O USO DE PRODUTOS DE LIMPEZA

Texto

(1)

O USO DE PRODUTOS DE LIMPEZA

Tatiana Montebeller

Ecóloga

Fundação Agência de Água do Vale do Itajaí

INTRODUÇÃO

Entende-se por Produtos de Limpeza ou Produtos Saneantes Domissanitários e Afins, mencionados no art. 1º da Lei 6360/76, as substâncias ou preparações destinadas à higienização, desinfecção ou desinfestação domiciliar, em ambientes coletivos e/ou públicos, em lugares de uso comum e no tratamento da água. Eles compreendem:

a) inseticidas - destinados ao combate, à prevenção e ao controle dos insetos em habitações, recintos e lugares de uso público e suas cercanias;

b) raticidas - destinados ao combate a ratos, camundongos e outros roedores, em domicílios, embarcações, recintos e lugares de uso público, contendo substâncias ativas, isoladas ou em associação, que não ofereçam risco à vida ou à saúde do homem e dos animais úteis de sangue quente, quando aplicados em conformidade com as recomendações contidas em sua apresentação;

c) desinfetantes - destinados a destruir, indiscriminada ou seletivamente, microrganismos, quando aplicados em objetos inanimados ou ambientes;

d) detergentes - destinados a dissolver gorduras e à higiene de recipientes e vasilhas, e a aplicações de uso doméstico (BRASIL, 1976).

Os produtos de limpeza para fins domésticos, segundo ANVISA (2003), são os produtos, geralmente de pronto uso, que por suas formas de apresentação, toxicidades ou usos específicos, podem ser utilizados por qualquer pessoa, denominados de uso não profissional, por exemplo: desinfetantes, sabões em pó, detergentes, amaciantes de roupas, saponáceos, ceras, alvejantes, água sanitária, desodorantes de ambientes, cosméticos, perfumes.

Os produtos que, por sua forma de apresentação, toxicidade ou uso específico, devem ser aplicados ou manipulados exclusivamente por profissional devidamente treinado, capacitado ou por empresa especializada, são denominados de uso profissional, como por

(2)

exemplo, os usados por empresas que prestam serviços de dedetização ou abastecimento de água.

Esse artigo ira tratar da destinação, finalidade e aplicação dos produtos de limpeza, assim como de alguns cuidados a ser tomados durante seu manuseio. São também apresentadas algumas dicas para a produção caseira de produtos de limpeza doméstica. QUANTO À DESTINAÇÃO E QUANTO A FINALIDADE E APLICAÇÃO DOS PRODUTOS DOMISSANITÁRIOS

Na maioria dos ambientes, sejam eles: domiciliar, institucional, industrial ou de assistência à saúde, a finalidade dos produtos é a seguinte:

1. Limpeza: Para remover sujeira e para manter em estado de asseio ambientes, utensílios, objetos e superfícies ou pessoal como o uso de cosméticos, alvejantes, detergentes, sabão. 2. Desinfestação: Para matar ou repelir animais que se encontram em ambientes, objetos e superfícies inanimados, através de processos físicos ou químicos como os raticidas.

3. Antimicrobiano: Para destruir ou inibir o crescimento de microrganismos em ambientes, nos objetos e superfícies inanimadas.

4. Jardinagem amadora: Para controlar pragas e doenças em jardins e plantas ornamentais, além de revitalizar e embelezar plantas ornamentais com o uso de inseticidas e fungicidas.

5. Limpeza e antimicrobiano: Para finalidade de limpeza com ação antimicrobiana.

Todos os usos e destinação devem atender aos limites quantitativos estabelecidos em legislação especifica. No quadro abaixo estão descritos os limites quantitativos estabelecidos pela ANVISA permitidos por embalagem.

Quadro 1 - Entendimento sobre os limites quantitativos

Destinação Não Profissional Profissional

Domiciliar Até 5 litros ou quilogramas 1 a 200 litros ou quilogramas Institucional 1 a 20 litros ou quilogramas 1 a 200 litros ou

quilogramas Industrial 5 a 200 litros ou quilogramas 1 a 200 litros ou

quilogramas Assistência à saúde Até 200 litros ou quilogramas 1 a 200 litros ou

quilogramas Fonte: ANVISA: Resolução 336/1999.

(3)

Uso Não Profissional: São os produtos, geralmente de pronto uso, que por suas formas de apresentação, toxicidades ou usos específicos podem ser utilizados por qualquer pessoa.

Uso Profissional: São os produtos que, por sua forma de apresentação, toxicidade ou uso específico, devem ser aplicados ou manipulados exclusivamente por profissional devidamente treinado, capacitado ou por empresa especializada. A empresa por sua vez deve ser autorizada pelo poder público para efetuar serviços com a utilização de produtos devidamente registrados no Ministério da Saúde.

