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A reportagem multimídia interativa em dispositivos móveis: o caso da série TAB

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Academic year: 2021

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A reportagem multimídia interativa em dispositivos

móveis: o caso da série TAB

Liliane de Lucena Ito1 Leire Mara Bevilaqua2

Resumo: O aumento considerável de acessos à internet via dispositivos móveis no Brasil motivou um questionamento específico sobre reportagens digitais: como o formato da reportagem multimídia interativa, dadas as suas características-chave (sofisticação no layout, multimidialidade e interatividade), vem sendo adequado a

devices como tablets e smartphones? A fim de investigar essa questão, o presente

estudo realizou uma análise comparativa e sistematizada entre as versões computador, tablet e smartphone de quatro reportagens digitais da série TAB. Investigou-se como uma iniciativa periódica vem apresentando seu conteúdo em diferentes dispositivos, considerando-se a possibilidade de, longitudinalmente, haver modificações – positivas ou negativas – nesta publicação em específico. Os resultados indicam que, apesar do esforço por parte da produção em oferecer conteúdos semelhantes em todas as versões, a publicação no desktop é sempre a mais completa. Além disso, nas edições publicadas mais recentemente, parece haver uma certa simplificação no formato, o que ocorre em todas as versões analisadas. Palavras-chave: Reportagem multimídia interativa. Dispositivos móveis.

Webjornalismo. Novos formatos jornalísticos. TAB.

1 Graduada em Jornalismo e mestra em Comunicação Midiática, ambas pela Unesp;

doutoranda em Comunicação vinculada ao PPGCom da Unesp (Bauru, SP). Bolsista CAPES. Membro do Grupo de Pesquisa Comunicação e Cibercultura – Cibercom. E-mail: lilianedelucena@gmail.com

2 Jornalista da TV Unesp e mestra em Televisão Digital; doutoranda em Comunicação vinculada

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1. INTRODUÇÃO

No Brasil, os dados mais recentes sobre o uso da internet no país indicam que, pela primeira vez em 2014, os acessos à web oriundos de tablets ou smartphones (23,1%) ultrapassam o número de acessos feitos unicamente por meio de computadores (17,4%). Os dados são provenientes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo Governo Federal. Já o jornalismo, por sua vez, presencia um processo de valorização crescente de produtos jornalísticos digitais. Há uma tendência de que a circulação digital de jornais supere a circulação impressa nos próximos anos. Segundo dados do Instituto Verificador de Comunicação (IVC), órgão sem fins lucrativos que audita oficialmente a tiragem de jornais, revistas, websites, entre outros veículos de comunicação brasileiros, em 2015, a queda de jornais em papel foi de 13% ante o crescimento do paywall em 27%. A relação “papel em queda / digital em ascensão” vem se repetindo há alguns anos, o que justifica a estimativa de superação do digital em detrimento da versão tradicional impressa.

A articulação entre esses dois cenários – o maior acesso à internet via dispositivos móveis e o crescimento da tiragem digital dos jornais – pode estar no cerne das iniciativas recentes dos veículos de mídia em oferecer conteúdo relevante e adequado ao consumo móvel. Adequado tanto no sentido de explorar suas potencialidades, como a tactibilidade e a portabilidade, como também ajustar-se a suas possíveis limitações, como aquelas relacionadas à velocidade de acesso à internet ou à capacidade de processamento do dispositivo em si. Tal adequação possui elementos complexos, o que faz com que estejamos ainda em um momento de experimentações, em que surgem indagações sobre a linguagem das produções voltadas ao mobile, uma vez que o uso do dispositivo móvel pode estar relacionado a contextos de acesso determinados, possivelmente mais fugazes ou de ócio (IGARZA, 2009 apud PELLANDA et al, 2015).

Uma das principais dúvidas acerca da linguagem jornalística para dispositivos móveis relaciona-se ao tamanho/tempo ideal de conteúdo a ser oferecido. Tamanho de texto, uma vez que acredita-se que narrativas extensas dificilmente são lidas no celular, por exemplo; e tempo de audiovisual, já que um vídeo muito extenso pode vir a travar caso a conexão à internet não seja a ideal.

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Tais questionamentos levam a crer que determinados gêneros jornalísticos, como a reportagem, que geralmente possui maior extensão textual/tempo de audiovisual seriam incompatíveis ao consumo em dispositivos móveis. Assim, o objetivo deste artigo é analisar como a reportagem multimídia interativa vem sendo apresentada em três principais versões: para computadores de mesa, tablets e smartphones.

