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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 406.986 - MG (2002/0008905-0)

RELATOR : MINISTRO HÉLIO QUAGLIA BARBOSA

RECORRENTE : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS

RECORRIDO : WILSON PINTO RIBEIRO

ADVOGADO : GERALDO MAGELA ALVES DE ARAÚJO

EMENTA

RECURSO ESPECIAL. PENAL. FURTO. COMPORTAMENTO

SOCIALMENTE REPROVÁVEL. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA.

INAPLICABILIDADE.

1. A missão do Direito Penal moderno consiste em tutelar os bens jurídicos mais relevantes. Em decorrência disso, a intervenção penal deve ter o caráter fragmentário, protegendo apenas os bens jurídicos mais importantes e em casos de lesões de maior gravidade.

2. O princípio da insignificância considera necessária, na aferição do relevo material da tipicidade penal, a presença de uma mínima ofensividade da conduta do agente, nenhuma periculosidade social da ação, reduzido grau de reprovabilidade do comportamento e inexpressividade da lesão jurídica provocada (precedentes HC 84.412, STF, Rel. Min. Celso de Mello).

3. Se parece claro que o furto de uns "poucos litros de água potável" não ensejaria o acionamento da máquina jurídico-penal do Estado, pela inexpressividade da lesão jurídica provocada, por outra volta, não se deve olvidar que tal conduta se mostra bastante reprovável, sob o ponto de vista de sua repercussão social. Inaceitável a complacência do Estado para com aqueles que, em condições de arcar com as respectivas contraprestações, venham a usufruir irregularmente e de forma gratuita de bens e serviços públicos, em detrimento da grande maioria da população.

4. Recurso parcialmente conhecido e provido. ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos os autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da SEXTA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas taquigráficas a seguir, prosseguindo o julgamento, após voto-vista do Sr. Ministro HAMILTON CARVALHIDO acompanhando a Relatoria, no que foi seguido pelo Sr. Ministro PAULO GALLOTTI, por maioria, conhecer parcialmente do recurso e lhe dar provimento, vencido o Sr. Ministro NILSON NAVES. Votaram com o Relator os Srs. Ministros HAMILTON CARVALHIDO e PAULO GALLOTTI. Não participou do julgamento o Sr. Ministro PAULO MEDINA.

Presidiu o julgamento o Sr. Ministro PAULO GALLOTTI. Brasília (DF), 23 de novembro de 2004 (Data do Julgamento)

MINISTRO HÉLIO QUAGLIA BARBOSA Relator

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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 406.986 - MG (2002/0008905-0)

RELATÓRIO

O EXMO. SR. MINISTRO HÉLIO QUAGLIA BARBOSA (Relator):

Trata-se de recurso interposto pelo Ministério Público do Estado de Minas Gerais, fundado no artigo 105, inciso III, alíneas "a" e "c", da Constituição Federal, contra v. acórdão proferido pelo Egrégio Tribunal de Alçada do Estado de Minas Gerais, que absolveu Wilson Pinto Ribeiro aplicando-se o princípio da insignificância.

Sustenta o recorrente que o acórdão objurgado contrariou manifestamente ao artigo 155, caput, do Código Penal, além do dissídio jurisprudencial, destacando não ter ficado comprovado, nos autos, o valor econômico da res furtiva para demonstrar a extensão da conduta perpetrada, não se olvidando dos péssimos antecedentes do agente.

A d. Procuradoria Geral da República manifestou-se pelo provimento do recurso, cassando o decisum recorrido para restabelecer a sentença monocrática.

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RECURSO ESPECIAL Nº 406.986 - MG (2002/0008905-0)

EMENTA

RECURSO ESPECIAL. PENAL. FURTO.

COMPORTAMENTO SOCIALMENTE REPROVÁVEL. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. INAPLICABILIDADE. 1. A missão do Direito Penal moderno consiste em tutelar os bens jurídicos mais relevantes. Em decorrência disso, a intervenção penal deve ter o caráter fragmentário, protegendo apenas os bens jurídicos mais importantes e em casos de lesões de maior gravidade.

