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IDÉIAS PAGÃS E CRISTÃS NO BAIXO IMPÉRIO ROMANO

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Academic year: 2021

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IDÉIAS PAGÃS E CRISTÃS NO BAIXO IMPÉRIO ROMANO

SOUZA, Rodrigo Gonçalves de (UEM) VENTURINI, Renata Lopes Biazotto (UEM)

A Idade de Ouro da sociedade romana revelava, no final do século II d.C., sinais aparentes de crise. A prosperidade econômica e a bem sucedida administração política do Alto Império encontraram seu termo. A Pax Romana tornou-se uma saudosa lembrança do passado. Pobreza generalizada; conflitos políticos; falta de liberdade e opressões, passaram a compor o cenário da Roma antiga durante o Baixo Império Romano.

Recorrer a uma abordagem idealista, a de que a crise estava estreitamente vinculada aos problemas econômicos que abalaram a sociedade romana tardia, não possibilita explicar um problema que se apresenta com sintomas ainda mais profundos. A crise foi resultado de múltiplos fatores: instabilidade e declínio moral da política imperial; miséria e penúria que atingiu grande parte da população, em decorrência da crise na agricultura; invasões bárbaras e guerras civis. A estrutura social romana passou por transformações e rupturas, com o declínio da aristocracia e a formação de novas camadas sociais que estavam à margem da organização tradicional, reivindicando espaço e representação social. Sobre os aspectos da crise Alfoldy escreveu:

A pobreza, a falta de liberdade e a opressão caracterizaram as condições de vida normais para vastas camadas sociais em todas as épocas da história de Roma. Mas, nos finais do Império, os

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pois a miséria e a penúria atingiram camadas ainda mais vastas. Com efeito, numerosos membros das camadas superiores das cidades, que outrora se incluíam entre os beneficiários do sistema romano de governo foram, a partir do século III, relegados para um nível econômico, social e político próximo do das camadas inferiores. Nos últimos tempos do Império, a camada populacional que continuava a viver bem era muito restrita (...) (1989, p. 223).

Podemos dividir a crise do Império Romano em duas questões fundamentais: problemas externos e internos. As invasões bárbaras constituíram-se num fator crucial na deconstituíram-sestruturação do sistema romano tradicional, uma vez que Roma mostrou-se incapaz de conter as invasões, adotando uma política defensiva ineficaz. Segundo Géza Alfoldy (1989), as invasões provocadas pelos bárbaros atingiram o Império num momento em que começaram a se agravar suas fraquezas internas. O exército, que simbolizava o poder e prestígio romano, e que havia desempenhado um papel decisivo na expansão do território nos primeiros séculos da era cristã, havia se tornado uma pálida sombra do esplendor de outrora. A respeito da crise externa, Alfoldy escreveu:

A crise era total. Manifestava-se com maior evidência nas catastróficas relações externas do Império. Depois do período de pausa que a contra-ofensiva bem sucedida de Marco Aurélio contra os Germanos proporcionara ao Império, desencadeou-se novamente a tempestade no tempo de Severo Alexandre (222-235) e de Maximino (235-238), com ataques dos Germanos e dos aliados nas fronteiras do Reno e do Danúbio, bem como a política de expansão do novo Império Persa contra as províncias romanas do Oriente. A derrota infringida pelos Godos ao imperador Décio (249-251), a captura de Valeriano pelos Persas nove anos mais tarde, as incursões dos bárbaros na Germânia, na Gália, na Hispânia, nas regiões do Danúbio, nos Bálcãs, na Ásia Menor, na Capadócia e na Síria no reinado de Galieno e, ainda, o avanço dos Germanos até na Itália no tempo de Aureliano, marcaram o período mais desfavorável das ininterruptas guerras defensivas de Roma (1989, p. 173-174).

Internamente, a situação política estava marcada por crises morais e conflitos entre os imperadores e as elites romanas. O poder do Senado já não era mais visto com respeito pelos imperadores, e as sucessões geralmente ocorriam

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por meio da força e imposição. Somado ao problema administrativo, a questão econômica abalava a estrutura da sociedade, uma vez que a crise no campo causava fome generalizada e descontentamento da plebe urbana. A população era constantemente atingida por epidemias que dizimavam grande parte dos habitantes. A cidadania romana, que antes era sinônimo de privilégio e prestígio, tornou-se uma simples vulgarização, basta destacarmos o Édito de Caracala, no século III, que havia consagrado com o título de cidadão romano todo homem livre da Itália.

A transformação acelerada das estruturas gerou problemas sem precedentes na sociedade romana. Essas novas camadas sociais não eram totalmente absorvidas pela estrutura. Até mesmo camadas que em períodos anteriores usufruíam de privilégios foram equiparadas às camadas mais inferiores. Um contemporâneo a Sêneca (4 a.C. – 64 d.C.), por exemplo, com certeza assistiria com pesar o rumo que o Império havia tomado, após a morte de Marco Aurélio (161-180):

A morte desse imperador foi interpretada por Cássio Dião como o fim de uma era de ouro e o princípio de uma época de ferro e ferrugem, devido à crise política da autocracia de Cômodo (180-192) e à transformação das estruturas do poder nos reinados de Septímo Severo (193-211) e seus sucessores (71, 36, 4). No tempo de Filipe (244-249), um observador comparava o Império Romano a um corpo doente e em decomposição e a um navio sem rumo condenado a afundar-se. Alguns anos mais tarde, São Cipriano anunciava a aproximação do fim do mundo e nos reinados de Valeriano (253-260) e de Galieno (253-268), o Império parecia estar condenado a acabar devido aos ataques dos bárbaros e à decomposição interna (...) (1989, p. 172).