2. A série de reportagens TAB3

Em outubro de 2014, é publicada pela primeira vez no portal Uol uma reportagem que reunia os elementos usuais da reportagem do impresso – aprofundamento, contextualização, maior liberdade de linguagem – a recursos disponíveis graças à convergência de meios existente na web. Denominada “Economia Compartilhada”, o texto, de forma longa e verticalizado, traz interatividade, hipertextualidade e multimidialidade, três das principais características do webjornalismo, inaugurando assim um formato até então inédito no portal de notícias que, hoje, é o sexto em acessos no Brasil4.

Inicialmente planejada para ser um projeto experimental de 16 edições, as reportagens semanais surpreenderam positivamente em qualidade e quantidade de acessos e, assim, tornaram-se um projeto sem data de término, que tem perdurado até os dias atuais5.

Dois pesquisadores – uma no Brasil e um em Portugal – nomearam narrativas semelhantes ao TAB com terminologias específicas, que possuem algumas diferenciações entre si. Para Longhi (2014) trata-se de um novo gênero jornalístico que surge com força depois de 2012, possibilitado pelo atual patamar tecnológico em que fatores como o lançamento da versão 5 da linguagem de programação HTML tornam-se decisivos para uma melhor navegação e sofisticação no design. A autora refere-se ao formato como grande reportagem multimídia (GRM).

3 Disponível em: < tab.uol.com.br>.

4 Dados extraídos do ranking Alexa. Disponível em: < http://www.alexa.com/siteinfo/uol.com.br

>. Acesso em 11 ago. 16.

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Já Canavilhas (2014), além de salientar a questão da navegação verticalizada e intuitiva, integrada a conteúdos multimídia, atenta-se a uma característica particular do layout de tais reportagens: o uso da técnica de parallax scrolling que, no webdesign, simula o efeito 3D na tela que surge com o movimento de elementos diversos conforme o usuário vai rolando a página para baixo, quando este avança na leitura do texto. Para Canavilhas, tal tipo de reportagem denomina-se como

reportagem paralaxe.

O expoente das reportagens do tipo é Snow Fall6, publicada pelo The New York

Times em 2012. Segundo Canavilhas (2014), o material jornalístico “ [...] recebeu cerca de 2,9 milhões de visitas na primeira semana, com períodos em que 22 mil utilizadores acederam simultaneamente à reportagem” (CANAVILHAS, 2014, p. 3). A grande surpresa no número de acessos – inclusive muitos oriundos de usuários que nunca tinham entrado uma única vez no site do NYT – acenou para a possibilidade de que o formato, até então experimental, despertasse o interesse de usuários capazes de se ater a uma leitura mais longa, imersiva e interativa.

No Brasil, empresas jornalísticas de grande porte, como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo, passaram a investir em seus próprios “Snow Falls”, cada um a seu tempo. No caso da Folha, a reportagem “A Batalha de Belo Monte”7, publicada em 2013, é um marco importante, pois exigiu toda uma rotina de produção diferenciada (em que uma equipe de 15 jornalistas trabalhou no material por dez meses) e resultou na publicação de um material sem precedentes – em qualidade, interação, recursos imagéticos e multimidiáticos – no site do veículo em questão, inaugurando também uma série de reportagens especiais não-periódicas.

Em relação à periodicidade, pode-se dizer que este é o grande diferencial do TAB. As edições são lançadas com destaque na home do portal às segundas-feiras, dia da semana em que a audiência do site é consideravelmente maior em relação aos

6 Reportagem publicada pelo The New York Times em 2012, ganhadora do Pulitzer e tida como

marco nas reportagens digitais por conta de sua originalidade na apresentação dos dados. Disponível em: < http://www.nytimes.com/projects/2012/snow-fall/#/?part=tunnel-creek > . Acesso em 29 mar. 16.

7 Disponível em: < http://arte.folha.uol.com.br/especiais/2013/12/16/belo-monte/ >. Acesso em:

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outros dias. Nos dias seguintes, o link da mesma vai para áreas mais periféricas do site. Nenhum veículo de mídia brasileiro publica material do tipo semanalmente.

