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Opus Urbanus: uma proposta de transformação na urbanidade de espaços da cidade através da performance de sapateado

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO TECNOLÓGICO

Departamento de Arquitetura e Urbanismo

OPUS URBANUS

uma proposta de transformação

na urbanidade de espaços da cidade

através da performance de sapateado

Trabalho de Conclusão de Curso

Autor: Fernando Flesch de Albuquerque Fernandes Orientador: Rodrigo Gonçalves dos Santos

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Ao meu pai, Jucílio, que sonhava ser arquiteto. À minha avó Silvia, que sonhava ser sapateadora. À minha mãe Ana Maria, que torna tudo que eu sonho possível.

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Ao longo dos meus sete anos e meio de graduação, foram muitas as pessoas que contribuíram para a minha formação. É difícil fazer agradecimentos que contemplem a todos os que colaboraram durante este período. Entretanto, faço um esforço em agradecer alguns.

Primeiro de tudo, a minha mãe e meu pai, que foram os dois responsáveis por qualquer sucesso que eu alcance, que sempre ressaltaram a importância da educação, do respeito e do cará-ter como caraccará-terísticas fundamentais do ser humano, e que sempre me proporcionaram todas as condições para a minha felicidade. O meu mais sincero obrigado por sempre terem fei-to de tudo para me dar fei-todo o suporte, acompanhado do amor mais sincero que pude receber.

Aos meus dois irmãos, Bruno: por ter me quebrado todos os galhos e me ajudado em todas as minhas dificuldades nos tra-balhos acadêmicos, sempre terminando o serviço dizendo “dez reais”. Por sempre estar disponível (mas nem sempre satisfeito) para me levar, me buscar e me entregar eventuais materiais que esqueci; Bernardo: por sempre instigar meu lado criativo e, no último ano, meu lado político. Por dividir comigo os palcos e os lanches da madrugada.

À minha amiga Marina, a quem considero minha irmã e bra-ço direito na vida. Por há tantos anos me apoiar, me incentivar, me ajudar e entender mais de mim do que eu mesmo. Não so-mente pela amizade e pelo profissionalismo na dança, por me auxiliar integralmente na produção deste trabalho, assumindo o papel de ler meu trabalho e organizar a minha cabeça (que ela sabe melhor do que eu como funciona). Por ter muita paciência comigo, sempre me ajudando a passar por qualquer situação com muito carinho.

AGRADECIMENTOS

Ao meu amigo Thiago, que por tantos anos compartilha

sonhos e conquistas comigo, que me proporciona grandes mo-mentos e discussões artísticas, sempre me relembrando o valor de uma amizade (e de um sushi). Que ofereceu do seu tempo e disposição para me auxiliar com os registros de drone em todo esse processo.

Ao meu amigo Vinicius, que mais me ouviu e compartilhou momentos da faculdade comigo, ressignificando valores de amizade e me ensinando muito sobre compreensão. Por ter sido a minha amizade menos esperada, mas que com certeza será perpétua. Pelos auxílios no processo do TCC e, por no final de toda essa jornada da graduação, afirmar: “Pelo menos a gen-te se divertiu...”.

Aos meus amigos e minhas amigas da faculdade, que per-correram todo ou parte deste trajeto comigo, me ajudando, me animando e me encorajando. Que compartilharam das loucuras e insanidades das noites viradas em projetos, mas também das alegrias e bons momentos de cada dia de aula e de cada festa.

Aos meus amigos do Aplicação, o famoso Social do CA, que também teve papel fundamental nesse processo, dividindo o ambiente acadêmico fora de sala de aula, mas sempre me tra-zendo momentos de lazer ou de reflexão. Por manterem comigo essas amizades desde o primeiro dia em que nos vimos, sem-pre renovando e relembrando os melhores momentos que pas-samos juntos. Por sempre me apoiarem, me respeitarem e me lembrarem que amizade tem o amor como raíz.

Às minhas alunas, alunos, colegas e amigos do mundo da dança, que acima de tudo me incentivaram a estudar, compreen-deram o meu cansaço e me ensinam, todos os dias de aula, que o esforço vale a pena. Por também me ensinarem sobre relações pessoais, sobre afeto, sobre dedicação. Por me alimentarem to-das as vezes em que me esqueci de comer antes da aula e me

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encherem de presentes todas as datas festivas.

A figuras especiais que dedicaram seu tempo em me auxi-liar neste processo de TCC, me ouvindo com atenção, revisando meus materiais com carinho e instigando reflexões e debates. Danielle, por desde os primeiros passos deste trabalho me in-centivar, me dar confiança e me mostrar o lado belo da acade-mia, sempre me sugerindo e orientando de forma carinhosa e atenciosa; Alexandra, Edmilson e Evandro, por me orientarem no meio do caminho com disposição e entusiasmo; Leonardo e Melissa, por me proporcionarem discussões profundas sobre a nossa forma de expressão mesmo à distância e por alimentarem comigo o amor pelo sapateado; Murilo, por pacientemente me prestar todo o auxílio e apoio na comunicação visual do meu trabalho; às minhas queridas companheiras de orientação e dis-cussão acadêmica Joice, Renata, Julia, Malú e Prissila que me ajudaram a ampliar sempre os horizontes durante este proces-so; Marina Horta e Roberta Funchal, por serem tão generosas e por se disporem a ouvir sobre o meu processo; aos assistentes de câmera Aurora, Jéssica e Vinicius.

Dentre estas figuras, um destaque especial às sapateadoras que fizeram parte deste trabalho e toparam intervir no espa-ço, mesmo quando ainda não sabíamos disso. Obrigado Juliana Campelo, Lívia, Sofia e Yasmin, por participarem deste processo comigo, sempre colaborando nas discussões e disponibilizando do seu tempo nos finais de semana. Obrigado pelo carinho e pela solicitude com as minhas ideias.

Às professoras Marina e Themis, que gentilmente dispon-bilizaram do seu tempo para me ouvir e me assessorar quanto ao desenvolvimento deste trabalho, colaborando no desenvol-vimento do trabalho.

À professora Marina e ao professor Milton, por aceitarem fazer parte da banca de avaliação deste trabalho.

Ao professor Rodrigo Gonçalves, que não só me orientou no trabalho de TCC como em muitos momentos da graduação, sempre me mostrando outros lados, outras possibilidades e ou-tras formas de se fazer arquitetura. Obrigado pelo carinho, pe-los ensinamentos e por tornar as coisas tão simples.

Termino agradecendo àqueles que exercem a profissão que mais admiro, todos os meus professores e minhas professo-ras: não somente do Departamento de Arquitetura e Urbanis-mo, que com todo empenho me apresentaram este mundo de transformações dos espaços em que vivemos, mas também aos meus professores do Colégio de Aplicação, que foram grandes referências na minha vida, a quem guardo a mais profunda ad-miração. Agradeço a esta instituição, a Universidade Federal de Santa Catarina, que me abrigou desde 1997, quando dei meus primeiros passos de formação, no Flor do Campus, no Núcleo do Desenvolvimento Infantil e no Colégio de Aplicação. Uma instituição pública, gratuita e de muita qualidade, que me forma hoje mais que um título, um ser humano.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO - Apresentação - Objetivo - Motivação Pessoal DESENVOLVIMENTO TEMÁTICO - A sociedade contemporânea - A cidade como palco

- A dança como resistência no espaço urbano ENSAIO: METODOLOGIA E PROCESSO

- Processo Experimental de Performance e Observação

- Encontros de Ativação

- Forma de Registro Audiovisual - Ensaios de Intervenção Performática RESULTADOS E DISCUSSÃO

- Encontros de Ativação

- Ensaios de Intervenção Performática - Classificação das Situações

CONCLUSÃO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 13 14 16 17 19 20 22 26 31 32 34 42 50 61 62 77 109 113 116

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INTRODUÇÃO

APRESENTAÇÃO OBJETIVO MOTIVAÇÃO PESSOAL

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Olhando para a sociedade contemporânea, vivemos um pe-ríodo de isolamento, consumo e aceleração (BAUMAN, 2001; SENNET, 2014). Eu, rapaz branco de classe média, aos meus 26 anos, cursando Arquitetura e Urbanismo, me deparo com as pessoas enfrentando seus afazeres diários como um jogo de vídeo-game, onde seu objetivo é passar as fases, completar os objetivos e, quanto mais rápido isso for executado, maior a pontuação. Afinal, como diz a frase protagonizada por Benjamin Franklin, “tempo é dinheiro”.

Não bastasse só o consumo, observa-se também o consu-mo digital. As transformações tecnológicas trazidas com a consu- mo-dernidade reforçam essas características (SENNETT, 2014). Ao visitar uma cidade, facilmente se pode utilizar dos aplicativos de localização, que nos fornece precisamente onde encontrar qualquer serviço. Não é necessário pedir informações a qual-quer pessoa. Perder-se é uma situação que acontece com me-nos frequência. A interação entre as pessoas passa a ser meme-nos necessária, o serviço é encontrado com mais facilidade e o pre-cioso tempo é economizado.

