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A competitividade nas eleições municipais no Brasil

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Academic year: 2021

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A competitividade nas eleições municipais no Brasil

Maurício Oliveira Chaves Vinicius Ventura e Silva Juwer

INTRODUÇÃO

Há algum tempo é colocado em “check” a eficiência dos sistemas representativos da democracia contemporânea, o que por sua vez, nos permite cada vez mais ouvir falar em alternativas a esses modelos de representação, tal como a idéia de democracia direta. O que, no entanto, constitui-se como elemento fundamental desse debate é a dimensão territorial desses sistemas – vide os próprios cargos políticos e o modo de organização do sistema em si, capaz de realizar distintos recortes territoriais. Ainda assim, diante dessa dimensão territorial dos sistemas de representação, encontramos uma certa letargia no que tange à produção de material a cerca de tal questão.

Acreditando na capacidade da geografia contribuir com tal temática, iniciamos nosso trabalho, ainda em fase inicial de desenvolvimento, com uma análise dos dados obtidos através do TRE acerca das eleições de 2008, nessa análise de dados tornou-se necessária uma fundamentação teórica do processo de eleição no Brasil, mais precisamente a cerca da representatividade política, tudo isso com o fim de fazer da análise dos dados algo que se tornasse mais fluída e capaz de gerar questões de relevância ao desenvolvimento da pesquisa.

Para tanto, tomamos como princípio da fundamentação teórica o seguinte fato acerca das eleições; As eleições municipais – assim como toda eleição – contribui para colocar em contato, constituídos e constituintes, numa relação quase que contratual na qual os primeiros se tornam constituídos de poder pela ação – voto – de seus representados. Dessa forma, é, portanto, de fundamental importância destacar o valor da questão da representação, já que através da representação, o social e o político se congregam, tomam forma e/ou se expressam nos interesses devidamente territorializados.

Entretanto, inserido nesse processo de eleição de representantes, encontramos um elemento de destaque, o qual primeiramente, diante dos dados da pesquisa inicial nos chamou

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a atenção, a competitividade eleitoral. Uma análise parcial da situação da competitividade eleitoral nos permitiu a visualização de um quadro extremamente heterogêneo, sobre o qual determinados municípios apresentavam um número aceitável de candidaturas, o que ampliariam as possibilidades de representação dos grupos políticos, e em contra partida outros municípios apresentavam um número muito restrito de candidatos, o que nos permitiu questionar o quão democrático vem sendo os processos de eleição municipal no Brasil.

Desta forma, a competitividade eleitoral no Brasil se constituiu num tema fundamental que, como tal, deve ser discutido e estudado de maneira séria. A importância da existência de uma competitividade eleitoral está na possibilidade da diversidade de candidatos e, conseqüentemente, de propostas. Com um maior número de concorrentes para cada vaga o eleitor tem a possibilidade de escolher com mais tranqüilidade, e claro, com mais opções, o candidato que mais lhe agrada. Porém, o território brasileiro apresenta peculiaridades históricas que contribuíram para uma menor competitividade eleitoral em alguns estados. As conseqüências dessa baixa competitividade são graves para o local onde ela está instalada. Com um leque menor de opções, a possibilidade de reprodução contínua do status-quo, e, consequentemente de subrepresentação de grupos sociais, se torna cada vez maior, o que nos permite questionar, mais uma vez, o quão democrático vem sendo o processo de eleiçao de representantes.

OBJETIVO

Deste modo, levando em consideração a relevância do tema, o objetivo central deste trabalho é descobrir como anda a competitividade eleitoral nos municípios brasileiros, fazendo uma comparação da situação entre os diferentes estados e regiões, buscando compreender se atualmente a competitividade se apresenta de maneira satisfatória no país.

Constitui-se, também, enquanto objetivo do trabalho uma valorização da democracia representativa enquanto uma forma de governo capaz de engendrar formas de controle e supervisão distintas da democracia direta. Sendo assim, me coloco diante das suposições simplistas que resumem o maior contato e presença física advindo da democracia direta como

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Evidentemente, destaca-se enquanto um objetivo do trabalho uma valorização do município como escala preferencial de análise para o contato entre representados e representantes, haja visto que enquanto um espaço institucionalizado se destacaria como a esfera de análise mais próxima do cidadão, conforme apontado por Putnam (2005).

Com o fim de atender a todos estes objetivos, recorremos – conforme será descrito na metodologia – a uma análise dos dados divulgados pelo TRE a cerca das eleições municipais de 2008, o que por sua vez, nos permitiu iniciar a construção dos questionamentos que balizam essa pesquisa; como a competitividade eleitoral nos municípios brasileiros pode interferir na construção de espaços democráticos, sobre o prisma de uma democracia representativa? Até que ponto a democracia direta poderia ser capaz de se configurar como alternativa à democracia representativa?

