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UNIVERSIDADE LUTERANA DO BRASIL

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE LUTERANA DO BRASIL

PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO

DIRETORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO

C

ONTANDO

H

ISTÓRIAS

, G

OVERNANDO A

V

IDA

PEDAGOGIAS DO RÁDIO INFORMATIVO NO COTIDIANO CONTEMPORÂNEO

Marta Campos de Quadros

(2)

Livros Grátis

http://www.livrosgratis.com.br

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UNIVERSIDADE LUTERANA DO BRASIL

PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO

DIRETORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO

C

ONTANDO

H

ISTÓRIAS

, G

OVERNANDO A

V

IDA

PEDAGOGIAS DO RÁDIO INFORMATIVO NO COTIDIANO CONTEMPORÂNEO

Marta Campos de Quadros

Profª Orientadora: Drª Marisa Vorraber Costa

Dissertação de Mestrado apresentada ao

Programa de Pós-Graduação em Educação da

Universidade Luterana do Brasil como requisito

parcial para obtenção do título de Mestre em

Educação.

(4)

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Bibliotecária Responsável: Ana Lígia Trindade CRB/10-1235

Q1c Quadros, Marta Campos de

Contando histórias, governanado a vida: pedagogias do rádio informativo no cotidiano contemporâneo. / Marta Campos de Quadros. – Canoas, 2005. . 155 f.

Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Luterana do Brasil, 2005

Orientação: Dra. Marisa Vorraber Costa

1. Educação – pedagogia cultural . 2. Comunicação – rádio. 3. Estudos culturais. I. Costa, Marisa Vorraber. II. Título.

(5)

Para vô Carlito (in memoriam) e vó Olga que viveram

o século XX e me apresentaram para o rádio.

Para minha mãe e meu pai que comigo fazem a minha

história.

Para Lucas, Isabella, Tomaz, Caio, Dora e Rodrigo

pelas histórias que ainda não contei, mas é deles o

século XXI.

Para Cláudia e Júlia (in memoriam), pelas histórias

que não poderei contar

.

(6)

A

GRADECIMENTOS

À minha orientadora, Professora Marisa Vorraber Costa, pela cumplicidade, incentivo

e confiança – mesmo quando eu já não confiava – e por ter me acolhido tão generosamente.

Aos professores Elisabete Maria Garbin, Alfredo Veiga-Neto, Luis Henrique Sommer

e Raquel Longhi por aceitarem avaliar meu trabalho como membros da Banca Examinadora e

compartilharem comigo o encerramento de mais um “capítulo” desta minha história.

Aos meus professores e colegas do PPGEdu – ULBRA, na pessoa da professora Maria

Isabel Bujes, pelo carinho e tolerância.

Aos meus pais, Gladis e Onofre, pelos muitos exemplos e por terem, cada um a seu

modo, me ajudado e apoiado em sonhos e realizações, inclusive nesta.

Aos meus irmãos e cunhados – La, Lula, Mauro, Nélide, Fá e Cristiano – pelo suporte,

muito mais que afetivo, e pelo carinho, mesmo quando nos encontrávamos a muitos

quilômetros de distância.

À minha família – os Campos e os de Quadros – que sempre acreditou em mim e

“torceu”, à distância, para eu “chegar lá”, onde eu escolhesse.

Aos meus colegas do Curso de Comunicação Social da ULBRA pela confiança e pelo

apoio nesta longa jornada.

À Pati, secretária do Curso de Comunicação Social da ULBRA, pelas conversas, pelo

apoio e pela amizade.

A todos os meus ex-alunos da PUCRS, UCPel, UFRGS, ULBRA e Projeto Geração

Futuro Hoje (CE) que, desde 1985, ora repartindo comigo a paixão pelo rádio, ora, sem

mesmo se apaixonar, discutiram as idéias que foram se tornando “condições de possibilidade”

para esta pesquisa de mestrado. Estas histórias também são deles.

À Erenice Oliveira, que repartiu comigo o trabalho da transcrição da programação e as

dificuldades e alegrias da primeira etapa na trajetória desta pesquisa.

À Mara Figur, que de aluna e colega, passou a amiga e cúmplice na paixão por educar

e comunicar.

Á professora Cleonice França Azambuja que me ensinou que aprender só vale se for

para “conversar” com os outros, e que ensinar só é possível quando aluno e professor

transformam, com o conhecimento, os seus mundos em algo melhor.

À Meg por ter sido cúmplice, amiga e companheira nas “dores deste parto de mim

mesma”, desde 1988.

Ao Marcos, que também é Vinicius, pela confiança, pela amizade e cumplicidade

neste e em tantos outros projetos, experiências, idéias, e, sobretudo, pela presença e cuidados.

(7)

R

ESUMO

Esta dissertação, Contando Histórias, Governando a Vida – Pedagogias do Rádio

Informativo no Cotidiano Contemporâneo

, tem por objetivo procurar mostrar e compreender

como o rádio informativo se constitui num dispositivo cultural midiático, com perfil

pedagógico, capaz de interpelar os ouvintes no seu cotidiano, através das histórias que conta,

governando condutas e fabricando identidades. Trata-se de tornar o rádio informativo visível

e dizível, dentro do contexto da cultura globalizada – marcada, hegemonicamente, pela

imagem – através da descrição e análise das narrativas radiofônicas informativas – notícias,

spots

e jingles – como textos culturais que articulam discursos e produzem sujeitos.

Este estudo se inscreve na vertente pós-estruturalista dos Estudos Culturais, utilizando-se das

contribuições teóricas de Michel Foucault – no que se refere às noções de poder e

governamentalidade –, e de Stuart Hall, Henry Giroux e Douglas Kellner, entre outros autores

que abordam a mídia como dispositivo pedagógico produtivo no que se refere às identidades.

O corpus empírico da pesquisa constitui-se de 24 horas de gravação da programação diária

das rádios Gaúcha e CBN-Porto Alegre, acrescido de flashes da programação gravados

posteriormente com o objetivo de atualizar dados. As emissoras escolhidas pertencem ao

segmento informativo, transmitindo em rede e via satélite, e ligadas a duas das maiores

corporações multimídias do País – Rede Brasil Sul de Comunicações e Organizações

Globo/Sistema Globo de Rádio.

As análises desenvolvidas parecem evidenciar as narrativas radiofônicas informativas como

articuladoras de tempos e espaços dos acontecimentos, instituindo a cidade como o locus

privilegiado de práticas sociais e da circulação de discursos que acabam por subjetivar e

sujeitar os indivíduos no sentido de tornarem-se cidadãos – seres da cidade. O rádio

informativo ofereceria, diariamente, uma espécie de “receituário” de condutas e “catálogo” de

identidades, ensinando o ouvinte – intima e coletivamente – a ser e viver a sua vida, no seu

lugar,

de tal ou qual forma.

(8)

A

BSTRACT

This thesis, Contando Histórias, Governando a Vida – Pedagogias do Rádio Informativo no

Cotidiano Contemporâneo

, aims to show and to understand how the informative radio

constitutes itself as a media cultural apparatus, with pedagogical profile, capable to

interpellate the listeners in their daily life, telling “stories”, governing conducts and creating

identities. It targets to make the informative radio “visible” and “utterable”, in the context of

culture globalization – where the image is hegemonic – through the description and analysis

of the informative radio narratives - news, spots and jingles - as cultural texts that articulate

discourses and produce subjects.

The theoretical support of this study is found in the field of Cultural Studies, in its

poststructuralist school, using the theoretical contributions of Michel Foucault – relating to

the conception of power and government –, and the theoretical contribution of Stuart Hall,

Henry Giroux and Douglas Kellner, among others authors who approach the media as a

productive pedagogical apparatus relating to the concept of identities.

The empirical corpus of the research consists in 24-hours of recorded radio broadcasting daily

programs by Gaúcha and CBN-Porto Alegre Radio Broadcasting Stations, complemented

later by recorded flashes of the radio broadcasting programs with the objective to make the

information current. The chosen radio broadcasting stations belong to the informative

segment, broadcasting in net system and through satellite technology. Gaúcha and CBN -

Porto Alegre are associated with the two largest multimedia corporations in Brazil – Rede

Brasil Sul de Comunicações

e Organizações Globo / Sistema Globo de Rádio.

