UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
FÁBIO UGALDE DOS SANTOS
A EFETIVAÇÃO DO DIREITO À SAÚDE COMO DIREITO FUNDAMENTAL
Ijuí (RS) 2014
FÁBIO UGALDE DOS SANTOS
A EFETIVAÇÃO DO DIREITO À SAÚDE COMO DIREITO FUNDAMENTAL
Artigo científico apresentado ao Curso de Graduação em Direito, objetivando a aprova-ção no componente curricular Monografia. UNIJUÍ – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.
DCJS – Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.
Orientadora: Ms. Eloísa Nair de Andrade Argerich
Ijuí (RS) 2014
A EFETIVAÇÃO DO DIREITO À SAÚDE COMO DIREITO FUNDAMENTAL1
Fábio Ugalde dos Santos2 Eloísa Nair de Andrade Argerich3
RESUMO
O presente artigo analisa a efetivação do direito à saúde como um direito fundamental e social em face da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CF/88). Aborda, outrossim, aspectos referentes ao significado do conceito de saúde, sua importância, bem como a necessidade de ser efetivada pelo Estado. Busca, também, verificar a importância da atuação do Poder Judiciário nos casos em que o Estado não cumpre com suas obrigações, haja vista que o direito à saúde está fundamentado no princípio da dignidade da pessoa humana e, por isso, está obrigado a lhe dar efetivação. Tece, ainda, considerações quanto ao entendimento de que o direito à saúde é um direito social, inserido nos arts. 6º e 196 da CF/88, tornando-se, assim, um direito subjetivo e oponível contra o Estado, obrigando-o ao atendimento e fornecimento de tratamento adequado a toda população.
Palavras-chave: Saúde. Constituição. Dignidade da pessoa humana.
ABSTRACT
This article analyzes the realization of the right to health as a fundamental social right and in the face of the Constitution of the Federative Republic of Brazil 1988 (CF/88). Addresses, likewise, aspects concerning the meaning of the concept of health, its importance and the need to be executed by the State. Search also verify the importance of the role of the judiciary in cases where the State does not meet its obligations, given that the right to health is based on the principle of human dignity and, therefore, is bound to give you effectiveness. Weaves also considerations in understanding that the right to health is a social right, inserted in the arts. 6 and 196 of CF/88, thus becoming a subjective and rights against the state, forcing him to care and providing appropriate treatment to the entire population.
Key words: Health Constitution. Human dignity.
INTRODUÇÃO
O objetivo desta pesquisa bibliográfica é demonstrar a importância da intervenção do Poder Judiciário na efetivação do direito à saúde, especialmente
1
Artigo científico apresentado ao Curso de Graduação em Direito, objetivando a aprovação no componente curricular Monografia. Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí), Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais (DCJS), jan./2014.
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Acadêmico do curso de Graduação em Direito da Unijuí. 3
quando não há efetivação via administrativa. Em função da sua relevância observa-se que observa-se trata de um direito considerado não apenas fundamental, mas também social, uma vez que está inserido no texto constitucional vigente.
O estudo é do tipo exploratório, pois realiza a coleta de dados em fontes bibliográficas e jurisprudenciais, disponíveis nos meios físicos e na rede de computadores.
Nesse sentido, são abordados aspectos referentes à história dos direitos humanos, evoluindo para as garantias na área da saúde, considerada, a partir disso, um direito do cidadão e dever do Estado.
Ademais, o estudo expõe um tema muito difundido atualmente, pois a saúde foi elevada a direito fundamental com a promulgação da CF/88. Passa, então, a se constituir em um direito subjetivo prestacional que,na condição de direito de defesa, resguarda o titular contra ingerências ou agressões que constituam interferências e ameaças à saúde, sejam oriundas do Estado ou de atores privados, limitando a atuação estatal e possibilitando ao cidadão acionar judicialmente o Estado quando seus direitos não forem atendidos.
É indispensável, também, adentrar no aspecto conceitual, pois o termo saúde definido pela Organização das Nações Unidas (ONU) passa a representar praticamente todos os direitos, numa visão holística, entendendo que não terá saúde quem, mesmo não sendo clinicamente diagnosticado como doente, não tenha salário capaz de atender às suas necessidades vitais básicas e às de sua família.
