RODRIGO AP. AZEVEDO LEITÃO
O JOGO DE FUTEBOL:
investigação de sua estrutura, de seus modelos
e da inteligência de jogo, do ponto de vista da
complexidade
Campinas
2009
RODRIGO AP. AZEVEDO LEITÃO
O JOGO DE FUTEBOL:
investigação de sua estrutura, de seus modelos
e da inteligência de jogo, do ponto de vista da
complexidade
Tese de Doutorado apresentada à Pós-Graduação da Faculdade de Educação Física, da Universidade Estadual de Campinas, para obtenção do título de Doutor em Educação Física.
Prof. Dr. Antonio Carlos de Moraes
Orientador
Campinas
2009
FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA
PELA BIBLIOTECA FEF - UNICAMP
Leitão, Rodrigo Aparecido Azevedo Leitão.
L535j O JOGO DE FUTEBOL: investigação de sua estrutura, de seus modelos e da inteligência de jogo, do ponto de vista da complexidade / Rodrigo Aparecido Azevedo Leitão. - Campinas, SP: [s.n], 2009.
Orientador: Antônio Carlos de Moraes.
Tese (doutorado) – Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas.
1. Jogo. 2. Inteligência. 3. Futebol. 4. Auto-organização. 5. Esportes – Metodologia. I. Moraes, Antônio Carlos de. II. Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação Física. III. Título.
(asm/fef)
Título em inglês: The soccer game: searche of this structure, its models and
intelligence of the game from the point of view of complexity.
Palavras-chaves em inglês (Keywords): Game. Intelligence of the game. Model of
the game. Soccer. Self-organization. Sports – Methodology.
Área de Concentração: Ciências do Desporto. Titulação: Doutorado em Educação Física.
Banca Examinadora: Antônio Carlos de Moraes. Antônio Carlos Gomes. Evandro
Rogério Roman. João Batista Freire da Silva. Miguel de Arruda.
RODRIGO AP. AZEVEDO LEITÃO
O JOGO DE FUTEBOL
investigação de sua estrutura, de seus modelos
e da inteligência de jogo, do ponto de vista da
complexidade
Este exemplar corresponde à redação final da Tese de Doutorado defendida por Rodrigo Aparecido Azevedo Leitão e aprovada pela Comissão julgadora em: 27/08/2009.
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Prof. Dr. Antonio Carlos de Moraes Orientador
Campinas
2009
COMISSÃO JULGADORA
________________________________
Prof. Dr. ANTONIO CARLOS DE MORAES Orientador
________________________________ Prof. Dr. Antônio Carlos Gomes
________________________________ Prof. Dr. Manuel Sérgio Vieira e Cunha
________________________________ Prof. Dr. João Batista Freire da Silva
________________________________ Prof. Dr. Miguel de Arruda
________________________________ Prof. Dr. Evandro Rogério Roman
________________________________ Prof. Dr. Lucídio Rocha Santos
________________________________ Prof. Dr. Roberto Rodrigues Paes
Poema de António Gedeão (LÁGRIMA DE PRETA) Pseudônimo do Físico-Químico Rómulo Vasco da Gama de Carvalho
Encontrei uma preta que estava a chorar, pedi-lhe uma lágrima para a analisar. Recolhi a lágrima com todo o cuidado num tubo de ensaio bem esterilizado. Olhei-a de um lado, do outro e de frente: tinha um ar de gota muito transparente. Mandei vir os ácidos, as bases e os sais, as drogas usadas em casos que tais.
Ensaiei a frio, experimentei ao lume, de todas as vezes deu-me o que é costume: Nem sinais de negro, nem vestígios de ódio. Água (quase tudo) e cloreto de sódio.
AGRADECIMENTOS
Redigir uma Tese de Doutorado, é um trabalho árduo. Não pelo fato da redação em si, do documento formal. Todo o processo desde a “entrada” ao programa de pós-graduação até a defesa exige grande envolvimento, dedicação, seriedade, responsabilidade, caráter. Nada diferente daquilo que é de se esperar, que é de se desejar... Nada diferente daquilo que os meus pais me ensinaram sobre as coisas da vida.
Mas é árduo, especialmente porque aquilo que fazemos com paixão, nos leva muitas vezes a extrapolar limites. O tempo desaparece, nossa percepção das coisas muda, enlouquecemos e voltamos à razão, e às vezes até nos acabamos. Num passe de mágica, voltamos, e começamos tudo de novo...
Como já escrevi, outra vez, começo aqui a mais informal das formalidades, porque aqui escreverei sem formatos rígidos, sem muitas razões, sem muitas obrigações, mas com sentimentos que o coração, não sei como, controla. Não seguirei ordem de significados nem de privilégios. Apenas com muito prazer, mais uma vez, escreverei.
Primeiro – mais formalmente (ou menos informalmente)
Ao professor Dr. Roberto Paes, o querido Robertão, também por ter aceitado fazer parte da banca, mas especialmente, pelas contribuições que me trouxe, desde a graduação, mesmo muitas vezes sem saber. Um homem grande, para caber dentro do peito, o grande coração.
Ao professor Dr. Manuel Sérgio, pela contribuição valorosa. Suas cartas, seus livros, suas mensagens... Que bom, que hoje, a distância não separa mais os homens.
Ao professor Dr. Evandro Rogério Roman, pelo aceite em participar da banca, e pelo exemplo de determinação, seriedade e hombridade que tem levado pelos campos do nosso Brasil.
Ao professor Dr. Lucídio Rocha Santos, por ter aceitado fazer parte da banca, para composição e avaliação do meu trabalho, pelas contribuições pontuais na qualificação e especialmente por ter vindo nela, prontamente, mesmo sem me conhecer.
Ao professor Dr. Antônio Carlos Gomes, também pelo aceite. Ele não sabe, mas quando pela primeira vez, assisti uma de suas palestras (não me lembro a data, deve ter sido logo depois que o Atlético-PR foi campeão brasileiro), fiquei extremamente entusiasmado com sua inteligência, sua
versatilidade, com a condução do seu discurso. Acompanhei outras mais, diversas vezes. Sempre uma nova lição.
Ao professor Dr. Miguel de Arruda, que estou certo, não se lembra, mas foi um dos incentivadores da minha entrada no Mestrado na FEF-UNICAMP. Não havia vagas, o discurso comum era “se inscreva no próximo ano”. Um dia conversando informalmente, ele (que já devia estar saturado das minhas intromissões “bioquímicas e fisiológicas” em suas aulas) me disse “monta o projeto, faz a prova, vê no que vai dar”. Que bom. Deu tudo certo.
Ao professor Dr Antônio Carlos de Moraes, que me deu a chance de escrever este trabalho; pela oportunidade que me deu quando aceitou um projeto antigo que eu tinha, de ministrar uma disciplina eletiva de graduação na FEF-UNICAMP, pela confiança, e especialmente, pela paciência e tranqüilidade para administrar minha teimosia e devaneios.
Segundo – mais informalmente
Ao grande amigo e professor João Batista Freire, pela poesia com que me ensina as coisas, pelas palavras certas que muitas vezes eu preciso ouvir, e acima de tudo pela confiança. E como já escrevi uma vez, mas não dei para ele ler, escrevo de novo “o João Batista Freire, meu amigo, que sabe das coisas que eu não preciso saber, porque se precisar ele sabe e me diz; e assim é que é; e é assim que a cada bate papo descontraído e despretensioso, acabo aprendendo que certas coisas valem à pena, e outras valem mais ainda... Valeu João!
Ao professor Paulo Roberto de Oliveira, que demorei a conhecer, mas com quem pude aprender muitas coisas sobre a vida, e sobre o trabalho. Nosso primeiro encontro foi uma “batalha” na minha entrevista do Mestrado. Grande discussão. Grande homem. E como ele diria, valeu guri! Ao amigo e professor João Paulo Medina, pela oportunidade que me deu profissionalmente, pela confiança no meu trabalho, pelas ponderações e conselhos. Um homem paciente. Um sonhador maravilhoso, que compartilhou comigo um de seus sonhos, e me abriu as pontas de um novo mundo. Obrigado.
