LUTA DE CLASSES NO CAMPO E A CONSTRUÇÃO DO TERRITÓRIO CAMPONÊS
Suzane Tosta Souza – UESB [email protected]
As transformações ocorridas no campo, nos últimos anos, têm conduzido a diversas possibilidades e formas de interpretação da realidade. De um lado, o capital se expande, buscando condenar toda e qualquer forma de organização social e relação de produção que não a eminentemente capitalista. De outro lado, centenas e milhares de trabalhadores lutam pela terra como única possibilidade de continuar se reproduzindo socialmente. Essa realidade nos permite compreender que a forma em que o capital se desenvolve no campo se faz desigual e combinada, portanto, permeado por contradições. O capital se reproduz buscando impor uma racionalidade inadequada às reais condições daqueles que vivem do trabalho. Dessa forma, consideramos a luta entre classes sociais com interesses antagônicos indispensável à compreensão do campo brasileiro, em que se consideram os interesses dos trabalhadores assalariados e dos camponeses. Assumimos a luta de classes como fundamental na compreensão do campo brasileiro, que se expressa nos interesses, por um lado, dos capitalistas que vivem do lucro e dos proprietários fundiários – que vivem da extração da renda da terra - versus os interesses dos trabalhadores assalariados e camponeses – que vivem do trabalho no campo. Nesse embate, o território emerge como categoria analítica fundamental, posto que expressa a materialidade do conflito. Ao analisar as diversas formas e expressões desenvolvidas, historicamente, pelo campesinato, compreende-se que essa classe social se reproduz nas contradições do capital, e que ao passo em que busca garantir uma relativa autonomia frente a esse modo de produção, igual e contraditoriamente, se subordina a ele.
Palavras Chave: Luta de Classes, Território, Campesinato.
CLASS STRUGGLE IN THE COUNTRYSIDE AND THE CONSTRUCTION OF PEASANT TERRITORY
In recent years, the transformations occurred in the countryside have lead the diverse possibilities and forms of interpretation of reality. On the one hand, capital is expanding, pursuing to condemn all and any form of social organization and relation of production that not eminently capitalist. On the other hand, hundreds and thousands of workers struggle for land as only possibility to continue reproducing socially. That reality allows us understanding that the form in which capital develops in the countryside executed unequal and combined, therefore it is full of contradictions. Capital is generated, pursuing to impose an inadequate rationality to the real conditions of those who live off wok. Thus we consider the struggle between social classes with antagonistic interests indispensable to the understanding of the Brazilian countryside, in which it considers the interests of the wage workers and peasants. We assume the class struggle as fundamental on the understanding of the Brazilian countryside, that it expresses in the interests of, on the one hand, capitalists who live off profits and of the landowners – who live off drawing the income of land - versus the interests of wage workers and peasants – who live off work on the land. In that shock, the territory emerges as fundamental analytical category, for it expresses the materiality of the conflict. At analyzing the several forms and developed expressions, historically, by the peasantry, it is understood that social class itself reproduces in the contradictions of capital, and which while it pursues to hold a relative autonomy forward that mode of production, equally and contradictorily, it subordinates it.
1. Introdução
O presente artigo é composto de algumas das reflexões apresentadas em nossa tese de Doutorado intitulada “Da negação ao discurso hegemônico do capital à atualidade da luta de classes. Camponeses em luta pelo/no território no Sudoeste da Bahia”, defendida no ano de 2008. A essência central da tese é compreender a centralidade da luta entre classes antagônicas no campo brasileiro, a partir dos diversos exemplos de permanência e resistência dos camponeses e como essa classe, ao longo da História, ao mesmo tempo em que se reproduz nas contradições do capitalismo, se contrapõem aos interesses das classes dominantes atuantes no campo: os capitalistas e os proprietários fundiários. Nesse propósito, compreende-se que ao contrário das análises que, acreditando na hegemonia capitalista no campo, negam a luta de classes, reafirma-se, nesse trabalho, a atualidade da luta entre classes antagônicas que se expressa nos diversos conflitos ocorridos no campo brasileiro envolvendo posseiros versus grileiros, sem-terra versus empresas capitalistas, camponeses versus latifundiários, trabalhadores versus policiais, dentre outros exemplos. Na condução da tese buscou-se, a partir do arcabouço teórico marxista, compreender a luta de classes no Sudoeste da Bahia, em que o território passa a ser compreendido como expressão concreta desse processo. Metodologicamente, a pesquisa se apoiou nos princípios básicos do método dialético, na perspectiva de compreender o campo brasileiro nas suas contradições em que o Sudoeste da Bahia pode ser compreendido enquanto expressão singular da totalidade. Além disso, o levantamento bibliográfico, documental e de campo permitiu resgatar diversos conflitos pela terra ocorridos no Sudoeste da Bahia. A vivência nas comunidades camponesas possibilitou a compreensão das diversas formas de estratégia camponesa na luta pela terra ou para nessa permanecer. A partir desse trabalho empírico e do confronto com a teoria (na relação indissociável teoria-prática) buscou-se compreender a realidade da luta pela terra e sua dimensão territorial.
2. Luta de classes e território
O entendimento das classes sociais no campo brasileiro tem por base teórica a análise realizada por Marx (1984) no livro “O Capital”, vol. 3, t. 2, cap. LII, num breve capítulo intitulado “As classes”. Nele o autor destaca a existência de três classes sociais: os capitalistas, os proprietários de terras e os trabalhadores. Tal análise é, de certa forma, também tratada no capítulo XLVIII do mesmo livro, quando se destaca que o capital extrai o lucro, ou seja, o ganho empresarial mais juros; a terra – representando a classe dos proprietários – extrai a renda e o trabalhador – que participa do processo produtivo através da venda de sua força de trabalho – recebe o salário (forma de pagamento pelo trabalho realizado, entretanto, incluindo trabalho pago e trabalho não-pago). Estes se constituem “a
fórmula trinária que compreende todos os segredos do processo de produção social” (MARX, 1984, p. 269).