Nesta pesquisa analisa-se o direito à saúde em virtude de milhares de pacientes não terem este direito constitucional atendido pelas vias administrativas. Decorre daí que uma parcela expressiva de indivíduos procura no Poder Judiciário o cumprimento de seu direito, uma vez que todos são iguais perante a lei, como assegura o art. 5º da CF/88.
Discute-se, ainda, que o direito à saúde está fundamentado no princípio da dignidade da pessoa humana, que é ofendido quando o Estado não cumpre com sua função de atendimento material aos cidadãos para que tenham uma existência digna. Neste caso, muitas pessoas são submetidas a condições de penúria, vivendo como objetos do Estado e não como sujeitos de direitos, que é o que garante a Carta Magna.
Finalmente, apresenta-se o direito à saúde como um direito social, uma vez que passou de fundamental primordial à categoria de dignidade da pessoa humana, sendo, portanto, imprescindível à vida digna. Observa-se, assim, que a saúde é considerada um direito social, previsto no art. 6º da CF/88, e foi eleita como “direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”, conforme prevê o seu art. 196.
O tema é de extrema importância, pois antes de 1988 a saúde era considerada um problema pessoal, sendo que cada família tinha que prover a sua saúde e, no caso de um processo patológico de longa duração, emergência ou de extrema gravidade, as finanças do grupo familiar poderiam ruir completamente.
As considerações finais encerram o estudo, enfatizando a importância da gestão pública da saúde a fim de que os cidadãos tenham essa necessidade primária atendida pelo Estado. Salienta-se, ainda, que os cidadãos têm o direito de exigir seu direito à saúde caso este lhe seja negado, o que leva irremediavelmente à intervenção do Poder Judiciário nas políticas públicas.
SAÚDE: DIREITO FUNDAMENTAL
A compreensão do conceito de saúde e da importância do direito a uma vida saudável são temas primordiais para a realização deste estudo, razão porque se busca conceitos aceitos mundialmente. Neste sentido, Schwartz (2001, p. 35, grifo do autor) afirma que:
[...] o marco teórico-referencial do conceito de saúde foi erigido em 26 de julho de 1946. O preâmbulo da Constituição da Organização Mundial da Saúde (OMS), órgão da ONU, refere que a Saúde é o completo bem-estar
físico, mental e social e não apenas a ausência de doenças. Tal conceito é
o primeiro princípio básico para a felicidade, as relações harmoniosas e a segurança de todos os povos.
Isso significa que o ser humano goza de saúde quando dispõe de bem-estar em todos os sentidos, ou seja, ele tem que estar bem física, mental e também socialmente, pois somente dessa forma poderá alcançar a tão almejada felicidade.
Estudos revelam que a partir do século 19 tem-se adotado um conceito para identificar saúde, elaborado a nível global pela Organização Mundial da Saúde (OMS), órgão da ONU, que atualmente congrega a maioria dos países. A respeito desse conceito assevera Pilau Sobrinho (2003, p. 124):
[...] deve existir uma qualidade para o equilíbrio interno do homem com o meio ambiente. Essa definição da OMS também integra um conceito positivo e outro negativo: o primeiro trata da promoção do bem-estar e o segundo, da ausência de enfermidade.
Destaca-se que o homem é parte integrante do meio ambiente e que não há como dissociá-los. A relação do homem com o meio em que vive faz parte da sua história primitiva, que surgiu quando a natureza ainda estava intacta. A vida do homem depende do meio ambiente, isto é, a vida humana tem qualidade enquanto o meio ambiente for preservado e, quando este fica degradado, sua saúde fica comprometida. Observe-se, portanto, que a promoção do bem-estar e, consequentemente, da ausência de enfermidades é fundamental para a geração do equilíbrio interno do homem com o meio ambiente.
A palavra saúde apresenta a ideia de ausência de enfermidade física, mas, com certeza, não é só isso. A OMS, visando elaborar um conceito completo, reconhecido mundialmente, percebeu que a saúde deve ser analisada sob três planos: físico, mental e social. Ressalta-se que seria interessante que os governantes trabalhassem com esse conceito, pois saúde é um termo complexo e exige ações integradas em todas as áreas públicas. Não existe saúde, por exemplo, se o ar estiver poluído, se não tiver saneamento básico ou água tratada.
