REFLEXÕES ARENTIANAS SOBRE O TERRORISMO ISLÃMICO
Mateus Araujo Pereira*
RESUMO: Pensar a religião islâmica e consequentemente o terrorismo promovido
por essa cultura de maneira política é o objetivo desse artigo. Dentro deste trabalho serão usadas as ideias da pensadora Hannah Arendt, que cunha termos políticos aplicáveis à situação atual do islamismo, AL- Farabi, filósofo árabe do período medieval que trabalha a política na comunidade muçulmana e o Corão livro sagrado islâmico. O artigo fará um percurso politico-social dentro da cultura referida. O herói e a irreflexão são colocados neste contexto de maneira atual tornando possível outra visão do terrorismo, e a compreensão do que motiva-o. O herói no sentido de coragem e a irreflexão no sentido de 'não pensar coisas'. É importante observar como os textos e os atos do islã promovem diversas interpretações, cabe as correntes contemporâneas dar apontamentos para reflexões filosóficas a respeito das atitudes políticas promovidas por esta cultura e não necessariamente pela manifestação religiosa.
Palavras-chave: terrorismo, islamismo, herói, irreflexão.
INTRODUÇÃO
O povo muçulmano no século XXI passou a ser vinculado ao terrorismo, povo este que tem uma fé intrinsecamente ligada à política e baseada no livro sagrado 'AL Corão'. O que colocaremos nas linhas deste texto é uma visão filosófica de conceitos da teoria política, vinculados pela a autora contemporânea Hannah Arendt. As exposições ou as interpretações que são feitas hoje do islamismo é algo inteiramente tendencioso, pois gira em torno de fatos terroristas ocasionados por grupos de denominação muçulmana. O artigo procura retirar em partes esse conceito sobre terrorismo pois também é colocado como justificativa do 'mal' que eles promovem. Hoffman tem um conceito de terrorismo, e diz que “o terrorismo é muito mais relacionado à ameaça de violência do que à violência em si”, definição que será vista no 'herói', como o corajoso que sair e vai até o espaço público. Outra visão dada aqui é a de pura irreflexão, discorrendo que o propenso a fazer ato de terror é alguém que só cumpre ordens assim como Eichmann.
Um dos trechos do Corão que justifica a violência é citado, frase que permite uma interpretação voltada para o terror e para a guerra, tal parte diz, “Matai-os onde quer se os encontreis e expulsai-os de onde vos expulsaram, porque a perseguição é mais grave do que o homicídio. Não os combatais nas cercanias da Mesquita Sagrada, a menos que vos ataquem. Mas, se ali vos combaterem, matai-os. Tal será o castigo aos incrédulos”( 2: 191). Provando a razoabilidade1 da cultura islã.
1 Visão de herói na cultura islã
O islamismo como religião segue um livro sagrado, o corão, tais escritos são as visões do profeta Mohammad que após sua morte foram compiladas. O que buscamos aqui é uma explicação do fenômeno, o por que de tais ações? ( explosões, mortes e ameaças). Iremos para a visão do islã, onde a vida não é o valor absoluto, o valor para o povo dessa cultura é a dignidade. Ora sem a dignidade, do que adianta a vida? Para um muçulmano não há sentido, por conta de tal crença que fica explicável o motivo de colocar bombas em si e explodir, então pode-se aferir que sem dignidade não a vida, isso para um mulçumano.
O profeta Mohammad criou uma religião politizada, e percebemos no próprio livro e como eles se organizam, na surata 48 capitulo 28 diz que devem ser “compassivos entre si”, o que mostra o espirito de comunidade.
