Representações de identidades pampeanas em programas documentais da região: intersecções entre cultura vivida e cultura registrada
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(2) Débora Flores Dalla Pozza. REPRESENTAÇÕES DE IDENTIDADES PAMPEANAS EM PROGRAMAS DOCUMENTAIS DA REGIÃO: INTERSECÇÕES ENTRE CULTURA VIVIDA E CULTURA REGISTRADA. Dissertação apresentada ao curso de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Área de concentração em Comunicação Midiática, Linha de Pesquisa de Mídia e Identidades Contemporâneas, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), como requisito parcial para obtenção do grau de Mestra em Comunicação.. Orientador: Prof. Dr. Flavi Ferreira Lisbôa Filho. Santa Maria, RS 2018.
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(5) AGRADECIMENTOS O processo de pesquisa muitas vezes implica um feitio solitário, demandando períodos de leitura e escrita a sós, o que contrastou em diversos momentos com minha natureza dispersa e sociável. Mas se o trabalho que aqui se apresenta é autoral, ele também só foi possível porque conto com uma frente de apoio imensa neste percurso e em muitos outros. Na liderança dessa frente, o furacão em forma de mulher que tenho a honra de chamar de mãe, fonte incansável de inspiração e suporte a quem ama. Junto a ela, nosso núcleo familiar: minha irmã e melhor amiga da vida, Natália; o cara que lida de forma paciente e divertida com o fato de ser o único homem da casa, meu querido pai; e (como esquecer?) a Pitoca e a Gininha, companheiras fiéis dos momentos de escrita. Não canso de agradecer a minha avó Elci pelos mimos, cumplicidades e cuidados mil e, na figura dela e de meu avô Carlito, estendo os agradecimentos a todos meus familiares, que são muitos e preenchem meus dias e meu coração de graça, zelo e amor. A transformação de uma das maiores amizades em carinho declarado rendeu um atencioso revisor, colaborador e “pitaqueiro” para esta dissertação (desde quando era só projeto), além de ouvinte e conselheiro pessoal. Por essas e tantas outras, sou grata ao Yuri por topar a caminhada conjunta e tornar tudo mais leve com seu abraço. Celebro também a sorte de reunir amigas e amigos de perto e de longe, de hoje e de ontem (sem citar nomes específicos para não correr o risco de ser injusta com alguém) – povo que, na partilha de histórias e experiências, me dá motivos para acreditar, resistir e cantar “a la luna y al sol” todo dia, mesmo em meio a um mundo que parece andar hostil. Impossível não agradecer à equipe da TV Campus pelo incentivo e colaboração para que eu prosseguisse a formação acadêmica, inclusive segurando as pontas durante meu período de afastamento do trabalho. Espero retribuir à altura com atuação profissional motivada e engajada na rotina da emissora universitária junto à Coordenadoria de Comunicação Social da UFSM, instância a qual desdobro o reconhecimento. Realizar mais essa etapa de estudos junto ao Poscom foi surpreendentemente instigante, por isso registro o agradecimento às professoras e aos professores, ao secretário do Programa e aos colegas, especialmente aos “Mestrandos Anônimos”, grupo que proporcionou trocas que realçaram aprendizados e suavizaram angústias. Finalmente, não consigo imaginar como seria passar por tais anos sem a parceria e a confiança do Flavi: por me apresentar perspectivas que tornaram essa caminhada mais prazerosa e saber dosar acolhimento, estímulo e exigência em sua orientação, serei sempre grata..
(6) “El primer paso para penetrar en nuestra verdadera identidad consiste justamente en admitir que, a la luz de la reflexión y, por qué no, también de la piedad, ninguna identidad afirmativa ya es posible. En el Río de la Plata esa búsqueda fue una más de las tantas quimeras que, desde el descubrimiento de América, hechizaron la imaginación de sus habitantes, que no se resignaban a su monotonía, a su inmensidad desierta, indiferenciada y anónima. Sin saber que representaban la triste primicia de un mundo en transformación, se imponían como modelo un pasado del que ellos ya eran la negación. Experimentando los primeros síntomas de la oscura irrealidad general que se avecinaba, buscaban empecinados una respuesta, sin comprender que, insospechada, la respuesta estaba en la necesidad que habían tenido de formularse la pregunta.” (Juan José Saer, El río sin orillas).
(7) RESUMO REPRESENTAÇÕES DE IDENTIDADES PAMPEANAS EM PROGRAMAS DOCUMENTAIS DA REGIÃO: INTERSECÇÕES ENTRE CULTURA VIVIDA E CULTURA REGISTRADA AUTORA: Débora Flores Dalla Pozza ORIENTADOR: Flavi Ferreira Lisbôa Filho O presente estudo analisa as representações de identidades pampeanas a partir dos programas documentais contemporâneos A Linha Fria do Horizonte (Brasil, 2015), Pequeños Universos (Argentina, 2014) e Expreso Sur (Uruguai, 2015). Tais identidades pressupõem o reconhecimento de vínculos de pertença de ordem transnacional no espaço que compreende o Rio Grande do Sul - Brasil, o Uruguai e parte da Argentina – região equivalente ao bioma pampa. Contamos com o aporte teórico-metodológico dos estudos culturais para conectar as noções de cultura, identidade e representações a um percurso particular de investigação. Os pressupostos de Williams (2003) a respeito das dimensões de cultura vivida e de cultura registrada inspiram o desenvolvimento de um protocolo metodológico próprio para operacionalizar a análise cultural-midiática dos programas, combinado a concepções de Hall (1997a) acerca da articulação entre identidades/representações e o substrato cultural, bem como Casetti e Chio (1999) sobre análise textual. Em função do protocolo proposto, a pesquisa toma os textos audiovisuais enquanto parte da cultura registrada e recupera elementos da cultura vivida por informações contextuais sobre a região em foco. O percurso investigativo é conduzido pelos seguintes objetivos específicos: verificar as representações de identidades pampeanas em termos textuais nos programas documentais; mapear os contextos de produção dos programas, com destaque para o pampa, espaço de desenvolvimento das narrativas; e com base nos significados levantados na análise dos produtos midiáticos-culturais e nas informações contextuais, problematizar os processos de identidade e diferença mobilizados nos e pelos programas. O levantamento da cultura vivida inclui aspectos geográficos, históricos, sociais e demográficos da região; discussões sobre identidades regionais, enfocando especialmente a construção simbólica do tipo emblemático do gaucho/gaúcho, bem como as manifestações tradicionalistas no contexto; e o resgate de questões relativas ao período contemporâneo que afetam a realização dos programas documentais em investigação. As análises das três produções apontam para alguns sentidos partilhados por todas: a relação afetiva entre personagens e o local, o tratamento das fronteiras em perspectiva cultural e porosa, a predominância masculina nas representações e a menção à mistura de povos na formação regional, contrastada com a preponderância branca em personagens e imagens materializadas. Os programas divergem quanto a representações que apelam ao tradicional e ao imaginário rural, evocadas apenas em Pequeños Universos e Expreso Sur, e também em relação ao uso de argumentos de diferenciação do pampa ao restante do Brasil, recurso empregado somente em A Linha Fria do Horizonte. Em uma perspectiva não-essencialista de estudo das identidades representadas, notase a coexistência de sentidos de outras ordens de pertença, como identidades nacionais uruguaia e brasileira e identificações vinculadas ao estado do Rio Grande do Sul em perspectiva local e não transnacionacionalizante. Palavras-chave: identidades; representações; pampa; programas documentais; estudos culturais..
