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REDE DO ENSINO SUPERIOR. Debate SNESUP, Tomar, 4 de Dezembro de 2013

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Fernando Sebastião - IP Viseu REDE DO ENSINO SUPERIOR

Debate SNESUP, Tomar, 4 de Dezembro de 2013

Numa altura em que está na ordem do dia a discussão da rede de ensino superior, começo esta abordagem com uma rápida retrospetiva sobre a sua evolução nas últimas décadas.

Em Portugal foi nos anos 70, com a Reforma de Veiga Simão, que se iniciaram alterações significativas do ensino superior, nomeadamente no que se refere à sua expansão e diversificação. Veiga Simão lançou, em 1973, uma nova reforma, defendendo que, em especial, nas áreas da ciência e tecnologia, este nível de ensino era importante para o desenvolvimento do país.

Esteve na base desta reforma o relatório “Projeto Regional do Mediterrâneo” da OCDE que apresentava preocupações com o desenvolvimento, essencialmente a nível económico, no qual o ensino superior deveria ter um papel determinante sendo, no entanto, as universidades tradicionais tidas, neste espeto, como um obstáculo. Dizia então Miller Guerra que as universidades não se autorreformam.

Nessa altura, Portugal encontrava-se muito afastado dos países desenvolvidos da Europa. As Universidades Portuguesas estavam localizadas nas três principais cidades de Lisboa, Porto e Coimbra e, de uma maneira geral, alheadas da necessidade de dar resposta à criação de novas formações, necessidade essa resultante da evolução científica e tecnológica entretanto verificada.

As assimetrias regionais eram profundas, a taxa de alfabetização extremamente reduzida. Havia falta de professores, de engenheiros e de técnicos de saúde, de entre outros. As péssimas acessibilidades e as más condições de vida no interior do país dificultavam a fixação de quadros superiores inviabilizando a localização das empresas longe das grandes áreas urbanas.

Foi neste contexto que Veiga Simão criou, em Portugal, o sistema binário, universitário e politécnico, tendo iniciado a expansão do ensino superior a nível geográfico e a nível institucional.

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Fernando Sebastião - IP Viseu Entre 1974 a 1976 este processo foi interrompido pelo período revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril e que se caracterizou pela abertura do sistema de ensino superior a todos os cidadãos que o desejassem. A partir de 1976, foi retomado, tomando-se definitivamente consciência da importância da expansão e diversificação do ensino superior para o desenvolvimento de Portugal.

Chegámos aos dias de hoje com uma rede pública de ensino superior distribuída por todo o país, constituída por 14 universidades (ou 13 com a fusão da UL com a UTL), 15 institutos politécnicos e 5 escolas politécnicas não integradas. Julgo que esta aposta foi, duma maneira geral bem conseguida. Segundo declarações recentes do Presidente da AICEP, um dos maiores ativos na atração de investimento estrangeiro é o facto de o país possuir a geração mais qualificada de sempre.

Referiu ainda que os nossos engenheiros são reconhecidamente de grande qualidade e reconheceu que estão a acontecer grandes investimentos no interior do País.

Destaco aqui o caso do Data Center da Covilhã ou a Unidade da IBM em Tomar, o que nos leva a questionar se isso teria acontecido se não houvesse, nestas cidades, Instituições de Ensino Superior.

No concurso nacional de acesso ao ensino superior do corrente ano foram disponibilizadas 51 500 vagas, tendo-se candidatado, apenas, 41 800 estudantes. Ficaram, por isso, 9 700 vagas por preencher, com especial destaque para os cursos de engenharia que tiveram os piores resultados.

Esta situação, associada à falta de financiamento, tem contribuído para ser criada na opinião pública a convicção da necessidade da reestruturação da rede de ensino superior.

Recentemente tive a oportunidade de fazer uma análise comparativa, por cada um dos distritos, do número de candidatos deles provenientes e do número de vagas disponibilizadas pelas instituições públicas de ensino superior aí localizadas. Verifiquei que:

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Fernando Sebastião - IP Viseu -Na Zona Norte do país havia um equilíbrio relativo de vagas e candidatos e como tal um equilíbrio na mobilidade dentro da região.

