O MST e a educação: perspectiva de construção de uma nova hegemonia
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(2) 2 UNIVERS IDADE FEDERAL DE P ERNAM BUCO CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM S ERVIÇO S OCIAL CURSO DE MESTRADO. SIMONE MARIA DE SOUZA. O. MST. E. A. EDUCAÇÃO:. PERSPECTIVA. DE. CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA HEGEMONIA. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Serv iço Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), como requisito parcial para obtenção do título de mestra, sob a orientação da Profª.Dr.ª Maria de Fátima Gomes de Lucena.. Recife, Abril de 2003.
(3) 3. BANCA EXAM INADORA:. ____________________________________________ Professora Drª. Maria de Fátima Gomes de Lucena. Programa de Pós -Graduação em Serviço Social da UFPE Pres idente da Banca. _________________________________________________. Professora Drª . Edelweiss Falcão de Oliveira. Programa de Pós -Graduação em Serviço Social da UFPE Titular Interna. __________________________________________________. Professora Drª . Franci Gomes Cardoso. Programa de Pós -Graduação em Serviço Social da UFMA Titular Externa.
(4) 4. Dedico a todas/os trabalhadoras/es que lutam pela construção de uma nova hegemonia..
(5) 5. AGRADECIMENTOS. A Maria de Fátim a Gomes de Lucena, m ais do que orientadora, am iga, sempre pres ente nos m omentos de dúvidas e reflexões s obre o objeto de es tudo, es timulando s empre a bus ca pelo novo para um a m elhor apreensão do real. Aos m eus pais, irm ãs, irm ão e a todos os meus fam iliares . A Cristiano Ramalho, por tudo de bom que vivemos juntos.. Às Coordenadoras do Coletivo Es tadual do Setor de Educação do MST/PE , Rubneuza, Ana Claúdia, Luci e Sueli. Às profess oras do Programa de Pós -Graduação em Serviço Social da UFPE, que contribuíram na minha formação acadêmica e profissional. Às colegas de turma (Ana Glória, Adriana, Andréa, Cristiane, Édrija, Fátim a, Gris elda, Janaína, Josenice, Miriam , Sérgio, Valdenice, Vitória e Yara). A Jacilene e a Gilberto, pela dedicação, carinho e atenção. A Nair Cas agrande, Kaliane Rocha e Em anuella Am orim pela acolhida. A Rubneuza Souza, por gentilmente ter-me cedido s eu importantíss im o trabalho monográfico. A Saulo Araújo, Marcelo Pereira, Luiz Cunha, Sheila Nadíria, Andréa Butto e a Luciana pela atenção no momento em que quase me faltaram as palavras para a conclusão dess e trabalho. E, ao Cons elho Nacional de Desenvolvim ento Científico e Tecnológico (CNPq), cujo apoio financeiro foi im pres cindível para o desenvolvim ento des ta pes quisa..
(6) 6. MARCHAR E VENCER Marchar é m ais do que andar É m os trar com os pés o que dizem os sentim entos Trans formar a quietude em rebeldia É traçar com os passos O roteiro que nos leva à dignidade sem lam entos. As fileiras com cordões humanos Mos tram os s inais dos ras tros perfilados Dizendo em s eu s ilêncio Que é precis o des pertar É colocar em movimento Milhões de pés s ofridos , humilhados em todo o tem po Sem temer tecer a liberdade. É nessas marcas de bravos lutadores Iniciam os a edificação de novos s eres cons trutores De um projeto que levará à nova s ociedade. Marchamos por saber que em cada coração há um a esperança Há um a chama des pertada em cada peito E a m esm a luz é que nos faz s eguir em frente É tecer a his tória ass im de noss o jeito. Marchar s e faz necessário Para espantar os abutres des ta es trada E cons truir sem medo o amanhecer. Pois se eterno s ão os sonhos Eterna também é A certe za de vencer.. Ademar Bogo.
(7) 7. RESUMO. Es ta diss ertação está inserida na linha de pesquisa Processos de Mobilização e Organização Popular, que tem com o área temática Serviço Social Ação Política e Sujeitos Coletivos . Realizada no Program a de Pós -Graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), buscam os analis ar com o o proje to político de educação do Movim ento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) tem contribuído para a cons trução de uma nova hegemonia. Para responderm os a tal ques tão, utilizam os com o ins trum ento de coleta de dados a análise de docum entos elaborados pelo MST, a participação em reuniões de organização e Encontro dos Sem Terrinha além da realização de entrevistas s emi-es truturadas com as coordenadoras do Coletivo Es tadual do Setor de Educação do MST/PE. Os resultados indicam que o MST, através de seu projeto político de educação, tem vislum brado a cons trução de uma nova hegemonia, ou s eja, um a nova form a de pensar e agir. Esse novo tem com o ins trum ento educativo as atividades coletivas des envolvidas dentro/pelo próprio Mo vim ento, no s entido de que, à medida em que as novas rela ções s ociais vão s e cons tituindo, cons olidem a propos ta de um a nova organização do trabalho es timulada pelo MST. Por fim , concluímos que es ta diss ertação é relevante por ser o MST um dos mais importantes m ovim entos s ociais da class e subalterna que tem conseguido aglutinar as dem ais frações de classe em torno de seu projeto político, vis lumbrando a construção de uma nova hegemonia.. Palavras-chave : Projeto Político, Educação, Hege monia.
(8) 8. ABS TRACT This diss ertation belongs to the mobilization process and popular organization line of res earch which has as a thematic area Social Work, Political Action and Collective Subjects . Carried out in the Pos t Graduation Social Work program at Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), we aimed at analys ing how an educational political project of the Landless Movem ent (Movim ento dos Trabalhadores Sem Terra – MST) has contributed for the cons truction of a new hegemony. To answer such a question we us ed as an ins trument of data collection the analys es of docum ents written by MST, the participation in organizational meetings and Sem Terrinha (Landless children) Meeting, a part from the application of s em i-s tructured interviews with the Collective State of the Educational Sector of MST/Pernambuco. It was found that MST, through its political educational project, has made it poss ible the cons truction of a new hegemony, lets s ay, a new way of thinking and acting, which has as an educational ins trum ent the collective activities developed in and by the Movem ent itself, in the sens e that, as far as the new s ocial relations are being built, cons olidate a proposal of a new Work organization s tim ulated by MST. At las t, we conclude that this diss ertation is relevant for the MST is one of the m os t im portant s ocia l m ovem ents of the less privileged class , which has been able to join the others fraction of class around its political project, having in m ind the cons truction of a new hegem ony.. Words-key: Project Political, Education, Hegemony.
(9) 9. LISTA DE SIGLAS ABR A- As s ociação Bras ileira de Reform a Agrária ACR- Ação dos Cris tãos no Meio Rural AJ A- Alfabetização de Jovens e Adultos ANCA- As sociação Nacional de Cooperação Agrícola CIMI- Conselho Indigenis ta Missionário CNBB- Conferência Nacional dos Bis pos do Brasil CONCRAB- Confederação das Cooperativas de Reforma Agrária do Bras il CONTAG- Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura CPAs - Cooperativa de Produção Agropecuária CPT- Comiss ão Pas toral da Terra CUT- Central Única dos Trabalhadores ENERA- Encontro Nacional de Educação na Reform a Agrária FETAPE- Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Pernam buco FUNDEP- Fundação de Desenvolvimento, Educação e Pes quis a IAA- Instituto do Açúcar e do Álcool IBRA- Ins tituto Bras ileiro de Reforma Agrária INCRA- Ins tituto Nacional de Colonização e Reform a Agrária INEP- Ins tituto Nacional de Pes quisa em Educação ITERRA- Ins tituto Técnico de Capacitação e Pesquis a da Reform a Agrária LDB- Lei de Diretrizes e Bases da Educação MASTEL- Mo vim ento dos Agricultores Sem Terra do Litoral do Paraná MASTEN- Mo vim ento dos Agricultores Sem Terra do Norte do Paraná MASTES- Movim ento dos Agricultores Sem Terra do Sudoes te MASTRECO- Mo vim ento dos Agricultores Sem Terra do Centro-Oeste do Paraná MASTRO- Movim ento dos Agricultores Sem Terra do Oes te do Paraná MEB- Mo vim ento de Educação de Bas e MEC- Minis tério da Educação e Cultura.