Quanto mais esse hábito é tomado, mais se observa na ci-dade uma dinâmica de pessoas que caminham focadas em re-solver suas pendências e sair dali o mais rapidamente possível. Cada vez mais se vê espaços previamente planejados a servirem consumidores, onde qualquer encontro deve ser o mais breve e superficial possível para não interferir no propósito desses es-paços: consumir. (BAUMAN, 2001). Conforme afirma Sennett (2016), o espaço urbano se transforma em um simples corredor por onde as pessoas se deslocam de um destino a outro, sem ex-citações ou atrativos. A cidade perde, aos poucos, espaços de

permanência espontâneos para espaços de consumo planeja-dos. Se o espaço urbano cada vez mais expõe essas problemáti-cas, até onde a Arquitetura e o Urbanismo podem intervir nessa lógica contemporânea, racional e consumista a ponto de propor espaços mais humanos, desprendidos deste intenso e acelerado hábito de consumo, restaurando interações e potencializando encontros e trocas?

Durante o período da graduação, os principais instrumen-tos do arquiteto me foram apresentados como o lápis e o pa-pel para o desenvolvimento de projetos arquitetônicos. Proje-tos que devem ser feiProje-tos para contribuir com a felicidade dos seres humanos e proporcionar a estes melhores condições de vida (MONTANER, MUXÍ, 2014). Eventualmente, os projetos ganhavam volumetria para um plano tridimensional ao mon-tarmos maquetes. Tudo isso sempre com base em informações geográficas, no plano diretor, em fotografias e em outros dados encontrados em softwares e websites.

Apesar de muito se promover uma defesa de Arquitetura e Urbanismo sustentáveis e humanos, paralelamente se permi-te a geração de projetos que segregam socialmenpermi-te, destroem patrimônios sociais, urbanos e paisagísticos. Muito se intervém nos espaços sem realmente conhecê-los (MONTANER, MUXÍ, 2014). O atual processo de fazer Arquitetura e Urbanismo se apresenta, todavia, com deficiências que devem ser discutidas.

Com uma formação em dança, sempre tive o corpo como um nstrumento de apreensão espacial fundamental. Nas expe-riências de visitas técnicas, a utilização dos sentidos durante o processo me permitiram construir conhecimentos e estabele-cer associações importantes que nenhum livro ou apostila pu-desse me dar. No sentido de apreender informações através de experiências, é nítido que o corpo pode ser uma ferramenta bem sucedida. Com base nos pensamentos de Paola Jacques

APRESENTAÇÃO

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(2007), considero que o mesmo corpo tem um potencial como um instrumento subjetivo e singular no processo de fazer uma arquitetura mais humana e mais interativa, dentro de um mun-do contemporâneo que se distancia disso. Afinal, “a forma mun-dos espaços urbanos deriva de vivências corporais específicas a cada povo”. (SENNETT, 2016, p. 373). Quase como se o corpo em ação pudesse servir de resistência aos processos de isola-mento e aceleração da sociedade. Assim como percebo que o espaço pode alterar o comportamento de um corpo, levanto a hipótese que o corpo possa mudar a dinâmica de um espaço e de outros corpos que ali estão.

O objetivo deste trabalho é investigar se a urbanidade de espaços da cidade se transforma perante uma performance de sapateado. Por meio desta pesquisa, entitulada Opus Urbanus (do latim, obra urbana)¹, busca-se colaborar com o papel da Arquitetura e do Urbanismo, verificando a transformação da urbanidade a partir da interdisciplinaridade com a dança. En-tende-se por urbanidade a experiência produzida na relação de pessoas e espaços que elas ocupam (RHEINGANTZ, 2012). Nesta pesquisa, acredita-se que o corpo pode ser uma ferra-menta do arquiteto e do urbanista a ser explorada na sociedade contemporânea, durante um processo de diagnóstico, de pro-jeto ou de simples intervenção pontual em espaços da cidade.

OBJETIVO

MOTIVAÇÃO PESSOAL

A arte sempre teve papel importante na minha vida. Minha família sempre foi de ouvir muita música e aos finais de festa era de praxe uma cantoria. Desde os 9 anos eu danço. Não só danço, eu crio música. Isso através do sapateado, que tem essa característica especial onde podemos ser dançarinos e músi-cos ao mesmo tempo. Comecei por ter ficado apaixonado ao assistir um número de musical com sapateado no Vozes da Pri-mavera, espetáculo musical apresentado periodicamente nas décadas de 90 e 2000, em que eu fazia parte do coro infantil. A criação de ritmo com o próprio corpo me fascinou e me levou a descobrir o endereço da escola, anotá-lo num pequeno pedaço de papel e entregá-lo para a minha mãe, que me levou para o primeiro dia de aula.

Desde então, o sapateado passou a ser um elemento constante na minha vida. Não há sequer um dia, desde então, que eu não pense nisso. A paixão me levou a buscar esta forma de expressão em outros lugares, me fazendo cruzar fronteiras em busca de aprendizado e formação. Pouco depois de entrar na faculdade, comecei a dar aulas da modalidade nas brechas entre aulas que eu conseguia. Trabalhei com crianças desde os 4 anos até senhoras de 60. O que sempre vi e tive o retorno dos próprios alunos é que a dança tinha um papel transformador na vida deles. Não foram poucas vezes que ouvi falar de pro-blemas comportamentais infantis controlados ou situações de-pressivas amenizadas através do sapateado.

É por isso que busco unir esse potencial transformador presente na dança à função de proporcionar qualidade de vida do arquiteto e do urbanista. Enquanto restringimos sabedorias 1. QUEIROZ, O. A. Pereira de. Dicionário Latim-Português. 6. ed. São Paulo: LEP S.A., 1959.

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e conhecimentos em áreas específicas, impedimos que elas se complementem e que tragam atualizações e ressignificações nos processos de evolução humana.

D E S E N VO LV I M E N TO

T E M ÁT I C O

A SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA A CIDADE COMO PALCO A DANÇA COMO RESISTÊNCIA

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A industrialização, que trouxe consigo desde a máquina a vapor, os automóveis, a eletricidade e mais recentemente os meios de comunicação através da informática e telemática, foi um importante instrumento no período pós-guerra para a rápi-da reconstrução de cirápi-dades destruírápi-das. As soluções providen-ciadas para a reconstituição de construções e tecidos urbanos foram relativamente bem sucedidas diante da escassez de re-cursos e tecnologias da época. (HARVEY, 2005). Entretanto, o mesmo processo de industrialização reforça as condições de isolamento dos seres humanos entre si e suas produções (DE-BORD, 2013). Para Sennet (2014), as máquinas colocam a inte-ração social em combate com a experiência pessoal.

Não necessariamente o processo de industrialização é o único responsável por esse isolamento, pois “os impulsos para se retrair da vida pública começaram bem antes do advento dessas máquinas” (SENNETT, 2014, p. 406). Deve-se entender que a industrialização é mais uma ferramenta que satisfaz esses impulsos da sociedade. Além disso, a facilitação da comunica-ção trazida neste processo se apresenta como um meio de con-trole eficaz da população (MUMFORD apud. DEBORD, 2013). Mais que isso, a ideia de vida pública perdeu suas forças com a ascensão do formato de comunicação, tornando o contato efe-tivo desnecessário. O ser humano cria um escudo de isolamento através do silêncio dentro do meio público. Toda essa tecnolo-gia reforça o corpo enquanto um corpo passivo e espectador, como em teatros e salas de concerto: pessoas que vêem mais e interagem menos. (SENNETT, 2014).

Mais que participar como estímulo do isolamento, a in-dustrialização traz consigo a racionalização do processo de

tra-A SOCIEDtra-ADE CONTEMPORÂNEtra-A

balho através do fordismo, em busca de uma melhor eficiência na produção, intensificando assim o consumo de massa (HAR-VEY, 2005). Toda essa mudança traz consigo um novo tipo de sociedade. Mais que isso, a industrialização traz uma mudança da concepção de espaço e tempo.

Bauman (2001, p. 142) aponta que “o tempo se tornou dinheiro depois de se ter tornado uma ferramenta voltada principalmente a vencer a resistência do espaço: encurtar as distâncias”. Para ele, a modernidade se desenvolveu a partir do processo de aceleração e da conquista de terras. O espaço e o tempo, dois elementos antes misturados nos afazeres da vida humana, se separaram. A velocidade e a instantaneidade come-çaram a desvalorizar o espaço, dado que cada vez se tornava mais rápido e fácil chegar aos destinos. “Se aplicado à relação tempo-espaço, isso significa que, como todas as partes do es-paço podem ser atingidas no mesmo período de tempo (...), ne-nhuma parte do espaço é privilegiada, nene-nhuma tem um ‘valor especial’” (BAUMAN, 2001, p. 150). O autor ainda aponta uma relação de poder e desigualdade dada entre as pessoas que se movimentam com maior rapidez e as pessoas que não usufruem do mesmo privilégio, sendo estas segundas mais suscetíveis a obedecerem às ordens impostas pelas primeiras.