2. O princípio da insignificância considera necessária, na aferição do relevo material da tipicidade penal, a presença de uma mínima ofensividade da conduta do agente, nenhuma periculosidade social da ação, reduzido grau de reprovabilidade do comportamento e inexpressividade da lesão jurídica provocada (precedentes HC 84.412, STF, Rel. Min. Celso de Mello).

3. Se parece claro que o furto de uns "poucos litros de água potável" não ensejaria o acionamento da máquina jurídico-penal do Estado, pela inexpressividade da lesão jurídica provocada, por outra volta, não se deve olvidar que tal conduta se mostra bastante reprovável, sob o ponto de vista de sua repercussão social. Inaceitável a complacência do Estado para com aqueles que, em condições de arcar com as respectivas contraprestações, venham a usufruir irregularmente e de forma gratuita de bens e serviços públicos, em detrimento da grande maioria da população.

4. Recurso parcialmente conhecido e provido.

VOTO

O EXMO. SR. MINISTRO HÉLIO QUAGLIA BARBOSA (Relator):

1. Razão assiste ao recorrente, conhecido o recurso pela alínea "a" do inciso III do artigo 105 da Constituição Federal.

2. Infere-se, nos autos, que o recorrido foi denunciado pela prática de furto, nos seguintes termos:

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"o denunciado violou o tamponamento efetuado pela Copasa, uma vez que o mesmo não quitou sua conta.

Informa que sem autorização da Copasa, o denunciado violou tal tamponamento e usufruiu da água sem o devido pagamento" (fl. 02/STJ).

O acórdão impugnado concluiu pela aplicação do princípio da insignificância ao caso, assim dispondo:

"Analisei cuidadosamente as razões trazidas pela defesa e, vejo assistir integral razão ao recorrente, pois, tenho que, a teor do valor da res furtiva , implementa-se a aplicação do princípio da insignificância para absolver o apelante.

A moldura legal repressiva pela qual o apelante respondeu ao processo foi a do art. 155, caput , do Código Penal, que tipifica a conduta de subtrair para si ou para outrem, coisa alheia móvel, na forma consumada.

Com efeito, penso que o desvalor do resultado consubstanciado na ínfima quantia levada a efeito no valor total da res - poucos litros de água potável não gerou lesão ao bem jurídico a ponto de acarretar um decreto condenatório.

Não há, a meu sentir, a chamada tipicidade material do fato, apesar de formalmente ser o acontecimento enquadrado na moldura típica.

A ausência de tipicidade material se revela pela insignificância do dano ao bem jurídico e, neste caso, o fato é atípico.

(...)

Dessa forma, tenho que o princípio da insignificância é uma interpretação corretiva da larga abrangência formal dos tipos penais e, para sua aplicação, prescinde de menção na lei, pois decorre do Estado Democrático de Direito, constante da Constituição Federal de 1988.

Não se exige para a aplicação da insignificância que a legislação penal expressamente acolha, pois é um princípio que decorre do modelo constitucional estabelecido na Federação Brasileira.

Igualmente, não há que se falar em não-aplicação do referido princípio, somente em razão da reincidência do recorrente, pois, a primariedade não é requisito essencial ao seu reconhecimento, pouco importando para a solução do caso em apreço que o réu já

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tenha sido condenado por crime de furto com trânsito em julgado. Assim, por tais considerações e por tudo mais que dos autos consta, dou provimento ao apelo de Wilson Pinto Ribeiro para absolvê-lo da imputação expressa na exordial acusatória" (fls. 83-85/STJ).

3. Com efeito, a missão do Direito Penal moderno consiste em tutelar os bens jurídicos mais relevantes. Em decorrência disso, a intervenção penal deve ter o caráter fragmentário, protegendo apenas os bens jurídicos mais importantes e em caso de lesões de maior gravidade.

Claus Roxin, a quem se atribui a formulação do princípio, afirma que sua aplicação permite excluir, logo de plano, "lesões de bagatela da maioria dos tipos" e que, juntamente com o princípio da adequação social (que para Hans Welzel traduz-se em condutas que, se não necessariamente exemplares, se mantêm dentro dos limites da liberdade de atuação social), atuam no sentido de se proceder a uma correta e restritiva interpretação dos tipos penais, realizando "a 'natureza fragmentária' do direito penal" e mantendo íntegro "o campo de punibilidade indispensável para a proteção do bem jurídico" (CLAUS ROXIN in Política Criminal e Sistema Jurídico-Penal. Tradução Luís Greco. Rio de Janeiro: Renovar, 2000, p. 47).