(10) 10 MER- Mo vim ento de Evangelização Rural MST- Movim ento dos trabalhadores Rurais Sem Terra OAB- Ordem dos Advogados do Bras il OIT- Organização Internacional do Trabalho ONG- Organização Não Governamental PC do B- Partido Comunis ta do Bras il PCB- Partido Comunis ta do Bras il PCI- Partido Com unista Italiano PDT- Partido Dem ocrático Trabalhis ta PNRA- Plano Nacional de Reforma Agrária POSDR- Partido Operário Social-Dem ocrata Russ o PRONERA- Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária PSB- Partido Socialista Brasileiro PSDB- Partido Social Democrático Brasileiro PT- Partido dos Trabalhadores SAR- Serviço de As sis tência Rural SORAL- Serviço de As s is tência Rural de Alagoas SORPE- Serviço de Orientação Rural de Pernambuco UDR- União Dem ocrática Ruralis ta UNE- União Nacional dos Estudantes UNESCO- Fundo das Organizações das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura UNICEF- Fundo das Organizações das Nações Unidas para a Infância.
(11) 11. SUM ÁRIO Introdução......................................................................................................12 Capítulo I – A Questão Agrária no Brasil e os Movimentos Sociais de Luta pela Terra.......................................................................................................16 1.1- - A Ques tão Agrária no Brasil..................................................................16 1.2 - A Ques tão Agrária em Pernambuco e as Relações de Trabalho..........21 1.3 - A Organização dos /as Trabalhadores/as a partir das Ligas Cam pones as ...................................................................................................23 1.4-. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)................27. 1.5-. O MST em Pernam buco......................................................................38. Capítulo II – Hegemonia : a Categoria de análise em questão.................43 2.1- O Conceito de Hegemonia......................................................................43 2.2 -O Conceito de Hegemonia em Gramsci..................................................48 2.3- O Projeto Hegemônico do MST..............................................................57 2.4- O Trabalho: categoria fundante do s er s ocial ........................................59 Capítulo III – O MS T e a Educação..............................................................66 3.1- A Criação do Cole tivo Nacional do Setor de Educação do MST............67 3.2- O Programa Nacional de Educação na Reform a Agrária (PRONERA)...................................................................................................73 3.3- O MST e a Educação em Pernam buco..................................................75 3.4- O MST e a Educação: perspectiva de cons trução de um a nova hegemonia.....................................................................................................79 3.4.1- O MST e a Educação: propos ição de uma nova organização do trabalho..........................................................................................................82 Conclusão ....................................................................................................93 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANEX OS.
(12) 12 INTRODUÇÃO. Es ta dissertação tem como objeto de es tudo o projeto político de educação do MST/PE. Bus camos responder com o o proje to político de educação do MST tem contribuído para a cons trução de um a nova hegemonia , es pecialmente na década de 90. A pes quis a diss ertativa é o desdobramento de noss a monografia: “A Experiência de Alfabetização de Jovens e Adultos do MST em Pernambuco”, apres entada ao Curso de Ciências Sociais (na área de Sociologia Rural), da Universidade Federal Rural de Pernam buco (UFRPE), no ano de 2001. O interess e em aprofundar os conhecimentos sobre o projeto político de educação do MST/PE, s urgiu da necessidade de analis á-lo a partir de um a abordagem sociológica, no sentido de ir além do enfoque pedagógico predominante na bibliografia sobre o tema da educação do MST. Por s ua ve z, o es tudo é im portante para o Serviço Social um a vez que trata de um m ovimento social de grande express ão no conjunto das lutas s ociais da class e trabalhadora. A análise passa a s er relevante também por compreenderm os que, mais do que fortalecer a gestão democrática da es cola, s e deve bus car universalizar o acess o ao ens ino, res gatar a propos ta de um a educação voltada para as atividades agropecuárias e valorizar as propos tas pedagógicas que des pertem a cons ciência crítica dos /as ass entados /as . Atra vés desse caminho o MST bus ca a cons trução de uma nova hegem onia, ou seja, a formação de uma nova cultura, contribuindo para uma nova forma de pens ar e agir. Por isso, a educação pass a a ser também um importante ins trumento de luta para a construção de uma nova sociedade. Para m udar o que es tá aí pres ente é necessário conhecer e isso s ó é poss ível através do acesso à educação, que não s e res tringe apenas ao es paço da es cola, m as tam bém deve abranger a utilização de um a pedagogia que perm ita fazer uma reflexão crítica da realidade. Sendo assim , a partir da apropriação do conhecimento trazido por pessoas comprom etidas com um projeto político, para.
(13) 13 que es te s eja difundido de form a intencional, a reivindicação e a formação de educadoras /es m ilitantes pass a a fazer parte da pauta de reivindicações do MST. Apes ar das dificuldades advindas das várias conjunturas econômicas e políticas, têm -se observado os avanços em term os de acesso à educação no MST. Em 1987, quando o Setor de Educação do MST s urgiu, as experiências de educação es tavam centradas nas Regiões Sul e Sudes te. A partir dos anos 90, essa realidade se modifica, pois as experiências citadas vão s er estendidas para as demais regiões . Inicialmente, no que se refere à Alfabetização de Jovens e Adultos (AJA). Pos teriormente, com o ens ino fundam ental, médio e algum as experiências de acesso às univers idades . O MST defende que garantir o acesso à educação é dever do Es tado, por isso reivindica ao m esm o o acesso dos /as ass entados/as à es cola, de preferência tendo com o educadoras /es pess oas que res idam no ass entam ento e que s ejam seus /uas m ilitantes . Quando isso não é poss ível, bus ca sensibilizar as /os profess oras /es do município para participarem de s uas capacitações , com bas e na articulação do conteúdo programático com seu projeto político. Com as reform as sofridas pelo Es tado, pass ando algumas de s uas responsabilidades para os governos es taduais e m unicípios , a gestão da educação vai sofrer algum as m odificações , s obretudo com a aprovação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), em 1996. A partir dis to, cabe aos municípios garantir o ens ino fundamental e, ao governo es tadual, o ens ino médio. A recepti vidade dos governantes às reivindicações do MST vai depender da relação que este Movim ento tem com o poder local, o que vai dificultar o acess o à educação as /os assentadas/os quando as prefeituras e governos estaduais es tão nas m ãos das oligarquias , diferentem ente de quando es tão nas mãos de forças políticas progress is tas. O res ultado des ta abertura é que, em Regiões com o Sul e Sudes te, exis te um m aior índice de curs os voltados à form ação de educadoras /es, a atividades agropecuárias , além de um m aior número de assentadas/os com acesso à educação de jovens e adultos e ensino fundam ental..
(14) 14 Todavia, m esmo com esses avanços , a es cola ainda s e depara com o ens ino m ultisseriado, rotatividade das /os profess oras /es e conteúdo es colar voltado para as atividades des envolvidas nas cidades . A relevância do es tudo dá-se tam bém pela perspectiva socialis ta enfocada por um movimento social da class e subalterna, através de um projeto de trans ição do capitalismo para o s ocia lismo. Desse modo, s e obs erva um a propos ta de reforma agrária articulada a uma nova organização do trabalho e. a. um a. educação que bus ca a s uperação do m odo de produção vigente, num momento em que se fala da cris e do m arxismo. Com o se sabe, muitos o consideram, enquanto teoria, ins uficiente para explicar a realidade. contemporânea. Daí, o. enfoque que tem s ido dado ao pluralism o metodológico enquanto form a de superação dos impass es colocados pela com plexificação da realidade social. Para responderm os à nossa ques tão de inves tigação, tomam os com o referência à realidade vivida pelo MST na luta pela cons olidação de s eu projeto político de reform a agrária, além de utilizam os a pesquis a bibliográfica, valorizando as monografias e dissertações realizadas s obre a educação do MST/PE, haja vis to que a maioria dos es tudos tem enfocado as realidades das Regiões Sul e Sudeste. Foram cons ultados , ainda, dados primários e s ecundários, além de analisarm os documentos elaborados pelo Movim ento e participarmos de reuniões de preparação de Encontros , como o VI e o VII Encontro dos Sem Terrinha de Pernam buco, realizados em 2001 e 2002. Ness es eventos , foi feita a defes a da educação, pública, gratuita e de qualidade, contida no bojo da luta do MST. Os dados secundários foram utilizados para complem entar as informações obtidas dando m aior objetividade à pesquis a. Vale salientar, ainda, que foram importantes para a ela boração de noss a diss ertação os trabalhos de Ros eli Salete Caldart, Mits ue Moriss awa, Bernardo Mançano, Nair Casagrande e Rubneuza. Es tes sis tematizam e regis tram a formação do MST, através da coleta de docum entos e entrevis tas das quais dis pus em os tendo em vis ta am pliar noss os dados ..
