Cultura, comunicação e mídia Profa. Maria Bernardete Toneto
Aula 3 - Primeiros conceitos de comunicação e mídia e sua relação com a cultura.
O que é comunicação?
O conceito de comunicação é difícil de delimitar e, por consequência, de definir. De um determinado ponto de vista, todos os comportamentos e atitudes humanas, e mesmo não humanas (as abelhas e as formigas, por exemplo), intencionais ou não intencionais, podem ser entendidos como comunicação.
A raiz etimológica da palavra comunicação é a palavra latina communicatione, que, por sua vez, deriva da palavra commune, ou seja, comum.
Communicatione significa, em latim, participar, por em comum ou ação comum.
Portanto, comunicar é, etimologicamente, relacionar seres viventes e, normalmente, conscientes (seres humanos), tornar alguma coisa comum entre esses seres, seja essa coisa uma informação, uma experiência, uma sensação, uma emoção etc.
Assim, pode-se pensar na comunicação em duas grandes asserções:
1) A comunicação como o processo em que comunicadores trocam propositadamente mensagens codificadas (gestos,palavras, imagens), através de um canal, num determinado contexto, o que gera determinados efeitos;
2) A comunicação como uma atividade social, em que as pessoas, imersas numa determinada cultura, criam e trocam significados, respondendo, desta forma, à realidade que cotidianamente experimentam.
Estas duas proposições não são, porém, estanques,mas sim complementares.
Comunicação é um processo social, determinado no tempo, no espaço e nas interelações entre os seres.
O que significa processo?
Processo designa um fenômeno contínuo que apresenta contínuas mudanças no tempo. Heráclito de Éfeso, um pensador pré-socrático, considerava que havia um dinamismo inerente às coisas. Para ele, tudo estaria em constante mudança, num devir permanente. O conceito de processo está relacionado com esta movimentação das coisas, com a sua evolução em interação.
A comunicação é um processo precisamente porque se desenvolve em um contínuo espaço-temporal, em que coexistem e interagem permanentemente múltiplas variáveis. Os elementos do processo de comunicação podem entender-se como variáveis precisamente porque variam, porque apresentam contínuas mudanças no
tempo, enquanto interagem uns com os outros. Além disso, a comunicação não tem princípio e fim bem definidos, porque a cadeia de causas e a cadeia de consequências de um ato comunicativo são parcialmente indetermináveis e, de algum modo, infinitas. Ou seja, a comunicação resulta em mudança, pois nada permanece igual.
O jornalista e professor Adriano Duarte Rodrigues define comunicação como:
“processo que ocorre entre pessoas dotadas de razão e de liberdade, entre si relacionadas pelo fato de fazerem parte, não do mundo natural, com as suas regras brutais e os seus mecanismos automáticos, mas pelo fato de pertencerem a um mesmo mundo cultural. (...) processo dotado de relativa previsibilidade. Da previsibilidade do processo comunicacional depende um dos seus princípios fundamentais, o da intercompreensão.
(...) os processos comunicacionais são dotados de valores que põem em jogo as preferências, as opções, os desejos, os amores e os ódios, os projetos, as estratégias dos intervenientes na intercompreensão e na interação.
(...). A comunicação não é um produto, mas um processo de troca simbólica generalizada, processo de que se alimenta a sociabilidade, que gera os laços sociais que estabelecemos com os outros, sobrepondo-se às relações naturais que mantemos com o meio ambiente” (RODRIGUES, 1994, pp. 21-2).
A comunicação é indispensável para a sobrevivência dos seres humanos e para a formação e coesão de comunidades, sociedades e culturas. Temos de comunicar, entre outras razões:
• Para trocarmos informações;
• Para nos entendermos e sermos entendidos; • Para entretermos e sermos entretidos;
• Para nos integrarmos nos grupos e comunidades, nas organizações e na sociedade; • Para satisfazermos as necessidades econômicas que nos permitem pagar a alimentação, o vestuário e os bens que, de uma forma geral, consumimos;
• Para interagirmos com os outros, conseguindo amigos e parceiros, tendo sucesso pessoal, sexual e profissional, algo fundamental para a nossa autoestima e equilíbrio. Quando alguém tem a iniciativa de comunicar, tem alguma intenção. Só despendemos esforço quando isso nos leva a algum lado e, por isso, só comunicamos intencionalmente quando queremos atingir alguma coisa, quanto mais não seja a manutenção da própria comunicação.
Pode haver comunicação sem informação (Exemplo: troca de experiências). Não há informação sem comunicação.
O que é informação?
Informação vem do latim informatio (ação de modelar ou de dar forma). Ou seja, ela formata um aspecto da realidade, por nós desconhecido, de um modo específico. Para a Teoria Cibernética (ou Teoria da Informação), a informação é uma medida da incerteza ou da entropia num sistema (Littlejohn, 1988, p.153). A informação é quantificável e lógica.