Ao amigo e irmão Luis Gustavo, que é um dos notáveis do “Café dos Notáveis”. Não nascemos irmãos de sangue, mas nos encontramos para sermos irmão na vida.
Ao grande amigo Bruno Franchi, que apesar do meu desleixo, nunca se esquece de mim, e está sempre à disposição para ajudar.
Ao Guga, ou Rodrigo Pirulão, um cara inteligente, um amigo incondicional, um sonhador que também “mora no futebol”. Recebeu-me de abraços abertos quando entrei no selvagem “mundo da bola”, me defendeu com unhas e dentes. Obrigado.
Ao Carlos Pagotti, que mesmo sem concordar muitas vezes com o rumo das coisas, nunca deixou de acreditar na minha capacidade profissional, e apostou em mim. Obrigado por ter compartilhado comigo seu sonho. Aprendi muito!
Ao professor Alcides Scaglia, pelo respeito e carinho fraterno de sempre. Que bom ter te conhecido.
Ao amigo Fernando Catanho, um dos grandes catanduvenses que conheci, pelos motivos todos que não preciso dizer, porque nós sabemos...
Ao amigo Augusto “Ipatinga”, por todas as conversas, debates, apoio e confiança.
À Mariana, Tatu, Lulu, Juliana Cabral, Juliana Rodrigues, Paula, Patrícia, Kimba, Karen, Rita Bove, Vivi, Simone, Ritinha, Lorão, Ivana, Helô, Dú, Aline; enfim, todas as jogadoras
que foram minhas atletas em Jaguariúna; obrigado por terem acreditado no meu sonho, e lutado por ele junto comigo.
A todos meus amigos e jogadores, do Instituto de Economia da UNICAMP (Zaia, Zainha,Guto,
Gustavo, Mineiro, Vitor, Léo, Batata, Felipe, Maurício, Nicolas, Nóia, Koréia, Leandro, Ducati, Daniel, enfim todos eles - “o tempo não pode andar”) por terem me propiciado tantas
lições, para o esporte e para a vida. Um dia estaremos lá (!?), onde nossos sonhos disseram que estaríamos. Encontro vocês!
Ao amigo e professor Miguel Juan Bacic e a amiga Maria Ester Bacic, pelas idéias, pelo incentivo, pela prontidão em me ajudar e acima de tudo pela confiança. Obrigado.
Aos jogadores que trabalharam comigo em Jundiaí, e brigaram, sem receio, por mim. Obrigado
Tindurin, Dú, Marquinhos, Welder, Felipe, Guilherme, Yuri, Juninho, Dênis, Vagner, Diogo, Zé Carlos...
Aos meus alunos, que se tornaram amigos, e que hoje me ensinam mais do que eu posso ensinar a eles:
Natalie Coutinho (pela mente inquieta e pelos questionamentos criativos), Marquinhos (pela
serenidade e paciência contagiante), Emerson (pela confiança e pelas conversas de sempre),
Aprendi muito com todos vocês, inclusive que fazer reunião em canoa apertada vendo o Sol se pôr, é uma experiência inesquecível, quando a pauta é “filosofar sobre o futebol e a vida”;
Leandro Zago, Bruno Baquete, Fernando Rossini, Eduardo; tenho crescido a cada dia com
vocês. Vocês não sabem quanto! Cada discussão, cada idéia nova... Obrigado pela confiança.
Terceiro – os pedaços de mim
Mais uma vez, ao professor Antonio Carlos Baptistuci Leitão e à professora Regina Aparecida
Azevedo Leitão, meu pai e minha mãe, meus grandes professores. Ensinam-me todos os dias
coisas que eu não aprendi na escola, no colégio, no mestrado ou doutorado, mas mesmo assim, acham que eu sei mais do que eles... Claro que não sei. Incondicionalmente todos os dias me amam. Às vezes, ficam tensos demais. Às vezes, relaxados, parecem crianças brincando com o cachorro. Como os admiro. Tantas lutas que lutamos juntos e superamos juntos. Quantos desafios! Quando minhas forças parecem estar acabando, penso neles, elas voltam. Aprendi com eles sobre honra, caráter, fé; aprendi a cair e a levantar, mas acima de tudo, jamais desistir – quantas coisas aprendi com eles, mesmo sem eles saberem....
À Daiane, minha irmã. Mais nova do que eu, me elegeu como uma das suas referências. Quanta responsabilidade. Mal sabe que aprendo mais com ela, do que ela comigo. Dia desses, ela era uma menininha, cheia de manhas, marras, conflitos. Era minha “irmãzinha”. Hoje, é mulher, cheia de responsabilidades, de sonhos de desafios. Demorou, mas aprendeu que na vida tudo que a gente precisa para transformar o nosso mundo, está dentro de cada um de nós. Eu a admiro muito, mas acho que ela não sabe...
À senhorita Vanessa Bellissimo, minha noiva e futura esposa, minha linda morena. Me apaixono por ela todos os dias. Tivemos um começo difícil. Ela não queria nada comigo. Levei-a para tomar sorvete italiano, fiz mágica, contei histórias, levei-a ao cinema e escolhi um filme muito ruim (assim ela poderia prestar atenção em mim, e eu, bom, quem sabe, não conseguiria um beijo). Não deu certo. Levei-a para dançar, caprichei o quanto podia... E um dia, quase que sem querer estávamos apaixonados. Paixão intensa... Ela é uma pimenta (com chocolate, claro!).
Todos os dias quando nos encontramos, parece que tudo começou ontem. Ela é criança, ela é mulher, a mulher da minha vida.
Vanessa: A vida nos trouxe, por caminhos diferentes, para um lugar comum. Sou muito feliz por ter te encontrado e viver ao seu lado. Obrigado pelo companheirismo, obrigado pela dedicação, obrigado pelos puxões de orelha... Te admiro e te Amo. Termino então, parafraseando Nado Reis e Samuel Rosa: “e quando eu estiver triste, simplesmente me abrace; quando eu estiver louco,
subitamente se afaste; quando eu estiver fogo, simplesmente se encaixe; e quando eu estiver bobo, sutilmente disfarce; mas quando eu estiver morto, suplico que não me mate, não dentro de ti”
LEITÃO, Rodrigo Aparecido Azevedo. O jogo de futebol: investigação de sua estrutura, de seus modelos e da inteligência de jogo, do ponto de vista da complexidade. 2009. 245f.. Tese
(Doutorado em Educação Física) – Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas. Campinas. 2009.
RESUMO
No desporto de alto rendimento, cada vez mais os detalhes fazem a diferença entre o primeiro e o segundo colocados. O jogo, e no nosso caso o jogo de futebol, é um fenômeno complexo, onde o desempenho de quem joga é transdimensional. A todo o tempo, jogadores e equipes são confrontados com situações-problema, em circunstâncias com alto grau de imprevisibilidade que requerem respostas imediatas, técnicas, táticas, físicas e psicológicas ao mesmo tempo, não dissociadas e de forma integral. Os conflitos e soluções desencadeadas por tais situações geram um ambiente de jogo extremamente dinâmico de constantes ajustes em suas estruturas e com permanente mobilização da inteligência humana, individual e coletiva, que do ponto de vista da complexidade, se torna transdimensional. Caos, fractais, sistemas, jogo, imprevisibilidade; a real compreensão dos fenômenos que levam ao melhor rendimento e aos melhores resultados nas situações-problema do jogo deve transcender os óculos tradicionais que o observam como fenômeno. Dessa forma a proposição dessa pesquisa é: a) analisar o fenômeno da auto-organização no jogo de futebol; b) analisar a mobilização da atuação da inteligência humana em contexto específico de jogo com característica emergencial; c) justificar a necessidade de um modelo de treino para o futebol pautado no paradigma da complexidade. Para tanto, foi realizada pesquisa de caráter qualitativo: 1) com análise de ações técnico-táticas de jogadores de futebol, durante os jogos das quartas-de-final, das semi-finais e da final da Copa do Mundo FIFA 2006; 2) através da análise de imagem, a 30 quadros por segundo, de situações específicas em contexto de urgência nesses mesmos jogos; e 3) através de procedimento de observação participante de uma equipe de futebol masculino sub-17, treinada sob o ponto de vista da complexidade. A partir das observações realizadas, podemos destacar dentre outras coisas, que: a) no jogo de futebol a inteligência humana se manifesta individual e coletivamente de acordo com cada circunstância; b) A mobilização da inteligência humana individual, observada em contexto de urgência, mostrou estar intimamente associada à intenção nas ações e à intencionalidade; c) a mobilização da inteligência coletiva de jogo mostrou estar associada a organização das equipes, sendo essa (a auto-organização) a manifestação da inteligência em constante interação com os atratores e outros elementos do sistema “jogo”; d) é o sistema “jogo” que comporta a interação dos sistemas organizacionais das equipes que jogam. A organização de cada um desses sistemas pode ser influenciada e influenciar a organização adversária através, ou de uma interação melhor com o sistema “jogo”, ou de ruídos que são gerados por cada uma das equipes visando desequilibrar o adversário (futebol de influência); e) como a organização funciona como uma identidade do sistema, para mantê-la, jogadores e equipes precisam de referências que permitam melhor leitura de jogo e autonomia para as ações. O esquema tático, por exemplo, pode se configurar como uma dessas referências (e também como um atrator do sistema); f) a transdimensionalidade das situações-problema do jogo, sob as lentes da complexidade, justifica a necessidade de um modelo de treino subordinado ao jogo.
