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Superior Tribunal de Justiça

AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL Nº 449.465 - RS (2013/0407796-5)

RELATOR

: MINISTRO LUIS FELIPE SALOMÃO

AGRAVANTE

: FUNDAÇÃO BANRISUL DE SEGURIDADE SOCIAL

ADVOGADA

: LARA CORRÊA SABINO BRESCIANI E OUTRO(S)

AGRAVADO

: CLÁUDIO LUÍS DA SILVA TORRES

ADVOGADO

: RUBESVAL FELIX TREVIZAN E OUTRO(S)

DECISÃO

1. Cuida-se de agravo contra decisão que inadmitiu recurso especial interposto

em face de acórdão assim ementado:

APELAÇÃO CÍVEL. PREVIDÊNCIA PRIVADA. PRELIMINARES DE INÉPCIA DA INICIAL, INCOMPETÊNCIA DA JUSTIÇA ESTADUAL, LITISCONSÓRCIO PASSIVO NECESSÁRIO COM O BANRISUL E CERCEAMENTO DE DEFESA REJEITADAS. MÉRITO. AUXÍLIO CESTA ALIMENTAÇÃO. IMPROCEDÊNCIA DO PEDIDO. VERBA DE NATUREZA INDENIZATÓRIA. REVISÃO DE POSICIONAMENTO. PRECEDENTES DO STJ E DESTA CORTE. ADI. PROCEDÊNCIA DA PRETENSÃO. REFORMA PARCIAL DA SENTENÇA. REDISTRIBUIÇÃO DOS ÔNUS SUCUMBENCIAIS.

PRELIMINARES REJEITADAS, À UNANIMIDADE. APELO PROVIDO EM PARTE, POR MAIORIA.

Os embargos de declaração foram rejeitados.

Nas razões do recurso especial (art. 105, III, “a” e “c”, da CF), a parte recorrente

alega violação dos arts. 535, II, do CPC, 1º, 18, caput e §§ 3º e 19, da Lei Complementar n.

109/01 e dissídio jurisprudencial. Sustenta omissão no julgado recorrido e que a extensão do

abono dedicação integral - ADI aos inativos causa desequilíbrio atuarial, por falta de fonte de

custeio.

Decido.

2. O inconformismo prospera em parte.

3. Não há falar em violação ao art. 535 do Código de Processo Civil, pois o eg.

Tribunal a quo dirimiu as questões pertinentes ao litígio, afigurando-se dispensável que venha

examinar uma a uma as alegações e fundamentos expendidos pelas partes. Basta ao órgão

julgador que decline as razões jurídicas que embasaram a decisão, não sendo exigível que se

reporte de modo específico a determinados preceitos legais. Além disso, não significa

omissão quando o julgador adota outro fundamento que não aquele perquirido pela parte.

4. No que se refere à extensão do abono dedicação integral aos inativos, o

inconformismo merece acolhida.

Cabe consignar, de início, o disposto no art. 3º da Lei Complementar n.

108/2001:

Art. 3º Observado o disposto no artigo anterior, os planos de benefícios das entidades de que trata esta Lei Complementar atenderão às seguintes regras:

I – carência mínima de sessenta contribuições mensais a plano de benefícios e cessação do vínculo com o patrocinador, para se tornar

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elegível a um benefício de prestação que seja programada e continuada; e II – concessão de benefício pelo regime de previdência ao qual o participante esteja filiado por intermédio de seu patrocinador, quando se tratar de plano na modalidade benefício definido, instituído depois da publicação desta Lei Complementar.

Parágrafo único. Os reajustes dos benefícios em manutenção serão efetuados de acordo com critérios estabelecidos nos regulamentos dos planos de benefícios, vedado o repasse de ganhos de produtividade, abono e vantagens de qualquer natureza para tais benefícios.

No caso dos autos, o Tribunal de origem assim decidiu:

(...) extrai-se da Resolução nº 3.320/88 que o ADI – Abono de Dedicação Integral, alcançado aos funcionários comissionados, revestiu-se de realinhamento salarial, razão pela qual deve integrar a remuneração.

(...)

No caso concreto, o documento da fl. 14 é suficiente para comprovar que o autor percebia a referida parcela quando entrou em auxílio doença. Logo, faz jus ao benefício ADI, nos termos da sentença proferida.

Com relação à tese de insuficiência de fonte de custeio sustentada pela fundação ré, já me pronunciei a respeito em outros julgados pelo não acolhimento.