(8) RESUMEN REPRESENTACIONES DE IDENTIDADES PAMPEANAS EN PROGRAMAS DOCUMENTALES DE LA REGIÓN: INTERSECCIONES ENTRE CULTURA VIVIDA Y CULTURA REGISTRADA AUTORA: Débora Flores Dalla Pozza ORIENTADOR: Flavi Ferreira Lisbôa Filho El presente estudio analiza las representaciones de identidades pampeanas a partir de los programas documentales contemporáneos A Linha Fria do Horizonte (Brasil, 2015), Pequeños Universos (Argentina, 2014) y Expreso Sur (Uruguay, 2015). Tales identidades presuponen el reconocimiento de vínculos de pertenencia de orden transnacional en el espacio que comprende Rio Grande do Sul, Uruguay y parte de Argentina - región equivalente al bioma pampa. Contamos con el aporte teórico-metodológico de los estudios culturales para conectar las nociones de cultura, identidad y representación a un recorrido particular de investigación. Las indicaciones de Williams (2003) acerca de las dimensiones de cultura vivida y de cultura registrada inspiran el desarrollo de un protocolo metodológico propio para efectuar el análisis cultural-mediático de los programas, combinado a concepciones de Hall (1997a) acerca de la articulación entre identidades/representaciones y el sustrato cultural, así como Casetti y Chio (1999) sobre análisis textual. En función del protocolo propuesto, el trabajo toma los textos audiovisuales como parte de la cultura registrada y recupera elementos de la cultura vivida por informaciones contextuales sobre la región en foco. El curso investigativo es organizado por los siguientes objetivos específicos: verificar las representaciones de identidades pampeanas en términos textuales en los programas documentales; investigar los contextos de producción de los programas, con destaque al pampa, el espacio de desarrollo de las narrativas; a partir de los significados planteados en el análisis de los productos mediáticos-culturales y de las informaciones contextuales, problematizar los procesos de identidad y diferencia movilizados en y por los programas. El levantamiento de datos de la cultura vivida incluye aspectos geográficos, históricos, sociales y demográficos de la región; las discusiones sobre identidades regionales, enfocando especialmente la construcción simbólica del tipo emblemático del gaucho, así como las manifestaciones tradicionalistas en el contexto; y el rescate de cuestiones relativas al período contemporáneo que afectan la realización de los programas documentales en investigación. Los análisis de las tres producciones apuntan a algunos sentidos compartidos por todas: la relación afectiva entre personajes y el local, el tratamiento de las fronteras en perspectiva cultural y porosa, la predominancia masculina en las representaciones y la mención a la mezcla de pueblos en la formación regional, contrastada con la preponderancia blanca en personajes e imágenes materializadas. Los programas distinguen en cuanto a representaciones que apelan al tradicional y al imaginario rural, evocadas sólo en Pequeños Universos y Expreso Sur, y también en relación al uso de argumentos de diferencia de la pampa al resto de Brasil, recurso empleado solamente en A Linha Fria do Horizonte. En una perspectiva no esencialista de estudio de las identidades representadas, se nota la coexistencia de sentidos de otras órdenes de pertenencia, como identidades nacionales uruguaya y brasileña e identificaciones vinculadas al estado de Rio Grande do Sul en perspectiva local y no transnacionalista. Palabras clave: identidades; representaciones; pampa; programas documentales; estudios culturales..
(9) LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Diagrama de síntese do protocolo desenvolvido para a análise cultural-midiática...55 Figura 2 – Mapa da região do pampa ....................................................................................... 61 Figura 3 – Movimentações das fronteiras entre domínios portugueses e espanhóis na região – 1750 a 1801 .............................................................................................................................. 66 Figura 4 – Banner de divulgação do documentário A Linha Fria do Horizonte ...................... 98 Figura 5 – Imagem de apresentação de Pequeños Universos na página do canal Encuentro 100 Figura 6 – Imagem da vinheta de abertura do programa Expreso Sur ................................... 102 Figuras 7 e 8 – Sequências do programa com créditos para personagens músicos e de outra ocupação (respectivamente) ................................................................................................... 109 Figuras 9, 10 e 11 – Depoimentos de Vitor Ramil para A Linha Fria do Horizonte em três ambientações: interior de casa, em meio à praça de Pelotas e campo (respectivamente) ...... 117 Figuras 12 e 13 – Imagens de planícies e campos que ressaltam a paisagem local do pampa ................................................................................................................................................ 121 Figuras 14 e 15 – Sequências de imagens que ilustram a canção “Amargo de caña” ............ 125 Figuras 16, 17, 18 e 19 – Sequências de imagens de água em diversas formas nas principais cidades de locação do programa: Pelotas, Montevidéu, Porto Alegre e Buenos Aires (respectivamente).................................................................................................................... 126 Figuras 20 e 21 – Sequências de entrevistas com personagens do programa ........................ 127 Figuras 22 e 23 – Chango Spasiuk em Porto Alegre e com o músico entrevistado Renato Borghetti ................................................................................................................................. 136 Figuras 24 e 25 – Detalhe de cinto com padrão de estamparia típica em tecido e fragmento da entrevista com Luciano Maia que exibe indumentária utilizada ............................................ 138 Figuras 26 e 27 – Registros alusivos ao universo rural no episódio sobre música gaúcha .... 144 Figuras 28 e 29 – Imagens que remetem à adesão pública aos eventos da Semana Farroupilha, no Acampamento Farroupilha e no desfile de encerramento da Semana, respectivamente.... 145 Figuras 30 e 31 – Trechos da vinheta com arte gráfica de Expreso Sur que sinaliza eixo narrativo da sequência............................................................................................................................ 148 Figuras 32 e 33 – Quadros com Juan Carlos López, personagem de maior densidade na narrativa de Expreso Sur, e Uruguay Nieto, entrevistado de geração mais contemplada entre personagens ................................................................................................................................................ 153 Figuras 34 e 35 – Personagens femininas em duas representações distintas – Guiazul Vidal, cozinheira, e Samara Torres, participante em sua primeira Patria Gaucha ........................... 155 Figuras 36 e 37 – Imagens de ilustração/transição que retratam participação popular e materiais rústicos dos cenários evocando universo rural ....................................................................... 158 Figuras 38 e 39 – Imagens de ilustração/transição com referências a identidade nacional uruguaia .................................................................................................................................. 159.
(10) LISTA DE QUADROS. Quadro 1 – Resumo do enredo nos episódios de A Linha Fria do Horizonte ........................ 113 Quadro 2 – Dados sobre personagens de A Linha Fria do Horizonte .................................... 114 Quadro 3 – Resumo do enredo nos episódios de Pequeños Universos .................................. 134 Quadro 4 – Dados sobre personagens entrevistados em Pequeños Universos ....................... 135 Quadro 5 – Resumo do enredo nos episódios de Expreso Sur ............................................... 150 Quadro 6 – Dados sobre personagens de Expreso Sur ........................................................... 151 Quadro 7 - Significados reconhecidos nas representações de identidades pampeanas nos três programas documentais em análise ........................................................................................ 169.
