PODER JUDICIÁRIO
SÃO PAULO
SEGUNDO TRIBUNAL DE ALÇADA CIVIL Décima Câmara
AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 613.198-0/1 – SÃO PAULO Agravante: Unibanco Leasing S.A. Arrendamento Mercantil Agravado : Sinval Leite de Campos
AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE. Em razão de princípio inserto na Constituição Federal de 1998, artigo 5º, inciso II, ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei. As razões da Agravante, singelas nesse aspecto, não alumiam a parte do sistema jurídico (leis e princípios) que prescreve a obrigação do Requerido “... informar o paradeiro do veículo objeto do
arrendamento, sob pena de desobediência, e, ainda, na imposição de multa cominatória ...”.
Voto nº 3.894
Visto.
UNIBANCO LEASING S.A. ARRENDAMENTO MERCANTIL interpôs Recurso de Agravo de Instrumento contra despacho do JUÍZO DE DIREITO DA 2ª VARA CÍVEL DO FORO REGIONAL DE
ITAQUERA, COMARCA DA CAPITAL, que indeferiu requerimento de
intimação do Requerido para apresentar o bem, sob pena de desobediência e de imposição de multa cominatória nos autos de Ação de Reintegração de Posse que move contra SINVAL LEITE DE CAMPOS, partes com caracteres e qualificação nos autos.
O recurso foi processado com efeito devolutivo. Determinou-se o cumprimento do disposto no artigo 526 do Código de Processo Civil. O Agravado não foi intimado para resposta (sem patrono constituído).
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UNIBANCO LEASING S.A. ARRENDAMENTO MERCANTIL ingressou com Ação de Reintegração de Posse contra SINVAL LEITE DE CAMPOS, objetivando o restabelecimento na posse do veículo com os característicos descritos na inicial. Requereu e obteve medida liminar de reintegração de posse. O Oficial de Justiça encarregado das diligências certificou:
“... deixei de proceder a reintegração de posse do referido bem em razão do réu SINVAL LEITE DE CAMPOS, não se encontrar mais de posse do mesmo ...” (folha 21).
“... deixei de reintegrar o autor na posse do referido bem em razão de não encontrá-lo ...” (folha 24).
“... deixei de proceder a reintegração de posse em razão do réu SINCAL LEITE DE CAMPOS, não se encontrar mais com o bem ...”
(folha 25).
UNIBANCO LEASING S.A. ARRENDAMENTO MERCANTIL peticionou requerendo:
“... seja o Réu intimado a apresentar o bem em Juízo ou declinar onde o mesmo posa ser encontrado, sob pena de desobediência, bem como a incidência de multa diária ...” (folha 27).
O r. Juízo despachou:
“... indefiro, por não se aplicar à espécie ...” (folha 28).
Daí o Recurso de Agravo de Instrumento, onde pretende:
“... o integral cumprimento do mandado, vez que contraria de forma flagrante o entendimento jurisprudêncial acerca da matéria ...”
(folha 8).
O Contrato de Arrendamento Mercantil (leasing) tem natureza jurídica própria, ainda que nele possam ser identificados
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alguns elementos dos compromissos de compra e venda, da locação ou do mútuo. Havendo expressa previsão, normalmente, o inadimplemento gera a resilição, surgindo a obrigação do Arrendatário restituir o bem, sob pena de caracterização de esbulho a dar espeque a uma Ação de Reintegração de Posse.
Para os efeitos do processo, deve o Arrendador provar a constituição do Arrendatário em mora. O Código de Processo Civil1 estabelece que estando a inicial devidamente instruída, o Juiz determinará a expedição do mandado de reintegração liminar. Tal medida é, no entanto, provisória e modificável.
Em razão de princípio inserto na Constituição Federal de 1998, artigo 5º, inciso II, ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei. As razões da Agravante, singelas nesse aspecto, não alumiam a parte do sistema jurídico (leis e princípios) que prescreve a obrigação do Requerido “...
informar o paradeiro do veículo ...” (folha 5), sob pena de configuração de
desobediência e de imposição de multa cominatória.