METODOLOGIA

Para se atingir o objetivo proposto, partiu-se de uma intensa pesquisa bibliográfica. Conceitos fundamentais para o trabalho como representação política e competitividade eleitoral, entre outros, foram amplamente discutidos, assim como outros temas de importância para a geografia eleitoral.

Como este se trata de um estudo no âmbito municipal, foram analisados os dados das eleições de 2008, onde ocorreram as escolhas de prefeitos e vereadores em todo o Brasil. Foram obtidas através do site do TRE todas as informações consideradas úteis para responder as questões propostas. Elas são referentes, sobretudo, à relação candidato/vaga de prefeitos e vereadores. Considerou-se relevante também obter a percentagem que os prefeitos eleitos conquistaram no primeiro turno das eleições de 2008, buscando compreender o quanto um maior ou menor número de candidatos influenciou na concentração de votos no prefeito eleito.

Optou-se também por fazer uma diferenciação entre os tamanhos dos municípios, verificando se uma maior população corresponde diretamente a um maior número de candidatos a vereador.

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METODOLOGIA TEÓRICO CONCEITUAL REPRESENTAÇÃO, DEMOCRACIA E TERRITÓRIO.

Conforme colocado anteriormente, a representação pressupõe uma institucionalização – eleição – que por sua vez, funcionaria como o instrumento fundamental para o estabelecimento da relação entre representante e representado de forma quase contratual. No entanto, o que se espera de uma representação que se diga democrática não é esse vínculo momentâneo estabelecido entre as partes no momento da marcação da cédula ou digitação dos números do candidato. Antes de seguir adiante com a definição do que seria a representação, cabe definir o que compreendemos como democracia. Para Santos (2007) apud Magdaleno (2008), a democracia seria a administração dos conflitos e não a promessa de eliminação deles.

De tal modo, o que se espera de um sistema representativo é o estabelecimento de um vínculo interativo entre os que se constituem de poder através da ação do voto, eleitos, e aqueles que os constituem, eleitores. Juridicamente, a representação seria a idéia de uma institucionalização da separação entre Estado e sociedade – sendo portanto dependente da implementação de um processo eleitoral – sobre a qual o representante constituiria-se como o tutor dessa relação.

No entanto, concebemos a eleição como uma instituição capaz de garantir mais que a representação jurídica, a concebemos, portanto, como:

“...como a expressão do direito de participar de algum nível de produção das leis, não como um método de transferência das preferências idiosincráticas das pessoas a profissionais políticos selecionados.” Urbinati (2005)

O que destaca e deixa clara a proximidade entre democratização e processo representativo, nesse caso, uma representação em seu sentido político.

A representação em seu sentido político, diferentemente da concepção jurídica, constitui-se enquanto um elemento dinâmico, as decisões não seriam, portanto, fruto de uma

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democracia representativa devem emanar da relação entre a classe política e seus eleitores. O que ainda de acordo com Urbinati (2005) constituiria-se como um soberano diluído pela representação, sendo, portanto, constantemente reconstruído e relegitimado.

“Estes representantes, por sua vez, devem ter em conta a necessidade de fazer valer junto às instâncias decisórias do Estado a vontade de grupos ou segmentos sociais específicos, sem, contudo, perder de vista a exigência de harmonização dessas vontades com os interesses maiores do pais.” Magdaleno (2008)

Os referidos grupos ou segmentos sociais específicos, são partes integrantes do que se compreende como espaço político, sobre o qual tradicionalmente se observa o ocorrência de formação de territorialidades e interesses distintos. Como forma de apoio teórico definimos a territorialidade de acordo com Sack (1986), onde a territorialidade é compreendida como uma ação estratégica de controle de determinada porção do espaço, sempre vinculada ao contexto social na qual se insere.

Ação esta que possui um caráter dual, podendo se referir as ações da figura política, que conforme Morgenstern apud Magdaleno (2008) ao praticar uma ação e ao mudar alguma coisa, acaba mudando, concomitantemente a si mesmo – o que nos permite concluir que seria alterada a própria territorialidade do representante político – ou até mesmo do candidato. Assim como poderia também se referir às demandas sociais, com seus interesses devidamente territorializados, o que nos lança diante da representação e sua incontestável variável territorial, sendo portanto um tema de destaque a geografia.

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Através do levantamento e análise de dados, conforme relatados na metodologia, extraídos do TRE, geramos algumas tabelas em Excel, através das quais extraímos algumas informações de destaque, as quais nos permitiram até o momento levantar constatações de suma relevância às eleições municipais. Dentre estas, faremos destaque a algumas.

