Coordenação-Geral de Tributação
Solução de Consulta nº 40 - Cosit
Data 16 de janeiro de 2017
Processo Interessado CNPJ/CPF
Assunto: IMPOSTO SOBRE A RENDA DAS PESSOAS JURÍDICAS (IRPJ)
LUCRO PRESUMIDO. RECEITA BRUTA. VALORES
PERTENCENTES A TERCEIROS. EXCLUSÃO.
Para fins de apuração do lucro presumido, a receita bruta compreende o produto da venda de bens nas operações de conta própria; o preço da prestação de serviços em geral; o resultado auferido nas operações de conta alheia, e as demais receitas da atividade ou objeto principal da pessoa jurídica. Recursos recebidos para administração por conta e ordem e em benefício de terceiros, não compõem a receita bruta.
Dispositivos Legais: Lei nº 8.981, de 1995, art. 31; Lei nº 9.430, de 1996, arts. 1º e 25; Lei nº 12.973, de 2014, art. 2º; Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 12.
Assunto: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO (CSLL)
LUCRO PRESUMIDO. RECEITA BRUTA. VALORES
PERTENCENTES A TERCEIROS. EXCLUSÃO.
Para fins de apuração do lucro presumido, a receita bruta compreende o produto da venda de bens nas operações de conta própria; o preço da prestação de serviços em geral; o resultado auferido nas operações de conta alheia, e as demais receitas da atividade ou objeto principal da pessoa jurídica. Recursos recebidos para administração por conta e ordem e em benefício de terceiros, não compõem a receita bruta.
Dispositivos Legais: Lei nº 8.981, de 1995, art. 31; Lei nº 9.249, de 1995, art. 20; Lei nº 9.430, de 1996, art. 29; Lei nº 12.973, de 2014, art. 2º; Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 12.
Relatório
Trata-se de consulta, protocolada em 18/9/2014, a respeito da interpretação da legislação tributária federal, no que se refere à incidência de Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), relativamente a valores transferidos à consulente para administração e aplicação em benefício de terceiros.
2. A consulente, informando atuar no segmento esportivo, destaca entre suas atividades um contrato de prestação de assessoria a uma entidade desportiva norte-americana, para fins de realização de eventos esportivos na cidade do Rio de Janeiro em 2016.
3. Explana que, para concretização desse objetivo, atuará como intermediária em contrato pelo qual a entidade americana destinará recursos para a realização de obras e reformas nas instalações de um clube desportivo brasileiro, com o fim de viabilizar os referidos eventos esportivos.
4. Segundo descreve, nos termos contratados, a consulente será responsável pela administração da execução dos serviços por terceiros, mediante recebimento dos recursos do investidor, e a aplicação desses recursos será exclusivamente para o pagamento de materiais e serviços a serem executados na entidade XXX, associação civil, sem fins lucrativos, domiciliada no Estado do Rio de Janeiro-RJ.
5. Acrescenta que, pelo serviço descrito, perceberá uma remuneração a ser paga pela entidade desportiva americana, objeto de contrato específico com esta.
6. Faz referência às normas tributárias sobre a composição da base de cálculo do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e da Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido (CSLL), sob a modalidade de apuração do lucro presumido. Esclarecendo submeter-se a essa sistemática, destaca o conceito de receita bruta para fins de apuração das exações citadas, contido no art. 31 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995.
7. Menciona que, com a entrada em vigor da Lei nº 12.973, de 13 de maio de 2014, o conceito de receita bruta para apuração do lucro presumido passou a ser o previsto no Decreto-Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, com sua nova redação.
8. Apresenta entendimento de que os valores recebidos, conforme descrito, não possuem natureza de receita e, portanto, não devem compor a base de cálculo dos tributos mencionados.
Em face do que expõe, questiona:
a) Se os valores a serem repassados à consulente, pela entidade desportiva americana, para aplicação nas obras e reformas das instalações do clube de futebol brasileiro, são enquadrados no conceito de receita bruta para fins de apuração do IRPJ e da CSLL sob o regime do lucro presumido, de acordo com a legislação em vigor antes e partir de 2015;
b) Se os referidos valores estão sujeitos à tributação pelos IRPJ e CSLL pela consulente.
9. Por fim, presta as declarações previstas no art. 3º, § 2º, inciso II da Instrução Normativa RFB nº 1.396, de 16 de setembro de 2013.
Fundamentos
10. O presente processo de consulta tem seu regramento básico estatuído nos arts. 46 a 53 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, e nos arts. 48 a 50 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996. Sua regulamentação deu-se por meio do Decreto nº 7.574, de 29 de setembro de 2011.
