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TRIBUNAL MARÍTIMO AR/NCF PROCESSO Nº /13 ACÓRDÃO

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Academic year: 2021

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AR/NCF PROCESSO Nº 27.738/13 ACÓRDÃO

Suply boat “ASSO VENTISSEI” e bote “CAIU DO CEU”. Colisão do navio

supridor com redes de pesca pertencentes ao bote. Manobra para o bordo das redes orientada pelo bote. Embarcação classificada para navegação interior que pescava em alto mar. Condenação.

Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.

Tratam os autos de colisão ocorrida entre o Navio Supridor de Apoio Marítimo “ASSO VENTISSEI” com redes de pesca do Bote/Baleeira “CAIU DO CEU”, em Macau, RN, que causou dano ao material de pesca, sem registro de danos pessoais ou de poluição.

A embarcação envolvida foi o Navio Supridor “ASSO VENTISSEI”, com 71,90m de comprimento e 2.308 AB, classificada para atividade de transporte de carga em área de navegação de mar aberto, de propriedade Asso Marítima Navegação Ltda., e o Bote/Baleeira “CAIU DO CEU”, com 8,94m de comprimento e 4,8 AB, classificada para atividade de pesca em área de navegação interior, de propriedade de Sebastiana Soares do Vale Silva.

Segundo se apurou, no dia 09 de novembro de 2012, por volta das 17h, o barco de pesca “CAIU DO CEU” finalizou o lançamento de um conjunto de oitenta redes de pesca com 50m de comprimento cada uma, perfazendo uma extensão total de quatro mil metros e permaneceu ao sul das redes lançadas observando o movimento das embarcações. As redes ficaram dispostas paralelamente à terra, com o início localizado a cerca de mil metros a oeste da plataforma fixa “BIQUARA 1”, a 14 milhas náuticas da costa. O conjunto de redes recebeu sinalização no início da primeira rede e no final da última, que consistia de uma bandeirola encarnada e um sinal luminoso intermitente colocado numa haste a 1,8m acima do nível do mar.

Por volta das 19h, a embarcação de apoio marítimo “ASSO VENTISSEI” suspendeu da plataforma fixa “PESCADA 1A” para a área chamada de Ubarana, em um rumo que passaria ao norte da plataforma fixa “BIQUARA 1”. Quando se aproximou da área onde estavam as redes foi chamada pela embarcação de pesca por meio do rádio VHF, tendo sido solicitado que guinasse 20º para boreste. Como a proa da embarcação ficou alinhada com a plataforma fixa “BIQUARA 1” o Comandante guinou 30º, assumindo a embarcação o rumo verdadeiro 143º e informou para a embarcação de pesca, ficando ambos de acordo. Entretanto, quando a embarcação “ASSO VENTISSEI” deixou a sinalização luminosa intermitente por bombordo, acabou por colidir e romper o conjunto de redes de pesca lançado pelo B/P “CAIU DO CEU”.

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===================================================================== Ubarana, a embarcação “ASSO VENTISSEI” foi chamada novamente pelo B/P “CAIU DO CEU” e foi informada que redes de pesca de sua propriedade haviam sido danificadas. Até este instante o Comandante do “ASSO VENTISSEI” imaginava ter livrado as redes de pesca e que a sinalização por bombordo de sua embarcação marcava o início do conjunto de redes de pesca lançadas em direção à plataforma fixa “BIQUARA 1”, motivo pelo qual fora solicitada a guinada para boreste pelo B/P “CAIU DO CEU”.

As fotos de fl. 28 comprovam que o trecho de rede de pesca colhido pelo navio “ASSO VENTISSEI”, no dia 28 de novembro de 2012, durante a perícia direta naquela embarcação e os trechos de redes de pesca consertadas, colhido no dia 26 de novembro de 2012, por ocasião da perícia direta no B/P “CAIU DO CEU”, possuem as mesmas características quanto à dimensão de suas malhas.