(11) SUMÁRIO INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 11 1. PRESSUPOSTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS: ESTUDOS CULTURAIS COMO APORTE DO PENSAR E DO PROCEDER ......................................................... 24 1.1 ESTUDOS CULTURAIS: BREVE RECORRIDO HISTÓRICO E CONCEITUAL ... 24 1.2 IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO .......................................................................... 34 1.3 ANÁLISE CULTURAL-MIDIÁTICA: DESENVOLVIMENTO DE UM PERCURSO METODOLÓGICO PRÓPRIO ............................................................................................ 43 1.3.1 Materialismo cultural e análise cultural-midiática ............................................. 45 1.3.2 Proposta de protocolo metodológico para análise cultural-midiática dos programas documentais.................................................................................................. 50 2. MAPEAMENTO DA CULTURA VIVIDA: REGIÃO DO PAMPA EM FOCO ........ 56 2.1 REGIÃO E FRONTEIRA: UM OLHAR CULTURAL ................................................. 56 2.2 O PAMPA: BUSCA POR PANORAMA CONTEXTUAL ........................................... 61 2.3 ENTRE GAUCHOS E GAÚCHOS: IDENTIDADES E TRADIÇÕES REGIONAIS .. 78 2.4 CULTURA VIVIDA NO PRESENTE: CIRCUNSTÂNCIAS DE PRODUÇÃO DOS REGISTROS CULTURAIS ................................................................................................. 89 3. ANÁLISE DA CULTURA REGISTRADA: REPRESENTAÇÕES NOS PROGRAMAS DOCUMENTAIS ........................................................................................ 97 3.1 PROGRAMAS DOCUMENTAIS E REPRESENTAÇÕES: A ANÁLISE TEXTUAL COMO PROCEDIMENTO ................................................................................................ 103 3.2 A LINHA FRIA DO HORIZONTE – BRASIL ........................................................... 107 3.2.1 Análise textual do programa ............................................................................... 108 3.3 PEQUEÑOS UNIVERSOS – ARGENTINA ................................................................ 130 3.3.1 Análise textual do programa ............................................................................... 131 3.4 EXPRESO SUR – URUGUAI....................................................................................... 146 3.4.1 Análise textual do programa ............................................................................... 147 3.5 INTERSECÇÕES: SENTIDOS ENTRE CONTINUIDADES, DIFERENÇAS E RUPTURAS........................................................................................................................ 160 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 170 REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 177 ANEXO A – CAPTURA DE TELA DOS COMENTÁRIOS DO TRAILER DE A LINHA FRIA DO HORIZONTE NO YOUTUBE ........................................................................... 186 ANEXO B – COMPILADO DE COMENTÁRIOS NO TRAILER DE A LINHA FRIA DO HORIZONTE NO YOUTUBE QUE EXPRESSAM IDENTIFICAÇÃO COM TEMA DA OBRA ................................................................................................................. 188.
(12) 11. INTRODUÇÃO Enquanto organizava o projeto desta dissertação para uma das disciplinas do Mestrado, ocorreram-me1 lembranças que demonstraram como as inquietações aqui mobilizadas já habitam meus pensamentos há algum tempo. Quando criança, lá pelos 11 anos, tive a oportunidade de visitar Salvador, na Bahia, por um mês, com a desculpa de apoiar na adaptação de uma grande amiga de infância que estava se mudando para o local. O deslumbramento foi certeiro. Conheci um universo de cores, sabores, ritmos, gentes, lugares que me pareciam muito novos. Na época não tinha plena ciência disso, mas essa diversidade de elementos fazia parte de uma cultura diferente da minha – com bagagem de menina nascida e criada em Santa Maria, Rio Grande do Sul – em vários aspectos. É claro que uma série de elementos também eram compartilhados, como o idioma falado (se bem que meu sotaque chamava atenção em qualquer ambiente que frequentava), hábitos de organização da rotina, com horários para alimentação e estudo/trabalho similares, repertórios de produtos culturais – músicas, programas de televisão, entre outros. Como a prática de viajar, para quem se encanta e identifica, gera uma vontade constante, algum tempo depois – já com 15 anos – fiz a primeira viagem internacional. Não era muito longe, na Argentina, mas ia passar por todo o processo de cruzar uma fronteira geopolítica e estava ansiosa para conviver com uma língua diferente, o espanhol. Qual não foi minha surpresa ao chegar em Bariloche, o local de destino, e encontrar pessoas tomando mate, lojas de produtos de couro, lã e instrumentos gauchos, além de músicas que reconhecia tocando nas ruas. Lembro de ter comentado com uma amiga que acompanhava o passeio como havia coisas próximas e parecidas entre nós e aquele espaço. Claro que as diferenças também estavam lá, como o idioma, as formas de tratamento e até mesmo as piadas sobre a rivalidade Brasil-Argentina no futebol. Mas, sobretudo, guardei as semelhanças com afeto e volta e meia acessava produtos da cultura argentina com certa curiosidade e identificação. Ao fazer paralelos entre essas duas viagens, recordo ter assinalado para parentes como notara mais proximidades entre “nosso” local de origem e um espaço fora do país do que com outro estado brasileiro. Nas divagações de adolescente, não constavam ideias e teorias sobre. 1. Escrevo em primeira pessoa neste princípio do trabalho, já que reflito a respeito de motivações da ordem pessoal para o desenvolvimento do mesmo. Na sequência da dissertação, tomamos como prioridade o emprego da primeira pessoa do plural (nós), uma vez que as construções e direcionamentos empreendidos foram resultado de diálogo, discussão e troca de ideias com o orientador do trabalho, bem como com professores e colegas das disciplinas do Mestrado. Frequentemente recorre-se a terceira pessoal do singular, um tratamento mais impessoal, no sentido de expor ideias e aportes de autores que embasam este percurso de pesquisa..
(13) 12. cultura, identidade e diferença, significados e representações, mas hoje reconheço que esses processos incidiam em largas medidas nas percepções da época. Entendo também que a identificação/diferenciação percebida foi construída por significados culturais que haviam me interpelado ao longo da vida, como habitante do Rio Grande do Sul e, obviamente, do Brasil. Essas observações e muitas outras desenvolvidas foram redimensionadas ao ter acesso aos conceitos e pressupostos dos estudos culturais por meio do Grupo de Pesquisa Estudos Culturais e Audiovisualidades, a partir de 2014. Em um momento das discussões do grupo, lembrei do trailer do documentário A Linha Fria do Horizonte, o qual havia visto fazia pouco e percebido que evocava sentidos sobre identidades musicais e mescla cultural, e fiz uma anotação. O audiovisual em questão trata das obras e das ideias de músicos contemporâneos do Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina que representam nas canções a paisagem e o sentimento do local onde vivem2. Ao ter acesso ao documentário completo, fiquei instigada para analisá-lo formalmente e aproveitei a oportunidade em uma disciplina que cursava como aluna especial no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFSM em 2015 para fazê-lo. O resultado foi o trabalho “Música além fronteira: representações identitárias e memórias no documentário ‘A Linha Fria do Horizonte’”3, realizado em coautoria com Marina Machiavelli e o professor orientador Flavi Ferreira Lisbôa Filho. O estudo demonstrou que as identidades eram representadas na obra audiovisual a partir de elementos-chave – a estética musical do gênero milonga, o clima subtropical/frio e as paisagens do pampa –, o que destacava enfaticamente aquilo que é comum ao espaço e seus habitantes, configurando sentidos sobre identidades partilhadas, que aproximavam os músicos e suas produções em “uma região que ignora a fronteira entre três países”4. A partir daí, iniciou-se uma pesquisa exploratória que amadureceu com o projeto de dissertação efetivamente selecionado para o Mestrado em Comunicação da UFSM. A pesquisa se debruçou novamente sobre A Linha Fria do Horizonte e buscou outros objetos de análise provenientes da Argentina e do Uruguai para verificar se há alguma recíproca na efetivação de sentidos de aproximação, semelhança transnacional, apesar das fronteiras geopolíticas que. 2. As informações sobre a obra audiovisual foram coletadas a partir da descrição do trailer de A Linha Fria do Horizonte no YouTube: <https://www.youtube.com/watch?v=mBsimXmkiss>. Acesso em: 31 mar. 2015. 3 POZZA, Débora Flores Dalla; MACHIAVELLI, Marina; LISBÔA FILHO, Flavi Ferreira. Música além fronteira: representações identitárias e memórias no documentário "A Linha Fria do Horizonte". In: ALMEIDA, Cristovão Domingos de; GUINDANI, Joel Felipe (Org.). Comunicação, memória e cidadania: inserção social na fronteira. Bagé: EdUnipampa, 2016. p. 37-49. 4 Expressão retirada da frase de abertura de A Linha Fria do Horizonte, a qual também consta no trailer indicado acima..