O armazenamento das embalagens (cheias ou vazias) em locais inadequados ou de fácil acesso são responsáveis pela intoxicação de inúmeras crianças que chegam aos postos de saúde. Por exemplo, em 2006, segundo o Centro de Informação Toxicológica - CIT, 1013 pessoas foram atendidas em Santa Catarina com intoxicação por domissanitários, dessas 407 eram crianças de 1 a 4 anos (ZANELLA et al, 2006).

CUIDADOS NO USO DOS PRODUTOS DE LIMPEZA

As alterações do meio ambiente decorrentes da atividade humana e industrial interferem diretamente na saúde da população, com destaque para a qualidade da água, do solo, do ar, afetados pela destinação inadequada de dejetos e poluentes.

Durante a limpeza de um estabelecimento ou utensílio, normalmente são usados produtos saneantes domissanitários. Dentro de cada produto de limpeza existem inúmeros elementos ou compostos químicos que podem ser tóxicos ao meio ambiente (é por isso que existe a limitação nas quantidades que são comercializadas). Esses elementos podem comprometer todo o meio ambiente, em especial os recursos hídricos.

A disposição inadequada de resíduos dos domissanitários (panos, estopas, embalagens, água contaminada), em especial os (saneantes) contribui para o agravamento da contaminação de mananciais. Esses produtos utilizados para limpeza em geral (ceras, inseticidas, desinfetantes, detergentes e amaciantes) podem causar acidentes e danos à saúde das pessoas e animais, durante o seu uso e danos ao meio ambiente após seu descarte (ZANELLA et al, 2006).

Por isso, ao fazer uma limpeza, deve-se prestar atenção para alguns itens de segurança a saúde: abrir as janelas para que o ar fresco dissipe vapores e poluentes; usar

(4)

luvas de borracha e roupas de manga comprida em trabalhos mais pesados; não misturar produtos, pois isso pode provocar uma reação química e criar uma substância mais tóxica; enxaguar bem as superfícies que vão ser limpas e evitar o uso de produtos químicos nas áreas onde são realizadas as refeições; não misturar produtos químicos com água muito quente, pois o calor pode promover a fuga de substâncias voláteis para a atmosfera

Um destaque especial cabe ao cloro. A maioria dos produtos de limpeza possui o cloro em sua composição. Quando descartados na pia ou no tanque esses produtos irão chegar diretamente a algum curso d’água ou indiretamente através da infiltração no solo até encontrar um lençol freático. No corpo hídrico o cloro pode sofrer algumas reações químicas e formar uma substância chamada organoclorado, que afeta diretamente a qualidade de água que contamina também os sedimentos (solo).

A combinação entre a baixa solubilidade em água e a alta capacidade de adsorção na matéria orgânica leva ao acúmulo desses compostos ao longo da cadeia alimentar, especialmente nos tecidos ricos em gorduras dos organismos vivos. Como os compostos organoclorados são muito lipossolúveis e se acumulam nas gorduras dos organismos, eles percorrem rapidamente a cadeia alimentar, com resultados desastrosos para a vida, incluindo a vida humana, que ocupa o topo desta cadeia (FLORES et al 2004 aput MATUO et al., 1990).

O problema da contaminação por organoclorados tem se agravado e adquirido proporções dramáticas, tanto pela sua intensificação quanto pela sua extensão geográfica, pois a contaminação não é local e traz consequencias a longo e médio prazo para a saúde pública como, por exemplo, lesões no cérebro, músculos do coração, alterações no DNA, câncer de mama, pulmão e rim (FLORES, et al, 2004).

Normalmente a água dos corpos hídricos é usada para o abastecimento público e industrial, receptor de efluentes domésticos e industriais e irrigação de plantações. Se ela estiver contaminada por organoclorados, esses serão transferidos para as plantações, as pessoas e animais, gerando o efeito acumulativo (progressivamente mais organoclorados se instalam nos organismos). Mesmo com o tratamento de água realizado pelas companhias de abastecimento público os organoclorados não são removidos.

Por isso, o controle dos produtos de limpeza é essencial para a qualidade dos corpos hídricos. Os produtos devem ser usados de forma responsável e quando realmente for necessário. Em primeiro lugar deve ser usada água, pois ela é o melhor produto de limpeza

(5)

e não agride o meio ambiente. Caso ela não consiga limpar tudo, então sim deve ser buscada ajuda de produtos de limpeza, de preferência os mais “ecológicos”.