LEITÃO, Rodrigo Aparecido Azevedo. The soccer game: search of its structure, its models and intelligence of the game, from the point of view of complexity. 2009. 245f. Thesis (Doctorate in Physical Education) – Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas. Campinas. 2009.
ABSTRACT
In high-level sports, small things make difference between the first and second positions. The game, and in this is case the soccer game, is a complex phenomenon where the player’s performance is trans-dimensional. At every time players and teams meet problem-situations, in unpredictable circumstances that need fast technical, tactical, physical and psychological responses, at the same time not separated and comprehensive. The conflicts and the solutions in these situations create a dynamic game environment, with many adjusts in its structures and permanent individual and collective human intelligence mobilization, from the point of view of complexity, it becomes trans-dimensional. Chaos, fractals, systems, game, unpredictability; the real phenomena understanding needs to transcend the traditional view that sees it as phenomenon. Then, the purpose of this research is: a) to analyze the self-organization in soccer game; b) to analyze the human intelligence mobilization in specific game circumstance, with emergency characteristics; c) to justify the need of a training model for soccer based on the complexity paradigm. For this, a qualitative research was carried out: 1) with technical-tactical analysis of soccer players’ actions, on round of eight, semi-finals and final of the FIFA World Cup 2006; 2) through image analysis, at 30 frames per second, in emergency specific situations, in the same games, and 3) through the participant observation procedure of a soccer team U-17 male, trained from the point of view of complexity. From observations, we can point out that: a) in soccer game, the human intelligence appears individually and collectively, under the circumstances; b) the individual human intelligence mobilization, observed in urgency situation, is closely associated with the actions intention and intentionality; c) the game human intelligence mobilization is associated with team’s organization, and this (the self-organization) is the manifestation of intelligence in constant interaction with attractors and other elements of game systems; d) it is the “game” system that contains interaction between the organizational systems of the teams that play. The team organizational systems can be influenced and influence the opponent organization through, either best game system interactions, or noises that are created to unbalance the opponent (influence soccer); e) if the organization is the system’s identity, to keep it, players and teams need references that let the best game perception and autonomy to actions. The tactical scheme, for example, can configure with these references (and with system’s attractor too); f) trans-dimensionality of game problem-situations, under the complexity's lens, justified the need of a training model subordinated to the game.
LEITÃO, Rodrigo Aparecido Azevedo. El juego de fútbol: investigación de su estructura, de sus modelos y de la inteligencia de juego, desde el punto de vista de la complejidad. 2009. 245f. Tesis (Doctorado en Educación Física) – Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas. Campinas. 2009.
RESUMEN
En el deporte de alto rendimiento, cada vez más los detalles marcan la diferencia entre la primera y segunda colocación. El juego, y en nuestro caso el juego de fútbol, es un fenómeno complejo, donde el desempeño de quien juega es transdimensional. Todo el tiempo, los jugadores y equipos se enfrentan con situaciones problemáticas, en circunstancias con alto grado de imprevisibilidad que requieren respuestas inmediatas, técnicas, tácticas, físicas y psicológicas al mismo tiempo, no disociadas y de forma integral. Los conflictos y soluciones desencadenadas por tales situaciones generan un ambiente de juego extremamente dinámico de constantes ajustes en sus estructuras y con permanente movilización de la inteligencia humana, individual y colectiva, que desde el punto de vista de la complejidad, se torna transdimensional. Caos, fractales, sistemas, juego, imprevisibilidade; la real comprensión de los fenómenos que llevan al mejor rendimiento y a los mejores resultados en las situaciones problemáticas del juego debe trascender las ópticas tradicionales que lo observan como fenómeno. De esa forma el propósito de esta investigación es: a) analizar el fenómeno de la autoorganización en el juego de fútbol; b) analizar la movilización de la actuación de la inteligencia humana en contexto específico de juego con característica emergencial; c) justificar la necesidad de un modelo de entrenamiento para el fútbol pautado en el paradigma de la complejidad. Para ello, se realizó una investigación de carácter cualitativo: 1) con análisis de acciones técnico tácticas de jugadores de fútbol, durante los encuentros de cuartos de final, de las semifinales y de la final de la Copa del Mundo FIFA 2006; 2) a través del análisis de imagen, a 30 cuadros por segundo, de situaciones específicas en contexto de urgencia en esos mismos juegos; y 3) a través del procedimiento de observación participante de un equipo de fútbol masculino sub17, entrenado bajo el punto de vista de la complejidad. A partir de las observaciones realizadas, podemos destacar entre otras cosas, que: a) en el juego de fútbol la inteligencia humana se manifiesta individual y colectivamente de acuerdo con cada circunstancia; b) La movilización de la inteligencia humana individual, observada en contexto de urgencia, mostró estar íntimamente asociada a la intención en las acciones y a la intencionalidad; c) la movilización de la inteligencia colectiva de juego mostró estar asociada a la autoorganización de los equipos, siendo esta (la autoorganización) la manifestación de la inteligencia en constante interacción con los atractores y otros elementos del sistema “juego”; d) es el sistema “juego” que comporta a interacción de los sistemas organizacionales de los equipos que juegan. La organización de cada uno de esos sistemas pode ser influenciada e influenciar la organización adversaria a través, o de una mejor interacción con el sistema “juego”, o de ruidos que son generados por cada uno de los equipos intentando desequilibrar al adversario (fútbol de influencia); e) cómo la organización funciona como una identidad del sistema, para mantenerla, jugadores y equipos precisan referencias que permitan una mejor lectura de juego y autonomía para las acciones. El esquema táctico, por ejemplo, puede configurarse como una de esas referencias (y también como un atractor del sistema); f) la transdimensionalidad de las situaciones problemáticas del juego, bajo las lentes de la complejidad, justifica la necesidad de un modelo de entrenamiento subordinado al juego.