(15) 15 Além dessas atividades , para term os um a m elhor com preens ão das modificações e es tratégias do Movim ento na área de educação, buscam os entender também suas dificuldades , além de realizam os entrevis tas sem ies truturadas com as Coordenadoras do Coletivo Es tadual do Setor de Educação do MST em Pernam buco. Ess a escolha deveu-se ao fato de que elas organizam e acompanham as educadoras /es do Movim ento nas capacitações , form ação de educadoras/es. propos tos. beneficiadas por. curs os de. pelo MST em parceria com. as. universidades , além de s erem respons áveis pela difusão do projeto político de educação do Movim ento. Realizamos as entrevis tas s em i-es truturadas para apreendermos , em profundidade, as contradições exis tentes entre a teoria e a prática, pois acreditamos que essa forma de entrevis ta “parte de certos questionamentos básicos, apoiados em teorias e hipóteses, que interessam à pesquisa, e que, em seguida, oferece am plo campo de interrogativas, fruto de novas hipóteses que vão surgindo à m edida que se recebem as respostas do informante” (TRIVIÑOS, 1987:140). Bus camos , com tais procedimentos, verificar a hipótese de que o projeto de uma nova s ociedade, explicitado na educação do MST, contribui na form ação de uma nova hegemonia. Para uma m elhor s is tem atização das informações obtidas , dividim os noss o trabalho em três capítulos . No primeiro abordamos a ques tão agrária no Bras il e os m ovimentos s ociais de luta pela terra, dando enfoque ao MST. No segundo capítulo, procuram os es tudar a categoria hegem onia. E, finalm ente, no terceiro capítulo, apresentam os o projeto político de educação do MST, tendo com o des taque os depoimentos das coordenadoras do Coletivo Es tadual do Setor de Educação do MST em Pernambuco e os documentos elaborados pelo Movimento. Após os capítulos , procuramos indicar noss as conclus ões , bem com o a bibliografia utilizada e os anexos ..
(16) 16 CAP ÍTULO I - A QUESTÃO AGRÁRIA NO BRASIL E OS MOV IM ENTOS SOCIAIS DE LUTA PELA TERRA 1.1-. A QUESTÃO AGRÁRIA NO BRASIL Para compreendermos a ques tão da luta pela terra no Brasil e,. especificam ente em Pernambuco é fundamental es tudarm os o process o his tórico da es trutura agrária exis tente. Explorado na fase do capitalism o m ercantil s urgido na Europa, no século 1. XVI, o Bras il , as sim com o as demais colônias de ultram ar teve um relevante papel na consolidação do modo de produção capitalista. As colônias forneciam a matéria-prim a (s eja es ta produtos agrícolas ou minérios ) para as m etrópoles, objetivando intensificar o des envolvimento do com ércio e contribuir no process o de acumulação prim itiva de capital. Des de aquele período, o Brasil tinha com o tarefa na divis ão internacional do trabalho, voltar s ua produção agrícola para o mercado externo e vender a preços baixos . Em contrapartida, para atender às necess idades da população res idente do país, teria que comprar os artigos oferecidos pela sua. metrópole e,. pos teriormente à Inglaterra, país com o qual manteve relação de dependência comercial até os anos 30. Ass im explicita SMITH (1996), a relação com ercial do Brasil, em sua fas e com ercial: Algumas nações entregaram todo o comércio de suas colônias a uma companhia exclusiva, da qual elas eram obrigadas a comprar todas as mercadorias européias de que carecessem, e à qual deviam vender todo o excedente de sua produção. A companhia tinha, pois, interesse não somente em vender as mercadorias européias o mais caro possível e comprar os produtos coloniais o mais barato possível, mas também não comprar das colônias, mes mo a esse preço baixo, não mais do que o tinha condiç ões de vender na Europa a um preço altíssimo (SMITH, 1996, p. 73).. 1. Cf. GUIMARÃES, Alberto Passos. Quatro Séculos de Latifúndio. 3ª edição. Rio de Janeiro:Paz e Terra, 1968; SODRÉ, Nelson Werneck. Formação Histórica do Brasil. 10ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979; MAIOR, Armando Souto. História do Brasil. São Paulo: Editora Nacional, 1979..
(17) 17 As m etrópoles, ao colonizarem as nações , impunham -lhe o ritm o do processo produtivo para que es tas pudessem atender às dem andas do mercado externo, s eja através da extração de m atérias -primas , seja subordinado a produção agrícola ao mercado externo, o que levou, em pouco tem po, as mesm as a acum ularem um a grande quantidade de riquezas . De fato, Os colonizadores de uma nação civil izada que toma posse de um país, seja este desabitado ou tão pouco habitado que os nativos facilmente dão lugar aos novos colonizadores, progridem no caminho da riqueza e da grandeza com rapidez maior do que qualquer outra sociedade humana (SMITH, op cit. p. 64).. Es pecificamente no Bras il, inicialmente, predom in ou a extração de matériaprim a, com o o pau-brasil (que s erviu para a produção de tintas ) e, depois , a produção de especiarias de alto valor comercial, com o foi o cas o do açúcar. A dis tribuição de terras no Bras il foi regulada pela Lei de Sesm arias2, em 1530, no reinado de D. João III, rei de Portugal, que tinha como objetivo estim ular a ocupação e exploração das colônias . Entretanto, a Lei de Sesmarias acabou favorecendo o s urgimento de latifúndios , haja vis to que o sistem a capitalis ta em expansão, exigia a produção de especiarias em grande es cala, e es ta por sua ve z, necess itava de elevada extensão de terra para atender às dem andas do mercado externo. Com o es tava es crito na Lei, quanto à posse e ao uso da terra, a mesm a es taria dis ponível a quem dis pusess e de recurso financeiro e m ão-de-obra para fazê-la produzir, des tin ando os s eus res ultados para suas respectivas m etrópoles, para que as mesm as pudess em intensificar o comércio internacional. Tal fato dem onstrava que uma nova classe es tava emergindo e que s ua ideologia s e explicitava na Lei de Sesmarias . Pois , Todos que tivessem herdades, possuídas por qualquer título, fossem obrigados a semeá-las, e as fizessem aproveitar por outros se não pudessem agricultá-las a todos, que, não lavrando os proprietários as fazendas, as dessem os sesmeiros a pessoa que as pudesse cultivar, mediante uma pensão ou quota de frutos 2. Cf. PORTO, Costa. O Sistema Sesmarial no Brasil. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, S/D..
