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Periódico Científico Outras Palavras | v.11 | n.1 46 AO "RÉS-DO-CHÃO": ANÁLISE DAS CRÔNICAS DE AQUILES PORTO ALEGRE

Francisca Carla Santos Ferrer Resumo: O presente artigo pretende realizar uma análise estabelecendo uma relação entre a História e a Literatura, especificamente a crônica. Através desta proposta estudaremos algumas crônicas escritas pelo autor Aquiles Porto Alegre, reunidas no livro História popular de Porto Alegre, organizado por Deusino Varela, na comemoração do bicentenário da capital gaúcha.

Palavras Chave: História; Literatura; Rio Grande do Sul.

Abstract: These article intends to analyse the relation between the History and the Literature, specifically the chronicle. We will study some chronicles written by Aquiles Porto Alegre, collected in the book popular History of Porto Alegre, organized for Deusino Varela, in the commemoration of the bicentennial of the city gaucha.

Keywords: History; Literature; Rio Grande do Sul.

Introdução

A crônica enquanto gênero literário está ligada ao dia-a-dia ao "rés-do-chão", pois “ela se ajusta à sensibilidade de todo o dia, principalmente porque elabora uma linguagem que fala de

perto ao nosso modo de ser mais natural” (CANDIDO, 1992, p. 13). Sendo assim, a crônica não pretende ser “um gênero maior”, preocupada em construir frases rebuscadas com palavras

“difíceis”, mas sim, construir textos que se encontrem próximos ao povo, ou seja, busca a humanização da escrita.

Quando utilizamos o termo humanização da escrita, o entendemos como uma escrita leve e acessível, mas não menos merecedora da grande importância literária e "histórica", pelo contrário, esta “humanização lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar com a outra mão uma certa profundidade de significado, e um certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada, embora discreta candidata à perfeição.” (CANDIDO, 1992, p. 14)

O historiador ao compreender a "forma literária" das crônicas pode realizar excelentes estudos históricos, pois essa literatura nos fornece indícios, fomentos, " borbulhas" de certos contextos histórico- sociais, que muitas vezes nos passam desapercebidos, devido a nossa exacerbada preocupação em “sempre” estabelecer uma conexão entre o real e o possível. Nesse sentido, Margarida de Souza Neves elucida algumas questões pertinentes: a relação entre crônica e história, e principalmente, a compreensão da crônica como uma rica fonte histórica.

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Periódico Científico Outras Palavras | v.11 | n.1 47

A crônica pode ser para o historiador, em primeiro lugar, a ocasião de aprende, na evidência da seleção operada pelo cronista sobre a matéria do cotidiano que interpreta para si mesmo e para seus leitores. Seja ela o cotidiano ou um longo processo histórico- é sempre igualmente uma leitura do real e não do real reditivo como pretendia o nobre sonho dos positivistas. É sempre seleção e é sempre interpretação. (NEVES, 1992, p. 76)

A supracitada autora ao remeter- se a questão, que a crônica é sempre seleção e é sempre interpretação do real, logo traz ao historiador análises mais profundas, ou seja, o pesquisador para entender a crônica como uma fonte histórica deverá compreender e problematizar não apenas a escrita literária, mas o contexto histórico -social em que o cronista está inserido. As crônicas são captadas por intermédio de um "filtro", logo, são produtos da percepção subjetiva do real, o qual estão relacionadas a uma "construção social"; a um tempo presente da vida e das experiências sociais do cronista.

Segundo Charles Monteiro:

Cronistas e historiadores desempenham o papel social de intérpretes da memória coletiva. Eles realizam uma leitura da memória coletiva (com cortes, seleções, acréscimos e silenciamentos) produzindo uma memória social. Memória escrita a partir da ótica e dos interesses de um grupo, mas que pretende se colocar como de toda e para toda a sociedade. (2002, p. 35)

Ao compreendermos a literatura- crônica como parte constitutiva do social, entendemos que "todo escritor possui uma espécie de liberdade condicional de criação, uma vez que seus temas, motivos, valores, normas ou revoltas são fornecidos ou sugeridos pela sociedade e seu tempo, e é destes que eles falam" (SEVCENKO, 1995, p.20), sendo assim, cabe ao historiador estabelecer a conexão entre o " real e o possível".

