Comunicação Organizacional: Indutora e Facilitadora da Comunicação Pública1
Valmiria A. Balbinot2 André da Silva Pereira3
Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, RS
Resumo: A comunicação é fundamental para a existência de qualquer organização, seja ela pública ou privada. O presente artigo objetiva discorrer sobre a complexidade da comunicação nas esferas governamentais, especificamente a comunicação organizacional e a comunicação pública. Busca-se demonstrar a importância da racionalização da comunicação, para o processo que se pretende cada vez mais democrático. O questionamento que baliza a pesquisa é: a comunicação organizacional pode auxiliar na promoção da comunicação pública e consequentemente da cidadania? O estudo aponta que a comunicação organizacional e a comunicação pública estão diretamente ligadas e que há possibilidades concretas de, juntas, promoverem a cidadania.
Palavras-chave: Cidadania; Comunicação Organizacional; Comunicação Pública.
1 Introdução
O presente artigo objetiva discorrer sobre a complexidade da comunicação nas esferas governamentais, especificamente a comunicação organizacional, para contribuir para uma melhor compreensão acerca dos conceitos e das práticas que envolvem a comunicação pública. Nesse sentido, é necessário entender que a comunicação é fundamental tanto para o exercício do poder quanto para a consolidação da cidadania.
Busca-se demonstrar como a racionalização da comunicação é fundamental para o processo que se pretende cada vez mais democrático. Além disso, acredita-se que os sistemas institucionais devam ser facilitadores da promoção da comunicação pública, proporcionando uma aceitação social ampla, bem como das próprias estruturas governamentais. Para tanto, faz-se necessário analisar a conectividade da comunicação organizacional com a comunicação pública, através de uma instância crítica em relação à notoriedade pública, suas funções críticas e manipuladoras, observando-se o fenômeno democrático das massas estatais-sociais, como garantidoras da comunicação pública, na qual o governo utiliza a opinião pública em conhecimento de sua política, ou seja, a opinião pública domina, porém não governa.
1 Trabalho apresentado no GP Comunicação Organizacional, XVI Encontro dos Grupos de Pesquisas em
Comunicação, evento componente do XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação.
2 Relações Públicas, Professora da Faculdade de Artes e Comunicação da Universidade de Passo Fundo; Mestre
em História. [email protected]
3 Economista .Dr. em Economia pela UFRGS, Prof. Titular 3 do PPGAdm/FEAC/UPF e pesquisador
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É fato que existe um pensamento ou um conjunto de ideias segundo as quais os sistemas econômicos, políticos, sociais e culturais podem ser interpretados como o resultado de uma multiplicidade de fatores ou concebidos como integrados de grupos autônomos. No entanto, são interdependentes e contribuem para que o direito à comunicação vincule-se ao exercício da cidadania, no sentido de ser um centro democrático e difusor de informações sem restrições políticas.
Também se vivencia uma crise paradoxal na relação entre a política e a sociedade, principalmente pela incerteza sobre a veracidade e a ética estabelecidas pelos governantes, difundidas pelos veículos de comunicação. Estudiosos teorizam soluções para os problemas que são apresentados à sociedade, sem, no entanto, se ater a situações práticas. É consenso entre alguns teóricos que a comunicação pública está diretamente ligada à democracia e, especificamente, ela tem o objetivo de promover a cidadania. Também, que se deve separar/diferenciar comunicação pública, comunicação política, comunicação governamental, comunicação mercadológica e comunicação institucional/organizacional. No entanto, no sistema vigente, cujos ambientes econômico, político e social estão inter-relacionados, não se pode realizar uma separação do aspecto comunicacional que trata de Cidadania, Governo e Estado. Assim, percebe-se uma produção, uma circulação e um consumo de verdades nas diversas práticas de enunciação.
Da mesma forma, observa-se que os atores sociais e políticos ficam enclausurados em seu sistema, impossibilitados de compreender a importância da comunicação, e, com isso, aguçam a certeza de improbabilidade comunicacional em várias esferas institucionais.