Consciente disso, a população busca, cada vez mais, alcançar a mínima qualidade de vida, o que inacreditavelmente milhões de pessoas ainda não têm, haja vista que muitas ainda vivem em condições de extrema pobreza.
Acerca do conceito de saúde, Schwartz (2001, p. 57, grifo do autor) enfatiza:
[...] pode-se afirmar que o corolário de princípios, regras, normas, e leis referentes ao sistema sanitário brasileiro corroboram a ideia de que a saúde é direito fundamental do homem, tornando a norma do art. 196 da CF/88 autoaplicável e de eficácia imediata. Que as políticas públicas de saúde são o meio primeiro de efetivação deste direito (conforme a locução do texto constitucional expressa em seu artigo 196), e que a atuação do Poder Judiciário ocorre em um momento posterior, onde se constata a não ação ou inércia estatal na proteção do direito à saúde.
Assiste razão ao autor quando afirma que a saúde é um direito fundamental e primordial, pois dele derivam todos os outros. O Poder Judiciário presta a jurisdição em um segundo momento, em regra, quando o Poder Executivo não atende as necessidades da população, a qual recorre a ele em busca de seus direitos.
Cabe ressaltar, no entanto, que o Brasil está atingindo um nível mais elevado de desenvolvimento, passando de país subdesenvolvido, como era tratado até o final do século passado, para nação emergente. Cada vez mais pessoas migram de uma classe para outra, melhorando sua qualidade de vida. Há melhora em vários quesitos, como a distribuição de água tratada, redes de energia elétrica, saúde e educação, entre outros. Mas, deve-se mencionar que muitos brasileiros ainda não conseguiram atingir um patamar de autossuficiência que lhes possibilite uma melhoria nas condições de vida.
Isto leva tempo, pois há inúmeras barreiras a serem superadas, dentre as quais estão a dimensão continental do país, o crescimento desestruturado da população e as diferenças culturais, as quais não servem de pretexto para que grande parte da população ainda viva em situação de extrema pobreza, como se constata nos dados a seguir transcritos.
Conforme dados da Agência Brasil (O ESTADO DE SÃO PAULO, 2013), há cerca de 16,2 milhões de brasileiros vivendo em situação de pobreza extrema, equivalendo a 8,5% da população. Estes dados foram obtidos junto ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a partir da linha de extrema pobreza definida pelo governo federal.
Os dados compreendem as pessoas com renda mensal de até R$ 70,00 (setenta reais) por pessoa da família. Destes, 8.674.845 vivem na região urbana e 7.593.352 na zona rural. Quanto à faixa etária, há um predomínio entre 5 a 14 anos, com 27,90%, e entre os 20 a 39 anos, com 27,60%, o que somado às outras faixas, totaliza 16.267.197 em uma população de 190.755.799. O Nordeste concentra uma grande parcela dessa população, ou seja, 9.609.803 de indivíduos, distribuídos entre os Estados do Maranhão, Piauí e Alagoas, os quais registram os maiores índices de pobreza do país (O ESTADO DE SÃO PAULO, 2013).
Quanto à cor, essa população é predominantemente parda (61,90%) e preta (9%), mas registre-se que 26,10% são de cor branca. Isto significa que pobreza não tem cor, embora a escravidão e sua abolição não assistida levassem grande parte
dos ex-escravos para a miséria, cuja situação somente agora está demonstrando sinais de superação.
Para chegar a estes dados, o IBGE levou em consideração o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que, além do rendimento, leva em conta a existência de banheiro nas casas, o acesso à rede de água e esgoto e também energia elétrica, além do índice de alfabetização e a idade.
Em vista disto, atualmente, o Brasil é citado por instituições internacionais como exemplo de país que conseguiu reduzir a pobreza e a desigualdade, conforme expressam Bortolon e Schmidt (2013, p. 5), editores do Jornal Correio do Povo:
O Banco Mundial (Bird) definiu um prazo para acabar com a pobreza extrema: o ano de 2030. Em meio ao maior crescimento dos países emergentes, o percentual de pessoas vivendo na pobreza extrema atingiu níveis recordes de baixa, mas ainda há 1,2 bilhão de pessoas vivendo com menos de 1,25 dólares por dia. “Pela primeira vez na história nos comprometemos em estabelecer uma meta para acabar com a pobreza”, disse o presidente do Bird, Jim Yong Kim. O Brasil foi citado como exemplo de país que conseguiu reduzir a pobreza e a desigualdade.