(18) 18 arrazoados, que os que não fossem lavradores, não tiv essem lavoura, ou na cultura se não empregassem, não pudessem, sustentar grandes manadas de rebanho (para atalhar o abuso de converte as herdades em pastos e charnecas); que os que haviam sido lavradores, assim como seus filhos e netos, e todos que não usassem de outro ofício útil ao bem comum, deveriam ser obrigados ao trabalho da lavoura, e não possuindo propriedade, fossem compelidas a servir nas outras, por soldada taxada na lei ou nas posturas municipais, que os que não exercem ofício sabido fossem presos (embora se dissessem servos infantes, dos nobres ou dos prelados), e não provando ocupação útil, os coagisse a auto-piedade ao serviço da lavoura, que os mendigos em idade e força suficientes fossem presos e obrigados a trabalhar pelo sustento ou por soldada, e os que vivessem como relig iosos sem o serem que os fizessem lavradores ou criados de lavradores, que em cada cidade ou vila do reino, cabeça de comarca, se nomeassem dois homens bons encarregados de verem as herdades e indagar se poderiam dar pão, e se eram lavradas e aproveitadas, devendo compelir os proprietários a agricultá-las, arrendá-las ou aforá-las, de maneira que a terra não ficasse improdutiva (SÉRGIO, s/d, p. 28-29).. A produção de. açúcar exigia altos. investim entos ,. Portugal tinha. conhecimento técnico no cultivo dess e produto, m as não podia financiar sozinho, por isso, contou com a participação do capital holandês (no financiamento e comercialização) e com a Inglaterra. Ass im, estruturou-s e o modelo de des envolvimento econôm ico no Brasil,. baseado na propriedade privada,. concentração de terra e trabalho escravo (FURTADO, 1959). Com a independência do Brasil-colônia, cortou-s e a relação com a metrópole, inclusive no que s e refere à legislação agrária, sendo assim , a Lei de Sesmarias foi extinta em 1822, ficando o Bras il s em um a legis lação agrária até 1850. Som ando-se a iss o, cons olidavam -se os ideais liberais . A partir de 1850, o Bras il pass ava por um a nova fase do process o de acum ulação de capital. Esse process o envolveu, gradualmente, as prom ulgações de leis que proibiam o uso do trabalho es cravo, a Lei Euzébio de Queiroz (1850), a Lei do Ventre Livre (1871), a Lei do Sexagenário (1885) e, por fim, a Lei Áurea (1888). Com os lim ites pos tos ao uso do trabalho es cravo foi necessária a criação da Lei de Terras (1850), para regularizar a poss e e o uso da terra, ou s eja, perm itir.
(19) 19 o acesso a quem tivesse dinheiro para com prá-la. A preocupação era com o subordinar os/as trabalhadores /as a permanecerem nos latifúndios s em que houvesse nenhum a legislação agrária. Porque, a Lei de Terras – possibilitava a legitimação das terras ocupadas antes de 1850 e proibia as ocupações de terras devolutas a não ser por meio de aquisição por compra. Aos possuidores de terras fora dado um prazo para que se registrassem as suas posses, que findara em 1856. Desde esta lei as terras não registradas e legitimadas foram consideradas devolutas, ou seja, por não serem requeridas deveriam ser devolvidas ao Patrimônio Público (GRZYBOWSKI, 1987, p. 105).. A Lei de Terras inviabilizou qualquer possibilidade de acesso à propriedade da terra s e não fosse pela s ua com pra, garantindo, ass im , um farto contingente populacional para trabalhar nas grandes propriedades rurais . Naquele mesm o período foi criada uma política de es tím ulo à imigração, para resolver o problem a da es cassez de mão-de-obra, sobretudo nas Regiões Sul e Sudes te, onde s e intens ificava o cultivo de café. Para Lourenço (2001), tal es tratégia es tava ligada à poss ibilidade de resolver o problema do atras o da agricultura, através do embranquecimento da nação, além de inviabilizar a organização de ex-es cravos , evitando assim , um poss ível levante. Adem ais, com a criação da Lei de Terras era vetado de vez o acess o à terra pelos /as trabalhadores /as , fazendo com. que os/as mesm os/as s e. sujeitassem a trabalhar e/ou permanecer nos latifúndios, recebendo baixos salários e garantindo a criação de condições favoráveis para um a nova fas e de reprodução e ampliação de capital. A partir daí, dá-s e continuidade ao processo de consolidação do capitalism o no Brasil, direcionado pelas oligarquias rurais , sobretudo da Região Sudes te, da qual s e originou a burgues ia indus trial nos anos 30, do s éculo XX. Nessa etapa da divis ão internacional do trabalho, é reafirm ada a subordinação do Brasil no processo de des envolvimento do capitalismo monopolista, enquanto fornecedor de produtos agrícolas para o mercado externo e enquanto consumidor de máquinas e.
(20) 20 tecnologias , dando-se assim, início ao process o de indus trialização. A cons olidação da burgues ia industrial bras ileira foi impulsionada desde a 1ª Guerra Mundial, e, no ano de 1929, com a cris e do capitalism o, m arcada pela superprodução de mercadorias e pela necessidade de s e abas tecer o mercado interno. Dos anos 30 até 1950, o Bras il era um país voltado para as atividades agrícolas e. 70% da população vi via na área rural. A partir de 1960, com a. cons olidação do process o de indus trialização e a m odernização da agricultura, esse quadro se reverte (apenas 30% pass a a viver nas áreas rurais ), sobretudo com a entrada de empresas es trangeiras no país. Na divisão internacional do trabalho, fazia-se necess ário exportar m áquinas para consolidar a indus trialização nos país es em que a burguesia nacional já atuava. Era necess ário tam bém viabilizar a ins talação de em presas m ultinacionais no intuito de se aum entar a taxa de acumulação nos país es centrais . No cam po, a modernização da agricultura, denominada por José Graziano da Silva (1987) de “modernização doloros a”, tam bém chamada de Revolução Verde, foi m arcada pela mecanização da agricultura e entrada dos defensivos agrícolas . Com iss o, res olvia-se, de ve z, o problema da oferta de m ão-de-obra nas indús trias , expuls ando-s e ou dem itindo-se os trabalhadores rurais , subs tituindo-s e sua força de trabalho por máquinas , s olucionando-s e o problem a da es cassez de mão-de-obra e aumentando-s e a produção de alim entos s em interferir na estrutura agrária, des ta vez, com a pres ença significativa do capital es trangeiro. O avanço das relações capitalis tas de trabalho no cam po e as péss im as condições de vida dos trabalhadores fizeram. com. que os m esmos s e. organizass em na luta pela terra, dando origem às Ligas Cam ponesas. Tal fato tem dem onstrado a capacidade dos trabalhadores de se contrapor ao modo de produção vigente, des de o Quilom bo dos Palmares, Canudos , passando por Caldeirão, até os dias atuais com o MST..
(21) 21 1.2 - A QUESTÃO AGRÁRIA EM P ERNAMBUCO E AS RELAÇÕES DE TRABALHO A ques tão agrária em Pernam buco tem s eu m arco no in ício da colonização do Brasil, a partir da produção agrícola da cana-de-açúcar. Tal produção exigia grandes extensões de terra para atender às exigências do mercado, es timuladas pelo m odo de produção capitalis ta em expansão. As necess idades cada vez m ais cres centes de verticalizar a produção açucareira contribuíram para que o processo de concentração fundiária foss e acentuado. Em s ua form ação, teve como pilares de sus tentação a monocultura, utilizando-se o trabalho es cravo. A partir de 1850, com a proibição do tráfico es cravo e, pos terio rm ente, com sua alforria, através da assinatura da Lei Áurea, a m ão-de-obra ass alariada pass a a ser ins titucionalizada. Em. Pernambuco, um a parcela s ignificativa. de. trabalhadores foi trans ferida para as Regiões Sudes te e Sul, para servir de mãode-obra para a produção de café e outra parcela foi aproveitada pelos proprietários de terra, que ao invés de lhe pagar salários , preferiu viabilizar o acess o à terra, em troca de trabalho s em remuneração. Com a abolição da es cravatura muitos trabalhadores perm aneceram nos engenhos e, com o não tiveram acess o à terra porque não tiveram dinheiro para comprá-la para trabalhar e para sobreviver, acabaram pedindo aos proprietários de terra um a cas a para morar, em troca de trabalho, s em rem uneração, e um pedaço de terra para plantar. De fato,. Ao torna-se morador de um engenho, através do ritual de pedir morada, o trabalhador recebia como concessão do proprietário uma casa e a possibilidade de trabalhar em troca de alguma remuneração, bem como acesso a um pedaço de terra para cultivar produtos de subsistência, o acesso ao barracão da propriedade, onde podia abastecer daquilo que não produzia, quer porque fosse impedido pelo proprietário, e ainda o acesso aos rios e matas do engenho, que lhe garantia a água e a lenha (SIGAUD, 1979, p. 34) .. Tínhamos os /as m oradores/as na condição de foreiro e de cam bão..
