pai adotivo é acompanhado de idealizações que, obviamente, não correspondem à realidade. Elas são, muitas vezes, fruto de certa imaturidade para o ato que deseja realizar e também do desconhecimento de uma realidade que parece tão conhecida. Porém, se a motivação for realmente forte, o período da “gestação” (já referido), sob orientação capacitada, ajudará a superar estas dificuldades. Tais dificuldades estão ancoradas na cultura brasileira que não costuma “exigir” das pessoas uma preparação para serem pais biológicos. Grande número de crianças neste país nasce sem que seus pais tenham se preparado o suficiente para esta complexa tarefa (sem contar com aquelas que não são esperadas e tantas outras que não são desejadas e, conseqüentemente, não aceitas).
Uma diferença favorável ao filho adotivo é sua chegada, muitas vezes, é mais refletida – ele terá que ser buscado, procurado; uma diferença contra é que enquanto está no período de guarda,
estágio de convivência, se não há motivação suficiente, é ainda possível desistir, devolver a criança, o que não é possível ocorrer com o filho biológico, já que não se tem para quem devolver. É importante refletir-se que todo problema que atinge o adotante envolverá também o adotando, podendo atingi-lo com maior intensidade: é mais fragilizado e já foi abandonado antes, pelo menos uma vez.
O número de crianças abandonadas em instituições no Brasil é muito grande. Em todos os Estados da Federação existem casas que abrigam crianças nestas condições. Muitas delas tornam-se logo passíveis de adoção. Outras, embora também abandonadas, demandam longo tempo para o cumprimento das formalidades legais antes de tornarem-se em condições de serem adotadas.
O número de candidatos à adoção, na condição de país, também vem crescendo, havendo necessidade desses candidatos enfrentarem espera, que podem durar de meses a anos, nas Varas de Infância e Juventude das comarcas nos diferentes Estados da Federação. Em um período menor que dois anos a maioria dos interessados, quase sempre, realiza o desejo de paternidade ou maternidade. Os requisitos para o adotante são avaliados pelas equipes técnicas dessa Varas, conforme prescrição do ECA.
Tanto pais adotivos como biológicos costumam imaginar como serão seus desejados filhos. Para os adotivos (só para eles) costuma-se dizer como se quer, quais as características desejadas ou aceitáveis, “fazer a encomenda”, sendo esta uma das razões para sobrarem crianças institucionalizadas e faltarem crianças para os candidatos à adoção. Na realidade brasileira faltam meninas até dois anos, especialmente de cor branca e sobram meninos maiores de dois anos, especialmente os de origem negra.
Se o candidato à adoção conseguem superar a dificuldade de substituir o filho sonhado pelo filho real, flexibilizando as características do filho ideal “encomendado”, (o que se reconhece não ser fácil) poderá passar de um amor mais egoísta para um “sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem (...)” (FERREIRA, 1995. p. 107).
Um grande problema enfrentado pelas crianças institucionalizadas é a espera por quem se decida a adotá-las. O tempo conspira contra elas, pois as mais procuradas são as menores de um ano e do sexo feminino. As maiores, consideradas “adoção tardia” dificilmente são adotadas.
6 A GESTAÇÃO DO FILHO ADOTIVO
É uma gestação muito especial fundamentada no afeto. As motivações para a busca de um filho diferem de pessoa para pessoa. Independente dos motivos, estabelecem um convívio com o sonho, com a idéia, com a imagem do filho procurado. Trata-se de processo imprescindível para que esse filho possa nascer na cabeça e no coração dos pais adotivos. A “gestação psicológica” precisa de grande segurança por que não tem o caráter compulsório. Dentre os fatores que compõem esse quadro são mais significativas as fantasias que começam a construir o perfil do filho que se quer e a relação de afeto que se começa a criar com ele. Sabe-se quando se está preparado para adotar quando se começa a incluir o filho nos projetos pessoais de vida (SCHITTINI FILHO, 1998). 7 A QUESTÃO DO AMOR E ALGUMAS DIFICULDADES INICIAIS
Uma das dúvidas que afligem as pessoas que desejam adotar é se serão capazes de amar o filho adotivo como se fosse filho do seu próprio sangue (ou biológico). Outros temem sentir mais amor pelo biológico do que pelo adotivo, ou o contrário...