-Na Zona Centro verifica-se um desequilíbrio significativo com particular destaque para Coimbra com mais 3 100 vagas que candidatos. A mobilidade dentro da região está desequilibrada. Verifica-se um maior fluxo do interior para o litoral o que poderá estar a contribuir para a desertificação do interior do País.

Na Zona do Alentejo o desequilíbrio existente é muito pouco significativo.

Na Zona de Lisboa volta a verificar-se uma diferença significativa entre vagas e candidatos. Lisboa apresenta mais 4 300 vagas. Confirma-se, assim a existência dum grande fluxo do interior para Lisboa com implicações negativas em especial nos distritos do Alentejo, Setúbal e Santarém.

Identificado o desajustamento global de mais 9 700 vagas do que candidatos é, agora, necessário procurar identificar as suas causas. As mais frequentemente apontadas são a redução da taxa de natalidade, a crise, a emigração dos jovens. Numa classificação ABC utilizada frequentemente na gestão, estes fatores constituirão, do meu ponto de vista, a classe C do problema, a de menor importância. Julgo que esta redução poderá ser, nos próximos anos, compensada pelo alargamento da escolaridade obrigatória para o 12º ano.

Do meu ponto de vista o fator fundamental, o de classe A, tem a ver com a falta de regulação do subsistema, fundamentalmente em dois aspetos:

- O primeiro prende-se com o aumento significativo de vagas no ensino diurno. Até há dois anos só era possível aumentar vagas e cursos no ensino noturno e pós-laboral tendo em vista o reforço da formação de ativos. A partir de 2012 foi possível transitar essas vagas e cursos para o regime diurno, começando aqui, neste regime, o desajustamento de vagas em relação ao número de candidatos.

- O segundo problema prende-se com a alteração das condições de acesso aos cursos de engenharia operados igualmente em 2012 com a entrada em vigor da Portaria n.º 1031/2009. Passou-se do elenco Matemática ou Física ou Biologia para Matemática e Física.

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Fernando Sebastião - IP Viseu Em 2013 realizaram a prova de ingresso de Matemática A, 47 500 estudantes, tendo 80% ficado aprovados à disciplina.

52 600 estudantes realizaram a prova de Física e Química, dos quais 76% ficaram, igualmente aprovados à disciplina.

No entanto, com a conjugação das duas provas no corrente ano apenas se puderam candidatar aos cursos de engenharia 6 700 estudantes (13% dos que realizaram as provas) para as 9 000 vagas disponíveis, deixando de fora muitos candidatos que concluíram o 12º ano.

O problema do acesso às Engenharias seria, do meu ponto de vista, facilmente resolvido através duma das seguintes formas: ou a revogação da Portaria 1031/2009 ou mantendo o elenco Matemática e Física mas incluindo, na formula de candidatura, não só o resultado das provas de ingresso mas a sua média com a classificação interna do 12º ano.

Defendo esta última, embora reconheça que deixa de fora mais estudantes, por ser a mais equilibrada e mais exigente ao obrigar, no acesso, a classificação positiva às duas disciplinas. Esta alteração permitiria um aumento significativo do número de candidatos e eliminar os atuais constrangimentos.

Neste contexto alerto, ainda, para a situação dos cursos de engenharia das escolas superiores agrárias onde faz todo o sentido a possibilidade da utilização do elenco alternativo de Matemática e Biologia para os diversos cursos de engenharia.

Reforço, também, a importância que tem, para o País, a manutenção do esforço de qualificação dos portugueses e em especial nas áreas tecnológicas, fundamentais para a modernização e competitividade internacional das nossas empresas.

Se nada for feito, dentro de muito pouco tempo teremos, de novo, uma grande carência de mão-de-obra qualificada, situação que começa já a ser motivo de alerta por parte de algumas empresas.

