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Fatores de risco e proteção para o uso de drogas

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Academic year: 2021

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Fatores de risco e proteção para o uso de drogas

Daniela Bentes de Freitas1

Em junho de 2015 um grupo de adolescentes e jovens estagiários de ensino médio do Ministério Público do Estado de Rondônia colaborou para a realização de uma pesquisa2, colhendo informações através de 6073 (seiscentos e sete) questionários.

O CAOP-INF buscou, através deste instrumento, de preenchimento pessoal e anônimo, elencar questões importantes, relacionadas a alguns dos fatores de risco e proteção para o uso de drogas.

1) Resultados da pesquisa.

A maioria dos entrevistados foi do sexo feminino (56%) e tem 17 anos (55%). O total de adolescentes, ou seja, menores de 18 anos, corresponde a 93% do público avaliado, representando, portanto, o perfil predominante da pesquisa.

No eixo Convivência Familiar, verificou-se que a maioria dos entrevistados (57%) mora com as duas figuras parentais. Quanto à qualidade do relacionamento, o resultado da avaliação foi satisfatório com o pai, sendo 50% ótimo e 23% bom; e com a mãe, sendo 71% ótimo e 23% bom. Observa-se, portanto, a prevalência de melhor relacionamento com a figura materna (94%) sobre a figura paterna (73%).

1 Psicóloga

2

Vinculada ao Projeto Juventude Saudável, que integrou as ações referentes à Semana Nacional de Políticas sobre Drogas e ao Dia Internacional da Juventude.

3 460 (quatrocentos e sessenta) são de Porto Velho e 147 (cento e quarenta e sete) dos municípios do

interior do Estado, sendo 40 (quarenta) de Jaru, 20 (vinte) de São Francisco do Guaporé, 20 (vinte) de Costa Marques, 21 (vinte e um) de Espigão do Oeste, 20 (vinte) de Presidente Médici, 26 (vinte e seis) de Machadinho do Oeste.

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2/7 No item que avaliou o relacionamento entre os pais, verificou-se que 15% apresentam-se prejudicados, quando os pais não se falam ou quando mantêm um contato considerado péssimo, de brigas.

Observou-se ainda que 36 (trinta e seis) adolescentes não têm o nome do pai na certidão de nascimento.

No que se refere à ocorrência de violência na infância, 11% dos entrevistados declararam terem sido vítimas, sendo a maior incidência em tipo de violência física e psicológica.

Quanto à religião, 80% declararam doutrina cristã, sendo 42% evangélica e 38% católica; 9% citaram não terem religião. Dos que declaram ter uma religião, 71% afirmaram participar de atividades vinculadas a sua religião com alguma frequência.

O eixo Uso de Substâncias indicou que 45% dos entrevistados já experimentaram algum tipo de substância psicoativa, sendo: 38% de experimentação de bebida alcoólica; 15% de cigarro; 16% de narguile; 10% de maconha; 9% de sedativos; 4% de alucinógenos; 4% de inalantes; 2% de estimulantes e 2% de cocaína, na forma pó ou pedra (crack).

Destaca-se que a experimentação do narguile somada à do cigarro representa 31% de experimentação do tabaco.

Com relação à frequência de uso de substâncias psicoativas, foram identificados 99 (noventa e nove) registros de uso regular, dos quais: 58 (cinquenta e oito) ocorrências de uso semanal – sendo 32 (trinta e dois) de bebida alcoólica, 6 (seis) de cigarro, 4 (quatro) de maconha, 4 (quatro) de sedativos, 3 (três) de inalantes, 3 (três) de alucinógenos, 2 (dois) de narguile, 2 (dois) de crack, 1 (um) de cocaína e 1 (um) de estimulantes e 41 (quarenta e uma) ocorrências de uso diário – sendo 2 (duas) de bebida alcoólica, 10 (dez) de narguile, 6 (seis) de maconha, 5 (cinco) de cigarro, 3 (três) de inalantes e um de cocaína.

No que se refere à experimentação precoce de substâncias lícitas/socialmente aceitas, verificou-se que a maioria, representada em 55% no caso da bebida alcoólica e 63% no caso do cigarro, experimentou a substância através do convite de amigos.

Há, no entanto, situações em que familiares ofereceram para experimentar, identificando-se 33% no caso da bebida alcoólica e 16% no caso do cigarro.

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Da amostra, 38% dos pesquisados confirmaram manter o consumo atual da bebida alcoólica e 9% destes declaram que tiveram problemas, nos últimos três meses, em virtude do uso desta substância, por uma ou duas vezes.