A primeira delas já esperada – haja vista a importância que algumas destas prefeituras possuem para a base política dos partidos – através de uma análise conjunta das informações, relação candidato/vaga e classes populacionais, pode-se confirmar a expectativa de encontrar um número maior de candidatos por vaga em eleições municipais para as cidades com maior número de habitantes, o que pode tanto significar melhores condições de representatividade para as eleições municipais, quanto ser o reflexo de uma ação político estratégica dos partidos em prefeituras e assembléias legislativas de peso político significativo.

A fim de gerar uma descrição desses fatos, citamos brevemente o comportamento da variável candidato/vaga em relação às classes populacionais para a eleição de prefeitos e em seguida para a eleição de vereadores. Na eleição para prefeito a variável apresenta padrão médio de 2 a 3 candidatos por vaga para as cidades até cem mil habitantes. Entre cem mil e quinhentos mil habitantes o número gira em torno dos 4 candidatos vaga. Já acima de quinhentos mil o que se observa é uma diferença significativa onde a média gira em torno dos 6,5 candidatos por vaga, no entanto, de forma curiosa a região Sul apresentou uma média bem acima desta, chegando à casa dos 8,3 candidatos por vaga.

Já no processo eleitoral para vereadores a relação candidato vaga, quando comparada à classe populacional do município – utilizado com o fim de mensurar, ainda que minimamente, o tamanho do município – apresenta um comportamento bem distinto. A média de candidatos por vaga para os municípios com até cinquenta mil habitantes apresenta números muito próximos, variando em média de 3,5, para os municípios com até cinco mil habitantes, a até uma média de 7,9 candidatos/vaga para os municípios entre vinte e cinquenta mil. No entanto o que mais se destaca é o salto que a variável candidatos/vaga apresenta a partir dos municípios com até cinquenta mil habitantes, nos municípios de classe populacional superior, de cinquenta mil a até cem mil habitantes, a média candidatos/vaga é de 10,4. Eis ai um elemento que nos chama a atenção e sobre o qual ainda não geramos questionamentos

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pelo o que já pôde ser apurado, a competitividade eleitoral no Brasil, em especial em eleições municipais, apresenta padrões distintos de acordo com o número de habitantes das cidades. Em municípios com menos habitantes a competitividade costuma ser menor, e em municípios com uma população maior costumam haver mais candidatos concorrendo a uma vaga.

Como já mencionado, este trabalho encontra-se ainda em fase de desenvolvimento de pesquisas, sendo as próximas etapas importantes para que se chegue a uma conclusão sobre o tema. Entre os próximos passos destaca-se a elaboração de mapas temáticos que mostram a relação candidato/vaga para os cargos de prefeito e vereador por municípios, além de outro com a percentagem que os prefeitos eleitos atingiram no primeiro turno.

Desta maneira, fica evidenciada a relevância deste assunto, sendo este um tema que deve ser investigado com afinco. A geografia neste caso oferece uma abordagem diferenciada, contribuindo com a abordagem espacial, necessária para esclarecer questões consideradas relevantes.

BILIOGRAFIA

BARNETT, Clive; LOW, Murray. Geography and Democracy: an introduction. In

Spaces of Democracy. London: Sage, 2004.

BOBBIO, Norberto. Dicionário de Política. / Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino. Brasília: UNB,2007.

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CASTRO, Iná Elias. Geografia e Política: Território, escalas de ação e instituições. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.

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CHAUÍ, Marilena de Souza. Cultura e democracia : o discurso competente e outras

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DAHL, Robert Alan. Sobre a democracia. Brasília: Ed. UNB, 2009

MAGDALENO, Fabiano Soares. A territorialidade da representação política no estado

do Rio De Janeiro: Uma análise dos vínculos territoriais de compromisso dos deputados fluminenses – Tese de doutorado, UFRJ, PPGG, 2008.

MIGUEL, Luis Felipe. Representação política em 3-D. Elementos para uma teoria

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fevereiro/2003

PUTNAM, Robert D. Comunidade e democracia: A experiência da Itália moderna; tradução Luiz Alberto Monjardim. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005.

RAFFESTIN, Claude. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática, 1993.

SACK, Robert. The Human Territoriality - its theory and history. Cambridge: Cambridge University Press, 1986.

SANTOS, Boaventura de Souza. Democratizing Democracy: Beyond the Liberal

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SMITH, Ian, Disadvantaged by Where You Live?: Neighbourhood Governance in

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URBINATI, Nadia. O que torna a representação democrática? Encontro Anual da American Political Science (APSA). Washignton, 2005

Referências

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