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A vida é um poema psicotrópico mágico VITOR POMAR

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Academic year: 2021

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VITOR POMAR

A vida é um poema

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ILHA DO TESOURO

Um quase manifesto à luz da Perfeição Natural Texto traduzido e adaptado de:

Old Man Basking in the Sun, Longchen Rabjampa (AD 1308-1363)

Treasury of Natural Perfection,

Keith Dowman, tradução e comentário www.keithdowman.net / www.vajrabooks.com.np

Vítor Pomar, edição e montagem, 2018

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Dedicado à memória do Pai,

Júlio Artur, 10 de Janeiro 1924 — 22 de Maio 2018

Nota Acerca da Pertinência e da Urgência Desta Apresentação

Em que a sabedoria universal representa a dimensão de que a arte se inspira e alimenta.

O momento parece ter chegado para endossar a visão que se quer capaz de providenciar “uma aproximação funcional das maleitas da idade, uma aproximação redentora da sexualidade e uma visão positiva e de plena felicidade do processo da morte.” Como se tal não fosse já ao encontro do desejo mais íntimo que o comum dos mortais se pode permitir ousar, o autor lembra-nos que se trata de um mero corolário do que chama ser “o reconhecimento da unidade de todas as coisas num universo não-dual de plena consciência, de harmonia e de compaixão”. Podemos deste modo definir o próprio sentido da vida “como sendo a ‘libertação’, tomada como sinónimo de felicidade”. Mais do que um método para alcançar uma tal realização, o autor propõe o exercício duma “função espontânea da mente que consiste no desinvestimento dos objectos sensoriais e mentais do apego, acompanhada por uma simultânea auto-identificação com a luz de que são constituídos”, sabendo que este “estado de espontaneidade […] subjaz à causalidade”. Assim se resume a experiência iniciática que “está presente neste preciso momento e nada pode ser feito para facilitar o seu evento.”

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Só o reconhecimento da unidade de todas as coisas num universo não-dual de plena consciência, de harmonia e de compaixão, pode levar-nos a resolver alguns dos problemas cruciais da vida, a saber, como providenciar: uma aproximação funcional das maleitas da idade, uma aproximação redentora da sexualidade e uma visão positiva e de plena felicidade do processo da morte.

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Por mais surpreendente que possa parecer, esta é uma visão inata em qualquer cultura soteriológica ou mesmo em qualquer sociedade humana. Será que existe um estado intrínseco e inelutável, inerente a todos os seres, de uma perfeita não-dualidade,

tal como sugere Longchenpa (AD 1308-63), o autor de The Treasury of Natural Perfection? Nesse caso, podemos

esperar encontrar traços dessa ideia em qualquer cultura do mundo, particularmente nos campos da poesia e da literatura religiosa histórica.

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O sentido da vida pode ficar estabelecido como sendo a ‘libertação’, tomada como sinónimo de felicidade, qualquer que seja o método utilizado. Esta é uma visão que se situa necessariamente no exterior e para além das inúmeras escolas do

budismo e do hinduísmo embora com elas partilhe a procura de atingir aquele mesmo objectivo. Certamente que aqui se inclui por defeito não só todo e qualquer outro sistema religioso, seja ele o judeo-cristão ou o muçulmano, como também todos os sistemas seculares de crença, tal como o niilismo, o ateísmo, o hedonismo e o humanismo.

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A consciência inata desta prístina e não-dual luminosidade é designada por rigpa, sendo aqui traduzida por ‘gnose’.

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A ‘não-meditação’, tal como é aqui considerada, é uma continuidade não-contingente e espontânea, uma consciência extemporânea e sincrónica (a timeless synchronicitous awareness).

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Primeiro está a função espontânea da mente que consiste no desinvestimento dos objectos sensoriais e mentais do apego, acompanhada por uma simultânea auto-identificação com a luz de que são constituídos. A isto se dá o nome de Quebrar

ou Cortar Através (Breaking Through, or Cutting Through, trekcho), atingindo assim a pureza original, ou pureza alfa, onde reside a perfeição natural.

Na espacialidade luminosa da pureza alfa pode ainda haver uma brecha entre a mente do hiper-iogui com toda a sua omnipresente luminosidade e um último vestígio da auto-consciência que deverá ser eliminado pelo fluxo natural da não-meditação sobre o brilho da luz através dos seus aparentes componentes nucleares conhecidos como ‘núcleos holísticos’

que podem ser comparados aos píxeis de luz num holograma. Esta fase do hiper-ioga é chamada Saltar

Através (Jumping Through, togel) e implica a entrada no estado de espontaneidade que subjaz à causalidade.