The analyses seems to make evident how the informative radio narrative articulates time and

space of current events, making the city a privileged locus of social practices and discourse

circulation that end up rendering them subjective and subject individuals to become citizens -

beings of the city. The informative radio would offer, daily, a "set of prescriptions" of

conducts and a "catalogue" of identities, teaching the listener - intimately and collectively -

to be

and to live his/her life, in his/her place, in such a way.

(9)

Sumário

H

ISTÓRIAS QUE FAZEM O CAMINHO

... 08

CAPÍTULO I

M

UITO

P

RAZER

,

MEU NOME É RÁDIO

... 16

Reconhecendo histórias da fabricação da mídia radiofônica ... 16

O outro invisível que se perpetua: o Rádio e os Estudos Culturais ... 33

Rádio e pedagogia cultural: um assunto de Educação ... 44

CAPÍTULO II DE OUVIDOS BEM ABERTOS: CONECTANDO ALIENÍGENAS... 51

Rádio Informativo, Sobre o que andam falando por aí... 51

Que história é essa? E quem diz que estas histórias interessam?... 66

Compre, compre! Pregão de identidades, valores e condutas... 87

CAPÍTULO III

C

ONTANDO

H

ISTÓRIAS

,

GOVERNANDO A VIDA

... 101

Ouça o que estão dizendo e quem está falando! ... 101

Eu me governo, tu governas e o rádio informativo? ... 112

Lições diárias de identidade: ser cidadão no cotidiano globalizado 128

A

FINAL

,

QUE HISTÓRIA É ESSA

? É

HORA DE

C

INDERELA IR AO BAILE

! ... 142

(10)

H

ISTÓRIAS QUE FAZEM O CAMINHO

O rádio sempre esteve, de uma forma ou de outra, presente em minha vida. Menina pequena, ainda sem alcançar os pés no chão quando sentada no banquinho da cozinha, ouvia as radionovelas veiculadas pelas rádios

Farroupilha e Gaúcha de Porto Alegre. As histórias eram mediadas pela voz de minha avó que contextualizava fatos e identificava os personagens que iam ganhando sentido e ficando na memória.

Ao meio dia, apenas transpondo a porta, na sala, o cenário radiofônico era outro: ficavam para trás os enredos e melodias românticas e trágicas para que o espaço sonoro fosse ocupado pela música de ritmo marcado e a locução entusiasmada e ligeira. Meu avô ouvia o programa de esportes da Rádio Guaíba e depois, em meio a um grave silêncio, chegava Milton Jung para apresentar o Correspondente Renner1. Nesta hora, todos prestavam

atenção ao rádio como a uma visita ilustre que chegou à casa e conta dos acontecimentos de outros lugares. Aos poucos, vozes ganhavam rostos e, às vezes, evocavam cenas completas tais como a retirada dos bondes das ruas da cidade. Eu e meu avô estávamos sentados dentro do bonde para o último passeio, mas o rádio de pilhas colado ao seu ouvido é que nos contava a história que estávamos vivendo. Nesta época a televisão não estava incluída na minha agenda cotidiana de criança urbana. Tal audiência era eventual.

O rádio migrou da sala de visitas para outros ambientes. No carro para ir e vir da escola, as vozes de Flávio Alcaraz Gomes e Cândido Norberto enchiam de informações o tempo de deslocamento. A abertura do programa matutino do “Flávio”, assim chamado pelos seus “amigos” ouvintes numa intimidade só constatada na

vinculação social radiofônica (Paiva, 1997; Salomão, 2003; Cunha, 1997; Grisa, 1999), chamava especialmente minha atenção: uma voz feminina distorcida, mas emocionada, articulava palavras incompreensíveis, envolvidas em uma trilha sonora intimista. Minha curiosidade de criança só foi satisfeita anos depois, quando já trabalhando com o “Flávio”, na Rádio Gaúcha, perguntei sobre a referida abertura. A resposta foi simples: era para chamar a atenção do ouvinte, diferenciando o programa no todo da programação. O design sonoro2, termo inadequado

para a época, daqueles 30 segundos da vinheta de abertura e encerramento e seu fragmento menor, a vinheta de passagem, cumpriram por anos a sua função, sinalizando ao ouvinte que era “hora de prestar atenção” e regulando o tempo das rotinas, como um relógio.

Já Cândido Norberto comandava o Sala de Redação3, na Rádio Gaúcha. Ainda não reduzido a um programa de debates esportivos, falava dos assuntos da cidade, da política, do cotidiano. As informações formavam um mosaico na minha memória que, às vezes, dois ou três dias depois, era complementado por uma nova informação ou pela resposta às perguntas, aparentemente descabidas, que eram lançadas em outro contexto ao meu pai. Estranho foi encontrar estes personagens da cena radiofônica como colegas jornalistas, já na década de 80. Bastava fechar os olhos e – mesmo sem conhecê-los pessoalmente – como ocorreu com o cronista esportivo Kenny Braga, era possível reconhecê-los.

1 Cf. Prado (1989); Ferraretto (2000). São chamados “correspondentes”, as sínteses noticiosas com duração

aproximada de dez minutos, lidas geralmente por um único locutor. Estas sínteses guardam ainda na denominação o nome do patrocinador e inicialmente eram escritas por redatores das agências publicitárias. O noticiário neste formato mais conhecido no Brasil foi o Repórter Esso, veiculado desde a década de 40, durante o período da II Guerra Mundial, até meados da década de 80 por inúmeras emissoras. O Correspondente Renner ainda é veiculado pela Rádio Guaíba de Porto Alegre e, assim como o Repórter Esso a sua época, goza de grande credibilidade junto ao público.

2 Cf. José (2002), design sonoro é uma expressão que vem sendo utilizada para o planejamento estratégico dos

elementos que compõem a chamada paisagem sonora, nome contemporâneo originado na música que se atribui ao conjunto de elementos que constituem a cena radiofônica.

3 Sala de Redação, programa criado pelo jornalista Cândido Norberto para a Rádio Gaúcha de Porto Alegre em

agosto de 1971 e apresentado até hoje. Inicialmente, o Sala de Redação contava com reportagens, notícias, entrevistas e o debate esportivo. Atualmente o debate está mais centralizado nos esportes, ainda que outros temas, entre os quais cotidiano da cidade, da política, da economia, sejam abordados. O programa hoje tem a duração aproximada de 50 minutos, a partir das 13h, de segunda a sexta-feira, e é comandado pelo jornalista Ruy Carlos Ostermann.

(11)

Assim como o rádio, a Educação também permeou a minha vida. Filha de pai professor universitário e estudante de uma escola pública experimental, onde havia o curso de Magistério, o cotidiano do professor, as

transformações nos currículos e didáticas, os grandes problemas e, em alguns períodos, o cerceamento da liberdade do professor em sala de aula faziam parte do meu cotidiano. Líder estudantil nos Segundo e Terceiro Graus, buscava respostas para as transformações na política cultural e educacional do País. Estudante de Comunicação Social, no início dos anos 80, em plena época da abertura política e da consolidação da televisão como meio de comunicação massivo da integração nacional e da proliferação das mídias alternativas, já no trabalho de conclusão de curso busquei compreender como a mídia interpelava o receptor e acabava por enredar a sua cidadania e a sua identidade num processo de negociação de sentidos. Afinal qual era o papel do jornal comunitário? Quem estava falando através dele? O que mudava na dinâmica do processo comunicacional e qual era o papel do contexto?

Contudo, era o início de uma trajetória dos próprios estudos de comunicação a partir da busca de modelos teóricos mais adequados à realidade brasileira4. Pensar a interdisciplinaridade, a cultura, em tempos de intensa influência do pensamento frankfurtiano era quase impossível. O resultado foi mais indagações e uma tentativa de explicação através das estruturas de poder e da ideologia, já que este termo no plural não compunha o cenário teórico da época. Mas ouvir falar em Martín-Barbero e García Canclini, que mais tarde foram relacionados com uma possível vertente latino-americana dos Estudos Culturais (Escosteguy, 2001; Costa, 2002a; Costa, Silveira e Sommer, 2003) tornou possível buscar novas relações e questionamentos que contemplavam a cultura — lugar de tensão e construção de significados — como uma possibilidade de resposta.

É neste momento que rádio e educação cruzam a minha vida profissional. Duas possibilidades não pensadas: ser profissional de rádio e professora universitária, na área de rádio. Na cultura brasileira já preponderava o

imagético e o caminho pensado era a televisão, educativa, que só faria parte do meu currículo profissional alguns anos mais tarde. Este cruzamento obrigaria o estudo mais aprofundado do rádio e o início da constatação da sua “invisibilidade” (Lewis; Booth, 1992) e do seu poder de informação e vinculação social.