4. Nesta eg. Corte Superior de Justiça também se reconhece a necessidade de correção de eventuais exageros na estrita observância da tipicidade legal. Nesse sentido, colaciono alguns julgados admitindo a aplicação do princípio da insignificância no delito de furto:

"RECURSO ESPECIAL. FURTO. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. APLICABILIDADE, EM SENDO IRRISÓRIO O VALOR SUBTRAÍDO. RECURSO IMPROVIDO. 1. "1. O Direito Penal, como na lição de Francisco de Assis Toledo, '(...) por sua natureza fragmentária, só vai até onde seja necessário para a proteção do bem jurídico. Não se deve

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ocupar de bagatelas.' (in Princípios Básicos de Direito Penal, Ed. Saraiva, pág. 133). 2. Cumpre, pois, para que se possa falar em fato penalmente típico, perquirir-se, para além da tipicidade legal, se da conduta do agente resultou dano ou perigo concreto relevante, de modo a lesionar ou fazer periclitar o bem na intensidade reclamada pelo princípio da ofensividade, acolhido na vigente Constituição da República (artigo 98, inciso I). 3. O correto entendimento da incompossibilidade das formas privilegiada e qualificada do furto, por óbvio, não inibe a afirmação da atipicidade penal da conduta que se ajusta ao tipo legal do artigo 155, parágrafo 4º, inciso IV, por força do princípio da insignificância. 4. Em sendo ínfimo o valor da res furtiva, com irrisória lesão ao bem jurídico tutelado, mostra-se, a conduta do agente, penalmente irrelevante, não extrapolando a órbita civil." (HC 21.750/SP, da minha Relatoria, in DJ 4/8/2003).

2. Recurso especial improvido"

(REsp 556.046/MG, 6.ª Turma, Min. Rel. HAMILTON CARVALHIDO, DJ de 9/2/2004).

"RECURSO ESPECIAL. PENAL E PROCESSO PENAL. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. FURTO. INEXISTÊNCIA DE PREJUÍZO CONCRETO À VÍTIMA.

Admite-se, em algumas modalidades de furto, quando evidenciado, como no caso, que a vítima não sofreu dano relevante ao seu patrimônio, a aplicação do princípio da insignificância.

Recurso não conhecido"

(REsp 532.472/RS, 5.ª Turma, Rel. Min. JOSÉ ARNALDO DA FONSECA, DJ de 26/4/2004).

5. O em. Ministro Celso de Mello, em recente decisão (Informativo de Jurisprudência do Supremo Tribunal Federal n.º 354), delimitou os requisitos necessários à aplicação do princípio da insignificância, cujas lições peço venia para reproduzir:

"O princípio da insignificância - que considera necessária, na aferição do relevo material da tipicidade penal, a presença de certos vetores, tais como (a) a mínima ofensividade da

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conduta do agente, (b) a nenhuma periculosidade social da ação, (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada - apoiou-se, em seu processo de formulação teórica, no reconhecimento de que o caráter subsidiário do sistema penal reclama e impõe, em função dos próprios objetivos por ele visados, a intervenção mínima do Poder Público em matéria penal. Isso significa, pois, que o sistema jurídico há de considerar a relevantíssima circunstância de que a privação da liberdade e a restrição de direitos do indivíduo somente se justificarão quando estritamente necessárias à própria proteção das pessoas, da sociedade e de outros bens jurídicos que lhes sejam essenciais, notadamente naqueles casos em que os valores penalmente tutelados se exponham a dano, efetivo ou potencial, impregnado de significativa lesividade."

(HC 84.412, STF, Rel. Min. CELSO DE MELLO, decisão publicada no DJU de 2/8/2004)

6. No caso sub examine , o ora recorrido violou o tamponamento do registro de água, realizado pela companhia de abastecimento local, e passou a usufruir do serviço, sem o devido pagamento.

