Fragmentos de teoria das distribuições
Alysson Tobias Ribeiro da Cunha
1Marcos Leandro Mendes Carvalho
2Resumo
O presente trabalho tem por objetivo apresentar uma breve discussão sobre a aplicação da Trans-formada de Fourier na teoria das distribuições, que é bastante usada para a solução de Equações Diferencias Parciais (EDP). Salientamos que este não pretende ser um texto a ser usado num curso da citada teoria, mas sim de divulgação da mesma, caracterizando-se principalmente pela quanti-dade de exemplos. Para melhor compreensão, faz-se necessário o conhecimento de Análise, Álgebra linear, e Teoria da Medida.
Palavras-Chave: Teoria da distribuição, transformada de Fourier.
Fragments of distribution theory
Abstract
In this work we present a brief discussion about the Fourier Transform in the distribution theory, which is a useful tool in solving Parcial Diferential Equations (PDE). This text is not meant to be used in a distribution theory course , but only a short report, once there’s a great variaty of examples. We take for granted that the reader has basic knowledge on Analysis, Linear Algebra and Measure Theory.
Keywords: Distribution theory, Fourier transform.
1 Definições e Exemplos Preliminares
No se segue, dado um conjunto Ω e uma função f : Ω → C, o conjunto supp(f ) = {x ∈ Ω : f (x) 6= 0} será chamado de suporte de f . O conjuntoC0∞(Ω) indicará as funções infinitamente diferenciáveis
cujo o suporte seja compacto. Já a notação L1
loc(Ω) denota o conjunto das funções integráveis em
qualquer conjunto compacto K ⊂ Ω.
Denition 1. Diz-se distribuição a todo funcional linear contínuo u : C∞
0 (Ω) → C. O conjunto de
todas as distribuições será denotado por D0(Ω).
Example 2. Seja f ∈ L1
loc(Ω). Defina
hTf, ϕi =
ˆ
f ϕdx, ϕ ∈ C∞0 (Ω ) (1)
Tf define uma distribuição. Com efeito, sejam ϕ, ψ ∈ C0∞(Ω)e λ ∈ C. Logo,
hTf, ϕ + λψi = ˆ f (x)[ϕ(x) + λψ(x)]dx = ˆ f (x)ϕ(x)dx + λ ˆ f (x)ψ(x)dx = = hTf, ϕi + λhTf, ψi
E dada uma seqüência (ϕj)em C0∞(Ω)convergindo para zero, tem-se que existe um compacto K ⊂ Ω
tal que S(ϕj) ⊆ K, donde
|hTf, ϕji| = ˆ Ω f (x)ϕj(x)dx ≤ ˆ Ω f (x)ϕj(x)dx ≤ sup x∈K |ϕj(x)| ˆ K |f (x)|dx → 0, quando j→ ∞
Portanto Tf é contínua.
Example 3.
Dado a ∈ Ω, defina hδa, ϕi = ϕ(a). O funcional δaé uma distribuição. Com efeito, sejam ϕ, ψ ∈ C0∞(Ω)
e λ ∈ C. Logo,
hδa, ϕ + λψi = (ϕ + λψ)(a) = ϕ(a) + λψ(a) = hδa, ϕi +hλδa, ψi
Além disto, seja (ϕj)uma seqüência em C0∞(Ω)convergindo para zero, donde
hδa, ϕji = ϕj(0) → 0 = 0(a) = hδa, 0i,
Portanto δaé contínua. Chamaremos δa de delta de Dirac concentrada em a.
Proposition 4. Sejam f, g ∈ L1
loc(Ω)tais que hTf, ϕi = hTg, ϕi, para toda ϕ ∈ C0∞(Ω). Então f = g,
a menos
de um conjunto de medida nula.
Demonstração. Sejam K um subconjunto compacto de Ω, h = f − g e α ∈ C∞
0 (Ω)valendo um em K.