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A CIDADE COMO PALCO

À medida que se transformam os hábitos e características da sociedade perante as transformações políticas e econômi-cas do mundo, observo que a cidade é o palco onde essas ca-racterísticas são o roteiro executado pelos sujeitos que nela habitam. Ao mesmo tempo que esta apresenta os problemas, ela pode também ser a solução para essas questões relativas ao desenvolvimento humano contemporâneo (MONTANER, MUXÍ, 2014). Jane Jacobs (2000, p. 52) indica o movimento da cidade como um “balé complexo, em que cada indivíduo e os grupos têm todos papéis distintos, que por milagre se reforçam mutuamente e compõem um todo ordenado”. Compartilho do que diz Sennett (2014, p. 381), quando aponta a cidade como um “estabelecimento humano no qual os estranhos devem provavelmente se encontrar”. Encontros que podem gerar o crescimento pessoal através das percepções e experiências de cada um, colocando em questão condições estabelecidas em sua vida. O isolamento, o consumo de massa e a aceleração são condições que reverberam nas dinâmicas da cidade e na urba-nidade dos seus espaços.

Considerando que as ruas e calçadas são os espaços públi-cos mais vitais de uma cidade (JACOBS, 2000), penso que é ne-las que se há maior chance de se deparar com possíveis encon-tros de estranhos. Associando isto ao espaço de Florianópolis, logo sou remetido à rua Conselheiro Mafra, no centro da cida-de, em um dia útil comum, em horário de trabalho. Ao obser-var-se a dinâmica dos passantes, encontramos características em comum trazidas por Sennett (2014), quando ele se refere a

hábitos entre estranhos em ruas movimentadas que reforçam a situação de isolamento entre eles:

O isolamento de cada sujeito favorece a lógica do con-sumo, e qualquer encontro interfere neste propósito. Por isso eles devem ser superficiais e rápidos, para não comprometer esse sistema, já que o consumo é uma atividade exclusivamen-te individual (BAUMAN, 2001). O centro de Florianópolis é um espaço da cidade provido de comércios e serviços e reforça essa ideia, quando se vê que grande parte das pessoas segue esta lógica em eventuais encontros. Ao mesmo tempo, por ser um local aberto, público, movimentado e de fácil acesso, não está livre de sujeitos capazes de quebrar com essa regra que garante o isolamento do consumidor. Para proporcionar espa-ços de consumo que assegurem o isolamento é que são adota-das estratégias que provocam a segregação espacial (acesso e impedimento seletivos a espaços) e guetos urbanos. É o que garantem centros de consumo como os shopping centers: um balanceamento agradável entre liberdade e segurança (BAU-MAN, 2001).

A aceleração também é explícita nas ruas da cidade e pode ser vinculada também ao isolamento e ao consumo. Se pensar-mos que o andar rápido evita possíveis abordagens e encontros

“A pessoa baixa os olhos, ao invés de olhar diretamente para um estranho, para assegurar-lhe que ela é inofensiva; a pessoa se engaja nos balés pedestres para sair do caminho dos outros, de modo que cada pessoa terá uma verdadeira ala por onde andar. Se precisa falar com um estranho, ela começa por pedir desculpas, e assim por diante.” (Sennett, 2014 - pp. 428)

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e favorecem a velocidade de consumo, vemos que os três pon-tos podem estar relacionados. Cada vez mais a tecnologia apri-mora sistemas de GPS e mapas, tornando dispensável o pedido informal de informação sobre a localização a outras pessoas e evitando qualquer probabilidade de se perder. Cada vez mais as pessoas se deslocam de origens a destinos sem qualquer tipo de experiência interessante durante o trajeto. Sennett (2016) aponta a transformação da cidade em corredores onde não há atrativos ou excitações para os corpos que a percorrem, e in-dica a vivência de mundo de um corpo que se desloca de uma origem a um destino estabelecido como uma experiência nar-cótica e passiva. Isso é bastante perceptível quando se pensa na quantidade de obras que favorecem o transporte automotivo na cidade, mas também quando simplesmente se observa o an-dar das pessoas nas ruas. Essa vivência corporal e sensorial em-pobrecida da cidade abre portas para o processo de espetacu-larização da cidade. Para Jacques (2007, p. 101), “o processo de espetacularização está diretamente relacionado ao empobre-cimento da experiência urbana corporal, sensorial, na contem-poraneidade.”. Processo este que encaminha a requalificação e museificação de centros históricos, o que pode acabar com o que resta de público e acessível em certos espaços da cidade. A espetacularização é suficientemente saciada através do olhar e admiração visual, o que empobrece a experiência através de outros sentidos. Uma cidade espetáculo é distante da experiên-cia e vivênexperiên-cia urbana, ambas afetadas pelo ritmo de aceleração antes citado. Dentro desta lógica, não se há um respiro para que a cidade possa ser experienciada.

Para Sennett (2016, p. 373), “a forma dos espaços urbanos deriva de vivências corporais específicas a cada povo”, o que mostra que as características da cidade estão relacionadas com

todas as questões levantadas. É neste sentido que essa pesqui-sa tenta atuar, na tentativa de compreender e modificar a urba-nidade em alguns espaços, especialmente naqueles que trazem um fluxo de pessoas.

Sabe-se que uma rua movimentada, além de abrir a possi-bilidade para os encontros de estranhos, gerando uma troca e crescimento pessoal para cada um (SENNETT, 2014), garante a segurança dos locais públicos através de olhos atentos de esta-belecimentos para esses locais movimentados (JACOBS, 2000). No entanto, questiona-se o quão de fato estes espaços estão movimentados a ponto dos encontros serem de fato interes-santes e de despertar o olhar das pessoas, dados os corpos pas-sivos, isolados e apressados que deles usufruem. Seria injusto dizer que a modernidade não facilitou a vida dos seres humanos e que contribuiu muito para processos construtivos, comunica-ção e burocracia na sociedade, e é por isso que se procura uma forma de resistir às problemáticas levantadas por meio do es-paço urbano.

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A DANÇA COMO RESISTÊNCIA

NO ESPAÇO URBANO

Neste caminho, resgato a importância cultural que a cida-de, as ruas e os espaços públicos tiveram no desenvolvimento de muitas formas de expressão. É o caso do Hip Hop, movimen-to artístico que surgiu em uma região de Nova Iorque, em um cenário de espaço desvalorizado em meio de planos de desen-volvimento urbano, no processo de conciliação entre os mora-dores até então em conflitos (SILVA, 2018). De forma diferente, o Tap Dance (em português conhecido como sapateado ame-ricano) nasceu no século XIX, justamente no encontro de uma ampla gama de estilos de dança percussivos étnicos trazidos aos Estados Unidos por povos africanos e britânicos, engloban-do a movimentação engloban-do corpo (visual) e a composição rítmica (sonora). Boa parte dos dançarinos de sapateado, ao longo do desenvolvimento desta forma de expressão, desenvolveram suas técnicas nas ruas e esquinas das cidades, onde ocorriam performances baseadas no processo de improvisação (FRANK, 1994; DUFFY, 2017). Acontecia da polícia ter que retirar os dançarinos por eles bloquearem todo o tráfego com suas per-formances (ROBINSON apud. FRANK, 1994). “Naquela épo-ca, ninguém aprendia [sapateado] em escola não. Veja só, você aprendia na rua mesmo.” (ROBINSON apud. FRANK, 1994, p. 129). Em alguns momentos, ruas e becos funcionaram como es-paços de treino, troca e ensino².

2. Segundo Gregory Hines no documentário “About Tap”, dirigido por George T. Nierenberg

O sapateado americano, como dito, teve a técnica da impro-visação como um elemento fundamental em sua história. Ela permitia expressão e interação espontânea entre o performista e o espectador e se mostrava parte fundamental nas formas de danças próprias norte-americanas (HILL apud. DUFFY, 2017). Para Duffy (2017), a improvisação é um meio de expressão e co-municação, ainda que individual, capaz de criar conexão entre as pessoas. “À medida que a tecnologia cresce e as conversas cara a cara são substituídas por letras em uma tela, a improvi-sação de sapateado mantém e honra a tradição de ter uma voz audível e pessoal” (p. 11).

