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AS INTERAÇÕES DAS CRIANÇAS NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO INFANTIL

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INFANTIL

SANTOS, Maristela Pitz dos1 - FURB MARCHI, Rita de Cássia 2 - FURB Grupo de Trabalho - Educação da Infância Agência Financiadora: FURB

Resumo

Este texto objetiva comunicar uma pesquisa, em andamento, que tem como foco compreender e interpretar os modos de interação das crianças de dois e três anos em uma instituição de educação infantil. Esta pesquisa tem ancoragem teórica na Sociologia da Infância. Com a entrada das mulheres no mercado de trabalho ocorre uma mudança na forma de educação das crianças pequenas, visto que a estas é destinado historicamente o cuidado dos filhos. A partir desta determinação econômica e social surge a necessidade de terem salvaguardados os filhos durante o período de tempo que estão fora de casa. A educação das crianças pequenas, anteriormente restrita à família, torna-se uma prática coletiva e institucionalizada. A entrada prematura das crianças em instituições com regras rigidamente estruturadas, com tempos demarcados e fragmentados, tende a limitar e controlar as ações espontâneas das crianças; mas, também possibilita o encontro entre crianças da mesma idade e crianças de idades diferenciadas. Hoje em dia, portanto, as instituições de educação infantil são potenciais locais de encontro das culturas infantis e das culturas de pares, sendo, estas, quase os únicos locais fora do âmbito familiar. Esta iniciação, cada vez mais cedo fora do contexto familiar tem possibilitado, ainda, para as crianças pequenas, a imersão em um repertório cultural ampliado. Interpretar e compreender os modos de interação das crianças pequenas possibilitará entender como estes atores sociais vão construindo seus mundos de vida e como a estrutura social, representada pelas instituições e pelas normativas do Estado, (as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil - DCNEI), atuam sobre a pequena infância. A microanálise social das interações das crianças pequenas tem como objetivo político dar visibilidade a estes pequenos atores, respeitando seus modos de ser e estar no mundo. Para tal intento, é necessário o uso de ferramentas da etnografia como metodologia de pesquisa.

1 Professora de Educação Infantil e Mestranda no PPGE em Educação pela FURB, no Núcleo de Estudos

Interdisciplinar da Criança e do Adolescente (NEICA), na linha de pesquisa Educação, Cultura e Dinâmicas Sociais. Bolsista FURB.

2 Doutorado em Sociologia (UFSC/PARIS V), Professora no PPGE \FURB na linha de pesquisa Educação,

Cultura e Dinâmicas Sociais; Coordenadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinar da Criança e do Adolescente (NEICA) e do Núcleo Estadual do Observatório dos Direitos da Criança e do Adolescente.

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Palavras-chave: Sociologia da Infância. Interação, Educação Infantil. Culturas Infantis.

DCNEI.

Introdução

É a partir dos estudos sociais da infância, na década de 80 (sociologia da infância e antropologia da criança) que começa a prevalecer o entendimento de que a infância é uma construção social (passível de mudanças através do tempo, conforme as estruturas sociais são modificadas) e não um dado natural das sociedades. Nessa visão, as crianças são também compreendidas como atores sociais (detentores de direitos como os demais atores adultos)3. A partir desta compreensão surge uma nova forma de olhar para as realidades sociais das crianças, como afirma Pinto (1997, p. 24), sendo necessário “partir das crianças para o estudo das realidades da infância”. Esta perspectiva é denominada pelos sociólogos da infância (PINTO 1997, MARCHI 2011, QVORTRUP, 2010) de “autonomia conceitual” da infância: é o estudo das crianças pelo que elas são e não pelo que serão no futuro, sendo elas as principais informantes sobre suas vidas, “sem necessariamente fazer referência ao seu futuro, quando se tornarem adultas” (QVORTRUP, 2010, p. 4). A autonomia conceitual permite dar voz às crianças e considerar suas perspectivas como válidas e confiáveis. Trata-se do fato de ouvir as crianças. Pinto (1997, p25), afirma que,

O olhar das crianças permite revelar fenômenos sociais que o olhar dos adultos deixa na penumbra ou obscurece totalmente. Assim, interpretar as representações sociais das crianças pode ser não apenas um meio de acesso à infância como categoria social, mas às próprias estruturas e dinâmicas sociais que são desocultadas no discurso das crianças.

