MULTICULTURALISMO E EDUCAÇÃO: A DIVERSIDADE E ETNIA PRESENTES NO CONTEXTO ESCOLAR. IMPLEMENTAÇÃO DA LEI FEDERAL 10.

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MULTICULTURALISMO E EDUCAÇÃO: A DIVERSIDADE E ETNIA PRESENTES NO CONTEXTO ESCOLAR. IMPLEMENTAÇÃO DA LEI FEDERAL

10.639/03 NO ÂMBITO DAS AÇÕES AFIRMATIVAS.

Laura Maria Calegari¹ Renata Costa Silva Oliveira² Stenio Souza Marques³

Resumo: O presente trabalho propõe uma reflexão acerca do Multiculturalismo e Educação: A diversidade e etnia presentes no contexto escolar, através da análise da implementação da Lei Federal 10.639/03 no âmbito das ações afirmativas. Pretende-se como estudo aclarar a questão atinente às ações afirmativas e a sua relevância para o processo de construção e valorização do multiculturalismo. Ademais, pretende-se demonstrar algumas maneiras de se trabalhar metodologicamente as influências da cultura afro brasileira, o multiculturalismo e a diversidade presentes no cotidiano escolar de modo a oferecer aos docentes subsídios para suas práticas pedagógicas em conformidade com o currículo escolar. Por fim, é apresentado o conceito de ações afirmativas evidenciando a sua relevância para o contexto do multiculturalismo.

APRESENTAÇÃO

Quando se fala em multiculturalismo e educação, a abordagem pressupõe analisar concepções e experiências pedagógicas baseadas nesse movimento teórico dedicado ao enfrentamento dos conflitos gerados em função de questões econômicas, políticas e étnicas, principalmente com foco no combate às discriminações e preconceitos.

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¹ Licenciada em Biologia e Especialista em Microbiologia, ambas pela FEIT/UEMG. Mestranda em Educação pela Universidade de Uberaba- UNIUBE.

² Mestranda em Educação pela Universidade de Uberaba – UNIUBE.

³ Advogado. Especialista em Direito Processual Contemporâneo pela UNESP e Mestrando em Educação pela Universidade de Uberaba – UNIUBE.

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De acordo com Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, no Brasil as iniciativas para estabelecer uma educação plural e inclusiva perpassam todo o século XX. Entre os vários exemplos, destaca-se, nos anos 1930 a Frente Negra Brasileira, a qual lutou por uma educação que contemplasse a História da África e dos povos negros e combatesse práticas discriminatórias sofridas pelas crianças no ambiente escolar. Na década de 1940, o Teatro Experimental Negro (TEN), liderado por Abdias do Nascimento, discutiu a formação global das pessoas negras, indicando políticas públicas que já se constituíam como as primeiras propostas de ações afirmativas no Brasil.

A inserção da história da África e do negro no Brasil, no currículo escolar do país, foi defendido pelo Movimento Negro Unificado (MNU), uma das organizações do movimento negro brasileiro, em 1978. Ao longo da década de 1980, o Movimento Social Negros, intelectuais e pesquisadores da área da educação produziram um amplo debate sobre a importância de um currículo escolar que refletisse a diversidade étnico-racial da sociedade brasileira. A primeira Marcha de Zumbi contra o Racismo, pela cidadania e pela vida foi realizada no dia 20 de novembro de 1995. Cerca de 30 mil pessoas se reuniram em Brasília para denunciar a ausência de políticas públicas para a população negra. O ato marcou os 300 anos do assassinato de Zumbi, principal liderança do Quilombo dos Palmares, um território livre em Pernambuco que virou símbolo da resistência ao regime escravista e da consciência negra no país. Em reconhecimento à importância de Zumbi, a data foi transformada em 1971 no Dia Nacional da Consciência Negra. E por esta razão que os movimentos negros organizados do Brasil não comemoram 13 de maio e sim 20 de novembro.

Desse rico processo resulta a Lei Federal 10.639/03, assinada pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em suas primeiras ações à frente do governo brasileiro, em 09 de janeiro de 2003, alterando a Lei de Diretrizes e Bases de Educação Nacional (LDB) Lei nº 9.394/96 e tornando obrigatório o ensino da história, cultura africana e afro- brasileira. Com esta determinação, a educação no Brasil só tem a ganhar, posto que incorpora ao seu cotidiano princípios de promoção da igualdade racial. Vale ressaltar que a Lei Federal

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10.639/03 foi apenas sancionada no governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas o projeto nasceu no governo do Fernando Henrique Cardoso no de 2000.

Cabe dizer que aceitar as diferenças e enriquecer-se com elas continua a ser um problema difícil de ser resolvido, já que sugere o reconhecimento da alteridade. Desta forma, considera-se relevante situar a realidade sócio-histórica e cultural atual, marcada pelos processos de reestruturação produtiva do sistema capitalista que resulta, dentre outros, no crescimento dos intercâmbios culturais, que evidenciam diferenças.