O texto, entretanto, é mais enxuto se comparado a especiais como “Belo Monte” e “Snow Fall”. A narrativa se encaixa na verticalização citada por Canavilhas (2014), mas para se ter uma ideia, o texto do TAB costuma ter entre duas e três mil palavras; o especial da Folha, por sua vez, conta com 13 mil palavras e é dividida em 5 capítulos.

A quantidade de texto é um dos elementos referentes à linguagem que acaba interferindo na apresentação da reportagem – e está relacionada a uma produção mais acessível em dispositivos móveis. Isso porque um especial do porte do da Folha, que também é verticalizado, mas traz uma quantidade muito grande de palavras, estará disposto em vários capítulos, o que requer do usuário o clique para o próximo capítulo no momento em que se avança na leitura. No caso do acesso via dispositivos móveis, o clique pode afugentar leitores, desencorajados a esperar repetidamente pelo carregamento das próximas páginas. Com o TAB isso não ocorre, uma vez que o texto é todo mostrado de maneira vertical, em apenas uma página.

Em relação ao design, as edições trazem o já citado recurso de parallax

scrolling; além disso, imagens, infografias e outros elementos visuais são

especialmente produzidos conforme a temática de cada edição, o que certamente contribui para a sofisticação do layout.

Ainda sobre o layout, a fim de que o material seja acessado adequadamente em diversos tamanhos de tela, as reportagens são adaptativas, simulando a responsividade – exibição de conteúdo em diferentes dispositivos (desktop, smartphone, tablet) sem a perda de nenhum tipo de informação (ZEMEL, 2012).

A publicação do TAB significou para o Uol a monetização de um formato inovador, que possui credibilidade, e que entrega ao patrocinador espaços também inéditos de publicação (ITO; VENTURA, no prelo). Cada edição é patrocinada por apenas uma marca que, apesar de apresentar o conteúdo, não exerce quaisquer interferências no jornalismo.

O TAB poderia ser encaixado tanto na denominação reportagem paralaxe (CANAVILHAS, 2014) como grande reportagem multimídia (LONGHI, 2014). Entretanto, neste artigo, trabalharemos com o termo reportagem multimídia interativa,

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uma vez que são salientadas as duas principais características encontradas em reportagens do tipo – a multimidialidade e a interatividade – além do fato de que há narrativas mais enxutas e com a mesma proposta das grandes reportagens multimídia.

3. Percurso metodológico

A seleção das reportagens analisadas é de caráter não-probabilístico e a amostra é intencional: buscou-se encontrar edições que apresentassem as duas principais características do formato – interatividade e multimidialidade – e que assim pudessem representar melhor o formato em questão.

Uma vez que o objetivo do trabalho é realizar uma análise comparativa que evidencie possíveis diferenças na experiência de leitura e usabilidade da reportagem multimídia interativa em três dispositivos diferentes (desktop, smartphone e tablet), decidiu-se limitar a seleção a quatro edições. Como até o fechamento desta análise o número de publicações era de 83, buscou-se escolher edições que, além de serem representativas por apresentarem interatividade e multimidialidade, possivelmente representassem momentos de produção específicos na história do TAB, indicando prováveis experimentações iniciais, ajustes e versões avançadas.

Assim, foram escolhidas as edições 4, cujo título é “Todo Mundo Mente”; a 28, denominada “Não Me Representa”; a 57, intitulada “Vida Ansiosa” e a 82, nomeada como “Cérebro Hackeado”. O intervalo entre uma publicação escolhida e a próxima é de 24, 29 e 25 edições, o que corresponde, em meses, respectivamente a 6; 7,25 e 6,25 meses. Na média, da primeira edição escolhida para a última, há um intervalo de seis meses e meio – tempo em que provavelmente é possível haver mudanças na produção no que se refere a ajustes à publicação em dispositivos móveis.

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Figuras 1 a 4. As figuras mostram o módulo inicial (imagem em movimento e título) das reportagens analisadas neste artigo. Fonte: capturas de tela

A primeira leitura e navegação foi feita via desktop, uma vez que é a versão que potencialmente pode apresentar mais recursos além-texto. A segunda observação foi feita no tablet e a terceira, no celular8. Para melhor sistematização

entre as versões, foi criada uma tabulação (Tabela 1), onde estão descritos os elementos observados em cada uma das reportagens.

Após a tabulação dos dados obtidos, foi feita a análise comparativa entre as versões. A intenção foi sempre analisar inicialmente a versão desktop, possivelmente mais completa, e compará-la à versão tablet e à versão smartphone. No caso de erros de navegação ou de funcionamento em alguma das versões, houve anotação em formulário à parte.