Com a entrada das mulheres no mercado de trabalho ocorre uma mudança na forma de educação das crianças pequenas, visto que a estas é destinado historicamente o cuidado dos filhos. A partir desta determinação social e econômica surge a necessidade de terem salvaguardados os filhos durante o período de tempo que estão fora de casa. A educação das crianças, anteriormente restrita à família, torna-se então uma prática coletiva e institucionalizada. Ao sair de casa para o trabalho as mulheres levam consigo seus filhos pequenos, que tem agora suas vidas organizadas pelos horários de trabalho dos adultos, por vezes fazendo o mesmo percurso de seus pais, pois as instituições educativas nas quais passam o dia ficam, em muitas situações, próximas ao local de trabalho da mãe ou do pai e

3 Para uma maior compreensão da infância como construção social e da criança como ator social ver PINTO

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longe da residência da família. Crianças tão pequenas que precisam acordar cedo para acompanhar um ritmo mercantil que não é seu. Como afirma Mollo-Bouvier (2005) “[...] exigências sociais que ajeitam a vida das crianças em função da dos adultos e das necessidades de trabalho” (p. 396).

Nos dias atuais, não vemos mais as crianças brincando livremente nas ruas, nas “trocinhas” como assinalou a pesquisa de Florestan Fernandes ([1961], 2004), pioneiro, no Brasil, nos estudos sobre as “culturas infantis”. Sua pesquisa, nos anos 40, aponta a rua como um local também de socialização das crianças, além da família e da escola. A sociedade na qual estamos imersos, compreende que a rua é hoje um local não seguro para as crianças e não permite mais esta forma de socialização livre dos olhos adultos.

Assim, a infância hoje está cada vez mais vigiada e confinada às instituições responsáveis por ela, sendo a instituição de educação infantil o primeiro local, fora da família, no qual as crianças pequenas passam, em muitas situações, de sete a doze horas por dia. Isso nos aponta este tempo como determinante na educação e socialização destas crianças e as instituições de educação infantil como espaços coletivos importantes para a vivência da infância moderna.

A modernidade é, então, marcada para as crianças, por um espaço delimitado de socialização, ou seja, pelas agências de socialização, família e escola, hoje, com uma ênfase maior na escola. A entrada prematura das crianças em instituições com regras rigidamente estruturadas, com tempos demarcados e fragmentados, tende a limitar e controlar as ações espontâneas das crianças, desde a mais tenra idade; mas, também possibilita o encontro entre crianças da mesma idade e crianças de idades diferenciadas. Hoje em dia, portanto, as instituições de educação infantil são potenciais locais de encontro das culturas infantis e das culturas de pares, sendo, estas, quase os únicos locais fora do âmbito familiar. Esta iniciação, cada vez mais cedo fora do contexto familiar tem possibilitado, ainda, a imersão em um repertório cultural ampliado.

As instituições de educação infantil possuem uma lógica própria definida por meios oficiais que determinam as formas como os adultos irão gerir a vida das crianças. Avaliando esta ação adulta sobre as crianças é de fundamental importância abordar o tema das interações das crianças pequenas a partir do “ponto de vista” delas, compreendendo assim quem são as crianças, o que nos comunicam cotidianamente, de forma a auxiliar na “construção de um

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espaço educativo mais democrático e mais potencializador de uma igualdade de oportunidades para os grupos com menos poder na sociedade” (FERREIRA, 2009, p.160).

