A importância da consolidação das leis de poder de polícia
Uma das atividades de grande importância e de enorme responsabilidade dos Municípios é o exercício do poder de polícia administrativa. As antigas “posturas municipais”, do tempo imperial, que aliavam penalidades administrativas e penais, perderam eficácia com a unificação do Código Penal, cuja competência passou a ser da União. Mesmo assim, muitos Municípios insistem em manter em vigor o chamado Código de Posturas, hoje acanhado e restrito a poucas áreas do exercício de poder de polícia.
Segundo Thomas Cooley, "O poder de polícia, em seu sentido amplo, compreende um sistema total de regulamentação interna, pelo qual o Estado busca não só preservar a ordem pública senão também estabelecer para a vida de relações dos cidadãos aquelas regras de boa conduta e de boa vizinhança que se supõem necessárias para evitar conflito de direitos e para garantir a cada um o gozo ininterrupto de seu próprio direito, até onde for razoavelmente compatível com o direito dos demais".
O objeto do poder de polícia é, portanto, bem mais amplo que as normas de posturas municipais. Diz Hely Lopes Meirelles que "o objeto do poder de polícia administrativa é todo bem, direito ou atividade individual que possa afetar a coletividade ou pôr em risco a defesa nacional, exigindo, por isso mesmo, regulamentação, controle e contenção pelo Poder Público. Com esse propósito a Administração pode condicionar o exercício de direitos individuais, pode delimitar a execução de atividades, como pode restringir o uso de bens que afetem a coletividade em geral, ou contrariem a ordem jurídica estabelecida ou se oponham aos objetivos permanentes da Nação".
No que concerne ao Município, temos, então, a necessidade de regulamentação, controle, contenção e, por decorrência, fiscalização de todo bem, direito ou atividade individual que possa afetar a coletividade ou contrariar a ordem jurídica estabelecida, naquilo que se entende por assuntos de interesse local.
Isto posto, a polícia administrativa atua inicialmente de forma preventiva, por meio de normas limitadoras e condicionadoras da conduta daqueles que utilizam bens ou exercem atividades que possam afetar a coletividade, provocando limitações administrativas emanadas de leis e regulamentos, que fixam as condições e requisitos para o uso da propriedade e o exercício das atividades que devam ser policiadas.
Com a diversificação de setores ou órgãos municipais de controle e fiscalização do poder de polícia, os atuais “Fiscais de Posturas” estão limitados a pequeno campo de atuação, sem dizer com isso da sua enorme importância dentro de um contexto do “poder-dever” da administração municipal. A inexistência do quadro de Fiscalização de Posturas cria uma lacuna
intransponível e deixa ao desabrigo de uma normatização jurídica as diversas atividades sociais e econômicas estabelecidas no Município, a criar um descontrole no ordenamento da cidade, a descambar em direção ao caos urbano. De nada adianta as autoridades municipais propalarem o tal “choque de ordem”, ora em voga, sem que haja a efetiva atuação da fiscalização de posturas.
Todavia, ações de poder de polícia administrativa municipal não se resumem ao quadro de fiscalização de posturas. Vem daí a necessidade de uma integração de normas jurídicas que consolide todas as funções deste vasto campo de atuação.
O Código Integrado de Poder de Polícia Administrativa abrange: a) Obediência aos princípios:
I – da permanência – impõe a continuidade no serviço público; II – da generalidade – impõe serviço igual para todos;
III – da eficiência – impõe atualização permanente dos serviços públicos;
IV – da modicidade – impõe, quando for o caso, taxas de valores acessíveis e razoáveis para os usuários;
V – da orientação educativa – impõe o tratamento de caráter educativo; VI – da eficiência – impõe a adoção de normas práticas e eficientes.