Apresentado esse panorama da Roma imperial, nosso intuito será o de discutir as transformações que ocorreram no campo das idéias, sobretudo, relacionar a crise da sociedade romana ao crescimento e consolidação do ideário cristão, que no período tardo-romano, conquistou um grande número de adeptos em todo o território imperial. Ao mesmo tempo, discutir como a queda não representou apenas o declínio do modelo romano tradicional, político-econômico,

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mas, sobretudo, representou o declínio dos padrões ideológicos da aristocracia romana, adepta do Estoicismo.

A ênfase desse trabalho fundamentar-se-á na discussão da oposição entre paganismo e cristianismo, como se estruturavam e influíam nas ações dos homens. Nesse sentido, analisaremos duas práticas pertinentes a essas duas visões de mundo: a beneficentia e a caridade cristã. Segundo VENTURINI (1996), essas duas práticas diferem pelas suas idéias, por seus beneficiários e pelas condutas que motivavam aqueles que exerceram tal prática.

No mundo romano, a beneficentia adquiriu um caráter político. Ela se manifestava em doações de cereais à plebe urbana e jogos públicos, como a luta de gladiadores, por exemplo. Para VENTURINI (1996), esse tipo de doação revestia-se de um caráter cívico e patriótico, era visto como uma obrigação a qualquer homem público, não possuindo nenhum sentido humanitário. As doações pagãs serviam para estabelecer a distância social entre os cidadãos.

Por outro lado, a doação cristã possuía um sentido humanitário e religioso. Doava-se para estar mais próximo de Deus. Abdicar dos bens materiais e consagrar uma vida de exortação moral cristã ascética são elementos que passaram a nortear o pensamento do homem romano. Esses princípios estão presentes na vida de Santa Melânia, onde podemos encontrar exemplos de caridade cristã, evidenciando uma nova ética que se constituiria na moral vigente no período tardo-romano. Sobre as doações cristãs Renata Venturini escreveu:

Segundo os princípios cristãos, libertar-se dos bens passou a simbolizar o caminho para se chegar à perfeição moral, somente absoluta na pobreza. Novamente Paul Veyne (1979: 54) encontra uma explicação para os doadores cristãos que sacrificavam suas riquezas e negligenciavam os interesses consistentes do mundo real. Tal explicação reside no fato de que a religião foi capaz de se entrelaçar na vida cotidiana, modelando os gestos, as inflexões da voz, criando uma moral que fazia amar a Igreja e seus preceitos. Nesse sentido, a caridade tornou-se uma prática de convenção. (...) (1996, p. 307).

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Um dos fatores que contribuíram para a ascensão do Cristianismo como novo pilar ideológico na sociedade romana tardia foram as crises que o Império enfrentava, cada vez maiores, mais freqüentes e com conseqüências mais dolorosas. A crise gerava, no seio da sociedade, indignação e incertezas. A moral estóica, concebida como modelo de sabedoria, sensatez e virtude, não respondia a uma necessidade que se fazia cada vez mais patente, trazer luz a uma sociedade sob trevas. Trevas também de incredulidade aos antigos deuses pagãos, indiferentes às petições dos homens, fazendo com que os romanos encontrassem cada vez mais conforto e confiança nos preceitos cristãos.

O Cristianismo primitivo fortalecia-se adquirindo um grande número de adeptos. Entretanto, perseguição aos cristãos passou a ser muito mais evidenciada do que fora durante o Alto Império, ela foi legitimada e institucionalizada pelo Estado romano. O Estoicismo, filosofia que havia sido absorvida por Roma ao longo dos séculos I e II da era cristã, perdeu grande parte de sua força, e a oposição entre o pensamento pagão e cristão foram se desencadeando em conflitos declarados. Somente sob o reinado do imperador Constantino, o Cristianismo foi consagrado como religião oficial do Império Romano.

Essa mudança, que a princípio revelava-se espiritual e moral, fez sentir-se em todos os aspectos da sociedade, inclusive econômicos e políticos. Embora essa transformação tenha causado rupturas dolorosas, pois o conflito entre Paganismo e Cristianismo era latente; em alguns aspectos a absorção desse novo ideário ocorreu com muita facilidade, isso porque o Cristianismo absorveu muitas idéias já expostas pelo próprio paganismo. Tais como a construção da idéia de pecado; a imperfeição humana diante da perfeição divida; a busca por um bem maior, pra os pagãos o soberano Bem, para os cristãos o Paraíso.

Portanto, em meio ao declínio moral, político e econômico da sociedade romana tardia, o Cristianismo encontrava, na gênese da crise, a força que necessitava para alcançar seu êxito: a defesa de uma vida ascética em busca da santificação.

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Referências

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