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O audiovisual paraibano: uma proposta de cartografia espacial, social e midiática

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE – UFRN PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DA MÍDIA – PPGEM

DOUTORADO EM ESTUDOS DA MÍDIA

KLEYTON JORGE CANUTO

O AUDIOVISUAL PARAIBANO: Uma proposta de cartografia espacial, social e midiática

NATAL 2019

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O AUDIOVISUAL PARAIBANO: Uma proposta de cartografia espacial,

social e midiática

Texto apresentado para a obtenção do título de Doutor em Estudos da Mídia, no Curso de Pós-Graduação em Estudos da Mídia (PPGEM), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Orientadora: Profª. Drª. Maria Angela Pavan

NATAL 2018

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Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI

Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Central Zila Mamede Canuto, Kleyton Jorge.

O audiovisual paraibano: Uma proposta de cartografia espacial, social e midiática / Kleyton Jorge Canuto. - 2020. 220 f.: il.

Tese (doutorado) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Ciências Humanas Letras e Artes, Programa de Pós-Graduação em Estudos da Mídia, Natal, RN, 2020.

Orientador: Maria Angela Pavan.

1. Cinema - Tese. 2. Audiovisual paraibano - Tese. 3. Cartografia - Tese. I. Pavan, Maria Angela. II. Título. RN/UF/BCZM CDU 791.43(815.6)

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O AUDIOVISUAL PARAIBANO: UMA PROPOSTA DE CARTOGRAFIA ESPACIAL, SOCIAL E MIDIÁTICA

Texto apresentado para a obtenção do título de Doutor em Estudos da Mídia, no Curso de Pós-Graduação em Estudos da Mídia (PPGEM), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Orientadora: Maria Angela Pavan

BANCA EXAMINADORA

Aprovado em 07 de novembro de 2019.

____________________________________________________ Dra. Maria Angela Pavan (UFRN – Orientadora)

____________________________________________________ Dr. Juciano de Sousa Lacerda (UFRN – Interno)

____________________________________________________ Dra. Maria do Socorro Furtado Veloso (UFRN – Interno)

_____________________________________________________ Dr. Bertrand de Souza Lira (UFPB – Externo)

_______________________________________________________ Dr. Antônio Roberto Faustino da Costa (UEPB/PPgFP – Externo)

NATAL 2019

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A todos os bravos guerrilheiros do audiovisual paraibano. A todos aqueles que um dia empunharam uma câmera para dar voz e registrar as belezas, as riquezas culturais, os conflitos, os dramas, as injustiças, os lugares e a cultura de uma gente tão especial.

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Ao meu filho José Henrique, vida da minha vida, que a cada me enche de orgulho e me ensina lutar por futuro melhor. Meu maior professor.

A minha querida esposa Renata Soares, por ter encarado esse desafio junto comigo, tendo paciência e afeto, me motivando e fazendo com que sempre enxergasse o melhor de mim, mesmo em momentos de muita dificuldade. Eu não estaria aqui se não fosse por ela. Amo você, galega.

Aos meus pais, em especial minha mãe, Maria de Fátima, que desde cedo me ensinou que o caminho da educação é o melhor caminho. Aos meus cinco irmãos por acreditar e me apoiar todo esse tempo, devo muito a cada um ao me tornar o primeiro doutor desta casa e vocês foram essenciais neste processo.

A minha orientadora Maria Angela Pavan, por tudo que resultou a minha caminhada neste doutorado. Obrigado pelos ensinamentos, pela paciência e por tamanha generosidade nos momentos mais conturbados e difíceis dessa minha trajetória.

Aos professores e professoras do PPGEM/UFRN, pelos ensinamentos, conversas e todas as colaborações durante essa jornada.

A Iano Flávio, por ser um amigo verdadeiro durante esse tempo todo, por me abrigar em Natal, oferecendo toda uma estrutura que me permitiu seguir com este trabalho.

Aos meus amigos- irmãos Raphael de Souza Cruz, Breno Vilela e Pablo Giorgio, por toda amizade e companheirismo de mais de 15 anos, saindo de Campina Grande para diversas paragens, mas sem perder o vínculo, o afeto e a camaradagem, sendo suporte e ajuda não só nas questões acadêmicas, como pessoais.

Agradecer a todos os meus amigos do Rio Grande do Norte e da Paraíba que acompanharam todo esse trajeto de idas e vindas, me incentivando e me acolhendo.

