Gregg Moore
50 anos a animar o jazz
E como Gregg comemorou os seus 50 anos, no passado dia 29 de Agosto, deixo as suas palavras na introdução da entrevista.
“ Portanto . . . . vou fazer 50 anos esta semana, no mesmo dia em que Michael Jackson fará 40 e Charlie Parker faria 73 . . . . quinta-feira . . . e infelizmente, porque parece, pelo menos no meu próprio caso, que 50 anos não chegam para conseguir num nível financeiro que possa permitir uma festa na escala que sempre imaginei . . . com milhares de amigos de todo o mundo e muita música (tudo vivo, claro) e teatro num lugar bonito. Uma festa mesmo
memorável . . . .
Mas, felizmente, os meus bons amigos da Câmara de Fundão organizam , convenientemente, um festival, basicamente das
minhas ideias para um futuro das bandas e música de sopros, nos 4 dias a seguir a dia 29. Um festival totalmente acústico (imagine!) com 3 grupos meus a tocar e pela a primeira vez (!) 4 bandas do concelho de Fundão vão tocar música que escrevi especialmente para eles.
Isto tudo vai ser na aldeia histórica de Castelo Novo no lado sul da Serra de Gardunha do Fundão, a aldeia mais bonita e preciosa imaginável que vai festejar 800 anos do Foral de Alpreada (nome antigo de Castelo Novo) e o programa é o seguinte …”
A 30 de Agosto, Os Macacos das Ruas de Évora; a 31 de Agosto o mesmo grupo mas com a Filarmónica de Peroviseu, o grupo União Santa Cruz, a Banda Filarmónica de Silvares, a Banda da
Liga dos Amigo de Castelo Novo, os Sinos do Castelo e vários
artistas locais; a 1 de Setembro a Fanfarra Mand’je e a 2 de Setembro a Banda Nova.
É de louvar esta iniciativa, pela ligação entre culturas e estilos musicais diversos, onde o objectivo é pôr a música entre as gentes ultrapassando gerações e diferenças sociais, numa comunhão sincera com a alma do nosso povo. Está de parabéns a Câmara Municipal do Fundão e o vereador Paulo Fernandes por terem entusiasticamente apoiado este projecto.
O Músico
Gregg veio dos blues e do rock da Califórnia e na Universidade de Utah teve contacto com Clark Terry, Pat Williams, Billy Byers e Frank Zappa, abrindo assim novos horizontes musicais.
Viveu 20 anos na Holanda e aí participou em vários importantes grupos como: Available Jelly, ReMoTobs, Loos, Dog Troep e Willem Breuker Kolectiv, com o qual permaneceu durante seis anos.
Foi responsável pelos espectáculos de multi-média “Vitaal Fataal”, “Het Pesthuislaaen” e “Mayde in Holland”, um projecto que envolveu 250 músicos. Desde 1994 fixou-se em Évora onde é responsável pela Orquestra de Música Ligeira da Escola Profissional de Évora, é professor de trombone no Departamento de Música da Universidade de Évora, é ainda coordenador das aulas e oficinas da Fábrica de Música em Évora.
Tocou e gravou com Ena Pá 2000, Cool Hipnoise, Tim Tim por Tim Tum, Nuno Rebelo, Jorge Palma, Baldo Martinez e Laurent Filipe.
A Música
Os Macacos de Évora, um grupo de animação de rua.
Banda Nova – Uma pequena banda filarmónica constituída pelos instrumentos típicos das bandas filarmónicas.
Fanfarre Mand’je – Um grupo que junta a sonoridade dos sopros às percussões de raízes africanas.
Metaalla Eborae – Um quarteto de instrumentos de metais, que interpretam a música da Sé de Évora.
Trio Fulutchin – Um trio de tuba (baixo Eléctrico), saxofone (voz) e bateria.
As propostas Músicais
Um Mundo das Bandas – Este projecto é desenhado para trazer
músicos das Bandas Portugueses para um contacto mais estreito com a música de outras culturas. Foram escolhidas sete tradições na representação dos cinco continentes: Índia, Indonésia, Sérvia, África Ocidental, Bolívia, Suriname e Brasil.
Projecto de “Street Bands” – Este projecto consiste em preparar
um grupo de animação de rua, de cinco a dez músicos, com o intuito de criar uma música viva e divertida. O reportório inclui música folclórica, jazz e música de circo.
Projecto Inter-Disciplinar de Cultura para uma Comunidade –
Com esta proposta pretende-se reunir artistas de palco – músicos, actores, poetas, contadores de histórias e bailarinos num espectáculo de uma hora de duração, tendo com principal objectivo a ligação entre as várias formas de expressão, num reflexo directo com a cultura da região.