A pesquisa “Os modos de interação social de meninas e meninos de dois e três anos em uma instituição de educação infantil” tem ancoragem teórica e metodológica no paradigma interpretativo das ciências sociais. Tendo como objeto de pesquisa as interações sociais das crianças pequenas com o mundo que as cerca na instituição de educação infantil. Interpretar e compreender os modos de interação destas crianças possibilitará entender como estes atores sociais vão construindo seus mundos de vida e como a estrutura social, representada pelas instituições e pelas normativas do Estado (as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil - DCNEI), atuam sobre a pequena infância. A microanálise social das interações das crianças pequenas tem como objetivo político dar visibilidade a estes pequenos atores, respeitando seus modos de ser e estar no mundo.

Esta pesquisa, em andamento, tem como Objetivo geral: Identificar e analisar os modos de interação de meninas e meninos de dois e três anos4 em uma instituição de educação infantil do município de Blumenau. São Objetivos específicos: a) Registrar e analisar as interações entre as crianças, as culturas de pares, do mesmo agrupamento etário; b) Documentar e analisar as atividades dirigidas pelas professoras nas quais as crianças interagem, as rotinas culturais; c) Perceber e analisar a interação das crianças de dois e três anos com outros agrupamentos etários.

O público alvo da pesquisa são 17 crianças com idade entre dois e três anos (todas completarão 3 anos até o dia 31 de dezembro deste ano), que freqüentam uma instituição de educação infantil pública na município de Blumenau.

Marco histórico e teórico

As instituições de educação infantil são marcadas por uma trajetória histórica que as constituem como “assistencialistas”, “higienistas” e “preparatórias” o que coloca em xeque a sua identidade. Segundo Kuhlmann Jr. (2010) os locais destinados a receber as crianças pequenas, desde sua origem, possuiam um caráter educativo. Pois, ao combater a mortalidade infantil colocando as instituições sob a tutela médico-higienista, ao retirar a criança da rua e colocá-la sob a guarda dos “asilos” ou ao utilizar-se destas instituições como preparatórias para a entrada das crianças nas escolas, um tipo de educação estava posto.

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Após a constituição de 1988, esta forma de conceber a educação da pequena infância foi aos poucos, alterando-se. A “educação infantil” foi retirada das Secretarias de Assistência Social e colocada sob responsabilidade das Secretarias Municipais de Educação. A partir de então são intensas as pesquisas sobre esta modalidade educativa acarretando reflexões e algumas mudanças. No entanto, ainda hoje, a educação em espaços coletivos e públicos, por vezes, é tomada como educação “compensatória” para pobres no sentido de ajudar as famílias a educarem seus filhos por entender que estas não têm competência para isso (KUHLMANN JR., 2010).

Considerando, a partir do marco teórico da Sociologia da Infância que a infância é uma construção histórica, cultural e social e que as crianças são atores sociais, pressupõe-se que compreender quem são as crianças que habitam estes espaços educativos a partir do que elas nos “dizem” sobre elas é fator relevante em pesquisas que visam tornar estes locais mais democráticos. Abandonando as visões: “compensatória”, “assistencialista” e “preparatória”, alargando assim os modos tradicionais de se educar e olhar à infância e às crianças e quiçá superando-os e substituindo-os por uma dimensão que considere a sua cidadania e respectivos direitos.

A Sociologia da infância é, portanto, o aporte teórico ao qual filiamos esta pesquisa5. Esta área do conhecimento surge em meados da década de 80 quando se constata que as crianças e suas ações eram “invisíveis” nos estudos das Ciências Sociais. Isso porque o foco das pesquisas estava centrado nos adultos e nas instituições responsáveis pela socialização das crianças principalmente a família e a escola6. Nesses estudos a criança era considerada objeto passivo da socialização.