Deixar meu profundo agradecimento a todas as pessoas que fazem parte do Movimento Audiovisual Paraibano, em especial meus eternos companheiros do Moinho de Cinema da Paraíba. Além de Torquato Joel, João Carlos Beltrão, Virgínia Gualberto, Carine Fiúza, Kennel Rógis Paulino, João Paulo, Sandro França, Cristhine Lucena, Ely

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na confecção desse documento que espero que possa nos ajudar na nossa luta para fazer um audiovisual mais paraibano e voltado para os paraibanos.

Aos professores Hipólito Lucena e Lúcio Vilar, por cederem dados para esta tese sobre os principais eventos do audiovisual paraibano, além da solicitude no fornecimento de informações.

A Stellio Mendes e sua família, sempre solícitos e afetuosos, me enchendo de boas palavras de motivação e por sempre acreditarem no meu melhor.

A Erik Medeiros, meu parceiro na Bembe Filmes, e que me ajudou muito para confeccionar os mapas que estão nesta tese, ajudando a refletir o quão vasto e potente é o nosso cinema. Sua gentileza e camaradagem não será esquecida jamais.

A todas as boas energias do universo, que me enche de esperança e coragem para seguir nesta jornada terrena.

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quantitativos e qualitativos. Quando falamos de cartografar é alargar o que se entende por mapeamento da produção audiovisual da Paraíba. Mapear seria uma contagem e mostrar o que é relevante no território estudado. Nesta pesquisa faremos um registro documental descritivo de todas as ações dentro do território mapeado. Vamos mostrar os aspectos sociais, as influências dos grupos e pontos de contato entre os produtores de audiovisual. O que eles abordam em suas produções, o que aparece nas imagens captadas (as possibilidades das mudanças de paisagem nas produções). A pesquisa analisará o contexto macro e dentro de cada território produtivo buscará os gradientes motivacionais da produção audiovisual. Isso gerará um mapa movente e relevante que orientará as políticas públicas e os futuros produtores audiovisuais da Paraíba e nordeste. Para isso, temos como objetivos: 1) refletir sobre o papel do audiovisual na cidadania comunicativa e cultural; 2) analisar o histórico das políticas públicas municipais, estadual e federal voltadas para o audiovisual no Estado da Paraíba. Vamos construir um mapa da cadeia produtiva; bem como enxergar os processos de midiatização de grupos e entidades da sociedade civil a partir da produção audiovisual. O caminho será a partir da transmetodologia, com aproximações entre a cartografia e a etnografia através da técnica de observação-participante. A pesquisa foi desenvolvida predominantemente a partir da leitura de Jesús Martín-Berbero (2001; 2004; 2014), Milton Santos (2006; 2013), Gilberto Gimenez (1999) Alberto Efendy Maldonado (2011; 2012), Graeme Turner (1989), Fernando Trevas Falcone e Lara Amorim (2013) e Wills Leal (2007a; 2007b). Busca-se aqui um distanciamento da perspectiva da produção audiovisual enquanto indústria cultural de modelo hegemônico de entretenimento. Colocamos foco nas trocas e parcerias na construção de políticas públicas e ações dentro dos festivais para ampliação da produção audiovisual na Paraíba.

Palavras-chave

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This research develops a cartography of the audiovisual scene in the State of Paraíba, Brazil, in its quantitative and qualitative aspects. When we talk about mapping, it is broadening what is meant by mapping the audiovisual production of Paraíba. Mapping will show what is relevant in the territory studied. In this research we will make a descriptive documentary record of all the actions within the mapped territory. We will show the social aspects, the influences of the groups and points of contact between audiovisual producers. What they address in their productions, what appears in captured images (the possibilities of landscape changes in productions). The research will analyze the macro context and within each productive territory will seek the motivational gradients of audiovisual production. This will generate a moving and relevant map that will guide the public policies and the future audiovisual producers of Paraíba and Northeast of Brazil. For this purpose, we have as objectives: 1) to reflect on the role of audiovisual in communicative and cultural citizenship; 2) analyze the history of the municipal, state and federal public policies focused on the audiovisual in the State of Paraíba. We will build a map of the production chain; as well as constuct a scenery of the processes of mediatization of groups and entities of civil society from audiovisual production. The methodological path comes from the transmetology, with approximations between the cartography and the ethnography, through the technique of participant observation. The research was developed predominantly from the reading of Jesus Martín-Barbero (2001; 2004; 2014), Milton Santos (2006; 2013), Gilberto Gimenéz (1999), Alberto Efendy Maldonado (2011; 2012), Graeme Turner (1989), Fernando Trevas Falcone and Lara Amorim (2013) and Wills Leal (2007a; 2007b). It seeks a distance from the perspective of audiovisual production as a cultural industry of hegemonic model of entertainment. We focus on the exchanges and partnerships in the construction of public policies and actions within the festivals to expand audiovisual production in Paraíba.