Durante o inquérito foram ouvidas 04 (quatro) testemunhas que descreveram o acidente conforme acima. Esclareceu o marinheiro auxiliar de máquinas, ora indiciado, Sr. Francisco Evangelista da Silva Filho, Mestre do B/P “CAIU DO CEU”, que no dia 03 de novembro de 2012, por volta das 21h, pescava no canal de Macau, a uma distância aproximada de 3 milhas náuticas da praia quando observou a aproximação da embarcação “HAT TRIK” na direção de suas redes de pesca, que então fez contato via rádio com a mesma solicitando ao comandante que desviasse de suas redes, entretanto o mesmo não atendeu ao seu pedido e prosseguiu naquela direção, danificando 03 redes de pesca, causando um prejuízo de R$ 1.017,00 (um mil e dezessete reais). Acrescentou ainda que no dia 09 de novembro de 2012, por volta das 19h estava pescando no mesmo local e observou a aproximação da embarcação de apoio marítimo “ASSO VENTISSEI” vindo na direção de suas redes, tendo ele alertado a referida embarcação por rádio solicitando que desviasse, todavia o comandante da embarcação não teria atendido a seu pedido passando por sobre outras 05 redes de nylon grilon nº 70 e malha de 55 milímetros danificando todas as redes, causando um prejuízo de R$ 1.965,00 (um mil novecentos e sessenta e cinco reais) e que após a passagem da embarcação retornou o contato por rádio com o comandante, tendo o mesmo afirmado que o depoente “procurasse seus direitos, pois ele também iria procurar os dele”. Informou também que depois do acidente procurou a Petrobras e comunicou o fato, porém a empresa o orientou que procurasse a Colônia de Pesca e formalizasse uma queixa à Capitania dos Portos e que só depois desse procedimento a Petrobras faria contato com as empresas de navegação com a finalidade de ressarcir os danos. Declarou, por fim, que o B/P “CAIU DO CEU” pertence à sua esposa, a Sra. Sebastiana Soares do Vale Silva e que estavam pescando em mar aberto.

Foram juntados aos autos do inquérito os documentos de praxe das embarcações envolvidas no evento, tendo sido apurado pelo encarregado do inquérito que o B/P “CAIU DO CEU” é uma embarcação classificada para navegação interior, mas havia lançado suas redes em

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===================================================================== mar aberto e que segundo o TIE seria guarnecido por três POP’s, mas no dia do acidente estariam embarcados apenas dois. Anotou, ainda, que os tripulantes não portavam o Atestado de Saúde Ocupacional em dia e que as boias salva-vidas não estavam instaladas adequadamente, além de uma delas não ter linha de vida.

O encarregado do IAFN anotou em seu relatório que o B/P “CAIU DO CEU” estava mal posicionado e àquela hora da noite não tinha noção do rumo que seguia a Embarcação “ASSO VENTISSEI”. Disse que a pesca naquela área marítima, onde está localizado um conjunto de 29 plataformas de petróleo além de sondas temporárias, há um intenso tráfego de embarcações inclusive no período noturno, tornando perigosa a navegação. Ressaltou também que o B/P ”CAIU DO CEU” utilizava naquela atividade um conjunto de 80 redes interligadas totalizando 04 km de extensão, cuja sinalização se resumia a duas (02) pequenas boias luminosas, sendo uma em cada extremidade do referido conjunto de redes, o que é insuficiente para promover uma sinalização segura à navegação. Ressaltou que o laudo pericial (fl. 29) apurou que a Embarcação “ASSO VENTISSEI” navegava na direção do Campo de Ubarana e em condições normais não tinha como passar por sobre as redes do B/P “CAIU DO CEU”, fato que somente aconteceu devido a solicitação do mestre do barco de pesca para que mudasse de rumo.

Registrou, por fim, que o rebocador de apoio marítimo “HAT TRICK” não navegou na área em que as redes de pesca foram lançadas pelo B/P “CAIU DO CEU” conforme se verificou na folha 215 do Bandalho do Convés da citada embarcação, naquela data, o que configura falsa denúncia de acidente, de acordo com o documento (fl. 04).