De acordo com o estudo desenvolvido por Guimarães (1998) a noção de classe social é algo imprescindível para a Sociologia marxista, que recusa o discurso de que as classes sociais perderam a importância com o avanço do capitalismo. Sob essa ótica compreendemos que o estudo das classes sociais é fundamental para qualquer ciência social, cuja abordagem metodológica conduza a uma crítica ao modo de produção vigente e às contradições que este reproduz, a partir da conformação de classes antagônicas, cujo resultado é a apropriação do produto do trabalho, por parte das classes dominantes – ou que controlam os meios de produção, frente às classes trabalhadoras, cujo produto do trabalho lhe é estranho, sendo apropriada, portanto, para o benefício e reprodução dos primeiros. Assim sendo, pode-se aceitar que na sociedade de classes – que caracteriza o modo de produção capitalista, a maioria trabalha e uma minoria privilegiada se apropria do produto do trabalho de outrem, como forma de garantia de privilégios, seja por via da extração do lucro (mais-valia) seja na extorsão da renda da terra – que deveria ser destinada ao produtor direto.
É através da alienação, da mutilação do processo do trabalho que o capitalista e o proprietário rentista conseguem manter seu domínio sobre os trabalhadores assalariados e os camponeses, no caso deste último, sobretudo, pela sujeição da renda da terra camponesa ao capital. Entendendo que a Geografia é uma ciência social por excelência, torna-se imprescindível para o geógrafo compreender de que forma as classes sociais se organizam, se colocam no processo produtivo e como estas produzem espaço. Espaço este marcado pelas práticas sociais, que num modo de produção desigual como o capitalismo só pode reproduzir um espaço desigual.
Na análise de Marx (1963), acerca das classes sociais com base na produção material de sua existência, pode-se destacar que:
(...) No que me concerne, não me cabe o mérito de haver descoberto, nem a existência das classes, nem a luta entre elas. Muito antes de mim, historiadores burgueses já haviam indicado sua anatomia econômica. O que eu trouxe de novo foi: 1) demonstrar que a existência das classes está ligada somente a determinadas fases de desenvolvimento da produção; 2) que a luta de classes conduz, necessariamente, à ditadura do proletariado; 3) que essa própria ditadura nada mais é que a transição à abolição de todas as classes e a uma sociedade sem classes (...).
Tal análise refere-se, principalmente, ao modo de produção capitalista e a forma como este se desenvolve, conformando classes sociais antagônicas, que embora se coloquem como iguais, no sentido de serem “livres” (como a relação entre o capitalista – donos dos meios e instrumentos de produção e o trabalhador – dono de sua força de trabalho), dando uma relativa sensação de troca entre “iguais”, a contradição central está no resultado do processo produtivo, no fato do trabalhador – ao fim da jornada do processo do trabalho receber o salário, que nada mais é que uma quantidade
de dinheiro, muitas vezes, mínimo, que lhe garanta sua reprodução social; já o capitalista, este recebe o lucro – que é um dinheiro acrescido do que ele empregou no início do processo produtivo. É preciso, segundo a própria análise desenvolvida por Marx (1984), observar as contradições existentes entre o processo de reprodução social e de apropriação individual, quer dizer, de uma classe em relação à outra, o que remete a possibilidades constantes de conflitos, mas que necessita da tomada de consciência da classe dominada, para que esta possa modificar suas condições no processo produtivo. Isto requer, portanto, o fim da exploração de uma classe sobre a outra, ou no entendimento de Marx na destruição dos capitalistas e na condução do que chamou de ditadura do
proletariado.
Nos estudos de Lênin (1947) as classes sociais foram consideradas também centrais no entendimento do desenvolvimento do modo de produção capitalistas, para ele:
Classes são grupos de pessoas que diferem umas das outras pela posição que ocupam num sistema social de produção historicamente determinado, pela sua relação (em muitos casos fixa e expressa em lei) com os meios de produção, pelo seu papel na organização social do trabalho e, consequentemente, pelas dimensões e pelos métodos de adquirir a parte da riqueza social de que dispõem. Classes são grupos de pessoas que podem se apropriar do trabalho umas das outras devido à posição que ocupam num sistema definido de economia social.
Considerando as críticas realizadas a obra de Marx, no que se refere às classes sociais, Iasi (2007) destaca que o que há de comum nestes questionamentos é o fato de muitos autores não captarem de forma apropriada o modo como Marx trabalhava “conceitos”, que não eram pensados de forma estática, ou definidos genericamente, mas que representava seu processo de transformação e desenvolvimento. Por isso, afirma que a forma como Marx analisa as classes sociais não se encontra apenas exposta no capítulo 52, livro 3, tomo 2 de O Capital, mas, nos vários momentos de sua vasta obra, deixando claro que o capítulo intitulado as classes encontra-se inacabado, portanto o enfoque deveria ser dado ao fato do Manuscrito ser interropido, já que Marx ainda estava se debruçando sobre a construção do conceito. Assim, segundo a interpretação de Iasi (2007, p. 106):
(...) quando afirmamos que o conceito de classe da sociedade capitalista engloba apenas os capitalistas, assalariados e os donos de terra, isso é verdade apenas se tomarmos por referência o momento de análise a que se refere esta conclusão; é um absurdo se tratarmos de uma formação social concreta uma vez que existem classes que não estariam de forma alguma englobadas nessas três categorias.