Há necessidade de distinguir-se o conceito de posse2 justa em tema de reinvidicação daquele que é tratado pela ação possessória. Para esta basta que não seja violenta, clandestina ou precária. Quando se trata do direito de propriedade a posse justa se edifica no domínio.
O Agravado adquiriu a posse direta do veículo por força do contrato de arrendamento mercantil, e, para a Agravante, a decisão que concedeu a medida liminar modificou a qualidade de sua posse,
1 - Artigo 928, caput, 1ª parte.
2 - A teoria clássica ou subjetiva conceitua a posse como sendo a vontade de possuir para si (estribada no elemento subjetivo), mas o nosso Código Civil adotou a teoria objetiva ao definir “possuidor” como aquele para quem a posse é a exteriorização da propriedade e dos poderes a ela inerentes. A diferença reside na conceituação da detenção. Para a primeira é preciso ter conhecimento do animus, enquanto para a outra deve-se ter ciência do vínculo que define a posse que, pelo Código Civil, revela-se por aparência de (algum) poder inerente ao domínio.
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vedando a retenção sem justo título. Por isso entende que (o Agravado) deva ser ameaçado com possível processo pelo crime de desobediência, como ilícito instrumento para a efetivação da providência. Futura prisão, então, revestir-se-ia no recurso ideal para cobrança de mera dívida civil.
É atribuição da Agravante indicar o local onde se encontra o veículo objeto da ação, para que a medida liminar possa ser efetivada, e, isto, não se reveste de uma conditio sine qua non
para a citação do Requerido e o prosseguimento do processo. A providência representa mero adiantamento do mérito e em nada coincide com o procedimento previsto na busca e apreensão baseada em contrato de alienação fiduciária em garantia3.
"A concessão da liminar funciona como se o juiz tivesse julgado procedente o pedido, liminar, antecipada e provisoriamente, até que seja feita a instrução a sobrevenha a sentença 4".
“O descumprimento da liminar concedida nos autos de reintegração de posse oriunda de contrato de arrendamento mercantil não impede que o réu seja citado para os termos da ação 5”.
“Desobediência. Delito sequer em tese caracterizado. Réu em ação de reintegração de posse, com liminar concedida, que deixa de atender à decisão judicial. Hipótese sujeita à penalidade prevista nos arts. 881 e 921, I e II, do CPC. Ação penal trancada por falta de justa causa. Inteligência dos arts. 330 do CP e 648, I, do CPP 6”.
Inaplicável ao caso o que dispõe o artigo 461 e incisos, do Código de Processo Civil, que prevê ação de conhecimento e seu procedimento. A Agravante pretende a adoção de alguns dos seus
3 - Decreto-lei nº 911, de 1º.10.69, artigo 4°, em combinação com a redação dada à Lei nº 4.728, 14.7.65, artigo 66.
4 - NELSON NERY JÚNIOR e ROSA MARIA ANDRADE NERY, “Código de Processo Civil Comentado e legislação processual civil extravagante em vigor”, Ed. RT, 2ª ed., 1996, pg. 1195, nota 4 ao artigo 928.
5 - 2º TACivSP - AI 574.646 - 2ª Câm. - Rel. Juiz PEÇANHA DE MORAES - J. 17.5.99. No mesmo sentido: JTA (Lex) 174/404.
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institutos como se estivesse caracterizada a obrigação do Agravado fazer especificamente o que não se sujeitou.
A cominação de pena para caso de nova turbação ou esbulho7, igualmente não se mostra viável. Pressupõe, a cominação, que o Requerente tenha sido esbulhado na posse do bem reintegrado ou esteja sendo perturbado na posse do bem manutenido. Não é a hipótese dos autos, onde a medida liminar sequer foi cumprida.
“Não se pode dar socorro ao arrendador para a inflição da pena de desobediência genericamente instituída pelo artigo 921, II, do estatuto de rito, se o contrato já o privilegia com diversas cominações (e inclusive multa) para o descumprimento da ordem de entrega do bem arrendado, verificada a mora e o conseqüente esbulho possessório. Agravo improvido 8”.
Em face ao exposto, nega-se provimento ao recurso
IRINEU PEDROTTI Relator
6 - RT 558/319.
7 - Código de Processo Civil, artigo 921, inciso II.