(14) 13. dividem o local. O pressuposto é que esses sentidos estabelecem um vínculo de pertença de forma a possibilitar um lugar de fala que reivindica identidades5/genealogias comuns para o espaço que compreende Rio Grande do Sul, Uruguai e parte da Argentina. Como esse espaço corresponde em grandes termos a biorregião pampa – que inclui, além da maior parte do estado sul-rio-grandense, todo o território do Uruguai e províncias do centro-leste da Argentina (MARTINO, 2004) – atribuímos a essas identidades reconhecidas como partilhadas e de ordem transnacional a denominação de pampeanas6. Com a proposta estruturada nesse sentido, localizamos o programa documental Pequeños Universos, da emissora Encuentro, canal educativo e cultural do Sistema Federal de Meios e Conteúdos Públicos da Presidência Argentina. O programa conduzido pelo acordeonista Chango Spasiuk busca compreender e difundir a diversidade musical argentina. Em sua quinta temporada, transmitida em 2014, visita o Rio Grande do Sul e realiza dois episódios sobre a música e a cultura “gaúcha”, explorando suas relações com o país de origem e as respectivas produções musicais/culturais. Em um dos dois programas, as imagens iniciais mostram campo, paisagens rurais, animais do local, e uma fala de Chango Spasiuk anuncia que as imagens são tão próximas a ponto de reconhecê-las como próprias, enquanto parte da cultura argentina, mas se está no Rio Grande do Sul, sul do Brasil7. Como a narrativa de Pequeños Universos também materializa sentidos sobre semelhanças e aproximações nesse espaço, incluímos os episódios do programa feitos no Rio Grande do Sul como objeto de análise da dissertação. Já do Uruguai, encontramos o programa Expreso Sur, transmitido no ano de 2015 pela Televisión Nacional Uruguay, emissora aberta do Estado uruguaio, mas viabilizado por um projeto da modalidade de coprodução internacional da UNASUL - União de Nações SulAmericanas. Trata-se de uma série documental em que cada país produz programas sobre celebrações tradicionais de seu espaço. A ideia é, a partir de curtos relatos, expor as riquezas. 5. Usamos o termo “identidades”, no plural, por entender o conceito de forma não-essencialista, como vamos expor no desenvolvimento teórico do primeiro capítulo. O uso do plural indica que esses sentidos de pertença ao pampa, de caráter transnacional, desdobram-se em uma diversidade de formas e manifestações, as quais interagem de maneira igualmente plural com outras identidades no contexto social e nas produções midiáticas. Também privilegiamos o tratamento das “representações”, no plural, de tais identidades, ao nos referirmos ao enfoque de pesquisa. 6 Consideramos válido também demarcar que empregamos o termo “pampeanas” e não os correlatos “gaúchas/gauchas” ou “platinas” porque as identidades “gaúchas” já estão muito sedimentadas no senso comum brasileiro como gentílico relativo ao estado do Rio Grande do Sul e porque tivemos dificuldade de localizar fontes seguras que estabelecessem qual seria a abrangência de uma região platina. Como em algumas fontes, abarca o Paraguai, país que não está incluído nas representações dos programas documentais analisados, consideramos mais adequado trabalhar com “pampeanas”. 7 Programa disponível na página: <http://encuentro.gob.ar/programas/serie/8022/6412>. Acesso em: 29 mar. 2017..
(15) 14. populares, artísticas e patrimoniais da América do Sul. Entre as produções uruguaias, estão dois episódios que acompanham a Fiesta de La Patria Gaucha, realizada em Tacuarembó, Uruguai. Conforme um dos depoimentos que abre o primeiro episódio sobre a Fiesta8, o evento representa uma grande expressão de cultura e identidade nacional – e rapidamente acrescenta – ou regional, porque se identificam também os gauchos rio-grandenses e os gauchos argentinos. Além de percebermos falas nesse sentido no episódio, evocando uma “origem” partilhada, as imagens e as músicas do programa se aproximam de imaginários desenvolvidos regionalmente no Rio Grande do Sul sobre o que seriam hábitos, manifestações culturais, vestimentas, culinárias tradicionais desse estado ou da região do pampa. Ponderamos que as produções audiovisuais que localizamos da Argentina e do Uruguai são programas de televisão, produzidos nos moldes documentais. Já A Linha Fria do Horizonte, apesar de ter sido concebido e desenvolvido originalmente como documentário, foi transmitido na televisão a cabo por meio de parceria com o Canal Brasil 9 como uma série, dividido em cinco episódios, a partir de fevereiro de 2015. Por isso consideramos interessante padronizar o tratamento das produções neste trabalho como programas documentais, de forma a entendêlos de maneira mais unificada em relação às convenções do gênero audiovisual. No entanto, já se faz uma ressalva de que nesta dissertação o foco está no conteúdo, nos significados e nas representações sobre identidades, de modo que não nos deteremos nas teorias sobre programa documental ou documentário como formato audiovisual. Ao ter em conta tais colocações preliminares, alguns questionamentos nos interpelam em relação aos programas documentais em foco: como eles constroem sentidos sobre identidades pampeanas? Por quais representações sobre o pampa os programas clamam? Qual a relação entre os produtos midiáticos e o contexto desse espaço? Quais aspectos culturais são evidenciados e quais são silenciados nas representações de identidades pampeanas nos programas? Questões essas que sintetizamos no enunciado do problema de pesquisa: “Como os programas documentais A Linha Fria do Horizonte (Brasil), Pequeños Universos (Argentina) e Expreso Sur (Uruguai) representam sentidos sobre identidades pampeanas e de que forma essas produções se articulam ao contexto cultural, histórico, social, geográfico e político da região pampeana?”. 8. Programa disponível na página: <http://www.tnu.com.uy/content/videos/expreso-sur-la-patria-gaucha-12>. Acesso em: 30 jun. 2017. 9 Canal de TV por assinatura que pertence aos canais Globosat, mantidos pelas Organizações Globo. Disponível em: <www.canalbrasil.globo.com>. Acesso em: 31 mar. 2015..