b) Diretrizes das ações fiscais do Município em prol do bem-estar, segurança e saúde da população municipal;
c) Identificação dos assuntos de interesse local, pertinentes ao bem-estar, segurança e saúde da população municipal;
d) Competência legal de atuação da Fiscalização Municipal de Poder de Polícia Administrativa – áreas envolvidas:
I – Obras e Construções:
- Fiscalização do Arruamento, Alinhamento e Nivelamento das vias públicas;
- Fiscalização dos loteamentos e de novos núcleos urbanos; - Fiscalização das construções em geral;
- Fiscalização e acompanhamento das obras públicas, estadual e federal;
- Fiscalização do fornecimento de água e da rede de esgotos sanitários; - Fiscalização do estado de pavimentação e calçamento das vias públicas;
- Fiscalização do estado de revestimento dos passeios públicos; - Fiscalização da manutenção da iluminação pública.
- Fiscalização e controle das normas de trânsito nas vias e logradouros públicos;
- Fiscalização e controle das normas de tráfego dos meios de transporte pelas vias de circulação;
- Fiscalização e controle das normas de horário de carga e descarga nas vias e logradouros públicos;
- Fiscalização e controle dos empachamentos e obstáculos à fluência do trânsito nas vias e logradouros públicos;
- Fiscalização do transporte coletivo de passageiros; - Fiscalização do transporte alternativo de passageiros;
- Fiscalização dos transportes de passageiros especiais (escolar, portador de deficiência, idoso etc.);
- Fiscalização e controle das normas de emissão de poluentes por veículos automotores;
- Fiscalização e controle das normas de circulação de veículos de tração e propulsão humana e tração animal;
- Fiscalização e repressão à circulação de animais nas vias públicas; - Participar nos programas de educação e segurança de trânsito. III – Mercados, Feiras e Matadouros:
- Fiscalização e controle das normas de exploração comercial dos Mercados Públicos;
- Fiscalização e controle das Feiras-livres;
- Fiscalização e controle dos Matadouros e Abatedouros de animais. IV – Serviço Funerário:
- Fiscalização e controle dos serviços funerários delegados ou concedidos a particulares.
V – Saúde Pública e Higiene:
- Fiscalização dos produtos vendidos, em termos de validade e procedência;
- Fiscalização dos produtos alimentícios expostos à venda nas vias e logradouros públicos;
- Fiscalização e controle das normas de higiene no fornecimento de alimentos ao público;
- Fiscalização dos estabelecimentos que comercializam produtos alimentícios;
- Fiscalização dos bares, restaurantes, boates e casas noturnas;
- Fiscalização sanitária das vias e logradouros públicos, remoção e destinação do lixo coletado;
- Fiscalização sanitária de terrenos e áreas públicas e particulares;
- Fiscalização de imóveis para controle de foco de animais nocivos à saúde;
- Fiscalização sanitária de farmácias, laboratórios, hospitais, clínicas e escolas.
V – Meio Ambiente:
- Fiscalização das reservas florestais;
- Fiscalização dos reservatórios e nascentes de água, rios e córregos; - Fiscalização e controle da poluição do ar e sonora;
- Fiscalização e controle das normas de preservação da flora e da fauna; - Fiscalização e controle das normas de conservação dos recantos naturais.
VI – Estabelecimentos em geral:
- Fiscalização e controle das normas de segurança dos
estabelecimentos;
- Fiscalização e controle das normas de zoneamento urbano;
- Fiscalização e controle das normas de estética e conforto dos logradouros públicos;
- Fiscalização e controle das normas de propaganda e publicidade; - Fiscalização e controle das normas de sossego público;
- Fiscalização e controle das normas de comércio ambulante ou de rua; - Fiscalização e controle das normas de pesos e medidas;
- Fiscalização e controle das normas de atividades urbanas em geral. As Prefeituras podem contar com os seguintes quadros de fiscalização de poder de polícia:
I – Fiscalização de Posturas;
II – Fiscalização de Obras Particulares;
III – Fiscalização Sanitária (ou Vigilância Sanitária);
IV – Fiscalização do Transporte Municipal de Passageiros e de Cargas; V – Fiscalização do Meio Ambiente;
VI – Guarda Municipal.
