1 EXMO. SR. DR. JUIZ DE DIREITO DA VARA DE FAMÍLIA, DA INFÂNCIA, DA JUVENTUDE E DO IDOSO DA COMARCA DE MAGÉ – RJ
(NOME DA REQUERENTE), brasileira, solteira, mantendo união estável, residente e domiciliada na Rua ******************, Santo Aleixo, Magé, RJ, CEP ****************, telefone ***************, não possuindo RG, CPF ou endereço eletrônico, vem, com fundamento na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), artigo VI; na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem (1948), artigo XVII; no Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (1966), artigo 16, artigo 24.2; na Convenção Americana sobre Direitos Humanos (1969) ou “Pacto de San José”, artigo 3º (direito ao reconhecimento da personalidade jurídica), artigo 18 (direito ao nome) e artigo 20 (direito à nacionalidade); nos artigos 1º e 5º, §§ 1º a 3º, da Constituição da República Federativa do Brasil; nos artigos 16 a 19 do Novo Código Civil; no artigo 46 da Lei 6.015/73; no Decreto Federal no. 6289, de 06.12.07; na Resolução DPGE no. 447, de 19.05.08; na Ordem de Serviço DPGE no. 75, de 28.07.08; requerer seja lavrado seu
REGISTRO TARDIO DE NASCIMENTO pelos seguintes fatos e fundamentos.
DA GRATUIDADE DE JUSTIÇA
Inicialmente, afirma que não tem condições de arcar com custas e despesas processuais e honorários advocatícios sem prejuízo do próprio sustento e de sua família, razão pela qual faz jus à gratuidade de justiça e à assistência jurídica integral e gratuita, indicando a Defensoria Pública para o patrocínio de seus interesses, na forma dos arts. 98 e seguintes e 185 e seguintes do NCPC e dos arts. 5º, LXXIV, e 134 da Constituição Federal.
2 A requerente nasceu em _________, no Município de _______________________, sendo filha de ********************** e ************************, não tendo sido promovido seu registro de nascimento por desconhecimento de seus pais, pessoas humildes e de pouca instrução.
Quando contava cerca de ___________________, a requerente mudou-se com os pais para a cidade de ____________________, localidade de ____________, onde permaneceu até a idade de ___________.
Nesta ocasião, a autora deixou a casa dos pais para viver com o primeiro companheiro, ______________, com o qual veio a ter _____ filhos. Inicialmente, o casal estabeleceu-se na cidade de __________, Estado de __________, onde viveu por cerca de _________, mudando-se, posteriormente, para ____________, Estado do ____________, onde a família residiu por aproximadamente ________ anos.
Em seguida, a requerente voltou a residir em ___________, onde permanece até a atualidade, observando-se que, após o falecimento do __________, veio a constituir nova união com o Sr. ___________.
Após buscas cartorárias realizadas, de acordo com as certidões negativas em anexo, verifica-se que a requerente jamais teve seu registro de nascimento lavrado em qualquer das referidas localidades.
Ocorre que, no passado, necessitando de documentos pessoais para tratamento de saúde próprio e dos filhos, a requerente recebeu do ___________, certidão de casamento, sendo informada de que poderia usá-la para providenciar seus documentos pessoais.
Acreditava a demandante, pessoa analfabeta, sem acesso à instrução, que se tratava de sua própria certidão de casamento com o Sr. __________. De fato, este informou à requerente que se tratava de documento da própria, vindo esta a confiar na informação recebida, passando a usar tal documento em sua vida civil, obtendo então a emissão de carteira de identidade, CPF e carteira de trabalho.
Tardiamente, a requerente veio a constatar que havia sido induzida a erro pelo companheiro e pai de seus _______ filhos, já que a certidão de casamento que havia utilizado pertencia, na verdade, a seus cunhados, a saber, ao irmão do Sr. _________ e à esposa deste.
Por tal razão, constam os nomes de _________ e __________ dos registros de nascimento dos quatro filhos da requerente com seu companheiro ___________.
Recentemente, quando a demandante buscou obter benefício previdenciário junto ao INSS, foi constatada a duplicidade de cadastros com o nome ___________, ensejando apuração criminal, a qual culminou na condenação da requerente em primeira instância por falsidade ideológica e uso
3 de documento falso, com fixação de penas restritivas de direitos (documentos em anexo). Com isso, foram retidos os documentos antes utilizados pela demandante.