(16) 15. Entendemos que os sentidos postos em circulação pelos produtos midiáticos são produzidos em diversos momentos do processo comunicativo. O enfoque desta pesquisa recai sobre as instâncias de produção e do texto, mas também contempla o contexto cultural retratado pelos programas. No esforço para responder ao problema de pesquisa apontado, reconhecemos como objetivo geral analisar como os programas documentais, enquanto produtos midiáticos e culturais, representam identidades pampeanas. Tendo em vista essa orientação, esboçamos um percurso de estudo a ser explorado, guiado pelos seguintes objetivos específicos: (1) investigar as representações de identidades pampeanas em termos textuais nos programas documentais, considerando a instância de produção de sentidos e suas especificidades; (2) mapear os contextos de produção dos programas, com destaque para o pampa, espaço de desenvolvimento das narrativas; (3) com base nos significados levantados na análise dos produtos midiáticos-culturais e nas informações contextuais, problematizar os processos de identidade e diferença mobilizados nos e pelos programas. Como já demonstramos na abertura destas considerações iniciais, este trabalho se justifica também pela motivação pessoal para compreender a “vizinhança” regional e a trajetória compartilhada em aspectos históricos, sociais, geopolíticos e culturais, assim como as diferenças e distanciamentos relacionados. Por estarmos localizadas no espaço de investigação, ainda se torna viável obter informações e dados contextuais nesse sentido. Ademais, o estudo de objetos audiovisuais, especialmente programas documentais, envolve o gosto pessoal pelo formato e se relaciona à prática profissional da autora como servidora na TV Campus, emissora universitária da UFSM, onde ocupa o cargo de Diretora de Produção. A pesquisa também está adequada à linha de pesquisa Mídias e Identidades Contemporâneas, à qual nos vinculamos no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, uma vez que a identidade consiste em uma das problemáticas centrais deste estudo. Damos especial atenção às representações de identidades regionais, as quais consistem em instância de continuidades, negociações culturais e até mesmo resistências na atual conjuntura. Isso porque o processo de globalização em curso convida a refletir sobre a forma e a relevância que o regional assume em uma nova configuração de mundo – outro fator que justifica este empenho acadêmico: Hall (1997a) relata que alguns estudiosos sugerem a tendência à homogeneização cultural – possibilidade de que o planeta se torne um lugar único temporal e espacialmente –, entretanto, seu entendimento é de que seja mais provável que surjam novas identificações globais e regionais em vez de uma cultura global uniforme e homogênea. Martín-Barbero (2003) também se alinha ao entendimento: para ele, não há como.
(17) 16. habitar o mundo sem algum tipo de ancoragem territorial, mesmo com as relações humanas organizadas em redes e fluxos no modelo neoliberal de globalização. Além disso, importa estudar as representações midiáticas de tais identidades, já que a mídia não é mera reprodutora de aspectos sociais, econômicos ou políticos, mas constrói sentidos que circulam socialmente e influenciam os sistemas de significação com base nos quais as pessoas tecem suas interpretações (HALL, 1997a). Os meios de comunicação “atravessam, de maneira direta, a constituição e transformação do campo cultural, isto é, de nossas concepções de mundo” (HALL, 2016, p.34). Por isso nos interessa analisar os vários elementos que compõem o produto midiático – neste caso, os programas documentais – para investigar sua inserção na realidade social, as representações que constrói e a forma que as mesmas se relacionam ao entorno. Considera-se também como justificativa o potencial inovador deste trabalho em analisar identidades regionais fora de uma perspectiva associada à “nação” – no sentido moderno no termo – ou Estado. Pelo contrário: as identidades pampeanas presumem reconhecimento de semelhanças e aproximações apesar das diferentes nacionalidades, territórios ou idiomas da região; salientam mais a formação histórica e cultural comum do que as marcações geopolíticas que separam os países. Esse recorte também se identifica com buscas de outras genealogias do pensamento, reconhecidas nas linhas de pesquisa atuais pelos estudos decoloniais, que enveredam no questionamento do nacionalismo metodológico e do eurocentrismo conceitual, de modo a descobrir e valorizar perspectivas trans-modernas (BALLESTRIN, 2013). Assim, nos debruçamos no estudo crítico de identidades próprias do Sul e suas representações, buscando conhecimento aprofundado dos espaços, fronteiras e relações geopolíticas associados a elas. Pensar sobre identidades locais sem tornar as fronteiras demarcatórias uma limitação epistemológica ainda parece ser um desafio a realizar no campo das ciências sociais aplicadas e da comunicação. Isso fica evidente com os dados do estado da arte desta pesquisa, em que procedemos um levantamento da produção científica que se relaciona com a temática e o recorte teórico e empírico proposto. A busca se deu nos seguintes portais: Banco de Teses e Dissertações da CAPES, Biblioteca On-line de Ciências da Comunicação (BOCC), Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações do IBICT e Portal de Periódicos da CAPES. Demos prioridade para trabalhos que tivessem os estudos culturais como aporte teórico-metodológico, mas não nos detivemos nesse recorte em todas as buscas para não limitar a localização de trabalhos próximos enquadrados em outras perspectivas. Mapeamos sete produções que articulam as palavras-chave do trabalho (identidades; pampa; documentário/programa.
(18) 17. documental) e/ou suas variações (representações; gaúcha/gaucha; audiovisual, por exemplo) que tratam da identidade gaúcha circunscrita ao estado do Rio Grande do Sul. Seis desses são dissertações ou teses e um artigo de periódico. Em sua maioria (cinco das sete produções) analisam filmes de ficção, uma se detém em séries televisivas de ficção e apenas uma estuda programas documentais. No entanto, também localizamos três trabalhos que articulam as palavras-chave e analisam identidades regionais em uma perspectiva transnacional. Um deles é um capítulo de livro que possui a coautoria do orientador desta dissertação: Lisbôa Filho e Coll (2011) analisam o documentário seriado O Fim do Mundo, transmitido pela RBS TV 10, em que gaúchos brasileiros “urbanizados” viajam até o extremo sul da América do Sul, passando pelo Uruguai e pela Argentina e se reconhecem parecidos com os gauchos desses países. Os autores notam uma valorização da identidade regional, que aparece de maneira híbrida com elementos de uma cultura não tradicional, de ordem mais globalizada – a qual não é retratada negativamente, mas como aliada à sobrevivência da identidade local. Ainda há comentários sobre uma aproximação tão evidente entre as identidades gaúcha e gaucha de forma a denotar a existência de uma identidade platina. Outra produção encontrada é a dissertação de Lapouble (2014), que estuda uma identidade local transnacional a partir de uma região distinta da que contemplamos no presente trabalho. Seu olhar recai sobre o espaço andino e a forma como o documentário contemporâneo encena o “homem” desse lugar. A autora procura estabelecer tessituras possíveis entre a encenação no documentário Nostalgia de la luz (Chile, França, Alemanha, 2010) e os estudos teóricos sobre identidade latino-americana – especialmente os desenvolvidos por Jesús MartínBarbero e Néstor García Canclini – a partir da análise de estilo focada nas encenações. Uma proposta dessa dissertação com a qual nos aproximamos é que a região sob foco não seja considerada primordialmente pelo recorte geopolítico, mas a partir das questões culturais e dos aspectos identitários marcantes que recobrem o espaço. O terceiro trabalho guarda fortes alinhamentos com nossa proposta e também foi desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFSM. A dissertação de Borba (2014) verifica quais sentidos de identidade são construídos em documentários que tratam das regiões de fronteira entre o extremo sul do Brasil e o Uruguai e para quais relações essas construções apontam – de pertencimento, diferença, alteridade e/ou hibridizações. Os documentários em estudo foram lançados em 2014, um denominado Doble Chapa e outro A 10. A RBS TV – Rede Brasil Sul de Televisão – é a emissora afiliada da Rede Globo no Rio Grande do Sul, existente desde 1962..
