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O Direito Ambiental garantidor da sadia qualidade de vida
Ana Candida Echevenguá*
A globalização, o crescimento desenfreado e a qualquer custo degradam as riquezas naturais, deteriorando a qualidade de vida, socializando o prejuízo e concentrando o lucro na mão da minoria economicamente mais forte. A ciência e a história já demonstraram que a economia deve harmonizar-se com o ambiente que a rodeia: atmosfera, águas, solo, subsolo e elementos da biosfera, fauna e flora - se esgotados, matam a ordem econômica. Criou-se, portanto, um sistema legal de tutela do direito de viver em um meio ambiente saudável, com previsão de atuações preventivas, como a educação ambiental, e de punições administrativas, penais e civis ao infrator poluidor.
A Constituição Federal de 1988 dedica um capítulo inteiro à tutela do meio ambiente. E o declara, em seu artigo 225, como bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida. Para assegurar a efetividade deste direito, impõe tanto ao Poder Público como ao cidadão o dever de preservá-lo e defendê-lo, para as presentes e futuras gerações. Não obstante, estatui que as condutas e atividades lesivas ao meio ambiente sujeitarão seus infratores às sanções, administrativas e penais, além da responsabilização que obriga o poluidor – pessoa física ou jurídica, independentemente da demonstração de culpa, a recompor ou a indenizar os danos causados.
Após este grande passo, podemos afirmar que nossa legislação vigente é transdisciplinar. Vejamos alguns exemplos:
1. o Direito Constitucional promulga o meio ambiente como direito fundamental de todo o cidadão, e impõe a este o dever de preservação para beneficiar a presente e as futuras gerações;
2. o Direito Civil regulou a responsabilidade civil ao causador de dano ambiental, com o dever de reparação e de indenização dos danos;
3. o Direito Penal forneceu as punições (sanções penais) aos crimes causados ao meio ambiente;
4. o Direito Administrativo rege as regras e procedimentos no âmbito administrativo, prevendo a conduta do agente público;
5. o Direito Tributário apresenta as formas de incentivo fiscal às empresas ambientalmente responsáveis;
6. o Direito Internacional regula a globalização dos problemas ambientais;
7. o Direito Processual estabelece os procedimentos necessários. Muitos processos ficam jogados em escaninhos porque os julgadores preocupam-se mais com a formalidade excessiva do que com a justiça;
Alguns integrantes do Poder Judiciário e do Ministério Público trabalham para preservar, proteger e resguardar o meio ambiente. Todavia, entre a legislação vigente e sua efetiva aplicação há um sérios entraves. Em um de seus artigos, Affonso Ghizzo Neto, Promotor de Justiça em Joinville e professor da EPAMP-SC em Itajaí, escreveu: “O secretário da
reforma do Judiciário, Sérgio Renault, afirmou, em entrevista à mídia, a lentidão tem uma certa utilidade porque beneficia somente as pessoas poderosas, as que não querem pagar, as que não querem solucionar problemas, as que querem protelar suas dívidas... jamais esqueçamos que muitas coisas podem esperar. A Justiça, não. É exatamente o sentimento de impunidade que gera violência, prolifera novos delitos e desanima os cidadãos de bem. A sociedade espera uma resposta urgente. Quer um basta à impunidade, um basta ao tráfico de entorpecentes, um basta à guerrilha urbana, um basta à corrupção. Agora!”
Desde os anos 80, com o surgimento do Movimento por Justiça Ambiental, busca-se priorizar a proteção do ambiente no local onde as comunidades vivem, trabalham e estudam – tal noção engloba todo esse espaço, e não apenas a natureza selvagem. Esse movimento espalhou-se pelo mundo num clamor por Justiça e Igualdade, nos campos econômico, social e ambiental, pregando a importância de se ir além da simples proteção dos recursos naturais, através da implementação de programas preventivos de saúde pública e da provisão, às comunidades urbanas e rurais, de controle sobre seus próprios recursos. E o mais importante, encorajou-as a reclamarem. Não se trata de transferir para as comunidades menos organizadas os riscos ambientais, mas dar a elas acesso à informação e ao conhecimento, capacitando-as a contribuir com a construção de um mundo melhor e de um meio ambiente equilibrado para que gerenciem seus problemas dentro dos princípios do desenvolvimento sustentável que é, segundo este Movimento, “o exercício das atividades econômicas, com utilização racional e planejada dos recursos naturais, garantidor de melhores condições de vida para as gerações presentes, sem comprometer o ambiente paras gerações futuras”.