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Haverá que familiarizar-se com uma visão desconstrutiva que permita um acesso automático à espacialidade da realidade intrinsecamente completa e perfeita que é a natureza da mente. Este abandono da confiança na mente racional a favor duma compreensão existencial da realidade ocorre à luz duma profunda experiência iniciática, conhecida tecnicamente como uma introdução à natureza da mente.

(...) O intelecto é redundante face à instantânea visão interior de cada experiência do fluxo de experiência

enquanto luminosa vacuidade compassiva.

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A experiência iniciática está presente neste preciso momento e nada pode ser feito para facilitar o seu evento.

p xx

Reconhecer a nossa experiência vivida, tal como é, na sua milagrosa iminência e beleza, sem o mínimo iota de modificação. A crença no desenvolvimento e aperfeiçoamento pessoal, progresso em direcção a um ideal social, evolução

moral da espécie, etc., é um desvio do puro prazer do momento intemporal e sem pensamento.

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O aqui-e-agora é o receptáculo da realidade não-dual que é a matriz mental onde a gnose está inevitavelmente presente no próprio momento de cada experiência. Esta matriz de gnose intrínseca pode apropriadamente assemelhar-se a Deus

para algumas pessoas. Ao observarmos de perto, podemos ver que este ‘Deus’ não tem qualquer espécie de existência

nem quaisquer atributos definíveis e pode apenas ser mencionado em termos de gnose, luminosidade, vacuidade e não-dualidade. ‘Buda’ é um despertar cognitivo primordial que acontece somente num momento de experiência do aqui-e-agora e, por isso, nunca pode ser afastado nem objectificado. É um flagrante erro compreender ‘buda’ ou ‘natureza da mente’

como algo infinitamente subtil, ainda que indicativo de um estado que pode ser certificado ou alcançado. p xxii

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Longe de ser uma descrição filosófica objectiva do mundo em geral, ou um modelo soteriológico, esta exposição é um poema psicotrópico mágico.

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Na mente da perfeição natural, a discriminação e a causalidade morais seguramente não existem, uma vez que o que resta

é uma pura mente gnóstica da percepção não-dual, que só pode ser visão pura e conduta perfeita. O que começa como mente pura, existe e acaba como mente pura. Aqui e agora a compaixão é tudo e, consequentemente, não há lugar para uma queda da graça, e nunca houve queda alguma. Na realização de uma tal realidade onde a idade do

ouro se situa sob uma insubstancial e frágil superfície de crença dualista, qualquer dualismo moral se torna um problema mais do que uma solução.

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Fiquem pois aqui, gente afortunada,

Deixem fluir e sede felizes no estado natural.

Alheiem-se da vossa vida complicada e confusão do quotidiano E em quietude, sem nada fazer, observem a natureza da mente. Este conselho vem do fundo do meu coração:

Entreguem-se à contemplação profunda e a compreensão nasce; Acarinhai o não-apego e a ilusão dissolve-se;

Ao não promover qualquer agenda, surge a realidade, Seja o que for que ocorra ou possa ser, isso mesmo é a chave, E mantendo um fluxo constante, sem o reter nem o alimentar, Repousando livremente, entregando-se à contemplação última, Na pureza desnuda e prístina, acedemos à consumação.

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“uma aproximação funcional das maleitas da idade, uma aproximação redentora da sexualidade e uma visão positiva e de plena felicidade do processo da morte.”

a functional approach to the medical ills of age, a redemptive approach to sexuality and a positive, joyful vision of death and dying. p xiii

“o reconhecimento da unidade de todas as coisas num universo não-dual de plena consciência, de harmonia e de compaixão”.

to recognize the unity of all things in a nondual universe of full awareness, harmony and compassion.

definir o próprio sentido da vida “como sendo a ‘libertação’, tomada como sinónimo de felicidade”.

‘Liberation’, synonymous with happiness, whatever the method, is thus the purpose of life.