(19) 18. Linha Imaginária. Entre os objetivos específicos da dissertação, consta analisar quais identidades sobre o “homem do pampa” os documentários apresentam em suas narrativas. O referencial teórico expõe como o “lugar” se manifesta no documentário por uma relação forte entre espaço, sujeito e câmera, envolvendo afetos e memórias na produção audiovisual. Os elementos ancestrais e comuns compartilhados na região do pampa são enfatizados com uma recuperação do contexto histórico e geográfico de formação do local e da definição dos territórios brasileiros e uruguaios. O autor explicita na dissertação que o pampa também constitui identidades e se refere ao gaucho, contraposto ao mito do gaúcho desenvolvido – entre outros fatores e instituições – pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG). A análise dos documentários tem como ferramenta a análise fílmica e assinala uma representação essencialista da fronteira e do espaço em Doble Chapa e para um viés híbrido e marcado pela presença dinâmica dos sujeitos no filme A Linha Imaginária. Segundo o pesquisador, esse último traz – por meio de depoimentos de pesquisadores e artistas – uma identidade comum e partilhada pelos habitantes do pampa. Além dessas produções assinaladas, identificamos três trabalhos que, assim como o nosso, também têm A Linha Fria do Horizonte como objeto de análise. A monografia de Martins (2015) foi produzida no curso de Comunicação Social - Jornalismo do Centro Universitário Franciscano, instituição de ensino de Santa Maria, e procurou verificar – tendo a análise fílmica enquanto método – como o documentário constrói a identidade de um estilo musical próprio do pampa, ou seja, como a milonga é representada. Além disso, o autor propôs entender quais características identitárias a obra audiovisual atribui ao pampa e percebe que o compartilhamento de hábitos e estilos de vida entre o Rio Grande do Sul, o Uruguai e a Argentina contribuem para a constituição de um cenário comum aos habitantes desse local e para a milonga como gênero musical. O segundo trabalho é a monografia de França (2016), desenvolvida no curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que teve como objetivo reconhecer a existência e as características de uma identidade da fronteira BrasilUruguai. Para tanto, fez uso de revisão bibliográfica sobre conceitos como nação, identidade nacional, integração, região e cultura; trabalho de campo com entrevistas a produtores culturais e organizadores de festivais fronteiriços; e ainda a análise de três produções documentais: Fronteira, A Linha Imaginária e A Linha Fria do Horizonte (todos lançados em 2014). O pesquisador não se deteve na análise dos filmes propriamente, mas nos depoimentos colhidos por meio desses – prática que classificou como uma espécie de trabalho de campo indireto..
(20) 19. Com a monografia, inferiu que existe uma identidade territorial não apenas reativa à cultura nacional, mas também formada por pertencimentos territoriais e laços geracionais. Já o artigo de Ribas (2015) para o III Congresso Internacional de História Regional discute questões de identidade e hibridismo a partir do roteiro de A Linha Fria do Horizonte e as falas dos artistas nesse. Ribas reconhece que o filme não se detém em um passado histórico para tratar da identidade local, enfocando o presente, mesmo que trazendo referências históricas e imaginárias da região do Prata no sentido de pensar uma perspectiva identitária diferente dos nacionalismos e regionalismos baseados em fronteiras fixas. Assim, nota representações sobre um desejo de integração, como se falasse em uma cultura de terceira instância, híbrida, uma cultura platina que “justifica o compartilhamento e a representação em torno da paisagem e do sentimento de localidade” (RIBAS, 2015, p.1). É importante sinalizarmos que diversas questões diferenciam nossa pesquisa dessas três produções acadêmicas. Um primeiro ponto é que procederemos uma análise cultural-midiática, a qual definiremos apropriadamente mais adiante, mas por ora cabe antecipar que tal protocolo metodológico presume forte atenção para o contexto do espaço e a cultura vivida, algo que não se percebe nos outros estudos, até mesmo por conta de os objetivos e métodos empregados serem diferentes. Salientamos ainda que nossa análise da obra audiovisual como produto cultural-midiático passa por um olhar aprofundado sobre a mesma enquanto texto, organizando núcleos-guia da narrativa e compreendendo sua sistemática geral de funcionamento e significação – processo esse não observado nas monografias e no artigo. Além disso, a interpretação de A Linha Fria do Horizonte aliada à análise dos programas documentais Pequeños Universos (Argentina) e Expreso Sur (Uruguai) consiste em grande diferenciação dessa proposta, com a qual esperamos tecer aproximações e afastamentos nas representações a partir das produções. Desde já, é interessante explicitar que isso não se resume a proceder uma análise comparativa entre os programas documentais, mas verificar quais movimentos de representações são recíprocos, divergem ou simplesmente não se correspondem entre os programas “representantes” dos Estados-nação que formam o pampa. Ainda na sequência de produções que dialogam com a temática desta dissertação, é importante assinalar trabalhos do campo da Geografia cujas ideias são de grande valia para compreendermos o contexto espacial e inclusive sua relação com a música. Um deles, de Fernandes (2016), é um artigo de periódico derivado de sua tese de doutorado em andamento no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nele, o pesquisador considera uma região transnacional gaucha enquanto espaço de referência identitária e reconhece vertentes de abordagem dessa identidade, tendo por base as.
(21) 20. transformações político-espaciais do local. Entre as vertentes, a gaucha clássica remete à miscigenação dos povos indígenas, europeus e africanos, de origem comumente associada ao século XVIII, com o gaucho errante no pampa sem fronteiras; já a tradicionalista se ampara no “mito fundador” da Revolução Farroupilha, na parte brasileira dessa região, e realiza uma apropriação conservadora de elementos da identidade gaucha, baseada na divisão do pampa em latifúndios e na relação de trabalho subserviente patrão-peão; porém, a vertente neogaucha promove uma retomada de consciência regional que coincide com a passagem do modo de vida rural para o urbano e a efetivação de uma rede de contato entre cidades, especialmente Buenos Aires, Montevidéu, Pelotas e Porto Alegre. Por sua vez, a dissertação de Panitz (2010) forneceu apoio científico e indicações de entrevistados para desenvolver o argumento de A Linha Fria do Horizonte, de acordo com a própria produção deste11. A pesquisa intitulada “Por uma geografia da música: o espaço geográfico da música popular platina” estudou as representações sociais tramadas por grupo de compositores do espaço platino – considerado o local situado na confluência de Argentina, Brasil e Uruguai – a fim de compreender as relações entre música popular/criação musical e espaço geográfico. O pesquisador propôs o conceito de região-paisagem para relacionar interpretações históricas e culturais do espaço platino com a paisagem do pampa. Pensando na dimensão geográfica da música, foram realizadas entrevistas e assistência de shows com artistas uruguaios, argentinos e sul-rio-grandenses. Todos os contemplados por Panitz (2010) também estão entre os entrevistados de A Linha Fria do Horizonte: do Uruguai, Ana Prada, Daniel Drexler, Jorge Drexler, Sebastián Jantos; da Argentina, Kevin Johansen, Pablo Grinjot, Tomi Lebrero; do Brasil, Arthur de Faria, Marcelo Delacroix, Richard Serraria e Vitor Ramil. O autor interpreta que as representações permitem compreender o espaço platino como um território em construção, reivindicando uma nova centralidade para a prática e circulação musical. Vale acrescentar que o geógrafo deu continuidade à pesquisa com tese que investiga como as redes musicais transfronteiriças contribuem, por conta de suas repercussões culturais e identitárias, em (re)composições territoriais do local que entende como Prata (PANITZ, 2017). O estudo aponta para funções complementares de cidades como Porto Alegre, Pelotas, Buenos Aires, Montevidéu, além do litoral de Rocha (Uruguai), focos do que considera uma 11. Tal informação foi obtida pelo blog mantido e atualizado pela produção de A Linha Fria do Horizonte, especialmente pela produtora Chistiane Spode, durante a pré-produção e as gravações do mesmo. Disponível em: < linhafria.blogspot.com.br/2011/07/pre-producao-divulgacao-e-friozinho-na.html>. Acesso em: 31 mar. 2015. Em entrevista ao HuffPost Brasil, Luciano Coelho, diretor de A Linha Fria, comentou que Lucas Panitz buscava, pela via acadêmica, o que ele buscava pela via cinematográfica. Disponível em: <huffpostbrasil.com/jocerodrigues/seguindo-a-linha-fria-do-horizonte-entrevista-com-luciano-coel_a_21672779/>. Acesso em: 17 mai. 2017..