Através das pequenas lutas diárias e dos resultados provisórios que constituem a aventura da investigação (Costa, 2002c), a partir da sala de aula, do cotidiano das emissoras, da orientação de monografias em nível de graduação e dos cursos de pós-graduação, foi sendo construída a possibilidade de desenvolvimento da presente pesquisa. Seu objetivo central é procurar mostrar e compreender como o rádio se constitui num dispositivo cultural midiático, com perfil pedagógico, capaz de interpelar os ouvintes no seu cotidiano, através das histórias que conta, governando a vida e fabricando identidades.

Para que esta história que me proponho escrever possa se inscrever num conjunto de significados é necessário que aqui se explicite, ainda que rápida e precariamente, o caminho a ser percorrido e as lentes escolhidas para vislumbrar os cenários possíveis. Com este propósito, contextualizo primeiramente o rádio que, depois de 82 anos de convivência com os ouvintes brasileiros e apesar da sua morte anunciada – quando da consolidação da televisão e da cultura da imagem no Brasil, a partir dos anos 70 – se encontra hoje mais presente do que nunca no cotidiano. Conquistou espaço na cozinha, no quarto, no automóvel, onde milhões de motoristas de todos os lugares do mundo informam-se sobre o clima, a hora certa, o trânsito, o quê e onde comprar e sobre os últimos acontecimentos. Mídia que se caracteriza pela oralidade, agilidade e imediatismo, o rádio é, ainda, insubstituível para dar as boas e as más novas em primeira mão.

Aperfeiçoado dia a dia, o rádio já entrou na Internet e demonstrou a sua capacidade de se adaptar aos avanços tecnológicos, às sociedades das grandes metrópoles e às populações mais isoladas do planeta. Não importa de onde ele está falando, pois estará falando ao ouvido de cada ouvinte em particular, colocando-se como um grande prestador de serviços. “A capilaridade mais profunda da comunicação está representada nesse veículo que tem o poder de dar resposta instantânea, com a capacidade de uma quase onipresença, cobrindo literalmente toda a superfície do planeta, [...]” (Almeida, 1997, p. 14).

Esta sua trajetória de inserção no cotidiano brasileiro contemporâneo tem sido marcada por transformações tecnológicas: digitalização, Internet, CD, fibras óticas. A qualidade do som chega cada vez mais perto da limpidez absoluta, e a retenção da mensagem radiofônica em meios que possibilitam a sua reprodução

4 Ainda que não seja o foco principal desta pesquisa é importante considerar que a cultura de investigação

acadêmica no campo da Comunicação Social no Brasil, relativamente aos artefatos midiáticos em seus vários aspectos, está ligada ao desenvolvimento dos cursos de pós-graduação, ainda em pequeno número, durante a década de 70. Em 1977, com a criação da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – Intercom – estes estudos ganham um novo impulso (Melo, Fadul e Silva; 1979). Este tópico será mais bem detalhado relativamente ao rádio no Capítulo I – Muito Prazer, meu nome é rádio, quando abordo alguns aspectos da regulação da cultura que levam o rádio a uma quase invisibilidade pública no ecossistema das mídias. (Lewis, 2000; Lewis e Booth, 1992; Quadros, 1999; Lacey, 2000).

(12)

continuada sem a perda das nuances peculiares a cada tom, já é realidade. O satélite alarga ainda mais a amplitude de recepção, iniciada com a introdução nas décadas de 1940 e 1960, do transistor e dos circuitos integrados. A velocidade de emissão e transmissão da mensagem é, e sempre foi, o objetivo de quem explora ou se utiliza desta tecnologia de áudio. O computador já se aliou ao universo radiofônico, barateando custos, agilizando a operação, através de programas que podem gravar, editar, veicular a mensagem radial com qualidade superior (Del Bianco, 1999).

Para McLuhan (1979), a ação do rádio sobre a audiência pode ser comparada simultaneamente a um tambor

tribal5, capaz de causar ressonância simultânea na psique do ouvinte e na sociedade como se fossem integrantes de uma única câmara de eco, com propriedades subliminares inclusivas e envolventes que atuam através de imagens auditivas; e a um sistema nervoso, através do qual notícias, hora certa, informações sobre o tráfego e acima de tudo, informações sobre o tempo, servem para enfatizar a possibilidade de envolver as pessoas umas com as outras no cotidiano das cidades.

Rádio e cidade são lugares onde o homem trava trocas simbólicas com características específicas: locais/espaços de mediação dentro de determinada cultura. Na urgência de informar, o rádio guarda a qualidade oral do contar, de suscitar a imaginação, um mosaico de vozes ininterruptas e cotidianas, com um sentido profundo da função de orientar, aconselhar a comunidade: a voz que fala, fala para um eu único não fragmentado (Quadros, 1997). O rádio é a cidade, afirmam Golin e Kreisner (2002), analisando o seu papel no cotidiano da cultura globalizada. As autoras ressaltam, com base em Mumford, o quanto a cidade, na sua origem, deve à aldeia as relações de ordem, estabilidade e vizinhança no compartilhamento do ritmo vital entre os que nascem, vivem e morrem. As cidades antigas não cresciam além das distâncias das caminhadas e da audição. As possibilidades de

deslocamento e trocas culturais se ampliaram na contemporaneidade, profundamente afetadas pelos processos de globalização e de inserção de novas tecnologias que acabam por comprimir tempos e espaços, possibilitando o conhecimento do outro de forma mediada pelos artefatos culturais, levando a um reconhecimento do papel da mídia no governamento6 das populações (Foucault, 1992; 1995; 1997; Veiga-Neto, 2000; 2001b; Bujes, 2002) e

fabricação de identidades (Hall, 1997a; 1997b; 1999; 2003; 2003a; 2004; Costa, 2002b; Neuls, 2004), através do que Kellner (2001) denomina de cultura da mídia.

Neste contexto, a cultura deixa de ser vista como acumulação de conhecimentos e saberes, como processo intelectual, espiritual ou estético dentro da perspectiva de “alta” e “baixa” cultura, para ser vista como constitutiva de todos os aspectos da vida social, num grau de crescente complexidade de articulação entre o pensamento e a realidade histórica e na contínua dialética entre “conhecimento” e “poder”, emprestando sentido às rupturas e ao caráter político (Costa, 2002a). Segundo Hall (1997b), a partir da segunda metade do século XX, o mundo vive uma revolução em que a cultura constitui-se elemento central na produção das relações sociais nas sociedades contemporâneas. A essa centralidade da cultura e seu papel constitutivo da realidade, Hall (1997b) denomina virada cultural.

Este conjunto de características da cultura contemporânea faz com que as formas de mediação relativas ao conhecimento do mundo, enquanto produção de significados, se alterem. As pessoas passam a ter uma infinidade de alternativas de produção e acesso à informação, nos colocando frente ao desafio e à necessidade de buscar respostas que dêem conta deste processo. Este intenso fluxo de informação, principalmente nas grandes cidades, consiste num desafio para o campo da Educação, já que as mídias, de acordo com as especificidades de suas linguagens, produzem narrativas que nos interpelam, praticando a sua pedagogia, ensinando, entre tantas outras coisas, formas de dividir o mundo (Costa, 2002b); de masculinidades (Neuls, 2004); de representar a natureza

5 A metáfora do rádio como um tambor tribal é utilizada por McLuhan (1979) no contexto das modificações que

a sociedade ocidental vinha sofrendo no sentido da crescente compressão do espaço e do tempo, transformando-a, metaforicamente, em uma aldeia global. Para o autor canadense, o rádio retomava os aspectos de proximidade, ritualização das práticas sociais, de marcador de identidade/pertencimento, de enraizamento cultural arquetípico da oralidade, como elementos de coesão e interação sociais característicos da vida comunal das aldeias primitivas a partir do efeito gerado nas pessoas pela recepção da programação através dos receptores de ondas eletromagnéticas.

6 O termo governamento é empregado neste trabalho, como argumentado por Veiga-Neto (2001b) e Bujes

(2002), no sentido de ato, ação ou efeito de governar(-se). Segundo os autores, apesar desta ser uma palavra “em desuso”, vale retomá-la como forma de diferenciação do termo governo, “como instância de controle político, como instituição a quem cabe o exercício da autoridade, do ato que se exerce sobre uma pessoa ou que ela exerce sobre si mesma, para controlar suas ações” (Bujes, 2002, p.78). O termo governamento é tomado aqui, conforme Foucault (1992, 1997), como ação sobre o campo da conduta alheia, ação sobre ações presumivelmente possíveis; modo como o poder se exerce e é exercido para administrar condutas alheias ou de si mesmo.