A mera comprovação do baixo valor da res furtiva ou da pequenez da ofensa ao patrimônio da vítima constituem condições necessárias, mas não suficientes, à correção efetivada no acórdão combatido.

Se parece claro que o furto de uns "poucos litros de água potável" não ensejaria o acionamento da máquina jurídico-penal do Estado, pela inexpressividade da lesão jurídica provocada, por outra volta, não se deve olvidar que tal conduta se mostra bastante reprovável, sob o ponto de vista de sua repercussão social. Inaceitável, me parece, a complacência do Estado para com aqueles que, em condições de arcar com as respectivas contraprestações, venham a usufruir irregularmente e de forma gratuita de bens e serviços públicos, em detrimento da grande maioria que honra seus compromissos a

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cada mês, por vezes com grandes dificuldades.

Assim, nos termos da fundamentação do voto do em. Ministro Celso de Mello, antes referido, aqui reproduzida, restaram insatisfeitos os requisitos da reduzida periculosidade social da ação e do baixo grau de reprovabilidade do comportamento. Inviável, portanto, a aplicação do princípio da insignificância.

7. Ao que foi exposto, conheço em parte do recurso e lhe dou PROVIMENTO, para ser restabelecida a decisão do juiz de primeiro grau que condenou o recorrido.

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RECURSO ESPECIAL Nº 406.986 - MG (2002/0008905-0)

VOTO

O EXMO. SR. MINISTRO NILSON NAVES: Sr. Presidente, parece-me, respeitosamente, que o recurso não rompe o obstáculo do conhecimento. Fundado na alínea c, dissídio não há; não há porque a questão relativa ao fenômeno da insignificância tem variações. Daí a dificuldade de se precisar a similitude dos casos em confronto. Pela alínea a, o Tribunal decidiu com base na prova; o valor da coisa furtada deveu-se a elementos probantes; caso da Súmula 7.

Data venia do Relator (não obstante a sólida fundamentação jurídica do voto de S. Exa.), não conheço do recurso especial.

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CERTIDÃO DE JULGAMENTO SEXTA TURMA

Número Registro: 2002/0008905-0 RESP 406986 / MG

MATÉRIA CRIMINAL Números Origem: 3343099 4994

PAUTA: 24/08/2004 JULGADO: 16/09/2004

Relator

Exmo. Sr. Ministro HÉLIO QUAGLIA BARBOSA Presidente da Sessão

Exmo. Sr. Ministro PAULO GALLOTTI Subprocurador-Geral da República Exmo. Sr. Dr. SAMIR HADDAD Secretário

Bel. ELISEU AUGUSTO NUNES DE SANTANA

AUTUAÇÃO

RECORRENTE : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS RECORRIDO : WILSON PINTO RIBEIRO

ADVOGADO : GERALDO MAGELA ALVES DE ARAÚJO

ASSUNTO: Penal - Crimes contra o Patrimônio (art. 155 a 183) - Furto (art.155 e 156)

CERTIDÃO

Certifico que a egrégia SEXTA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:

"Após o voto do Sr. Ministro Relator conhecendo parcialmente do recurso e lhe dando provimento, e do voto divergente do Sr. Ministro Nilson Naves que dele não conhecia, pediu vista o Sr. Ministro Hamilton Carvalhido. Aguarda o Sr. Ministro Paulo Gallotti."

Ausente, justificadamente, o Sr. Ministro Paulo Medina. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Paulo Gallotti. O referido é verdade. Dou fé.

Brasília, 16 de setembro de 2004

ELISEU AUGUSTO NUNES DE SANTANA Secretário

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RECURSO ESPECIAL Nº 406.986 - MG (2002/0008905-0)

VOTO-VISTA

EXMO. SR. MINISTRO HAMILTON CARVALHIDO: Senhor Presidente, recurso especial interposto pelo Ministério Público do Estado de Minas Gerais contra acórdão da Primeira Câmara Criminal do Tribunal de Alçada do Estado de Minas Gerais, assim fundamentado:

"(...)

Perante o Juízo da Comarca de Dores do Indaiá, fora o apelante Wilson Pinto Ribeiro denunciado e processado pelo crime previsto no artigo 155, caput, do Código Penal, sendo, ao final, condenado a 01 ano e 03 meses de reclusão, em regime semi-aberto, e 30 dias-multa, fixada a unidade em seu mínimo legal, conforme decisão de f. 41/46.