Mais tarde esta forma de expressão veio a ocupar os pal-cos dos circuitos de Vaudeville, forma de entretenimento nor-te-americana no começo do século XX, passando por filmes de Hollywood e também pelos palcos dos musicais da Broadway. O sapateado atingiu o auge do entretenimento ocidental, inves-tindo em coreografias e números grandiosos, deixando de lado a improvisação (GUARIENTI, FERNANDES, 2018). Partindo das minhas experiências pessoais enquanto sapateador e pro-fessor de dança, vejo que hoje o sapateado ocupa, em sua gran-de maioria, espaços privados. Mais precisamente, o sapateado deixou de ser performado nas ruas e foi levado a ambientes fe-chados, como teatros ou escolas de dança. Poucos são os casos de performances nas ruas que seguem a dinâmica de mais de 80 anos atrás, o que parece levar o estilo de dança a uma at-mosfera elitizada. Além disso, penso que o advento do cinema e da televisão de massa, apontados por Harvey (2005), assim como da internet, podem ter favorecido a esse fechamento da dança para sua própria comunidade. Quando aberta, está em um teatro, nem sempre sendo acessível para todas as esferas

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sociais. Hoje em dia, compartilhar ou assistir a um vídeo de per-formance é muito fácil e atinge a muitas pessoas de todo o mun-do, instantaneamente, sem nem ser necessário sair de casa. Em contrapartida, muitas performances ainda são encontradas nas ruas da cidade: na própria rua Conselheiro Mafra, antes citada, já vivenciei a presença de artistas de rua que trazem perfor-mances principalmente musicais e teatrais.

A questão que surge, em meio de toda essa discussão, gira em torno de qual seria o impacto dentro da cidade, este es-paço que imprime problemáticas da modernidade de isolamen-to, consumo de massa e aceleração, ao trazer uma performance de dança (e especificamente do sapateado, que traz em sua his-tória essa ligação direta com a rua, além de trazer uma expe-riência visual e audível para passante). Desta performance, em um formato de intervenção urbana, evitar a coreografia e o for-mato espetacular, mas trazer de volta a improvisação como um hábito que se perdeu ou simplesmente foi levado a lugares fe-chados, situando no fluxo da cidade o simples ato de improvisar sapateando. Partindo do que diz Barja (2008), buscar através da intervenção no meio urbano gerar impacto, despertar inte-resse e colocar em discussão temas e valores do lugar e seus grupos sociais.

Com base no que diz Montaner e Muxí (2014), é a partir de áreas do conhecimento não arquitetônicas que se é possível despertar uma consciência do espaço, servindo no processo de ressignificação dele e de restauração de relações que nele se propõem. O urbanismo, que surgiu e se desenvolveu como área prática de intervenção no espaço com o intuito de organizar o funcionamento da cidade, promovendo transformações sociais e melhora na qualidade de vida de todos, se mostra uma fer-ramenta para colocar em cheque as questões culturais e ideo-lógicas as quais a sociedade está exposta. Contudo, para isso,

também é necessária uma transformação na forma de se fazer Arquitetura e Urbanismo, partindo desse papel além do proje-to: o de contribuir para a produção de um espaço comunicativo, que favoreça as relações intersubjetivas (MONTANER, MUXÍ, 2014).

Esta pesquisa busca colaborar com o papel da arquite-tura e do urbanismo, investigando a transformação da urbani-dade dos espaços da ciurbani-dade perante uma interdisciplinariurbani-dade com a dança. No lugar de propor destruições e construções, desenhos sobre planos e mapas, projetos e especulações, uti-liza-se o corpo e a dança como os elementos transformadores desse espaço.

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E N S A I O :

M E TO D O LO G I A E

P RO C E S S O

PROCESSO EXPERIMENTAL DE PERFORMANCE E OBSERVAÇÃO ENCONTROS DE ATIVAÇÃO FORMA DE REGISTRO AUDIOVISUAL ENSAIOS DE INTERVENÇÃO

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PROCESSO EXPERIMENTAL DE

PERFORMANCE E OBSERVAÇÃO

Partindo das problemáticas sugeridas, levantou-se a hipó-tese que a urbanidade de espaços da cidade pode ser transfor-mada através de uma performance. Recorreu-se a uma inter-venção resgatando a improvisação do sapateado americano como hábito casual e não coreografado a fins de entretenimen-to, com o intuito de funcionar como um evento atrativo para os passantes e proporcionar uma experiência corporal mais rica na cidade, sendo assim um movimento contrário às mudanças que surgem na cidade contemporânea e estimulam a passivida-de dos corpos que a habitam.

O Processo Experimental de Performance e Observa-ção, então, é uma série de ensaios experimentais, classificados como Encontros de Ativação e Ensaios Experimentais

Performáti-cos realizados em alguns lugares específiPerformáti-cos da cidade de

Flo-rianópolis, com o intuito de afirmar a hipótese lançada, inves-tigando se a performance pode ser uma resistência perante o isolamento e a aceleração nas cidades, observando o compor-tamento e as reações do fluxo urbano no momento da interven-ção.

É importante mencionar que, inicialmente, a pesquisa pre-tendia estabelecer uma relação entre corpo e espaço através de um processo cenográfico e coreográfico, momento em que foram realizados os encontros de ativação. Somente depois ela alcançou um formato que atuasse diretamente na cidade, visando afirmar a hipótese referida, momento em que ocor-reram os ensaios experimentais performáticos. Tal mudança ocorreu devido ao que observou-se no decorrer do processo, através dos encontros e das atividades propostas, muitas delas

realizadas na rua, que se restringir a um processo cenográfico e coreográfico não seria suficiente para alcançar o objetivo da pesquisa. Neste sentido, optou-se seguir por outros caminhos com o projeto, passando então ao tema da transformação da ur-banidade de espaços da cidade através das performances.

Para que este trabalho acontecesse de forma que eu, o autor, pudesse participar da experiência prática tanto como dançarino quanto como espectador, foi formado um grupo de atividade para realizar as performances, formado por quatro bailarinas², denominadas aqui como B1, B2, B3 e B4, uma psi-cóloga com experiência em dança, denominada P1 e por mim, diretor e dançarino, denominado como D1.

De início a este processo, foi feita o que se chamou de uma ativação dos corpos deste grupo, buscando um conteúdo para observação, exploração e pesquisa dentro da performance. Essa ativação se tratava de encontros em que se discutia questões de corpo e espaço entre os integrantes e também se realizavam dinâmicas corporais, buscando analisar a relação do grupo com o espaço e seus corpos, entrosamento entre os integrantes do grupo e entender a ideia de corpo transformador de espaço e vice-versa, assim investigando esta área. Neste trabalho, esses encontros são chamados de “Encontro de Ativação”.

Para registrar esses encontros e assegurar que o conteúdo trabalhado em cada um deles servisse como tópicos para desen-volvimento futuro, utilizou-se de uma câmera GOPRO modelo Hero 6 para registro audiovisual das dinâmicas, de uma câmera de celular padrão³ para fotografar eventuais acontecimentos específicos e também do recurso da escrita em forma de diário e a gravação de áudios pelo aparelho celular para registro das ideias e assuntos levantados em cada um dos encontros.

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ENCONTROS DE ATIVAÇÃO

Reunião Inicial: Como um primeiro contato entre as

inte-grantes do grupo, foi realizada uma pequena reunião informal, no dia 18 de maio de 2019, onde a proposta foi apresentada. Com o auxílio da psicóloga, levantou-se a discussão sobre cor-po e espaço através de perguntas que incitavam a reflexão e traziam o entendimento individual de cada integrante sobre o assunto (incluindo D1 e P1). Através de desenhos, colagens e escrita, foi feita uma dinâmica onde cada um tentou

materiali-GRUPO DE ATIVIDADE:

Nome Idade Raça/Cor Função

B1: Guta 21 anos amarela bailarina

B2: Ângela 20 anos branca bailarina

B3: Jaqueline 19 anos branca bailarina B4: Julienne 24 anos branca bailarina

P1: Alice 25 anos branca psicóloga

D1: Fernando 25 anos branco diretor e

4. De acordo como cada uma das integrantes do grupo se identificou. Nomes fictícios. bailarino Tabela 1: Identificação do grupo de atividade4

zar o seu entendimento sobre corpo e espaço.

Feito o primeiro contato, prosseguiu-se realizando três encontros de ativação, em três localidades diferentes: no Par-que Linear do Córrego Grande, na praça Maria Teresa Kock (Santa Mônica) e nas ruas Felipe Schmidt, Conselheiro Mafra e adjacências (Centro) - espaços públicos, no intuito de utilizar o que a cidade tinha a oferecer para a execução do trabalho.

Imagem 1: Mapa dos locais de Encontro de Ativação Produzido pelo Autor

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Encontro de Ativação nº 1: A escolha do Parque Linear do

Córrego Grande como o local da primeira dinâmica prática se deu, pois se trata de um espaço amplo com um extenso deck de madeira. O piso de madeira flutuante é o tipo de chão ideal para a prática do sapateado pois proporciona uma melhor qualidade de som e preserva a integridade das articulações dos sapatea-dores (LEWIS, 2016). O mesmo espaço já foi utilizado em en-contros da comunidade do sapateado de Florianópolis para a prática da dança.