(22) 21. rede de produção cultural colada a um imaginário geográfico – rede que transcultura referenciais brasileiros e platinos, tradicionais e contemporâneos, além de misturar idiomas e gêneros musicais. Também localizamos uma produção acadêmica argentina do campo das artes (LOZA, 2015) que denomina o fenômeno artístico regional retratado por Panitz (2010) e por A Linha Fria do Horizonte como “poética pampa”. Ao referenciar as propostas estéticas de músicos do local e a opção preferencial pela milonga, essa analisa os pontos em comum nos distintos países e sinaliza caminhos renovados para integração cultural entre Brasil, Argentina e Uruguai. Feitas as considerações sobre as produções científicas mapeadas com ideias e temáticas alinhadas a esta dissertação, assinalamos que, apesar de ainda serem poucos os estudos do campo da Comunicação que refletem sobre identidades pampeanas, platinas, gauchas/gaúchas em perspectiva transnacional, nos últimos tempos esses trabalhos têm surgido, como os exemplos apresentados demonstram. Isso também por conta do agendamento do tema em outras áreas acadêmicas e nos campos cultural e social, tendo desdobramento em termos de produções midiáticas – como é o caso dos programas documentais que analisamos. Somamos essas produções a outras iniciativas, como: o grupo de pesquisa "Espaço pampeano: histórias, fronteiras e culturas", da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), que pesquisa documentos e bibliografias para recuperar histórias do trabalhador rural desse espaço e do modo de vida do gaúcho/gaucho, sob coordenação dos professores Letícia de Faria Ferreira e Jussemar Weiss; e o encontro “Fronteiras Culturais (Brasil- Uruguai- Argentina)”, realizado no ano 2000 em Porto Alegre com estudiosos dos três países, além da Europa e dos Estados Unidos, que rendeu publicação de livro homônimo considerado para a revisão bibliográfica de nosso trabalho. Esse conjunto de pensamentos e ações que pautam uma zona de identificação, aproximação e convivência apesar de – ou para além de – limites demarcatórios oficiais no espaço que podemos chamar de pampa nos lembra que os movimentos provocam momentos teóricos (HALL, 2003). Ou seja, que um conjunto de fatores históricos e contextuais concorrem para que possamos tratar desse tema teórica e empiricamente, para que consigamos falar em termos de identidades pampeanas representadas em produtos midiáticos e culturais. Os sentidos sobre essas identidades já circulam social, cultural e academicamente, e este trabalho é mais uma colaboração nesse sentido. Isso não presume, no entanto, uma vinculação romantizada ao assunto, mas um olhar analítico e crítico para verificar os sentidos materializados nas representações dos programas documentais Pequeños Universos, Expreso Sur e A Linha Fria do Horizonte e qual suas.
(23) 22. articulações com a estrutura social e cultural e, inclusive, com o campo das relações de poder nesse contexto. Buscamos ainda tensionar os processos de identidade e diferença materializados nos programas, de forma a compreender quais atributos ficam incluídos/excluídos, normalizados, valorizados, silenciados ou marginalizados nas representações efetivadas. Tendo por norte tais propósitos, esta dissertação conta com o aporte teóricometodológico dos estudos culturais, um campo inter/transdisciplinar ou até antidisciplinar (JOHNSON, 2006) que converge em certos pontos de vista, como o reconhecimento da cultura enquanto espaço de construção, compartilhamento e transformação de significados na sociedade, bem como uma rede de práticas e relações que constitui a vida cotidiana. Esse viés – bastante amplo e plural – valoriza a produção ativa da cultura pelos sujeitos (revisando a ideia do consumo passivo de bens simbólicos), enfatiza as culturas populares, cotidianas e as subculturas como locais de resistência social e considera os contextos das instituições, das relações de poder e da história que envolvem as expressões culturais (ESCOSTEGUY, 2010). Assim podemos sintetizar brevemente as principais características dessa tradição, que traz em seu bojo também um projeto político (HALL, 2003). A partir das noções oferecidas pelos autores dos estudos culturais – especialmente as indicações de Williams (2003) a respeito das dimensões da cultura, as ideias de Hall (1997a) acerca da articulação entre identidades/representações e o substrato cultural, além dos preceitos de Casetti e Chio (1999) sobre análise textual – organizamos um protocolo metodológico próprio para operacionalizar uma análise cultural-midiática dos programas documentais. Para desenvolver as reflexões que orientam o trabalho de maneira lógica e encadeada, esta dissertação está organizada em três capítulos. No primeiro, apresentamos os preceitos teóricos e metodológicos. Por entendermos que as ideias e conceitos dos estudos culturais estão diretamente conectados à concepção de seus procedimentos de análise, já combinamos o capítulo de apresentação da perspectiva à qual nos filiamos – com os principais conceitos incorporados à pesquisa – junto à definição do procedimento metodológico proposto, a análise cultural-midiática. Entre os principais autores mobilizados na seção, estão Ana Carolina Escosteguy (2006; 2010), Stuart Hall (1996; 1997a; 1997b; 2003; 2005; 2014; 2016), Kathryn Woodward (2014), Tomaz Tadeu da Silva (2014), Maria Elisa Cevasco (2001; 2016) e Raymond Williams (1979; 2003; 2005; 2011). O segundo capítulo é dedicado ao mapeamento do contexto em que se desenvolvem as narrativas dos programas documentais, um quadro complexo que compreendemos como a cultura vivida do pampa. Procuramos entender inicialmente a interpretação de fronteiras e região em uma perspectiva cultural e, na sequência, aventar aspectos geográficos, históricos,.
(24) 23. sociais e demográficos desse espaço. Também abordamos as identidades regionais do pampa, enfocando especialmente a construção simbólica do tipo emblemático do gaucho/gaúcho, bem como as manifestações tradicionalistas nesse contexto. Ainda recuperamos questões relativas ao período contemporâneo que afetam a realização dos programas documentais em investigação, como políticas do campo audiovisual e projetos de integração regional. Além de contarmos com dados contemporâneos sobre as entidades federativas que constituem o pampa, nos provêm suporte bibliográfico especialmente os trabalhos de Sandra Jatahy Pesavento (1993; 1997; 2006a; 2006b), Demétrio Magnoli, Giovana Oliveira e Ricardo Menegotto (2001), Ieda Gutfreind (1992), Carlos Reverbel (1998) e Ruben Oliven (2006). No terceiro capítulo, nos detemos na análise dos programas documentais, passando por um relato que descreve a pesquisa exploratória, a seleção dos programas que compõem o corpus e os critérios para tanto. Na sequência, detalhamos os procedimentos analíticos, inspirados na análise textual apresentada por Francesco Casetti e Federico di Chio (1999), e então apresentamos os audiovisuais e os analisamos com base nas categorias definidas. As análises dos programas conduzem à última subseção, um momento de interpretação crítica em que discutimos as intersecções possíveis entre os significados materializados nos três programas e as informações levantadas sobre o contexto do pampa. Os principais resultados e ponderações do processo de pesquisa são discutidos nas considerações finais, bem como as lacunas e questionamentos que ficam do percurso. E como o caminho se faz no próprio “gauderiar andejo”, prosseguimos rumo ao nosso estudo..