LISTA DE FIGURAS:
Figura 1 – Organização (adaptado de MORIN, 1997) 33
Figura 2 – Pequenas alterações iniciais podem levar a repercussões catastróficas no sistema 47
Figura 3 – Os fractais 50
Figura 4 – Preparação desportiva do jogador de futebol 65
Figura 5 – Bola caindo (Adaptado de Kandel (2002)) 79
Figura 6 – Representação esquemática literal do esquema tático 89
Figura 7 – Esquemas táticos ao longo da história 1863/1870 91
Figura 8 – Esquemas Táticos ao longo da história 1871/1883 92
Figura 9 – Esquemas Táticos ao longo da história 1925/1950 93
Figura 10 – Esquemas Táticos ao longo da história (década de 60) 94
Figura 11 – Esquemas táticos ao longo da história (década de 70) 95
Figura 12 – Esquemas táticas ao longo da história (década de 80) 96
Figura 13 – Esquema tático 1-4-4-2 com diferentes desenhos na linha de meio campo 98
Figura 14 – Seleção da Espanha na Eurocopa UEFA 2008: cinco linhas para representar o esquema tático 98
Figura 15 – Auto-organização e atratores: triângulos 101
Figura 16 – Auto-organização e atratores: desequilíbrios 103
Figura 17 – Referências para a ocupação do espaço 106
Figura 18 – Modelo de jogo segundo Castelo (2007) – Revista Digital Futbol Tactico 109
Figura 19 – Um exemplo de modelo de jogo. 110
Figura 20 – A pesquisa e a questão 116
Figura 21 – Campograma utilizado 118
Figura 22 –Média das ações com bola 120
Figura 24 – Linhas de referência defensiva 123
Figura 25 – Média das ações com bola de ataque 130
Figura 26 – Média das ações com bola de defesa 133
Figura 27 – Média das ações com bola de ataque: equipes com plataformas táticas iguais 136
Figura 28 – Média das ações com bola de defesa: equipes com plataformas táticas iguais 137
Figura 29 – Média das ações com bola (geral): Itália vs França, 1º tempo 139
Figura 30 – Média das ações com bola (geral): Itália vs França, 2º tempo 140
Figura 31 – Incidência de eventos: distribuição percentual 143
Figura 32 – Desfecho das jogadas que tiveram como ação o passe certo. 146
Figura 33 – Incidência de eventos: porcentagem de finalizações 148
Figura 34 – Perda da bola na área penal 150
Figura 35 – Incidência de tempos para a ação 152
Figura 36 – Tempo para a ação em função do número de apoios 157
Figura 37 – Ações em função do tempo 159
Figura 38 – Desfecho das jogadas que tiveram como ação o passe certo desconsiderando as ações
realizadas “de primeira” 161
Figura 39 – Incidência de tempos para a ação desconsiderando as ações “de primeira” 163
Figura 40 – Semana de treino 166
Figura 41 – Média da ações técnicas com bola no jogo 1. 176
Figura 42 – Média das ações técnicas com bola no jogo 18. 177
Figura 43 – Zonas de maior incidência de ações de defesa, jogo 1. 178
LISTA DE GRÁFICOS:
Gráfico 1 - Incidência dos fundamentos no jogo em função da plataforma tática 127
Gráfico 2 - Tempos para a recuperação 171
Gráfico 3 – Chutões 173
Gráfico 4 - % de êxitos (1a e 2a bolas) 175
Gráfico 5 – Gols 181
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO 27
1. A UNIDADE COMPLEXA: DAS PARTES AO TODO, DO TODO ÀS PARTES 31
1.1. Teoria Sistêmica 31
1.2. Organização 36
1.3. Atratores e Atratores Estranhos 40
1.4. Auto-Organização 42 1.5. Caos 45 1.6. Fractais 49 2. O JOGO 51 2.1 O começo 51 2.2. A lógica e o jogo 52
2.3. Mais do que futebol, o Jogo 56
2.4. Preparação desportiva para jogar: o Jogo de futebol 57
2.4.1. A preparação tática em Jogo 64
3. A INTELIGÊNCIA HUMANA INDIVIDUAL EM JOGO 67
3.1. Circunstâncias 67
3.2. A hipótese do marcador somático 73
3.3. A tomada de decisão e a organização do movimento: mais possibilidades 76
3.4. Intencionalidade 82
4. INTELIGÊNCIA COLETIVA EM JOGO: AUTO-ORGANIZAÇÃO, ATRATORES E AS
REFERÊNCIAS NO JOGO DE FUTEBOL 85
4.1. Esquemas Táticos 85
4.2. Esquemas Táticos: evolução histórica pela evolução do jogo 90 4.3. Auto-organização e atratores no jogo de futebol 99
4.4. Atratores e Referências no jogo de futebol 104
4.5. Identidade coletiva da equipe: Modelo de Jogo 108
5. A PESQUISA: FORMALIDADES, PROCEDIMENTOS E METODOLOGIA 113
5.1. Os Objetivos da Pesquisa 113
5.1.1.Objetivo Geral (A TESE EM SÍNTESE: “a compreensão que os jogadores têm do jogo
transcende táticas e estratégias prévias de jogo!”) 113
5.1.2.Objetivos Específicos 113
5.2. Caracterização da pesquisa 114
5.3. A pesquisa e a questão 115
5.4. Caracterização da amostra e procedimentos 117
5.4.1. Organização do jogo 117
5.4.2. Inteligência Circunstancial 121
5.4.3. Observação Participante 122
6. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS 125
6.1. A compreensão do jogador sobre o jogo: a auto-organização coletiva 125 6.2. A compreensão do jogador sobre o jogo: a inteligência humana individual de jogo e as circunstâncias
urgentes. 142
6.3. A compreensão do jogador sobre o jogo: a observação participante, o jogador, a equipe e a
complexidade 165
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS 185
REFERÊNCIAS 193
INTRODUÇÃO
No jogo de futebol, o tempo todo ocorrem interações complexas em que situações de desequilíbrio e de equilíbrio se alternam de forma indissociável. Com base em Tonello; Freire (2007), podemos dizer que durante um jogo, seja ele qual for, conforme a configuração dessas interações vai se modificando, modifica-se também a organização da equipe em um processo permanente auto-organizativo em resposta às necessidades individuais e coletivas que vão aparecendo.
Jogadores e equipes são, a todo tempo no jogo, submetidos a uma diversidade de situações-problema. Essas situações-problema exigem respostas rápidas que muitas vezes são o limiar entre sucesso e o fracasso. Em outras palavras, durante o jogo a inteligência é mobilizada individualmente e coletivamente em contextos, em sua maioria, de pressão temporal.
Tanto a organização no jogo, quanto a mobilização da inteligência nas situações-problema específicas, estão ligadas de forma sistêmica e se relacionam com a compreensão que jogadores e equipes têm sobre o jogo.
Compreender o jogo é algo muito difícil, porque ele como fenômeno complexo tem a imprevisibilidade como característica determinante (GARGANTA, 1997) e isso quer dizer que as situações-problema que nele ocorrem seguem um padrão aleatório inesperado, aparentemente não-previsível.
Isso traz implicações importantes nos modelos utilizados na preparação para o jogo, porque preparar para o jogo significa elaborar treinos que confiram, explorem e desencadeiem situações-problema que sustentem o jogar integral (físico, técnico, tático e psicológico).
As ações de jogadores e equipes no jogo são soluções para os problemas que surgem nele. Essas soluções representam um “saber e poder fazer” ao mesmo tempo. Isso significa que jogadores e equipes devem estar preparados fisicamente, tecnicamente, taticamente e psicologicamente, mas não de forma isolada ou fragmentada, e sim de maneira que todas essas dimensões se expressem em uma coisa só. O treino precisa proporcionar o surgimento de problemas semelhantes aos do jogo, para que os jogadores se preparem efetivamente para ele. Claro, o jogo é imprevisível, e como não se sabe exatamente qual o problema que virá durante uma partida, no treino isso precisa estar presente; ou seja, o treino tem que preparar jogadores e
equipe para a imprevisibilidade, não para tornar o imprevisível, previsível (o jogo acabaria!), e sim para que aprendam a responder ao inesperado, de maneira criativa, inteligente. O treino em sua essência deve refletir positivamente no jogar da equipe, de maneira real. Torna-se necessário abandonar o discurso de que “treino é treino e jogo é jogo”, para assumir o discurso “treino é jogo e jogo é treino”; e isso em essência não se trata de povoar o estádio com torcedores aos “berros” enquanto o treino é realizado, mas sim treinar o jogo levando o jogador ao estado de jogo.
Para Bota e Colibaba-Evulet (2001) o treinador esportivo tem grande importância para a construção da capacidade esportiva. Apontam para o fato de que o seu conhecimento técnico específico está ligado diretamente às conquistas que seus grupos podem obter. O treinador, segundo Balbino (2005), é um agente da pedagogia do esporte, responsável direto pelo sucesso, rendimento e conquistas de sua equipe.