A experiência vem demonstrando que quem tem filhos biológicos e ao mesmo tempo adotivos tende a esquecer estas condições considerando-os tão somente como filhos. Em relação às responsabilidades para com eles, em relação às expectativas para o futuro desejado para eles e ainda em relação ao amor, como entra na relação pais e filhos, não há diferença a considerar. Evidentemente as formas de demonstrar este amor diferem de pessoa para pessoa sem relação com
ser biológico ou adotivo. Algo que em alguns casos pode distinguir o adotivo é a afetividade (ver no relato da experiência), embora não se esteja afirmando que é característica desta condição.
Mesmo quando os motivos para a adoção foram bem esclarecidos, a idéia bem refletida o “sonho” bem “sonhado”, o encontro com o filho real, esperado, pode revelar algumas dificuldades. Influências externas como pressões da família extensa (avós, tios) devem ser evitados para não aumentar os sofrimentos da criança. Medos e fantasias sobre antecedentes da criança assemelham-se aos que sofrem os pais biológicos durante a gravidez. O que difere é que quando assemelham-se adota, há opção de “encomenda”; quando geramos não há está opção e a rejeição é duramente combatida. O tratamento eficaz a tais medos levará o filho a preencher uma lacuna em vez de constituir-se em um problema. (SCHITTINI FILHO, 1998).
Por traz de cada medo, cada hesitação, cada dificuldade, provavelmente há preconceitos dificultando o processo adotivo. A valorização dos laços de sangue ou considerar a criança adotada como diferente, inferior, frágil, é idéia equivocada e injusta, levando a rótulo preconceituoso, interferindo negativamente na formação da identidade da criança.
8 GRUPOS DE APOIO À ADOÇÃO
Trata-se de instituições criadas com finalidade de apoiar os pais adotivos em suas dificuldades para a condução de relacionamento saudável com seus filhos (não só dos adotivos, pois muitos pais adotivos são também pais biológicos).
Esses grupos vêm sendo criados em muitas cidades brasileiras e trabalham entrosados com as Varas de Infância e Juventude, contribuindo com os pais adotivos desde quando se inscrevem para a adoção, preparando-os para a chegada do filho, evitando que algumas dificuldades possam aparecer ou ajudando superá-las quando o seu aparecimento for inevitável.
Tanto orientações baseadas em teorias quanto experiências são passadas nas reuniões desses grupos, sob a liderança de psicólogos. Orientações psicológicas individuais podem também ser obtidas para os pais que buscarem, assim como para os próprios filhos.
O primeiro grupo de apoio à adoção foi criado em São Paulo e é denominado “Acalanto”. Há um outro “Acalanto” em Ilhéus-Ba. O grupo de Brasília chama-se “Aconchego” e foi criado em 1998. Este já desenvolveu vários eventos na Vara de Infância e Juventude, no Congresso Nacional, entre outros, visando sempre ampliar a discussão sobre o tema na sociedade brasileira e, consequentemente, encontrar lares substitutos para as crianças que necessitem de famílias.
RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA
A experiência desta autora como mãe adotiva não é tão comum. Após ter amadurecido a idéia por mais de dez anos decidiu inscrever-se, desejando ser mãe adotiva de três crianças. Apoiada por forte motivação e temendo grande espera, inscreveu-se em dezenove Varas de Infância e Juventude, ao mesmo tempo em que participava como sócia fundadora do Grupo de Apoio à Adoção de Brasília, o Aconchego. Sete meses depois já estava com os três filhos adotivos esperados, e com eles podendo partilhar seu amor.
Como os demais candidatos idealizou muito, mas conseguiu superar aquela fase e viver a realidade com os problemas e as satisfações que esta mesma realidade apresenta. Uma das idéias (imaturas) era o desejo de que as três crianças tivessem idade entre zero e dois anos. Porém, isto não ocorreu: uma chegou com um ano e um mês; outra com quase cinco anos e o outro com seis anos e oito meses. Após o encontro com os três e a riqueza da experiência vivida, hoje reflete reconhecendo que o seu desejo parece ter sido sempre encontrar estas três crianças reais, exatamente como são, com suas idades suas maneiras extrovertidas, curiosas, extremamente afetuosas e tudo mais que faz parte do que elas são.