(25) 24. 1. PRESSUPOSTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS: ESTUDOS CULTURAIS COMO APORTE DO PENSAR E DO PROCEDER Assumimos, com Hall (2016), que as teorias implicam necessariamente valores nas posições adotadas. O autor também indica que tornar esses valores, posicionamentos e pressuposições acessíveis para outras pessoas é o máximo que podemos fazer para sermos científicos,. para. que. compreendam. nossos. fundamentos. teóricos,. metodológicos,. epistemológicos e políticos e tomem suas próprias interpretações a partir daí. Pensando nisso, esboçamos esse primeiro capítulo como um apanhado de noções que guiam a pesquisa como um todo, uma vez que as leituras dos autores dos estudos culturais nos provêm suporte para articular a fundamentação conceitual com a proposição de operadores metodológicos para o desenvolvimento de um protocolo analítico. Além disso, os estudos culturais promovem todo um olhar sobre os objetos de pesquisa de uma maneira abrangente e complexa, relacionando a diferentes instâncias da cultura e da formação social. E como “os paradigmas pensam as pessoas tanto quanto as pessoas pensam os paradigmas” (HALL, 2016, p.33), esta seção permite mostrarmos como essa perspectiva afeta e demarca nossos pressupostos teóricos e procedimentos empíricos. Portanto, iniciamos o capítulo com uma recuperação dos preceitos conceituais, de aspectos históricos relevantes e do legado dos estudos culturais. Uma vez que na apresentação da corrente já contemplaremos sua compreensão sobre cultura e dimensão simbólica da realidade social, na sequência nos detemos na conceituação de identidade e representação a partir de autores identificados com a perspectiva. Essas bases teóricas e conceituais apontam para uma postura acadêmica que entende que analisar a cultura pode ser uma porta de entrada para compreender a sociedade e transformá-la (CEVASCO, 2001). Justamente por isso, no que toca ao percurso metodológico, alinhamos a proposta de materialismo cultural às reconhecidas indicações de Williams (2003) sobre análise da cultura, e a partir das dimensões documental e social da cultura enunciadas pelo pesquisador organizamos nossa proposta metodológica e sinalizamos as etapas que serão operadas para proceder a análise cultural-midiática na dissertação. 1.1 ESTUDOS CULTURAIS: BREVE RECORRIDO HISTÓRICO E CONCEITUAL Antes de tecer qualquer consideração sobre as origens dos estudos culturais, suas indicações conceituais ou seu legado, é preciso já explicitar que não se trata de uma disciplina.
(26) 25. formal e encerrada, mas de um campo aberto em que diversas disciplinas interatuam em prol do estudo de aspectos distintos da cultura (ESCOSTEGUY, 2010). Johnson (2006) fala em termos de um movimento ou uma rede que tem como características a abertura, a versatilidade teórica, o espírito reflexivo e a valorização da crítica – crítica essa que seleciona os elementos de maior contribuição de outras tradições para uma espécie de “alquimia” da produção de conhecimento útil. Segundo Escosteguy (2010), isso passa pela insatisfação com os limites de algumas áreas, pelo reconhecimento de que estudar a cultura não pode ser confinado a uma única disciplina, dado sua natureza inter, trans e até antidisciplinar. Os processos culturais não correspondem ao contorno do conhecimento acadêmico na forma como ele existe. Nenhuma disciplina acadêmica é capaz de apreender a plena complexidade (ou seriedade) da análise. Os estudos culturais devem ser interdisciplinares (e algumas vezes antidisciplinares) em sua tendência (JOHNSON, 2006, p.22).. No entanto, Hall (2003, p.201) nos alerta para uma “tensão entre a recusa de se fechar o campo e policiá-lo, e ao mesmo tempo, determinação entre definir posicionamentos a favor de certos interesses e defendê-los”, principalmente porque uma prática que busca fazer alguma diferença no mundo precisa manter alguns posicionamentos, pontos de diferença e demarcálos, ainda que eles não sejam considerados finais ou absolutos. Mesmo havendo essa abertura, não se pode reduzi-la a um pluralismo simplista, há certa unidade entre os trabalhos. E talvez essa preocupação por fazer alguma diferença no mundo já expresse um posicionamento que os estudos culturais carregam desde seus princípios: a vontade de conexão entre o trabalho intelectual e o projeto político, a assunção de que sua agenda de pesquisa tem dimensões políticas e não pode ser simplesmente objetiva, sem pressuposições. A atenção com ambas as frentes – intelectual e política – remete à versão dominante sobre a origem dos estudos culturais. Tal versão relaciona o surgimento do campo, de forma organizada, com a Criação do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (na sigla em inglês, CCCS), na Universidade de Birmingham, Inglaterra, em 1964. Mas anos antes disso, os autores considerados fundadores dessa perspectiva, Richard Hoggart, Raymond Williams e Edward Palmer Thompson, já produziam pesquisas sobre as formas, instituições e práticas culturais e sua relação com a sociedade (ESCOSTEGUY, 2010). O contexto de surgimento dos estudos culturais britânicos é o período pós-Segunda Guerra Mundial, marcado por diversas transformações sociais na Inglaterra. Entre elas, a desestabilização do império britânico; o impacto dos modos de produção capitalista nas formas culturais e nos meios de comunicação, o que facilita a reprodução e a distribuição massiva de.
(27) 26. conteúdos e rompe com as culturas tradicionais de classe, marcadas pela distinção social (ESCOSTEGUY, 2010); e a extensão/democratização da educação secundária e superior (HALL et al., 2014). Nesse cenário, emerge um movimento denominado Nova Esquerda, cuja história está entrelaçada com os estudos culturais, bem como os temas de interesse e a consciência da necessidade de uma nova direção política (ESCOSTEGUY, 2010; CEVASCO, 2001). Os primeiros campos de atuação a que a Nova Esquerda se dedica são a análise teórica voltada a compreender a realidade empírica do período, a divulgação desses trabalhos e a educação, especialmente na modalidade de educação para adultos. Assim, o movimento realizou um esforço acadêmico que se desdobrou nos estudos culturais, agendando muitas de suas preocupações de pesquisa – por exemplo, a cultura popular, análise dos efeitos das mídias e maneiras de combater as formas de dominação cultural –, além de seus principais métodos de trabalho (CEVASCO, 2001). Por conta da vinculação entre Nova Esquerda e estudos culturais, o marxismo tanto influenciou essa perspectiva teórico-metodológica como foi revisado pela mesma. A crítica ao marxismo determinista, ao economicismo foi uma pauta contínua dos estudiosos do campo, que se apropriaram principalmente das ideias de Antonio Gramsci para superar impasses epistemológicos. Ainda assim, as influências de Marx nos estudos culturais são inegáveis. Johnson (2006, p.13) as sintetiza em três premissas: uma é que os processos culturais estão ligados às relações sociais, principalmente com as estruturas de classe, gênero, raça e idade; a segunda é que “a cultura envolve poder, contribuindo para produzir assimetrias nas capacidades dos indivíduos e grupos sociais”; e a terceira é que a cultura é relativamente autônoma, ou seja, não é nem externamente determinada nem completamente independente de outros fatores. Por outro lado, o encaixe teórico entre marxismo e estudos culturais não é perfeito. Hall (2003) – que, apesar de não figurar entre os membros fundadores do CCCS, é um pesquisador de referência do início do Centro, do qual esteve à frente por mais de 10 anos, entre 1968 e 1979 – desconstrói a definição do campo como prática crítica marxista. Em uma reflexão sobre a atuação, o posicionamento institucional e o projeto dos estudos culturais, o autor reconhece que o marxismo pautou muitas questões da agenda, como o poder e a classe social, mas que seus objetos privilegiados de análise (cultura, ideologia, linguagem, o simbólico) se basearam nas insuficiências teóricas e políticas marxistas. Isso se deve especialmente ao modelo base-superestrutura com que o marxismo pensa a relação entre sociedade, economia e cultura. Williams (1979), ao revisar princípios fundadores do marxismo sob o viés da cultura, traz elementos da teoria de Marx e apropriações.
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