Ao longo de toda sua obra Marx, em vários momentos, enfatiza as diferentes determinações particulares que constituem a definição do fenômeno de classes, as quais Iasi (2007, p. 107) chama atenção para as seguintes:
1. A classe seria definida, num determinado sentido, pela posição diante da propriedade, ou não propriedade, dos meios de produção;
2. Pela posição no interior de certas relações sociais de produção (conceito que foi quase que generalizado como único);
3. Pela consciência que se associa ou distancia de uma posição de classe;
4. Pela ação dessa classe nas lutas concretas no interior de uma formação social.
Em se considerando a questão da propriedade, ao referir-se a sociedade capitalista, pode-se definir a burguesia e o proletariado como aqueles que detêm a propriedade dos meios de produção e os que vendem sua força de trabalho. Contudo, com relação ao latifundiário pode-se considerar que este, embora seja proprietário da terra, “não a utilizando como capital e não contratando força de trabalho assalariada, não se constitui em burguês, formando uma classe à parte” (IASI, 2007, p. 107). Quanto ao camponês, destaca que, embora este possa ser proprietário da terra, não é um latifundiário e nem extrai a renda da terra, da mesma forma que esse. Por isso, o autor conclui que o simples critério das relações de propriedade é insuficiente na leitura das classes (embora indispensável), e que este conceito não pode ser definido “pela análise abstraída de um grupo social; ao contrário, só se revela na relação com outras classes” (p. 108). Desta forma:
(...) o conceito de classes é relacional. No entanto, não podemos nos limitar a tais determinações. Assim como o concreto, as classes são síntese de múltiplas particularidades. O que foi definido até agora não é falso, apenas é o momento de construção do conceito a partir de sua base material ou econômica. No entanto, o fenômeno não se restringe a essa determinação. (idem).
Para exemplificar, Iasi retoma o estudo realizado por Marx em O 18 Brumário, em que o autor define os diferentes grupos atuantes naquela conjuntura muito mais pela ação que desempenharam e pelas concepções de mundo que representavam, do que pela posição que ocupavam no interior das classes sociais ou em relação à propriedade. Contudo, não quer dizer com isso que estas dimensões deixem de ser importantes, mas que, “limitando-se a essa determinação, seria impossível desvendar a trama dos acontecimentos” (Iasi, 2007, p. 108).
De acordo com Lukács (2003), em História e Consciência da Classe, a principal obra de Marx interrompe-se no momento em que aborda a definição das classes. Nesta análise pode-se considerar que a divisão da sociedade em classes deve ser determinada de acordo com a posição ocupada no processo de produção. No entanto, a obra de Lukács centra os esforços no entendimento da consciência de classe e qual a sua função, entendida (na prática) na própria luta de classes. Para tanto, rememora Engels, ao lembrar que “embora a essência da história consista no fato de que nada ocorre sem intenção consciente, sem fim desejado, é preciso ir, além disso, para compreender a história” (LUKÁCS, 2003, p. 134). Portanto, caberia saber quais forças motrizes se escondem atrás desses motivos, quais as causas históricas que agindo na mente dos sujeitos agentes transformam-se em tais motivos, ou seja, entender as forças que põem em movimento povos inteiros, classes inteiras e cujos resultados acabam resultando numa grande transformação histórica.
Assim sendo, a história é a história dessas formas e sua transformação como formas de reunião entre os homens em sociedade, formas iniciadas a partir de relações econômicas objetivas, que dominam as relações dos homens entre si, ou seja, consigo mesmo e com a natureza; negando, portanto, a apologia da ordem existente das coisas, por parte do pensamento burguês, demonstrando as condições materiais objetivas em que acontecem as relações entre os homens, o que espelha, em qualquer instância relações entre classes sociais distintas. Com isto, ao passo que a análise realizada pelo pensamento burguês busca colocar a história como objetos e leis naturais imutáveis, portanto incapaz de conceber as formações sócio-históricas em sua essência verdadeira – ou seja, como relações entre os homens, confronta tal pensamento a análise realizada por Marx, para quem essas relações sociais determinadas são produtos humanos.
Por isso, torna-se mister resgatar o pensamento de Marx, já que para este não se trata de relação entre indivíduos, mas entre operário e capitalista, entre o agricultor e proprietário fundiário. Por isso, o estudo concreto de fato só pode ser aquele que considere a sociedade como totalidade e, somente nesta relação, será possível revelar a consciência que os homens têm de sua existência.
(...) A relação como totalidade concreta e as determinações dialéticas delas resultantes superam a simples descrição e chega-se à categoria da possibilidade objetiva. Ao se relacionar a consciência com a totalidade da sociedade, torna-se possível reconhecer os pensamentos e os sentimentos que os homens teriam tido numa determinada situação da sua vida, se tivessem sido capazes de compreender perfeitamente essa situação e os interesses dela decorrentes, tanto em relação à ação imediata, quanto em relação à estrutura de toda a sociedade conforme esses interesses. Reconhece-se, portanto, entre outras coisas, os pensamentos que estão em conformidade com sua situação objetiva. (LUKÁCS, 2003, p. 141).
Por isso, a consciência não é nem a soma, nem a média do que cada um dos indivíduos que formam a classe pensam ou sentem, ou seja, a ação historicamente decisiva da classe como totalidade é determinada por esta consciência, e não pelo pensamento individual. Assim, a consciência de classe é, ao mesmo tempo, uma inconsciência, determinada conforme a classe, de sua própria situação econômica, histórica e social; dada como uma relação estrutural determinada, expressão da estrutura econômica objetiva. É essa categoria da possibilidade objetiva que pode tornar possível desmascarar a ilusão e estabelecer uma conexão real com a totalidade. Portanto, se essa reflexão consciente não buscar uma visão da totalidade, a partir de uma situação de classe, então essa classe só poderá desempenhar um papel subordinado e nunca intervir na marcha da história. Sendo assim, pode-se concordar com Lukács (1984, p. 144) quando destaca que: “A vocação de uma classe para a dominação significa que é possível, a partir dos seus interesses e da sua consciência de classe, organizar o conjunto da sociedade conforme seus interesses”.