A gestação psicológica foi longa demais. Por questões relacionadas com estudo no exterior, não poderia abreviar esta longa espera. Se por um lado, o pensamento, a idéia dos filhos a adotar era uma grande motivação para estudar, trabalhar em profundidade, viver, imaginando, sentindo essas crianças como se já fossem realidades concretas, vivenciadas, conhecidas... por outro lado, cada vez que escutava, na TV 5éme, falar sobre adoção angustiava-se temendo que o “sonho” não se transformasse em realidade. Só após sofrer o impacto lembrava que os critérios para adoção na França são diferentes e que, como brasileira, preenchia os critérios deste país para adotar seus três filhos.
A chegada das 3 crianças, quase ao mesmo tempo, tornava a mãe mais “rica”. Felicidade era o primeiro sentimento que experimentava. Ao lado da riqueza experimentava ainda mais forte o sentimento de responsabilidade.
Os 2 mais velhos, um casal de irmãos de sangue, vieram de um Estado da Federação. A menor, veio de outro Estado. Ao conhecer a irmã caçula, de um ano e um mês, o irmão mais velho encantou-se por ela. Queria brincar e cuidar dela todo tempo. Por sua vez, a irmã biológica, que com ele sempre viveu em abrigos e por ele era cuidada, sentiu-se abandonada e enciumada. A ajuda externa tinha que chegar com brevidade. Imediatamente teve que entrar em ação a psicoterapeuta, cujos bons resultados ainda são observados mais de onze anos depois.
Sendo divorciada e não contando com ajuda de um companheiro, desdobrou-se na difícil tarefa de educar, ajudada por uma Auxiliar do Lar com quem vem trocando ajuda há mais de 10 anos. Ela também tem 2 filhos de 10 e 3 anos que completam a família de 7 pessoas.
A filha biológica é pediatra. Apesar de redigir fora, muito vem colaborando com as questões relacionadas com a saúde e doença das 5 crianças.
Problemas, dificuldades, todas famílias enfrentam. A providência tem sido buscar a ajuda assim que o problema aparece, quando não se pode evitar ou prevenir. A ajuda psicológica é buscada sempre que necessária e possível. Nenhuma dificuldade, até agora, pode ser justamente debitada na conta da filiação adotiva. O grupo de apoio à adoção ajudou muito nas dificuldades iniciais. Posteriormente a família engajou-se em um grupo escoteiro que muito tem colaborado na educação informal dessas crianças. O relacionamento da mãe com os professores e a direção das escolas onde as crianças estudam quase sempre favorecem na educação destes jovens.
A filha biológica (com as 2 netas, em idades similares), vive os mesmos momentos de desenvolvimento dessas crianças/adolescentes. Se a adolescência é crítica para o filho adotivo também o é para o biológico. Essa comparação está sendo aqui colocado por força de estar escrevendo, mas não passa pela lembrança o fato de não tê-los procriado. O sentimento é de que são filhos amados, que às vezes estão alterando o projeto de vida da mãe, quase sempre alterando sua expectativa em relação a eles, mas sobre os quais se tem grande responsabilidade.
Mesmo sendo mãe biológica de uma filha e já contando com duas netas, as três crianças adotivas são os filhos que lhe faltavam. Aliás, sua principal motivação, que impulsionou a decisão, foi substituir os três filhos perdidos ainda no ventre, frutos do casamento, quando das quatro gestações só restou a referida filha.
Idealizações todos fazem. Porém, é preciso ter consciência deste fato e conseguir trabalhá-lo com sucesso, desmitificando-o.
CONCLUSÃO
O desejo de ter filhos é uma motivação presente nos seres humanos, mesmo entre as pessoas que optaram por não se casarem. Porém, a preparação para a maternidade ou paternidade ainda é deficiente na cultura brasileira. Principalmente em decorrência deste fato, existem muitas crianças institucionalizadas à espera de pais pelo processo de adoção.
A tarefa de criar e educar filhos é bastante delicada, independente de serem biológicos ou adotivos. Vive-se entre dores e amores. Porém, o sucesso da atuação só poderá ser reconhecido quando eles, progressivamente, deixarem de precisar dos pais.
A adoção no Brasil é um assunto eivado de preconceitos e carente de discussão mais aprofundada e ampliada para toda a sociedade.
BIBLIOGRAFIA
BRASIL. MINISTÉRIO DA JUSTIÇA. Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Lei nº 8.069/90 de 13 de junho de 1990.
BRASIL. Código Civil…
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da língua portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995.
SCHITTINI FILHO, Luiz. Compreendendo o filho adotivo. 3. ed. Recife: Bagaço, 1998. ______. Pedagogia da adoção. Petrópolis: Vozes, 2009.