Keywords

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ...13

METODOLOGIA ...25

Capítulo 1 – Cenário paraibano e o Cinema enquanto prática social e cidadania ...32

1.1 Contexto e historicidade do audiovisual paraibano ...32

1.2 O Cinema para além da indústria e da arte ...50

1.3 Políticas culturais no campo do audiovisual na Paraíba ...55

Capítulo 2 – Dimensão Territorial: mapas de áreas do audiovisual paraibano ...79

2.1 Sobre o espaço, paisagem, território e o lugar...79

2.2 O ordenamento do audiovisual paraibano no território ...88

Capítulo 3: Dimensão Social e cidadã ...154

3.1 A cidadania e suas múltiplas faces: Cidadania Cultural e Comunicativa ...154

3.2. Cidadania política e comunicativa do audiovisual paraibano ...161

CONSIDERAÇÕES FINAIS ...177

REFERÊNCIAS ...186

APENDICE I ...193

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Figura 1 - Frame do filme Sob o Céu Nordestino, de Walfredo Rodriguez 33

Figura 2 - Mapa Geral da contemplados do projeto Revelando Brasis na Paraíba 67

Figura 3 - Mapa Geopolítico do Estado da Paraíba 83

Figura 4 - Mapa Geral das Mediações 87

Figura 5 - Mapa de atividades do ViAção Paraíba 103

Figura 6 - Mapa da abrangência do Paraíba Cine Senhor 109

Figura 7 - Cidades abrangidas pelo Comunicurtas Itinerante 113

Figura 8 - Ações do Fest Aruanda 118

Figura 9 - Cartazes do Fest Aruandinha e do Aruandando no Campus 119

Figura 10 - Banner digital com parte da programação do Cine Congo 126

Figura 11 - Registro Das atividades de formação no Festival Curta Coremas 128

Figura 12 – Exibição de Filmes no Festival Festissauro 129

Figura 13 - Mapa Geral dos Festivais na Paraíba 136

Figura 14 - Mapa de Festivais Ativos de cinema na Paraíba 137

Figura 15 - Sessão de cinema da Mostra Cine Sítio 141

Figura 16 - Mapa das mostras regulares de cinema na Paraíba 150

Figura 17 - Fluxo das ações do Audiovisual Paraibano 156

Figura 18 - Logotipo do Movimento pelo Cinema Paraibano 164

Figura 19 - Chamada de reunião do Fórum do Audiovisual Paraibano 166

Figura 20 - Mapa da Rede de Articulação da comunidade do Audiovisual Paraibano 171 Figura 21 – Mediações Barberianas no Audiovisual Paraibano 178

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Tabela 1 - Produção do ciclo do super-8 na Paraíba 36

Tabela 2 - Festivais de Cinema na Paraíba ao longo de século XXI 47

Tabela 3 - Histórico de fomento público no setor audiovisual 75

Tabela 4 - Tabela do crescimento dos festivais paraibanos (2005-2014) 116

Tabela 5 - Calendário de realização de festivais da Paraíba 138

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INTRODUÇÃO

Propor uma cartografia de um processo midiático é um desafio que ultrapassa a simples premissa do mapeamento territorial e a mera quantificação ilustrativa de dados e descrição de um segmento cultural que em seu cerne pode se configurar tanto como uma indústria, quanto uma arte, mas sobretudo como meio de comunicação. É construir um percurso de idas e vindas, formando um tecido complexo onde a abordagem contextual tanto para o cinema (TURNER, 1989) quanto para a comunicação (MALDONADO, 2011) se façam balizadoras, unificando processos de descrição e análise que contemplem toda a cadeia produtiva do segmento audiovisual.