Montandon (2001) e Sirota (2001) ao fazerem um balanço dos primeiros trabalhos sociológicos sobre a infância e a criança em língua inglesa e francesa assinalam que a Sociologia da Infância nasce para marcar uma oposição em relação a concepção tradicional de socialização, onde a criança é vista como simples objeto da socialização adulta e institucional, ou seja, como uma “tabula rasa”. A infância foi por muito tempo entendida como a fase em que a criança está sendo apenas treinada para entrar na sociedade e incorporar os papéis e

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Também serão discutidos conceitos da Sociologia Geral, Antropologia da Criança, Historiografia da Educação Infantil e, como pano de fundo para a análise das interações das crianças, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil - DCNEI. Estas diretrizes definem como o cotidiano educativo das instituições de educação infantil será constituído, levaremos em conta, principalmente os artigos que dizem respeito às interações.

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valores adultos de uma determinada cultura/sociedade, visando manter a coesão social; ou ainda, um tempo em que era considerada um adulto em miniatura.

Como afirma Cohn (2005):

Recusa-se às crianças […] uma parte ativa na consolidação e definição de seu lugar na sociedade: elas são vistas como um receptáculo de papéis funcionais que desempenham, ao longo do processo de socialização, nos momentos apropriados (p. 16).

Os estudos da psicologia do desenvolvimento adotados pela pedagogia para gerir a educação das crianças pequenas têm contribuído com o reducionismo nos modos de olhar para as crianças. A ausência de estudos nas áreas da antropologia, sociologia e filosofia marcou a história da educação da pequena infância no Brasil e no mundo. Recentemente estas ciências tem se ocupado das crianças e dos seus modos de agir no mundo, no entanto muito ainda há de se pesquisar no intuito de nos descolarmos do olhar adulto centrado sobre as crianças. Alguns exemplos são as pesquisas sobre as culturas infantis, as culturas de pares, que o pesquisador William Corsaro tem realizado para compreender os mundos de vida das crianças pequenas. Corsaro foi um dos primeiros sociólogos da infância a dedicar-se a pesquisar as crianças pequenas e seus mundos sociais. Sua forma peculiar de entrar em interação com elas permitiu registrar os modos como as crianças vão compondo seus mundos de vida e como, a partir das brincadeiras, elas vão, também, compondo e construindo a realidade social que as cerca. Para este autor as crianças não reproduzem passivamente a sociedade, mas, realizam um movimento que ele denomina de “reprodução interpretativa”, onde as crianças inovam e criam formas de participação na sociedade e que “as crianças não se limitam a internalizar a sociedade e a cultura, mas contribuem ativamente para a produção e mudanças culturais” (CORSARO, 2011, p.31 e 32).

Ao propor o termo “reprodução interpretativa”, Corsaro (2011) tem como objetivo por em xeque o conceito tradicional de socialização, atribuindo-lhe novos valores.

O termo interpretativo abrange os aspectos inovadores e criativos da participação infantil na sociedade.[...]O termo reprodução inclui a ideia de que as crianças não se limitam a internalizar a sociedade e a cultura, mas contribuem ativamente para a

produção de mudanças culturais. O termo também sugere que crianças estão, por

sua própria participação na sociedade, restritas pela estrutura social existente e pela

reprodução social. Ou seja, a criança e sua infância são afetadas pelas sociedades e

culturas que integram. Essas sociedades e culturas foram, por sua vez, moldadas e afetadas por processos de mudanças históricas ( p. 31 e 32 – grifo no original).

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A reprodução interpretativa encara a socialização da criança como uma via de mão dupla, onde as crianças empreendem esforços para dar sentido à cultura adulta na qual estão inseridas, mas também contribuem constituindo suas culturas, seus mundos de vida. O autor também desloca o foco da análise, até então centrado no desenvolvimento individual, para os processos coletivos de interação. Sendo nestes processos de interação que a sociologia da infância irá propor suas investigações. Segundo Ferreira (2004),

[…] o processo de reprodução interpretativa enfatiza a natureza criativa dos processos de reprodução social, ao mesmo tempo que procura distanciar-se da ideia de que as crianças apenas se limitam a imitar o mundo adulto ou a apropriar-se indiscriminadamente de seus recursos culturais (p. 61).