“função espontânea da mente que consiste no desinvestimento dos objectos sensoriais e mentais do apego, acompanhada por uma simultânea auto-identificação com a luz de que são constituídos”

the mind’s spontaneous function of disengagement from sensory and mental objects of attachment and simultaneous self-identity with the light of which they are made.

sabendo que este “ estado de espontaneidade” “subjaz à causalidade”.

the state of spontaneity that belies causality. p xix

a experiência iniciática que “está presente neste preciso momento e nada pode ser feito para facilitar o seu evento.” Initiatory experience is present in this very moment and nothing can be done to facilitate its event. p xxi

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IMPOSSÍVEL PORTÃO / GATELESS GATE 2011

165 cm x 370 cm

Em cada instante, a plenitude.

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CÉU ENCARNADO / RED SKY 2008

320 cm x 235 cm

Como um fogo que arde sem consumir, assim a nossa mente.

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TÚLIPA / TULIP 2008

235 cm x 160 cm

As flores simbolizam a grande aventura da consciência, capaz de reconhecer a sua própria natureza, entregar-se a horizontes desmedidos que o ego ignora e desconhece.

Toda a flor pode ser sentida como um convite a essa viagem que sempre nos espera para vir ao nosso verdadeiro, último e primordial encontro.

Flowers symbolise the great adventure of consciousness, able to recognise their true nature and bask in the distant horizons that the ego ignores and is unaware of.

Every flower may be felt to be an invitation to the journey which always awaits us for our true, ultimate and primordial encounter.

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LUMINOSA MENTE DESNUDA / LUMINOUS NAKED MIND 2009

214 cm x 246 cm

Ao descobrirmos que a realidade pode ser absolutamente representada por “um eterno e extático abraço”, então podemos dar início a uma visão que implica uma “boa vida” globalmente generalizada. Assim, a liberdade torna-se um bem comum que a todos enriquece.

Esta é a liberdade que não depende de causas e condições mas que torna possível o vago sentimento de liberdade que todos já alguma vez experimentámos e que sempre reivindicamos.

When we discover that reality can be symbolised absolutely as “an eternal, ecstatic embrace”, then we can begin to see things from the perspective of a “good life” for everyone in every sense.

Thus freedom becomes a common value that enriches us all. This is a freedom that does not depend on causes and conditions, but one which gives us that vague feeling of liberty we have all had at one time or another and for which we always yearn.

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MATRIZ / MATRIX 2009

215 cm x 125 cm

O exercício da criatividade tal como o podemos conhecer, aparece como uma pedra de toque desse eterno e extático abraço.

Não será esse o fascínio que as artes espelham? Não será essa a vertigem que nos chama e ilumina? Não será esse o ponto de partida que, coincidindo com o ponto de chegada, torna o objectivo finalsempre presente e acessível?

Creative practice, as we know it, is a touchstone of this eternal, ecstatic embrace. Could this be the fascination reflected by the arts? Could this be the light-headedness that calls out and enlightens us? Could this be the point of departure that coincides with the point of arrival, turning our final goal into something ever present and accessible?

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“Ver o mundo como quem se vê ao espelho.”

Adaptado da entrevista conduzida por Anabela Mota Ribeiro para BES PHOTO 2004 — Centro Cultural de Belém

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Todos os místicos, de todas as escolas dizem: “I am Though” (Eu sou Tu). A dualidade não existe. Sou a consciência não-dual do universo. Se olho para o mundo, estou a ver-me a mim. Há uma definição de ser humano que fui construindo: “O homem é um saco de pele mal cheiroso”; e a que acrescentei: “Com hipertrofia do sistema nervoso central, a um passo de se reconhecer como consciência (não-dual) do universo”. Pode-se inferir daqui todo um modo de vida: aquilo que faço ao outro, estou a fazer a mim próprio. Fundamentalmente é essa a grande liberdade do ego: o ego esventrado.

Denunciado e liberto do ego. Não por cortar braços nem pernas, mas por reconhecê-lo como ilusório, como inexistentre. O ego é um ditador, está sempre a dizer: “Gosto disto, não gosto daquilo.” Se conseguirmos virar a consciência sobre ela própria e confrontarmo-nos com os fantasmas, vemos que eles se desfazem, que não têm existência própria.

A definição de consciência que se dá é: “clear light of bliss”, luz clara de gozo. Libertamo-nos de uma coisa que não existe, de uma ilusão. É um peso que sai de cima, uma alegria a que se toma o gosto. É preciso ter cuidado com estas coisas, para não serem forçadas, para virem do interior, para serem uma libertação e não uma amputação. Se nos identificamos com o corpo estamos tramados! Não resolvemos os problemas fundamentais do sofrimento, ficamos sempre aquém da satisfação. Com o envelhecimento e a morte é a maior das angústias: então vamos acabar?