Com base nas informações coligidas e no Laudo de Exame Pericial o encarregado do inquérito concluiu que a causa determinante da colisão do rebocador com as redes foi a falta de sinalização luminosa adequada para marcação das redes de pesca que foram lançadas em local de intenso tráfego de embarcações. Como consequência verificou-se danos materiais às redes de pesca pertencentes ao B/P “CAIU DO CEU” causado pela colisão contra as mesmas pelo rebocador de apoio marítimo “ASSO VENTISSEI”. Apontou como possível responsável pelo acidente o Mestre do B/P “CAIU DO CEU”, Sr. Francisco Evangelista da Silva Filho por ter solicitado que a Embarcação “ASSO VENTISSEI” desviasse o seu rumo, induzindo o comandante a erro.

Foram notificados do resultado do IAFN o Sr. Francisco Evangelista da Silva Filho e a Sra. Sebastiana Soares do Vale Silva, respectivamente mestre e proprietária do barco de pesca (fls. 184/185), tendo o primeiro apresentado defesa prévia (fls. 186/187), na qual, em resumo, disse que existe uma série de contradições no depoimento do comandante da embarcação “ASSO VENTISSEI” e que por tal motivo seria interessante a realização de uma acareação entre eles. Ressaltou que sempre utilizou a mesma sinalização sem nunca ter ocorrido

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===================================================================== nenhum acidente e que toda a tripulação seria de nível 2.

Os autos foram remetidos ao Tribunal Marítimo que os encaminhou à PEM, que ofereceu Representação em face de Francisco Evangelista da Silva Filho, com fulcro no art. 14, alínea “a” e art. 15, alínea “e”, ambos da Lei nº 2.180/54.

Depois de resumir os principais fatos narrados no inquérito, a PEM afirmou que o Sr. Francisco Evangelista da Silva Filho, Mestre do B/P “CAIU DO CEU” deverá responder por imprudência, pois navegava e pescava em local não apropriado para o seu tipo de embarcação (mar aberto), por ter induzido o comandante da embarcação “ASSO VENTISSEI” a erro fazendo com que o mesmo alterasse seu rumo e colidisse com as redes, além de ter realizado uma marcação inadequada das redes de pesca mesmo sabendo se tratar de local de tráfego intenso de embarcações. Pediu que sua condenação às penas da Lei e ao pagamento das custas processuais e apontou infrações ao RLESTA cometidas por ele a serem oficiadas à Capitania dos Portos para as devidas providências.

A representação foi recebida na Sessão Ordinária de 08 de agosto de 2013, o representado foi citado pela via postal e apresentou contestação tempestiva, por meio de advogado particular devidamente constituído, na qual apresenta a tese de culpa de terceiro como excludente de sua própria culpa. Disse que “se um comandante de um rebocador de grande porte se deixar induzir ao erro por um pescador mestre de uma embarcação de 8,94m, só por esse fato o referido comandante é o responsável pelo acidente”. Afirmou também que as redes teriam sido lançadas paralelamente à terra entre as plataformas e se o comandante do rebocador em seu depoimento disse que deixara a plataforma “PESCADA 1A”, que estaria ao norte do acidente, em direção à plataforma “PUB 2”, que estaria a sul das redes e que se tivesse guinado 20º, como disse em seu depoimento, não poderia ter avistado a plataforma “PQB1”, como disse o Oficial de Náutica do rebocador.

Disse, por fim, que sua tripulação era de nível 2 e que sempre utilizara aquele tipo de sinalização sem incidentes. Sugeriu que fosse acareado com o comandante do rebocar e nada pediu. Juntou somente a procuração passa a seu advogado.

Aberta a instrução nenhuma prova foi produzida e em alegações finais somente a PEM se manifestou, reportando-se aos elementos dos autos.

É o relatório. Decide-se:

A acusação que pesa sobre o representado é que navegava e pescava em mar aberto, local não apropriado para o tipo de embarcação empregado, que teria induzido o comandante da embarcação “ASSO VENTISSEI” a erro fazendo com que o mesmo alterasse seu rumo e colidisse com as redes e de ter realizado uma marcação inadequada das redes de pesca mesmo sabendo se tratar de local de tráfego intenso de embarcações.