Então, se equipes e jogadores, precisam em situações de jogo mobilizar de forma emergencial a inteligência e o tempo todo resolver problemas (com processos de auto-organização), e se a ação do treinador como agente da pedagogia do treinamento está diretamente ligada ao sucesso de suas equipes, é necessário que se busque a compreensão sobre o jogo e a partir dela possam surgir modelos de treinamento que contemplem em sua totalidade, o jogo e a complexidade inerente a ele.
No jogo, é o jogador quem decide, é ele quem resolve o problema. Com diversificadas e imprevisíveis situações emergindo o tempo todo, sua compreensão sobre o jogo e suas circunstâncias (novas, imprevisíveis) pode ser determinante para que ele resolva melhor os problemas que surgem (com respostas autônomas e criativas). E sendo ele (o jogador), elemento de uma unidade complexa (a equipe), mergulhado em interações sistêmicas, a compreensão do jogo torna-se necessidade coletiva, que resulte em organização, orientada por um sentido comum. Essa pesquisa busca mostrar que a compreensão do jogo por parte de jogadores e equipes é fator determinante para resolver situações-problema de jogo e transcende aos esquemas táticos e as táticas de jogo. Trata então como temas centrais para o seu desenvolvimento:
a) o fenômeno da “organização” e a da “auto-organização” de jogadores e equipes no jogo, como expressão da mobilização de uma inteligência coletiva de jogo;
b) a atuação da inteligência humana mobilizada em contextos de jogo com características urgentes e emergenciais;
c) a justificativa para um modelo de treino pautado nas teorias da complexidade.
Diversos estudos contemplam diferentes aspectos do jogo. Sobre os aspectos que envolvem a preparação física, (desde a quantificação de esforços dentro de uma partida, até
as alterações metabólicas decorrentes desses esforços, bem como análise de protocolos de avaliação das habilidades e capacidades biomotoras) por exemplo, temos Godik; Popov (1993),
Weineck (2000), Bangsbo (1997; 2002), Gomes (2002), Gomes; Souza (2008). Sobre as questões técnicas do jogo, temos por exemplo, Vendite; Moraes (2000), Vendite; Moraes; Vendite (2000), Leitão (2001), Moraes; Vendite; Vendite (2002), Leitão et al (2003), Guia; Ferreira; Peixoto (2004). Sobre as questões táticas temos Garganta,(1997), Ortega, (2000; 2001), Leitão (2001; 2004). Existem ainda estudos sobre outros aspectos relacionados ao jogo, jogadores ou esquipes, como por exemplo Bellissimo (2008) a respeito da ação de árbitros e Brandão (2000) sobre o comportamento dos atletas.
Alguns desses estudos discorrem sobre seus temas pautados no pensamento complexo e alguns outros ainda, enraizados no pensamento cartesiano.
O presente estudo tenta, antes do futebol, contemplar o jogo e as questões de complexidade inerentes a ele.
1. A UNIDADE COMPLEXA: DAS PARTES AO TODO, DO TODO ÀS PARTES
1.1. Teoria Sistêmica
Por muito tempo na ciência, fenômenos foram esmiuçados em fragmentos, que cada vez menores, buscavam ser desvendados na tentativa de através da união dos achados sobre suas partes, desvendar o que se imaginava ser o todo (reducionismo).
Muito se avançou através dessa perspectiva. Caminhos e possibilidades surgiram e serviram de ponto de partida para formulação de questões e investigações de problemas que hoje são foco de outra forma de se entender a complexidade dos fenômenos.
Então, ainda que fossem (e são) inegáveis as contribuições do reducionismo, novas perspectivas apareceram como alternativa para dar novas respostas aos problemas.
“Não se trata de subestimar os brilhantes sucessos alcançados pelas pretensões reducionistas: a procura do elemento, primeiro levou à descoberta da molécula, depois do átomo, e depois da partícula; a procura de unidades manipuláveis e de efeitos verificáveis permitiu manipular, de facto, todos os sistemas através da manipulação dos seus elementos.”(MORIN, 1997, p.120)
Tentando entender de uma maneira mais global o comportamento e funcionamento de elementos de um todo complexo, a partir das relações desses elementos com outros elementos do mesmo fenômeno, e com o meio-ambiente, Bertalanffy (2008) nos anos 50 apresentou o que chamou de a “Teoria Geral dos Sistemas”.
Bertalanffy (2008), a partir desta teoria, deu ênfase ao entendimento dos elementos do todo que compunham um sistema, através da observação das relações e dependências entre esses elementos, de maneira a não perder de vista a idéia de que um sistema é uma totalidade integrada, e que portanto, não se pode compreender seus componentes a partir do seu isolamento.
Segundo Morin (1997), a Teoria Geral dos Sistemas se espalhou por toda parte durante os anos 60 e possibilitou diversos êxitos científicos. Porém, o mesmo autor destaca, que apesar da contribuição inovadora, a teoria de Bertalanffy deixou lacunas a serem exploradas.
“Embora comporte aspectos radicalmente inovadores, a teoria geral dos sistemas nunca tentou a teoria geral do sistema; omitiu aprofundar o seu próprio fundamento e reflectir sobre o conceito de sistema. Assim, o trabalho preliminar está ainda por fazer: interrogar a idéia de sistema.” (MORIN, 1997, p.98)
A Teoria Geral dos Sistemas auxiliou o desenvolvimento das observações científicas, na medida em que despertou o olhar para uma leitura diferente dos fenômenos que antes eram compreendidos a partir de lentes cartesianas.
E se a construção do conceito de sistema, a partir de Bertalanffy, trouxe como lacunas, idéias partidárias de um não-reducionismo, acabou em descuido também reduzindo a observação dos fenômenos a um entendimento de sistema que segundo Morin (1997) estendeu uma sombra sobre a idéia de “organização”, encobriu a complexidade dos fenômenos e obscureceu as próprias elucidações da ciência reducionista.
Então o que em princípio era uma redução aos fragmentos do todo, transformou-se à redução ao todo.
“A teoria dos sistemas reagiu ao reducionismo no e pelo holismo ou idéia do todo. Mas, julgando ultrapassar o reducionismo, o holismo operou, de facto, uma redução ao todo: donde advém não só a sua cegueira relativa às partes enquanto partes, mas também a sua miopia relativa à organização enquanto organização, a sua ignorância relativa à complexidade no seio da unidade global.” (MORIN, 1997, p.120)
A busca pelo entendimento sobre o todo que então trilhava a compreensão das partes, cada vez mais fragmentadas, passou à tentativa de entendê-lo a partir da compreensão de uma visão do próprio todo, através de suas inter-relações.
Mas como compreender o todo ou as partes sem entendê-los em função um do outro ou de forma isolada?
Com base em Morin (1996; 1997; 2004) o entendimento de um sistema não pode se resumir ao entendimento das partes, concebidas de forma isolada, nem tão pouco do todo pelo todo, porque enquanto na primeira a explicação reducionista desarticula, desorganiza, decompõe e simplifica a realidade do sistema, à organização e à unidade complexa; na segunda, explicações holísticas, num pseudo-avanço ao reducionismo, ignoram as partes, as imposições internas do sistema e a organização. Em ambos os casos a unidade complexa é reduzida ou às partes isoladamente, ou ao todo, sendo as duas (reducionista ou holística), explicações que se rejeitam uma à outra, provindas de único paradigma.
Então, as partes de um sistema devem ser entendidas em função do todo, e ao mesmo tempo compreendidas em sua identidade isolada.
Surge então, a necessidade de um avanço ao reducionismo e ao holismo, de maneira, que a idéia de sistema seja convergente com um princípio de inteligibilidade, que integre verdadeiramente as partes ao todo e o todo às partes, sem que um aniquile ao outro, para que fiquem evidentes e claras, as relações entre as partes e o todo, onde cada termo remete para o outro. “Precisamos dum conceito sistêmico que exprima simultaneamente unidade,
multiplicidade, totalidade, diversidade, organização e complexidade” (MORIN, 1997, p.119).