Considerando todos esses aspectos, o questionamento que baliza a pesquisa é o seguinte: a comunicação organizacional pode auxiliar na promoção da comunicação pública e, consequentemente, na cidadania?
2 Comunicação e Poder
A globalização e a comunicação atingem de forma direta o mundo da cultura. Os bens simbólicos (difundidos por meio de filmes, programas de TV e de rádio, livros, revistas e jornais) já não escapam a uma subordinação inapelável à nova prática econômica, alimentando – segundo alguns críticos – o imaginário da maior parte dos seres humanos de todas as raças, religiões e poder aquisitivo. Vive-se a “Era da Informação”, cuja base de tudo é o conhecimento. Segundo Soares, o que se verifica é que, “enquanto a evolução tecnológica garante a produção, armazenamento e difusão de informações, as relações econômicas e o
ideário neoliberal fixam os códigos que possibilitam o acesso à leitura e ao aproveitamento dos bens materiais e simbólicos” (1996 p. 11). Seus efeitos são inúmeros, sempre buscando garantir a legitimidade social. Os mecanismos da “Era da Informação” “são responsáveis pela criação e imposição a toda a sociedade do que o diretor da revista francesa Lê Monde Diplomatique, Ignácio Ramonet, designa como a ‘ditadura do pensamento único” (apud SOARES, 1996 p. 11). Descreve a doutrina do “pensamento único” como sendo constituída de uma “soma não muito volumosa de conceitos básicos, reproduzidos em uníssono e à exaustão pelos principais órgãos de informação do mundo [...] que alimentam simultaneamente os veículos massivos tanto do Hemisfério Norte como do Hemisfério Sul” (SOARES, 1996 p. 12).
Guareschi, ainda na década de 1990, apontava a comunicação não como o quarto, mas como o primeiro e mais forte dos poderes. Segundo ele, a comunicação constrói a realidade. “Num mundo permeado de comunicação, um mundo de sinais teleinformatizados, a única realidade passa ser a representação da realidade – um mundo simbólico imaterial”, e complementa que, “quem detém a comunicação, detém o poder.” (GUARESCHI, 1990, p. 14). Se a comunicação ‘constrói a realidade, quem detém a construção da realidade detém também o poder sobre a existência das coisas, sobre a difusão das ideias e sobre a criação da opinião pública. A comunicação constrói identidades pessoas ou sociedades.
Sobre poder, Bobbio (1986) fala que, em seu significado mais abrangente, designa a capacidade ou a possibilidade de agir e ou de produzir efeito sobre algo/alguém. Bobbio (1986) também faz referência ao poder social e apresenta-o como a capacidade de o homem interferir na vida do homem em sociedade e a capacidade de determinar o comportamento do homem. O homem não é só o sujeito do poder, como é o seu objeto. O poder social não consiste em algo material, mas de uma relação entre pessoas. Logo, existe o poder se houver, de um lado, indivíduo(s) que é induzido a comportar-se ou a agir como outro indivíduo deseja, e, do outro, se houver indivíduo tentando interferir no comportamento do outro. A comunicação é a base de todas as relações e os veículos de comunicação otimizam essas relações.
Diante desse contexto, está evidente que a comunicação está ligada à política, circula observando e integrando espaços e instâncias que possuem interesses divergentes, e, como se vive num momento com liberdade de expressão, tal área tem condições e autonomia para, de maneira direta/indireta, “eleger” governos ou destituí-los. Pela sua capacidade de atuar em
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várias áreas e momentos, institui-se num poder que muitas vezes é político, mas se coloca à margem da história política.
3 Comunicação Organizacional e Comunicação Pública
Cabe também dizer que a comunicação é um fenômeno fundamental na sociedade, uma vez que se está diante de um processo evolutivo e contínuo. Em épocas remotas, o homem tentava comunicar-se através de gestos, ruídos, etc., mas foi através da fala que a comunicação ganhou grande expressão, e não parou por aí. O homem, usando sua inteligência, criou formas e técnicas para facilitar esse processo de comunicação, dentre as quais se podem citar a linguagem, a escrita, o telégrafo, o jornal, o rádio, a televisão, a Internet, como fórmulas revolucionárias de comunicação pessoal e organizacional.