Essa é a nossa proposta sobre o audiovisual paraibano, a de entender como elementos distintos possam formular uma cadeia produtiva dotada de um sócio-pertencimento e com uma identidade cultural, estética e política, no qual diversos atores contribuem na constituição desse território e espaço simbólico, que assim como o espaço geográfico, emerge como seus componentes físicos, políticos, abstratos, imateriais e institucionais, e à medida em que as etapas vão sendo desenhadas, temos vários mapas, com variados rostos, e o resultado se faz presente nas obras produzidas e na sua pluralidade.

Quando assistimos um filme, pensamos no processo estético, nas motivações do diretor, nas ideias de roteiro, no contexto político em que está se inserindo a obra, e sobretudo a imersão que o processo diegético da narrativa fílmica nos propõe. No entanto, para além das regras e particularidades estéticas, o audiovisual carrega em si um componente político, gerado desde do posicionamento ideológico (CANEVACCI, 1984, p. 22-23) e filosófico do diretor até formas de articulação do segmento em determinado contexto sócio-político, não deixando de observar as efetivações de políticas culturais de incentivo à cadeia produtiva do audiovisual.

No estado da Paraíba, 19ª economia do país1, o cinema e a narrativa em vídeo se tornaram práticas crescentes nos últimos 15 anos. Respaldado por um histórico de ‘ciclos’ de produção datados dos anos 60, 70, 80 e 90 (LEAL, 2010), aliado a um beneficiamento através de medidas econômicas e avanços tecnológicos no setor audiovisual como a

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difusão dos fundos de incentivo à cultura e o acesso a tecnologias do vídeo, o fazer audiovisual do estado dos anos 2000 em diante acabou por gerar uma safra de novos realizadores de cinema e vídeo, numa multiplicidade de ações e no que tange aos seus formatos e narrativas, desencadeadas a partir de práticas motivadas por aproximação, (des)organização e articulação de toda cadeia produtiva do setor no estado.

Essa crescente produtividade alcançou níveis para além do quantitativo, emanando uma produção descentralizada do ponto de vista espacial, reterritorializando, segundo o conceito de Martín-Barbero (2006), o mapa geográfico do fazer audiovisual na Paraíba, antes relegado à capital João Pessoa. Através de ações transversais encampadas tanto por agentes independentes como por editais e fundos de incentivos provindos do Estado e outras instituições públicas, possibilitou-se uma produção que remete a olhares de dentro para fora, advindos de realizadores interioranos que se fizeram valer de uma cidadania cultural e comunicativa (CORTINA, 2005; MALDONADO, 2011) para apresentar seu ponto de vista sobre sua localidade bem como o seu entorno.

Em um movimento destituído de paternalismos ou manifestos de ruptura, estas ações perpassam por iniciativas nas esferas de formação, produção, fruição, difusão e circulação inerentes à cadeia produtiva do audiovisual, mediadas por cursos de formação técnica e criativa, produção difundida nas quatro mesorregiões do estado (Zona da Mata, Agreste, Borborema/Cariri e Sertão). Nesse fluxo, o crescimento de festivais e mostras de cinema, atividade cineclubista, articulação da categoria por maiores investimentos públicos no setor, aumento de verbas públicas para o segmento no estado, além de uma necessidade constante de ativação das políticas públicas voltadas para a realização.

Todas estas ações preconizam um avanço no consumo do audiovisual e uma série de desdobramentos do ponto de vista qualitativo e estético, bem como redimensiona as práticas sociais através da fruição da cultura, possibilitando o acesso da população das localidades onde ocorrem atividades ligadas ao audiovisual e ao cinema.

Problemática e objetivos

Inicialmente nossa intenção é aprofundar um panorama iniciado em nossa pesquisa de mestrado intitulada “Luz, câmera, redes e ação!: Os usos e apropriações das redes sociais pelo audiovisual paraibano e suas práticas sociais cidadãs”, onde delineamos

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um panorama de festivais, mostras e cineclubes no estado e analisamos como estas entidades e indivíduos se articulam por meio das redes sociais.

A partir do mestrado, sentimos a necessidade de avançar nos estudos, na tentativa de responder questões que emergiram com a pesquisa, dentre elas, a de como funciona a cadeia produtiva dentro do audiovisual paraibano na sua totalidade, evidenciando tanto o processo de pertencimento geográfico das representações e sujeitos comunicantes, quanto os pressupostos imagéticos, de gênero, estéticos e narrativos das obras.