Em função dessa realidade, a educação em geral e, mais especificamente, a escola e os professores são pressionados a repensar o seu papel diante das transformações em curso, as quais demandam novos saberes, novas competências, um novo jeito de pensar e de agir, enfim, um novo perfil de formação do cidadão.

Levando em conta a história e historicidade da educação, abordando aqui a questão étnica e a influência de diferentes grupos numa cultura educacional local, nota-se que o multiculturalismo como movimento teórico e social engajado na defesa da diversidade cultural vem tomando espaço nas discussões sobre a educação, dentro de perspectivas e vertentes das mais diversas, levando em conta que o sentido dessas discussões e suas saídas dependem, necessariamente, de uma visão global e articulada, capaz de integrar todos esses aspectos ao mesmo tempo, políticos, econômicos, sociais, culturais e educacionais.

É de tamanha importância esta questão, pois os professores precisam constantemente repensar suas práticas visando a formação para a cidadania alicerçada no respeito mútuo pelas diferenças. Por isso, diz-se que esse movimento em prol do multiculturalismo inserido no contexto educacional ensina que conceber e conviver com as diferenças requer o reconhecimento de que existem indivíduos e grupos distintos entre si, mas que não se anulam ou se excluem em termos de direitos iguais e de oportunidades correlatas que garantam a afirmação de suas identidades e da existência com dignidade humana. Fala-se aqui em multiculturalismo crítico, que põe em discussão a pluralidade de identidades culturais, a heterogeneidade como marca de cada grupo e opõe-se à padronização e uniformização.

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Assim, discutir aspectos étnicos sob o ponto de vista de diferenças culturais, como se propõe neste projeto, vai além de discutir aspectos relacionados à raça; ultrapassa essa esfera e busca reagrupar as diferentes culturas num processo de reconstrução cultural local, assumindo a diversidade e fazendo dela instrumento de aprimoramento do desenvolvimento da educação brasileira.

Considerando o que fora dito por McLaren (1997), defende-se, neste contexto, o multiculturalismo crítico, para quem as diferenças não têm um fim em si, mas situam-se num contexto de lutas por mudança social, contrapondo-se ao ideário neoliberal e à globalização econômica e cultural vigente, como expressões legítimas do modelo capitalista opressor.

Nisso, acrescenta-se que no contexto da historiografia da educação, não se pode deixar de considerar as influências do multiculturalismo no processo de formação educacional, já que se trata de uma realidade que precisa ser mais bem discutida com foco em melhorias expressivas para educação como um todo, baseada no enriquecimento cultural trazido pela diversidade.

Desta forma, este projeto, que aborda a Etnia e a Diversidade Presente no contexto Escolar, visa trabalhar temas relevantes para suas práticas pedagógicas dos docentes, servindo como incremento ao que as escolas já fazem em prol do multiculturalismo.

A título de Projeto, espera-se que os docentes se sintam mais seguros para trabalharem a etnia racial e diversidade no decorrer de todo ano letivo durante suas aulas. As dinâmicas que serão desenvolvidas apontarão os inúmeros caminhos que podem ser percorridos para a valorização da diversidade, o respeito às diferenças e, sobretudo, para conscientizar os alunos sobre a importância do respeito às diferenças, sejam elas étnicas, culturais, de gênero, dentre outras.

AÇÕES AFIRMATIVAS

Ações afirmativas podem ser entendidas como políticas focais que destinam recursos em benefício de pessoas pertencentes a grupos discriminados e vitimados pela exclusão

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sócio-econômica no passado ou no presente. Trata-se se medidas que têm como objetivo combater discriminações étnicas, raciais, religiosas, de gênero ou de casta, aumentando a participação de minorias no processo político, no acesso à educação, saúde, bens materiais, redes de proteção e/ou no reconhecimento cultural.

Entre as medidas que podemos classificar como ações afirmativas podemos mencionar o incremento da contratação e promoção de membros de grupos discriminados no emprego e na educação por via de metas, cotas, bônus ou fundos de estímulo; bolsas de estudo; empréstimos e preferências em contratos públicos; determinação de metas ou cotas mínimas de participação na mídia, na política e outros âmbitos; reparações financeiras; distribuição de terras e habitação; medição de proteção a estilos de vida ameaçados e políticas de valorização identitária.

Sob essa rubrica podemos, portanto, incluir medidas que englobam tanto a promoção da igualdade material e de direitos básicos de cidadania como também formas de valorização étnica e cultural. Esses procedimentos podem ser de iniciativa e âmbito de aplicação público ou privado, e adotados de forma voluntária e descentralizada pu por determinação legal.

A ação afirmativa se diferencia das políticas puramente anti-discriminatórias por atuar preventivamente em favor de indivíduos que potencialmente são discriminados, o que pode ser entendido tanto como uma prevenção à discriminação quanto como uma reparação de seus efeitos. Políticas puramente anti-discriminatórias, por outro lado, atuam apenas por meio de repressão aos discriminadores ou de conscientização dos indivíduos que podem vir a praticas atos discriminatórios.