Constata-se que para alcançar essas metas, o Brasil precisa dar efetivação ao previsto no texto constitucional. Nesse sentido, a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CF/88) estabelece direitos e garantias fundamentais, tutelando direitos individuais e coletivos, os quais são tantas vezes acionados judicialmente diante da inércia dos governantes, que não cumprem o que nela está determinado. O art. 5º da CF/88 estatui que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade [...].”
Assim, o direito à saúde se torna um direito subjetivo prestacional e oponível ao Estado, obrigando-o ao atendimento e fornecimento de tratamento adequado a toda a população que dele necessite.
Após enumerar os direitos e deveres individuais e coletivos, independentemente do gênero, a CF/88, em seu capítulo II, art. 6º, segue elencando os Direitos Sociais, em que a educação se encontra em primeiro lugar, seguida da saúde, o que não significa que algum deles tenha importância menor.
O Princípio da Igualdade foi insculpido na CF/88 por intermédio do art. 5º, inc. I, o qual prevê que “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos
termos desta Constituição”, garantindo respaldo a todos os que não têm seu direito à saúde respeitado (a exemplo dos demais direitos). Dessa forma, poderão exigir a sua realização pelo Estado e, quando não forem atendidos, buscar o cumprimento dessa garantia constitucional por intermédio do Poder Judiciário.
Importante destacar que direitos e garantias parecem, num primeiro momento, ser algo semelhante ou igual. Contudo, não teria sentido falar em direito se não houvesse garantia de sua efetivação. Por isto mesmo se pode afirmar que um decorre do outro. Em vista disto, Miranda (apud MORAES, 2009, p. 34) procura diferenciar os termos, afirmando que “[...] os direitos declaram-se, as garantias estabelecem-se.” A existência dos direitos, principalmente dos fundamentais, são uma necessidade e uma evidência. No entanto, nem sempre o direito é respeitado. Já as garantias são consideradas instrumentos colocados à disposição dos cidadãos para exigir do Estado a sua concretização. No entendimento de Moraes (2009, p. 33) traduzem-se “[...] no direito dos cidadãos a exigir dos poderes públicos a proteção dos seus direitos, quer no reconhecimento de meios processuais adequados a essa finalidade (exemplo: direito de acesso aos tribunais para defesa dos direitos) [...].”
Evidencia-se, porém, que o direito vem primeiro, sendo a garantia a sua salvaguarda. Efetivamente, no dia a dia, direitos são desrespeitados a todo instante. Isto não significa que se vive em um estado de desrespeito à lei ou de opressão. Existem garantias de que, muitas vezes, os direitos podem ser buscados com assistência judiciária gratuita, se for o caso de pessoas de baixa renda, ou que comprovem que não podem arcar momentaneamente com as custas processuais sem prejuízo à própria mantença, em conformidade com a Lei nº 1.060/50.
Não se pode deixar de mencionar, ainda, que a Defensoria Pública está à disposição das pessoas hipossuficientes ou vulneráveis economicamente, prestando-lhes serviços de assistência judiciária gratuita, conforme determina a CF/88 em seu art. 5º, inc. LXXIV: “o Estado prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos.” Ressalta-se que a Defensoria Pública é responsável por grande parte das ações judiciais com pedido de medicamentos e tratamento médico em geral.
Para que a vida das pessoas seja respeitada, assim como os seus direitos, existem as normas constitucionais que, conforme Puccinelli Júnior (2012), diferem das regras morais, religiosas, sociais, costumeiras, de etiqueta, de boas maneiras ou boa educação, que são requisitos de portar-se bem em sociedade. Rui Barbosa já
advertia que as normas constitucionais eram dotadas de imperatividade e que não podiam ser confundidas com o valor moral dos conselhos, avisos ou lições. Mesmo assim, Puccinelli Júnior (2012, p. 107) expressa que “todas têm a força imperativa de regras, ditadas pela soberania nacional ou popular de seus órgãos.”