11. No âmbito da Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) a matéria é normatizada pela IN RFB nº 1.396, de 16 de setembro de 2013.
12. Satisfeitos os requisitos de admissibilidade previstos na IN RFB nº 1.396, de 2013, a presente consulta deve ser solucionada.
13. Relativamente às regras de apuração do IRPJ e da CSLL sob o regime do lucro presumido, citam-se os seguintes dispositivos, na forma anterior à edição da Lei nº 12.973, de 13 de maio de 2014:
Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996:
Art. 1º A partir do ano-calendário de 1997, o imposto de renda das pessoas
jurídicas será determinado com base no lucro real, presumido, ou arbitrado, por períodos de apuração trimestrais, encerrados nos dias 31 de março, 30 de junho, 30 de setembro e 31 de dezembro de cada ano-calendário, observada a legislação vigente, com as alterações desta Lei.
(...)
Art. 25. O lucro presumido será o montante determinado pela soma das seguintes
parcelas:
I - o valor resultante da aplicação dos percentuais de que trata o art. 15 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, sobre a receita bruta definida pelo art. 31 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995, auferida no período de apuração de que trata o art. 1º desta Lei;
II - os ganhos de capital, os rendimentos e ganhos líquidos auferidos em aplicações financeiras, as demais receitas e os resultados positivos decorrentes de receitas não abrangidas pelo inciso anterior e demais valores determinados nesta Lei, auferidos naquele mesmo período.
(...)
Art. 29. A base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido, devida
pelas pessoas jurídicas tributadas com base no lucro presumido ou arbitrado e pelas demais empresas dispensadas de escrituração contábil, corresponderá à soma dos valores:
de receitas não abrangidas pelo inciso anterior e demais valores determinados nesta Lei, auferidos naquele mesmo período.
(...)
Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995:
(...)
Art. 20. A base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido, devida
pelas pessoas jurídicas que efetuarem o pagamento mensal a que se referem os arts. 27 e 29 a 34 da Lei no 8.981, de 20 de janeiro de 1995, e pelas pessoas jurídicas desobrigadas de escrituração contábil, corresponderá a doze por cento da receita bruta, na forma definida na legislação vigente, auferida em cada mês do ano-calendário, exceto para as pessoas jurídicas que exerçam as atividades a que se refere o inciso III do § 1o do art. 15, cujo percentual corresponderá a trinta e dois por cento. (Redação dada Lei nº 10.684, de 2003) (Vide Medida Provisória nº 232, de 2004) (Vide Lei nº 11.119, de 2005)
(...)
14. A definição de receita bruta, para fins de apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL sob a sistemática do lucro presumido, foi veiculada pelo art. 31 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995:
Art. 31. A receita bruta das vendas e serviços compreende o produto da venda de
bens nas operações de conta própria, o preço dos serviços prestados e o resultado auferido nas operações de conta alheia.
Parágrafo único. Na receita bruta, não se incluem as vendas canceladas, os descontos incondicionais concedidos e os impostos não-cumulativos cobrados destacadamente do comprador ou contratante dos quais o vendedor dos bens ou o prestador dos serviços seja mero depositário.
15. A partir de 2015, com a entrada em vigor da Lei nº 12.973, de 13 de maio de 2014, os dispositivos citados passaram a ter a seguinte redação:
Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996:
(...)
Art. 25. O lucro presumido será o montante determinado pela soma das seguintes
parcelas:
I - o valor resultante da aplicação dos percentuais de que trata o art. 15 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, sobre a receita bruta definida pelo art. 12 do Decreto-Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, auferida no período de
apuração de que trata o art. 1o, deduzida das devoluções e vendas canceladas e
dos descontos incondicionais concedidos; e (Redação dada pela Lei nº 12.973,
de 2014) (Vigência)
II - os ganhos de capital, os rendimentos e ganhos líquidos auferidos em aplicações financeiras, as demais receitas, os resultados positivos decorrentes de receitas não abrangidas pelo inciso I, com os respectivos valores decorrentes do
ajuste a valor presente de que trata o inciso VIII do caput do art. 183 da Lei no
auferidos naquele mesmo período. (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência)
(...)
Art. 29. A base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido, devida
pelas pessoas jurídicas tributadas com base no lucro presumido ou arbitrado e pelas demais empresas dispensadas de escrituração contábil, corresponderá à soma dos valores:
I - de que trata o art. 20 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995;
II - os ganhos de capital, os rendimentos e ganhos líquidos auferidos em aplicações financeiras, as demais receitas, os resultados positivos decorrentes de receitas não abrangidas pelo inciso I do caput, com os respectivos valores decorrentes do ajuste a valor presente de que trata o inciso VIII do caput do art. 183 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, e demais valores determinados
nesta Lei, auferidos naquele mesmo período. (Redação dada pela Lei nº 12.973,
de 2014) (Vigência) (...)
Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995:
(...)
Art. 20. A base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido, devida
pelas pessoas jurídicas que efetuarem o pagamento mensal a que se referem os arts. 27 e 29 a 34 da Lei no 8.981, de 20 de janeiro de 1995, e pelas pessoas jurídicas desobrigadas de escrituração contábil, corresponderá a doze por cento da receita bruta, na forma definida na legislação vigente, auferida em cada mês do ano-calendário, exceto para as pessoas jurídicas que exerçam as atividades a que se refere o inciso III do § 1o do art. 15, cujo percentual corresponderá a trinta e dois por cento. (Redação dada Lei nº 10.684, de 2003) (Vide Medida Provisória nº 232, de 2004) (Vide Lei nº 11.119, de 2005)
(...)
16. O conceito de receita bruta para apuração do lucro presumido, com reflexos na determinação da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, passou a ser o previsto no Decreto-Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, com a redação dada pelo art. 2º da Lei nº 12.973, de 2014:
Art. 12. A receita bruta compreende:
I - o produto da venda de bens nas operações de conta própria; II - o preço da prestação de serviços em geral;
III - o resultado auferido nas operações de conta alheia; e
IV - as receitas da atividade ou objeto principal da pessoa jurídica não compreendidas nos incisos I a III.
17. Conforme os dispositivos citados, os componentes do montante da receita bruta, para determinação da base de cálculo das exações tratadas, referem-se a contrapartidas de operações que caracterizem ganho para o contribuinte, e que provocam acréscimo ao seu
patrimônio. Essas condicionantes são fundamentais para a incidência tributária sob análise, baseada no acréscimo patrimonial.
18. Com efeito, tanto o IRPJ como a CSLL têm como hipótese de incidência o acréscimo patrimonial, caracterizado pelo aumento da riqueza do contribuinte, o que se traduz contabilmente pela evolução positiva do patrimônio líquido. Valores recebidos para administração por conta e ordem de terceiros não se incorporam à riqueza do recebedor.
19. Na seara das normas contábeis, o Conselho Federal de Contabilidade, por meio da Resolução CFC nº 1.412, de 2012, aprovou a Norma Brasileira de Contabilidade Técnica Geral - NBC - TG nº 30, que fornece o conceito de receita nesse âmbito:
7. Nesta Norma são utilizados os seguintes termos com os significados especificados a seguir:
Receita é o ingresso bruto de benefícios econômicos durante o período observado no curso das atividades ordinárias da entidade que resultam no aumento do seu patrimônio líquido, exceto os aumentos de patrimônio líquido relacionados às contribuições dos proprietários.
20. Nos termos da contratação descrita pela consulente, em seus efeitos jurídicos, econômicos e contábeis, os recebimentos especificados não se classificam como receitas nem acréscimos patrimoniais. Como consequência, na esfera fiscal esses recebimentos não integram a receita bruta para fins de apuração do lucro presumido.
Conclusão
21. Com base no exposto, conclui-se que:
a) Os valores a serem recebidos pela consulente, despendidos pela entidade desportiva americana, para aplicação nas obras e reformas das instalações do clube de futebol brasileiro, por conta e ordem do investidor, não se enquadram no conceito de receita bruta para fins de apuração do IRPJ e da CSLL sob o regime do lucro presumido, nos termos da Lei nº 8.981, de 1995, bem como da Lei nº 12.973, de 2014;
b) Os referidos valores não estão sujeitos à tributação pelos IRPJ e CSLL
À consideração superior.
Assinado digitalmente JANSEN DE LIMA BRITO
De acordo. Encaminhe-se à Coordenação de Tributos sobre a Renda, Patrimônio e Operações Financeiras - Cotir.
Assinado digitalmente ALDENIR BRAGA CHRISTO
Auditor-Fiscal da RFB Chefe da Disit02
De acordo. À Coordenadora-Geral da Cosit Substituta para aprovação.
Assinado digitalmente FÁBIO CEMBRANEL
Auditor-Fiscal da RFB Coordenador da Cotir Substituto
Ordem de Intimação
Aprovo a Solução de Consulta. Divulgue-se e publique-se nos termos do art. 27 da Instrução Normativa RFB nº 1.396, de 16 de setembro de 2013. Dê-se ciência ao consulente.
Assinado digitalmente
CLÁUDIA LUCIA PIMENTEL MARTINS DA SILVA Auditora-Fiscal da RFB - Coordenadora-Geral da Cosit Substituta