Então a compreensão do todo, a partir de uma visão sistêmica, passa também pela necessidade de compreensão dos seus elementos. Isso quer dizer que os elementos de um sistema têm de ser definidos, pelas e nas suas particularidades originais, pelas e nas inter-relações que participam, pelas e nas visões do todo onde se integram; e da mesma forma o todo, definido em relação aos seus elementos, às inter-relações e ao próprio todo, formando segundo Morin (1997), um circuito de relações (ou inter-relações), onde a organização assume o papel de núcleo das interações do sistema.
A organização é então “o rosto interiorizado do sistema (inter-relações,
articulações, estrutura), o sistema é o rosto exteriorizado da organização (forma, globalidade, emergência)” (MORIN, 1997, p.139).
Figura 1 – Organização (adaptado de MORIN, 1997)
Conforme podemos observar na Figura 1, o todo é ao mesmo tempo resultado das particularidades dos seus elementos constituintes, das inter-relações desses elementos, da organização norteada e norteadora dessas inter-relações e dos ajustes gerados a partir das emergências resultantes desse conjunto de fenômenos. Esses fenômenos, compõem um circuito
que se retroalimenta, gerando ajustes em cada um dos seus processos, ao mesmo tempo e o tempo todo. Então, os elementos nesse caso, tornam-se resultado do todo que constituem ,através da organização dada pelas inter-relações do sistema, também resultantes das particularidades originais de cada um dos elementos.
“Este circuito, num sentido, está fechado, anela-se necessariamente, visto que o sistema é uma entidade relativamente autónoma. Mas temos também de abri-lo, porque esta autonomia é precisamente relativa: teremos de conceber o sistema na sua relação com o meio, na sua relação com o tempo, na sua relação com o observador/conceptor.” (MORIN, 1997, p.121)
Entender que o todo, só pode ser desvendo a partir de uma visão sistêmica que considere as particularidades dos seus elementos constituintes, ao mesmo tempo em que considera as inter-relações entre esses elementos e a sua organização, nos leva também a conceber que a interação dinâmica, considerada pelo circuito proposto por Morin (1997), na concepção do todo, pode fazer com que esse todo seja superior a soma das partes que o constituem, mas também inferior a elas.
Com base em Morin (1997; 2001), isso quer dizer que em uma perspectiva cartesiana se pode errar não só pela redução do todo às partes, mas também delas ao todo, já que, na medida em que “todo” e “soma das partes” não são iguais, poderá ser a “soma das partes” maior que o “todo” ou o “todo” maior que a “soma das partes”.
O todo é superior a soma das partes quando constitui uma unidade que apresenta emergências1 que sobressaem a soma dos seus elementos de forma isolada.
“O todo é superior à soma das partes (...).
(...) O sistema possui algo mais do que os seus componentes considerados de modo isolado ou justaposto:
• A sua organização;
• A própria unidade global (o todo);
• As qualidades e propriedades novas, emergentes da organização e da unidade global.” (MORIN, 1997, p.103)
O todo é inferior a soma das partes quando as características inerentes a identidade original das partes é sucumbida na organização do todo.
1
Para Morin (1997) p.104, “Podemos chamar emergências às qualidades ou propriedades dum sistema que apresentam um caracter de novidade em relação às qualidades ou propriedades dos componentes considerados isoladamente ou dispostos de maneira diferente num outro tipo de sistema”.
O todo é inferior à soma das partes: isto significa que qualidades ou propriedades ligadas às partes consideradas isoladamente desaparecem no seio do sistema. Esta idéia raramente é reconhecida. No entanto, é dedutível da idéia de organização, e deixa-se conceber muito mais logicamente do que a emergência. (MORIN, 1997, p.109)
Então os elementos, as inter-relações e a organização, constituem um todo que é o próprio sistema, que é diferente da soma dos seus constituintes e ao mesmo tempo superior e inferior a ela. Da mesma forma as partes são inferiores, superiores e diferentes daquilo que eram ou seriam fora do sistema. Então um sistema, é um todo que toma forma ao mesmo tempo em que os seus elementos se transformam (MORIN, 1997; 2001).
Segundo Ashby (1962), em um sistema, a organização entre suas variáveis constituintes, faz emergir sobre as possibilidades de transformação peculiares a ele, imposições que podem limitar a ação de elementos do próprio sistema (todo inferior à soma das partes).
Essas imposições, com base em Morin (1997), são inerentes a qualquer relação organizacional, pois essa (a relação organizacional), exerce restrições sobre os elementos ou partes que estão submetidos a ela. Então, imposições podem fazer com que o todo seja inferior a soma das partes. Porém, se só há sistema, quando os seus elementos não podem adotar todos os seus estados possíveis, a magnitude do todo também pode ser superior às partes, se as imposições permitirem autonomia aos elementos do sistema, sem que ele perca sua identidade organizacional, e faça florescer emergências das inter-relações internas a ele.
Dessa maneira, a essência da magnitude que diferencia partes e todo (um superior ou inferior ao outro), está na compreensão dos ajustes auto-organizativos, que norteados pelas imposições, podem ou não favorecer o surgimento de emergências no sistema (potencializando ou não a autonomia de seus elementos). E da mesma forma que os elementos do sistema sofrem imposições do todo, sofrem também de outros elementos e fazem imposições ao próprio todo, de maneira que a autonomia pode, não havendo objetivo comum entre os elementos do sistema para manutenção da identidade organizacional, levar a inferiorização do todo frente as partes.
“O determinismo interno, as regras, as regularidades, a subordinação dos componentes ao todo, o ajustamento das complementaridades, as especializações, a retroacção do todo, a estabilidade do todo, e, nos sistemas vivos, os dispositivos de regulação e de controlo: a ordem sistêmica, numa palavra, traduz-se em outras tantas imposições. Toda a associação implica imposições: imposições exercidas pelas partes interdependentes
umas sobre as outras, imposições das partes sobre o todo, imposições do todo sobre as partes. Mas enquanto as imposições das partes sobre o todo se relacionam primeiro com os caracteres materiais das partes, as imposições do todo sobre as partes são, em primeiro lugar, de organização.” (MORIN, 1997, p.109)
Então, ao se organizar, um sistema pode ter, fortalecidas ou enfraquecidas, as identidades das partes e/ou a identidade do todo; do todo sobre as partes, e/ou das partes sobre o todo, de maneira que sua organização vai refletir sua identidade.
1.2. Organização
Com o desenvolvimento da física quântica, o conceito de uma Ciência clássica determinista, com relações lineares de causa-efeito, sem perder sua importância, foi sendo superado pelo entendimento sistêmico e complexo do todo, que sem desconsiderar a necessidade de compreensão sobre as partes, deu rumo a novas pesquisas e descobertas.
Essas novas pesquisas e descobertas, avançaram fronteiras e mudaram a visão sobre fenômenos em diversas áreas do conhecimento.
Ganhou foco especialmente, a necessidade de se entender como se comportam os sistemas caóticos, e se esses avançam à qualquer tentativa de previsão ou controle. Da mesma maneira, avançou a idéia de que é na aparente instabilidade e imprevisibilidade desses sistemas, que reside sua ordem e organização.
(...) é possível explorar a idéia dum universo que constitui a sua ordem e a sua organização na turbulência, na instabilidade, no desvio, na improbabilidade e na dissipação energética. (MORIN, 1997, p. 45).
Então, juntamente com a busca pela compreensão do funcionamento dos sistemas, e particularmente os caóticos, vêm também o desafio de entender como eles se organizam.
Cabe aqui ressaltar, antes de prosseguir, que os conceitos de organização e ordem são distintos. Com base em D’Ottaviano; Bresciani (2004), corroborando com Morin
(1997), a organização é uma característica essencial de cada sistema, enquanto a ordem, uma característica particular de certas organizações.
Então a relação entre as estruturas de um sistema podem respeitar algum grau de ordem, ou não. Isso quer dizer que, podem existir sistemas organizados que não apresentam qualquer relação de ordem em suas estruturas (organizados e desordenados).