Destarte, considerando o momento em que o audiovisual brasileiro se dissemina de maneira plural, em variáveis de forma e sentido, se faz importante traçar um desenho produtivo do audiovisual na Paraíba, identificando os caminhos percorridos pelos seus principais agentes e entidades nesse contexto, perceber as tessituras que cartografam e desvelam este cenário contemporâneo e suas ligações com a conjuntura audiovisual brasileira, mantendo o ponto de vista periférico, sob um olhar equidistantes dos principais centros produtores, porém, sem negligenciá-los. Afinal, ao longo de nossa pesquisa, a problemática se desenhou à medida em que os estudos teóricos acerca da matriz nacional avançavam e uma vez que as observações iniciais foram feitas, nos concentramos na instância da produção dentro do audiovisual paraibano e seu contexto social, político e cultural.

Desta forma, nossa problemática está apontada para as seguintes questões: • Como a cadeia produtiva do audiovisual paraibano se compõe espacialmente,

socialmente e midiaticamente?

• Quem são os atores sociais da produção do audiovisual paraibano e como estão distribuídos territorialmente?

• De que forma as políticas públicas culturais e as novas tecnologias interferem na cadeia produtiva do audiovisual paraibano?

• Como está organizada a cadeia produtiva do audiovisual paraibano? Está alinhada com as cidadanias cultural e comunicativa?

Estas perguntas de investigação científica vão nos ajudar de maneira gradativa no percurso cartográfico, à medida que em vamos respondendo a primeira, o esquema de base para elucidar a segunda questão estará pronto, e assim sucessivamente, deixando claro que a pergunta final - acerca das cidadanias cultural e comunicativa, estará

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transversa ao longo da tese e entrelaçada com a primeira pergunta, que se desdobrará enquanto objetivo geral. Em síntese, temos por Objetivo Geral: Realizar uma cartografia do cenário audiovisual paraibano em seus aspectos quantitativos e qualitativos do ponto de vista espacial, social e midiático, e a partir do desenho produtivo, compreender suas práticas de produção.

Em um sentido mais pontual para compor esta cartografia, a tese tem por Objetivos Específicos:

• Analisar de maneira descritiva o histórico das políticas públicas municipais, estadual e federal voltadas para o audiovisual no Estado da Paraíba, no que tange de sua influência na formação dos espaços de produção e desenvolvimento de toda cadeia produtiva nos últimos quinze anos (Capítulo 1);

• Mapear as ações e elementos que compõem a cadeia produtiva do audiovisual paraibano nas suas lógicas de produção, exibição/circulação e formação e como elas se distribuem no território paraibano (Capítulo 2);

• Investigar as práticas do audiovisual paraibano e seus possíveis aspectos constituintes de uma cidadania comunicativa e cultural (Capítulo 3);

• Analisar como as tecnologias digitais influenciaram e influenciam na prática audiovisual, tanto em suas lógicas de produção quanto na sua disseminação (Capítulo 3).

Tais objetivos específicos são perceptíveis nos capítulos da tese, sendo de suma importância na constituição de mapas e tabelas, compondo um caminho estruturante para a nossa cartografia, sendo eles parte de um processo de levantamento de dados, percursos históricos, aproximações teóricas e conceituais que permitam envolver o dispositivo audiovisual dentro de uma lógica comunicacional, indo mais além do seu status artístico e de sua condição enquanto indústria do entretenimento.

Hipóteses

Levando-se em conta o que foi estudado, acreditamos que as políticas culturais empreendidas tanto pela sociedade civil quanto pela iniciativa pública influenciam diretamente na escala de produção e na cadeia produtiva do audiovisual como um todo. Nosso estudo será alicerçado em pesquisa de campo e em análises descritivas coletadas. Com efeito, ainda postulamos as seguintes hipóteses:

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• Ao fazer um mapeamento dos festivais, mostras e cineclubes, foi observado diferentes atores que pautam seu trabalho motivados por projetos individuais e/ou coletivos distintos que se convergem em alguns pontos;

• As políticas públicas é outro determinante para a concretização da cadeia produtiva e irá influenciar na forma de se fazer cinema no estado;

• Ao observar diferentes modos de produção no audiovisual paraibano, apenas a formação acadêmica não constitui como o único determinante para a efetivação do processo produtivo, nem do processo estético e de formatos narrativos.

Podemos apontar como outros condicionantes elementos sociais, culturais e políticos que acabam por influenciar as produções, seja nas temáticas abordadas ou na captação de recursos a serem utilizados para a realização.