O encontro ocorreu no dia 9 de junho de 2019 (domingo), por volta das 16h, no deck próximo ao acesso pela Rua Sebas-tião L. da Silva. Estavam presentes cinco pessoas neste encon-tro: B1, B2, B4, P1 e D1. Foi proposta uma série de dinâmicas corporais baseadas em improvisação que abrisse a percepção dos bailarinos com relação ao seu próprio corpo, ao corpo do outro e ao espaço. Dinâmicas como: movimentos espelhados entre duplas, caminhar pelo espaço, improvisação de sapatea-do, improvisação de sapateado em deslocamento, improvisa-ção de sapateado interagindo com objetos do espaço etc.

Encontro de Ativação nº 2: procurou-se um local que

apresentasse qualquer tipo de estrutura que incitasse uma ocu-pação diferente. Inspirado na forma com que crianças ocupam os espaços, o segundo encontro aconteceu na Praça Maria Te-resa Kock, no Santa Mônica, também conhecida como “Praça da Polícia”. Esta praça apresenta um parquinho infantil de madeira ao centro, com gangorras, balanços e outros brinquedos ao re-dor. A composição geométrica de planos, as diferentes alturas propostas e os obstáculos atraentes para a imaginação infantil que trazem os parquinhos infantis sempre despertam uma cer-to desejo de ocupá-los em mim. No papel de direcer-tor, trouxe as dinâmicas para observar como estes elementos instigam outras

pessoas.

Este encontro ocorreu no dia 16 de junho de 2019 (do-mingo), por volta das 16h, ocupando todas as estruturas de brinquedos no parque. Estavam presentes nesse encontro seis pessoas do grupo: B1, B2, B3, B4, P1 e D1. Antes de pro-por dinâmicas que ocupassem essas estruturas, foi conduzida uma conversa pela psicóloga, em que cada um dos integrantes trouxe fotos e lembranças da sua infância e de brincadeiras que realizavam quando crianças. O intuito da conversa era ativar possíveis lembranças corporais da infância que contribuíssem criativamente nas dinâmicas que fossem propostas na sequên-cia.

Tais dinâmicas consistiram em: composições corporais, onde os integrantes compunham esculturas humanas, encos-tando uns nos outros e nas estruturas do parque; e composi-ção sonora no parque, onde os integrantes tiravam sons com as mãos e pés (calçados com sapatos de sapateado).

Encontro de Ativação nº 3: após os encontros ocorridos

no Parque Linear do Córrego Grande e na Praça Maria Teresa Kock, sentiu-se a necessidade de se fazer dinâmicas em locais que tivessem uma quantidade mais expressiva de pessoas e passantes, já que nos dois encontros anteriores não houve nú-mero significativo. Com base nisso, o primeiro local pensado fo-ram as ruas do centro de Florianópolis. O Centro é um bairro da cidade que apresenta um comportamento específico em cada horário do dia, em cada dia da semana. Por se tratar de um bair-ro com grande númebair-ro de serviços e comércio, apresenta um fluxo de pessoas consideravelmente grande com relação a ou-tros espaços da cidade durante os dias de semana, em horários comerciais. Aos sábados, apresenta boa parte dos seus serviços e comércios em funcionamento até às 13h.

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Sendo assim, o terceiro encontro aconteceu no Centro de Florianópolis, mais especificamente nas ruas Conselheiro Ma-fra e Felipe Schmidt, percorrendo também as ruas Deodoro e Trajano, buscando nesses espaços algum fluxo de pessoas que pudesse contribuir, de alguma forma, com o processo.

O último encontro de ativação ocorreu, então, no dia 6 de julho de 2019 (sábado), por volta das 9h30min. Estavam pre-sentes nesse encontro cinco pessoas do grupo: B1, B2, B3, P1 e D1. Foram feitas quatro dinâmicas, cada uma com intenções diferentes, onde os integrantes do grupo contribuíram também com ideias e propostas.

A primeira dinâmica consistiu em andar em unidade pelo centro, desviando os corpos de outros corpos. O trajeto desta dinâmica foi partindo do cruzamento entre a Rua Trajano e a Rua Felipe Schmidt. Percorreu-se a quadra, seguindo pela Rua Felipe Schmidt até a Rua Deodoro, descendo até a Rua Conse-lheiro Mafra, voltando ao cruzamento com a Rua Trajano e

vol-Figura 2: trajeto da primeira dinâmica Fonte: Google Earth

tando ao ponto inicial. Os integrantes do grupo andavam sem-pre se movimentando entre si, num pequeno “cardume”, ou seja, um andar muito próximo um do outro, mantendo um volume de pessoas, tentando sempre seguir em frente percorrendo o trajeto, sem se distanciar muito um do outro. A partir do cru-zamento da Deodoro com a Conselheiro Mafra, a dinâmica se modificou um pouco, onde o grupo seguia em um movimento de “cardume”, mas os integrantes eventualmente paravam uns na frente dos outros, sempre provocando um “desvio” do corpo do outro.

O grupo decidiu fazer a dinâmica seguinte mantendo a uni-dade entre si, mas sem seguir uma regra de necessariamente funcionar como um cardume ou parar em frente ao outro, bus-cando explorar pequenas excitações que o espaço e a cidade causava, reagindo a estas proposições do espaço.

Sendo assim, a segunda dinâmica consistiu em o grupo an-dar em unidade, interagindo com a cidade. O trajeto desta vez partiu novamente do cruzamento entre a Rua Trajano e a Rua Felipe Schmidt, seguindo pela segunda até a Rua Deodoro,

des-Figura 3: trajeto da segunda dinâmica Fonte: Google Earth

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cendo a rua até a Conselheiro Mafra, virando à direita e termi-nando próximo à entrada do Shopping ARS. O grupo continuou buscando o andar em unidade, em formatos diferentes dos oca-sionados durante a primeira dinâmica, mas desta vez buscando pequenas interações com o que a cidade proporcionava (sons, objetos, desenhos de piso, pessoas etc.). Todas essas interações eram propostas pelos integrantes por meio de improvisação.

Quase emendada na dinâmica anterior, surgiu a terceira di-nâmica, se tratando de uma performance de sapateado em um trecho pontual da rua Conselheiro Mafra, próximo a entrada do Shopping ARS. A dinâmica foi iniciada quando o grupo, ainda na segunda dinâmica, foi direcionado a calçar os sapatos ao che-gar no local. A ideia era trazer ao espaço com o fluxo de pessoas uma performance casual de sapateado baseada na improvisa-ção. Partindo de uma tampa metálica para os serviços de infra--estrutura da cidade, a performance começou e foi expandida para alguns outros elementos ao redor.

Muito próximo de onde ocorreu a terceira dinâmica, ao Figura 4: local onde ocorreu a terceira dinâmica

Fonte: Google Earth

lado da porta do Shopping ARS, tocavam algumas músicas um homem no violão e uma mulher cantando no microfone. Alguns minutos após encerrada a dinâmica, o grupo se questionou se o que acabava de fazer teria prejudicado a performance dos músicos. Ao mesmo tempo, observou-se que quase não haviam espectadores à performance desses músicos. Espontaneamen-te, o grupo decidiu que a quarta e última dinâmica seria então uma ação coletiva proposta aos músicos, onde eles tocariam enquanto o grupo dançava, misturando improvisos individuais e passos em conjunto. Esta execução aconteceu ao lado de uma parede, em que os integrantes voltavam o corpo aos passantes. Especificamente nesta dinâmica, P1 teve de se ausentar, redu-zindo o número de dançarinos, pois um ficaria encarregado do registro com a câmera GOPRO.

Tendo em vista os resultados bem sucedidos deste últi-mo encontro, decidiu-se assumir um outro ruúlti-mo para a pesqui-sa, deixando de lado a ideia inicial de cenografia e coreografia, passando a propor uma análise da urbanidade de espaços da ci-dade através de ensaios de intervenção com performance. Po-rém, antes de propor qualquer intervenção, planejou-se como seria a forma de registro das próximas práticas.

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Para que estas investigações e observações tivessem um registro completo que permitisse uma análise cuidadosa pos-teriormente, contribuindo na investigação dos ensaios, optou--se por um registro audiovisual com vários tipos de câmera: uma câmera padrão de celular em terceira pessoa, uma câmera GOPRO fixada no corpo de um dos bailarinos, uma câmera 360º fixada em tripé, um drone ou câmera com visão aérea.