(13)

através da publicidade (Amaral, 2000); governamento a partir das revistas e da educação rural (Gerzson, 2004, Weschenfelder, 2003); e de ser gaúcho (Freitas, 2002).

No início da década de 70, ainda sob o impacto da recente presença dos artefatos midiáticos eletrônicos – rádio e tevê – McLuhan (1974) comentava o grande desafio que a escola teria com a repentina derrubada das paredes das salas de aula e dos muros das escolas, impondo novas atitudes e, conseqüentemente, provocando ora desequilíbrios, desconstrução do conhecimento existente; ora uma espécie de reviver o mesmo sem nunca voltar ao mesmo ponto. O novo século traz consigo uma aprendizagem que se dá intensamente fora das paredes das salas de aula e que está sendo inovada pela irreversibilidade da presença da informática que encurtou ainda mais as distâncias e comprimiu o tempo. O ambiente global faz com que esta escola sem paredes representada pela mídia se confirme a cada momento, fazendo do mundo um livro aberto aos sentidos, onde diferentes discursos se entrelaçam, dando forma às várias identidades, já não associadas às fronteiras nacionais ou etnias (Hall, 1999), e ensinando, ao mesmo tempo em que governam a vida de todos os dias.

Neste contexto, as pesquisas em Estudos Culturais em Educação têm hoje se voltado mais intensamente à análise da produtividade dos artefatos culturais midiáticos. Isto decorre do entendimento de que todos os locais da cultura onde o poder se organiza e se exercita são espaços que educam, praticando pedagogias culturais que moldam as condutas das pessoas. As pedagogias culturais vão conformando a nossa identidade na medida em que envolvem nossos desejos, nossos medos, capturam nossa imaginação – fantasias e horrores – e vão construindo a nossa consciência.

Cada artefato lança mão de seus atributos constitutivos a fim de alcançar o “endereço” desejado, mesmo que sem garantias absolutas de encontrá-lo, já que a seleção dos elementos que vão compor a identidade de cada ouvinte idealizado ou comunidade imaginada de ouvintes (Cunha, 1997; Salomão 2003), ainda assim, serão mediados por culturas particulares, como ressalta Ellsworth (2001), ao comentar os modos de endereçamento no cinema e na educação. Segundo Costa (2002d, p. 144), “[...] há pedagogias culturais e currículos culturais em andamento dentro e fora das instituições educacionais, estruturados de acordo com as forças que regem a dinâmica comercial, política e cultural predominante no mundo contemporâneo”. Essa concepção é desenvolvida por muitos autores, entre eles Hall (1997a) e Costa (2001a, 2002a).

Para compreendermos o rádio chamado informativo como dispositivo midiático que pratica pedagogias culturais no cotidiano globalizado, me aproximo dos Estudos Culturais, como este novo campo de estudo – de

aproximação interdisciplinar ou pós-disciplinar7 como preferem alguns autores – organizado em torno da cultura como eixo central. Os Estudos Culturais têm o seu início na Inglaterra e são institucionalizados a partir da formação de um centro de pesquisas de pós-graduação junto à Universidade de Birmingham. Para a sua matriz intelectual ser estabelecida foram realizadas aproximações a várias linhas de teorização e análise nas ciências humanas e sociais (Hall, 1997b; Escosteguy, 2001; Costa, Silveira e Sommer, 2003; Nelson, Treichler e Grossberg, 2002).

A presente pesquisa foi realizada a partir da audiência sistemática de duas emissoras de rádio e gravação aleatória de 24 horas de programação diária de cada uma delas. A escolha recaiu sobre as rádios Gaúcha, de Porto Alegre (600kz) e CBN Porto Alegre (1.340kz) por serem ambas informativas, mas com diferentes linhas de programação – talk and news e all news8, com programação 24 horas no ar e operarem em rede, uma das

características da mídia eletrônica globalizada.

O presente estudo está organizado em três capítulos. O capítulo I – Muito Prazer, meu nome é rádio é uma espécie de revisita às histórias, características midiáticas e relações do rádio informativo com os Estudos Culturais, como campo de estudo, e com a conceituação e contextualização das pedagogias culturais, buscando

7 Lacey (2000) e Tacchi (2000) reivindicam que tanto os Estudos Culturais como os estudos da mídia têm se

constituído em aproximações teóricas que buscam romper com as estruturas e limites disciplinares – Psicologia, Antropologia, Sociologia, História, Comunicação Social, Educação, entre outras – com o objetivo de “dar conta” da complexidade das práticas socioculturais. Para os autores ingleses não se trata de colocar as disciplinas em relação, mas de usa-las como ferramentas no seu conjunto.

8 A denominação talk and news e all news tem origem no rádio informativo norte-americano. O talk and news é

um estilo de programação que toma como base a “conversa” e a estruturação da informação na forma tradicional de notícia. Predomina no talk and news a argumentação sobre a informação, os pequenos comentários dos apresentadores-âncoras ou mesmo as entrevistas e debates. O tempo/espaço radiofônico, na forma de grade de programação está estruturado em programas geralmente marcados pelas características identitárias de cada apresentador. Já o estilo all news caracteriza-se pela notícia rápida, repetida a pequenos intervalos, acompanhando o desenvolvimento dos acontecimentos. A programação é pensada em fluxo, onde há uma interação entre os vários programas entre si e entre os programas e a comunicação publicitária, no período de 24h, segundo Williams (apud Modleski, 1996, p. 104).

(14)

caracterizá-lo como um dispositivo da mídia, ou, como afirma Tacchi (2000), detentor de radiobility9. De

ouvidos bem abertos: conectando alienígenas é o título do segundo capítulo, onde caracterizo o rádio

informativo a partir da programação das Rádios Gaúcha e CBN-Porto Alegre, das pautas abordadas, das formas e qualidades narrativas da informação jornalística – a notícia, a reportagem, o comentário – e da comunicação publicitária – spots e jingles – através das quais os discursos são colocados em circulação e interpelam os ouvintes, cotejando estas informações com conceitos e análises que forneçam possibilidades de “ouvir” o que o rádio informativo tem a dizer de si mesmo. Já no capitulo III – Contando Histórias, Governando a Vida, utilizo-me de Foucault e Hall para abordar as táticas de governautilizo-mento pela cultura utilizadas pelo rádio informativo e analisar e discutir como as pedagogias culturais operam – que aspectos se vêem discursivamente reforçados e que aspectos são silenciados – no governamento das condutas e na fabricação das identidades. Ao final, apresento minhas considerações sobre como este contador de histórias, que a partir de suas narrativas diárias, ensina o ouvinte a ser e viver a sua vida, no seu lugar, de tal ou qual forma.

9 O termo radiobility foi mantido como no original em inglês por não haver termo semelhante na língua

portuguesa. A tradução deste artigo de Tacchi (2000), assim como de outras obras em língua estrangeira utilizadas nesta dissertação são de minha responsabilidade.

(15)

CAPITULO I

M

UITO PRAZER

,

MEU NOME É RÁDIO

Reconhecendo histórias da fabricação da Mídia Radiofônica

Como uma arqueóloga que procura pistas no passado para obter explicações sobre contingências e ocorrências contemporâneas, me aproximo do rádio novamente, para reconhecê-lo, através da atividade da pesquisa acadêmica, em um outro campo, a Educação, e visto pelas lentes dos Estudos Culturais. Para fazê-lo, busquei a posição de afastamento do objeto que se conhece e/ou convive há mais de 20 anos para, desde este

distanciamento, voltar a (re)conhecê-lo.

Revendo vários autores10 é possível perceber que a história do rádio se confunde com a história do chamado capitalismo tardio (Harvey, 1996; Mattelart, 1994; Ortiz, 1994), durante o século XX. As transformações vividas nas sociedades ocidentais, os centramentos, descentramentos e recentramentos que acabaram por posicionar a cultura no centro dos processos sociais, não mais como pano de fundo, mas como elemento constitutivo, estão ali presentes. Até mesmo a ambigüidade que se constata, relativamente à sobrevivência do rádio como um dispositivo cultural peculiar que guarda características do outro – daquele que não tem imagem e sobrevive num ambiente cultural marcado pelo visual – pode ser ali encontrada: o rádio é o primeiro meio de comunicação da era eletrônica e resultou da convergência de várias experiências que buscavam uma forma segura de transmissão de mensagens ponto a ponto, sem o suporte de fios, para responder à crescente compressão do tempo e do espaço na aceleração do trânsito do capital.