Ao tratar das classes sociais existentes na sociedade capitalista, Lukács, considera que a burguesia a o proletariado são as únicas classes puras da sociedade, já que sua existência e evolução baseiam-se,
exclusivamente, no desenvolvimento do processo moderno de produção; sendo que o caráter incerto das outras classes, como a pequena burguesia e o campesinato, por exemplo, justifica-se pelo fato de sua existência não ser fundada exclusivamente sobre sua situação no processo de produção capitalista, mas estarem ligadas a vestígios da sociedade dividida em estamentos.
De fato, devemos concordar com o autor no sentido de que tais classes não são tipicamente originárias da sociedade moderna capitalista, já que constata-se sua existência em outros modos de produção e formas de organização social, no entanto, a abordagem lukachiana parece demonstrar um certo descrédito com relação a estas classes sociais não-capitalistas e até mesmo uma concepção de que as mesmas constituem-se em resquícios de outras formas de produzir, estando, portanto, fora da compreensão da sociedade capitalista, colocando estas classes como amorfas, estéreis, congeladas, como se não fossem capazes de algum tipo de organização social, conscientização ou possibilidade de buscar a transformação da sociedade de classes. Isto pode ser demonstrado na própria análise de Marx (1997), em O 18 Brumário, para quem os camponeses seriam incapazes de constituir laços com a sociedade como totalidade, o que pode repercutir na estrutura interna e na capacidade de organização da classe. Para ele,
Os pequenos proprietários camponeses formam uma massa enorme, cujos membros vivem numa mesma situação, mas sem entrar em contato múltiplo reciprocamente. Seu modo de produção os isola uns dos outros em vez de colocá-los em contato (...) Cada família de camponeses (...) tira assim seus meios de vida mais da troca com a natureza do que do comércio com a sociedade (...) Na medida em que milhões de famílias vivem em condições econômicas de existência que separam seu modo de vida, seus interesses e sua cultura dos de outras classes e os opõe como inimigos a elas, tais famílias formam uma classe. Na medida em que existe entre os pequenos proprietários camponeses um elo apenas local, em que a identidade dos seus interesses não engendra uma comunidade, nem uma ligação no plano nacional ou uma organização política, eles não formam uma classe (p. 127/128)
Tal análise, contudo, é questionada por Iasi (2007) para quem Marx aponta como fundamental o papel das ações e as concepções de mundo que as classes apresentam, mas que precisam ser consideradas a luz do momento histórico.
Mas, o que diria Marx ao analisar o campesinato na atualidade? E os países latino-americanos, cujas sociedades são formadas, predominantemente de populações campesinas? Como explicar o elo que estes campesinos desempenham atualmente nas sociedades locais, e as articulações com outros países, formando redes mundiais de organização, a exemplo da Via Campesina? Como Marx analisaria o papel político que o campesinato vem desempenhando na sociedade atual? Poderíamos dizer que movimentos sociais como o MST no Brasil constituem esse elo de organização do campesinato? Este campesinato, pelo papel político que desempenha atualmente, seria considerado uma classe fundamental na luta de classes e nas possibilidades não apenas de compreender, mas também de destruição do modo de produção capitalista, na superação da sociedade de classes? Como o campesinato poderia, junto com o proletariado (sobremodo urbano, mas também rural) formar a
tão desejada aliança operário-camponesa, na perspectiva de uma transformação social? Tais indagações só demonstram que, embora significativas, em seu desenvolvimento e em sua essência, a análise de Marx não se constitui em algo fechado, que dê conta de toda a essência movente da sociedade, o que contrariaria o próprio movimento do método dialético.
Assim sendo, não há equívocos, nem mesmo previsões futuristas, o que existe é o movimento da história, o desenvolvimento de ações concretas por parte dos camponeses, o que qualquer análise atual que se faça sobre as classes sociais deve considerar. Portanto, não se pode dizer que Marx errou. Este levanta importantes discussões sobre as classes, mas em nenhum momento pretendeu limitar o seu raio de ação e suas possibilidades, o que só o movimento da história pode demonstrar. São muitas as indagações a respeito do papel do campesinato na sociedade contemporânea, enquanto classe social que se reproduziu, historicamente, nas próprias contradições do modo capitalista de produção, embora, conforme destaque Marx e Lukács não seja uma classe típica deste modo de produção. Não se pretende com estes questionamentos refutar a análise realizada por Marx e por muitos marxistas, mas, tão somente, buscar, a partir da realidade concreta e objetiva elementos capazes de explicar a sociedade de classes e as conformações que esta adquire na atualidade, enfatizando a posição do campesinato, e sobremodo o papel político que desempenha na sociedade atual, no acirramento das contradições, frente à intensificação da luta de classes, neste caso mais específico, no campo brasileiro.
3. Expressões da luta pela terra no território
Com base no entendimento de que o método se constitui não como uma camisa de força, mas a concepção de mundo, a dimensão filosófica do pesquisador, busca-se entender o mundo a partir das contradições na sociedade capitalista. Nesse sentido, a luta de classes, se constitui como eixo central na compreensão do território, cujas expressões no tempo e no espaço, em qualquer instância, vão
expressar os conflitos de classes, nos processos de
apropriação/expropriação/segregação/territorialização. Os conflitos se territorializam, a partir das relações sociais travadas historicamente nos diferentes espaços, o que não quer dizer que do mesmo jeito e da mesma forma: por isso, é fundamental a compreensão de que o modo de produção vigente desenvolve-se de forma desigual e combinada.