A trajetória desta investigação parte do entendimento de que a cartografia é um método válido para compreender as lógicas de produção, os processos de mobilização e construção de uma cadeia produtiva complexa como o a audiovisual, pois nela se permite combinações e aproximações com outros caminhos de investigação para elaborar um desenho panorâmico sob diferentes perspectivas. Perceber, descrever e conjugar atores que empregam suas forças num segmento cultural, partindo de motivações diversas, requer um uso metodológico ampliado, saindo uma lógica uníssona, e adentrando em métricas, caminhos em que possa perceber algo mais do que meros agrupamentos de práticas dentro de um espaço territorial.

Justificativa

O cinema paraibano já produziu obras e profissionais com contribuições significativas para o cinema brasileiro, principalmente no campo do documentário, a exemplo de Walfredo Rodriguez, Linduarte Noronha, Vladmir Carvalho, Walter Carvalho, Manfredo Caldas e João Ramiro Mello. Porém, o estado nunca se firmou como grande produtor e disseminador de audiovisual no cenário nacional, embora mantenha sua importância em nível regional.

Acredito que estudar este estado periférico no mapa do cinema e vídeo brasileiros, estaremos ampliando o campo de estudos sobre o audiovisual, podendo colaborar numa compreensão enraizada da forma de funcionamento das políticas de audiovisual e de

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como se gera esta cadeia produtiva, utilizando como objeto um estado da nação que não fileira nas grandes economias do país, entretanto possui uma produção sui generis, rica em diversidade temática, narrativa, técnica e que possui um penetrabilidade notória no sentido territorial, sendo bem distribuída e que contempla suas quatro mesorregiões (Zona da Mata, Agreste, Borborema e Sertão).

A partir do mapeamento, no qual percorremos o estado afim de identificar as atividades de exibição aliadas às ações trabalhadas em rede (CANUTO, 2014), constatamos uma heterogeneidade na composição dos sujeitos atuantes, e que tal diversidade de agentes necessitava de um estudo mais aprofundado, onde poderia ser identificadas particularidades não somente na esfera da articulação e promoção do cinema, mas também onde tais peculiaridades acabam por resultar nas obras, uma vez que muitos dos articuladores e organizadores das ações também são realizadores.

Esta visão periférica, fora dos modelos burocráticos e hegemônicos, vasta e heterogênea, possibilita não somente enxergar formas peculiares e aparentemente distantes de se fazer cinema, mas entender o cinema em sua essência enquanto arte, filosofia, ofício e afetividade. Temos como exemplos de investigações na área, os estudos do Marcelo Ikeda (Ceará), da Gabriela Saldanha (Pernambuco), Bernadette Lyra (Espírito Santo) e atualmente Diana Coelho (Rio Grande do Norte), só para constar os estados circunvizinhos da Paraíba, mas que apontam para uma tendência da academia de compreender melhor o audiovisual brasileiro em suas variações e condicionantes operativas, o que indica que logo teremos um mosaico mais aprofundado da realidade do cinema nordestino e brasileiro.

Na tentativa de esboçar um mapa, é natural que apontemos caminhos e que um território específico seja demarcado. No entanto, os elementos subjetivos, intangíveis, que são só compreendidos através da experiência e do relato, muitas vezes são inexplorados ou subavaliados. Esta proposta é uma tentativa de sistematizar e relacionar as ações práticas do indivíduos e grupos que compõem o audiovisual paraibano e as políticas culturais para o segmento, por acharmos importante investigar se existe uma relação entre tais ações e as políticas culturais no âmbito federal, estadual e municipal, ligadas ou não ao Sistema Nacional de Cultura (SNC), criado recentemente, e se estas ações garantem uma diversidade cultural, característica da riqueza da cultura brasileira.

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O audiovisual é uma das artes que mais nos leva à imersão, à sensação de pertencimento, à inquietação de compreender a narrativa e nos colocar dentro dela. O impulso do espectador pode emanar estímulos de contar nossas histórias, evocar narrativas tradicionais, registrar sob o nosso olhar o mundo do qual estamos inseridos. A partir do momento em que nos alçam da condição de espectador para a condição de produtor, isto se configura como um dispositivo que desvela identidades, aponta reflexos das relações de poder, subjetividades e socialidades.