Trata-se de matéria que não pode tolher direito legítimo da parte autora, que deduz seu pedido com base na regulamentação e nos princípios aplicáveis às relações desta natureza. A imprevisibilidade de fonte de custeio é questão a ser resolvida pela própria entidade, pois só ela tem condições de estabelecer índices de contribuições suficientes para arcar com o que estatutária e regulamentarmente se compromete. Não cabe, por isso e nesta sede, discutir a receita vinculada ao pagamento da complementação nem seu modo de captação, mas tão-só se são ou não devidas as parcelas postuladas.

Por essas razões, rejeito as preliminares e dou provimento em parte ao apelo, a fim de julgar procedente em parte a pretensão, afastando a condenação relativa ao auxílio cesta alimentação e mantendo a sentença recorrida quanto ao abono dedicação integral.

Todavia, essa conclusão está contrária ao entendimento desta Corte, firmado

no sentido de considerar que "a determinação de pagamento de valores sem respaldo no

plano de custeio implica desequilíbrio econômico atuarial da entidade de previdência privada

com prejuízo para a universalidade dos participantes e assistidos, o que fere o princípio da

primazia do interesse coletivo do plano". Confira a íntegra da ementa:

AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL - AÇÃO POSTULANDO A INCORPORAÇÃO DO AUXÍLIO CESTA ALIMENTAÇÃO E DA PARCELA DENOMINADA ABONO SALARIAL ÚNICO NO CÁLCULO DO BENEFÍCIO DE PREVIDÊNCIA PRIVADA - DECISÃO MONOCRÁTICA QUE DEU PARCIAL PROVIMENTO AO RECLAMO INTERPOSTO PELA ENTIDADE DE PREVIDÊNCIA PRIVADA. INSURGÊNCIA DE AMBAS AS PARTES.

1. Recurso do autor. Não se conhece do agravo regimental interposto após esgotado o prazo legal de 5 (cinco) dias (artigos 545 do CPC e 258 do RISTJ).

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2. Recurso da entidade de previdência privada. 2.1. Violação ao artigo 535 do CPC não configurada. Acórdão da Corte local, complementado no julgamento de embargos declaratórios, que enfrentou, de modo fundamentado, todos os aspectos essenciais à resolução da lide. 2.2. Pretensão de incorporação do abono salarial único nos proventos da aposentadoria complementar. 2.2.1. A análise da controvérsia prescinde de interpretação de cláusula contratual e reexame de prova, motivo pelo qual não incidem, na espécie, as Súmulas 5 e 7 do STJ. Fatos incontroversos delimitados no acórdão recorrido. Não há divergência sobre o teor das normas coletivas (que concedem abono único aos bancários ativos em determinados períodos), mas apenas acerca da definição da natureza jurídica da citada verba para fins de incorporação ou não no benefício previdenciário complementar. 2.2.2. O "abono único", concedido aos empregados em atividade, mediante convenção coletiva de trabalho, não ostenta caráter salarial, mas, sim, indenizatório, malgrado o disposto no § 1º do artigo 457 da Consolidação das Leis do Trabalho, na linha da jurisprudência do Tribunal Superior do Trabalho (Orientação Jurisprudencial 346 da Seção de Dissídios Individuais

I). Ademais, a determinação de pagamento de valores sem respaldo no plano de custeio implica desequilíbrio econômico atuarial da entidade de previdência privada com prejuízo para a universalidade dos participantes e assistidos, o que fere o princípio da primazia do interesse coletivo do plano (exegese defluente da leitura do artigo 202, caput, da Constituição da República de 1988 e da Lei Complementar 109/2001). Existência de proibição expressa da incorporação do abono nos proventos de complementação de aposentadoria no parágrafo único do artigo 3º da Lei Complementar 108/2001 (específica para entidades fechadas de previdência privada).

3. Agravo regimental do autor não conhecido. Agravo regimental da entidade de previdência privada provido. (AgRg no REsp 1293221/RS, Rel. Ministro MARCO BUZZI, QUARTA TURMA, julgado em 06/09/2012, DJe 28/09/2012)

Nessa toada, a título de registro, cabe mencionar precedente da Segunda

Seção, julgado nos moldes do rito estabelecido pela Lei n. 11.672/2008, referente ao REsp

1.207.071-RJ, da relatoria da eminente Ministra Maria Isabel Gallotti, assim ementado:

RECURSO ESPECIAL PREVIDÊNCIA PRIVADA. COMPETÊNCIA. JUSTIÇA ESTADUAL. AUXÍLIO CESTA-ALIMENTAÇÃO. CONVENÇÃO COLETIVA DE TRABALHO. PROGRAMA DE ALIMENTAÇÃO DO TRABALHADOR - PAT. COMPLEMENTAÇÃO DE APOSENTADORIA INDEVIDA. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. MULTA. SÚMULA 98/STJ. RECURSO REPETITIVO.