Pensar território e luta de classes significa considerar que os interesses das classes sociais ao territorializar-se não são os mesmos, daí a perspectiva de se resgatar que um processo de territorialização camponesa cujos princípios se diferenciam do processo de territorialização de uma grande empresa capitalista não devem ser considerados e analisados da mesma forma, pois expressam interesses de classes antagônicas e como tais devem ser compreendidos.
Ao enfatizar as contradições entre as classes é preciso se pensar no que, evidentemente, e em que o território do capital difere do território camponês, neste sentido, torna-se fundamental as concepções trabalhadas por Conceição (2004), Martins (1994) e Marques (2002a). Para a primeira é preciso que se considere que a terra camponesa tem por finalidade não a reprodução do lucro ou a extração da renda (que caracteriza os interesses das classes dos capitalistas e dos proprietários fundiários), mas os princípios da reprodução da vida, da existência, da garantia do trabalho. Para tanto, fundamenta-se nas análifundamenta-ses do pensamento geográfico cujas primeiras abordagens estabeleciam o vinculo entre terra e território, mas que numa sociedade de classes adquire a conotação de relações de poder, de projetos territoriais em disputas, espelhando interesses de classes diversas.
De acordo com Martins (1994) a luta camponesa pela “terra de trabalho” difere da luta do capital pela “terra de negócio” – que busca se apropriar de todos os espaços. É nesse conflito entre “terra de trabalho” x “terra de negócio” que podemos entender a “territorialidade camponesa” x a “territorialidade do capital”, conforme apontada por Marques (2002). A compreensão das análises destes autores acredita-se, é de fundamental importância no entendimento do território enquanto produto das relações sociais estabelecidas numa sociedade de classes, cujos conflitos e contradições se materializam nos diferentes territórios do campo brasileiro, na luta travada entre capitalistas e proprietários de um lado, versus os trabalhadores rurais e camponeses de outro.
Para Oliveira (1998):
O território deve ser apreendido como síntese contraditória, como totalidade concreta do processo modo/ de produção/distribuição/circulação/consumo e suas articulações e mediações supraestruturais (políticas, ideológicas, simbólicas, etc.) onde o Estado desempenha a função de regulação. O território é assim, produto concreto da luta de classes travada pela sociedade no processo de produção de sua existência. (p. 08).
São as relações sociais de produção e o processo “contínuo e contraditório de desenvolvimento das forças produtivas” que dão a configuração histórica ao território. Por isto, este só pode ser entendido enquanto um processo de construção/destruição/manutenção/ transformação; síntese dialética da espacialidade que a sociedade desenvolve; o que quer dizer um constante processo de “valorização, produção e reprodução”. Em uma sociedade capitalista a circulação, a valorização do capital e a reprodução da força de trabalho, sendo uma lógica contraditória, é quem constrói/destrói as formações territoriais – que sofrem processos desiguais de valorização, produção e reprodução do capital (OLIVEIRA, 1998). Assim, o autor esclarece a diferença entre espaço e território, ao passo em que demonstra ser o território um espaço transformado, que reflete a materialidade da sociedade de classes.
Martins (1981) embora não trabalhando com o conceito de território em si, enfatiza, em suas análises, como as classes sociais se colocam no campo brasileiro e como estes disputam “a terra”.
Este propõe a distinção entre a terra para o camponês – a terra de trabalho, garantia da família camponesa, versus a terra de negócio – que caracteriza a terra dos proprietários latifundiários e capitalistas, que controlam a terra como forma de extorsão da renda da terra e garantia do lucro. Esta, não é a terra em que os “proprietários” vivem do seu trabalho, mas, no geral, exploram trabalho de outros – quer seja por meio das relações assalariadas, ou por via da reprodução de relações não-capitalistas ou camponesas, como parceiros, meeiros e outros, e que só é possível a partir da constituição da propriedade privada.
O controle sobre a propriedade privada da terra é o meio pelo qual a classe dos proprietários fundiários consegue se reproduzir. Ao capitalista, numa “economia mundializada” a terra significa a possibilidade de aumento dos seus lucros. Aos camponeses e trabalhadores sem-terra representam a possibilidade de reprodução da vida, de viver e se apropriar do seu trabalho, sendo lócus prioritário do trabalho familiar. Quando os interesses de classe entram em confronto, na disputa por um mesmo pedaço de chão, essas classes passam a lutar pelo território. Um exemplo desse processo na atualidade é a luta dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, que ocupam terras definidas constitucionalmente, como “improdutivas” e todo processo de violência gerado pelos “proprietários” da terra (não raramente vinculado aos grandes capitalistas do meio rural), agindo, por conta própria, através de jagunços e pistoleiros, e com total aval do Estado – através da força repressora policial, que expulsam e, muitas vezes, praticam todo modo de violência contra os camponeses. Nesse momento o Estado se faz presente, a fim de defender os interesses da classe dominante. O Estado é conteúdo e é forma, é instrumento de classe e é mediador de conflitos sociais, tudo a um só tempo1, instrumento da classe dominante, obviamente. No Sudoeste da Bahia, antes mesmo da organização dos movimentos de luta pela terra, a partir da década de 1980 em diante, os conflitos entre posseiros e pretensos proprietários se estabelecem em diversos momentos, cujos processos de disputas demonstram a luta das classes sociais pelo território.