Em geral, compete aos quadros fiscais acima: Fiscalização de Posturas:
- fiscalização dos estabelecimentos comerciais e de atividades sociais, não compreendidos no âmbito da Vigilância Sanitária;
- liberar licença de funcionamento aos estabelecimentos acima indicados e às atividades econômicas ocupantes da área pública;
- liberar licença de funcionamento das feiras livres e dos ocupantes de boxes de mercados municipais;
- liberar licença e fiscalizar os engenhos publicitários, painéis e cartazes de propaganda nas fachadas dos estabelecimentos e expostos na área pública; - liberar licença, se for o caso, e fiscalizar distribuição de prospectos de propaganda na área pública;
- liberar licença, se for o caso, e fiscalizar carros de som e equipamentos de som instalados na área pública;
- liberar licença e fiscalizar realização de shows artísticos em locais fechados ou na área pública;
- fiscalizar o cumprimento das normas federais de pesos e medidas. Fiscalização de Obras Particulares:
- liberar licença e fiscalizar a realização de obras particulares;
- liberar a certidão de habitabilidade (habite-se) das obras particulares concluídas;
- fiscalizar o cumprimento de normas relativas ao empachamento nas vias públicas;
- fiscalizar a construção e conservação dos passeios nos logradouros públicos; - fiscalizar o cumprimento de normas relativas aos terrenos vazios e baldios; - fiscalizar serviços de demolição e implosão de edificações.
Vigilância Sanitária:
- liberar licença de funcionamento e fiscalizar os estabelecimentos de atividades econômicas relacionadas com a produção, comercialização, distribuição e consumo de produtos alimentícios;
- liberar licença de funcionamento e fiscalizar os estabelecimentos de atividades de ensino, em qualquer grau, hotéis e similares, hospitais, clínicas, consultórios, laboratórios de análises, serviços veterinários, estética, ginástica, atividades esportivas, cinemas, teatros, bares, boates e similares, lavanderias, padarias, confeitarias, farmácias, drogarias, funerárias e indústrias em geral; - fiscalizar atividades econômicas instaladas na área pública que produzem e comercializam alimentos ou bebidas em geral;
- fiscalizar e controlar a produção de sons e ruídos excessivos nos estabelecimentos de atividades econômicas e sociais.
Fiscalização de Transporte:
- fiscalizar os veículos de transporte municipal de passageiros; - fiscalizar os veículos de táxi, vans e moto-táxi;
- fiscalizar os veículos de transporte escolar;
- fiscalizar o cumprimento das normas de carga e descarga de mercadorias; - fiscalizar o tráfego de veículos de tração animal.
Fiscalização do Meio Ambiente:
- fiscalizar as atividades econômicas que produzem ou utilizem efluentes químicos ou agentes físicos, químicos e biológicos;
- fiscalizar as atividades econômicas que podem causar poluição por expelir gases, fumaças ou qualquer outra emanação nociva;
- fiscalizar a poda ou corte de árvores em locais particulares ou públicos;
- fiscalizar atividades econômicas que produzem ou se utilizem de produtos inflamáveis ou explosivos;
- fiscalizar atividades que explorem pedreira, areia, calcário, argila e outros produtos minerais;
- fiscalizar a remoção e transporte de terra, lixo e de resíduos urbanos; - fiscalizar a manutenção da qualidade do ar;
- fiscalizar o controle e equilíbrio do ecossistema. Guarda Municipal:
- organizar e fiscalizar o tráfego de veículos;
- proteger os bens públicos e o patrimônio histórico e cultural do Município; - reprimir o comércio ambulante clandestino na área pública;
- vigiar o espaço público, no sentido de torná-lo mais seguro aos transeuntes; - reprimir o comércio clandestino efetuado por meio de veículos estacionados ou em circulação.
Essas são, exemplificativamente, as atribuições dos quadros de poder de polícia municipal. E neste teor, uma única lei que englobe todas as ações por certo evitará conflitos de atuação entre os órgãos fiscais.
Roberto A. Tauil Maio de 2013.