Optou-se por utilizar da câmera padrão de celular por ser um meio de captação de imagem e som prático, já que a gran-de maioria dos celulares hoje em dia possuem este recurso, e eficaz, com resolução boa. Além disso, hoje em dia o hábito de usar o celular e tirar fotografias ou fazer filmagens é tão comum que esta forma de registro acaba sendo uma forma discreta de se registrar. Nesta pesquisa, foi utilizada a câmera de um apa-relho de telefone celular modelo SAMSUNG s9. A princípio, procurou-se captar as imagens em terceira pessoa de todas as intervenções, ou seja, uma pessoa fora da intervenção segurava a câmera com as mãos e captava a cena sem necessariamente acompanhar a performance do grupo. Através deste meio de registro, procurou-se observar a dinâmica da urbanidade do es-paço de um determinado ponto fixo.

Com a câmera GOPRO modelo Hero 6, a intenção era de captar imagens abertas, tendo em vista sua lente com abertura ampla, boa resolução de imagem e estabilização. No entanto, a partir do seu tamanho e formato foi decidido utilizar dela fixada no corpo de um dos bailarinos, obtendo assim uma captação de

FORMA DE REGISTRO

AUDIOVISUAL

imagens em primeira pessoa. Além desse registro pegar o mo-vimento do bailarino, também foi um meio de conseguir uma gravação de áudio mais próxima do ambiente da performance. As imagens também sugerem para onde o corpo do bailarino foi direcionado durante as performances. Foram pensadas em estratrégias de fixação da câmera ao corpo, testadas posterior-mente.

A câmera 360º surgiu como uma possibilidade de visualiza-ção orbital de toda a cena. Fixada em um determinado local com um tripé, a câmera da marca RICOH modelo THETA S tem um alcance panorâmico, captando uma imagem 360º e áudio. Com o aplicativo específico do aparelho ou outros aplicativos seme-lhantes, pode-se orbitar por esta imagem e examinar os aconte-cimentos ao redor desta câmera, o que vem a ser bastante útil para analisar e compreender as dinâmicas do espaço, devido ao bom alcance.

A câmera aérea procura registrar o posicionamento dos elementos físicos presentes no espaço e o comportamento do grupo de pessoas presentes no espaço, em um formato próxi-mo ao que os arquitetos e urbanistas têm mais intimidade em trabalhar: planos, ou planta baixa. Além disso, este ângulo ain-da pode revelar o posicionamento ain-das outras câmeras e even-tualmente dos assistentes para se compreender de onde cada filmagem foi executada. Para captar essas imagens, foi utilizado um drone modelo DJI Spark, capaz de capturar imagens com resolução Full HD estabilizadas com GPS embarcado, operado por um assistente.

O conjunto das quatro câmeras citadas combinado com um posicionamento adequado de cada câmera no espaço permite

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com que se tenha um registro maximizado de informações so-bre a dinâmica deste espaço. O posicionamento é feito toman-do o cuidatoman-do para que não haja câmeras captantoman-do a cena de um ângulo semelhante, ou seja, quanto mais ângulos diferentes da mesma cena, mais informações diferentes se pode captar deste momento no espaço tempo.

Antes de ir para a etapa de realizar as performances nos locais previamente definidos e de registrá-las, realizou-se uma série de testes para entender o funcionamento de cada câmera e, posteriormente, observar a qualidade dos vídeos, avaliando se a forma de registro se aproximaria do esperado para as fina-lidades da pesquisa, alinhando de forma prévia o processo de captura de vídeo, para evitar possíveis imprevistos no momen-to das performances. Também com o produmomen-to obtido, buscou--se dominar o processo de edição e de sincronização dos quatro vídeos, de forma que as imagens apresentem a cena de quatro pontos de vista diferentes, porém simultâneos.

O Teste de Câmera nº 1 aconteceu na Praça Maria Tere-sa Kock, também conhecida como “praça da polícia”, no Santa Mônica, dia 13 de setembro de 2019 às 16h24min. O local foi escolhido pois já havia sido utilizado em um dos encontros de ativação, mostrando um espaço aberto adequado para opera-ção de drone e baixo fluxo de pessoas. Consistia em fazer uma gravação de uma cena de performance curta (duração de apróx. 1min) com as quatro câmeras em captação simultânea. Para a operação das câmeras, buscou-se assistentes nomeados como A1, A2, A3, A4, A5 e A6. Exceto pelo A1, que era o controlador e proprietário do drone e participou de todas as intervenções, to-dos os outros foram selecionato-dos como colaboradores pontuais nas intervenções, não sendo necessariamente especialistas em captação de imagens. Este teste contou com A1 para operar o

drone, A2 para operar a câmera de celular em terceira pessoa e um pequeno tripé tipo Mini-D (altura 30cm e base com raio de aprox. 13,3 cm)5 para fixar a câmera 360º. Na cena, D1, portando

a câmera GOPRO no corpo e no alcance das demais câmeras, se desloca pelo espaço e faço uma série de movimentos corporais, simulando possíveis movimentações em performances futuras.

O posicionamento das câmeras no espaço se deu com base em critérios diferentes.

Para a câmera de celular em terceira pessoa fixa, procurou--se uma posição onde a angulação da cena captasse a cena da performance. Como a câmera deve estar fixa, mesmo que a per-formance se desloque, não há movimentação de câmera, muitas vezes resumindo a sua captura à cena geral, não

especificamen-Figura 5: situação das câmeras no Teste de Câmera nº 1 Fonte: Geoprocessamento da Prefeitura de Florianópolis

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te à performance.

A câmera GOPRO em primeira pessoa, por se tratar de uma câmera fixada no corpo de quem executou a performance, não tem uma posição fixa e variou de acordo com o desenrolar da performance. Neste experimento, a câmera foi segurada pela mão do bailarino que realizou a performance, que a deixou jun-to ao peijun-to durante jun-toda a performance.

Para a câmera 360º, procurou-se um local com uma superfí-cie plana e segura para montar o pequeno tripé, sendo no caso uma laje de concreto da praça. Evitou-se de que a câmera ficas-se posicionada em um local próximo a um outro objeto, poden-do assim se ter uma visão menos obstruída possível da cena.

Para a câmera aérea, procurou-se captar um recorte do es-paço onde a performance seria executada. Por almejar enten-der a disposição dos elementos físicos, o comportamento das pessoas presentes no local e eventualmente o posicionamento das câmeras e dos assistentes, o recorte da câmera aérea vai variar de acordo com as necessidades de cada local específico. Mesmo assim, em todos os casos, procura-se sempre abranger a performance em execução.

Após a captura de imagens, os vídeos foram extraídos, edi-tados e sincronizados através do programa Adobe Premiere. Os quatro registros foram compilados em um único vídeo, po-sicionados lado a lado, para análise e realização de eventuais correções para a primeira performance experimental registra-da através deste método. Com base nesta análise, observou-se que os posicionamentos das câmeras foram adequados e bem sucedidos, levando em conta o propósito de cada câmera.

A maior problemática surgiu com a câmera GOPRO, em pri-meira pessoa. O fato da câmera ter sido fixada simplesmente sendo segurada junto ao peito pela mão do D1 levou à reflexão de isto, possivelmente, interferir na naturalidade de perfor-mance de sapateado. Como a intenção seria que a perforperfor-mance buscasse reproduzir a casualidade da improvisação, pensou-se numa estratégia para fixá-la ao corpo, levando a execução de mais dois testes de câmera específicos com a GOPRO para tes-tar meios de prendê-la ao corpo sem precisar das mãos.

Para a câmera 360º, seria mais adequado um tripé que pu-desse atingir uma altura maior, com o intuito de se obter uma imagem mais interessante. Observou-se também que o drone, além de emitir um ruído que poderia chamar atenção dos pas-santes, deveria ter uma atenção técnica especial dependendo do local de filmagem, pois pode ter seu funcionamento prejudi-cado em função de circunstâncias ambientais, tais como inter-ferência eletromagnética e física.

A partir da edição e sincronização, também foi constatado que apenas um dos áudios deveria estar sincronizado com as imagens para garantir uma qualidade considerável, pois no caso de todos estarem ativos, tem-se o problema de eco e sobreposi-ção de sons. No caso de uma exposisobreposi-ção de imagens, deveria-se selecionar uma das faixas de áudio e sincronizá-la (ou alternar entre elas, mas garantindo sempre que somente uma esteja ativa). Já se o intuito for apenas analítico, as faixas podem ser ouvidas separadamente. Foi considerada a utilização de um gra-vador de áudio para se ter uma boa qualidade de som, mas des-cartada no decorrer da pesquisa por se tratar de mais um equi-pamento técnico para operar e exigir uma equipe técnica maior.

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A estratégia para fixar a câmera GOPRO ao corpo foi de prender uma tira elástica, 3cm de largura por 78,5cm6 de

com-primento, de cor preta à capa de proteção da câmera, formando um tipo de cinto que seria vestido na altura do peito, deixando-a fixa ao peito. Para verificar a estabilidade da câmera e a qualida-de da imagem, foi realizado um segundo teste qualida-de câmera, qualida-desta vez somente com a GOPRO.