É a partir deste deslocamento do olhar em relação a socialização das crianças pequenas que é possível dar visibilidade às interações vividas pelas crianças no cotidiano da educação infantil, compreender como seus mundos sociais vão sendo organizados por elas, assim como, entender quem são, como vivem e o que pensam as crianças na contemporaneidade.

Metodologia: a etnografia como possibilidade de olhar o cotidiano das crianças

Nas ciências sociais as metodologias de pesquisa qualitativas são as que melhores resultados têm apresentando nas interpretações da realidade vivida pelos atores sociais. A etnografia é uma metodologia de pesquisa qualitativa utilizada para descrever uma cultura a partir do ponto de vista dos atores sociais desta cultura. É uma modalidade de pesquisa oriunda da antropologia cultural e da sociologia qualitativa, que se caracteriza por um modo de pesquisar baseado na observação e descrição profunda, apresentando o contexto social no qual os atores estão inseridos.

Nas pesquisas na área da educação a etnografia tem se mostrado eficiente no que se refere à interpretação e compreensão dos fenômenos educacionais a partir do ponto de vista de seus atores: as crianças, as famílias, professores e as comunidades. Nesta abordagem metodológica, a interpretação e compreensão da realidade só pode ser alcançada pela análise do ponto de vista dos atores sociais, é uma metodologia que visa o “olhar de dentro”, dando “voz” aos protagonistas da ação educativa. Como afirma Sarmento (2003):

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A etnografia impõe, deste modo, uma orientação do olhar investigativo para os símbolos, as interpretações, as crenças e os valores que integram a vertente cultural (ou, dado que a cultura não existe no vazio social, talvez seja mais apropriado dizer vertente sociocultural) das dinâmicas das ações que ocorrem nos contextos escolares (p. 152).

Os desafios postos ao se pesquisar com crianças são, no entanto, muitos. Citamos primeiramente o fato dos pesquisadores serem adultos que não fazem mais parte das culturas da infância. Como afirma Graue e Walsh “[...] jamais veremos o mundo através dos olhos de outra pessoa, particularmente pelos olhos de uma criança” (2003, p. 56). Os autores ainda consideram que nosso olhar está encharcado pelas nossas experiências e pelas teorias que nos orientam. Dito isso, fica claro que precisamos ter muita cautela ao interpretar as culturas das crianças.

A entrada no campo a ser pesquisado exige estudos e reflexões que antecedem esta entrada. Ao realizarmos pesquisas cuja intenção é ter as crianças7 como participantes, faz-se necessário atentar para os dilemas e desafios de ordem política, ética e prática. Os desafios de ordem prática nos possibilitam discutir metodologias de escuta, de apuro do olhar e de entrada no campo e aceitação do pesquisador junto às crianças. Os desafios de ordem ética dizem respeito a delicadeza e aos cuidado para não expor, não constranger e não forçar as crianças em função da pesquisa. E os dilemas políticos referem-se aos direitos de participação e tomadas de decisões por parte das crianças em tudo o que diz respeito a estas; ao protagonismo partilhado e ao adultocentrismo.

A linguagem, a forma como as crianças se expressam, principalmente as bem pequenas é um desafio para o pesquisador. A linguagem adulta está muito distanciada das “linguagens” das crianças, a oralidade é valorada, pelos adultos, como única forma de comunicação válida. No entanto, como afirma Sarmento (2007) “[...] todas as crianças, desde bebês, têm múltiplas linguagens (gestuais, corporais, plásticas e verbais) porque se expressam” (p. 35).