8 O acesso às três versões de cada reportagem foi realizado a partir das 21h do dia 3/8/2016.

Foi utilizada a rede doméstica de wi-fi, banda larga, cuja conexão é de 60 MBPS. Os equipamentos utilizados foram: computador Dell Inspiron 5448; tablet iPad modelo MD513LL/A e celular iPhone versão 6, modelo MG3H2BZ/A.

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Tabela 1. Elementos comparados nas versões desktop, tablet e smartphone Elemento comparado Dispositivos Em relação ao

primeiro, o segundo é: Se houve edição, citar e contar itens editados: prejuízo em alguma versão? Texto Desktop X Tablet ( ) Menor ( ) Maior ( ) O mesmo Desktop: Tablet: Smartphone: Desktop X Smartphone ( ) Menor ( ) Maior ( ) O mesmo Tablet X Smartphone ( ) Menor ( ) Maior ( ) O mesmo Recursos multimídia (vídeos e áudios) Desktop X Tablet ( ) Em menor núm. ( ) Em maior núm. ( ) Mesma qtde Desktop: Tablet: Smartphone: Desktop X Smartphone ( ) Em menor núm. ( ) Em maior núm. ( ) Mesma qtde Tablet X Smartphone ( ) Em menor núm. ( ) Em maior núm. ( ) Mesma qtde Recursos interativos (infográficos animados, testes, games) Desktop X Tablet ( ) Em menor núm. ( ) Em maior núm. ( ) Mesma qtde Desktop: Tablet: Smartphone: Desktop X Smartphone ( ) Em menor núm. ( ) Em maior núm. ( ) Mesma qtde Tablet X Smartphone ( ) Em menor núm. ( ) Em maior núm. ( ) Mesma qtde Elementos de layout (parallax, gifs animados de abertura, ilustrações, fotos, imagens) Desktop X Tablet ( ) Em menor núm. ( ) Em maior núm. ( ) Mesma qtde Desktop: Tablet: Smartphone: Desktop X Smartphone ( ) Em menor núm. ( ) Em maior núm. ( ) Mesma qtde Tablet X Smartphone ( ) Em menor núm. ( ) Em maior núm. ( ) Mesma qtde

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4. Discussão dos resultados

No geral, é possível notar que a versão feita para ser visualizada em computador é sempre mais rica – em recursos textuais e imagéticos – quando comparada com as versões móveis. Em todas as edições analisadas, foi possível constatar que o movimento – característica importante do formato jornalístico em questão – aparece apenas na versão desktop. Em outras palavras, não há parallax

scrolling e gif9 animado de abertura nas publicações para mobile. Uma possível

justificativa seria a preocupação dos produtores em oferecer um conteúdo que, dentro de um contexto de consumo móvel, não confunda o leitor com movimentações na tela ou não seja um elemento que corrompa de alguma maneira a visualização da reportagem.

Sobre a quantidade de texto, em todas as edições a narrativa textual é praticamente a mesma para as três versões de publicação. Na reportagem sobre mentira (edição 4), entretanto, foi possível notar uma falta de adaptação textual ao dispositivo no qual a informação está publicada (em destaque vermelho, na Figura 5). Ao se amparar na diagramação feita originalmente para a versão desktop, o usuário pode ficar confuso sobre onde está o elemento citado. Um erro inofensivo, na verdade, porque obviamente o leitor irá procurar pelos vídeos citados em outros espaços da tela. Mas que demonstra a ausência de uma revisão textual mais acurada em todos os dispositivos de acesso.

Ainda sobre o texto, pode-se considerar que quando há a edição de recursos interativos e multimidiáticos, naturalmente há uma edição do texto que os acompanha. Isso ocorre, entretanto, apenas nas versões mobile.

9 Gifs (sigla de Graphics Interchange Format) são arquivos de imagem que, quando animados,

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Figura 5. Tela do celular mostra erro de adaptação textual. Fonte: captura de tela.

Especificamente sobre as edições, a primeira da amostra analisada (de número 4) traz experiências de leitura bem diferentes nos três dispositivos testados. A versão desktop é muito mais completa, com recursos interativos e multimidiáticos, além de movimento considerável no layout.