A crônica enquanto documento histórico fornece muitos indícios e informações sobre aspectos histórico- sociais, cabendo ao historiador interpretá-las e problematizá-las em seu contexto histórico entendendo sempre, que a literatura é escrita por sujeitos, os quais estão inseridos em um determinado tempo e espaço, dessa forma, podemos considerar a crônica enquanto documento histórico.

Nesse sentido, Margarida de Souza Neves nos chama atenção para a importância da crônica enquanto documento, devido a sua capacidade de guardar "pequenos acontecimentos históricos" do cotidiano, que muitas vezes se esfacelam no tempo, quando o historiador se preocupa apenas em "contar" séculos.

A crônica pode, por fim, ensinar ao historiador- tantas vezes míope diante do que pode parecer pequeno e carecer de sentido se contrastando com o movimento maior das sociedades, ou do que se perde na voragem dos dias para quem se acostumou a medir o tempo por séculos- a lição daquele que se reconhece como " historiador das coisas miúdas. (NEVES,1992, p. 78)

Podemos considerar sem dúvida, que a Crônica é um lugar de memória da cidade, em que se guarda um passado, o qual não existe mais; como por exemplo: nomes de ruas, tipos populares, festas religiosas, ou seja, costumes de uma cidade que deixou de existir, devido as mudanças ocorridas com o passar do tempo.

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Periódico Científico Outras Palavras | v.11 | n.1 48 Aquiles Porto Alegre e sua História Social

Para analisarmos as crônicas de Aquiles Porto Alegre como um importante documento Histórico é preciso antes de tudo, buscarmos compreender a vida e a obra deste cronista no contexto Histórico- social de seu tempo presente.

Conforme Charles Monteiro:

As crônicas não são um simples eco da "memória coletiva", mas uma seleção, com cortes, silêncios e ênfases sobre certos sujeitos, lugares e tempos da experiência coletiva visando produzir uma imagem do passado, uma explicação sobre a passagem do tempo, as transformações sociais, culturais, econômicas e da paisagem urbana. Uma memória social que denuncia o lugar social, cultural e temporal de quem fala (escreve) e para quem se fala (escreve). ( 2002, p.36 )

Aquiles porto Alegre nasceu na cidade de Rio Grande em 1848, depois transferiu-se para Porto Alegre onde estudou no colégio Gomes e na Escola Militar, foi funcionário público, jornalista, poeta e cronista, fundou juntamente com seus irmãos, Apeles Porto Alegre e Apolinário Porto Alegre a sociedade Partenon Literário, do qual foi eleito presidente em 1879. Aquiles também fundou e dirigiu o jornal do Comercio (1884/ 1888) e A Notícia (1869), foi membro da Academia Rio- grandense de Letras (1901) e sócio fundador do Instituto Histórico e Geográfico do rio Grande do Sul.

Após entendermos um pouco sobre a vida do literato, podemos perceber que este era um homem intelectual e pertencente a uma família de intelectuais.

Podemos também observar alguns espaços sociais que Aquiles se fazia presente, e portanto podemos compreender melhor sua obra literária, pois ao pesquisar sua vida percebemos seu " filtro" produtor de conhecimento, ou seja de onde fala (lugar social) de "quem fala (escreve) e para quem se fala (escreve)".

As crônicas de Aquiles Porto Alegre permeiam entre uma tradição literária e Histórica, pois percebe-se que em muitas de suas crônicas ele procura estabelecer conexões com a História, buscando muitas vezes a veracidade de certos acontecimentos da cidade.

É imprescindível destacar segundo Guilhermino César (1956) a forte influência que Antônio Álvares Pereira Coruja teve sob Aquiles Porto Alegre como sob outros literatos do séc XX, considerando principalmente esta imbricação entre História e Literatura que se faz latente na obra de Coruja.

Ao estudarmos a História da literatura do Rio Grande do Sul, encontramos Aquiles Porto Alegre entre os grupos anti- românticos e Parnasianos, mas ao trabalharmos com suas crônicas é visível sua veia romântica e saudosista, principalmente quando o cronista fala de um tempo passado, ou seja da História de “uma” Porto Alegre que não existe mais, descrevendo os antigos lugares, sujeitos e espaços sociais que se modificaram com a " civilização".

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Periódico Científico Outras Palavras | v.11 | n.1 49 As crônicas de Aquiles Porto Alegre, segundo Charles Monteiro exprimem temas ligados ao dia-a-dia da cidade de Porto Alegre, sendo as coisas simples do cotidiano a inspiração das matérias de suas crônicas.