As normas jurídicas, cuja validade está sendo reconhecida atualmente em toda a extensão, nem sempre foram reconhecidas, adverte Puccinelli Júnior (2012, p. 107), ao constatar que “por muito tempo campeou o entendimento de que certa parcela das normas constitucionais representava mero ideário político, desprovido de sanção e de força normativa para conformar a legislação ordinária.” Apesar disso pode-se constatar que as normas constitucionais apresentam diferenças e classificações com relação à sua eficácia.
Silva (2011) esclarece que as normas constitucionais se subdividem em três categorias: normas de eficácia plena, de eficácia contida e de eficácia limitada. Por ora este estudo se limita a explicar as normas de eficácia plena, porque entre elas estão os comandos constitucionais que o embasam.
O legislador estabeleceu e regulou ações positivas e negativas por intermédio de comandos completos, exatos e precisos, aplicáveis e exigíveis imediatamente à entrada em vigor da CF/88. Tais comandos não carecem de lei regulamentadora e, nessa categoria encontra-se, por exemplo, o art. 5º, § 1˚, que estatui que as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata.
Desta forma, os direitos fundamentais previstos na CF/88 são subjetivos, relativos a todos os cidadãos, com aplicabilidade imediata, entre os quais se encontra o direito à vida e, consequentemente, à saúde. Em obediência a estes comandos, o Estado deve oferecer e prestar tratamento de saúde completo e eficiente a toda a população necessitada. Sabe-se, todavia, que as pessoas que necessitam de tratamento de saúde pelo Sistema Único de Saúde (SUS) enfrentam grandes dificuldades, dentre elas, a demora no atendimento, sendo que, em alguns casos, uma cirurgia pode ser agendada com a espera de vários anos4
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Assim, para fazer valer os seus direitos, alguns cidadãos, quando não atendidos dentro do tempo aceitável como o caso requer, recorrem ao Poder Judiciário.
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A propósito, o noticioso Bom Dia Brasil divulgou em 11 de dezembro de 2013, que o tempo de espera por cirurgias nos seis hospitais federais no Rio de Janeiro pode levar até sete anos, tendo em vista que 12.548 pessoas aguardam por uma cirurgia.
Não é demais referir também que, ao falar em saúde, está se falando diretamente do direito à vida. Pode-se, então, afirmar que o direito à vida é o mais importante de todos os direitos fundamentais tutelados pela Carta Magna e, em sua decorrência está o direito à saúde, considerado um direito social, que tem como fundamento a dignidade da pessoa humana.
Nesse sentido, sustenta Moraes (2009, p. 35-36, grifo do autor) que:
[...] garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à propriedade. O direito à vida é o mais fundamental de todos os direitos, já que se constitui em pré-requisito à existência e exercício de todos os demais direitos. A Constituição Federal proclama, portanto, o direito à vida, cabendo ao Estado assegurá-lo em sua dupla acepção, sendo a primeira relacionada ao direito de continuar vivo e a segunda de se ter vida digna quanto à subsistência.
Naturalmente que, ao mencionar a dignidade da pessoa humana, o autor supracitado referiu que, para ter um mínimo existencial, o homem precisa conviver em um ambiente que lhe possibilite o desenvolvimento na sua plenitude, ou seja, vida implica saúde, saúde implica alimentação adequada, alimentação implica trabalho. E, isso se constitui nos chamados direitos oriundos do Estado.
O direito à vida está inserido na CF/88, em seu art. 5º. Segundo Moraes (2009, p. 35), este é o mais fundamental de todos os direitos, por ser o pré-requisito à existência e ao exercício de todos os outros. Como já mencionado, a vida é um bem supremo, isto é, o bem maior que todos possuem; consequentemente, o direito à vida é fundamental, tutelado pela Carta Magna.
Cabe ao Estado assegurar o direito à vida, garantindo as condições para uma vida digna. Primeiramente, o Estado deve dar garantias para que as pessoas continuem vivas, não tendo sua vida ameaçada. Num segundo momento, é preciso oferecer as condições para que esta vida não seja meramente vegetativa, mas plena, tendo assegurados os direitos constitucionais.