A produção audiovisual enquanto linguagem dialoga com o ambiente ao redor e exprime um dado contexto social, mesmo que de forma encenada (VANOYE, 1994). Porém, ele não se faz em si mesmo, não está isolado, sendo um componente carregado de projetos individuais e coletivos, influenciado pelas ideologias, contexto sociais, políticos e culturais que o permeia. Pautado em Walter Benjamin, John Downing (2002) relaciona essa experiência que o cinema nos causa como um momento em que “as pessoas podem se ver inesperadamente questionadas, desafiadas a refletir profundamente sobre as forças históricas que moldaram a si próprias e a conjuntura política” (DOWNING, 2002, p. 102). Essa é uma questão que nos motiva. Se o cinema acontece, seja através da projeção, seja no feitio da produção, é porque há estímulos, condicionantes que levam a tal destino. Cabe a nós enquanto pesquisadores investigarmos que impulsos levaram a construção de um cenário em que se encontra esse cinema que podemos considerar contra-hegemônico, distante das escalas industriais e regras de mercado e mais próximo das relações de afeto e gerador de identidade coletiva de um grupo social.

Considero esta temática relevante, uma vez que nos permite enxergar de perto as operacionalidades do sistema da cadeia produtiva de um determinado estado da federação à margem do modelo industrial de cinema, assim como é de igual relevância observar suas relações com a subjetividade, com a identidade e de como uma efervescência cultural composta de suas práticas sociais é capaz de gerar uma representação social multiforme partindo de um olhar endógeno sem se limitar as suas divisas territoriais.

Seguindo essa linha de pensamento, é válido ressaltar os caminhos teóricos que estão no desenvolvimento desta tese, uma vez que ao combinar cinema, cartografia e prática social vinculada à cidadania, temos escolhas teóricas que devem ser feitas com cuidado, sobretudo respeitando o contexto regional, uma vez que tal contexto é balizador

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das discussões e fio da mediação entre os atores sociais, o poder público e a sociedade como um todo.

Sendo assim, iniciei o estado da arte dialogando com o aporte teórico de Cinema Enquanto Prática Social (1989), no qual a figura do australiano Graeme Turner nos presenteia com uma obrade destaque sobre o cinema para além da indústria e da arte. Das discussões empreendidas por Turner, percebi a necessidade de demarcar bem o campo de pesquisa e posicioná-la em aproximação com o campo da cidadania dentro do cinema como desdobramento da prática social partida do eixo da produção.

A obra de Turner (1989) alinha o cinema na perspectiva da cultura, e isto nos remete a um outro campo, onde autores como Jesús Martin-Barbeiro (2014), Adela Cortina (2005), Marilena Chauí (1995), auxiliarão com seus escritos para a composição dos capítulos epistemológicos e analíticos de forma transversal.

O pensamento de Martín-Barbero (2004; 2014) permite fazer uma conexão entre a cultura e a relação de espaço, temporalidade e território, onde as contribuições de Milton Santos (2006; 2013) e Gilberto Gimenéz (1999) serão de suma importância. As contribuições da portuguesa Adela Cortina (2005) e da brasileira Marilena Chauí (1995) se alinharão ao pensamento da pensadora argentina Maria Cristina Mata (2010) e dos escritos de Thays Teixira (2019) na formulação dos conceitos de cidadania cultural e comunicativa, esta última tendo por base as escrituras do equatoriano Efendy Maldonado (2011; 2012).

Tais debates, terão como campo prático as políticas culturais no setor do audiovisual em nível nacional e local. Nestas áreas, as contribuições de Teixeira Coelho (1997), Alexandre Barbalho (2005) e as diretrizes do MinC (Ministério da Cultura) e Ancine (Agência Nacional de Cinema) serão de fundamental importância para o diálogo e posteriormente nas análises do contexto audiovisual paraibano.

Este mesmo contexto audiovisual paraibano será discutido em dois momentos: o primeiro numa perspectiva histórica breve, dando ênfase aos anos recentes, nos quais os estudos de Wills Leal (2007a; 2007b), Lara Amorim e Fernando Trevas (2013), Virginia Oliveira Silva (2016), Lúcio Vilar (2015) serão válidos para o embasamento teórico. O segundo momento irá aproximar essa caminhada histórica recente às inciativas de políticas no setor e organização política do segmento, em que será pertinente à leitura dos trabalhos acadêmico de jovens pesquisadores como Cristhine Rolim (2015), Felipe Gama

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Brito (2013) e Mariana Fechine (2015), além da minha dissertação de mestrado sobre o tema.