A entrevista
1º instrumento: trombone
1ª aula de música: não lembro, deve ter sido o meu pai 1º professor: pai
1º concerto: não me lembro
1º cachet: talvez em 1966 c/ grupo de blues 1º festival: festivais de ‘big bands’ escolares
1ª composição: não lembro, qualquer coisa no piano c/10 anos 1ª gravação: não me lembro, foram tantas
1º disco: ainda não há
1ª internacionalização: 1975 c/Great Salt Lake Mime Troupe,
Festival of Fools, Amesterdão, NL
1º O que pensas no primeiro dia de cada ano: Espero que a vida
melhore
JJ – Como foi o teu contacto com o jazz?
Através do meu pai, um grande músico que percebeu a importância das todas as formas de música. As sessões de ensaio de ele incluiam concertos de flauta de Mozart e temas de jazz no piano, no clarinete e no saxofone.
JJ – É difícil tocar jazz?
É difícil tocar qualquer tipo de música bem. Até o pimba . . . penso eu . . . mesmo que nunca tenha tocado pimba. Acho que é difícil fazer qualquer coisa bem.
JJ – Quem foi o teu professor no teu contacto com o jazz?
O meu pai. Também o professor da música instrumental no ‘High School’ (escola secundária na América) era um trombonista e veterano da época dos ‘swing bands’ nos anos 30 e 40
JJ – O que falta fazer em termos pedagógicos pelo jazz em Portugal?
Ai, ai, ai . . temos algumas semanas? A coisa maior que falta é uma percepção básica do que é a música jazz. Este ‘pedagogia’ de jazz, é qualquer coisa baseada na intenção de alguns carolas da música que sabem como o ‘jazz’ funciona e analisam a música até à morte. Ficam com algumas ‘verdades’ sobre a construção - harmónica e rítmica e pensam que podem ensinar outros a tocar da mesma maneira. Mas fica ignorado totalmente o aspecto de ‘feeling’, do sentimento desta música o que cria uma imagem com a música clássica de qualquer coisa que originalmente era cheio de criatividade. E ficamos com músicos de jazz ‘formados’ todos com a mesma linguagem, ‘licks’, conhecimento e faltam as ideias originais. A pedagogia de ‘jazz’ esquece que todos os mestres que estudaram nunca aprenderam numa escola de ‘jazz’. A arte de Lester Young, Satchmo (Louis Armstrong), Charlie Christian, Coltrane, Bird, Monk, Ellington e tantos outros, cresceu do convívio diário e de muita audição de discos. Foi uma música baseada nas tradições folclóricos americanas – canções dos escravos, de ‘Broadway’, etc. Não havia um ‘repertório’ de jazz até os formadores colocarem o ‘Real Book’ e embora esta ‘formação’ e repertório ajudem a aprender algumas coisas sobre a história de ‘jazz’, acho um engano confundir este passado histórico, com a actualidade duma música que deve ser totalmente criativa e aberta para ideias novas. É interessante notar que os músicos mais responsáveis para a progressão da música desde os anos 50, gente como Cecil Taylor, Ornette Coleman, Lester Bowie e o Art Ensemble of Chicago, Don Cherry, Dewey Redman, Charlie Haden, Sam Rivers, etc. são isentos de análise dos pedagogistas e nunca entram nas aulas de ‘jazz’. Mas não é surpreendente porque estas pessoas tratam com as qualidades do sentimento e da exploração da música que resiste a análises.
JJ – É difícil para um músico estrangeiro tocar em Portugal?
É mais difícil tentar ser um músico criativo em Portugal. A história infeliz (os anos de Estado Novo) deste país tão bonito não deixa
muito interesse na exploração de direcções criativas. Em termos de músicos estrangeiros em Portugal acho que todos os músicos clássicos refugiados dos países Leste que participam nos conservatórios e orquestras portuguesas têm vidas muito mais fáceis em Portugal, muito mais do que alguém como eu, que está aqui num interesse genuíno pela música portuguesa e pelas suas tradições.
JJ – Como nasceram “Os Macacos das Ruas de Évora”?
Com a minha chegada à Europa fiquei com muito experiência de tocar nas ruas e sempre achei a rua como um palco. Gosto de surpreender gente com música ambulante e a ideia de levar a música para um público em vez de vice-versa. E quando cheguei à Escola Profissional de Música de Évora, tomei o meu trabalho como professor sério, e criei com alguns alunos formas alternativas de actuação. Numa época de Natal vendi a ideia à Câmara de Évora dum grupo tocando música de Natal para animar as ruas da cidade. Porque eram jovens sem qualquer ideia de responsabilidade e foi impossível contar com eles mesmo estando pagos, chamei-lhes ‘Macacos’. Só mais tarde descobri que há 500 anos, macaco era um animal de estimação e relativamente comum em Évora.