As primeiras transmissões são realizadas ainda no final do século XIX, e seus resultados sinalizam dois aspectos importantes: a possibilidade econômica que a nova tecnologia poderia representar e a desconfiança pela

novidade que era observada nas suas características: fácil recepção e de caráter aberto, sem controle; fácil operação – os amadores manuseavam os protótipos; fruto da curiosidade humana e de um tempo em que a racionalidade científica é o elemento central da cultura.

Em programa veiculado pela Rádio Guaíba de Porto Alegre, no final do ano 2000, o século XX foi caracterizado como o tempo em que o homem vai sonhar com Freud na psicanálise; vai voar com Santos Dumont, na

aeronáutica; vai falar ao mundo com a radiofonia de Marconi e salvar mais vidas com a penicilina de Flemming; mas vai morrer e ver a liberdade ser cerceada com Hitler, com Franco. (Gomes, 2001). É no século XIX que surge a eletricidade e sua presença é sentida no ambiente urbano como elemento de alargamento e velocidade do tempo, mas é no século XX que ela se disseminará e naturalizará como algo essencial, que só é percebido na ausência.

Esta naturalização também parece caracterizar a relação da sociedade com o rádio, mas isto só vai ocorrer a partir da segunda metade do século XX, após a consolidação da televisão. Na primeira metade do século passado, o rádio como elemento da cultura capitalista experimenta as transformações que Hall (1997b) aborda como aspectos substantivos da centralidade da cultura: a migração do capital da indústria pesada para a indústria da informação, quando deixa de ser um equipamento que possibilita a emissão de vozes, utilizado na navegação e na guerra, para assumir o seu lugar de artefato cultural, integrante de uma indústria de bens simbólicos que se consolidava, cujo principal produto era a informação e a publicidade, num primeiro momento, e o

entretenimento a partir dos anos 30.

Estas transformações levam à necessidade de estruturação interna da nova mídia como negócio para torná-la um produto de consumo gerador de lucro: a produção massiva de aparelhos receptores cada vez mais leves e com melhor qualidade de som e tecnologia com maiores possibilidades de transmissão, sublinhando aspectos relativos à imediaticidade; as grades de programação e os programas com curta duração, fixados na identidade do apresentador; e a capacitação ou qualificação de profissionais, alterando a cultura organizacional de uma indústria que produzia equipamentos para uma indústria que fabrica cultura.

10 A história mais detalhada do rádio no mundo e no Brasil, focalizando aspectos da tecnologia, da

programação, dos usos socioculturais e da economia política da radiodifusão pode ser conhecida em Vampré (1979); Ortriwano (1985); Ferraretto (2000); Albert y Tudesq (1982); Sartori e Grazzini (1987); Bahia (1990); Moreira (1991; 2002); Goldfeder (1980); Casé (1995); Saroldi e Moreira (1988); Lewis e Booth (1992); Lacey (2000); Tacchi (2000).

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Nesta época, algumas indústrias de componentes radioelétricos ensaiavam os primeiros programas. Eram emissões curtas, geralmente compostas de informações meteorológicas e músicas, com o objetivo de divulgar equipamentos à venda. As críticas foram muitas, pois não era admitido que um serviço para a humanidade fosse

utilizado como brinquedo (Albert y Tudesq, 1982). Este aspecto parece evidenciar-se na denominação das empresas envolvidas tanto nos Estados Unidos, quanto na Europa e que, ainda hoje, compõem o cenário da indústria mundial: General Electric, Westinghouse, Western Eletric, Philips, Telefunken, etc. Porém, são os amadores – responsáveis pelo desenvolvimento do conhecimento através de pesquisas no sentido de aperfeiçoar a sintonia e a fidelidade sonora dos aparelhos emissores e receptores – que primeiro conformam uma espécie de

programação primitiva e preocupam-se com um público receptor a ser endereçado, ainda que dentro do modelo associativo de clubes e sociedades.

Este processo de transformação não se dá de maneira uniforme e simultânea nas várias nações. Aquelas mais ricas ou mais desenvolvidas criaram condições de possibilidade no âmbito político, econômico e cultural para que o saber necessário fosse produzido: direcionaram o capital para o desenvolvimento de pesquisas no campo tecnológico; fomentaram a formação de novos mercados junto às áreas de maior concentração populacional – as cidades; e provocaram a circulação dos discursos justificadores da modernidade e do progresso, colocando o rádio como um artefato identificado com estes valores.

Este redirecionamento relativamente à exploração da radiofonia se dá ainda antes da II Guerra Mundial, objetivando impulsionar as vendas de equipamentos nos países considerados mercados potenciais, gerando uma demanda a partir da colocação de uma produção excedente que não seria absorvida pelos mercados internos. É dentro desta lógica de formação do capitalismo tardio – onde as possibilidades de produção e acesso aos bens simbólicos são o principal argumento trabalhado pelos discursos de modernização – que o rádio chega, ainda na década de 20, aos países da América Latina, como um dos elementos propulsores da cultura do consumo e, posteriormente, da mídia.(Mattelart, 1994; Lewis e Booth, 1992; Ortiz, 1994).

Segundo Lewis e Booth (1992), o rádio foi uma instituição chave durante a terceira década do século XX, pois participou em muitos aspectos fundamentais da vida pública e, como propõe Lacey (2000), se introduziu, cada vez, mais no ambiente doméstico, principalmente como uma forma de integrar as mulheres à cultura capitalista industrial. Através do rádio as mulheres preenchiam os longos e desinteressantes períodos de isolamento no ambiente doméstico e de trabalho monótono nas fábricas, ao mesmo tempo em que eram mantidas informadas sobre as “facilidades da vida moderna”.

É, ainda, importante ressaltar que esta variação nas condições de possibilidade de desenvolvimento do rádio esteve diretamente ligada às políticas econômicas e culturais peculiares a cada nação, na época. Contudo, ao termino deste período é possível vislumbrar duas tendências de utilização cultural da mídia radiofônica: os europeus enfatizam o caráter de monopólio público ligado à cultura e educação e os norte-americanos optam pela iniciativa comercial privada. Entretanto, em ambos os casos – diferentemente da telefonia e telegrafia – o rádio emerge como uma opção de comunicação difusa e coletiva, mais ligada ao entretenimento e à

informação11. No âmbito da cultura, através do rádio, seriam colocadas em circulação inúmeras representações

de fragmentos da “realidade”que passariam a compor a cena cotidiana da vida dos ouvintes.

Hall (1997b), quando aborda a centralidade da cultura como elemento constitutivo das sociedades do

modernismo tardio, afirma a importância de se considerar questões relativas à regulação social, à moralidade e ao governo da conduta social, pois no seu cerne estão as relações entre cultura e poder. Para o autor jamaicano, quanto mais “central” se torna a cultura,

tanto mais significativas são as forças que a governam, moldam e regulam. Seja o que

for que tenha a capacidade de influenciar a configuração geral da cultura, de controlar

ou determinar o modo como funcionam as instituições culturais ou regular as práticas

culturais, isto exerce um tipo de poder explícito sobre a vida cultural (Hall, 1997b, p.

35).

11 Fixo-me no modelo norte-americano por ter sido a base do modelo brasileiro, ainda hoje seguido,

mesmo considerando que os discursos sobre o potencial educativo do novo meio, vindos da Europa, principalmente a partir das experiências alemã e inglesa, influenciaram a primeira década do rádio no Brasil. O modelo público estatal seguido pela Europa passa por um primeiro rearranjo na década de 40, durante a II Guerra Mundial, quando a população aliada toma contato com o rádio e o cinema norte-americanos, mas a chamada liberalização das ondas eletromagnéticas só ocorreria nos anos 80 do século passado.

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Assim, constatada a relevância e o impacto da radiofonia junto aos públicos, governos e iniciativa privada, Estado e mercado, se unem para regular seu uso tanto nos âmbitos nacionais e internacional das freqüências, como no âmbito da programação. Os jornais, força econômica e cultural tradicional, vêem as potencialidades do novo artefato com reservas e pressionam para que a transmissão das informações e de publicidade fosse exclusividade da imprensa. A regulação virá a partir da determinação do espaço destinado à informação – reduzido a pequenos informes diários – e da forma da linguagem: informações sintéticas, objetivas, a exemplo de telegramas (Albert y Tudesq, 1982).