Quanto aos fatos, narra a denúncia de f. 02/03 que, no dia 22 de maio de 1998, na residência situada na Rua João Chagas de Faria, nº 1491, Bairro São Sebastião, em Dores do Indaiá, Minas Gerais, o apelante violou o tamponamento efetuado pela COPASA, uma vez que o mesmo não quitou sua conta.

(...)

Analisei cuidadosamente as razões trazidas pela defesa e, vejo assistir integral razão ao recorrente, pois, tenho que, a teor do valor da res furtiva, implementa-se a aplicação do princípio da insignificância para absolver o apelante.

A moldura legal repressiva pelo qual o apelante respondeu ao processo foi a do art. 155, caput do Código Penal, que tipifica a conduta de subtrair para si ou para outrem, coisa alheia móvel, na forma consumada.

Com efeito, penso que o desvalor do resultado consubstanciado na ínfima quantia levada a efeito no valor total da res – poucos litros de água potável não gerou lesão ao bem jurídico a ponto de acarretar um decreto condenatório.

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Superior Tribunal de Justiça

Não há, a meu sentir, a chamada tipicidade material do fato, apesar de formalmente ser o acontecimento enquadrado na moldura típica.

A ausência de tipicidade material se revela pela insignificância do dano ao bem jurídico e, neste caso, o fato é atípico.

(...)

Dessa forma, tenho que o princípio da insignificância é uma interpretação corretiva da larga abrangência formal dos tipos penais e, para sua aplicação, prescinde de menção na lei, pois decorre do Estado Democrático de Direito, constante da Constituição Federal de 1988.

Não se exige para a aplicação da insignificância que a legislação penal expressamente acolha, pois é um princípio que decorre do modelo constitucional estabelecido na Federação Brasileira.

Igualmente, não há que se falar em não-aplicação do referido princípio, somente em razão da reincidência do recorrente, pois, a primariedade não é requisito essencial ao seu reconhecimento, pouco importando para a solução do caso em apreço que o réu já tenha sido condenado por crime de furto com trânsito em julgado.

Assim, por tais considerações e por tudo mais que dos autos consta, dou provimento ao apelo de Wilson Pinto Ribeiro para absolvê-lo da imputação expressa na exordial acusatória.

Cancelem-se todos os registros cartorários referentes a este processo.

Custas, ex lege." (fls. 82/85).

Divergência jurisprudencial e negativa de vigência ao artigo 155 do Código Penal, fundam a insurgência especial (Constituição da República, artigo 105, inciso III, alíneas "a" e "c").

O Ministro-Relator, Hélio Quaglia, conheceu parcialmente do recurso e, nessa extensão, lhe deu provimento para restabelecer a autoridade

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Superior Tribunal de Justiça

do decisum condenatório de primeiro grau que condenara o recorrido às penas privativa de liberdade de 1 ano e 3 meses de reclusão, em regime aberto, e pecuniária de 30 dias-multa, no mínimo legal, como incurso nas sanções do artigo 155, caput , do Código Penal.

Pedi vista dos autos, para melhor exame da questão federal. São estes os fundamentos da sentença condenatória:

"(...)

1 - Os fatos da denúncia restaram comprovados de forma bastante.

A ocorrência policial e a prova testemunhal apurada dão conta da ruptura do tamponamento e decorrente abastecimento de água, através de ligação clandestina, no endereço referido na inicial.

Respeitante à autoria, dúvida alguma persiste.

O agente é confesso ao reconhecer, quando de seu interrogatório, fls. 23, haver feito religação na pena d'água de forma indevida, usufruindo do líquido em sua casa.

2 - Quanto à definição jurídica do fato delituoso, resolvo capitular o crime cometido pelo agente pelo tipo do artigo 155, caput, do Código Penal.

Afasto a caracterização pelo disposto no parágrafo 3° do mesmo artigo, eis que a água não se equipara a energia.

Apesar da produção de energia em hidrelétricas, a água permanece como líquido, o mais precioso e necessário.

(...)