Em resumo, o alarmismo criado pelos resultados do concurso nacional de acesso nos últimos dois anos, que tem servido de pretexto para a reestruturação da rede, seria facilmente resolvido através da conjugação da redução de vagas dos cursos do regime diurno e da alteração das condições de acesso, designadamente dos cursos de engenharia.

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Fernando Sebastião - IP Viseu Em relação à primeira não me choca, apesar do desajustamento verificado por regiões, atrás evidenciado, que seja proporcional a todas as instituições tendo em conta a capacidade instalada existente. Poderia começar pelas áreas de formação com menor taxa de empregabilidade.

Em relação à segunda, julgo ter conseguido demonstrar que os cursos de engenharia têm poucos alunos, não por falta de prestígio da profissão, mas por impossibilidade de acesso.

Nesta análise julgo também ser importante referir que os cursos que funcionam em regime pós-laboral são predominantemente frequentados por estudantes trabalhadores que se candidatam nos concursos locais e não no concurso nacional. Os fracos resultados obtidos neste último têm esta justificação, o que não significa que os cursos fiquem vazios.

Face ao exposto, considero que:

1º- O necessário ajustamento, ao nível das licenciaturas, deve ser feito predominantemente através das vagas e do acesso e não tanto pela redução de cursos, principalmente nos locais onde não há duplicação de formações.

2º- Cada região deve ter um leque mínimo de oferta que permita aos candidatos escolher em função dos seus interesses e das necessidades das empresas.

3º- A coordenação regional da oferta formativa não faz sentido entre instituições geograficamente afastadas.

4º- É necessário preservar a coesão do território nacional. O ajustamento não pode ser feito apenas à custa das regiões menos favorecidas.

No que se refere à possibilidade de fusões ou consórcios entre instituições considero o seguinte:

- Não significam, de forma automática, redução de custos. Temos, em relação a isto, o recente exemplo de Lisboa.

- Não consigo ver qualquer vantagem na fusão de instituições geograficamente afastadas, pelo aumento da ineficiência da gestão e consequente necessidade de

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Fernando Sebastião - IP Viseu reforço da estrutura organizativa e pelo aumento das despesas com transportes de dirigentes, docentes ou funcionários.

- A iniciativa de eventuais fusões ou consórcios deve partir das próprias instituições e facilitada pela tutela.

- Além disso, não devemos esquecer que cada instituição tem vindo a fazer o seu próprio ajustamento, dados os elevados cortes orçamentais a que têm sido sujeitas nos últimos anos.

Para finalizar não poderia deixar de relacionar tudo isto com a necessidade do cumprimento das metas previstas na Agenda 2020: conseguir em 2 020 que 40% da população entre os 30 e os 34 anos tenha um diploma de ensino superior, quando a situação atual é de apenas de 26% e, a título de curiosidade, a Finlândia se encontra já nos 46%.

Do meu ponto de vista a estratégia passa pelas seguintes medidas:

1º- Dar condições aos estudantes trabalhadores para voltarem à Escola. É necessário, para isso, continuar a apostar na oferta de proximidade do ensino pós-laboral.

2º- Tomar medidas de redução das taxas de insucesso e de abandono no ensino secundário que induzam a captação de mais estudantes no Ensino Superior, o que viria ajudar a reduzir ou a inverter a atual necessidade de redução de vagas.

3º- Garantir a atratividade dos novos cursos de curta duração para captação de mais estudantes, designadamente do ensino profissional. Estes cursos deverão, no entanto, permitir o acesso aos cursos de licenciatura, caso contrário a procura será muitíssimo reduzida.

Termino finalmente com a convicção de que as despesas com o ensino superior devem ser consideradas não um custo mas um investimento.

Num país sem recursos naturais significativos a qualificação dos portugueses é um fator decisivo para seu desenvolvimento cultural e económico.

A consolidação do sector da educação exige a continuação do esforço de investimento e uma responsabilização social coletiva que inclui as autoridades educativas, os diferentes parceiros e a sociedade em geral.

Referências

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