(22) 22 Enquanto es te cedia de 3 a 4 dias de trabalho na m onocultura da cana-de-açúcar, aquele pagava o foro, em dinheiro ou, em alguns casos , em produtos agrícolas. Em troca, recebia um s ítio para produzir alim entos para s ua s ubs istência (feijão, macaxeira, m ilho, entre outros ). Ass im , es te tipo de relação poss ibilitou assegurar nos latifúndios a mão-deobra para quando os/as s eus /uas proprietários/as necess itass em . Inicialmente a produção de açúcar es tava voltada para atender às necessidades de m oagem dos engenhos. bangüês. e, pos teriorm ente,. com. uma m aior necessidade de. centralização do capital, o process o produtivo foi trans ferido para os engenhos centrais. Com o avanço tecnológico, alguns engenhos não acom panharam ess e des envolvimento e muitos faliram , s endo s ubs tituídos pelas us inas , pass ando de produtores de açúcar para fornecedores. Es ta s ituação fez com que, cada vez mais , foss em ampliadas as áreas de plantio da cana para que a produção dess e produto acom panhasse a capacidade de m oagem das usinas . Ness e process o, muitos engenhos foram incorporados ao patrimônio dessas , até chegar ao ponto em que a capacidade de produção da cana passou a ser s uperior à capacidade de moagem de produção das usinas . Sobre es te ass unto explicita Andrade (1998), As usinas, ao serem instaladas, dispunham de máquinas com capacidade de esmagamento superior à capacidade de produção – dentro das condições técnicas então dominantes- dos engenhos a elas vinculados, e tratavam de adquirir as terras sem certo planejamento, o desequilíbrio passava a proceder de forma contrária, ficando as máquinas com a capacidade inferior à produção agrícola, e tratavam os usineiros de adquirir novas máquinas. Assim, ampliando as terras e as máquinas, elas iam acentuar cada vez mais a concentração fundiária (ANDRADE, 1998, p.105).. Tal fato fez com que, progressivam ente, os/as moradores /as foss em expulsos/as da terra onde plantavam , levando-as /os a se organizar e a reivindicar pelos seus direitos , sobretudo com o surgimento dos sindicatos dos trabalhadores rurais , que garantiu a extensão dos direitos conquis tados pelos operários urbanos aos trabalhadores rurais , através do Es tatuto do Trabalhador Rural em 1963. Foi.
(23) 23 tam bém aprovada a Lei de Sítio, que garantia 2ha de terra aos trabalhadores para a produção de alim entos , no sentido de com plementar a renda fam iliar. Os direitos trabalhis tas conquis tados pelos trabalhadores fizeram com que muitos proprietários expulsass em os /as m oradores /s de condição, fazendo com que os /as mesm os /as passassem a residir nas cidades , contribuin do para seu cres cimento des ordenado. Porém, continuaram a trabalhar nos engenhos, pass ando de moradores de condição a moradores de ponta de rua. Em meados da década de 50 e, mais especific amente, após 1964, com a queda de Goulart, os moradores começam a abandonar em massa os engenhos e os proprietários a recusar sistematicamente novos moradores. Fechado o acesso à morada, os moradores se dirigem para as cidades da região, não mais em caráter provisório, mas para lá se instalarem definitivamente, o que vai refletir no crescimento urbano espantoso que a Zona da Mata então conhece (SIGA UD, op. cit. p. 33).. 1.3- A ORGANIZAÇÃO DOS /AS TRABALHADORES/AS RURAIS A PARTIR DAS LIGAS CAMP ONES AS A década de 50 do século XX, foi m arcada pela expans ão e consolidação das relações capitalistas no cam po, tendo com o m arco a apropriação da terra pelo capital, devido ao process o de m odernização da agricultura. Es te fato contribuiu para a expulsão e dem iss ão de grande parcela de trabalhadoras /es que tinham acess o à terra, através do foro, da m eia, da terça, da parceria e do arrendamento (AR AÚJO,1990). Es ta s ituação s e acentuou, s obretudo, após a crise da indús tria do açúcar da beterraba e, pos teriorm ente, com a Revolução Cubana (1959), pois Cuba era o principal produtor de açúcar para os Es tados Unidos , bem com o pass ava a s er fornecedor da União Soviética. Somando-s e a iss o, havia a Lei de Sítio, que obrigava os proprietários de terra a concederem 2ha de terra aos /as moradores /as , e o Es tatuto do Trabalhador Rural, que es tendia os direitos dos trabalhadores urbanos aos trabalhadores rurais (salário, férias, décimo terceiro), o que levou os/as proprietários /as de terra a expulsar os/as moradores /as e trabalhadores /as permanentes , dando prioridade aos em pregos ass alaria dos e.
(24) 24 tem porários (ANDRADE,1986). Com a expropriação da terra, os/as trabalhadores /as. se organizaram,. dando origem às Ligas Campones as . Inicialmente s uas reivindicações eram assis tenciais e, pos teriormente, ass umiram um caráter político, pressionando o Es tado para que s e fizess e a reform a agrária, tendo como um dos seus principais interlocutores Francisco Julião (advogado) e o agricultor João Pedro Teixeira (líder da Liga Cam ponesa de Sapé, na Paraíba). Pois , de acordo com Medeiros (1989), As organizações de trabalhadores no Brasil, sem dúvida alguma já tinham uma tradição de atividades assis tenciais junto a seus associados. Tanto as Ligas Camponesas como as associações ou os sindicatos dos anos 50 e 60 a combinavam com as práticas mobilizadoras e reivindicativas ( MEDEIROS,1989, p.93).. As Ligas Cam ponesas surgiram em 1955, no Engenho Galiléia, em Vitória (Pernambuco), com o apoio do PCB, PSB e da ala progress ista da Igreja Católica. No sentido de press ionar o Es tado para fazer a reform a agrária na lei ou na m arra, esse Movim ento tinha como es tratégia a ocupação de terra. Diante das péssim as condições de vida res ultantes da concentração de terra e renda, os /as trabalhadores/as rurais e urbanos /as s e organizaram com o form a de protes to e de exigir m elhorias , contando com o im portante papel da ala progressis ta da Igreja Católica, através da CNBB. O s etor progressis ta da Congregação Nacional dos Bispos do Bras il CNBB, da Igreja Católica, es tava representado por Dom Hélder Câm ara, Dom José Távora e outros , através do Movim ento de Educação de Bas e - MEB. Segundo Calado (1996), inspirado na metodologia de Paulo Freire, o MEB, tinha como objetivo desenvolver junto aos/as trabalhadores /as um trabalho de cons cientização política, contando ainda com o apoio de um serviço radiofônico. As crescentes m obilizações populares e as fortes influências s ofridas a partir da Revolução Cubana, na luta pela reforma agrária, trouxeram ins egurança para os latifundiários , porque eles acreditavam que a revolução socialis ta viria do campo. Além da ala progress ista da Igreja Católica, contribuíram para a organização da class e s ubalterna o Partido Com unis ta do Bras il (PCB) e os.
(25) 25 sindicatos de trabalhadores , que reivindicavam do Governo Federal m udanças de bas e, inclus ive, a reform a agrária. Percebendo o poder de pressão da class e subalterna, a classe dominante bras ileira, sobretudo os latifundiários , entendiam as reformas com o ins trumento que pudesse levar a uma revolução s ocialis ta, principalmente quando se falava em m odificação da estrutura fundiária. Adem ais, a recente experiência vivenciada por Cuba (a Revolução Cubana em 1959) e as cres centes mobilizações populares observadas nos país es latinoamericanos , deixaram os proprietários de terra com receio de que um a revolução socialis ta pudess e acontecer tam bém no Bras il. Tal fato levou a class e dominante bras ileira, es pecificamente, os proprietários de terra, a articularem junto aos Es tados Unidos um golpe de Es tado, promovido pelos m ilitares em 1964 (CALADO, Idem). Após a ditadura militar, o Es tado, sentindo-s e coagido pelos movim entos sociais de luta pela terra, no s entido de fazer concess ão, haja vis to que a hegemonia não s e dá s om ente pela coerção, mas também pelo consens o, elabora um docum ento para regularizar a dis tribuição e exploração da terra pública ou privada, e cas o não foss e cum prida, seria feita a reforma agrária. Em 1964, cria-s e o Es tatuto da Terra e junto a ess e, o Ins tituto Brasileiro de Reform a Agrária (IBRA). As oligarquias , percebendo a viabilidade do Es tatuto da Terra na realização da reforma agrária se s entem acuadas e passam a cobrar do Estado medidas ins titucionais que não colocass em em risco a des apropriação de s uas terras . Para amenizar os conflitos na luta pela terra, o Es tado cria os projetos de colonização, sobretudo nas regiões Norte e Centro-Oes te, nas cham adas áreas de fronteiras agrícolas , como forma de des centralizar os conflitos e enfraquecer a organização dos /as trabalhadores /as , haja vis to que, No Estatuto da Terra é dada prioridade ao processo de reforma em zonas crític as e de tensão social, o que revela a preocupação em conter os conflitos no campo, e à colonização racional das terras públicas. Assim, uma das facetas do Estatuto da Terra é a de eliminar as tensões sociais e promover empregos. A faceta que se torna dominante, no entanto, é a de fortalecer a empresa capitalis ta no campo, dada a preocupação com as empresas.