Assim, hoje quando se aborda a comunicação organizacional, seu conceito ainda tem suscitado discussões entre estudiosos. No entanto, é pacífico que ela abrange todas as formas que a organização utiliza para se relacionar e para interagir com seus públicos.
Kunsch (2012) e Torquato (2003) apresentam-se como destaque dentre os autores brasileiros, constituindo-se como referências dos estudos de comunicação organizacional. Suas obras têm sido marcadas por uma preocupação constante em estabelecer a abrangência do seu campo de atuação, bem como atribuir-lhe a posição estratégica no espaço organizacional
Abordando o tema comunicação organizacional e comunicação pública, Kunsch assevera:
Ao me referir a uma ‘comunicação organizacional’, considero primeiro que ela abrange todos os tipos de organizações – públicas, privadas ou do terceiro setor. Ela lida com tudo que está implicado no contexto comunicacional das organizações: redes, fluxos, processos etc. Então, há que se entender a comunicação organizacional, sobretudo, como parte integrante na natureza das organizações. Trata-se de um fenômeno que acontece dentro das organizações e pode ser estudado de diversas maneiras (2012, p. 21).
Complementa a autora, ao abordar o termo “comunicação organizacional integrada”, que sua preocupação é “mostrar como as organizações estabelecem relações confiantes, por meio de suas manifestações, que podem ser com fins internos, fins institucionais e fins mercadológicos”. Afirma também que, “se pensarmos a comunicação nas organizações de forma abrangente e holística, temos de nos preocupar com uma sinergia de propósitos e ações”. Ainda segundo a autora, as “ações comunicativas precisam ser guiadas por uma
filosofia e uma política de comunicação integrada que levem em conta as demandas, os interesses e as expectativas dos públicos e da sociedade. E a comunicação pública certamente tem muito a ver com tudo isso” (KUNSCH, 2012, p. 22).
Contudo, a comunicação na área pública é reconhecidamente um direito de cidadania, como diz Kunsch:
[...] a razão de ser do serviço público são o cidadão e a sociedade, deve-se avaliar se os órgãos públicos têm dedicado à comunicação a importância que ela merece como meio de interlocução com esses atores sociais e em defesa da própria cidadania. É importante lembrar que cidadania se refere aos direitos e às obrigações nas relações entre o Estado e cidadão. Falar em cidadania implica recorrer a aspectos ligados a justiça, direitos, inclusão social, vida digna para as pessoas, respeito aos outros, coletividade e causa pública no âmbito de um Estado-nação (2012, p. 15).
Ainda a autora afirma que a comunicação pública abrange um conceito complexo, o qual permite “[...] múltiplas abordagens teóricas e reflexões sobre sua prática nas diferentes perspectivas do campo comunicacional”. Portanto, cabe observar quatro concepções básicas: comunicação estatal; comunicação da sociedade civil organizada que atua na esfera pública em defesa da coletividade; comunicação institucional dos órgãos públicos, para promoção de imagem, dos serviços e das realizações do governo; e comunicação política, com foco mais nos partidos políticos e nas eleições (KUNSCH, 2012, p. 17).
Pode-se dizer que, vinculada às concepções básicas apontas por Kunsch, está também a imagem pública, a qual é apontada por Weber como um “conceito híbrido”, permeada de “visibilidades e segredos”, marcada por disputas e por conflitos em nome do poder entre o “campo político, medias e sociedade” (2009, p. 11-12). A autora também afirma que
Os processos de construção e avaliação da imagem pública têm ampliado a dependência da política e seus atores a estruturas e profissionais. Estes têm a seu dispor tecnologias e meios que podem operacionalizar estratégias capazes traduzir discursos e ações da burocracia estatal, dos modos de governar e dos partidos. Para, além disso, provocar repercussões junto a públicos específicos e, principalmente, obter nacos de visibilidade nos diversos medias. Os fatos e atores da política, vistos e ouvidos, obedecem a perspectivas que podem alternar a visibilidade e o segredo, definir a opinião sobre a política, ampliar ou desviar o foco sobre verdades e controlar o impacto de decisões (WEBER, 2009, p. 11-12).