Desta forma, o art. 7º, inc. IV, da CF/88 estabeleceu, nos Direitos Sociais “salário mínimo [...] capaz de atender a suas necessidades vitais básicas, e às de sua família, com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social [...].”
A ênfase que a CF/88 dá a esses direitos sociais é tamanha que, muitas vezes, chega a repetir alguns itens do seu art. 6º. Realmente, se ao adulto for
garantido trabalho e este proporcionar um retorno que permita o seu acesso a todos estes itens, ter-se-á um país em condições de oferecer uma vida digna a todos. Caso contrário, a Lei Máxima permanecerá letra morta, exigindo que os brasileiros lutem pelos seus direitos. Ora, escrever um texto magnífico como o da Constituição Federal de 1988, foi um bom trabalho dos constituintes. Exigir, porém, a garantia desses direitos faz parte da luta de todos os brasileiros, em especial daqueles que se encontram em condições de vulnerabilidade, como demonstram os dados anteriormente expostos.
Observa-se que, na percepção de Figueiredo (2007, p. 47), a noção da dignidade da pessoa humana tem origens históricas em várias filosofias, desde Lao-Tse e Confúncio, antes de Cristo, que falavam do homem como “grande e perfeito”, chegando a Kant, na Era Moderna, que colocava a autonomia do homem na raiz da dignidade da pessoa humana.
Importante destacar que o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana está inserido em lugar especial na CF/88, ou seja, em seu art. 1º, inc. III, como um Princípio Fundamental, constituindo-se num direito de todas as pessoas, sem distinção. Depreende-se daí que no Humanismo, o ser humano passou a ser o centro do universo, valorizando-se sua autonomia, sua razão e, em suma, sua dignidade.
Registre-se ainda, segundo Figueiredo (2007, p. 49), que após a II Guerra Mundial foi elaborada a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) pela Organização das Nações Unidas (ONU), consagrando “[...] a dignidade da pessoa humana como valor fundamental da ordem jurídica [...].” Ser pessoa humana, portanto, significa ter dignidade e ser sujeito de direitos.
A dignidade da pessoa humana, a partir da DUDH, tornou-se algo inerente ao ser humano, sendo, inclusive, considerada irrenunciável. Isto implica valorizar a própria dignidade e, ao mesmo tempo, reconhecer e respeitar a das outras pessoas.
Ainda de acordo com Figueiredo (2007, p. 60), existe íntima relação entre os direitos fundamentais e a dignidade da pessoa humana. Por esta razão, quando se ofende um direito fundamental está se aviltando a dignidade da pessoa humana. Na verdade, a dignidade da pessoa humana é que justifica a existência de leis para garantir este direito.
Outro direito elencado no art. 6º da CF/88, ao estabelecer os Direitos Sociais, é o direito à saúde, diretamente ligado ao Princípio da Dignidade da Pessoa Humana:
Art. 6º. São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.
Em vista disso, não restam dúvidas de que os direitos sociais são também fundamentais em relação aos demais direitos, pois a dignidade da pessoa humana está atrelada à conjugação de vários fatores, entre eles o fato de o cidadão poder contar com alimentação adequada, considerada um dos sustentáculos da saúde, direito de todos e dever do Estado.
Nesse diapasão, o art. 196 da CF/88 expressa que:
Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.
Assim, não deveria haver dificuldade para o cidadão usufruir desse direito básico e elementar. Ressalta-se que o homem é um ser social e dependente do poder estatal, pois muitas pessoas não conseguem com seus parcos recursos ter acesso à saúde, em especial quando se trata de doenças graves, terminais ou relativas à idade avançada. Neste caso, o Estado precisa intervir e, se isso não acontecer, o cidadão poderá recorrer ao Poder Judiciário a fim de garantir esse direito.
Desta forma, é obrigação estatal efetivar as políticas públicas na área da saúde, de maneira plena, adequada, completa e integral, conforme previsto no art. 198, inc. II, da CF/88, que está assim redigido:
Art. 198. As ações e serviços públicos de saúde integram uma rede regionalizada e hierarquizada e constituem um sistema único, organizado de acordo com as seguintes diretrizes:
[...]
II - atendimento integral, com prioridade para as atividades preventivas, sem prejuízo dos serviços assistenciais; [...].