Esta forma de escrita radiofônica – o texto corrido – ainda é popularmente chamada de telegrama e pode ser verificada hoje como algo inerente às características do rádio, ensinada nos cursos superiores de Comunicação Social e indicada pelos manuais de redação (Porchat, 1993; Klockner, 1997; Kopplin e Ferraretto, 1992; Ferrareto, 2000; Barbeiro e Lima, 2001). Mas como veremos mais adiante, contemporaneamente, as linhas de programação all news e talk and news, principalmente, têm abandonado esta forma característica do

radiojornalismo ainda fixado nos padrões visuais da escrita, para buscarem formas mais adequadas à oralidade como característica da linguagem do rádio informativo.

No que se refere ao governamento pela cultura – “a regulação das condutas, ações sociais e práticas e, assim a maneira como agimos no âmbito das instituições e na sociedade mais ampla” – destacado por Hall (1997b, p. 39), partidos políticos e governantes buscam o rádio para ampliarem as possibilidades de fabricação de consenso e de identidades junto às populações. Roosevelt criou um programa semanal em que convidava a nação norte-americana, em tom familiar, a conversar ao pé do fogo. Hitler, através de seus pronunciamentos marcados mais pela emoção do que pela reflexão, usou estereótipos e slogans simples e repetitivos para propagar as idéias do nazismo e Lênin unificou os inúmeros dialetos e línguas falados na União Soviética na língua russa.(Haussen, 1997; Albert y Tudesq, 1982; Sartori e Grazzini, 1987). Os grandes partidos norte-americanos utilizaram o rádio, em 1924, pagando pelo uso do seu tempo/espaço, para divulgarem suas propostas e, em 1928, o rádio faz parte das estratégias da campanha eleitoral para a presidência da república nos Estados Unidos. Na tarde das eleições, é estimado que os candidatos se dirigiram a mais de 40 milhões de ouvintes.

Especialmente o rádio alemão desta fase se utiliza intensamente de uma característica que já dentro do ambiente da cultura de massa seria lembrada por McLuhan (1979; 1974) como primordial e marcante: a utilização da voz amplificada tecnologicamente que fala a uma multidão anônima, tocando a cada um de forma individual e íntima, levando o ouvinte contatar com os seus mais profundos valores tribais. Quem falava, neste caso, era Hitler, assumindo um tom profético e a autoridade de quem se pronuncia em nome de Deus, parecendo reviver mitos ancestrais e predizer o futuro. Duval (1998) observa, ao estudar os efeitos da locução sobre o ouvinte, que este mesmo aspecto do rádio é explorado alguns anos mais tarde, quando Orson Welles leva ao ar a novela A

Guerra dos Mundos, através da Rede CBS, às vésperas do Dia das Bruxas e da Segunda Guerra Mundial, causando sérios transtornos junto à população dos estados de Nova Iorque e Nova Jersey12.

Esta característica da comunicação radiofônica relativa aos atributos da voz mediatizada, ligada a uma espécie de matriz mítica, será inúmeras vezes registrada pelo cinema no decorrer do século XX. Filmes como A vida é bela,

A era do rádio, Bom Dia Vietnã, O pianista, Como Cães e Gatos, Cinema Paradiso, Um dia de fúria, For all e

Lisbela e o Prisioneiro, entre muitos outros, registram esta potencialidade da voz de remetimento à experiência arquetípica de contar e ouvir histórias. Lacey (2000) e Quadros (1999), com base em W. Benjamin, abordam o rádio a partir desta perspectiva, configurando-o como o narrador por excelência da era moderna, pois

paradoxalmente representa uma resposta ao declínio da narrativa artesanal, a qual depende do tédio para se realizar e, por sua vez, serve para destruí-lo.

Haussen (1998a) comenta esta questão como um dos elementos do rádio como dispositivo cultural midiático, ao considerar que a fala radiofônica através de seus diferentes gêneros é um lugar de negociação de sentido, pois o rádio é uma espécie de porta-voz autorizado que detém o poder delegado por vários campos discursivos para narrar e instituir “realidades”. Sobre este poder de narrar e estabelecer o que tem ou não estatuto de “realidade”, Costa (2002d, p. 141) afirma que

quando indivíduos, grupos, tradições descrevem ou explicam algo em uma narrativa

ou discurso, temos a linguagem produzindo uma “realidade”, instituindo algo como

12 A obra Rádio e Pânico: A Guerra dos Mundos, 60 anos depois, organizada por Meditsch (1998),

aborda de forma aprofundada, através de artigos de diferentes autores, os vários aspectos do rádio que foram influenciados por esta emissão radiofônica e suas repercussões, incluindo-se o início das pesquisas de audiência, já que há somente uma estimativa do número de ouvintes sintonizados no momento em que, através de uma peça de radioteatro “os marcianos invadiram os Estados Unidos” (conforme referências bibliográficas).

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existente de tal ou qual forma. Assim, quem tem o poder de narrar pessoas, coisas,

eventos ou processos, expondo como estão constituídos, como funcionam, que

atributos possuem, é quem dá as cartas da representação, ou seja, é quem estabelece o

que tem estatuto de “realidade”.

Este poder de narrar a “realidade” a partir da mediação da voz como um dos elementos do rádio como dispositivo cultural midiático construído historicamente, me aproxima do outro aspecto que interessa

particularmente ao foco desta pesquisa: o governamento pela cultura e a fabricação das identidades a partir de uma espécie de currículo cultural (Giroux, 2002a, 2002b; Costa, Silveira e Sommer, 2003; Steinberg e Kincheloe, 2001), que é também constatado na experiência radiofônica alemã – o uso do rádio como lugar do pedagógico. Não eram raros os intelectuais – incluindo-se aqueles afiliados à escola frankfurtiana como Adorno, Horkheimer, mais críticos aos meios eletrônicos – chamados a falar nas emissoras locais com o objetivo de difundir a cultura, ainda que dentro da concepção hierarquizada de “alta” e “baixa” cultura, ou seja, a cultura como aquilo de melhor a humanidade produziu.

Walter Benjamin foi um destes intelectuais. No período de 1929 a 1932, atuou em programas voltados para jovens e crianças. Eram espécies de diálogos com o ouvinte que contavam, a partir da experiência do filósofo ainda menino, as histórias cotidianas da Alemanha, assim como de seus fatos e homens considerados

importantes pelas narrativas dominantes. Tais conversas aconselhavam leituras e lembravam brinquedos e brincadeiras do passado como forma de manter viva a memória cultural. O texto ditado pelo autor, raramente era por ele acompanhado. Benjamin improvisava e encerrava cada emissão – à semelhança dos locutores

contemporâneos – com a promessa de retorno em próxima oportunidade.(Benjamin, 1987)13.

Aliás, parece ter sido o conjunto destes atributos de comunicação, de suas possibilidades e alcance sem limites que assustou os frankfurtianos. Eles viram nas novas tecnologias de Comunicação e Informação um imenso risco, pois acreditavam que o deslocamento da “cultura” do “domínio da tradição”, através da reprodução e acesso massivo – implicando novos modos de percepção e novas formas de pensamento – transformariam o mundo em massas de indivíduos incultos ou semi-cultos. Conforme Costa (2002d, p.136), na Inglaterra, “este entendimento era tão ameaçador” que chega a ser proposta a introdução “nos currículos escolares um

treinamento de resistência à cultura de massa e, para além dos muros das escolas, conclamam as minorias cultas a um esforço direcionado e consciente para fazer frente à falência da ‘ verdadeira cultura’”.