Vê-se que a requerente não possui qualquer documento pessoal de identificação, necessitando do registro tardio de nascimento para que passe a existir formalmente, no âmbito civil, de modo a permitir a emissão dos demais documentos necessários ao exercício de seus direitos e à própria cidadania.
Portanto, outra solução não resta à requerente senão recorrer à via judicial, a fim de que seja determinada a lavratura de seu registro de nascimento tardio, de modo a sanar os sérios transtornos sofridos e o impedimento para exercer regularmente os atos da vida civil.
DO DIREITO
O registro de nascimento é a primeira identificação da pessoa e, por isso, constitui a origem de sua existência frente ao Estado, como cidadã. Considerando que o reconhecimento do direito à identidade é um dos meios pelos quais se facilita o exercício dos direitos à personalidade jurídica, ao nome, à nacionalidade, à inscrição no registro civil e às relações familiares, ele é, portanto, essencial para a participação em uma sociedade democrática1.
A doutrina do Direito Civil Constitucional indica que “para as pessoas físicas, o nome, e mais limitadamente, o sobrenome, mais que direitos isoladamente vistos, são manifestações de uma situação global, estritamente relacionada ao perfil unitário da personalidade.”2
É por esta razão que o professor italiano Adriano de Cupis classifica o direito ao nome como um dos aspectos do direito à identidade pessoal, que é direito da personalidade.
“O indivíduo, como unidade da vida social e jurídica, tem necessidade de afirmar a própria individualidade, distinguindo-se dos outros indivíduos, e, por conseqüência, ser conhecido por quem é na realidade. O bem que satisfaz esta necessidade é o da identidade, o qual consiste, precisamente no distinguir-se das outras pessoas nas relações sociais. [...] Entre os meios através dos quais pode realizar-se o referido bem, tem um lugar proeminente o nome, sinal verbal que identifica imediatamente, e com clareza, a pessoa a quem se refere3”.
1 AG/RES. 2286 (XXXVII-0/07), aprovada na quarta sessão plenária, realizada em 5 de
junho de 2007, dispõe sobre o Programa Interamericano de Registro Civil Universal e Direito à Identidade da Organização dos Estados Americanos (OEA).
2 PERLINGIERI, Pietro. Perfis do Direito Civil: Introdução ao Direito Civil Constitucional.
Trad. Maria Cristina de Cicco. Rio de Janeiro: Editora Renovar, 1999, p. 180.
3 CUPIS, Adriano de. Os Direitos da Personalidade. São Paulo: Romana Jurídica Editora,
4 No plano internacional da proteção dos direitos humanos, o direito à identidade é interdependente ou imanente de outros direitos, como o direito a ser registrado, o direito ao nome, o direito à nacionalidade, o direito à personalidade jurídica e também os direitos vinculados à família e à sucessão. Por tal motivo, a Corte Interamericana de Direitos Humanos interpreta que o direito à identidade “foi reconhecido pela jurisprudência e pela doutrina tanto como direito autônomo quanto como expressão de outros direitos ou como um elemento constitutivo destes”.4
Sob esta concepção, com o exercício do direito à identidade, existe maior garantia de acesso a outros direitos políticos e civis (como o direito a votar, à igualdade diante da lei, à família) e direitos econômicos, sociais e culturais (como saúde e educação).
São diversos os instrumentos internacionais de tutela da pessoa humana que compõem o corpus iuris atinente a esta matéria, podendo-se citar, exemplificativamente, no panorama global: a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), artigo VI (“Todo ser humano tem direito, em todas as partes, ao reconhecimento de sua personalidade jurídica”); o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (1966), artigo 16 (“Toda pessoa terá o direito, em qualquer lugar, ao reconhecimento de sua personalidade jurídica”), artigo 24.2 (“Toda criança deverá ser registrada imediatamente após o seu nascimento e deverá receber um nome”).