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===================================================================== Em uma defesa muito singela o representado refutou a acusação de que teria induzido o comandante do rebocador a erro, dizendo que só fato de ele ter se deixado induzir a erro por um mestre de barco de pesca miúdo já demonstraria sua culpa pelo evento e disse também que utilizava aquela marcação de redes há muito tempo e que não tinha tido problemas anteriormente. Disse, ademais, que o rumo que o rebocador teria traçado segundo o depoimento do oficial de náutica, passaria fora das redes, mas não apresentou nenhum croqui ou carta que comprovasse essa tese.

Desse modo, ficaram incontroversos o fato de que pescava fora da área de navegação para a qual sua embarcação estava preparada e que induzira a erro o oficial de náutica do rebocador ao determinar a guinada para um rumo que acabou por levá-lo a colidir com as redes. Seria, assim, responsável pela exposição a risco das vidas e fazendas de bordo e pela colisão.

Quanto à adequação da marcação das redes utilizadas pelo barco de pesca não há nos autos, quer no inquérito ou na representação feita pela Douta PEM, a informação de qual seria a forma correta de fazê-lo. Mesmo assim, só fato de o rebocador não ter sido capaz de localizar as redes no visual é evidência da falha na marcação que reforça a culpa do representado.

Assim, o acidente da navegação que aqui se caracterizou pela colisão de um rebocador de apoio marítimo com redes de pesca e o fato da navegação que aqui se caracterizou pela exposição das vidas e fazendas de uma embarcação miúda de pesca que trabalhava fora de sua área de navegação e que teve por consequência danos às redes, sem notícias de danos a pessoas ou de poluição teve sua causa determinante o erro de navegação do rebocador, induzido pela indicação errada do rumo a tomar passada pelo mestre do barco de pesca que o colocou em rumo de colisão com as redes.

Deve, assim, ser julgada procedente a representação para responsabilizar o representado, Sr. Francisco Evangelista da Silva Filho, tanto pelo acidente como pelo fato da navegação.

Assim,

ACORDAM os Juízes do Tribunal Marítimo, por unanimidade: a) quanto à natureza e extensão do acidente e do fato da navegação: colisão de rebocador de apoio marítimo com redes de pesca e exposição das vidas e fazendas de uma embarcação miúda de pesca que trabalhava fora de sua área de navegação, com danos às redes, sem notícias de danos a pessoas ou de poluição; b) quanto à causa determinante: erro de navegação do rebocador induzido pelo comandante do barco de pesca que o colocou em rumo de colisão com as redes; c) decisão: julgar o acidente constante do art. 14, alínea “a” (colisão) e o fato da navegação constante do art. 15, alínea “e” (exposição a risco) como decorrentes da imprudência e da negligência do

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representado, Sr. Francisco Evangelista da Silva Filho, condenando-o à pena de repreensão e ao pagamento das custas processuais, nos termos do art. 121, inc. I c/c art. 124, inc. IX, todos artigos da Lei nº 2.180/54; e d) medidas preventivas e de segurança: oficiar a Capitania dos Portos do Rio Grande do Norte cientificando-a do encerramento deste processo para que, nos termos do art. 33, parágrafo único, da Lei nº 9.537/97 (LESTA), possa aplicar à proprietária do B/P “CAIU DO CEU” as infrações ao Decreto nº 2.596/98 (RLESTA) encontradas durante o IAFN.

Publique-se. Comunique-se. Registre-se. Rio de Janeiro, RJ, em 06 de julho de 2016.

NELSON CAVALCANTE E SILVA FILHO Juiz-Relator

Cumpra-se o Acórdão, após o trânsito em julgado. Rio de Janeiro, RJ, em 07 de outubro de 2016.

MARCOS NUNES DE MIRANDA Vice-Almirante (RM1)

Juiz-Presidente

PEDRO COSTA MENEZES JUNIOR Diretor da Divisão Judiciária

AUTENTICADO DIGITALMENTE

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