Ao contrário da informação, a comunicação é mais eficaz quantos mais significados proporcionar, ou seja, quanto mais polissêmica for e quanto mais sensações e emoções despertar. Os Lusíadas, obra prima do poeta português Luis de Camões,é muito comunicante mas pouco ou nada informativo. Quando se pretende usar a comunicação para fazer passar informação, a mensagem será tanto mais eficaz quanto menos significados possibilitar.
Adriano Duarte Rodrigues afirma que:
“a esfera da informação é uma realidade relativa que compreende o conjunto dos acontecimentos que ocorrem no mundo e formam o nosso meio ambiente. Os acontecimentos são tanto mais informativos quanto menos previsíveis e portanto mais inesperados. (...) A informação é, por conseguinte, uma realidade que pode ser teoricamente medida pelo cálculo de probabilidades, sendo o valor informativo de um acontecimento inversamente proporcional à sua probabilidade de ocorrência
(...) A informação está por isso intimamente associada à natureza relativamente inexplicável de fenômenos, ao fato de a razão humana não os conseguir dominar e de ocorrerem no mundo à nossa volta sem aviso prévio, fora do controle e do domínio da liberdade humana, de intervirem de maneira brutal e inesperada” (RODRIGUES, 1994: pp. 20-1).
Modelos de comunicação
Quando comunicamos intencionalmente para influenciar, entramos no domínio da comunicação persuasiva, a que se recorre, por exemplo, na publicidade e propaganda, mas também na comunicação interpessoal.
Quando informar é o objetivo principal, circunscrevemo-nos ao domínio da comunicação informativa, normalmente patente no jornalismo, por exemplo, mas também quando pedimos informação a alguém, no âmbito da comunicação interpessoal.
Quando entreter é o objetivo principal da mensagem, falamos de comunicação de entretenimento, observável, por exemplo, na ficção audiovisual, na literatura de ficção ou quando alguém conta uma anedota num grupo de amigos.
Há seis grandes formas de comunicação humana:
1. Intrapessoal - Comunicação de alguém consigo mesmo, através de mecanismos conscientes (pensamentos, planos...) ou inconscientes (sonhos).
2. Interpessoal - Comunicação entre dois indivíduos, comunicação dentro de um pequeno grupo não formal de indivíduos ou entre pequenos grupos informais de indivíduos, servindo, por exemplo, para criar e sustentar relações pessoais. Pode ser direta ou mediada
3. Grupal - Comunicação no seio de grupos "formais"de média ou grande dimensão. Família, amigos, grupo religioso, escola etc.
4. Organizacional - Comunicação desenvolvida no seio de organizações, como as empresas, e destas para o exterior;
Obs.: Organização: é um grupo de grande dimensão, que possui um propósito definido e requer elementos com competências diferentes.
5. Social - Comunicação desenvolvida para grupos heterogêneos e grandes de pessoas, também denominada de difusão, comunicação coletiva ou comunicação de massa (mass communication).
6. Extrapessoal - Comunicação desenvolvida com animais, com máquinas e, creem algumas pessoas, com espíritos, extraterrestres e outras entidades das quais não existe prova física (nem evidência de comunicação). A comunicação telepática, da qual também não existe qualquer evidência, entraria nesta categoria de comunicação.
A comunicação pode ainda ser:
1. Mediada (comunicação feita recorrendo a dispositivos técnicos de comunicação, ou mídia, como acontece quando se escreve um livro para outros lerem, ou quando se faz e emite um telejornal, ou nas redes sociais);
2. Direta ou não mediada (comunicação feita sem a intermediação de dispositivos técnicos, como acontece numa conversa face a face).
Mídia
Mídia =Media: plural de medium, que em latim significa meio. Sinônimo de meio de comunicação.
A mídia é um sistema em que se dá a comunicação. Também é considerada uma atividade comunicativa que envolve produção, transmissão e recepção de formas simbólicas, que pode implicar na utilização de recursos de vários tipos. Ou seja, apesar de erroneamente estar associada a tecnologias,a mídia é superiro a isso, pois envolve principalmente a simbologia, que é o campo da cultura.
A mídia não está congelada no tempo ou espaço. Está em contínua mudança, em que elementos diversos desempenham papeis de maior ou menor destaque. É preciso lembrar que a fala e a linguagem (tal qual a entendemos hoje e que ocorreu há 40 mil anos) é uma mídia. A escrita (5000 a.C.) e o alfabeto (2000 a.C.) também são mídias, usadas até hoje.
Em geral, a mídia é todo o suporte de comunicação. A voz humana, por exemplo, é um meio de comunicação (todavia, sendo-se minucioso, a voz humana necessita de um canal, o ar, que estabelece o contato entre emissor e receptor). O corpo, que permite a linguagem gestual, é outro meio de comunicação. O vestuário também pode ser considerado um meio de comunicação, tal como um perfume.
No entanto, normalmente, quando se fala de um meio de comunicação fala-se de um artefato tecnológico que converte signos em sinais, como o rádio, o telefone, a televisão, a internet, ou outro que possibilite a transmissão de sinais e signos, como livros, jornais, revistas, fotografias e obras de arte.