No ocidente perdemos uma ligação entre o físico e o espiritual porque recusámos a introspecção como método válido de investigação. Ficámos limitados à prisão da racionalidade. A linguagem e a razão são níveis muito grosseiros da mente. A mente um bocadinho mais subtil é verbal. A obra de arte tem origem num nível não-verbal, não-dual.

Situemo-nos no intervalo entre pensamentos. Além de nos identificarmos com o corpo, identificamo-nos com o pensamento, as sensações, as emoções. A chave é reconhecer que isso não é ruído puro e simples, mas formas que a natureza profunda toma. A actividade mental é muito difícil de desmantelar, por isso é que se pratica a meditação.

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Ao reconhecermos a natureza da mente, relativizamos a natureza dos fenómenos. O zen é uma percepção directa da realidade.

Para [que não haja intermediação da palavra, dos conceitos], é preciso fazer espaço, criar uma atitude mental que permite essa surpresa e necessariamente perplexidade. Esse tipo de percepção está presente em Pessoa [que, embora pejado de palavras e de angústias, isso não passa de] anotações. É a sua maneira de procurar resolver os problems existenciais. É por isso que há muitos literatos que não gostam de Pessoa, porque aquilo não é coisa que se apresente, não é obra. Ele não quis fazer obra. Ele tinha determinadas questões que se punha. Porque é que os melhores poetas e pintores japoneses são mestres do zen? Eles não estão centrados em fazer uma obra, estão centrados na vivência. Subitamente há uma rãzinha que salta, e o estado mental em que se estava permite esse encantamento, que é tão raro na nossa vida.

O estado mental é do tipo introspectivo, em que a mente, sem se fechar ao exterior, está atenta a ela própria. Qual é a importância do espaço entre os pensamentos? Primeiro há a tal iniciação que permite ao discípulo o acesso a essa brecha. Depois a brecha alarga-se percebe-se que os pensamentos são uma espécie de bolha de água que vêm à superfície e se auto-resolvem. A consciência equipara-se a um espaço luminoso, sem perímetro, nem centro.

[O que causa sofrimento é] uma postura incorrecta em relação à existência.

Todos os problemas são falsos, toda a dor é uma informação que chega ao cérebro: pensa noutra coisa e não dói. [A leveza] tem a ver com um não-esforço. Essas coisas têm de vir ter connosco, não se podem agarrar. Tem de haver mais uma receptividade do que uma vontade de possuir.

O tempo é um dado da dualidade.

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Sinto-me um maratonista, especialista da corrida de longa distância. Penso muito na imagem do fio e das pérolas: cada momento tem o seu brilho, o seu encanto, mas se não há fio condutor,o colar não se forma. Não podemos estar encantados com cada momento se não houver uma visão mais ampla da existência. Anda à volta disso, do conceito de vacuidade, que não é vacuidade mas plenitude.

Interessa-me referir-me aos conceitos que reconheço como úteis.

Para sair [do tempo linear] tem que se perceber que há o sistema dual que se nos impõe. Por exemplo, custou-me icustou-menso integrar todos os compromissos que existem desde o mocustou-mento em que se utiliza um automóvel. A quantidade de cascas de cebola, de identidades que transportamos connosco é incrível! Somos utentes, atravessamos uma passadeira e somos peões, somos homens e mulheres, temos esta idade ou aquela... Tudo isso é ruído, é lixo.

O essencial é o conhecimento de si próprio.

No ocidente essa frase é socrática e é aceite. Fica-se muitas vezes por aí, não se sabe o que fazer com isso, nem onde é que isso vai dar. De facto “somos um saco de pele mal cheiroso. Se nos esfregamos um bocadinho começamos a sangrar, se não nos esfregamos suficientemente começamos a criar bicho e a cheirar mal por todos os lados. É muito estreita esta margem.

Aos vinte e um anos saí de Portugal, na altura em que me calhou a mim ir fazer uma guerra, e cheguei à Holanda. E demorei mais vinte e um anos para chegar a Bodhgaya, o local da iluminação do Buda, na Índia. Eu digo para os meus botões: se tivesse chegado aos vinte e um anos a Bodhgaya? Tinha-me deixado fascinar por todo aquele aparato, mas não tinha relação com a cultura ocidental, com as artes e o processo criativo, como tenho hoje. Estou sentado, aparentemente nestas duas cadeiras e reconheço que o processo criativo tem uma qualidade que é corroborada pelos ensinamentos a que tive acesso.