Para Morin (1997, p.14), “a organização é um conceito original, se
concebermos a sua natureza física”, que está nas inter-relações e interdependências dos sistemas,
e:
“(...) introduz então uma dimensão física radical na organização viva e na organização antropossocial, as quais podem e devem ser consideradas como desenvolvimentos transformadores da organização física”. (MORIN, 1997, p.14)
O mesmo autor, sintetizando sua idéia sobre o conceito de organização, aponta que é ela que exprime o caráter constitutivo das interações do sistema, ou seja, aquilo que forma, mantém, protege, regula, rege e regenera-se, dando realmente a idéia de sistema a sua coluna vertebral (MORIN, 1996).
Segundo D’Ottaviano; Bresciani (2004), a organização representa as relações e as atividades ou funções de um sistema, tendo a capacidade de transformar, produzir, reunir, manter e gerar os comportamentos que ele apresenta. Ainda para os mesmos autores, ela (a organização) pode ser identificada a partir das características das estruturas e das funções do sistema. Essa caracterização traz em si a sua dinâmica subjacente.
Então, um sistema possui estruturas e funções que se relacionam, e que apresentam interdependência. O entendimento da organização de um sistema, está na identificação e compreensão das estruturas e funções que o compõem, bem como da interação entre elas.
Mas nesse ponto, Morin (1997) chama a atenção para que não se corra o risco de, numa lógica reducionista, reduzir o sistema as suas características estruturais; devendo então ser necessário o entendimento da função de cada um dos seus elementos como elementos do todo (compreendendo as partes e o todo), imersos a um ambiente, sem que se perca sua identidade organizacional.
A dualidade entre o interior e o exterior traz em germe não só a cisão entre o universo do todo e o universo das partes, mas também uma cisão entre o universo fenomênico, onde o sistema existe de modo extrovertido, com as suas qualidades emergentes, e o universo introvertido da organização, nomeadamente das regras organizacionais designadas pelo nome de estruturas. Assim, o todo fenomênico pode ficar à superfície, ignorando a organização e as partes, embora possa controlá-las globalmente e retroagir sobre as suas ações ou movimentos.
Damo-nos conta, à nossa maneira, desta dualidade quando distinguimos, num sistema, a sua estrutura e a sua forma, e a nossa lógica reducionista tende, aliás, a reduzir, como simples efeitos, os caracteres fenomênicos aos caracteres estruturais.
Há uma grande precisão, no que se refere não só aos sistemas sociais, mas também aos sistemas biológicos, na concepção destes sistemas sob o ângulo duma relação conjunta infra/superestrutura, onde a segunda ignora e esquece a primeira. Temos ainda de assinalar que a primeira igualmente ignora e esquece a segunda, e sobretudo temos de conceber que esta ignorância mútua se situa no seio duma solidariedade indissolúvel, onde a “superestrutura” não é apenas um vago epifenômeno, regressando a infra-estrutura por uma retroação fraca, mas participa recorrentemente da infra-estruturação da infra-estrutura. Temos portanto de conceber a complexidade biológica e sociológica daquilo que, sendo profundamente uno, comporta vários níveis de organização, de ser e de existência, torna-se múltiplo, e, no limite, antagônico a si mesmo. (MORIN, 1997, p. 123).
Segundo Tonello (1999) as estruturas de um sistema são conjuntos de elementos unidos por relações de várias naturezas (estratégica, espaço-temporal, casual, estática ou dinâmica), onde as funções da organização, passam pela conservação da forma do sistema, de maneira que ele continue a existir em sua totalidade, pela interação entre seus elementos e pela renovação e reconstrução das suas relações.
A estrutura de um sistema então é o conjunto articulado das relações entre os elementos constituintes do sistema, e o funcionamento do sistema, o conjunto articulado das atividades desses elementos (D’OTTAVIANO; BRESCIANI , 2004). Ainda com base nesses autores, as transformações dinâmicas pelas quais o sistema passa, advêm da função dos seus elementos, condicionada a estrutura do próprio sistema, ou também por um processo de mudança estrutural (indissociável).
A organização pode ser vista como uma característica do sistema, fundamentada na capacidade de transformar a diversidade de comportamento (relações e atividades) dos diferentes elementos em uma unidade global; mas, em face de seu comportamento dinâmico e de natureza complexa, pode ser também uma fonte de criação de diversidade, de capacidade e de especificidade estrutural e funcional. (D’OTTAVIANO; BRESCIANI , 2004, p. 5)
A complexidade de um sistema, está diretamente ligada à simultaneidade entre a diversidade de ordens possíveis entre suas estruturas e funções, e a capacidade de permear os
limites para a manutenção da unidade sistêmica (MORIN, 1997). Isso quer dizer, que o desenvolvimento da complexidade requer ao mesmo tempo, uma maior riqueza na diversidade e uma maior riqueza na unidade, fundada, por exemplo, segundo o mesmo autor, na intercomunicação e não na coerção.
“[...] Não há um ótimo abstrato, um justo meio entre a ordem repetitiva e a variedade. Aos meus olhos, todo o aumento de complexidade traduz-se num aumento de variedade no seio dum sistema; este aumento tende para a dispersão no tipo de organização onde se produz, exige a partir daí uma transformação da organização num sentido mais maleável e mais complexo. Assim, em princípio, caminham a par os desenvolvimentos da diferença, da diversidade e da individualidade internas no seio dum sistema, a riqueza das qualidades emergentes, internas (próprias às individualidades constitutivas) e globais, e a qualidade da unidade global.” (MORIN, 1997, p. 113)
Segundo Morin (1996, 1997, 2001) em um sistema, as partes estão organizadas de modo complementar na constituição de um todo. Toda inter-relação organizacional supõe a existência e o jogo de atrações, de afinidades, de possibilidades de ligações ou de comunicações entre elementos ou indivíduos (Morin, 1997).
Para Lupasco (1974), é condição para existência de um sistema, que seus elementos constituintes, de acordo com sua natureza ou com as leis que os regem, sejam suscetíveis a se aproximar e ao mesmo tempo se excluir, de ao mesmo tempo se atrair e se repelir, de se associar e se desassociar, de se integrar e de se desintegrar.
Existem então nos sistemas, forças de atração e forças de repulsão que dão vida a eles (GLEICK, 1989; D’OTTAVIANO; BRESCIANI , 2004). As forças de atração agem como forças de cooperação que buscam levar o sistema a um aparente equilíbrio. As forças de repulsão agem como forças de competição.
Com base nos mesmos autores, e corroborando com Morin (1997, 2001), um sistema organizado pode conter certas doses de desorganização – o que é desejável pois pode estimular as dinâmicas da organização.
As forças de repulsão podem criar condições de extrema desorganização no sistema, o que pode levar a sua desintegração (desintegração do sistema). Por outro lado, as forças de atração podem fazer propagar a integração do sistema. Em todos os casos o sistema sempre corre riscos. Forças de repulsão não controladas podem levar mobilidade total ao sistema, e portanto desorganização plena. No outro extremo, forças de atração podem levar a sua total imobilidade.
E ainda que essas forças sejam de grande importância para o desenvolvimento do sistema (D’OTTAVIANO; BRESCIANI , 2004), segundo Atlan (1992), a transformação de um sistema pode se dar através não só da interação interna entre seus constituintes (a partir dos equilíbrios e desequilíbrios) mas também pela interação com o meio externo.
De qualquer forma, o fato, é que o sistema tenta se manter organizado, em novos estados de ordem, de acordo com necessidades emergentes a cada perturbação – atingindo novas configurações. Essas novas configurações são atraídas por atratores, que inerentes a organização do sistema, agem como forças internas a ele.
1.3. Atratores e Atratores Estranhos
Um sistema vivo, em plena atividade, é atraído a todo tempo à configurações de equilíbrio ou de desequilíbrio, que o aproximam de tendências e limites entre o seu desenvolvimento e a sua desintegração (D’OTTAVIANO; BRESCIANI , 2004). A interação constante no sistema de forças de convergência e divergência (cooperação e competição), de estabilidade e instabilidade cria condições básicas para o aparecimento do comportamento caótico nele (no sistema).
Com base em Arnold (1989), Woodcock; Davis (1989), Gleick (1989), Prigogine (2002) e D’Ottaviano; Bresciani (2004), sistemas dinâmicos tendem , no decorrer de dado tempo, a evoluir para comportamentos característicos, tendendo a estabilidade. Esses comportamentos, ou estados de configuração do sistema são chamados de atratores.