O Teste de Câmera nº 2 aconteceu na Praça Donato da Silva, também no Santa Mônica, dia 15 de setembro de 2019 às 10h13min, por se tratar de um local aberto e de fácil acesso para execução. O teste consistiu em uma gravação de 1min10s da câmera GOPRO fixada ao peito de D1 onde este realizava uma caminhada, movimentos de rotação do tronco, passos de sapateado e outros movimentos de dança para poder avaliar a estabilidade e qualidade da imagem. A partir do vídeo obti-do, percebeu-se que a câmera balançou a cada passo ou movi-mento executado, e que por isso ela necessitava de uma outra amarração ao corpo do bailarino. Sendo assim, foi presa mais uma tira elástica, 2cm de largura por 60cm de comprimento7,

de cor branca à capa de proteção da câmera além da primeira, de forma que esta tira pudesse ser amarrada ao pescoço de D1, buscando uma estabilidade da imagem. Para então avaliar a qualidade deste novo sistema de amarração, foi realizado um terceiro teste de câmera, também somente com a GOPRO.

O Teste de Câmera nº 3 também aconteceu na Praça Do-nato da Silva, no Santa Mônica, dia 15 de setembro de 2019 às 10h27min, também pela facilidade de acesso. O teste consistiu 6. Dados obtidos através de medição.

7. Dados obtidos através de medição.

em uma gravação de 1min27s da câmera GOPRO fixada ao pei-to de D1, seguindo a mesma dinâmica do segundo teste, reali-zando os mesmos movimentos com a mesma finalidade: avaliar a estabilidade e qualidade da imagem. O resultado obtido apre-sentou boa qualidade de imagem e estabilidade satisfatória, tendo em vista que o corpo está em movimentação constante.

Todo este processo levou, posteriormente, à procura de um acessório próprio da marca da câmera para fixá-la no peito, tes-tado durante uma das performances. Não houveram diferenças significativas nas imagens captadas com as tiras elásticas pre-sas à capa e o acessório próprio da câmera.

A partir dos resultados obtidos nos três testes de câme-ra, considerou-se que o conjunto das quatro câmeras apresen-tou um resultado positivo para a captação de imagens e regis-tro audiovisual. Sendo assim, a etapa seguinte seria de pôr em prática as intervenções com performances, escolhendo os luga-res para a execução e utilizando destes aparelhos para ter um registro o mais rico em informações possível para uma análise posterior.

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ENSAIOS DE INTERVENÇÃO

PERFORMÁTICA

Decidida uma mudança de rumo na pesquisa e com um ma-terial de registro adequado, a proposta nova era de analisar o impacto na urbanidade de espaços da cidade a partir de uma performance de improvisação de sapateado. Planejou-se, en-tão, cada uma dessas intervenções em diferentes pontos da ci-dade.

Imagem 6: Mapa dos locais de Ensaios de intervenção Performática Produzido pelo autor

Partindo de lugares os quais eu já frequentara anteriormen-te, já era familiarizado e já tinha alguma recordação e esboço das relações e dinâmicas daquele espaço da cidade a partir de experiências pessoais, foram selecionados cinco pontos da ci-dade de Florianópolis para executar os ensaios:

Arredores do Estádio Orlando Scarpelli Rua Conselheiro Mafra

Rua Victor Meirelles, esquina com Av. Hercílio Luz Acesso à praia do Campeche pela Av. Pequeno Príncipe Praça Bento Silvério, na Lagoa da Conceição

Buscou-se espaços com características de utilização di-ferentes, que dialogassem com as ideias levantadas por auto-res no desenvolvimento temático: locais que apauto-resentassem passantes em movimento rápido, que evidenciassem a cida-de-corredor, que mostrassem o uso do espaço público não só como passagem dentre outros aspectos. Cada um deles, em condições temporais específicas, apresentam um atributo em comum: pessoas na rua. Para acrescentar nos registros e tam-bém captar impressões pessoais e outros fatos possivelmente não registrados com os vídeos, optou-se por gravar um áudio pelo celular com o relato das bailarinas após cada uma das in-tervenções. Também foi escrita uma percepção pessoal minha. Esses registros complementares aconteceriam após cada uma das performances.

ENSAIO DE INTERVENÇÃO PERFORMÁTICA Nº 1

A escolha dos arredores do Estádio Orlando Scarpelli, no bairro Estreito, se deu por uma lembrança da

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infância/ado-lescência. Frequentei poucos jogos na minha vida, cerca de cin-co ou seis jogos, mas me lembro de seguir por um trajeto pela avenida Santa Catarina, em direção ao estádio, juntamente de uma multidão de torcedores. O destino final daquela procissão inquieta do continente era o evento do jogo, a expectativa de todo o cardume que se locomovia era a vitória do time. Hoje, olhando para trás, me fundamento nas palavras de Sennett (2016), que compara a cidade com um corredor, e seus habitan-tes a percorrendo de um destino ao outro. O destino era claro. No processo de escolha de lugar, me perguntei: existiria algu-ma coisa que chaalgu-maria algu-mais a atenção do que este evento tão ansiado? O que, de alguma forma, poderia quebrar esse trajeto, ou simplesmente desacelerar aquela multidão? De que forma essas relações, específicas em dias de jogo do time da casa, seria impactada com uma performance ali?

Figura 7: situação das câmeras no Ensaio de Intervenção Performática nº 1 Fonte: Google Earth

A intervenção aconteceu na entrada do Estádio Orlando Scarpelli na esquina da avenida Santa Catarina com a rua Hu-maitá, Estreito, no dia 15 de setembro de 2019 (domingo) por volta das 15h45min, minutos antes de começar o jogo do Fi-gueirense no estádio, na expectativa de se encontrar uma si-tuação semelhante à descrita. A performance de improviso de sapateado em círculo seria feita por B1, B2, B3 e D1, com a co-laboração de quatro assistentes para o registro, A1, A3, A4 e P1, e teve duração de 5min55s. O posicionamento das câmeras foi dado de acordo como mostra a figura 7. Em todas as perfor-mances, buscou-se atender o objetivo de cada uma das câmeras dentro da conjuntura de possibilidades oferecida pelo local na-quele momento.

ENSAIO DE INTERVENÇÃO PERFORMÁTICA Nº 2

Da mesma forma que durante o período dos encontros de ativação, a escolha da rua Conselheiro Mafra como espaço de atuação se deu em busca da riqueza que o fluxo de pessoas proporciona para a pesquisa. Neste caso, em vez de “o fluxo”, devo dizer “os fluxos”, pois diferentemente do caso do Estreito, a Conselheiro Mafra apresenta pessoas andando de todos os lu-gares para todos os lulu-gares, como já bem visto durante o Encon-tro de Ativação nº 3. O cenEncon-tro de Florianópolis, ao meu ver, se revela um espaço vivo, democrático e totalmente ativo, durante os horários de serviço e aos sábados pela manhã. Desde os pas-seios durante a infância, me lembro deste espaço apresentar pessoas percorrendo as ruas sem a perspectiva de parar. Pes-soas que, mais adulto, percebi não terem uma homogeneidade entre si. Ou seja: percebi nestas ruas uma diversidade grande de características físicas, culturais, étnicas, comportamentais entre outras; o que as tornam ambientes propícios para trocas

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e encontros de estranhos (SENNETT, 2014). Nas mesmas ruas, outras pessoas entregam panfletos ou vendem suas mercado-rias, mas mesmo assim nunca me senti à vontade para parar em qualquer lugar da rua, pois sinto que seria carregado pelas ondas humanas, em diferentes direções, que oscilam por estes espaços. Desta forma, de que forma esta dinâmica agitada se comportaria perante uma performance de sapateado? Sería-mos nós arrastados pelas ondas de pessoas? Quem quebraria essa dinâmica contínua e como isso aconteceria? Apesar de já ter sido feito o encontro neste espaço, optou-se por fazer um novo devido à considerável quantidade de informações dadas anteriormente, desta vez acompanhado do novo formato de re-gistro.

Figura 8: situação das câmeras no Ensaio de Intervenção Performática nº 2 Fonte: Google Earth

A intervenção aconteceu no meio da rua Conselheiro Ma-fra, próximo à entrada do Shopping ARS, Centro, no dia 27 de setembro de 2019 (sexta-feira) por volta das 13h, horário de saída e volta do almoço, com o intuito de encontrar uma grande quantidade de pessoas em movimento. A performance de im-proviso de sapateado em círculo seria feita por B1, B2, B3 e D1, com a colaboração de A1 e A5 para o registro, e teve duração de 6min40s. O posicionamento das câmeras foi dado de acordo como mostra a imagem 8.