Nessa linha de argumentação, Mainieri e Ribeiro (2012, p. 3) comentam que a comunicação pública tem mais de um significado e que seu estudo ainda demanda pesquisas, sobretudo no Brasil. Porém, em diretrizes gerais, é possível inferir que o intuito precípuo da
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comunicação pública é transmitir informação de interesse público aos cidadãos, o que se constitui em passo inicial para estabelecer um diálogo e uma relação entre Estado e sociedade. Cabe pontuar que toda e qualquer informação referente a instituições, a serviços e a contas públicas é um direito assegurado ao cidadão. Quando a comunicação pública cumpre seu primeiro papel, que é informativo, abre espaço para que exista diálogo e participação recíproca.
A própria transformação social implica uma adaptação do sistema em que se vive, pois a evolução em todas as áreas da sociedade implica em mudança e de adequação. Dessa forma, os interesses vinculados unicamente a manutenção do poder, utilizando-se da comunicação, direcionados a causar repercussões por meio de informações com este fim, precisam ceder lugar para a comunicação de interesse público.
A mídia também utiliza a visibilidade como uma forma de controle e, consequentemente, de poder. Thompson (2005, p. 121-133) fala sobre a importância deste controle da mídia aos donos do poder através da informação visível entregue à sociedade das mais variadas formas. Afirma que, antes do desenvolvimento dos meios midiáticos, os governantes políticos podiam geralmente restringir a própria visibilidade a círculos mais fechados, e, que, ao longo dos anos de 1800 e 1900, a tarefa de administrar a visibilidade dos líderes políticos através da mídia assumiu uma importância ainda maior, pois as restrições quanto à visibilidade já não eram mais tão fáceis de controlar. O autor ainda faz ressalvas quanto a abusos da mídia que podem gerar grandes problemas, mas que, apesar disso, este crescimento da visibilidade “representa um significativo desenvolvimento histórico, não somente para os líderes políticos [...], mas também para os receptores que agora são capazes de ver e experimentar ações e eventos como nunca foi possível anteriormente” (THOMPSON, 2005, p. 133).
Existem inúmeras formas de poder, mas Thompson (2005, p. 25) definiu quatro formas em relação aos recursos dos quais dependem tipicamente e às instituições paradigmáticas em que eles se concentram. Segundo o autor, são elas: poder econômico: através dos recursos materiais e financeiros (ex. empresas comerciais); poder político: através da autoridade (ex. estados); poder coercitivo (especialmente poder militar): através da força física e armada (ex. militares, polícia, instituições carcerárias, etc.); e poder simbólico: através dos meios de informação e comunicação (ex. indústrias da mídia).
Quanto à comunicação pública, Duarte apresenta que é um conceito que está em construção. Porém, “a Comunicação Pública é um conceito que tem origem na noção de comunicação governamental. A raiz da evolução está na viabilização da democracia e na
transformação do perfil da sociedade brasileira a partir da década de 1980” (2012, p. 1). O autor discute o tema levantando questões pertinentes a comunicação política e a política comunicacional, quando se trata de comunicação pública. Ou seja, o poder resiste em admitir sugestões ou mudanças, que podem ser entendidas como intromissões inoportunas.
Entende Zémor sobre o assunto que
É necessário separar a comunicação institucional e a comunicação política, mas o respeito a tais fronteiras implica, na prática, em várias dificuldades. Os dois principais obstáculos são a gestão tecnocrática e o desvio ‘político’. O ‘político’ tem legitimidade para gerir o serviço público mas é preciso que as preocupações pessoais e partidárias, geralmente ligadas à conquista do poder ou à modificação das regras de exercício do poder, não interfiram sobre a condução institucional e cotidiana do serviço público, onde as regras fixadas necessitam ter uma certa estabilidade. Da mesma maneira, a comunicação política precisa ser diferenciada da comunicação pública, ainda que, na prática, muitas vezes esteja identificada na comunicação institucional feita pelos responsáveis políticos e pelos eleitos e que é normalmente realizada pelas assessorias de comunicação dos órgãos do governo (1995, p. 4).