Quanto ao tipo de bebida, as de maior incidência foram: cerveja (17%), ice (13%), vodka (13%) e vinho (12%).

Apesar de ser proibida a venda de bebida alcoólica para adolescentes, 55% dos pesquisados declararam ter comprado para uso pessoal ou para outra pessoa, indicando o descumprimento da lei nos estabelecimentos comerciais como: bares (24%), supermercados (20%), mercearias (15%) e postos de gasolina (12%). As bebidas também são adquiridas de forma ilegal em festas (23%).

Com relação ao cigarro, também foram identificadas compras da substância por 42% da demanda pesquisada, destacando-se as mercearias (28%) e bares (25%) como locais de maior ilegalidade.

2) Considerações sobre fatores de risco e proteção.

Fatores de risco indicam situações que, em sua essência, têm o potencial de favorecer o comportamento inadequado, no entanto, isoladamente, não representam um sistema de causa e efeito.

Pode-se, no entanto, destacar que comportamentos inapropriados, como o consumo de substâncias psicoativas causadoras de prejuízos no âmbito da saúde física e mental, são motivados por múltiplos fatores, dependendo principalmente da personalidade de cada um, de sua individualidade, de sua forma de sentir e perceber as relações com outras pessoas, de acordo com as experiências vivenciadas, em especial, na infância, com seus pais ou responsáveis.

A importância de seidentificar os fatores de risco existentes se dá como uma possibilidade de promover a prevenção, intervindo no aspecto negativo para transformá-lo em positivo, ou seja, protetivo.

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4/7 Sendo assim o aspecto avaliado pode ser um fator de risco ou proteção, dependendo da qualidade em que se apresenta na vida de cada pessoa.

Os principais eixos que representam proteção ou risco são: personalidade, família, grupo, escola, religiosidade/espiritualidade e meio social/político.

2.1) A figura paterna

A figura paterna, representada predominantemente através da postura de imposição de regras e limites, tem sido estudada por especialistas que apontam como um importante fator de proteção, quando o pai é presente de forma afetiva e efetiva, ou de risco, quando não há o reconhecimento da paternidade, ou quando o pai não mantém contato e/ou se mantém omisso e negligente em sua participação na vida do filho.

Na ausência do pai biológico, outras pessoas podem assumir este papel, na própria família ou fora dela, como no caso de padrinhos afetivos.

No entanto, cabe destacar que os estudiosos de abordagens familiares sistêmicas têm defendido que, mesmo em situações em que há esta tentativa de substituição, a ausência do pai biológico, evidenciada, inclusive, através da negação de um registro de paternidade, pode trazer prejuízos emocionais a curto, médio e longo prazo.

O psiquiatra alemão Bert Hellinger diz que o uso de drogas acontece quando falta algo ou alguém na vida de uma pessoa e afirma que, geralmente, quem falta é o pai.

Neste mesmo sentido, órgãos que compõem o Sistema de Garantia de Direitos como o Ministério Público, Tribunal de Justiça e Defensoria Pública têm realizado campanhas e intervenções diretas incentivando o reconhecimento de paternidade, garantindo este direito constitucional.

O reconhecimento da paternidade pode não estar diretamente relacionado à garantia de um vínculo afetivo, mas pode promover no filho um fortalecimento de sua identidade, através do conhecimento de sua origem biológica e de seus antepassados paternos, ou seja, de parte de suas raízes.

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Além do espaço em branco no registro, o pai também pode se ausentar de forma afetiva, seja por iniciativa, quando provavelmente ele também não construiu relações amorosas com seu pai, e daí não valoriza o próprio filho, ou quando a mãe da criança promove este distanciamento físico e afetivo, através de atitudes de alienação parental e, diante do rompimento de uma relação permeada por mágoa, a mãe afasta o pai do filho, excluindo-o dessa relação e desvalorizando-o em seu papel.

Destaca-se que o filho é metade sua mãe e metade seu pai, realidade genética que é permeada por emaranhados psíquicos que precisam ser cuidados e respeitados.

É importante o esclarecimento e sensibilização aos jovens sobre suas responsabilidades na geração de um novo ser, orientando-os para a manutenção de um diálogo saudável com o outro genitor, superando as decepções pessoais, independente de estarem juntos ou não enquanto casal.