A disputa entre classes sociais no território é tratada por Marques (2002a) para quem o acirramento da luta pela terra constitui-se em mais um “capítulo da história do campesinato brasileiro, movido pelo conflito entre a territorialidade capitalista e a territorialidade camponesa” (p. 06). Essa luta abre a possibilidade para um processo de recampesinização, que “representa a negação da uniformidade do processo de proletarização em curso no campo, demonstrando que a possibilidade de recriação camponesa não se esgota” (p. 06). Assim, enquanto predominar a sociedade de classes, cujos interesses entre estas são antagônicos, a valorização da propriedade privada da terra – fonte de extração da renda, e do lucro, o avanço do modo de produção capitalista cuja expressão mais atual é
1 Maranhão (1984) destaca que: De fato, pois o Estado é fundamentalmente uma relação social de dominação e, na medida em que fundamenta e organiza essas relações de dominação através de instituições que habitualmente gozam do monopólio dos instrumentos de coerção dentro de um território definido, garantindo um sistema que articula de modo desigual os componentes da sociedade civil, se revela em sua face de instrumento de classe. (p. 84).
o território do “agronegócio”, as disputas territoriais continuarão, no campo brasileiro, serão acentuadas e conformarão novos conflitos pelo território.
Para Conceição (2004) 2 o território pode ser definido como produto das contradições da sociedade de classe, sob a égide do modo de produção capitalista. Esta disputa, embora considerando que existem desigualdades de classes em outros modos de produção, adquire nova dimensão no capitalismo. Assim sendo, a relação entre a sociedade e a natureza é alterada. O território, conforme destacado nas abordagens clássicas da Geografia, podia ser entendido como a própria terra, mas em uma sociedade de classes, onde os interesses entre estas são antagônicos, passam a disputar a terra – que se transforma em território, produto, por excelência, das contradições da sociedade de classe, em todas as suas conformações. O capital avança no campo, expropriando o camponês de sua terra, mas este reage, sobremodo a partir da rearticulação dos movimentos sociais no campo. Conceição (2004) destaca ainda que o território camponês – marcado pela possibilidade da reprodução da vida e pela garantia do trabalho familiar, onde é possível, ainda que subordinado a uma lógica capitalista, uma nova relação de trabalho e de apropriação do produto do trabalho –, difere da lógica capitalista – que ao se teritorializar no campo, busca reduzir o camponês a agricultor familiar – completamente inserido no mercado, dominado por este, transformado em mera força de trabalho para o capital.
4. Apropriação do território pelo capital e os conflitos pela terra no Sudoeste da Bahia
A apropriação do Sudoeste da Bahia pelo capital pode ser compreendida a partir da atuação do Estado, no intuito de incorporá-lo a “dinâmica” região produtora de café do Planalto brasileiro. É no ano de 1972 que o governo do Estado da Bahia passa a atuar no sentido de promover um projeto de “desenvolvimento” da produção agrícola, quando o café passa a ser o cultivo almejado. De acordo com Santos (1987):
A expansão territorial da cultura cafeeira não pode ser compreendida, apenas por uma ótica que situe os problemas e os interesses localizados somente em seu próprio âmbito. As causas concretas da descentralização do café do País estão vinculadas ao próprio movimento da acumulação em direção a outros setores e regiões, em sua trajetória de incorporação dos espaços. Um elemento essencial na estratégia atual do capital em busca do espaço econômico nacional é a sua ação cada vez mais ampliada no setor rural (...). (...) A intervenção do Estado, tanto a nível nacional quanto a estadual, é decisiva no sentido de propiciar as condições econômicas, financeiras e administrativas que solidificam a opção de investir no campo como algo vantajoso. Neste sentido, o PRRC – Plano de Renovação e Revigoramento dos Cafezais é uma expresso da ação governamental de forma a contribuir para o avanço do capitalismo no campo, dentro das características assumidas no patamar atual da acumulação. (p. 44).
Até o ano de 1981, o governo estadual passa a dotar a Região Sudoeste da Bahia (basicamente os municípios de Vitória da Conquista e Barra do Choça) de uma série de incentivos para a expansão da cultura cafeeira, após este período, o governo deixa de financiar os encargos e incentivos, que daí por diante passam a ser assumidos pelo produtor. Apesar de parte das abordagens acadêmicas destacarem que com a implantação do pólo cafeeiro, e dado crescimento urbano apresentado por Vitória da Conquista, grande parte da população deixa o campo em busca de novas oportunidades na cidade, na realidade, a maioria das famílias não dispõem desta opção, quando são expulsos de suas terras, ou das terras dos fazendeiros, onde, até então, viviam desenvolvendo atividades não-capitalistas de produção, como a parceria e a mearia. Com a expansão do cultivo do café e ainda objetivando adquirir vultosos recursos do Estado, os fazendeiros passam a investir em tais cultivos, e a dispensar grande parte da força de trabalho camponesa. Além disso, muitas terras de posseiros, ocupadas por uma agricultura tipicamente camponesa, passam a ser reclamadas por pretensos “proprietários”.
Sobre isto, Medeiros (2006)3 afirma que diversos registros de terra se perderam em função de muitos inventários não terem sido realizados, o que retomou, com força total, a partir da segunda metade do século 20, quando as terras da região sofrem um processo de valorização com a chegada do cultivo do café, implementado pelo Estado, período em que grande parte das terras da região foram tituladas.
De acordo com Santos (1987) antes da introdução do café a maior parte das terras do município de Vitória da Conquista era ocupada por pastagens. A estrutura fundiária era caracterizada pela exploração concentrada da pecuária, que se constituía a principal base econômica, mas também da agricultura praticada em pequenas unidades de produção (geralmente minifúndios), que se constituíam “pequenos espaços nas áreas de propriedades já fracionadas pelas heranças e sem titulação” (p. 84). Afirma que a lavoura cafeeira ao se implantar no município de Vitória da Conquista, encontrou uma estrutura fundiária definida e terras tituladas e ocupadas; contudo, com o crescimento da lavoura cafeeira, surge a necessidade de novas áreas, que passam a ser incorporadas ao cultivo. Tal expansão não incorpora as tradicionais áreas de pecuária, mas volta-se as áreas de produção agrícola e de capoeira (onde viviam centenas de famílias camponesas). Santos (1987) acrescenta que: “em certa faixa de terra na área de Mata em Conquista era grande o número de pequenos produtores. São bem poucas as pequenas unidades de produção agrícola, que sobreviveram ao processo de instalação do café na Área de Mata” (p. 85).