Weber defende que “a comunicação pública não pode ser determinada, apenas, a partir de legislação ou estruturas, mas é configurada pela circulação de temas de interesse público, nos modos de debater e repercutir estes temas, sem controle direto [...]”. Portanto, “[...] trata-se da comunicação pública constituída pela abordagem e circulação de temas vitais à sociedade, ao Estado e à política, vinculados a decisões só possíveis na representação política e na esfera dos poderes públicos” (2007, p. 24).
Ainda sobre comunicação Pública Weber coloca:
A comunicação pública está vinculada à difusão e ao debate em torno de temas de interesse público, temas de interesse vital para o Estado, a política, a sociedade, os indivíduos e, como tal, possuem capacidade para tensionar e repercutir posicionamentos e exigir respostas. Pode-se concluir que: Seja na modalidade informativa, persuasiva, institucional ou na hibridação destas, esse tensionamento depende da argumentação necessária para saber, denunciar, justificar, defender, promover atores em lugares de poder, por representação (eleitos ou indicados), legitimidade (competência e reconhecimento). São eles os ordenadores da valoração de fatos num continuum no qual a contestação e apoio se alternam, dependendo dos interesses em jogo. Assim são borrados os limites entre interesses públicos e interesses privados, entre poderes maiores ou menores. O que importa é obter credibilidade intimamente associada à disputa da verdade, à escolha das versões mais convenientes que concorrem para a construção das opiniões individuais e da opinião pública. Como decorrência, a imagem pública desejada pelos atores da cena político-midiática será conformada no âmbito da recepção e sem fidelidade, está em permanente (des)construção devido às mediações, vivências e ao confronto de versões (2007, p. 24).
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realizada pelas organizações. E, é nesse sentido que se situa a comunicação pública identificada com a comunicação organizacional, que, segundo Brandão (2006, p. 1-2), dentre as suas principais características, centra-se o tratamento da comunicação de forma estratégica, planejada, com o objetivo de viabilizar um relacionamento com os diversos públicos, construindo uma identidade e uma imagem das instituições, independentemente do caráter público ou privado. Conforme Kunsch,
[...] uma comunicação organizacional [...] abrange todos os tipos de organizações – públicas, privadas ou do terceiro setor. Ela lida com tudo que está implicado no contexto comunicacional das organizações: redes, fluxos, processos etc. Então, há que se entender a comunicação organizacional, sobretudo, como parte integrante na natureza das organizações. Trata-se de um fenômeno que acontece dentro das organizações e pode ser estudado de diversas maneiras. Em todo esse contexto da comunicação pública, pode-se perceber que a comunicação organizacional está presente. Além de todos os aspectos mencionados (processo, redes, fluxos etc.), a comunicação organizacional se manifesta, na prática, por meio de diferentes modalidades, formando esse mix que chamo de comunicação integrada (2012, p. 21).
Seguindo o mesmo raciocínio, sobre comunicação organizacional, Oliveira argumenta que “[...] no contexto atual, demanda integração com a comunicação pública, de forma a estabelecer uma política de comunicação global que entrelace os interesses das organizações com os da sociedade” (2012, p. 33).
A propósito, Duarte alerta que a comunicação pública não abrange apenas informação. Complementando, o autor diz que é essencial possibilitar ao cidadão o conhecimento da informação que lhe diz respeito,
[...] inclusive aquela que não busca por não saber que existe, à possibilidade de expressar suas posições com a certeza de que será ouvido com interesse e a perspectiva de participar ativamente [...]. Na prática, isso inclui o estímulo a ser protagonista naquilo que lhe diz respeito, ter conhecimento de seus direitos, a orientação e o atendimento [...]. A viabilização da comunicação exige informação, mas também credibilidade dos interlocutores, meios e instrumentos adequados, valorização do conhecimento dos sujeitos, facilidade de acesso e uma pedagogia voltada para quem possui mais dificuldades (2009, apud GERZSON; MÜLLER, 2009, p. 64).
