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DESIGUALDADES DE GÊNERO E SUA INTERFERÊNCIA NO MERCADO DE TRABALHO

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Academic year: 2021

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DESIGUALDADES DE GÊNERO E SUA INTERFERÊNCIA NO MERCADO DE TRABALHO

Alane Karine Dantas Pereira Yamara Mayra Gomes de Medeiros Universidade Estadual da Paraíba - UEPB

Resumo

Este artigo se propõe a discutir, através de uma abordagem analítica, a inserção da mulher no mundo do trabalho de maneira a descortinar a problemática das desigualdades de gênero existentes nesse âmbito. A evolução desse processo apresenta como marco inicial a I e II guerras mundiais, tendo em vista que nesse momento as mulheres assumem posições antes restritas aos homens no mercado de trabalho. Para tanto é necessário compreender as relações sociais de uma sociedade erguida no patrimonialismo e no patriarcalismo, considerando que as diferenças potencializadas de gênero influenciam diretamente na dinâmica da força de trabalho. Sendo assim, é fundamental repensar as condições em que ocorre a inserção da mulher em atividades laborativas, uma vez que esta ocupa, na maioria das vezes, funções que exigem pouca ou nenhuma qualificação, com salários diferenciados, impossibilitando as trabalhadoras de ascenderem profissionalmente. Dentro desse contexto, é necessário ampliar os limites da cidadania restringida através da implementação de políticas públicas voltadas para o progresso da mulher no mundo do trabalho, dessa forma se torna possível elencar o vigor e a persistência no universo feminino na conquista desse espaço.

Palavras – chave: Desigualdades de gênero. Trabalho e cidadania.  

Introdução

O interesse em refletir sobre o tema está relacionado à crescente desigualdades de gênero existentes no mundo do trabalho, que se evidencia no atual contexto da reestruturação produtiva. O esforço em compreender as relações entre os sexos no  primeiro modo de dar significações às relações de poder”. ou seja, é a primeira forma de estruturação de poder existente nas relações sociais. 

Ao discutir gênero faz-se imprescindível entender esta categoria como elemento constitutivo das relações sociais fixadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos, para Scott, é a primeira forma de dar significado às relações de poder.

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A litania classe, raça e gênero sugere uma paridade entre os termos, mas na realidade não é bem assim. Scott justifica essa afirmativa no seguinte: enquanto o termo “classe” sugere uma explicação na elaborada teoria de Marx, onde ele traça uma discussão em torno das desigualdades sociais entre as classes (capitalismo versus proletariado). Já os termos raça e gênero não carregam associações semelhantes, ou seja, não existe uma teoria como a de Marx para explicá-los.

Mesmo esses termos sugerindo relação entre eles, na realidade o que verificamos é que são classificações heterogêneas. Na sociedade atual esses termos encontram-se separados e seletivos, na medida em que verificamos a distinção de oportunidades, de condições, de alternativas e de vivências baseadas nas diferenças entre raça, classe e gênero. Uma separação que se dá socialmente na maneira pela qual a sociedade se desenrola com seus processos culturais, sociais, econômicos e políticos. Remetendo-nos a enxergar e intensificar a reprodução das relações desiguais de gênero, classe e raça.

O patriarcado, o marxismo e a influência psicanalista, para Scott (1995), são as três posições teóricas condizentes com a análise da categoria gênero.

O patriarcado reflete a dominação dos homens sobre as mulheres, enfatizando as relações de poder, remete também a objetivação sexual das mulheres e o homem como reprodutor. O marxismo pauta-se numa explicação mais ampla, onde as relações de gênero devem ser analisadas não apenas no parentesco, mas no âmbito político, econômico (mercado de trabalho) e na educação, tomando a totalidade para entender as relações entre gênero. A psicanálise é mais restrita, situa-se no âmbito intercultural, entendendo as relações de gênero apenas na esfera familiar, não analisa as desigualdades entre os sexos com outras desigualdades.

Particularidades do processo de reestruturação produtiva

O sistema capitalista tem como lógica expandir e lucrar, as crises se manifestam como o entrave entre essa expansão e acumulação. O processo de reestruturação

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produtiva pode ser considerado como uma resposta à crise, uma vez que interfere na organização da sociedade no conjunto das relações que se estabelecem entre capital, estado e trabalho.