ENSAIO DE INTERVENÇÃO PERFORMÁTICA Nº 3

A esquina da rua Victor Meirelles com a avenida Her-cílio Luz se destaca, pois entre todos os lugares, é o que não apresenta um “fluxo contínuo de pessoas”. Não se mostra um local de passagem, mas sim um lugar de permanência. Comecei a frequentá-lo recentemente, provavelmente nos últimos dois anos, e o espaço é frequentado por pessoas que ocupam a rua e desfrutam dela ao som de músicas reproduzidas por carros, em suas rodas de amigos, com bebidas e cigarros. Alguns dos esta-belecimentos são frequentados por mais pessoas, de onde saem músicas que se misturam com aquelas dos carros e também dos outros estabelecimentos, tudo isso misturado ao som das con-versas das pessoas de todos os lugares. O local havia sido alvo de repressão policial, em uma situação onde as pessoas foram dispersadas com bombas de gás e balas de borracha8. Me

per-guntava como um local já bastante saturado de sons se compor-8. Informações disponíveis em [https://ndmais.com.br/noticias/video-confusao-entre-pm-e--publico-marca-noite-de-sexta-feira-no-centro-de-florianopolis/] e [https://www.nsctotal. com.br/noticias/confusao-na-av-hercilio-luz-em-florianopolis-mostra-que-modelo-ideal-ain-da-nao-foi], acessados dia 6 de janeiro de 2020, às 14h40min.

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taria diante de uma performance com mais sons? Quais espa-ços nos conseguiríamos ocupar entre tantas pessoas? Poderia o poder policial intervir na performance que aconteceria neste espaço?

A intervenção aconteceu na rua Victor Meirelles, em frente ao bar Madalena, próximo à esquina com a avenida Hercílio Luz, Centro, no dia 27 de setembro de 2019 (sexta-feira) por volta das 23h, horário que apresentou uma concentração considerá-vel de pessoas na rua. A performance de improviso de sapatea-do em círculo seria feita por B1, B2, B3 e D1, com a colaboração de A1, A2 e P1, e teve duração de 5min6s. O posicionamento das câmeras foi dado de acordo como mostra a figura 9.

Figura 9: situação das câmeras no Ensaio de Intervenção Performática nº 3

ENSAIO DE INTERVENÇÃO PERFORMÁTICA Nº 4

No acesso à praia do Campeche, ao final da avenida Pe-queno Príncipe, a urbanidade de interesse para a intervenção acontece sob condições climáticas favoráveis ao usufruto da praia: sol e calor. Quando numa época de férias ou feriado, me-lhor ainda. O que levou a escolha foi uma recordação de situa-ção parecida com a do Estreito: pessoas andando em diresitua-ção a um destino final. Nesta situação, não se configurava um grupo de pessoas tão denso, mas sim, pequenos grupos espaçados, po-rém com a mesma intenção de chegar à faixa de areia. Alguns poucos grupos andavam na direção contrária, após já usufruí-rem do espaço, pois já se tratava do final da manhã, mas a gran-de maioria seguia no mesmo sentido. Ao chegar no ponto gran-de divisão do calçamento para a faixa de areia da praia, alguns dos grupos faziam uma rápida contemplação do visual ou um reco-nhecimento do ambiente, enquanto outros pulavam esta etapa e já desciam para encontrar algum lugar para se instalar. Den-tro dessas condições recordadas, me perguntava: a intervenção proposta poderia competir olhares com este visual tão espeta-cular? Este fluxo de pessoas poderia ser modificado situando uma performance no mesmo espaço?

A intervenção aconteceu no acesso praia do Campeche, no final da avenida Pequeno Príncipe, ao lado do restaurante “Pe-queno Príncipe” sobre um deck de madeira9, Campeche, no dia

17 de novembro de 2019 (domingo) por volta das 12h20min, horário que normalmente apresenta movimento na praia. É vá-lido ressaltar que procurou-se fazer a performance em um dia 9. A escolha foi dada por razão semelhante à escolha do Encontro de Ativação nº1. Conforme Lewis (2016), o piso de madeira flutuante é o tipo de chão ideal para a prática do sapateado.

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ensolarado próximo a um feriado, buscando assim condições que favorecessem a procura por este espaço de lazer. A perfor-mance de improviso de sapateado em círculo seria feita por B1, B2 e D1, com a colaboração de A1 e A6 para o registro, e teve duração de 3min35s. O posicionamento das câmeras foi dado de acordo como mostra a figura 10.

ENSAIO DE INTERVENÇÃO PERFORMÁTICA Nº 5

Por último, a praça Bento Silvério, na Lagoa da Concei-ção, me vinha na memória ao final da tarde de um domingo, com a instalação de tendas e barracas. Vários artigos e comidas eram vendidos para passantes, que perambulavam de um lado pro ou-tro, sempre de olho no que o próximo vendedor tinha a ofere-cer. Enquanto muitas pessoas circulavam, outras usufruíam do espaço sentadas em bancos. De acordo com as minhas recorda-ções, o ritmo destes passantes, no entanto, não correspondia ao ritmo dos passantes da rua Conselheiro Mafra, por exemplo. Figura 10: situação das câmeras no Ensaio de Intervenção Performática nº 4

Fonte: Geoprocessamento da Prefeitura de Florianópolis

Na praça, o andar já é mais desacelerado, correspondente ao domingo, sem grandes compromissos: se aproximando de uma permanência, como na rua Victor Meirelles. Apesar de ser um local de consumo, olhar e admirar o que se está a venda já pa-recia bastar. Poderia ser colocada como o destino final, como no caso do Estreito e da praia do Campeche, sendo um caso de permanência e, ao mesmo tempo, permitindo a passagem de pessoas. Qual seria o impacto neste espaço ou nesta movimen-tação não tão agitada ao se deparar com uma intervenção de sapateado? Que tipo de transformação poderia acontecer nes-sa dinâmica?

Figura 11: situação das câmeras no Ensaio de Intervenção Performática nº 5 Fonte: Geoprocessamento da Prefeitura de Florianópolis

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A intervenção aconteceu no meio da praça Bento Silvé-rio, entre as tendas e barracas montadas, Lagoa da Conceição, momentos antes da apresentação de uma banda, no dia 17 de novembro de 2019 (domingo) por volta das 17h10min, horário de funcionamento da feira. A performance de improviso de sa-pateado em círculo seria feita por B1, B2, B3 e D1, com a cola-boração de A1 para o registro, e teve duração de 5min32s. O posicionamento das câmeras foi dado de acordo como mostra a figura 11. Especialmente neste ensaio, a câmera de celular em terceira pessoa não foi operada por um assistente devido à fal-ta de disponibilidade, posicionando então a câmera apoiada em uma árvore.

Acredita-se que a metodologia proposta nesta pesquisa foi bem sucedida, pois os registros audiovisuais apresentaram uma qualidade consideravelmente boa tanto de som quanto de imagem, permitindo que fosse feita a análise das alterações nas dinâmicas e dos acontecimentos durante cada uma das inter-venções. A gravação de áudio com as impressões dos bailarinos também foi fundamental para, além de pegar as impressões de cada um no exato momento após a performance, registrar com detalhes o que fora ouvido das reações das pessoas, que even-tualmente as câmeras não puderam captar e que possivelmente fossem ser esquecidas.

R E S U LTA D O S E

D I S C U S S ÃO

ENCONTROS DE ATIVAÇÃO ENSAIOS DE INTERVENÇÃO

PERFORMÁTICA CLASSIFICAÇÃO DAS SITUAÇÕES

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Figura 18: dinâmica no Encontro de Ativação nº 1 - material de pesquisa ENCONTRO DE ATIVAÇÃO Nº 1

Parque Linear do Córrego Grande 9 de junho de 2019 - 16h

As dinâmicas corporais propostas ao grupo fizeram parte ainda do processo de conhecimento e debate sobre corpo e espaço levantado na reunião inicial. Foram exercícios que en-globaram diferentes sensações e impressões, envolvendo o trabalho com auto confiança, tensão e relaxamento, atenção, desconforto e exposição. É importante dizer que, no momento em que as dinâmicas foram realizadas, havia poucas pessoas passeando pelo parque, algumas paravam e observavam, outras comentavam sobre. Especialmente nas dinâmicas de sapatea-do, algumas pessoas mostravam espanto e interesse por esta forma de expressão.

Toda a parte que foi exercitada com os corpos teve sua im-portância no processo de trabalho e formação de grupo, mas a realização delas neste espaço me chamou a atenção, principal-mente pela participação desses raros passantes que frequenta-vam o local. Crianças, em geral, mostrafrequenta-vam uma admiração pelo ato de dançar e sapatear naquele espaço. Essas reações ainda não direcionavam o rumo da pesquisa para a cidade, mesmo que o trabalho estivesse sendo feito em um espaço dela. No en-tanto, já despertava o interesse e chamava a atenção para este fenômeno de surpresa, estranhamento e fascínio e como a con-figuração espacial das pessoas naquele espaço revelava isso.

Referências

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