São estas famílias camponesas que vão incrementar o crescimento urbano desordenado em Vitória da Conquista, quando diversos loteamentos são abertos, sem a menor infra-estrutura. Portanto, não se trata de um processo natural, de um crescimento que conduz ao ideário de desenvolvimento
difundido a partir de então, mas que repercute no empobrecimento e no agravamento das condições de vida de centenas de famílias que perderam a condição central de sua reprodução social – a terra. Este processo também aconteceu em Barra do Choça, atingindo, sobremaneira, as famílias camponesas que se reproduziam nas áreas de caatinga. Santos (1987) destaca que estas famílias historicamente se deslocavam de suas propriedades para se assalariar em períodos de seca; fazendo da caatinga uma “fonte de recrutamento de força de trabalho nos seus momentos de maior carência” (p. 94).; servindo também como terreiro para a secagem de café (devido as temperaturas mais elevadas). Por outro lado, tal prática sempre representou uma possibilidade concreta de complementação da renda camponesa, e não se constitui no objetivo central da garantia da reprodução de tais famílias. A introdução do café passa a interferir diretamente nesta pequena produção familiar, não apenas no que tange à realização de trabalho assalariado, realizado pelos camponeses em determinados períodos do ano, mas, sobremodo, pela introdução da pecuária em larga escala na caatinga, fatos que levam Santos (1987) a ser preocupar com a continuidade da pequena produção da caatinga.
Antes da introdução do café nas áreas de Mata existiam muitas unidades de pequena produção que produziam mandioca, milho, feijão, tradicionalmente, e de vez em quando pepino, melancia, abóbora em base familiar. As pequenas unidades de produção familiar da área de Mata, pré-existentes ao PRRC – Plano de Renovação e Revigoramento dos Cafezais, eram tanto de famílias que possuíam legalmente a terra, ou seja, tinham terra própria, quanto famílias assentadas em terras alheias4 ou em terras de outros proprietários, como arrendatário, meeiro, agregado, além de uns poucos casos de posseiros. (...) A valorização das terras, pelo café, levou a uma redefinição do domínio e/ou posse da terra. O arrendamento subiu tanto de preço que se tornou inviável; os agregados e meeiros desapareceram e as pressões surgiram em relação aos posseiros. (SANTOS, 1987, p. 96).
No entanto, é preciso considerar que o processo de “desenvolvimento” em curso não se dá de forma homogênea e unânime por todo país, mas a partir da seleção de algumas áreas. Assim, o Sudoeste da Bahia passa a ser alvo de investimentos do Estado, na perspectiva de integrá-lo a “dinâmica” região produtora do café do Planalto Brasileiro, com ênfase aos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Posteriormente, o café – ao penetrar em São Paulo, passa a incorporar outras áreas, no Vale do Rio Paraíba, chegando ao Estado do Paraná. A expansão de tais fronteiras agrícolas advém das demandas do modelo produtivo, com bases na garantia da reprodução do capital.
Na mesma esteira do discurso “desenvolvimentista”, cuja prioridade voltava-se ao desenvolvimento urbano e industrial, e cuja produção agrícola prioritariamente deveria voltar-se a exportação (que financia o processo de industrialização), ou sendo beneficiada para fins de atender também o crescente mercado urbano, o governo da Bahia, frente às pressões de políticos locais, passa a investir
em um projeto de industrialização no município de Vitória da Conquista. A área escolhida encontra-se nas proximidades da Serra do Periperi, parte Norte da cidade, cerca de 5 Km, local pertencente a Superintendência do Desenvolvimento da Industria a Comércio (SUDIC). O projeto de industrialização, iniciado no ano de 1972, por outro lado, não surte os efeitos desejados e as poucas indústrias existentes no local (sobremodo de bens de consumo, não lograram o “desenvolvimento” esperado). Apenas uma pequena parte reservada ao Distrito Industrial de Imborés é utilizada, o que remete a ocupação de terras, posteriormente, por famílias camponesas sem-terra.
O asfaltamento da BR-116 permite o processo de circulação de mercadorias, que impulsionou além do crescimento da população urbana, ganhos concretos para as classes dominantes (capitalistas e proprietários fundiários), posto que favoreceu aos proprietários de terra auferirem melhor renda diferencial, com o menor preço e encurtamento do tempo de deslocamento dos produtos, repercutindo também em consideráveis lucros para os grandes comerciantes, que começam a se instalar na região a partir de então. Além disso, o município torna-se importante entroncamento rodoviário, permitindo a ligação com outras regiões e importantes mercados produtores e consumidores do país. Este processo só pode ser explicado a partir das condições objetivas em que se dá tal “projeto de desenvolvimento”, portanto, remete ao entendimento do processo de desenvolvimento desigual e combinado, quando o capital seleciona as áreas em que vai atuar, de forma a permitir maiores possibilidades de extração de mais-valia, que se converte em lucro.
É nesse contexto que pode-se entender o “crescimento” de Vitória da Conquista, não como uma região que emerge, naturalmente, em relação as outras e passa a dominá-las. Trata-se de novas estratégias do capital, ao longo de seu processo de acumulação histórica, onde o Sudoeste da Bahia passa a ser inserido. O discurso regionalista não permite compreender a realidade em sua essência, permitindo ainda ocultar as formas de atuação do capital, em seus processos de territorialização. Neste processo, importante rememorar Francisco de Oliveira (1988), em Elegia para uma re(li)gião, quando estabelece à critica ao discurso regionalista, dissociado da totalidade social, na qual pode ser explicada. É a partir das condições objetivas, ou seja, o fato de dispor de uma significativa produção agropecuária (com possibilidades de expansão), um significativo contingente de força de trabalho (composto, principalmente de camponeses expulsos do campo, trabalhadores com pouca qualificação, constituindo-se provável mão-de-obra barata), além da infra-estrutura, composta, principalmente, por uma rede de estradas, que permitiria o escoamento da produção, e ainda o contato com outras localidades, dentre outras questões, que se pode compreender o discurso do “desenvolvimento regional”.