Advinda da política neoliberal, a reestruturação produtiva vem produzindo impactos no mundo do trabalho com uma série de mudanças, seus resultados têm sido os elevados índices de desemprego e a precarização do processo de trabalho. É nesse contexto que entra a “flexibilização” do trabalho, a mesma se dá com a racionalização da produção e na intensificação do ritmo do trabalho, com ênfase na substituição do trabalho vivo pelo trabalho morto, objeto de estratégia empresarial para enfrentar o mercado competitivo.

Essa flexibilização imprime novas exigências ao trabalhador, que incidem sobre a qualificação profissional. As empresas vêm desenvolvendo um conjunto de iniciativas que apontam para novas modalidades: consumo da força de trabalho, referente à polivalência e a multifuncionalidade. O controle da força de trabalho, relacionado ao incentivo da produtividade. Reprodução material da força de trabalho, políticas de beneficio oferecidos pela empresa ou reguladas pelo estado.

O que também evidencia-se nesse processo, é o discurso gerencial “de que os trabalhadores tomam parte das decisões sobre o rumo das empresas”, através deste discurso ideológico essas empresas têm se empenhado na possibilidade de um consentimento passivo do trabalhador. No entanto, tal fato é uma falsa demagogia, tendo em vista que não foi rompido o padrão de gerência toylorista, a participação dos trabalhadores continua restrita a esfera da produção.

Assim, é possível perceber que o processo de reestruturação aponta para a intensificação do controle sobre a força de trabalho, em função das novas estratégias de gestão utilizadas, seja pela propagação da participação e da parceria como forma de conjugar interesses e atenuar conflitos seja pela crescente intervenção empresarial no âmbito da qualificação e na esfera da produção.

O processo de reestruturação e seus rebatimentos na inserção da mulher no mercado de trabalho

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A inserção da mulher no mercado de trabalho remete a I e II guerras mundiais em que as mulheres tiveram que assumir posições dos homens no mercado de trabalho. Com a consolidação do modo de produção capitalista no século XIX, algumas leis passaram a beneficiar as mulheres. A partir daí as mulheres unem esforços para conquista de seu espaço no mercado de trabalho.

Analisando a categoria gênero no campo de trabalho o que percebemos é uma desigualdade e uma exclusão social do contingente feminino, em decorrência não só da reestruturação produtiva, mas também pelas políticas econômicas em vigor dentro do mercado neoliberal.

O processo de reestruturação vem ocasionando um impacto sobre a vida produtiva, principalmente na relação entre produção e reprodução. É necessário indicar novos caminhos com ênfase na intervenção social para a produção de políticas públicas e identificar indicadores que possibilitem a produção de políticas sociais para a ação sindical.

Atualmente pesquisas demonstram a participação feminina no mercado de trabalho, estando presente nas indústrias, mas com o crescimento constante no setor de serviços e comércio. Em contrapartida, essa participação caracteriza-se como uma “inclusão dentro de uma exclusão”, uma vez que as mulheres são colocadas em funções menos qualificadas e com menor oportunidade de mobilidade ocupacional. Os processos de subcontratação fundada numa lógica de redução de custos e por forte precarização do trabalho tem contado com significativa presença das mulheres.

Ao tratar do universo do trabalho e da cidadania das mulheres, sob o olhar do feminismo e do sindicalismo, é necessário contextualizar o modelo econômico presente em nossa sociedade, a partir dos anos 90. Período em que nos deparamos com o advento da política neoliberal que traz consigo a fragmentação dos espaços de participação popular, a minimização do Estado, o crescimento do desemprego, os processos de globalização da economia voltados para maximização do lucro, os ataques

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permanentes aos direitos sociais, atingindo de forma cada vez mais desigual a vida das mulheres.

É de fundamental importância repensar as conexões entre a ética e gênero no contexto da modernização produtiva. Se de um lado a reestruturação ampliou as oportunidades de inserção da mulher por gerar mais postos de trabalho em atividade que as mulheres têm vantagens por combinar maior escolaridade formal e mais experiência – caso típico das atividades de serviços, educação e saúde. Em contrapartida essa ampliação de ocupações ocorre sem vínculos formalizados, são pagos menores rendimentos e tendem a envolver maior rotatividade.