No panorama regional, a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem (1948), artigo XVII (“Toda pessoa tem o direito de ser reconhecida, seja onde for, como pessoa com direitos e obrigações, e a gozar dos direitos civis fundamentais”); a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (1969) ou “Pacto de San José”, artigo 3º (direito ao reconhecimento da personalidade jurídica: “Toda pessoa tem direito ao reconhecimento de sua personalidade jurídica”), artigo 18 (direito ao nome: “Toda pessoa tem direito a um prenome e aos nomes de seus pais ou ao de um desses. A lei deve regular a forma de assegurar a todos esse direito, mediante nomes fictícios, se for necessário.”) e artigo 20 (direito à nacionalidade: “1. Toda pessoa tem direito a uma nacionalidade.”), c/c art. 5º, §§ 1º a 3º, da Constituição da República Federativa do Brasil, que prevê a adoção pelo Brasil das normas desses tratados e declarações dos quais foi signatário e que preencheram os requisitos formais de incorporação perante a lei interna.
No direito brasileiro, a posição da cidadania e da dignidade da pessoa humana como fundamentos da República (Constituição Federal, art. 1°, II e III), juntamente com as garantias de igualdade material (art. 3°, III) e formal (art.
6 ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS. Corte Interamericana de Direitos
Humanos, Caso das Irmãs Serrano Cruz vs. El Salvador, Sentença de 23 de novembro de 2004. Neste mesmo caso, a Corte indica que “o direito à identidade está estreitamente ligado ao direito ao reconhecimento da personalidade jurídica, ao direito a ter um nome, uma nacionalidade, uma família e a manter relações familiares.”. Disponível em: www.oas.org. Acesso em 19 de junho 2008.
5 5°), condicionam o intérprete e o legislador ordinário, modelando todo o tecido normativo infraconstitucional com a tábua axiológica eleita pelo constituinte, e marcam a presença, em nosso ordenamento, de uma cláusula geral da personalidade. Tal cláusula geral representa o ponto de referência para todas as situações nas quais algum aspecto ou desdobramento da personalidade esteja em jogo, estabelecendo com decisão a prioridade a ser dada à pessoa humana, que é o valor fundamental do ordenamento, e está na base de uma série (aberta) de situações existenciais, nas quais se traduz a sua incessantemente mutável exigência de tutela.5
No panorama infraconstitucional, o Código Civil brasileiro, nos artigos 16 a 19, regula o direito ao nome, que abrange o direito ao prenome e ao sobrenome. Considerando que a materialização do direito ao nome se dá com o ato registral do fato nascimento, ele – a despeito de ser um direito essencial da personalidade – não é um direito inato, nos moldes da lição de Adriano de Cupis:
“Indubitavelmente, não se pode falar de direito inato a respeito do nome próprio: ato pelo qual é conferido, por ser obrigatório e por dever ter lugar dentro de um breve prazo a partir do nascimento (...), não afasta por isso a própria essência do ato do homem, e, para que o sujeito o adquira, é necessário que, além do pressuposto da personalidade jurídica, exista tal ato. (...)
O direito ao nome é, portanto, um daqueles direitos da personalidade que não são inatos. É um direito essencial, mas não inato.” 6
Surge, então, o direito de adquirir um nome, a qualquer tempo, após o fato nascimento. Todas as vezes em que não ocorre o registro do nascimento de um indivíduo em tempo oportuno, poderá este, segundo o art. 46 da Lei 6.015/737, fazê-lo tardiamente, densificando-se o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana, corolário do Estado Democrático de Direito.
5 DONELA, Danilo. Os direitos da personalidade no novo Código Civil. In: TEPEDINO,
Gustavo (Coord.). A parte geral do Novo Código Civil: Estudos na perspectiva civil-constitucional. Rio de Janeiro: Renovar, 2003, p. 46.
6 CUPIS, Adriano de. Os Direitos da Personalidade. São Paulo: Romana Jurídica Editora,
2004, p. 200.
7 Art. 46. As declarações de nascimento feitas após o decurso do prazo legal serão
registradas no lugar de residência do interessado. (Redação dada pela Lei nº 11.790, de 2008).
§ 1o O requerimento de registro será assinado por 2 (duas) testemunhas, sob as penas da lei. (Redação dada pela Lei nº 11.790, de 2008).
§ 2º (Revogado pela Lei nº 10.215, de 2001)
§ 3o O oficial do Registro Civil, se suspeitar da falsidade da declaração, poderá exigir prova suficiente. (Redação dada pela Lei nº 11.790, de 2008).
§ 4o Persistindo a suspeita, o oficial encaminhará os autos ao juízo competente. (Redação dada pela Lei nº 11.790, de 2008).
§ 5º Se o Juiz não fixar prazo menor, o oficial deverá lavrar o assento dentro em cinco (5) dias, sob pena de pagar multa correspondente a um salário mínimo da região.