O filósofo árabe, AL-Farabi2, que sem a menor dúvida estudou o livro sagrado,
afirma em suas entre linhas que o governante da cidade deve ser um profeta, seguindo a tradição, filósofo, profeta e politico. Deus e governo juntos tornando o estado teocrático pois quem é o dirigente é o próprio “Alá”. O filósofo oferece um modo de vida virtuosa “disposições que são como enfermidades[...] que transformam os governos virtuosos e seu modo de vida em governos e modos de vida ignorantes”(Al-Farabi, 2014²a,§3,p.79) ele ainda faz uma definição de política, no livro sobre a religião, onde :
1 É possível por esse termo perceber que as religiões possuem uma razão mínima para justificar suas crenças, dentro do AL-Corão é perceptível uma justificativa razoável ao que é feito partindo do pré suposto que é uma doutrina abrangente como as outras, isto é como já colocado acima por ser razoável. Esse conceito é introduzido na filosofia pelo o autor contemporâneo Jonh Rawls, um norte americano da teoria politica, que trabalha a justiça. (O LIBERALISMO POLÍTICO, 1993) 2 Al-Farabi ( 259-339 H) foi um grande interprete da filosofia de Aristóteles, considerado um novo
Aristóteles pela suas sistematicidade, e afirma na sua politica que o governante deve ser filosofo, politico e profeta e sua realização só possível na cidade. E coloca que a teoria sem prática não adianta, intitula sua teoria politica de filosofia prática. (HISTÓRIA DA FILOSOFIA I, REALE: 1990)
A ciência política, que é parte da filosofia, limita-se a investigar as ações(isto é, voluntários), modos de viver, hábitos e restantes coisas [correlacionadas] que estuda, e a descrever os seus [princípios] gerais; também faz conhecer a descrição [ dos padrões ] para determina-los nos particulares: o como, o porquê e o quanto deve ser determinado. […] Está ciência tem duas partes:uma delas compreende a explicação do que é felicidade- isto é qual é a verdadeira felicidade e qual é a suposta-, a enumeração geral de ações ( voluntárias),dos modos de viver, dos hábitos morais e estados de caráter que devem existir nas cidades nações, e a distinção sobre virtuosos e os não virtuosos. A outra parte compreende a explicação das ações ( voluntária) por meio das quais ficam estabelecidas e ordenadas ações e hábitos virtuosos nas cidades e nações, e quais ações ( voluntárias ) preservam o que foi estabelecido para seus habitantes. ( AL-FARABI,1992)
Na primeira parte se sua descrição observa-se a felicidade e as demais ações que ocorrem no meio político. Nos textos da filosofia farabiana é importante analisar o termo ação (agir), esse muito utilizado na teoria política contemporânea, porém não advindo do pensador citado. Para um muçulmano é o que gera a política e todos os atos, a ação, é exatamente ir ao espaço público e se expor, isto já em uma teoria contemporânea, a partir de então podemos observar o povo muçulmano não como apenas uma religião, mas como um povo que vive a política. Na contemporaneidade verificaremos a obra de Hannah Arendt3 autora essa que
trabalha em todas as suas obras a teoria política.
O povo muçulmano é um povo de política, que sai para o espaço público. Aqueles que enxergamos como terroristas, são de fato pessoas que saíram de sua comodidade para um meio plural. Arendt para falar dessas pessoas4 vai até a origem
da política, nos gregos, assim para falar do “Herói”, o mesmo não precisa ter qualidades heroicas, nas narrativas homéricas a figura do herói era aquele homem qualquer que havia participado da aventura troiana e pode contar uma história assim é possível entender a coragem de outra forma, de maneira política.
“A conotação de coragem, que hoje reconhecemos ser uma qualidade indispensável a um herói, já está, de fato, presente na disposição para agir e falar, para inserir-se no mundo e começar uma estória própria. E essa coragem não está necessariamente, nem principalmente, associada à disposição para arcar com as consequências; a coragem e mesmo a audácia já estão presentes no ato de alguém que abadona seu esconderijo privado para mostrar quem é, desvendando-se e exibindo-se a si próprio. A dimensão dessa coragem original, sem a qual a ação, o discurso e, portanto, segundo os gregos, a liberdade seriam impossíveis, não é menor se o 'herói' for um covarde- pode ser até maior” ( ARENDT, 2014)
A figura do herói é aquele que realmente sai do 'oikos' e vai até a 'pólis' tal
3 Hannah Arendt, é uma judia alemã, que conseguiu fugir para os Estados Unidos, nasceu na cidade de Hanover em 1906, seus pais ativistas políticos, foi aluna de Heidegger. Suas obras são de cunho histórico e politico. ( COMPREENDER, 2014)
4 Referindo-se as pessoas que saem para o espaço público, para o dialogo, aquele que se coloca no espaço de pluralidade de opiniões.
ação pressupõe a liberdade dos cidadãos, esse agir livre, faculdade intrínseca do herói é perceptível na comunidade islã a partir do momento que se coloca no meio dos 'seus'. Outro pressuposto para que haja ataques terroristas além do se colocar a disposição é o da falta de dignidade, pois já mencionado a vida aqui não é valor absoluto.
A personagem do herói, pode ser levada à cultura trabalhada, pelo o fato de que aquelas pessoas que se implodem foram os reais corajosos, que foram a pluralidade e agem. O herói está nas pessoas de coragem, sem feitos heroicos, a cultura islâmica é uma cultura de ação política, característica para esse conceito arendtiano.