Em cumprimento ao estabelecido no inc. I, do art. 198 da CF/88, que determina a “descentralização, com direção única em cada esfera de governo”, o SUS é gerido pelos municípios em seus territórios, por intermédio de suas Secretarias, que trabalham em sintonia com a Secretaria Estadual. Esta, por sua vez, administra e gerencia os programas do Ministério da Saúde em seus respectivos Estados, formando uma cadeia administrativa solidária no intuito de assegurar maior eficiência na Saúde Pública.
A fim de melhor compreender a responsabilidade em dar atendimento aos cidadãos convém explicitar o que se entende por Estado: são todos os entes da federação, assim entendidos, a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios. Todos são solidariamente responsáveis, conforme determinam os arts. 23, inc. II, e 196, da CF/88, asseverando que os entes caminham para um verdadeiro federalismo cooperativo, que nada mais é do que atuar de forma integrada nas mesmas áreas de competências materiais. Inclui-se aqui o zelo pela saúde, a proteção do meio ambiente, entre outras competências.
Desta forma, caso o cidadão resolva acionar o Poder Judiciário em busca da assistência do Estado às suas necessidades, como tratamento de saúde ou obtenção de medicamentos, pode opor ação contra qualquer dos entes federativos, ou seja, contra o Município, Estado ou União5, haja vista que a responsabilidade entre estes entes é solidária.
Nesse sentido, colaciona-se parte da sentença prolatada pelo MM. Juiz de Direito, Dr. Juliano Rossi, em 5 de fevereiro de 2009, nos autos do processo nº 121/1.06.0000700-56, movida por um cidadão diante do Estado do Rio Grande do Sul, em razão da necessidade de uso contínuo de medicamentos que não lhe foram concedidos pelas vias administrativas.
[...] não verifico qualquer violação ao princípio da separação dos poderes ou ao princípio da legalidade orçamentária, porquanto o que se busca é a plena satisfação de um direito fundamental do cidadão, cuja obrigação constitucional deve ser eficazmente cumprida pelas três esferas do Poder Público, sendo que alegação da ausência de recursos financeiros não pode se sobrepor a princípio que diz respeito com a própria dignidade da pessoa
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Uma vez acionado o Poder Judiciário em busca de assistência à saúde este deverá fazer valer o direito fundamental do cidadão, sendo a responsabilidade solidária entre os entes federativos. (Agravo de Instrumento nº 70053141693RS, 8ª Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator Alzir Felippe Schmitz, julgado em 05/02/2013).
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Processo nº 121/1.06.0000700-5 – Ação movida por Fábio Ugalde dos Santos contra o Estado do Rio Grande do Sul.
humana. A inobservância do direito à vida e à saúde, uma vez trazida ao Judiciário, exige decisão judicial que faça valer o direito fundamental do cidadão. (BRASIL, TJRS, 2013, grifo do autor).
Assim, torna-se prioridade do Poder Executivo o atendimento ao autor da Ação, naquilo que necessitar a fim de garantir a sua saúde, como medicamento, exame, etc. Em tempos não muito remotos, era comum famílias perderem tudo o que tinham para tratar da saúde de algum dos seus membros, acometido por uma doença prolongada. Com a garantia da saúde como direito fundamental fica assegurada a estabilidade econômica familiar, mesmo que a doença venha interromper a tranquilidade da família. A garantia constitucional de recorrer ao Poder Judiciário é, pois, um caminho alternativo no momento em que por vias ordinárias o cidadão não tem seu direito respeitado.
Nunca é demais salientar que os tempos mudaram e, especialmente com o advento da CF/88 – também chamada de Constituição Cidadã – não é mais chamado de “subversivo” quem reclama seus direitos. Ressalta-se, porém, que o fato de um direito estar escrito não significa que ele será efetivado. É apenas a garantia de que pode ser exigido e que faz parte da luta pela vida e pela dignidade da pessoahumana pleiteá-lo (FIGUEIREDO, 2007).
Na verdade, o povo brasileiro passou por duas longas ditaduras no século 20, e também por muitos momentos de instabilidade político-social. Com a redemocratização e o advento da nova Constituição acreditou-se que tudo estaria resolvido num passe de mágica. Esta Lei, entretanto, foi apenas o começo de uma nova era e um encorajamento para que os cidadãos assumam a luta e exijam os próprios direitos e a cidadania plena.