A persistência na desigualdade de tratamento e de oportunidade entre homens e mulheres e a ausência de aplicação de direitos nas relações laborais, colocam como preeminente o repensar.

É importante lançar ao direito do trabalho um olhar que integre cada vez mais a perspectiva dos direitos humanos, especialmente no que tange a igualdade de gênero e raça, é necessário construir uma sociedade com raízes fincadas na ética humanística, que contemple a justiça social e os direitos humanos sem distinção de sexo, raça, cor, entre outras marcas superficiais, pode vir a ser uma realidade desde que se desconstrua a visão masculina e branca que se tem do mundo. A construção de políticas públicas na perspectiva de gênero deve constituir-se em novas propostas, que vão contra os modelos de dominação-exploração dos homens sobre mulheres e que tais políticas possam abrir caminhos de participação das mulheres nos espaços públicos, não restringindo sua ação a esfera doméstica.

Carloto (2004) destaca que para propor políticas de enfrentamento das desigualdades de gênero é necessário:

[...] atribuir um sentido emancipatório às mudanças que pretendemos: que as desigualdades de gênero sejam combatidas no contexto do conjunto das desigualdades sociais, pressupondo práticas de cidadania ativa; garantir que Estado desenvolvida políticas sociais que contemplem as dimensões distributivas e de reconhecimento/status

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que incidem efetivamente sobre este conjunto de desigualdades de classe, gênero e raça/etnia. (CARLOTO, 2004. 153).

Para efetivação dessas Políticas voltadas para conquista do espaço de emancipação das mulheres é necessário a intervenção do Estado na sua formulação, objetivando romper com as desigualdades em todos os âmbitos, promovendo a consolidação da cidadania.

Considerações finais

A partir da discussão de gênero como estruturador das relações sociais é possível compreender as desigualdades sociais entre os sexos dentro do mercado de trabalho. As relações entre homem-mulher são permeadas pelo poder, o homem como dominador, invencível, detentor de força física superior. A mulher como ser inferior, subjugada ao homem. Tal fato traz fortes rebatimentos no mundo do trabalho.

O processo de reestruturação produtiva vem ocasionando impacto na vida das mulheres trabalhadoras, nesse momento a mulher conquista mais espaço no mercado de trabalho, em contrapartida a inclusão se faz em meio a uma exclusão, uma vez que as mulheres estão subjugadas a funções menos qualificadas que os homens. Essa inserção se deve à necessidade de sobrevivência em uma sociedade marcada pelo desemprego estrutural, pela deterioração da renda e por relações de trabalho mais precárias. O lugar oferecido a mulher no mercado de trabalho não está sujeito as mesmas condições do que é oferecido ao homem, o trabalho feminino é exercido num padrão muito mais frágil e com remuneração inferior a do homem.

Diante da expressiva desigualdade de gênero no mercado de trabalho se faz necessário a implementação de políticas públicas voltadas para o progresso da mulher no mercado de trabalho, é preciso ampliar os limites da cidadania e garantir os direitos sociais restringidos atualmente com o advento da política neoliberal. Não há dúvidas de que essas mulheres conquistaram um espaço no mundo do trabalho ao longo do tempo, contudo essa conquista se faz de maneira excludente, uma vez que as mulheres ocupam cargos menos favorecidos dentro de uma empresa, com salários diferenciados e com pouca ou nenhuma oportunidade de mobilidade ocupacional.

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Referências

http://www.universia.com.br/universitario/materia.jsp?materia=8458. Acesso em 14 de Setembro de 2009.

CARLOTO, C. M. Ruptura ou reforço da dominação: gênero em perspectiva. In: Políticas Públicas e igualdade de gênero. São Paulo, Caderno 8 da Coordenadora Especial da Mulher, p. 149-156, 2004.

CESAR, Mônica de Jesus. Serviço Social e reestruturação industrial: requisições, competências e condições de trabalho profissional. In__o trabalho, a empresa e o Serviço Social nos anos 90.

SANTOS, Álison Cleiton de. ARAÚJO, Kássia Regina A. Gênero, juventude e Protagonismo Social. Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Pró-reitoria de Pós-graduação e Pesquisa. Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica PIBIC/UEPB – Cota 2006/2007. Agosto de 2007.

SCOTT, Joan. Educação e realidade. Porto Alegre, v. 20, n. 2. Jul/ dez, 1995. P. 71 à 99.

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