Considerando esta aparente inevitabilidade dos efeitos da mídia massiva, Ellsworth (2001), sublinha que sempre existe um espaço de negociação de sentido, de mediação, a partir dos elementos que são considerados ao

endereçar-se uma mensagem e as contingências da recepção. Há sempre uma diferença entre quem o/a produtor/a pensa que seu/sua receptor/a é – o/a receptor/a idealizado/a (Cunha, 1997); quem realmente o/a receptor/a é, com todas as suas características; e, ainda, quem o/a receptor/a pensa que é. O/a receptor/a não pode ser simplesmente posicionado/a por um determinado modo de endereçamento. Portanto, os riscos são relativos. No período que antecede a II Guerra Mundial, quando a cultura começa a configurar-se como elemento central para se compreender as práticas sociais, o rádio já pode ser considerado um dispositivo pedagógico da cultura. Principalmente nos Estados Unidos, dentro do modelo comercial, com a publicidade e o sistema de redes, a programação é direcionada prioritariamente para o divertimento e se estrutura através da uma seqüência de programas com horários previamente estabelecidos, segundo vários tipos e gêneros. As emissoras passam a produzir programas mais adequados às características do rádio e aos gostos dos ouvintes, fundamentadas nas pesquisas de audiência. No campo da informação, crescem as transmissões ao vivo. Aos poucos são criados gêneros completamente novos, entre os quais os programas de variedades, os programas de perguntas e

respostas, os esquetes, radionovelas e radiodramas baseados na força da palavra, da voz e da sonoplastia, capazes de jogarem com a máxima participação do ouvinte (Sartori e Grazzini, 1987). Este modelo de administração e programação desenvolvido pelo rádio será, posteriormente, adotado para a televisão e ainda pode ser constatado em funcionamento, principalmente, nas emissoras que operam com a recepção aberta de canais.

Neste momento em que o rádio se desenvolve e os Estados Unidos já lideravam a produção industrial mundial, o modelo comercial de radiodifusão se coloca como dominante e é possível identificar alguns de seus traços no rádio contemporâneo. A vinculação com a informação – como orientação de condutas – e sua obtenção através

13 A obra citada reúne o conjunto de textos para rádio, levados ao ar por W. Benjamin, ainda com

correções manuscritas que haviam desaparecido durante a Segunda Guerra Mundial. Os textos, a exemplo do que o autor caracteriza como narrativa tradicional, valem-se de sua experiência pessoal, do sentido de utilidade de quem aconselha e das características de fala, retomadas contemporaneamente pelas emissoras de rádio informativo no estilo talk and news, como abordo adiante.

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da associação de diversos meios, tendo o telefone como suporte privilegiado, se consolida. O lazer – música, esporte e narrativa – aparece como um outro elemento marcante da programação, junto com a publicidade enquanto sustentação econômica e fomento da cultura de consumo. A busca da fidelidade do ouvinte gera a necessidade de uma programação regular e previamente conhecida bem como a transmissão rápida e eficaz da palavra através da voz de forma simultânea ao fato. O estabelecimento da concorrência e das redes, responde à lógica comercial e às possíveis dificuldades técnicas (Meditsch, 1999).

Na década de 40, a ocorrência da Segunda Guerra Mundial colocará em cheque várias instituições. O rádio parecia estar preparado para o contexto pós-guerra, juntamente com o cinema e a indústria fonográfica. O envolvimento dos Estados Unidos no conflito bélico concretiza o que os diversos autores chamam de a Guerra

das Ondas (Lewis e Booth, 1992; Sartori e Grazzini; 1987; Albert y Tudesq, 1982). A participação do rádio na Segunda Guerra inicia antes da deflagração mesma. O rádio foi utilizado pela propaganda nazi-fascista e pela contra propaganda aliada na tentativa de manter o moral elevado tanto das tropas como das populações de territórios invadidos. As ondas curtas, desde 1927, eram o meio mais rápido de informar os países em guerra em sua mesma língua, pois as ondas sonoras já não reconheciam as fronteiras nacionais.

O serviço de rádio das Forças Armadas dos Estados Unidos foi criado em 1942 para levar a programação norte-americana às tropas que estavam baseadas na Europa. Este é um momento em que as indústrias fonográfica e cinematográfica aliam-se às redes de rádio em nome de valores nacionais. Era necessário manter os soldados norte-americanos em terras estrangeiras estimulados, e o rádio mediava esta relação de estar em guerra, mas

estar em casa.

Resgatando aqui o rádio como uma espécie de narrador da aldeia global (Quadros, 1999), é possível visualizá-lo como um dispositivo pedagógico no âmbito da cultura. Através dos programas de rádio, da voz e da

linguagem de seus locutores e artistas mais importantes, os soldados vivenciavam, a milhares de quilômetros de distância, a sensação de lar, de estar em casa, referida por Bachelard (1985), ou mesmo de solidariedade de um amigo próximo, referida por Paiva (1997). O rádio falava sobre o país de origem e sobre a guerra. O soldado em diferentes áreas do front organizava, a partir destas representações e discursos, a sua vida cotidiana. A voz conhecida do locutor lhe contava sobre si mesmo e sobre tantos outros que se encontravam na mesma situação, provocando uma espécie de identificação com o outro, configurado pelo discurso como ele mesmo.

Neste contexto, diversão e informação proporcionavam distensão e resistência através da aparente companhia. O cinema atuava em conjunto com o rádio, mostrando uma América solidária, mas feliz, para o soldado no front; e a guerra para quem estava em casa, com o ouvido colado no rádio à espera de notícias, que chegavam entre o programa de perguntas e respostas, o radioteatro ou o programa musical14. A partir do final da II Guerra, nos

Estados Unidos, a televisão passa a ter um papel preponderante na cultura da mídia, mas o rádio ainda seria bastante utilizado em situações de conflito como dispositivo de fabricação de identidades culturais e governamento das populações. O espetáculo, como observa Kellner (2001b, p.11), é usado para

seduzir o público, e levá-lo a identificar-se com certas opiniões, atitudes, sentimentos

e disposições. A cultura de consumo oferece um deslumbrante conjunto de bens e

serviços que induzem os indivíduos a participar de um sistema de gratificação

comercial. A cultura da mídia e a cultura do consumo atuam de mãos dadas no sentido

de gerar pensamentos e comportamentos ajustados aos valores, às instituições, às

crenças e às práticas vigentes.

Após a II Guerra Mundial, poucas serão as alterações no modelo norte-americano de rádio. Os formatos ficcionais darão lugar aos reality shows e programas onde os apresentadores fazem a mediação dos ouvintes que participam pelo telefone – chamados Call In (Salomão, 2003). As emissoras se apropriaram de novas tecnologias para dinamizar a cobertura dos acontecimentos e qualificar e otimizar o processo produtivo de seus formatos, adotando como variante a programação em fluxo por faixas horárias, sem o fracionamento do tempo/espaço radiofônico em diferentes formatos que reforçam as características de cada apresentador. A música, com o

14 O filme dirigido por Woody Allen, Radio Days ou a Era do Rádio, retrata um pouco desta realidade

que subjetivou soldados e população norte-americana no sentido da manutenção da sua identidade e caracterização dos nazi-fascistas como o outro, o diferente na cultura, dentro de uma lógica binária de dividir o mundo entre heróis e bandidos, entre o bem e o mal (Costa, 2002b). Os norte-americanos e aliados eram representados como o bem. Os nazistas e aliados como o mal. Mais recentemente, For All, produção brasileira dirigida por Buza Ferraz, remete a este cotidiano com um tom folclórico, mostrando o dia-a-dia de soldados norte-americanos e da população em uma base-avançada aliada no Rio Grande do Norte.

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desenvolvimento das emissoras FM, ganha outro status na programação onde a sua execução incentiva a produção da indústria fonográfica. Contemporaneamente, estas emissoras em freqüência modulada vão interagir com os videoclipes, veiculados pelas emissoras de televisão a cabo ou recepção direta do satélite especializadas, cujo exemplo mais conhecido é a Music Television – MTV. As emissoras públicas têm pouco impacto sobre as audiências.

Ainda dois aspectos mais contemporâneos podem ser considerados: a segmentação e as rádios comunitárias. A segmentação tem sido colocada como decorrente do aperfeiçoamento do capitalismo na busca da objetivação do lucro – uma ferramenta para fracionar ainda mais os mercados e buscar o atingimento mais direto das

expectativas do público consumidor. Neste sentido, o mercado publicitário e as emissoras têm investido muitos recursos em pesquisas de cunho quantitativo e qualitativo, incluindo-se a pesquisa acadêmica de caráter etnográfico.

Quanto às emissoras comunitárias, surgem como uma alternativa de informação e entretenimento, voltadas, principalmente, para segmentos sociais específicos ou para os movimentos vinculados à luta pela cidadania das minorias: mulheres, crianças, negros, orientais, latinos, motoristas de táxi, gays e etc. Conforme Hartley (2000), são o lugar do outro da cultura no dial, já que representam a apropriação das novas tecnologias em favor do desenvolvimento e da democracia por grupos e comunidades antes ausentes da cena radiofônica.