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Não é no aspecto da depuração, é espontâneo. Temos a tendência, no ocidente, de depurar as coisas, polir. A descoberta da simplicidade é muito delicada, rara, e evolui nesse sentido com a idade. Em vez de a mente se tornar mais opaca, evolui-se nesse sentido. Não se pode desejar muito mais.

[A simplicidade] é um indicador. É aquela técnica do palito a ver se o bolo está cozido. Precisamos de indicadores indirectos, não podemos observar directamente.

[A exposição obedece a três vectores, a saber,] a espontaneidade, a intuição, a simplicidade. Podem-se pôr num altar. Muita calma porque não são coisas que se fabriquem. O nosso olhar é perscrutante, inquiridor. Não sabemos o que é um olhar receptivo, e olhar é uma coisa que vem de fora para dentro.

Sim, a vida como prática. O profissionalismo de produzir uma obra tem o valor que tem, mas a mim, muito obrigado, não me apetece profissionalizar-me. Quero guardar uma frescura que não passa por aí, cada um come do que gosta! O central é a maneira de estar (embora possa ser muito desajeitado!), o que me motiva e me orienta é isso, mais do que a produção da obra.A obra é o corolário.

[A arte] é a tal visão que integra tudo, não fica nada de fora e não é no sentido de espartilhar, mas no sentido holístico.

Os termos no ocidente são muito limitados. Há que não nos agarrarmos às palavras, procurar entender qual é o sentido que se lhes procura dar. Uma vez praticado isso, naturalmente há obra, há anotações.

O nível a que chamo “inner-outer” (olhar para o exterior como uma visão interior, olhar para o interior como uma manifestação ou ornamento da natureza da mente). [...]

No zen, o objectivo é cada passo, cada momento. O momento é uma pura plenitude, e tudo o resto são fabricações, são perda de rumo. Não há um percurso mas há uma sucessão de momentos. É como a projecção de um filme: não vemos as imagens separadas, temos a ilusão do movimento. A percepção da existência é um bocado assim.

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Habito um quadro de referências que é mais amplo do que a arte. O mundo da arte é muito limitado.

[A arte] serve como reflexo desta prática. O que é que diferencia o artista do místico? É que o místico não precisa de produzir objectos.

O campo de batalha é a própria existência. É ter uma postura correcta, em vez de me deixar encurralar em infernos mentais — são os piores. Essencialmente nós somos o grande gozo, “clear light of bliss”. Bliss não é traduzido por gozo, mas acho que fica muito bem assim. É uma coisa que nos constitui e que não perdemos. A chave é o reconhecer. Ou se está lá ou andamos às aranhas.

[“No hope, no fear”] é uma definição de iluminação. Olhamos para as coisas e vemo-las como elas são. É pura fé. Não há dúvidas, não há medos, não há esperança. É a plenitude.

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VITOR POMAR nasceu em Lisboa, em 1949. Vive e trabalha em Assentiz, Rio Maior.

Exposições individuais, selecção:

“VER o que salta aos olhos / SEEING what hits you in the eye” pintura, vídeo e fotografa, com Júlio Pomar, Galeria 111, Lisboa 2016;

“Uma Pátria Assim.../Such a Homeland...”, Museu da Eletricidade, Lisboa 2012;

“Nada Para Fazer Nem Sítio Aonde Ir / Nothing To Do, Nowhere To Go”, Vídeo e fotografa, CAM – Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2011;

“O Meu Campo de Batalha / My Own Battlefield”, Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Porto 2003; Prémio de Pintura EDP.Arte, 2002

Filmografa, selecção:

“Zen Sermon“ I, 1984, Super 8, cor, som, 25’ 22’’ | Super 8 mm, colour, sound, 25’ 22”, com / with Annelies van Dooren.

“As Doze Risadas Vajra / Twelve Vajra Laughs”, 2004-08, MiniDV, cor, som, 106’ 11’’

“O Lago da Consciência e a Montanha dos Meios Hábeis / The Lake of Wisdom and the Mountain of Skilful Means” 2008 MiniDV, cor, som, 56’ 43’’

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