(26) 26 rurais, que estariam fora da reforma (MOREIRA, 1999, p. 42).. A ques tão agrária torna-s e mais agravante a partir de 1970, quando os /as proprietários /as de terra s ão es tim ulados /as a aumentar sua produção de cana-de3. açúcar, com os incentivos do PROÁLCOOL , o que acaba acentuando ainda m ais o processo de proletarização dos /as trabalhadores /as , contribuindo para ampliar a concentração de terras . Diante dess e contexto, mesm o com as pers eguições sofridas pelos repres entantes das organizações tradicionais dos trabalhadores (partidos políticos e s indicatos ), na ditadura militar, ass im com o pelos integrantes do MEB, o s etor progressis ta da CNBB criou outras formas de organização e express ão dos /as trabalhadores /as . No Nordes te, foram criados o Serviço de Orientação Rural de Pernambuco - SORPE-, Serviço de Assis tência Rural - SAR - (em Natal) e o Serviço de Orientação Rural de Alagoas – SORAL, entretanto, os trabalhos de cons cientização política e de alfabetização foram subs tituídos pelo trabalho de assis tência técnica. Todavia, com o bem explica Martins (1997), Mes mo grupos atuantes, da maior relevância histórica e política, como a Comissão Pastoral da Terra, onde, aliás, nasceu o Movimento dos Sem Terra, já se equivocam na sua missão e no alcance de seu trabalho ao anunciarem, na prática, a precedência das questões econômicas e técnicas em relação às questões propriamente sociais e polític as (MARTINS, 1997, p. 64).. Com a extinção do SORPE, SAR e SORAL, criou-s e a Ação dos Cris tãos no Meio Rural - ACR- e o Movim ento de Evangelização Rural – MER-, que tinham um trabalho de formação mais voltada para o s indicalismo rural. Já em 1972, surge a Pas toral Rural em alguns Es tados do Nordeste (Alagoas , Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte) e em 1988, a Com iss ão Pastoral da Terra (CPT). A CPT tem s ua gênes e em 1975 e s ua form ação, no Nordeste, ocorre em 1988, devido à intensidade de conflitos de terra nes tas áreas . 3. O PROALCOOL foi um programa de incentivo à produção de açúcar para que se aument asse a produção de álcool para atend er a necessidade do abastecimento do mercado interno..
(27) 27 Dadas as contribuições do s etor progress is ta da Igreja Católica e dos sindicatos. no. trabalho. de. cons cientização. e. de. organização. dos /as. trabalhadores /as do cam po, Pandolfi (1987) afirm a que esse setor tornou-se um a grande força mediadora dos conflitos sociais no meio rural. Com a crise do capital e as fortes press ões da class e trabalhadora, a ditadura m ilitar bras ileira chega ao fim . A retom ada da luta pela terra, em 1979, e cons eqüentemente, os conflitos sociais , principalm ente com as ocupações de terra, que tinham como objetivo press ionar o Estado para fazer a reforma agrária (NASCIMENTO; CALADO,1996). A reorganização da class e trabalhadora, com o apoio da ala progressis ta da Igreja Católica e s indicatos , s om ada ao agravamento dos conflitos no campo e à situação de miséria, levaram a população a exigir a redemocratização do país, dem onstrando que a manutenção do controle pela força, através da ditadura militar, já não era mais poss ível. Es tava em cris e a hegem onia da class e dom inante bras ileira que, para não perder a direção, optou por fazer algum as concessões , através da reabertura política. Esse process o (a reabertura política), trouxe, tam bém, o debate s obre a necess idade de se fazer a reforma agrária, des ta vez, não pela reivindicação de m ovim entos sociais rurais localizados , m as por um movimento nacional de luta pela terra, o Movim ento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). 1.4- O MOVIM ENTO DOS TRABALHADORES RURAIS S EM TERRA (MS T) Os m ovim entos de luta pela terra tomaram vis ibilidade no final da década de 70 do s éculo XX, no Rio Grande do Sul. A formação dess es m ovimentos ocorreu de form a isolada, tendo como denominação a região de origem (MASTRO, MASTES, MASTEN, MAS TRECO e MAS TEL). Partindo dess as experiências de lutas is oladas , três fatores foram ess enciais para que mais tarde surgiss e o MST, a situação s ocio-econômica, o fator ideológico direcionado pela Igreja Católica e o mom ento político em que se encontrava o Bras il (STÉDILE, 2001)..
(28) 28 Com a mecanização da agricultura e a intensificação das relações capitalistas no campo, grande parte dos trabalhadores /as que tinham acess o à terra foi expuls o e. a outra parte des ta população foi atraída pela bus ca de. oportunidades em razão do acelerado process o de indus trialização. Diante de tal contexto, parcela dess es trabalhadores vendo como poss ibilidade de perm anência na terra os projetos de colonização, m igraram , sobretudo, para Rondônia, Pará e Mato Gros s o. A s aída dess es trabalhadores /as é pos ta publicamente como decorrência da inviável reprodução desses nas áreas de colonização. Somando-se a isto, com a crise da indús tria nos anos 1980, confirm a-s e a inviabilidade do sonho de viver na cidade. Tais fatores contribuíram para que os/as trabalhadores /as tom assem a decis ão de resis tir no cam po e bus car res olver o problem a da falta de acesso à terra no local de s ua origem, o que res ultou na form ação da bas e s ocial do MST. Do ponto de vista socioeconômico, os camponeses expulsos pela modernização da agric ultura tiveram fechadas essas duas portas de saída – o êxodo para as cidades e para as fronteiras agrícolas. Isso os obrigou a tomar duas decisões: tentar resistir no campo e buscar outras formas de luta pela terra nas próprias onde viviam. É essa a base social que gerou o MST. Uma base social disposta a lutar, que não aceita a colonização nem a ida para a cidade como solução para os seus problemas. Quer permanecer no campo e, sobretudo, na região onde vive (STÉDILE, op cit., p. 17).. Já do ponto de vista ideológico, a Igreja católica, através da CPT, influenciada. pela. Teologia. da. Libertação,. contribuiu. no. process o. de. cons cientização política dos/as trabalhadores /as, des pertando nos /nas mesm os /as a idéia de que a conquis ta da terra s ó poderia ocorrer como res ultado de s ua luta. Adem ais,. s omando-s e. à. capacidade. de. organização. dos /as. trabalhadores /as pela CPT, contrib uiu tam bém, a vocação ecumênica da Igreja Católica, ou s eja, foi a capacidade que esta Igreja teve de articular o s eu trabalho 4. de pas toral com a Igreja Luterana , que também desenvolvia atividades de organização com os /as trabalhadores /as . 4. Vale ressaltar que o trabalho da Igrej a Luteran a está centrado na Região Sul e Centro-Oeste, através da Pastoral Popular Luterana (PPL)..