[...]

4. A inclusão do auxílio cesta-alimentação nos proventos de complementação de aposentadoria pagos por entidade fechada de previdência privada encontra vedação expressa no art. 3º, da Lei Complementar 108/2001, restrição que decorre do caráter variável da fixação desse tipo de verba, não incluída previamente no cálculo do valor de contribuição para o plano de custeio da entidade, inviabilizando a manutenção de equilíbrio financeiro e atuarial do correspondente plano de benefícios exigido pela legislação de regência (Constituição, art. 202 e Leis Complementares 108 e 109, ambas de 2001).

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5. Julgamento afetado à Segunda Seção com base no procedimento estabelecido pela Lei nº 11.672/2008 e pela Resolução STJ nº 8/2008. 6. Recurso especial provido.

(REsp 1207071/RJ, Rel. Ministra MARIA ISABEL GALLOTTI, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 27/06/2012, DJe 08/08/2012)

Nesse mencionado precedente, Sua Excelência dispôs:

O exame da legislação específica que rege as entidades de previdência privada e suas relações com seus filiados (art. 202 da CF e suas Leis Complementares 108 e 109, ambas de 2001) revela que o sistema de previdência complementar brasileiro foi concebido, não para instituir a paridade de vencimentos entre empregados ativos e aposentados, mas com a finalidade de constituir reservas financeiras, a partir de contribuições de filiados e patrocinador, destinadas a assegurar o pagamento dos benefícios oferecidos e, no caso da complementação de aposentadoria, proporcionar ao trabalhador aposentado padrão de vida próximo ao que desfrutava quando em atividade, com observância, todavia, dos parâmetros atuariais estabelecidos nos planos de custeio, com a finalidade de manutenção do equilíbrio econômico e financeiro.

[...]

Anoto que a Lei Complementar 109/2001, nessa mesma linha, contém diversos outros dispositivos que obrigam a fixação de critérios para garantir a solvência, liquidez e equilíbrio econômico-financeiro e atuarial dos planos de benefícios contratados, tudo sob a supervisão e controle do órgão de fiscalização. Confiram-se, entre outros, os arts. 1º; 3º, III; e 7º.

Como visto, a legislação de regência em diversos dispositivos deixa nítido o

dever do Estado de velar os interesses dos participantes e beneficiários dos planos de

benefícios - verdadeiros detentores do fundo formado - garantindo a irredutibilidade do

benefício, mas não a concessão, em prejuízo do equilíbrio atuarial, de ganhos reais ao

assistido, que já goza de situação privilegiada com relação aos participantes que, a teor do

art. 21, § 1º, da Lei Complementar 109/2001 poderão, em caso de desequilíbrio atuarial, ver

reduzidos os benefícios a conceder.

Por oportuno, cumpre colacionar a decisão monocrática assim ementada:

RECURSO ESPECIAL. PREVIDÊNCIA PRIVADA. OMISSÃO. INEXISTÊNCIA. DETERMINAÇÃO DE PAGAMENTO DE VALORES SEM RESPALDO NO

PLANO DE CUSTEIO. DESEQUILÍBRIO ECONÔMICO-ATUARIAL.

VIOLAÇÃO DO DEVER DO ESTADO DE PROTEGER OS INTERESSES DOS DEMAIS PARTICIPANTES E BENEFICIÁRIOS DO PLANO DE PREVIDÊNCIA PRIVADA. RECURSO ESPECIAL PARCIALMENTE PROVIDO. (REsp Nº 1.374.500/RS, de minha relatoria, julgado em 4.2.2014)

5. Ante o exposto, conheço do agravo para dar parcial provimento ao recurso

especial a fim de julgar improcedente o pedido de pagamento do Adicional de Dedicação

Integral.

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Condeno a parte autora ao pagamento das custas processuais e honorários

advocatícios no valor de R$ 2.000,00 (dois mil reais).

Publique-se. Intimem-se.

Brasília, 13 de março de 2014.

Ministro Luis Felipe Salomão

Relator

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