JJ – Como reagem as pessoas em Portugal à animação de rua? Infelizmente, o povo português não tem um sentido de humor muito desenvolvido e eu sei que vou zangar muito gente dizendo isto, mas porque já vi o palhaço nacional (Herman José) dizendo a mesma coisa acho que posso ser honesto. Eu lembro-me de um dia quando ainda tinha um grupo de alunos, tocávamos a parte de manhã nas ruas de Badajoz para muito gente muito feliz com grande sorrisos. Os ‘niños’ riam-se e puxavam os nossos rabos (nas ruas tocamos vestido em rabos peludos) e a parte de tarde tocávamos numa pic-nic para um partido político (PS, acho eu) em Barreiros para gente tão séria, que nos olhavam de uma maneira muito estranha, sem um sorriso enquanto as crianças corriam e gritavam. Mas, felizmente, posso relatar que a capacidade dos portugueses para rir está melhorar todos os anos. Mas ainda temos muito trabalho fazer . . . .
JJ – O que pensas do circuito de festivais em Portugal?
Festivais de jazz? Acho que são bons e estão a chegar no nível dos melhores festivais do resto da Europa. Alguns festivais têm uma programação muito avançada em termos de apresentação das
ideias novas. Rui Neves para Jazz em Agosto e Ivo Martins em Guimarães por exemplo, estão muito acima das ondas novas na música e merecem grandes palmas pela coragem deles em programar concertos fora do ‘mastreada.
JJ – Como reagem as autarquias ou os centros culturais a propostas para concertos de jazz?
Para as minhas propostas a reacção não é muita boa. Para muito programadores pensam que o ‘jazz’, é uma música que vêm de Lisboa ou E.U.A. e não querem saber de nada que venha de Évora. Antigamente tive algum respeito pelos animadores na C.M. de Évora e fiz alguns projectos interessantes, mas desde a mudança de autarquia que o resultado tem sido péssimo.
JJ – Qual deveria ser o papel das escolas de música e dos conservatórios perante o desenvolvimento das novas músicas, o jazz, o rock, etc…
As escolas e conservatórios deveriam tratar com qualquer música que não é a música de Norte de Europa de Sec. XIX. O ensino da música em Portugal é uma brincadeira e não serve ninguém. A formação dos profissionais são dirigidas para os poucos espaços nas Orquestras (e estão enchido sempre pelo mais competente russos polacos e búlgaros) ou as Bandas militares. Estes alunos dos conservatórios, não sabem nada de ritmo, não sabem escutar, não percebem a importância de sentimento em música, não sabem nada de harmonia, não sabem improvisar, são apenas técnicos. Realmente estou a ouvir muito interesse em criar uma escola responsável e moderna em Portugal. Jovens interessados em música percebem muito bem o estado neanderthalico de educação musical em Portugal mas não tenho grandes esperanças dos dinossauros no Ministério de Educação permitirem o ensino de qualquer coisa útil em música. É uma situação triste, é o mesmo que pensar em ensinar médicos só com as técnicas de século XIX, ficamos com músicos formados só com os valores musicais dos séculos passados. Mas talvez haja esperança, o Carlos Azevedo tem uma big band na Escola Superior de Música do Porto e não está escondido por baixo das escadas.
JJ – Quais as oportunidades para um músico de jazz gravar?
Acho que são poucas. Laurent Filipe tem problemas em gravar os projectos dele, realmente não há grandes oportunidades para gravar ‘jazz’ em Portugal.
JJ – Tens comprado alguns discos de jazz de músicos portugueses?
Não.
JJ – Quais os teus trombonistas ou tubistas preferidos?
Ray Anderson, Bob Stewart, Yves Robert, Wolter Wierbos, George Lewis, Joe Daley e os sousafonistas das bandas de Sinaloa, Mexico.
JJ – Se pudesses escolher músicos internacionais para formar a tua própria banda, por quem optarias?
O que? Além dos grupos que já tenho em Portugal que são quase todos músicos estrangeiros como Johannes Krieger, Lars Arens (ambos alemães) , Corrado Florridia (Italia), Alípio Carvalho Neto (brasil), Jean-Marc Charmier (frança)?
JJ – Ao longo da tua carreira, quais os músicos de jazz com quem gostaste mais de trabalhar?
Bruce Fowler era uma grande inspiração na universidade, Willem Breuker e uma grande combinação de homem de negócios e criador. O meu irmão era usualmente uma grande prazer (não sempre . . )
JJ – Projectos Futuros?
Descobrir a utilidade social dum músico criativo. Estou a ver a tradição das bandas como um grande oportunidade para juntar as pessoas num trabalho colectivo e criativo que não são competitivos. Mas as bandas em Portugal são talvez a
entidade cultural mais conservadora que temos, é quase impossível entrar no mundo deles
JJ – Qual a pergunta que faltou nesta entrevista? Nada , penso que perguntaste tudo.