No tablet, a versão é a mais “pobre” em recursos multimídia: faltam três grandes módulos de vídeos. Tratam-se de vídeos interativos, alguns com mais de cinco minutos de duração. O primeiro módulo (Figura 6) é um painel interativo em que o usuário pode escolher uma opção entre situações pré-determinadas; conforme a escolha, é mostrado o vídeo com a situação escolhida e posteriormente um psicólogo comenta o que houve. O segundo (Figura 7) apresenta o rosto de uma pessoa e diz como reconhecer expressões reais de emoção; o terceiro (Figura 8) contém seis

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Figuras 6, 7 e 8. Três módulos com vídeos que são apresentados na íntegra apenas na versão desktop. No tablet, nenhum aparece e, no celular, apenas o segundo e o terceiro módulos são mostrados. Fonte: captura de tela

vídeos em que são contadas histórias – reais ou inverídicas – em que a intenção é fazer com que o usuário acerte quais são mentira ou verdade.

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12 Figura 9 e 10. Na versão desktop, elemento interativo (indicado pelas setas azuis) que foi editado

No smartphone, em comparação ao desktop, apenas um módulo de vídeo não aparece (o da Figura 6).

Pode-se considerar que, nesta edição, houve um grande prejuízo na versão para tablets, uma vez que praticamente todos os recursos multimídia foram cortados. Assim, seu aprofundamento é menor, uma vez que nos vídeos há a apresentação de dados que complementam e enriquecem a narrativa textual.

É compreensível a ausência de vídeos no dispositivo móvel quando os mesmos são longos – caso de alguns dos que foram editados, que possuem mais de cinco minutos de duração. Entretanto, a ausência de um dos elementos de interatividade não pode ser explicada sob a mesma causa, uma vez que não haveria nenhum impedimento em termos de programação ou de consumo de banda do usuário. Trata-se da brincadeira “Descubra a mentira no texto” (Figuras 9 e 10), em que o usuário deve clicar no link para encontrar o que estava propositalmente escrito errado na tela.

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Figura 11. Recurso de gamificação é editado nas versões móveis. Fonte: captura de tela. A segunda edição analisada, a de número 28, apresenta menos diferenças nas três versões. A principal é a ausência de um elemento interativo, o chamado “Jogo da Coalizão”, em que o usuário é convidado a tentar formar coalizões em um governo fictício a fim de ver aprovado um projeto de lei imaginário. O recurso, que pode ser visto como um newsgame (SICART, 2008), não está disponível para tablet e nem celular.

Foi percebido também um descuido por parte da produção ao trazer informações erradas na versão para smartphone, outro indício de ausência de revisão acurada para todas as versões. O infográfico “Mapa da Democracia” (Figura 12), que é apresentado no tablet e no desktop de forma horizontalizada, ocupando toda a tela, teve de ser rediagramado para melhor visualização em telas menores, como a dos celulares. Talvez, por conta disso, há uma informação incorreta no celular, como é possível conferir abaixo. A primeira imagem mostra a informação disponível na versão desktop. A segunda, na versão smartphone.

O dado correto a respeito da quantidade de democracias completas no mundo é o da primeira imagem. Além disso, no celular o infográfico perdeu sofisticação no layout (por conta da apresentação original, horizontalizada), além de perder em informação, uma vez que o box intitulado “Top 5”, visto na parte inferior esquerda da primeira imagem, não é disponibilizado no celular.

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A terceira edição analisada, de número 57, apresenta versões muito semelhantes, sem grandes prejuízos relacionados à informação, a não ser em relação ao movimento e layout, que é muito mais rico na versão desktop. Na tabulação dos dados, é a única edição em que o conteúdo para dispositivos móveis é maior em recursos multimídia quando comparado à publicação para desktop. Trata-se, no entanto, da mesmíssima informação: enquanto no desktop o módulo inicial mostra um gif animado, no celular e no tablet surge um vídeo com o mesmo conteúdo do gif.

Figuras 12 (acima) e 13 (ao lado). A primeira figura mostra a informação, completa e correta, publicada para desktop e tablet. A segunda mostra a adaptação para o celular, que edita informações e traz um erro referente à quantidade de democracias completas no mundo. Fonte: captura de tela.

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Figura 14. Para assistir ao vídeo na versão desktop, o usuário precisa "driblar a ansiedade" e clicar e arrastar corretamente o cursor (indicado na seta em azul) para dar o "play". Fonte: captura de tela.