Desta maneira αh ∈ L1(Rn), visto que α igual a zero em Rn− Ω. Daí,
(αh)(x) = −n ˆ (αh)(y)ϕ x − y dy = hTf, βi − hTg, βi = 0
onde β(y) = −nα(y)ϕ x−y ∈ C∞
0 (Ω). Por outro lado, se tomarmos → 0 obtemos que (αh)→ αh
nula. Resta-nos mostrar que a última igualdade vale para Ω. Para isto, para cada n ∈ N considere os conjuntos
Kn= {x ∈ Ω : d(x, ∂Ω) ≥
1
n e |x| ≤ n} (2)
Estes são compactos eS∞
n=1Kn = Ω(Mostre isto!). Aplicando a Kn o que foi mostrado, tem-se que
f = gem Ω.
2 A Transformada de Fourier
Denition 5. Seja f ∈ L1
(Rn), então a transformada de Fourier de f é definida por
F f (ξ) = ˆf (ξ) = 1 (2π)n/2
ˆ
e−ix·ξf (x)dx.
Denition 6. Chamaremos de Espaço de Schwartz, denotado por S(Rn)(ou S) ao espaço das funções f ∈ C∞
(Rn)tais que
kf kα,β = sup x∈Rn
|xα∂β
f (x)| < ∞, ∀ α, β ∈ Nn.
Denition 7. Chamamos de distribuição temperada a todo funcional linear contínuo u : S → C. O conjunto das distribuições será denotado por S0(Rn)ou simplesmente S0.
Example 8. Seja hv.p.1 x, ϕi = v.p. ´ R ϕ(x) x dx = limx↓0 ´ |x|≥ ϕ(x) x dx. Então v.p. 1 x ∈ S 0 (R), de fato a linearidade é trivial. Provaremos a continuidade
ˆ |x|≥ ϕ(x) x dx = ˆ ∞ ϕ(x) x dx + ˆ − −∞ ϕ(x) x dx = ˆ ∞ ϕ(x) x dx − ˆ ∞ ϕ(−x) x dx = ˆ ∞ ϕ(x) − ϕ(−x) x dx → ˆ ∞ 0 ϕ(x) − ϕ(−x) x dx = ˆ 1 0 ϕ(x) − ϕ(−x) x dx + ˆ ∞ 1 ϕ(x) − ϕ(−x) x dx. Logo \begin{eqnarray*} |hv.p.1 x, ϕ(x)i| ≤ ˆ 1 0 ˆ x −x ϕ0(t) x dtdx + ˆ ∞ 1 x|(ϕ(x) − ϕ(−x))| x2 dx ≤ 2kϕ0kL∞+ 2kxϕkL∞ ˆ ∞ 1 dx x2 = 2kϕk0,1+ 2kϕk1,0C.
A distribuição v.p.1xé chamada valor principal de x1.
Denition 9. Seja u ∈ S0, então definimos a transformada de Fourier de u por
hˆu, ϕi = hu, ˆϕi, ∀ ϕ ∈ S.
Example 10. (Transformada de Fourier do Valor Principal) Seja ϕ ∈ S(R), então h(v.p.1 x) ∧, ϕi = hv.p.1 x, ˆϕi = lim↓0 ´ |x|≥ ˆ ϕ(x) x dx = (2π) −1/2lim ↓0R→∞lim ˆ R≥|x|≥ 1 x ˆ ∞ −∞ e−iξxϕ(ξ)dξdx Temos que ˆ R≥|x|≥ 1 x ˆ ∞ −∞ e−iξxϕ(ξ)dξdx = ˆ ∞ −∞ ϕ(ξ) ˆ R≥|x|≥ e−iξx x dxdξ = ˆ ∞ −∞ ϕ(ξ) ˆ R≥|x|≥ (cos ξx x − i sin ξx x )dxdξ = −i ˆ ∞ −∞ ϕ(ξ) ˆ R≥|x|≥ sin ξx x dxdξ. Como ˆ ∞ −∞ sin x x dx = π, temos que lim ↓0R→∞lim ˆ R≥|x|≥ sin ξx x dx = π, se ξ > 0 0, se ξ = 0 −π, se ξ < 0 Definindo a função sgn(ξ) = 1, se ξ > 0 0, se ξ = 0 −1, se ξ < 0 Temos h(v.p.1 x) ∧, ϕi = −i(π 2) 1/2 ˆ ∞ −∞ ϕ(ξ)sgn(ξ)dξ. Portanto v.p.1 x ∧ (ξ) = −iπ 2 1/2sgn(ξ).