(29) 29 A capacidade de desenvolver um trabalho de organização de form a conjunta fez com que a luta dos /as trabalhadores/as fosse unificada, dando origem a um único movimento s ocial de caráter nacional, ao invés de ter form ado movim entos localizados e com a denom inação da ins tituição que a originou. Há ainda mais um aspecto que também julgo importante do trabalho da CPT na gênese do MST. Ela teve uma vocação ecumênica ao aglutinar ao seu redor o setor luterano, principalmente nos estados do Paraná e de Santa Catarina. Por que isso foi muito importante para o surgimento do MST? Porque se ela não fosse ecumênica, e se não tivesse essa visão maior, teriam surgido vários movimentos. A luta teria se fracionado em várias organizações. Se o pastor Werner Fuchs, por exemplo, que começou um trabalho de organização dos camponeses atingidos pela barragem da hidrelétrica de Itaipu, no Paraná, se ele não tivesse integrado a CPT, teria se formado um movimento camponês dos luteranos. A CPT foi uma força que contribuiu para a construção de um único movimento, de caráter nacional (STÉDILE, Idem, p. 20-21).. E o terceiro fator, foi o process o de redem ocratização política pelo qual o Brasil es tava pass ando, pois s e não existiss e todo um m ovimento na s ociedade pedindo o fim da ditadura militar, ou seja, um a aliança da luta dos /as trabalhadores /as do cam po com os /as da cidade, o MST não teria tomado a vis ibilidade que tem hoje. É Mo vimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra porque tem s ua origem na organização de trabalhadores /as que perderam o acesso à terra (posseiros, meeiros, parceiros , arrendatários e trabalhadores assalariados ) com o process o de modernização da agricultura. Atualm ente, o MST aglutina várias categorias de trabalhadores /as que não es tão ligados a atividades agropecuárias .Com o o problem a agrário não se tratava de um problema local, m as s im nacional e também econômico e político, os /as dirigentes do Movim ento res olveram articular os vários movim entos de luta pela terra no País , contando com o apoio dos s indicatos e da ala progressis ta da Igreja Católica, representada pela CPT. Sobre es ta articulação des creve Fernandes (1996),.
(30) 30 As lutas eclodiam em diversos lugares ao mesmo tempo. A divulgação das lutas pela Igreja e, em pequena parte, pela imprensa fez com que surgissem a necessidade e o interesse de trocar experiências (...) foi com a troca de experiências que a articulação nacional desses movimentos começou a ser construída na perspectiva de superação de isolamento e em busca de autonomia política (...) assim, uma articulação nacional poderia per mitir a construção de uma forma de organização social que fortaleceria esse processo de conquista, construindo uma infra-estrutura para a luta (FERNANDES,1996, p. 77).. Na primeira m etade dos anos 80, o MST é organizado em nível nacional, tendo com o m arco s eu 1º Encontro Nacional. Realizado em 1984, no município de Cas cavel, no Paraná, contou com a participação de 12 es tados (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Bahia, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Es pírito Santo, Goiás , Roraima, Acre). Além de ter como participantes , repres entantes da As s ociação Bras ileira de Reform a Agrária (ABRA), CUT, Com iss ão Indigenis ta Mis sionária e Pas toral Operária de São Paulo. Com a redem ocratização, foi eleito Tancredo Neves com o Pres idente da República, no entanto, com s ua morte, assum iu o vice Jos é. Sarney,. repres entante da oligarquia rural. Naquele contexto, o MST bus ca lançar com o palavra de ordem a idéia de que a “Terra não s e ganha, s e conquis ta”. Por sua vez, o Es tado, com o form a de se legitimar cria, em 1985, o Plano Nacional de Reform a Agrária (PNRA). Com o respos ta a uma poss ível aplicação do PNRA, as oligarquias s e organizaram , dando origem à União Democrática Ruralis ta (UDR), que se aliou com os em pres ários , banqueiros , indus triais e com erciantes, os quais formam o Es tado bras ileiro (MARTINS,. 1996, p.03), tendo como propós ito eleger. repres entantes no Congresso Nacional para inviabilizar a reform a agrária. Com o forma de press ionar o Es tado e de dar visibilidade à luta, o MST utilizou com o es tratégia a ocupação de terras , difundindo a seguinte concepção: “ocupação é a única s olução”. Compreendendo o desafio da luta, o MS T bus cou articular as lutas estaduais com a luta nacional, s em deixar de res peitar as particularidades , o que garantia a unidade de s eu projeto político. Adem ais , como forma de garantir sua força política, priorizou a.
(31) 31 cons olidação da organização do Movim ento nos es tados , através da form ação de seus quadros políticos , pois s e tratava de difundir e dar hom ogeneidade ao projeto político do Movim ento. Is to se deu também através de sua participação em sindicatos. e partidos. políticos. de es querda, sobretudo. o Partido. dos. Trabalhadores, além de cons truir alianças com essas organizações, fazendo com que o projeto de reform a agrária proposto pelo Movim ento foss e tam bém um a reivindicação de outras categorias sociais. Com preendendo que a luta não se encerra com a conquista da terra e, como form a de dar visibilidade. e viabilidade à reform a agrária, o MST tem. es timulado a prática do trabalho ass ociado, para que os /as ass entados /as interiorizem a necessidade do des envolvimento des te tipo de iniciativa. Percebendo que o processo de direção intelectual e m oral não s e dá apenas na luta, na escola, nas formas de trabalho, m as es tá articulado aos demais espaços sociais , o MST compreende que s e faz necess ário apoiar candidaturas de partidos de es querda para garantir es paço na es fera institucional, tendo em vis ta os empecilhos encontrados com a UDR, que através da criação de leis e emendas bus cava inviabilizar a reforma agrária. Em 1989, na eleição pres idencial, o MST apóia Luís Inácio Lula da Silva,do PT, por cons iderar que era o partido que melhor expressava os anseios do movim ento. Ness e período, haja vis to o apoio das oligarquias e a vitória de Fernando Coll or de Melo à Pres idência da República. e às dificuldades. encontradas pelo Movim ento, bus ca difundir como es tratégia pedagógica: “ocupar, resis tir e produzir!”. O presidente eleito tinha com o uma das es tratégias para inviabilizar a reforma agrária, es timular a exportação para dificultar a venda da produção dos assentam entos.. O. que. de. certa. form a deu. certo,. porque. muitos /as. trabalhadores /as rurais abandonaram suas terras , contribuindo para ampliar a concentração de terra, s ubordinando-a, cada vez mais , à m onocultura e à produção agropecuária, intens ificando ass im , o processo de expuls ão dos pequenos agricultores do campo. De acordo com o Cens o Agropecuário de 1985 e 1995-96, entre os.
(32) 32 governos de Jos é Sarney, Fernando Collor e Fernando Henrique Cardos o, a concentração de terra aum entou cons ideravelmente: das 3.064.822 proprie dades com menos de 10ha exis tentes em 1985, 6.624,48 deixaram de exis tir. Ess as propriedades foram incorporadas pelas m édias e grandes áreas de terra, pois como apresenta a tabela, o número de estabelecim entos diminuiu e o da concentração de propriedades aumentou.. Censo. Número. Agropecuário. estabelecimentos. de. %. Área (ha). %. 1985 Menos de 10 ha. 3.064.822. 53. 9.986.636. 3. De 10 a menos. 2.159.890. 37. 69.565.160. 18. 457.762. 8. 90.474.373. 24. 59.669. 1. 40.958.296. 11. 50.411. 1. 163.940.461. 44. 5.792.554. -. 374.924.926. -. de 100 ha De 100 menos de 500 ha De 500 a menos de 1.000 ha De. mais. de. 1.000 ha To tal. IBGE, Censo Agropecuario, 1985.