Por muito tempo, a Física se afligiu de um problema, em que as respostas sempre pareceram distantes. Alguns sistemas dinâmicos, por motivos então desconhecidos, apresentavam comportamento esperado em seus movimentos até certos momentos (ou pontos). De repente, de maneira inesperada, comportamentos aparentemente estabilizados em certos parâmetros, passavam a apresentar dinâmicas altamente turbulentas (GLEICK, 1989).
“(...) A longo prazo, os únicos comportamentos possíveis são os próprios atratores. Outros tipos de movimento são transitórios. Por definição, os atratores tinham a importante propriedade da estabilidade – num sistema real onde as partes móveis estão sujeitas a choques e sacudidelas em virtude do ruído do mundo real, o movimento tende
a retornar para o atrator. Um choque pode deslocar a trajetória [aqui referindo-se ao movimento de um pêndulo] por um breve período de tempo, mas os resultantes movimentos transitórios acabam desaparecendo. Mesmo que um gato esbarre nele, o relógio de pêndulo não passa para um minuto de 62 segundos. A turbulência num fluido era um comportamento de uma ordem diferente, que jamais produzia um ritmo único, com exclusão dos outros. Uma característica bem conhecida da turbulência era a presença simultânea de todo o amplo espectro de ciclos possíveis. (...) Poderia isso surgir de um sistema de equações deterministas e simples?” (GLEICK, 1989, p.139-140)
O momento de transição entre um estado estável e a turbulência passou a ser foco de investigações de Físicos e de Matemáticos (ARNOLD, 1989).
“A turbulência era um problema com pedigree. Todos os grandes físicos refletiram sobre ela, formal ou informalmente Um fluxo tranqüilo transforma-se em expirais e redemoinhos. Configurações tumultuosas rompem o limite entre o líquido e o sólido. A energia escoa rapidamente dos movimentos em grande escala para os de pequena escala. Por quê? As melhores idéias vieram dos matemáticos; para a maioria dos físicos, a turbulência era demasiado perigosa para perderem tempo com ela. Parecia quase impossível conhecê-la. Há uma anedota segundo a qual o teórico do quantum Werner Heisenberg, em seu leito de morte teria dito que faria duas perguntas a Deus: por que a relatividade, e por que a turbulência? E teria concluído: Eu realmente acho, que Ele deve ter uma resposta para a primeira pergunta.” (GLEICK, 1989, p. 123)
Diversas pesquisas seguiram então, até que os achados convergiram para o entendimento de que além da existência de atratores, pontuais e periódicos, aos quais convergem os sistemas dinâmicos, há também atratores “caóticos” que representam os estados cuja evolução é hipersensível às condições iniciais (ARNOLD, 1989; WOODCOCK; DAVIS, 1989; GLEICK, 1989; D’OTTAVIANO; BRESCIANI, 2004). Esses atratores caóticos foram denominados atratores estranhos.
Com base em Prigogine; Stengers (1991), em um sistema dinâmico, atratores estranhos geram novas organizações implícitas a partir do caos. Corroborando com Prigogine; Stengers (1991) e D’Ottaviano; Bresciani (2004) descrevem que sistemas dinâmicos caóticos são altamente complexos e instáveis, e que devido a grande sensibilidade às condições iniciais, só é possível fazer, a partir de mudanças nas variáveis do sistema, previsões de curto prazo, pois essa sensibilidade produz alterações no sistema que evoluem aceleradamente com o passar do tempo – o que torna praticamente impossível que a condição inicial seja novamente atingida com sincronia perfeita das variáveis no tempo e no espaço.
Então, existem nos sistemas, momentos em que uma pequena flutuação em alguma de suas variáveis pode desencadear uma grande mudança na direção do sistema. Esses
momentos são pontos críticos do sistema e são chamados de pontos de bifurcação. (GLEICK, 1989; ARNOLD, 1989; WOODCOCK; DAVIS, 1989; PEAT; BRIGGS, 1989).
Os pontos de bifurcação representam passagem de estados do sistema, do equilíbrio ao comportamento periódico, ou desse para um comportamento caótico. Esse processo de passagens de estado depende da existência de um crescente número de variáveis, que acopladas entre si, apresentam diferentes frequências de mudanças.
Essas mudanças, refletem então, algo típico do sistema “vivo”, que é tentar responder da melhor maneira às necessidades que emergem nele. Em outras palavras, isso quer dizer que, conforme as necessidades, o sistema se auto-organiza, tentando manter a identidade da unidade complexa. É preciso então, entender melhor como se dá esse fenômeno, chamado auto-organização.
1.4. Auto-Organização
Segundo Tonello (1999), a concepção da expressão “auto-organização” surgiu nas pesquisas da área da cibernética. Segundo Capra (1996), as pesquisas nessa área entendiam o fenômeno da auto-organização, como uma capacidade espontânea para a ordem no interior dos sistemas.
Ainda que os primeiros estudos a seu respeito, tenham acontecido alguns anos antes (antes de 1960), foi quando atingiu outras áreas que o fenômeno da auto-organização ganhou robustez. Através dos achados de Foerster (1960) e das reflexões de Neumann (1966), se iniciaram efetivamente os estudos dos sistemas auto-organizáveis que partiram da premissa de que a ordem própria da auto-organização seria construída com a desordem (a auto-organização construída partir da “ordem do início do ruído”).
Diversas áreas e pesquisadores começaram a investigar o fenômeno, com estudos em diferentes direções, pautados pelos óculos dos sistemas auto-organizáveis.
Maturana; Varela (1980), Prigogine; Stengers (1991), Atlan (1992), Debrun (1996) e Prigogine (1996) são alguns exemplos, de autores que contribuíram para o entendimento do fenômeno. Segundo Capra (1996), porém, diferente dos primeiros estudiosos do assunto, esses
últimos acrescentaram a idéia, de que há no fenômeno da auto-organização, uma potencialidade de criação de novas estruturas e novos comportamentos no sistema, superando sua entropia e gerando respostas novas e criativas.
Outros estudos, influenciados pelos autores citados, foram e vêm sendo realizados para entender essa idéia.
Tonello (1999) descreve que os estudos desse fenômeno, juntamente com a idéia de ordem a partir de ruídos, desordem organizadora, caos e estruturas dissipativas têm causado grande impacto em diversos campos da Ciência; inclusive na área pedagógica, onde sua contribuição é valiosa, na medida em que os estudos sobre a aprendizagem podem se vestir de uma visão complexa.
Pode-se dizer que auto-organização é um conceito que se refere a uma nova ordem na organização do sistema, a partir de pequenas flutuações que antes se anulavam, mas que amplificadas, constituem novo processo para a dinâmica do próprio sistema (PRIGOGINE; STENGERS, 1991).
Na mesma direção, segundo Morin (1996), o fenômeno da auto-organização refere-se à aptidão de um sistema para criar novas estruturas e estabelecer um nível novo de ordem para sua organização, após sofrer perturbações aleatórias, de maneira que quanto mais complexos forem os comportamentos do sistema, mais ele manifestará capacidade para se adaptar em relação ao meio ambiente.
Para Atlan (1992), todo sistema, capaz de reagir por acréscimo de complexidade e continuar a funcionar após perturbações aleatórias, ao invés de se desintegrar, é um sistema auto-organizador. Segundo esse autor, é o ruído, o responsável por provocar e acelerar as transformações no sistema. Esse ruído é uma perturbação aleatória, incerta e instável no sentido da desordem, externo ao sistema, mas que interfere nas dinâmicas internas a ele.
Isso quer dizer que o ruído tem papel primordial no processo de auto-organização, mas que ela (a auto-organização) é uma transformação efetivada pelas interações e interdependências dos elementos do próprio sistema.
Então, o ruído, que em princípio tem caráter destrutivo, pois pode impossibilitar o bom funcionamento do sistema, é também potencialmente benéfico, na medida em que resistindo às perturbações, o sistema pode aprender com elas, possibilitando a ele se auto-organizar e a atingir nível maior de complexidade (ATLAN, 1992, MORIN, 1996).