Lemma 11. Seja f≥ 0, f∈ L1(Rn)tal que
´
fdx = 1e
´
|x|>afdx → 0, com → 0, \textrm{para
todo} a > 0. Então
f→ δ, com → 0, em D0(Rn).
Sejam ϕ ∈ C∞
0 (Rn). Dado 0> 0, tome ˜e a > 0 tais que
0 < < ˜ ⇒ ˆ f< 0 4kϕk∞ . e |x| ≤ a ⇒ |ϕ(x) − ϕ(0)| < 0 4kϕk∞ . Então | hf, ϕi − hδ, ϕi | ≤ ˆ f| ϕ(x) − ϕ(0) | = ˆ |x|>a f| ϕ(x) − ϕ(0) | + ˆ |x|≤a f| ϕ(x) − ϕ(0) | < 2kϕk∞ ˆ |x|>a f+ 0 4kϕk∞ ˆ |x|≤a f < 0 2 + 0 2 = 0
Seja H a função de Heaviside, então
b H(ξ) = 2 π 1/2 δ(ξ) − i πv.p. 1 ξ .
De fato, sabemos que H /∈ L1
(R), então definindo u(x) = H(x)e−x, temos que u ∈ L1(R). Note
que u→ H em S0, com → 0. Temos ainda
(2π)1/2uˆ(ξ) = ˆ ∞ 0 e−(+iξ)xdx = −e −(+iξ)x + iξ ∞ 0 = 1 + iξ = 2+ ξ2 − i ξ 2+ ξ2. Seja f= 1 π 2+ ξ2, então ˆ ∞ −∞ fdx = 1 π ˆ ∞ −∞ dξ 1 + ξ 2 = 1 π ˆ ∞ −∞ du 1 + u2 = 1 e ˆ |ξ|>a fdξ ≤ 1 π ˆ |ξ|>a dξ ξ2 = 2 1 a2π → 0, com → 0.
Então pelo Lema 11 f→ δ em S0.
Temos também que ξ
2+ ξ2 → v.p. 1 ξ em S 0.De fato h ξ 2+ ξ2, ϕi = ˆ ∞ −∞ ξϕ(ξ) 2+ ξ2dξ = ˆ ∞ 0 ξϕ(ξ) 2+ ξ2dξ + ˆ 0 −∞ ξϕ(ξ) 2+ ξ2dξ = ˆ ∞ 0 ξ(ϕ(ξ) − ϕ(−ξ)) 2+ ξ2 dξ.
Já vimos também no exemplo 8 que
hv.p.1 ξ, ϕi = ˆ ∞ 0 ϕ(ξ) − ϕ(−ξ) ξ dξ. Portanto
|h ξ 2+ ξ2 − v.p. 1 ξ, ϕi| ≤ ˆ ∞ 0 ξ2 2+ ξ2 − 1 (ϕ(ξ) − ϕ(−ξ)) ξ dξ → 0, com → 0,
pelo Teorema da Convergencia Dominada. Então de ˆu= π2 1/2 f−πi2+ξξ 2 temos que ˆu→ 2π 1/2 δ(ξ) − i πv.p. 1 ξ em S0. Como ˆu→ ˆH, obtemos o resultado.
Referências
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Textos de Pós graduação,2004.