2.2) Religiosidade/Espiritualidade

A religiosidade ou espiritualidade é considerada um fator de proteção, não só por seus direcionamentos a condutas morais, mas também por promover a união de adolescentes em grupos, que representam forte influência nesta fase de desenvolvimento.

A Doutora em Psicologia Luciana Fernandes Marques, pesquisadora deste tema, destaca que religiosidade/espiritualidade serve como um guia que pode ajudar o adolescente em suas escolhas, no desenvolvimento da autoimagem e nos projetos de futuro.

O eixo espiritual se fortalece como um fator de proteção quando estimula os seres humanos a se tornarem melhores consigo mesmos, incentivando-os a autorresponsabilidade na promoção de uma vida saudável e feliz, bem como no respeito às diferenças e ao bem-estar social e ambiental.

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2.3) Consumo precoce de substâncias

É certo, e evidenciou-se no levantamento realizado, que nem todos que experimentam a bebida alcoólica permanecem no uso e nem todos que fazem uso frequente apresentam problemas sociais, de saúde e/ou dependência.

No entanto, cabe destacar que o consumo precoce de substâncias como bebida alcoólica e tabaco (legalmente comercializadas), além de ter a venda proibida para crianças e adolescentes, é um fator de risco, considerado “gateway drug”4

para as demais substâncias.

O consumo da bebida alcoólica na adolescência ocorre basicamente pela influência do grupo, característica que faz parte da “síndrome normal da adolescência”. No entanto, verificou-se também que não só os amigos influenciam através da primeira experimentação, mas alguns familiares também.

É possível que isso ocorra em virtude da permissividade do padrão de consumo desta substância, socialmente incentivada, presente em diversos ambientes sociais e muito relacionada a ilusão de “estar bem”, “relaxado” e “feliz”.

As leis, enquanto meio político de transformação social, têm avançado, ainda que de forma tímida, na ênfase dos aspectos negativos relacionados ao consumo da bebida alcoólica, como cabe citar a Lei Federal 11.705/2008, que inibe o consumo de bebida alcoólica por condutor de veículo automotor.

Reconhecendo os riscos inerentes ao consumo precoce e aos malefícios causados na fase de desenvolvimento da criança e do adolescente, entende-se a necessidade de serem realizadas campanhas de conscientização e de fortalecimento da fiscalização para o cumprimento da Lei Federal 13.106/2015, que torna crime vender, fornecer, servir, ministrar ou entregar bebida alcoólica a criança ou a adolescente, lembrando ainda que, conforme a pesquisa evidenciou, a bebida alcoólica é a principal droga experimentada e de fácil acesso, através da compra irregular em festas, bares, supermercados, dentre outros estabelecimentos.

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A lei, simplesmente, não é capaz de inibir totalmente o consumo precoce de substâncias. Cabe ainda ampliar a reflexão acerca da responsabilidade dos pais, enquanto modelo a ser seguido pelos filhos. Sendo assim, pais que querem ter filhos saudáveis devem se esforçar para terem hábitos saudáveis.

3) O Contexto

Fatores de risco exercerão maior ou menor influência na vida dos adolescentes, de acordo com o contexto em que são vivenciados e do sentido que cada um dá aos fatos, com base na sua personalidade e na sociedade em que está inserido. Além disso, leva-se em consideração também o tempo de exposição à situação de risco, bem como a existência de fatores de proteção associados.

Apesar de não existir uma causalidade entre fatores de risco e o uso de drogas, a correlação estatística é sugestiva, quando se analisa o perfil de adolescentes envolvidos com a prática de atos infracionais, pois este público costuma ser frequente consumidor ou dependente de substâncias psicoativas e apresenta, em geral, em suas histórias de vida, as situações de risco que favorecem estes comportamentos negativos.

Os fatores de proteção, por sua vez, não representam a garantia de um super poder que proporcione a imunidade diante de uma situação de adversidade, mas são capazes de diminuir os impactos dos fatores de risco, estabelecer e manter a autoestima e autoeficácia.

Os processos protetivos têm função de fortalecer a resiliência na vida das pessoas, ou seja, auxiliá-las na recuperação psicológica dos impactos de uma situação-problema.

Em se tratando de proteção, verifica-se coerente citar o psiquiatra e educador Içami Tiba que esclarece dizendo: “Quem é feliz não usa drogas”. Cabe a todos, portanto, em seu contexto familiar, social e profissional, vivenciar e promover fatores de proteção, facilitadores de seres humanos mais resilientes e mais felizes, ou seja, protagonistas de uma sociedade melhor.

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