Logo, a partir desse cenário, observa-se a relação entre a Comunicação Pública e a Comunicação Organizacional. A primeira busca promover a conscientização do cidadão do seu papel como ator social, a partir das informações e das trocas. A Comunicação Organizacional dos órgãos públicos surge com o papel de efetivar as ações práticas, propostas pela Comunicação Pública. Através de planejamentos de campanhas específicas, os
responsáveis pela comunicação organizacional dos órgãos públicos viabilizam, na prática, as políticas sociais, tais como campanha de saúde pública, participação popular...
É fato que a evolução tecnológica e social tem transformado os processos de relacionamento, contribuindo para viabilizar as melhorias na vida da população. Nesse contexto, também a Comunicação Organizacional vem ao encontro, no sentido de refletir sobre os métodos e instrumentos que serão utilizados, para oportunizar as demandas comunicativas dos órgãos públicos, os quais devem ser concretizados na mesma dinâmica que as transformações sociais exigem.
Assim, a partir da autocompreensão, tem-se a possibilidade de observar quais são os elementos necessários para a contraposição do paradoxo de interesses da relação comunicacional. Cabe, todavia, verificar a realidade das democracias sociais de massas instituídas pelo poder público, visando a estabelecer um imaginário da opinião pública, sem identificar a forma comportamental de seus atores.
4 Comunicação Organizacional, Comunicação Pública Poder e Opinião Pública
É de se observar que a opinião pública é o veículo condutor da comunicação, trazendo ao governo seus desejos ou sendo utilizada por ele para demonstrar sua política. No processo comunicacional, o público se equivale com o sujeito da opinião pública no paralelo, em que os meios de massa e, consequentemente, grupo social, possuem uma relação de reciprocidade entre os atores sociais. Assim, o processo de tomada de decisões está relacionado com a manipulação do poder político em relacionar a doutrina política e a sua estrutura diante da opinião pública.
Nessa linha de análise e mediante a importância das interações diretas,
[...] quaisquer instituições, ao lidar com o interesse público, devem fazer esforços para se adaptar às carências do cidadão, criando mecanismos adequados para diferentes situações. Esta é a principal validade da aplicação da comunicação dirigida, pois possibilita a criação de instrumentos de comunicação planejados de acordo com a especificidade de cada público, ampliando o entendimento na recepção da mensagem. [...] Embora a dimensão do trabalho de comunicação na área pública não tenha a pretensão de resolver todos os problemas, a comunicação pode ser fonte de esperança, de pequenas soluções diárias que por vezes interferem intensamente na vida dos cidadãos que solicitam atenção, esperam por atendimento personalizado e informações corretas e atualizadas. Alternativas para o aprimoramento da comunicação pública são tendências crescentes da sociedade globalizada em função das exigências cada vez maiores da população e da necessidade das organizações públicas de reverterem a imagem de improvisação, burocracia e descaso que lhes acompanhou durante as últimas décadas (GERZSON; MÜLLER, 2009, p. 65-67).
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Acompanhando a colocação dos autores, observa-se que a comunicação pública concretiza-se em um universo que envolve os fluxos de informação e de interação entre os agentes públicos e os atores sociais, dentre os quais o governo, o Estado e a sociedade civil, quando há temas de interesse público (COSTA, 2011, p. 15-16).
Complementando a explicação, para Duarte, a comunicação pública
[...] trata de compartilhamento, negociação, conflitos e acordos na busca do atendimento de interesses referentes a temas de relevância coletiva [...] ocupa-se da viabilização do direito social coletivo e individual ao diálogo, à informação e expressão. Assim, fazer comunicação pública é assumir a perspectiva cidadã na comunicação envolvendo temas de interesse coletivo (2010, apud COSTA, 2011, p. 15-16).
Na concepção de Bordenave, a denominada comunicação pública é assim conceituada devido à necessidade contemporânea de informar a sociedade quanto aos temas que abrangem o interesse coletivo, pois “[...] é uma necessidade básica da pessoa humana, do homem social” (2006, apud COSTA, 2011, p. 15-16).