Em relação à interatividade, há um elemento que se destaca no desktop e que pode ter a ver com o próprio tema da reportagem: ansiedade. Diante do vídeo, o usuário é convidado a realizar um movimento específico com o cursor, seguindo uma linha, para acessá-lo e assisti-lo; a apresentação não se dá a partir de um simples botão de play. As versões móveis não apresentam tal recurso, apesar de potencialmente poderem apresentá-lo por meio da tactibilidade.

Na versão smartphone, especificamente, observamos mais um erro de apresentação de dados interativos, que é uma chamada da reportagem para que o usuário escreva tuítes sobre o tema utilizando a hashtag “#ficoansioso”. Aparecem, no celular, tuítes que utilizam outra hashtag, a “#escoladossonhos”, referente à edição 55, publicada cerca de duas semanas antes da edição sobre ansiedade.

A quarta edição analisada, de número 82, é a única que não possui o recurso de parallax na apresentação desktop. O movimento, no caso desta versão, está apenas no gif do módulo inicial da reportagem. Nas versões móveis, não há movimento algum. A diagramação das três versões também é bastante semelhante – e não há quaisquer prejuízos no que se refere à quantidade ou qualidade de informação mostrada.

Nesta edição, que é a mais recente em data de publicação (foi ao ar em 1º de agosto de 2016), há uma notável diminuição de recursos interativos e multimídia. Há apenas um vídeo na reportagem inteira, de 4 minutos e oito segundos. O vídeo

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aparece em todas as versões. A interatividade, entretanto, é ainda menor: se resume aos botões de compartilhamento da reportagem no Facebook ou no Twitter, elementos comuns a todas as edições analisadas.

5. Considerações finais

Nas edições analisadas, constatou-se que a versão desktop é sempre a mais completa de todas; além do fato de terem sido observados erros importantes na apresentação do conteúdo nas edições para mobile. Foi possível compreender, especificamente no caso das reportagens TAB, dois movimentos que podem estar relacionados. O primeiro mostra avanços na apresentação da informação, que nas edições mais recentes tende a ser a mesma para todas as versões, algo que não foi visto nas duas primeiras edições observadas. Entretanto, o segundo movimento sugere uma nítida simplificação no formato que, na última edição analisada chega a ter apenas um elemento multimidiático e pouquíssima interatividade. Ou seja, uma reportagem digital mais “simples” é naturalmente mais facilmente adaptável a dispositivos distintos.

Resta saber se a simplificação pode significar um leve e momentâneo desvio de seu formato original – interativo, multimidiático, altamente sofisticado no design e navegação – ou uma clivagem capaz de acarretar um novo formato de reportagem, mais ágil e voltado à leitura móvel. Tais questões, entretanto, não podem ser respondidas aqui por conta das limitações de espaço e tempo de pesquisa, mas certamente acenam para a realização de novas investigações sobre o tema.

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REFERÊNCIAS

CANAVILHAS, J. A reportagem paralaxe como marca de diferenciação da Web. In: Paula Requeijo Rey y Carmen Gaona Pisonero, Contenidos innovadores en la Universidad Actual, pp. 119-129. Madrid: McGraw-Hill Education, 2014.

ITO, L.; VENTURA, M. (no prelo). A Reportagem Multimídia Interativa: Inovação, Produção e Monetização. Brazilian Journalism Research. 2016.

LONGHI, R. O turning point da grande reportagem multimídia. Revista Famecos: Porto Alegre, v. 21, n. 3, p. 897-917, set.-dez. 2014.

PELLANDA, E. et al. Jornalismo adaptado a novas telas: um estudo da linguagem jornalística nas novas interfaces móveis. In: CANAVILHAS, J.; SATUF, I. (org.). Jornalismo para Dispositivos Móveis: Produção, Distribuição e Consumo. Covilhã: Labcom, 2015.

PESQUISA NACIONAL POR AMOSTRA DE DOMICÍLIOS (PNAD) 2014. Disponível em: < http://downloads.ibge.gov.br/downloads_estatisticas.htm >. Acesso em: 27 maio 2016.

SICART, M. Newsgames: theory and design. In: International Conference on Entertainment Computing. Springer Berlin Heidelberg, p. 27-33, 2008.

ZEMEL, T. Web Design Responsivo: páginas adaptáveis para todos os dispositivos. São Paulo: Casa do Código, 2012.

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