RECEITAS ECOLÓGICAS E ALGUMAS DICAS1

Para minimizar o impacto sobre a saúde e sobre o meio ambiente, é possível fazer seus próprios produtos de limpeza. Além de proteger o ambiente em que se vive, isso também gerará economias. Trata-se de um resgate do que as avós já faziam. Optar por produtos naturais é se proteger contra os efeitos negativos dos produtos sintéticos na saúde humana e no ambiente, muitas vezes desconhecidos.

Detergente ecológico

1 pedaço de sabão de coco neutro 2 limões

4 colheres de sopa de sal amoníaco (que é biodegradável)

Derreta o sabão de coco, picado ou ralado, em um litro de água. Depois, acrescente cinco litros de água fria. Em seguida, esprema os limões. Por último, despeje o amoníaco e misture bem. Guarde o produto resultante em garrafas e utilize-o no lugar dos similares comerciais. Você obterá seis litros de um detergente que limpa, não polui, cujo valor econômico é incomparavelmente menor do que o do similar industrializado.

Desinfetante para banheiro

1 litro de álcool (de preferência 70º) 4 litros de água

1 sabão caseiro (ou de coco) Folhas de eucalipto

Deixar as folhas de eucalipto de molho no álcool por 2 dias. Ferver 1 litro de água com o sabão ralado, até dissolver. Juntar a água e a essência de eucalipto. Engarrafar.

1As receitas apresentadas foram extraídas do site IPEMA – Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica.

(6)

Amaciante de roupas

5 litros de água

4 colheres de glicerina 1 sabonete ralado

2 colheres de sopa de leite de rosas.

Ferver 1 litro de água com o sabonete ralado até dissolver. Acrescentar mais 4 litros de água fria, as 4 colheres de glicerina e as 2 colheres de leite de rosas. Mexer bem até misturar e depois engarrafar.

Ou adicione apenas ½ copo de vinagre ou ¼ de copo de bicarbonato durante o enxágüe.

Para limpar o forno basta uma solução de água quente com bicarbonato de sódio, que deve

ser aplicada com um pano fino.

No lugar da naftalina que afeta o fígado e os rins, utilize sachês com flores de lavanda.

Desodorante de ambiente pode ser substituído por uma solução de ervas com vinagre ou

suco de limão. Além de gastar menos dinheiro, você vai evitar produtos responsáveis pelo aumento de doenças respiratórias e alergias.

Sabão frio

12 litros de água 1 kg de polvilho doce 1 kg de soda

4 kg de sebo cozido (óleo de cozinha usado)

Derreter o sebo ou o óleo de cozinha usado um balde ou recipiente grande. Dissolver o polvilho doce em 1 litro de água e a soda em uns 4 litros de água (cuidado ao manusear a soda para não sofrer queimaduras). Misturar a gordura com o polvilho e a soda, um de cada vez, mexendo sem parar, e acrescentar o restante da água. Mexer até formar uma pasta líquida e uniforme. Colocar em formas ou num recipiente, deixar secar e cortar.

(7)

Assim, ao usar menos os produtos de limpeza comercializados e/ou substituí-los por outros mais ecológicos ou ainda, fazer seus próprios produtos, você estará contribuindo para a economia no final do mês, a qualidade de vida e as futuras gerações agradecem sua atitude.

REFERÊNCIAS

BRASIL. AGENCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Conheça as novas classificações

para os produtos saneantes. 2003. Disponível em:

http://www.anvisa.gov.br/divulga/noticias/2003/200803.htm.Acesso 06/02/2009.

BRASIL. ANVISA. Resolução nº 336, de 22 de julho de 1999. Registro de Produtos Saneantes Domissanitários e Afins, de Uso Domiciliar, Institucional e Profissional.

BRASIL. Lei nº 6.360, de 23 de setembro de 1976. Dispõe Vigilância Sanitária. Disponível em: http://www.anvisa.gov.br/legis/consolidada/lei_6360_76.pdf . Acesso 06/02/2009.

ZANELLA, G.; CARVALHO, FKA.; MORESCO, GC.; DEUNER, D. Domissanitários no cotidiano e a

prevenção da poluição. Universidade Regional de Blumenau - FURB. 2006.

IPEMA. INSTITUTO DE PERMACULTURA E ECOVILAS DA MATA ATLÂNTICA. Receitas de

produtos de limpeza ecológicos. Disponível em: http://www.ipemabrasil.org.br/receita.htm Acesso

em: 12/02/2009.

FLORES, A. V. et al. Organoclorados: um problema de saúde pública. Ambiente e Sociedade. v.7, n.2, p. 111-125, jul - dez, 2004.

Imagem

Referências

temas relacionados :