O tempo, sobretudo o passado em relação com o presente é sua temática principal, buscando na passagem do tempo as transformações dos espaços urbanos, tipos populares, intelectuais entre outras temáticas.

As crônicas de Aquiles apresentam pontos de inserção entre história e literatura que são extremamente ricas para se "pensar a releitura e (re) escrita da memória coletiva, em paralelo e em contraponto à produção historiográfica sobre Porto Alegre" (MONTEIRO, 2002, p. 37) Análise das Crônicas - " Mestres e Escolas".

Analisaremos o conjunto de crônicas "Mestres e Escolas" de Aquiles Porto Alegre que fazem parte do livro "História Popular de Porto Alegre" que se originou devido a uma seleção de crônicas realizado por Deusino Varela na comemoração do bicentenário da cidade de Porto Alegre, com o intuito de homenagear a capital gaúcha.

Ao realizarmos este trabalho de reunião das crônicas de Aquiles, Varela deu um novo significado ao texto, ao realizar recortes, organização de temas e capítulos.

Nesse sentido, é muito importante está presente no trabalho do historiador a preocupação da forma de análise das crônicas, ou seja, não se pode querer analisar estas crônicas que estão no livro coletadas da mesma maneira em que se analisaria as mesmas, se estas estivessem em seu lugar de origem (jornal), por isso é muito importante entendermos o contexto histórico em que a coletânea foi realizada e com que intuito Deusino Varela as organizou.

O trabalho de seleção das crônicas de Aquiles Porto Alegre foram organizadas intencionalmente numa perspectiva do "Pitoresco"; ao privilegiar os recortes temáticos de uma cidade que não existia mais, com seus espaços, lugares, tipos populares e intelectuais. Nesta perspectiva do aspecto pitoresco Deusino Varela intitulou a obra organizada de "História Popular" de Porto Alegre.

Ao analisarmos o capítulo Mestres e Escolas que contém quatorze crônicas, buscaremos enfatizar os assuntos que sempre se repetem na obra do autor Aquiles Porto Alegre. Estes assuntos relevantes para o cronista são a identificação dos sujeitos, espaços sociais e lugares nos quais as crônicas se passam, sempre ressaltando um sentimento "romântico" em relação ao passado, sendo àquele passado melhor do que um porvir.

Outra questão relevante, dentro deste conjunto de crônicas é a nitidez do "filtro" pelo qual o cronista interpreta a vida cotidiana da sociedade.

Quando Aquiles se refere aos espaços frequentados pelos sujeitos em suas crônicas, percebe-se por entrelinhas o "EU" do literato gritando; não podemos esquecer, em nenhum momento, que ele (Aquiles) está inserido socialmente nesta intelectualidade do final do séc XIX e início do séc XX, portanto este “EU” sugere toda a subjetividade da escrita do autor, nos fornecendo “ ferramentas para pensarmos a mediação entre o ‘narrador” e o sujeito, Aquiles Porto Alegre.

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Periódico Científico Outras Palavras | v.11 | n.1 50 Na crônica “Partenon Literário” na qual, Aquiles escreve sobre a fundação de um pequeno grupo literário que se forma ao redor de Apolinário Porto Alegre e que depois se torna em poucos anos, “uma instituição escolhida e poderosa, em cujo seio enfileiraram-se os nossos homens mais notáveis”.

Está clara a sua imbricação neste meio social de intelectuais, já que Apolinário Porto Alegre é seu irmão e que ele ( Aquiles) veio a participar ativamente do Partenon Literário, juntamente com outros ilustres intelectuais que faziam parte de seu ciclo de amizades.

Em contraponto, Aquiles escreve a crônica “Os Ensaios Literários”, na qual começa enfatizando o quão era pormenor àquela agremiação literária:

Alguns sôcios, descontentes, deixaram um dia o Partenon Literário e fundaram a sociedade Ensaios Literários, que teve existência efémera( . .)Entre e/es havia uma meia dúzia de moços que tinham merecimento /iterá rio, os outros não valiam nada, eram figuras apagadas no mundo das letras. De forma que eu me proponho agora, para os que nãome conhecem de perto, pode parecer exagero ou má vontade da minha parte contra os que acompanharam os sediciosos; mas nem uma nem outra coisa é. Tão longe vai isto tudo... (PORTO ALEGRE, 1994, p. 145)

Por fim, ao compararmos a forma em que Aquiles, narrador, escreve estas duas crônicas, podemos perceber claramente em qual grupo literário ele estava inserido e sua concepção enquanto sujeito que compartilhara àquela experiência social e enquanto narrador através de seu “filtro” produtor das crônicas.