No Brasil, o progresso econômico e a imposição constitucional da garantia universal à fruição de um meio ambiente ecologicamente equilibrado, devem interagir. Preservação e progresso não são incompatíveis. Algumas universidades brasileiras estão atentas aos problemas ambientais. Seu compromisso com a responsabilidade social busca proteger o País dos inescrupulosos grupos econômicos que exploram e poluem visando lucro, e agem
descomprometidos com o bem-estar do povo e o meio ambiente dos países explorados. A integração entre Poder Público, Universidade e Comunidade deve ser prioritária na resolução dos problemas ambientais. Juntos, devem implantar políticas em prol do desenvolvimento realmente sustentável. A comunidade, no exercício de sua cidadania, deve exigir do Brasil o compromisso com estudo e resolução dos problemas ambientais – que são também sociais, políticos, econômicos e jurídicos.
Arquitetos, físicos, químicos, biólogos, engenheiros, e outros profissionais, já exercitam livremente as normas constantes do nosso ordenamento jurídico ambiental, conscientizando o cidadão da necessidade de preservar e de restaurar o ambiente comum à sociedade. A contribuição do advogado ocorre com a incansável promoção da aplicabilidade da lei, em especial às pessoas por ela vinculadas que não o fazem espontaneamente. Desta forma, ele ratifica o compromisso do Direito com a preservação da vida, com a ética e com a construção de uma sociedade mais livre, justa e igualitária. Fazendo uso dos instrumentos jurídicos necessários, deve viabilizar a proteção do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, do direito do consumidor e dos bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico. Judicialmente, poderá postular a condenação em dinheiro ou o cumprimento da obrigação de fazer ou de não fazer, anular o ato lesivo ao meio ambiente bem como a condenação dos responsáveis pelo ato lesivo, fazendo com que recomponham o estado anterior ao dano.
A sociedade precisa tornar realidade o seu direito à informação, previsot constitucionalmente. O Estado e as empresas privadas devem informar amplamente à população sobre os empreendimentos potencialmente periculosos ao meio ambiente e à vida.
Para que isso se efetive, “Temos de repensar o Poder Judiciário. Vê-lo como uma estrutura "empresarial" moderna, sabendo da sua produção, dos seus custos e da sua rentabilidade.
Reformar a máquina judiciária produtora de decisões, com instrumentos e peças da modernidade. Justiça barata, célere, sem ritualismo burocrático é o que a nação injustiçada merece e aguarda. Um Judiciário fortalecido e garantidor dos padrões democráticos e comportamentos legalistas dos outros poderes é o que toda a sociedade espera e almeja”, segundo C. A. Silveira Lenzi, desembargador no Tribunal de Justiça de Santa Catarina.
Embora o Direito Ambiental seja indissociável dos demais ramos do Direito em virtude da importância do bem jurídico que tutela, enfrenta sérios problemas de implementação, decorrente de sua exclusão das políticas públicas e da burocracia reinante. Quando os problemas ambientais constarem das pautas governamentais e houver garantia de verbas orçamentárias satisfatórias para aplicação dos instrumentos legais de proteção ao meio ambiente, poderemos falar que, no Brasil, haverá a garantia do direito fundamental à sadia qualidade de vida.
*Advogada ambientalista, presidente da ong Ambiental Acqua Bios e da Academia Livre das Águas
[email protected] OAB/RS 30.723
Disponível em:
http://www.viajus.com.br/viajus.php?pagina=artigos&id=266&idAreaSel=13&seeArt=y es. Acesso em: 13 nov. 2007.