2 A irreflexão do terrorista
O trajeto feito até então no presente artigo justifica a partir de filósofos e do livro sagrado islâmico que essa cultura é genuinamente politica, e tem justificativas para fazer atos de terrorismo de forma razoável, os discursos são articulados e de racionalidade exuberante porém existem apontamentos que distorcem. Ainda com a pensadora Hannah Arendt, será colocado nestas linhas o pano de fundo da banalidade do mal, a irreflexão. A irreflexão é a causa de fazer atos de terrorismo sem o questionar-se, fazer apenas pelo o motivo de não ter mais a dignidade. No que se refere a obediência o livro sagrado tem um capitulo que afirma veementemente essa questão nas seguintes palavras “Obedeça a Deus e ao Mensageiro. Mas, se se recusarem - então, de fato, Deus não gosta dos descrentes”. (3:32) O corão pede um obedecer míope, e completa que tal deve ser também a Mohammad. Arendt culpa a acriticidade pelas as atrocidades humanas, na maneira singular a 'solução final' que assim como a cultural Islã aqui tem uma racionalidade por trás dos discursos, existia uma justificativa dentro do contexto nazista justo para que os judeus fossem mortos tal como no islã, existe uma justificativa racional para que homens coloquem bombas em seu corpo e explodirem.
Arendt na sua obra A vida do espírito diz sobre Eichmann “ nele não se encontrava sinal de firmes convicções ideológicas ou de motivações especificamente más, e a única característica notória que se podia perceber tanto
em seu comportamento anterior quanto durante o próprio julgamento e o sumário de culpa que antecedeu era algo de inteiramente negativo: Não era estupidez, mas irreflexão.”( ARENDT, 1992). Tal percepção que ela teve do acusado tem aplicabilidade em tempos hodiernos onde uma cultura religiosa que tem uma base política mas por meio do livro sagrado e da conjuntura social tira do indivíduo a capacidade de pensar, de refletir apontada como a mais digna do homem, pois esta faculdade fundamental unida com a oratória são os pressupostos para o o homem sair do 'oikos'.
Outra importante distinção feita é da consciência e do pensamento que mantém préstimo a cultura até aqui vista. A consciência tem relação com a ' experiência dos sentidos' o fato de serem meros atos voluntários, mas a autora completa o pensamento da seguinte maneira, estes são “cognitivos, ao passo que o ego pensante não pensa alguma coisa, mas sobre alguma coisa; e este ato é dialético: ele se desenrola sob forma de um diálogo silencioso”( ARENDT,1992). É importante aplicar diretamente ao islã pois estão vivendo o pensar sobre alguma coisa, daí as grandes atrocidades, e por que não citar a falta da sua dignidade.
3 Conclusão
Diante da exposição é possível perceber duas visões do Islã. Na primeira parte foi salientado a política islâmica no ponto de vista do filósofo Al-Farabi e o terrorista como uma figura destemida, aquele que é corajoso. Pode-se com essa afirmação ulterior perceber as sutilezas de um caro conceito para Arendt, o de herói. Primariamente foi explicitado tal conceito de maneira colaborativa com a comunidade islâmica, porém, o que realisticamente comprova-se é falta senso crítico e dissimilação de um pensamento só. Tal afirmação comprova-se por si a falseabilidade e inaplicabilidade de tal conceituação na comunidade Islã. Pode existir o destemido, nesta realidade, mas as motivações são diferentes do herói para à autora. Na segunda parte foi apresentado outro conceito Arendtiano, de irreflexão, e proposta uma visão do terrorista como pessoa que age pela consciência e não pelo pensar. Os conceitos recebem a tarefa de abarcar um grande nível intelectivo, esses são aplicados e cumprem o que foi proposto na visão filosófica. Eles abarcam a universalidade, no contexto proposto, a cultura islã. Estes foram dispostos afim de
refletir os dois lados do mesmo povo e criar percepções próprias 'herói ou incapaz de refletir' o terrorista foi colado assim nas discussões pretéritas. Porém o que se sobressai é a figura irreflexiva, própria da modernidade. O homem 'Eichmann' é incapaz de justificar suas ações, suas frases são frases feitas (Corão) e clichês, a chave para sair dessa cilada da modernidade é 'pensar alguma coisa' e não 'sobre alguma coisa'. Os homens modernos usam o pensamento para sobressair-se diante dos demais animais e 'pensamento' em conceitos arendtianos é ser capaz de ir e se colocar no lugar do outro e sentir o que o outro sente, será que os islâmicos estão pensando? Possivelmente eles não estão pensando, mas agindo como Eichmann de maneira acéfala sem nenhum senso de criticidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
AL-FÃRÃBI. Obras filosófico-políticas. ed. Bílingue árabe-espanhol, 1992.
ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária,2014.
______________. A vida do espirito: o pensar, o querer, o julgar. Rio de Janeiro: Relume Dumará, ed 1992.
______________.Eichmann em Jerusalém; Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras,1999.