Apesar de ainda abundante em nossa região, a água purificada e tratada é bem de valor econômico. E vendida por metros cúbicos.

3 - Não encontro justificativa ao comportamento antisocial do acusado.

Não há excludente de antijuridicidade ou de culpabilidade que se possa invocar, com êxito, em seu prol.

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Superior Tribunal de Justiça

Sua alegação de necessidade não convence, mesmo que tivesse criança pequena em casa.

A água não lhe faltaria, seja para beber, seja para outros usos. Poderia ir busca-Ia junto aos vizinhos, que não lhe negariam o líquido, ou em caso extremo, junto às fontes, córregos e lagoas que são numerosas na cidade.

4 - O réu é imputável e tinha consciência plena da ilicitude do ato que praticava.

HIS POSITIS e pelo mais que está nos autos, JULGO procedente a denúncia de fls. 02 e 03 e CONDENO Wilson Pinto Ribeiro como incurso nas sanções do artigo 155, caput, do Código Penal.

Ao que consta, é reincidente o agente, contando com diversos apontamentos criminais em sua biografia - certidão de fI. 31.

Seus antecedentes e conduta social anterior não se fazem recomendáveis, devotada sua personalidade, com alguma ênfase ao ilícito.

Censuráveis, de outro lado, as circunstâncias do crime, ainda que aceitáveis os motivos alegados e mínimas as conseqüências do delito.

Com isto, fixo-lhe a pena-base em reclusão por um ano e dois meses e pagamento de trinta dias multa, valendo cada unidade 1/30 do salário mínimo vigente ao tempo da infração.

Reincidente o agente, há que se reconhecer, contudo, a seu favor a atenuante da confissão espontânea.

Assim, fazendo a apreciação determinada no artigo 67 do Código Penal, imponho ao réu condenação definitiva em um ano e três meses de reclusão mantida a pena pecuniária acima exposta.

A reincidência impede a substituição da pena privativa de liberdade por pena restritiva de direito.

O regime inicial de cumprimento da condenação será o previsto no artigo 33, parágrafo 1°, letra b, do Código Penal." (fls. 43/45).

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O Direito Penal, como na lição de Francisco de Assis Toledo, "(...) por sua natureza fragmentária, só vai até onde seja necessário para a proteção do bem jurídico. Não se deve ocupar de bagatelas." (in Princípios Básicos de Direito Penal,

Ed. Saraiva, pág. 133).

Cumpre, pois, para que se possa falar em fato penalmente típico, perquirir-se, para além da tipicidade legal, se da conduta do agente resultou dano ou perigo concreto relevante, de modo a lesionar ou fazer periclitar o bem na intensidade reclamada pelo princípio da ofensividade, acolhido na vigente Constituição da República (artigo 98, inciso I).

E, como bem advertido pelo Sr. Ministro Relator, Hélio Quaglia, "(...) se parece claro que o furto de uns 'poucos litros de água potável' não ensejaria o acionamento da máquina jurídico-penal do Estado, pela inexpressividade da lesão jurídica provocada, por outra volta, não se deve olvidar que tal conduta se mostra bastante reprovável, sob o ponto de vista de sua repercussão social. Inaceitável, me parece, a complacência do Estado para com aqueles que, em condições de arcar com as respectivas contraprestações, venham a usufruir irregularmente e de forma gratuita de bens e serviços públicos, em detrimento da grande maioria que honra seus compromissos a cada mês, por vezes com grandes dificuldades."

No mesmo sentido, o entendimento que vem sendo adotado pelo Excelso Supremo Tribunal Federal, verbis :

"PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA -

IDENTIFICAÇÃO DOS VETORES CUJA PRESENÇA

LEGITIMA O RECONHECIMENTO DESSE POSTULADO DE

POLÍTICA CRIMINAL - CONSEQÜENTE

DESCARACTERIZAÇÃO DA TIPICIDADE PENAL EM SEU

ASPECTO MATERIAL - DELITO DE FURTO -

CONDENAÇÃO IMPOSTA A JOVEM DESEMPREGADO,

COM APENAS 19 ANOS DE IDADE - 'RES FURTIVA' NO VALOR DE R$ 25,00 (EQUIVALENTE A 9,61% DO SALÁRIO

MÍNIMO ATUALMENTE EM VIGOR) - DOUTRINA -

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Superior Tribunal de Justiça

STF - PEDIDO DEFERIDO.