O que se verifica no Sudoeste da Bahia, a partir da década de 1970, em diante, é um crescimento econômico proporcionado pela difusão do cultivo do café, e que este processo não se reverte no desenvolvimento que significaria a melhoria das condições de vida da população como um todo.
Quem se beneficia do discurso de “desenvolvimento” são as classes dominantes. Quanto aos trabalhadores o que se observa são os processos de expropriação da terra e a máxima exploração do trabalho, tanto no campo, quanto nas cidades. Contudo, com o crescimento urbano, o asfaltamento da cidade e as possibilidades de ampliação do comércio e da indústria, ocorrem melhorias significativas no espaço urbano, como a chegada de escolas, hospitais, universidade e faculdades, atividades de lazer, dentre outros, embora, beneficiando, de forma desigual, a população.
Os investimentos do Estado no Sudoeste da Bahia (após a década de 1970) voltam-se, sobremodo, a criação da infra-estrutura necessária à expansão cafeeira, com ênfase nas vias de circulação e comunicação, bastante incrementadas a partir de então. Neste momento, muitas terras passam a ser tituladas na região, inventários que há décadas não haviam sido realizados são retomados. As terras são bastante valorizadas e fonte de exploração e especulação.
Grandes empréstimos foram subsidiados para os plantadores de café montarem as infra-estruturas necessárias. Em conseqüência, a agressão a economia camponesa familiar foi intensa. As terras se valorizaram, pequenos proprietários foram induzidos a vender suas glebas, algumas propriedades subdivididas, outras foram concentradas. Famílias de posseiros e de “agregados” foram desalojados de suas terras de trabalho. (MEDEIROS apud MOSCONI, 2003, p. 32).
É nesse quadro que emergem uma série de conflitos pelo território, pelo território da vida e do trabalho versus o território dos grandes projetos monocultores para a garantia da reprodução do capital. Os trabalhadores, aqueles que foram expulsos do seu território e buscaram, sobremodo, nas periferias das cidades, seus novos espaços de reprodução social passam a contar com novas formas de organização – a exemplo do Sindicato (que até então respondiam os anseios da classe trabalhadora), do apoio da Igreja – através o Movimento Educação de Base, das Comunidades Eclesiais de Base e posteriormente da Comissão Pastoral da Terra, de Partidos Políticos de Esquerda (ou que ao menos representavam ainda, neste momento, os interesses dos trabalhadores) e outros militantes, profissionais liberais, universitários, e outros, comprometidos com uma transformação social no país. As lutas sociais adquirem nova dimensão no território e vai expressar as contradições dos interesses das classes no que se refere a terra, ao trabalho e a vida.
5. Conclusões
A partir da realização de trabalhos empíricos em diversas comunidades no Sudoeste da Bahia, e o confronto com a teoria, priorizando-se a relação indissociável entre teoria e prática, pode-se considerar que se de um lado o modo de produção capitalista desenvolve-se no território, buscando inserir a sociedade em sua lógica de reprodução, por outro lado, igual e contraditoriamente os camponeses se reproduzem no território, a partir de diversas formas de permanências e resistências,
na luta pelo direito de continuar existindo ou buscando novas frentes de luta por meio da ocupação de terras, via movimentos sociais. Contudo, estes se transformam, desenvolvem relações com o mercado, como meio fundamental de garantir a reprodução da família, convivendo, na maioria das vezes, no campo com muitas dificuldades, já que não são priorizados pelas políticas agrícolas desenvolvidas pelo país, ou quando estes passam a ser considerados, tais programas se voltam para a sua destruição total, através da conversão destes sujeitos sociais em agricultores familiares, completamente inseridos na ótica do mercado, fugindo dos princípios de relativa autonomia que caracteriza as relações camponesas.
Assim, pode-se compreender a luta dos trabalhadores rurais e urbanos pela terra, como possibilidade concreta de realização social, e a luta dos camponeses que permanecem no campo com uma série de dificuldades de se reproduzirem. Estes não querem sair do campo, porque sabem que as cidades não mais lhes oferecem oportunidades de se reproduzir dignamente. É a partir deste entendimento que se buscou compreender o processo de reprodução camponesa no Sudoeste da Bahia, enquanto uma singularidade que só pode ser entendida e explicada a partir de sua inserção na totalidade, que representa a própria forma de realização, desigual e combinada, do sistema do capital, e seus rebatimentos nos diferentes territórios.
A partir de pesquisa de campo, sobremodo com base em pesquisas documentais, constatou-se que a implementação das relações capitalistas no campo, a partir da necessidade da inserção do Sudoeste da Bahia, no sistema da reprodução ampliada do capital, representou uma mudança radical nas formas de organização social e nas relações de produção desenvolvidas até então no território. Uma destas mudanças substanciais diz respeito à forma de uso da terra. Esta, até então, tinha como princípio fundamental o uso e a posse. Com o processo de “modernização” via implantação do cultivo do café, estas passam a sofrer um processo de valorização, sendo objeto de disputas entre aqueles que viviam da terra há décadas e até séculos e aqueles que vêm na propriedade privada da terra a possibilidade de renda e de lucros crescentes. Assim, a terra se transforma em mercadoria e os conflitos no território são inevitáveis.
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