Portanto, identifica-se que a comunicação pública está vinculada ao interesse público, tanto que a Constituição Federal expressa que o acesso à informação é um direito do cidadão, bem como à livre manifestação do pensamento (artigo 5º, incisos IV e XIV). Disso se depreende que somente com o acesso à informação é possível formular uma opinião e participar de temas de interesse social em um Estado Democrático. Melhor dizendo, a democracia depende da informação, depende do pensamento livre, do respeito à opinião do outro.
Weber corrobora com esse pensamento quando afirma:
A comunicação dos Estados democráticos é um dos dispositivos essenciais aos modos de governar, legislar e julgar, assim como as mídias são balizadoras dessa comunicação. A capacidade de comunicação dos poderes executivo, legislativo e judiciário obedece a estratégias políticas e institucionais relacionadas à obtenção de visibilidade pública, prestação de contas e disputas de opinião, apoio e votos. Essa comunicação de Estado, política, pública, institucional – integraliza e disputa versões sobre os fatos políticos cobertos pela comunicação midiática (WEBER, 2011, p. 102).
As colocações da autora buscam demonstrar que a informação em determinados universos que têm relação com o poder, Legislativo, Executivo, Judiciário, por exemplo, depende de profissionais, expertises, que possam, através de tecnologias, mediar os discursos
desses órgãos, de forma que repercuta corretamente e seja assimilada de forma compreensível pela coletividade.
Como diz Costa,
[...] a comunicação pública, o segmento que, atuando sob diferentes instâncias, apoiada em instrumentos distintos e usando diversas estratégias, tem como principal contribuição a relação dialógica a ser desenvolvida entre cidadão e Estado, concebida como um meio de possibilitar o encaminhamento democrático (e objetivando melhores resultados) de questões que envolvam o interesse público. Por sua vez, a comunicação pública identificada como comunicação do Estado e/ou governamental deve ser entendida como a forma de um governo prestar contas de suas ações para a população, bem como levar ao conhecimento dos cidadãos a realização de políticas, atividades e projetos de interesse público. Já no caso da comunicação pública identificada como comunicação política, a autora aponta para o sentido mais conhecido da expressão comunicação pública – neste caso, abrangendo tanto o debate político quanto as discussões a respeito do chamado Direito da Comunicação (2011, p. 17-18).
Complementando, SchererWarren apresenta que “a ampliação dos direitos de cidadania relaciona-se, na atualidade, com os processos de democratização da sociedade, o que nos leva a entender que o processo de democratização também deve influenciar as políticas de comunicação organizacional, tendo em vista uma nova percepção dos indivíduos e grupos sociais na sociedade.” (1999, apud OLIVEIRA, 2012, p. 41).
Dentro de todo esse contexto, percebe-se que a Comunicação Organizacional está diretamente ligada à Comunicação Pública, pois, a partir das filosofias da primeira e da segunda, esta tem possibilidade de viabilizar concretamente as ações para promoção da cidadania e da própria democracia.
5 Considerações Finais
A comunicação é fundamental para a existência de qualquer organização, seja ela pública ou privada. No entanto, percebe-se, acerca do tema, que existe muito estudo mas pouca aplicabilidade prática, de forma estratégica.
Acredita-se que os sistemas institucionais devam ser facilitadores da promoção da comunicação pública, proporcionando uma aceitação social ampla, bem como das próprias estruturas governamentais.
É fato que comunicação pública é fundamental tanto para o exercício do poder quanto para a consolidação da cidadania. Porém, sua base de ação fundamenta-se mais especificamente nas informações.
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No entanto, quando se pretende promover a cidadania e contribuir para a democracia, é necessário muito mais que repassar, transmitir informações. Há necessidade de ações de sensibilização, e de preparo dos cidadãos para receberem e refletirem sobre as informações, para que possam realmente ser “atores” sociais. Nesse sentido, é fundamental a apropriação pública de técnicas e de tecnologias de comunicação, como forma de criar planejamentos e efetivar objetivos que venham a mobilizar as comunidades, através de um processo comunicativo.
A esse respeito, acredita-se existir uma possibilidade real de fusão entre Comunicação Pública e Comunicação Organizacional, pois esta se torna facilitadora daquela.
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