O PRINCÍPIO INSIGNIFICÂNCIA QUALIFICA-SE

COMO FATOR DE DESCARACTERIZAÇÃO MATERIAL DA TIPICIDADE PENAL.

- O princípio da insignificância - que deve ser analisado em conexão com os postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima do Estado em matéria penal - tem o sentido de excluir ou de afastar a própria tipicidade penal, examinada na perspectiva de seu caráter material. Doutrina.

Tal postulado - que considera necessária, na aferição do relevo material da tipicidade penal, a presença de certos vetores, tais como (a) a mínima ofensividade da conduta do agente, (b) a

nenhuma periculosidade social da ação, (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada - apoiou-se, em seu processo de formulação

teórica, no reconhecimento de que o caráter subsidiário do sistema penal reclama e impõe, em função dos próprios obj eti vos por ele visados, a intervenção mínima do Poder Publico.

O POSTULADO DA INSIGNIFICÂNCIA E A FUNÇÃO

DO DIREITO PENAL: 'DE MINIMIS, NON CURAT

PRAETOR' .

O sistema jurídico há de considerar a relevantíssima circunstância de que a privação da liberdade e a restrição de direitos do indivíduo somente se justificam quando estritamente necessárias à própria proteção das pessoas, da sociedade e de outros bens jurídicos que lhes sejam essenciais, notadamente naqueles casos em que os valores penalmente tutelados se exponham a dano, efetivo ou potencial, impregnado de significativa lesividade.

- O direito penal não se deve ocupar de condutas que produzam resultado, cujo desvalor - por não importar em lesão significativa a bens jurídicos relevantes - não represente, por isso mesmo, prejuízo importante, seja ao titular do bem jurídico tutelado, seja à integridade da própria ordem social." (HC 84.412/SP, Relator Ministro Celso de Mello, julgado em 19/10/2004).

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In casu, como bem gizado pelo Exmo. Sr. Ministro Relator, não há como se acolher o princípio da insignificância, pois "(...) restaram insatisfeitos os requisitos da reduzida periculosidade social da ação e do baixo grau de reprovabilidade do comportamento."

Pelo exposto, acompanhando o Ministro Relator, dou provimento ao recurso para restabelecer integralmente a autoridade do decisum de primeiro grau.

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CERTIDÃO DE JULGAMENTO SEXTA TURMA

Número Registro: 2002/0008905-0 RESP 406986 / MG

MATÉRIA CRIMINAL Números Origem: 3343099 4994

PAUTA: 24/08/2004 JULGADO: 23/11/2004

Relator

Exmo. Sr. Ministro HÉLIO QUAGLIA BARBOSA Presidente da Sessão

Exmo. Sr. Ministro PAULO GALLOTTI Subprocuradora-Geral da República Exma. Sra. Dra. DEBORAH DUPRAT Secretário

Bel. ELISEU AUGUSTO NUNES DE SANTANA

AUTUAÇÃO

RECORRENTE : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS RECORRIDO : WILSON PINTO RIBEIRO

ADVOGADO : GERALDO MAGELA ALVES DE ARAÚJO

ASSUNTO: Penal - Crimes contra o Patrimônio (art. 155 a 183) - Furto (art.155 e 156)

CERTIDÃO

Certifico que a egrégia SEXTA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:

"Prosseguindo o julgamento, após o voto-vista do Sr. Ministro Hamilton Carvalhido acompanhando a Relatoria, no que foi seguido pelo Sr. Ministro Paulo Gallotti, a Turma, por maioria, conheceu parcialmente do recurso e deu-lhe provimento, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Vencido o Sr. Ministro Nilson Naves."

Os Srs. Ministros Hamilton Carvalhido e Paulo Gallotti votaram com o Sr. Ministro Relator.

Não participou do julgamento o Sr. Ministro Paulo Medina. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Paulo Gallotti.

O referido é verdade. Dou fé.

Brasília, 23 de novembro de 2004

ELISEU AUGUSTO NUNES DE SANTANA Secretário

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