A tão desejada felicidade, todavia, e o tão almejado respeito aos cidadãos por parte dos gestores do Estado, ainda está longe de acontecer. Sua conquista pode demorar décadas, além do mais, depende da reeducação de todos, tanto dos cidadãos como dos governantes. Por enquanto, resta a busca do Poder Judiciário para fazer valer seus direitos, principalmente os definidos pela CF/88 como direitos fundamentais, o que fica claro nas palavras de Trezzi ao verificar que “[...] no campo de medicamentos, dos R$ 316 milhões gastos este ano pela SES do Estado do Rio Grande do Sul, R$ 192 milhões (64%) foram via judicial.” (SOUZA, 2013).
Cumpre esclarecer que cabe aos poderes públicos o atendimento das prestações sociais. Entretanto, ante a sua inércia, resta explícita a importância da
intervenção do Poder Judiciário na gestão da saúde pública que, em decorrência da atual configuração do Estado Democrático de Direito, tem sido o protagonista e responsável pela concretização dos direitos fundamentais e pela preservação da dignidade humana.
CONCLUSÃO
Ao realizar o presente estudo bibliográfico, percebeu-se que a CF/88 provocou mudanças que trouxeram benefícios à vida dos brasileiros, especialmente para aqueles que possuem problemas crônicos de saúde. Cumpre observar, no entanto, que há um espaço entre a idealidade da legislação, praticamente utópica no Brasil dos anos 1980, e o cotidiano dos brasileiros que procuram diuturnamente os serviços de saúde pública.
A partir das mudanças ocorridas na legislação e com a conscientização do povo acerca de seus direitos, os cidadãos passaram a buscá-los via administrativa e, quando não atendidos, uma parcela busca socorro na via judicial.
Na verdade, a mudança constitui-se em um novo paradigma para a saúde, em que os cidadãos brasileiros tiveram acesso a um melhor nível de cidadania, apesar de ainda não ser o ideal. Em outras palavras, o que a Lei prevê deveria ser disponibilizado a todos, cumprindo-se o texto constitucional que garante igualdade perante a Lei.
O presente estudo embasou-se em bibliografia atualizada que erige o direito à saúde como um direito fundamental e transcreveu parte de uma sentença prolatada por um Juiz que reconheceu o direito de um cidadão obter judicialmente uma medicação de uso contínuo, já que a mesma não foi dispensada mediante as vias administrativas.
A saúde, portanto, é um direito fundamental das pessoas e como tal é passível de proteção e tutela por parte do Estado. Neste sentido, ao longo da História, em especial no século 20, houve uma evolução paralela entre direito e cidadania, saúde, educação e segurança. Os cidadãos foram entendendo que o direito não é apenas uma letra morta, mas algo vivo, dinâmico, essencial para as suas vidas. Ao mesmo tempo, evoluiu a noção de que o ser humano é uma totalidade, não fragmentado e tampouco dividido em partes. Por essa razão ele
necessita que todas as suas necessidades sejam atendidas, a fim de ser uma pessoa humana completa.
Fica demonstrado, assim, que o direito à saúde está insculpido na CF/88 como um direito fundamental, e que deve ser disponibilizado a todos, de forma rápida e eficaz. Tendo em vista que diariamente milhares de cidadãos têm seu direito negado, a intervenção do Poder Judiciário se faz cada vez mais indispensável a fim de garantir esse direito constitucional, bem como para salvaguardar vidas.
Em suma, recorrer à Justiça deve ser o último recurso. O ideal é que a saúde seja efetivamente um serviço disponibilizado a todos os cidadãos. No caso de não ter seu direito atendido, entretanto, não resta alternativa a não ser apelar ao Poder Judiciário, como última esperança de ver seus direitos atendidos. Souza (2013, p. 36) recomenda, inclusive, que o paciente deve exigir o medicamento de que necessita, sem levar em conta o preço. Cabe ao governante, outrossim, administrar a questão do preço e gerenciar as políticas públicas para o atendimento das demandas sociais.
REFERÊNCIAS
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