Na crônica “O Liceu Dom Affonso”, podemos perceber como Aquiles observa, a mudança na paisagem urbana, espaços de sociabilidade e cotidiano, com a modernização, que com ela tudo se perde, tudo se modifica.

Ali no alto da rua da Ladeira na esquina, onde está agora o edificío da biblioteca Pública, há uns sessenta anos, funcionava num velho sobrado, com entrada pela rua da ponte, o Liceu Dom Afonso.

Este estabelecimento de ensino prestara bons serviços á mocidade daquela época, que era mais estudiosa que os rapazes de agora...

Mal escurecia, os rapazes vinham sentar-se á mesa da varanda com seus livros para o estudo.

E isto ia até a hora do chá com rosca e pão d’água da padaria da velha Salomé, que morava á rua da Igreja, onde reside hoje o Fusquine.

Quase sempre á noite, a Salomé sentava-se à poda da rua, na sua banquinha para descansar e tomar fresco, como era costume naqueles tempos, em que isto tinha ainda ares de roça.

E aí, a velínha ficava-se esquecida, até o toque de silêncio, que o sino da matriz dava com as suas badaladas de dobre de finados. ( PORTO ALEGRE, 1994, p. 136)

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Periódico Científico Outras Palavras | v.11 | n.1 51 Nestas crônicas “Mestres e escola” Aquiles rememora os velhos mestres de escolas que influenciaram a formação da intelectualidade do séc XIX, entre eles, Antônio Alves Pereira Coruja. Sobre este intelectual Aquiles produziu uma crônica na qual escreve sobre sua vida e trajetória intelectual. Nesta enfatizou a origem humilde de Coruja por não provir de uma família abastada, sua educação em colégio público (os quais naquele tempo eram de excelente qualidade), fato que não desprivilegiou a capacidade intelectual de Antônio Alves Pereira Coruja.

Antônio Alves Pereira Coruja(...) Oriundo de pais pobre, estudou as primeiras letras na aula pública de Antônio DAvila, cujo o excesso de rigor vive até hoje na tradtçao do povo.(...) Em poucos anos, consagrando-se aos estudos com o desespero de quem compreendia bem a dificil situação em que se via, conseguiu boa soma de conhecimentos, para o amparar na vida, já que entrara no mundo completamente desamparado. (PORTO ALEGRE, 1994, p.139)

Portanto Aquiles demonstra nesta crônica que somente o estudo pode proporcionar oportunidades de elevação social, fato este que estava incutido no imaginário social do período, séc XIX.

Este pequeno ensaio buscou analisar as crônicas de Aquiles Porto Alegre, estabelecendo uma conexão entre a História e a Literatura. Portanto através da análise das crônicas supramencionadas podemos compreender “um pouco” sobre a sociedade porto- alegrense do século XIX que passou por profundas mudanças urbanas, sociais, políticas e econômicas com a modernização da cidade e inicio de um novo século.

Referências

CANDIDO, Antônio. A vida ao Rés-do-chão IN: A Crônica, o gênero, sua fixação no Brasil. Campinas, SP: Ed UNICAMP; Rio de Janeiro: Fundação Casa Rui Barbosa, 1992

CESAR, Guilhermino. História da Literatura do Rio Grande do Sul. ED: Globo RJ- Porto Alegre-SP.1956.

MONTEIRO, Charles. Histórias e Memórias da Cidade nas crônicas de Aqui/es Porto Alegre(1920-1940), IN: Anais da XXI Reunião da SBPH, Curitiba, 2002.

______. Porto Alegre e suas escritas: Histó das e Memórias (1940- 1972).Sâo Paulo: s.n., 2001.

NEVES, Margarida de Souza, "Uma escrita do tempo: memória, ordem e progresso nas crônicas cariocas", em A crônica. O gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil, Campinas/ Rio de Janeiro: Ed. Da Unicamp/ Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992, pp. 75-92.

PORTO ALEGRE, Achylles. História Popular de Podo Alegre. Porto Alegre, EUI Porto Alegre, 1994.

SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão, tensões sociais e criação cultutra) na primeira república. Ed: Brasiliense, 1995.

Referências

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