6 Registre-se, por oportuno, que o Decreto Federal no. 6289, de 06.12.2007, estabelece o “Compromisso Nacional pela Erradicação do Sub-registro Civil de Nascimento e Ampliação do Acesso à Documentação Básica, com o objetivo de conjugar esforços da União, Estados, Distrito Federal e Municípios visando erradicar o sub-registro civil de nascimento no País e ampliar o acesso à documentação civil básica a todos os brasileiros” (art. 1o
), de modo que convoca a todos os “entes, públicos e privados, tais como organizações sindicais e da sociedade civil, fundações, entidades de classe, empresariais, igrejas e entidades confessionais, famílias, pessoas físicas e jurídicas que se mobilizem para a erradicação do sub-registro no País e ampliação do acesso à documentação civil básica” (art. 4o
).
Atendendo ao chamado de efetivação de direitos, a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro criou, via Resolução DPGE no. 447, de 19.05.2008, a campanha institucional permanente de acesso à Justiça que, no ano de 2008, teve como tema “Cidadão tem nome e sobrenome: pela erradicação do sub-registro civil de nascimento e ampliação do acesso à documentação básica”.
Por força do art. 4º da Resolução DPGE no. 447/08, todos os órgãos da Defensoria Pública participam da campanha e têm, em 2008, atribuição para ação de registro tardio e expedição de quaisquer ofícios de gratuidade (art. 3º, da Ordem de Serviço DPGE no. 75, de 28.07.2008).
Cabe salientar a incongruência da exigência geral de prova negativa de anterior registro civil de nascimento como pressuposto do direito à identidade.
A despeito de a lei federal de registros públicos referir-se à possibilidade de exigência de prova suficiente da alegada inexistência de registro, essa hipótese é excepcional, conforme deflui da dicção do art. 46, § 3º: “O oficial do Registro Civil, se suspeitar da falsidade da declaração, poderá exigir prova suficiente.”
Além disso, deve vir devidamente fundamentada a suspeita, sob pena de violação do art. 93, IX, da C.R.F.B.
Por outro lado, a prova negativa neste caso, além da ilegalidade já referida, guarda uma contraditio, já que a fixação da área territorial da pesquisa nunca esgotará, com grau de certeza, todas as possibilidades de busca. Imagine-se uma busca por município, que não exclui uma mais ampla nos municípios contíguos, que por sua vez, é inferior em grau de abrangência a uma busca cartorária negativa em todo o Estado. Esta também será ultrapassada em certeza por uma busca por todo o país ou pelo continente.
Desse modo, só se justifica a busca cartorária de registro de nascimento se houver indícios razoáveis de que a pessoa foi registrada no aludido local e estaria tentando fraudar a lei no momento em que pleiteia um registro tardio. Em caso contrário, não se pode impor à parte o ônus excessivo da
7 prova negativa de registro civil de nascimento, sob pena de se negar efetividade ao direito humano da personalidade consistente no direito à identidade.
DO PEDIDO
Isto posto, requer a V.Exa., observada prioridade na tramitação do feito por ser a requerente IDOSA:
a) A concessão da gratuidade de justiça integral; b) A oitiva do ilustre membro do Ministério Público;
c) A procedência do pedido, para que seja acolhido o requerimento judicial registral, determinando-se a lavratura do REGISTRO TARDIO DE NASCIMENTO da requerente, expedindo-se mandado de registro ao Cartório do RCPN competente, do qual deverão constar os dados abaixo:
Nome: Naturalidade: Nascimento: Filiação: Avós paternos: Avó materna:
d) Ao final, a expedição de ofício ao DETRAN/RJ, para que, realizada a identificação datiloscópica da requerente, seu antigo cadastro e documento de identidade, vinculados ao registro de casamento de CREUZA, passem a ser vinculados ao registro de nascimento tardio a ser lavrado em nome da REQUERENTE.
Indica todos os meios de prova em Direito admitidos, notadamente documental suplementar, testemunhal e pericial.
Atribui à causa o valor de R$ 1.000,00. Nestes termos,
Pede deferimento.
Magé, 11 de maio de 2017
8 ROL DE TESTEMUNHAS, que comparecerão mediante intimação:
1 – MARIA, residente na ************************************************; 2 – LUIZ, residente na *****************************************;
9 ROL DE DOCUMENTOS EM ANEXO