No debate político e acadêmico, a ação afirmativa com freqüência assume um significado mais restrito, sendo entendida como uma política cujo objetivo é assegurar o acesso a posições sociais importante a membros de grupos que, na ausência dessa medida, permaneceriam excluídos. Nesse sentido, seu principal objetivo seria combater desigualdades e dessegregar as elites, tornando sua composição mais representativa do perfil demográfico da sociedade.

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JUSTIFICATIVA

O fato de o multiculturalismo ser uma realidade e a etnia estarem presente no cotidiano escolar, esta proposta objetiva estudar os efeitos do multiculturalismo e as formas de se trabalhar a diversidade em sala de aula.

Com isso, a importância está em discutir as temáticas do multiculturalismo e etnia racial como movimento teórico e como prática social que contesta preconceitos e discriminações a indivíduos e grupos culturais no espaço escolar.

O argumento central é o de que pensar e viver no mundo atual passa pelo reconhecimento da pluralidade e diversidade de sujeitos e de culturas com base no respeito e tolerância recíproca, concebendo as diferenças como aspectos necessários às adaptações, não como instrumento de segregação, mas equivalente a plural e diverso.

Portanto, espera-se situar as práticas pedagógicas em conformidade com o multiculturalismo e suas origens, seus significados e concepções teóricas, como forma de evidenciar o sentido político-cultural de se educar as atuais e as novas gerações a partir de uma visão multicultural crítica, que leve em conta, no processo formativo dos sujeitos, a necessidade e importância de se reconhecer, valorizar e acolher identidades, assumindo a diversidade nas escolas do município como mais um instrumento de formação cultural a partir da educação escolarizada.

Outra justifica é contribuir, por meio dos pressupostos da formação continuada de professores, para que os docentes tenham mais subsídios para suas práticas pedagógicas, assumindo o multiculturalismo como elemento da diversidade presente no cotidiano escolar e consigam, desta forma, trabalhar com mais eficiência e dinâmica conteúdos pertinentes, além de aclarar a questão atinente às ações afirmativas.

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Discutir e trabalhar metodologicamente as influências da cultura afro brasileira, o multiculturalismo e a diversidade presentes no cotidiano escolar de modo a oferecer aos docentes subsídios para suas práticas pedagógicas em conformidade com o currículo escolar.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

Oportunizar aos docentes participar do desenvolvimento de conteúdos didáticos que podem ser trabalhados em sala de aula com relação ao multiculturalismo, pluralidade étnico-cultural e à diversidade, que serão compartilhados entre os participantes desta formação continuada.

Apresentar atividades para serem realizadas nas escolas, cujos resultados obtidos pelos docentes participantes serão compartilhados.

Trazer à tona o conceito de ações afirmativas, demonstrando a sua relevância para o contexto do multiculturalismo.

METODOLOGIA

Serão apresentados os resultados obtidos com os encontros realizados com os professores nas escolas onde atuam, módulo I - nos quais foram apresentadas propostas de trabalho relacionada aos eixos temáticos fundamentados na Pluralidade Étnico-Cultural: a diversidade e etnia presente no cotidiano escolar. Em cada encontro foram apresentados e discutidos o eixo temático e a propositura de ações pedagógicas práticas.

Ao final de cada encontro foram sugeridas atividades sobre os eixos temáticos trabalhados no dia para que os docentes realizassem ações e outras atividades com seus alunos, colocando em prática os conhecimentos produzidos.

Sempre no encontro seguinte, antes de trabalhar o próximo eixo temático, abriu-se espaço para que os docentes apresentassem os resultados obtidos com as atividades desenvolvidas nas escolas, discutindo a assertividade na escolha dos métodos adotados em sala de aula.

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Ao final, na semana do 20 de Novembro, foram apresentados os projetos e as atividades desenvolvidas pelos docentes em suas escolas. A apresentação foi realizada por livre escolha de cada escola, podendo, na oportunidade, cada uma definir o que iria ser apresentado e como se deu a apresentação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BENJAMIN, Roberto. A África Está em Nós: História e Cultura Afro-Brasileira. João Pessoa: Editora Graf set, 2008.

BENTO, Maria Aparecida Silva. Ação afirmativa e diversidade no trabalho: desafios e possibilidades. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000.

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FLEURI, Reinaldo Matias. Multiculturalismo e interculturalismo nos processos educacionais. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.

GOMES. Joaquim B. Barbosa. Ação afirmativa & princípio constitucional de igualdade: o direito como instrumento de transformação social. A experiência nos EUA. São Paulo: Renovar, 2010.

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LOPES, AliceRibeiro Casimiro. Pluralismo cultural em políticas de currículo nacional. Campinas: Papirus, 1999.

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TRINDADE, José Damião de Lima. História social dos direitos humanos. São Paulo: Peirópolis, 2002.

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