Focando nossas lentes no Brasil, vamos verificar que este rádio que passa a fazer parte da vida dos brasileiros ainda nos anos 20 do século passado nasce e dá seus primeiros passos em meio a profundas modificações na sociedade brasileira. Surtos de urbanização, industrialização, levas de migrantes que se ocupam em parte com a agricultura, em parte com os setores de serviços e indústria, mudam o contexto cultural das cidades,

inicialmente, e depois da zona rural que – dentro da perspectiva de modernização e ampliação de mercados de consumo – necessitava ser incluída na dinâmica do capitalismo (Weschenfelder, 2003).

O rádio é visto, a princípio, como um outro instrumento para fazer chegar a cultura e a educação à população dos lugares mais distantes e com menos condições de acesso: aos pobres e analfabetos. Como constatado por

Moreira (1991), até os anos 1930 é mantida quase que exclusivamente uma programação constituída de

reproduções de obras literárias, conferências, veiculação de música erudita e depois das canções populares, com a chegada da indústria fonográfica. São também desta época, segundo Zuculotto (1998), os primeiros formatos informativos – pequenos informativos que reproduziam as notícias dos jornais do dia.

É interessante ressaltar que os precursores e os maiores incentivadores do rádio no Brasil estavam ligados às Academias Brasileiras de Letras e de Artes e Ciências. Roquette Pinto, um dos maiores empreendedores do rádio como artefato cultural e integrante de das duas comunidades intelectuais, comentava já no início da década de 30 do século passado, o reflexo de encurtamento de distâncias e compressão do tempo na educação e no cotidiano das pessoas, que se verificava com a expansão da tecnologia radiofônica, principalmente no interior de um país tão grande (Moreira, 2002). O acadêmico ainda parece ter sinalizado a dinâmica contemporânea da cultura da mídia, ao buscar integrar numa espécie de ecossistema, através de políticas culturais e educacionais específicas, a Rádio Escola Municipal, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, o Instituto Nacional do Cinema Educativo – INCE – e as Revistas Eletron e Nacional de Educação. Os textos culturais produzidos por estes meios referenciavam uns aos outros, garantindo a sustentação de todos. Esta estratégia vem sendo crescentemente utilizada pelas grandes corporações da comunicação e informação, como sublinham Rocha (1995) e Steinberg e Kincheloe (2001), ao analisarem o papel das grandes corporações no âmbito da comunicação massiva com relação à subjetivação de pessoas e grupos e construção de identidades pela mídia.

Outro aspecto a ser enfatizado é a presença da noção de pedagogia cultural (Costa, Silveira e Sommer, 2003; Giroux, 2002a) a partir da mídia, ainda que dentro de uma visão de educação mais formal e tradicional de aquisição cultural que tangenciava a noção de tecnologia disciplinar aplicada aos corpos e as mentes como forma de governamentalidade. descrita, a partir do pensamento de Foucault, por Veiga-Neto (2000) e Bujes (2002). Roquette Pinto afirmava que a cultura dos mais de 7 milhões de jovens, entre 11 e 18 anos, existentes no país nos anos 1930, só encontraria amparo no cinema e no rádio. “Não me esqueço da imprensa. [...] Mas o rádio e o cinema vão aonde não vai o jornal: vão aos que não sabem ler” (apud Moreira, 2002, p. 15).

O rádio, então, já era visto como um dos elementos de governamento das populações através da cultura, como uma forma de educação, entendida, principalmente, como “ginástica do sentimento, aquisição de hábitos e costumes de moralidade, de higiene, de sociabilidade, de trabalho e até mesmo de vadiação...” (Moreira, 2002, p.15). O próprio campo da Educação já havia agendado o rádio como parte das suas preocupações e alternativas.

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Em 1934, esta visão era destacada no prefácio de um dos primeiros livros brasileiros escritos sobre o assunto, intituladoRádio e Educação15 (Espinheira, 1934).

Ella [a radio-comunicação] realisa de facto, a communicação, isto é, torna communs

os homens, no pensar e no sentir, por isso que pode tornar communs aos homens as

mesmas dádivas do saber, do bem e da belleza. Em nossos dias, milhões de pessoas de

differentes povos, dos mais estranhos costumes, nos mais diversos pontos da Terra,

tendo em face uma pequenina caixa de madeira, dão volta a um botão, e se

comunicam. Quero dizer: são levadas a pensar sobre os mesmos problemas,

entendem-se, compreendem-se, juntas se alegram ou se entristecem, anseiam junto e

junto meditam... (Lourenço Filho apud Espinheira, 1934, p.8)

Ainda nesta época, evidenciando já a utilização do conceito de educação à distância (EAD) e a dificuldade de efetivar uma pedagogia específica para o meio, programas e políticas públicas buscavam se apropriar da tecnologia radiofônica para, a partir da democratização da educação, possibilitar ao aluno conhecer novas realidades e conectar-se com o mundo. A Escola de Rádio Municipal e a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro desenvolviam em conjunto uma espécie de telecurso – com o acompanhamento através de apostilas e postos de escuta – que buscava trabalhar a educação básica.

É somente com a permissão legal para inserção de publicidade através do Dec. Lei N. 21.111, assinado pelo então presidente da república Getúlio Vargas, em 1931, que o entretenimento passa a dominar de forma crescente as programações. É a partir deste momento que as emissoras brasileiras se comprometem com o mercado, dependendo de anunciantes e, portanto indiretamente da audiência, e passam a ser agenciadas pelo valor de troca em detrimento do valor de uso – este já era um deslocamento da lógica liberal para a lógica neoliberal de governamento da cultura. As programações transformam-se em mercadorias, aposentando os valores culturais e educacionais, mas sem perder a vocação pedagógica de que falam Steinberg e Kincheloe (2001), Giroux (2002a, 2002b), Veiga-Neto (2000) e Kellner (2001b). Para Ramos (1997), a linguagem

pedagógica que começa a ser aplicada a programas específicos liga-se ao divertimento, de acordo com o modelo norte-americano que servia de base aos teleducadores brasileiros, e ao behaviorismo, onde os receptores eram vistos como alvos fixos e passivos sem poder de resposta.

Durante as décadas de 30 e 40, o rádio se firma como meio massivo de comunicação e chega, segundo os autores revisados (Ortiz, 1991; Moreira, 1991; Haussen, 1997; Del Bianco, 1999; Ferraretto, 2000), ao seu apogeu, considerando-se a sua popularidade e audiência massificada. Surgem, durante este período, os primeiros programas informativos e as radionovelas, que têm como sustentação fundamental a publicidade das indústrias multinacionais em instalação e consolidação no país, e as equipes das agências de propaganda internacionais que as acompanham.

Neste contexto de formação de uma classe média dentro da nascente cultura do consumo, o foco do rádio vai se voltar para as mulheres, apelando para a maior liberdade no cotidiano e manutenção da juventude e beleza. Parece ter começado ali a disseminação do que conhecemos hoje como tecnologização do espaço doméstico em razão do tempo e cultura da saúde do corpo e da beleza de homens e mulheres, num movimento sutil de “disciplinamento” do tempo e do corpo. Através da publicidade e da informação, a mídia radiofônica teria começado a ensinar como ser e estar no ambiente da cidade, buscando governar o corpo e as condutas. Ortiz (1991) comenta ser este o momento de constituição da indústria cultural brasileira – uma mistura de cinema e circo –, quando a cultura elitista se divorcia da cultura massiva, ainda que ambas permaneçam ligadas e se autolegitimando. Nesta perspectiva, a aceitação da premissa de conversão do moderno numa tradição na cultura brasileira, proposta por Ortiz, evidencia que parecemos viver um processo histórico de formação capitalista que foi adquirindo nuances próprias. Segundo o autor, a sociedade brasileira vem buscando, historicamente, ser moderna, e no processo de desenvolvimento de nosso capitalismo tudo aquilo que significa

modernidade converte-se em projeto futuro a ser conquistado, para inclusive aderir ao caráter identitário de brasilidade. Essa postura se expressaria culturalmente como uma tradição, ainda que a modernidade e a tradição possam parecer antagônicas. O próprio desenvolvimento do rádio no País indiciava esta busca de modernidade

15 Esta publicação, considerada pioneira na articulação entre os campos da Comunicação e da

Educação, foi publicada em 1934, dentro da Coleção Bibliotheca da Educação, pela editora Melhoramentos, de São Paulo. O autor, professor Ariosto Espinheira, através dela buscava apresentar ao público as principais questões da “rádio-cultura” e os resultados já obtidos em diferentes países (Espinheira, 1934. Cf. Ref. Bibliográfica).

Referências

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