(33) 33. Censo. Número. Agropecuario. estabelecimento. 1995-96. s. de. %. Área (ha). %. Menos de 10 ha. 2.402.374. 50. 7.882.194. 2. De 10 a menos de. 1.916.487. 40. 62.693.586. 18. 411.557. 8. 83.355.220. 24. 58.407. 1. 40.186.297. 11. 49.358. 1. 159.493.94. 45. 100 ha De 100 menos de 500 ha De 500 a menos de 1.000 ha De mais de 1.000 ha. 9 4.838.183. Total. -. 353.611.24. -. 6 IBGE, Censo Agropecuario, 1995-96. No entender de Lucena (2002), Tal processo fez-se acompanhar de dois aspectos fundamentais: em primeiro lugar, expropriou grande contingente de trabalhadores, em especial, parceiros, posseiros e pequenos arrendatários. Em segundo lugar, aqueles que ainda conseguem se manter na condição de pequenos produtores rurais passam a se artic ular, de forma subordinada, aos interesses do capital industrial/comercial como forma de sobrevivência (LUCENA, 2002, p. 141). Com o toda relação hegem ônica é pedagógica, segundo Jesus (1987) , a interiorização do lema citado anteriormente, repres entava um a situação a s er encontrada, ou s eja, enfrentar a res is tência das oligarquias em fazer a reform a agrária. O Movim ento apontava como res postas e aprendizagem para os /as assentados /as a press ão através da ocupação, s em a qual não s eria poss ível a reforma agrária. Para que a luta não se res tringiss e apenas aos adultos responsáveis pelos.
(34) 34 lotes , o MST bus ca organizar os /as jovens e as mulheres e, em 1996, as crianças. Tal es tratégia bus cava trazer para outros integrantes do assentamento a interiorização do projeto de reforma agrária para que os /as mesm os/as pudess em elaborar e reivindicar propos tas específicas , de acordo com suas necessidades, para evitar a futura falta de pers pectivas e s ua s aída do ass entamento. O MST enquanto movim ento social de class e, que se coloca na perspectiva de construir o s ocialismo, com preende que s ua viabilidade não é poss ível se as alianças não forem ampliadas , tanto no país quanto em nível internacional. Ass im, além de ter o apoio da CUT, CPT, CNBB, Igreja Luterana, AOB, ABR A, CIMI e a UNE, consegue a colaboração de repres entantes do PT, PSDB, PDT, PCB, PSB, PC do B e repres entantes de organizações cam pones as da Guatem ala, Peru, Equador, El Salvador, Uruguai, Cuba, Chile, Colômbia, México, Paraguai e Angola (MORISS AWA, op. cit. p. 146). Tal fato dem ons tra a capacidade de direção e articulação do Movimento, na pers pectiva de construção de um novo bloco his tórico, objetivando edificar uma nova hegemonia. A relação com os partidos políticos viabilizou a criação do Programa Terra Brasil, responsável em garantir aos assentam entos infra-es trutura necess ária para sua exis tência. Adem ais , cons eguem ainda promulgar a Lei Agrária que determ inava prazos para a jus tiça tomar as decisões sobre o process o de des apropriação. Com preendendo a viabilidade e agilidade da citada Lei, os repres entantes dos latifundiários conseguiram aprovar emendas que res tringiam a reform a agrária a áreas públicas ou de fronteira agrícola, descentralizando os conflitos. Além diss o, foram trans feridos para os m unicípios , os recursos públicos para serem aplicados nos ass entamentos . Des ta feita, o poder lo cal, quando es tava articulado à oligarquia, ao invés de subordinar os latifúndios im produtivos à função social, acabou reduzindo a des apropriação à ques tão da produtividade da terra, o que acabava inviabilizando a reforma agrária. Is to tudo era agravado pela desapropriação das propriedades, com o acordo dos /as latifundiários/as es peculadores /as , que aumentavam o valor da terra de forma subordinada à lógica mercantilis ta. Es te tipo de reforma agrária.
(35) 35 foi chamado de reforma agrária de m ercado. Com o avanço dos ideais do neoliberalismo, devido ao enfraquecim ento das organizações tradicionais da class e trabalhadora, no sentido de desmobilizar essas organizações e os m ovimentos sociais de luta pela terra, o estado reduz os gas tos sociais , inviabilizando o es tabelecimento das famílias nos assentam entos . Diante do contexto mencionado, em 1995, no seu 3º Congress o Nacional, os Sem Terra intens ificam a difus ão de s eu projeto de reforma na s ociedade bras ileira, bem com o conseguem am pliar sua aliança com representantes de entidades da Am érica Latina, Es tados Unidos e da Europa. Tal es tratégia teve um maior impacto de sens ibilização devido ao us o da m ídia, utilizando as seguintes 5. notícias: o m ass acre de Colum biaras , o calote dos /as latifundiários /s ao Banco do Brasil e a cris e que a agricultura passava com a abertura do mercado. O us o da mídia explicitava, ness a relação de conflito, a pos tura do Estado em atender os interesses da class e dom inante utilizando a força, s ua ineficiência na cobrança dos débitos aos proprietários /as de terra e falta de s olidariedade com os /as agricultores /as, que pass avam a perder sua produção por não ter condição de concorrer com os produtos importados . Em contrapartida, já que os m eios de com unicação de mass a são os aparelhos privados da hegem onia, os /as latifundiários /as utilizaram o mesm o ins trum ento, relacionando o Movim ento do Sem Terra aos m ovimentos guerrilheiros , com o form a de m os trar o quanto o MST é um movimento perigos o, além de acus á-lo de roubo, devido à taxa de 2% que é cobrada às fam ílias que participam de suas cooperativas . Com a intens ificação dos cortes com os gas tos sociais, principalmente nas políticas voltadas para os ass entamentos, o MST, em 1997, organizou a Marcha Nacional pela Reforma Agrária, Emprego e Jus tiça, que contou com a participação de cem m il pess oas . O que dem ons tra a capacidade do Movim ento em aglutinar forças em torno de s eu projeto político.. 5. O massacre de Columbiaras aconteceu na madrugad a do dia 09/08/95, na Fazenda Santa Elina, quando 300 policiais invadiram o acampam ento e s aíram atirando e jogando bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo, deixando um saldo de 11 mortos (dois policiais e nove Sem T erra). Ocupado por 514 famílias, o acampamento era liderado pelo sindicato dos trabalhadores rurais de Columbiaras..
(36) 36 Utilizando como aprendizado, no processo de cons trução de uma nova hegemonia, as m archas . Em 1998, é realizada outra m archa, tendo em vis ta o início da privatização da reform a agrária, com a criação do Programa Cédula da Terra. As s im , tom ou-se como iniciativa a criação do Fórum Nacional de Reform a Agrária, no sentido de aglutinar forças para se contrapor ao projeto mercantilis ta da reform a agrária, que acaba se estendendo com a criação de mais um Programa: o Novo Mundo Rural. O Novo Mundo Rural foi uma política de des envolvimento rural criada em 1999, pelo Governo Federal, objetivando des centralizar o processo de reform a agrária nos es tados e municípios e inserir a agricultura familiar no m ercado. Com o Novo Mundo Rural, o Governo Federal propunha o fim das ocupações de terra em troca da ins crição no Banco da Terra. O Banco da Terra era um cadas tro em que os /as trabalhadores /as que desejavam ter acess o a terra se ins creviam e aguardavam s er chamados a participar da reform a agrária. Entretanto, eram im pos tos alguns lim ites para res trin gir a participação dos /as trabalhadores /as . Por exemplo, ter cinco anos de experiência na agricultura, deixando de fora 40% dos solicitantes (JUNIOR, 1999). Na realidade, o Novo Mundo Rural foi criado no sentido de es vaziar os movim entos s ociais de luta pela terra, já que es ta propos ta de reform a agrária dis pensava a participação dos m ovimentos. Além disso, este Program a, desm obilizava os /as trabalhadores/as porque subtraia um a significativa parcela, haja visto que nem todos /as tinham experiência na agricultura fam iliar. Diante do contexto, em 2000, na realização do seu 4º Congress o Nacional, o MST reafirma a luta pelo com bate ao latifúndio , externalizando s eu projeto “Por um Bras il s em latifúndio”. Ass um e ainda, a luta pela res is tência contra a subordinação da produção agrícola ao capital, através da com pra de s ementes geneticam ente modificadas, que tem com o resultado os produtos trans gênicos. Além diss o, propõe com o es tratégia de enfrentamento da classe dominante, difundir um projeto de s ociedade na perspectiva de. es tim ular a proposição de. modelos de des envolvimento que promovam a viabilidade econôm ica, levando em cons ideração a produtividade e a ques tão ambiental, incentivando o debate s obre.
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