Kramer (2002) aponta também questões éticas relativas ao consentimento das crianças em relação à pesquisa, mais agudizadas quando se trata de pesquisar com crianças pequenas, sendo necessário o consentimento informado dos pais. Para Corsaro (2011), o consentimento da criança, independente da idade, também precisa ser conquistado pelo pesquisador. Ainda

7 Estes desafios e dilemas se fazem presentes também nas pesquisas cujo foco são outros atores sociais, mas

estão de forma mais tensa presentes nas pesquisas onde há um pesquisador adulto pesquisando crianças, devido as questões relacionadas ao adultocentrismo

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há fatores associados a divulgação da pesquisa no que se refere ao nome das crianças, as imagens (fotografias, filmagens) e a devolutiva dos resultados da pesquisa para as crianças, famílias e instituições com o cuidado de não comprometer os atores sociais envolvidos.

O fato de termos uma evidência maior nas pesquisas com crianças nos possibilita entender um pouco mais e melhor a sociedade, pois a condição da infância expressa a realidade como um todo. Como afirma Sarmento (2009) “o trabalho teórico e analítico sobre a infância é também uma forma de conhecer a sociedade (p.32).” Para isso a sociologia da infância faz as suas contribuições.

Portanto, esta pesquisa tem utilizado as seguintes ferramentas da etnografia: observação participante, diário de campo, fotografia, filmagens e gravações. Sendo que o tempo previsto para a pesquisa de campo é o de cem horas para observações e registros, em dias alternados da semana. Para, assim procurar compreende, a partir das interações que são estabelecidas (pelas e com as crianças), dentro do espaço educativo de uma instituição de educação infantil, as formas de interação da pequena infância e entender como as crianças pequenas estruturam seus modos de ser e estar no mundo. Fazendo o elo com as diretrizes curriculares nacionais para a educação infantil (DCNEI), que determinam ações e objetos que deverão fazer parte das interações das crianças.

Considerações finais

As práticas pedagógicas que historicamente são propostas às crianças são pensadas pelos adultos que não fazem mais parte da cultura infantil; assim, com estas práticas, está-se o tempo todo tentando aculturar as crianças, pensando no adulto que elas serão e roubando-lhes o agora, isto é, o seu tempo da infância (SIROTA, 2001, MONTANDON 2001, SARMENTO 2007, CHRISTENSEN E JAMES 2005). Fazer uma análise interpretativa dos modos de interação da pequena infância nas instituições de educação infantil poderá fazer frente ao processo de aculturação sofrido pelas crianças. E, a partir desse entendimento, respeitar seus direitos de viver a infância como um período fundamental onde algumas formas de expressão estão potencializadas e precisam ser compreendidas.

Para reconhecer a criança como protagonista do seu processo de socialização é necessário conhecê-la, compreendê-la, respeitá-la, estudar com ela seus modos de interação, compondo assim um inventário das culturas infantis, da cultura de pares, das formas como as crianças interagem com os elementos da cultura e da natureza. Como afirma Corsaro (2011)

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ao assinalar sua participação das crianças na produção da cultura “[...] a abordagem interpretativa à socialização na infância dá ênfase especial às atividades práticas da criança, em sua produção e participação na cultura de pares” (p.30). Para este autor, a criança está o tempo todo integrando duas culturas: a das crianças e a dos adultos. E, para entender a complexidade desta participação faz-se necessário investigar as atividades coletivas das crianças com outras crianças e com os adultos no espaço educativo.

As crianças são atores sociais plenos e protagonistas de suas vivências, co-participes do seu processo de socialização, sendo afetados pela sociedade e afetando-a, neste sentido são elas que, utilizando-se de várias formas de comunicação, nos dirão quem são e o que pensam sobre o que vivenciam.

A importância em pesquisar crianças tão pequenas está em mostrar quem são estas crianças e quais os seus modos de efetivarem-se como protagonistas do seu processo de socialização. Dar visibilidade a esta população infantil, mostrando seus modos de ser e estar no mundo para a família, a comunidade e o meio acadêmico poderá proporcionar reflexões acerca dos modos adultos de agir com as crianças pequenas, assim como promover um respeito maior pela pequena infância.

É, portanto, nessa linha teórica e metodológica de investigação que estamos realizando esta pesquisa sobre os modos de interação de crianças de dois e três anos em uma instituição de educação infantil.

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