Como menciono anteriormente, esta proposta de pesquisa visa dar continuidade a nossa pesquisa de mestrado intitulada “Luz, câmera, redes e ação! : Os usos e apropriações das redes sociais pelo audiovisual paraibano e suas práticas sociais cidadãs”, desenvolvida entre março de 2012 e abril de 2014 na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em que se mostrou bastante frutífera a esboçar inicialmente um panorama sobre o cinema na Paraíba, do ponto de vista da articulação do segmento por meio das redes sociais e que pode denotar sua dimensão cidadã através de suas ações e práticas sociais.

O projeto se enquadra nas linhas do Programa de Pós-graduação em Estudos da Mídia da UFRN, devido ao seu recorte de estudo, uma vez que ao investigar o audiovisual enquanto elemento promotor de cidadania, reconheço a potencialidade desta comunicação midiática através dos seus atores, produtos, processos, bem como suas estratégias e táticas na construção de uma cidadania comunicativa.

O audiovisual possui um alcance de valor na sociedade contemporânea, e as práticas do cinema, muito mais do que meros produtos, se permitem a serem instrumentos de identidade e pertencimento de grupos sociais não somente para os realizadores de audiovisual, como também grupos sociais abordados nas temáticas dessa produção, dialogando diretamente com o público expectador. Nesse aspecto, ao considerarmos o conteúdo das obras e seus discursos, há um reconhecimento de um sentido produzido caracterizado tanto na sua narrativa, quanto nos componentes estéticos e suas formas de produção que irão interferir no resulto final e nas suas variadas formas de recepção.

Ao traçar uma cartografia transversal, abordando aspectos geográficos, sociais, políticos, econômicos, estéticos e narrativos, contemplamos os estudos propostos pelo programa, onde a mídia se configura através de sua plataforma técnica e discursiva como elemento dotado de práticas sociais por aqueles que tanto fazem uso ativo quanto aos que consomem seus produtos e discursos nos diferentes espaços de comunicação, produzindo sentido e redimensionando sua cultura. Em resumo, entendemos que práticas sociais engendram produções de sentidos e transformam espaços geográficos em espaços simbólicos que, por sua vez, dotados de elementos como a solidariedade, afetos, resistências e coletividade, proporcionam novas práticas sociais, criando um contínuo movimento de ressignificação da cultura de um território.

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O primeiro capítulo, Cinema enquanto prática social na Paraíba, discute o conceito de cinema sob o ponto de vista da prática social partindo do contexto e da historicidade da prática audiovisual na Paraíba, a partir de intersecções com os principais escritos da historiografia do cinema no estado da Paraíba. São identificados os ciclos de produção e políticas públicas de incentivo ao audiovisual ao longo dos anos antecessores desta década. A importância desse posicionamento histórico contribui para entendermos que o atual momento do cinema na Paraíba não é dado e sim desdobrado de movimentos anteriores. Essa abordagem auxilia na identificação do problema de pesquisa e na formulação dos objetivos propostos e a partir dela iremos indicar os procedimentos metodológicos e os movimentos de escrita da tese.

Este primeiro capítulo ainda terá função de trazer a discussão epistemológica empreendida no campo do cinema e o aporte teórico deste enquanto prática social, bem como entender como as políticas culturais podem influenciar na composição de uma cadeia produtiva do audiovisual (fomento, produção, exibição e circulação). Partindo das discussões elaboradas por Graeme Turner, seguiremos em direção ao cinema e a cidadania no campo da produção. Serão abordados os conceitos de cinema enquanto prática social, de Graeme Turner; cultura do ponto de vista antropológico, de Gilberto Giménez; multiculturalismo policêntrico e terceiro cinema, de Robert Stam.

É importante ressaltar que neste capítulo, identificaremos no principal aporte teórico no campo do cinema em aproximação com a cultura, fazendo a junção com os eixos da comunicação e cidadania (que serão retornados dentro do recorte do objeto no capítulo 3), além das discussões iniciais sobre o espaço (que terão maior ênfase no capítulo seguinte).

Eixos temáticos presentes neles:

- Contexto e historicidade do audiovisual paraibano - Cinema para além da indústria e arte

- Cinema, prática social e políticas públicas

Principais autores a serem trabalhados neste capítulo: Fernando Trevas Falcone e Lara Amorim, Pedro Nunes, Wills Leal, Felipe Gama, Graeme Turner, Robert Stam,

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Anita Simis, Lia Bahia, Melina Isar Merson, Marcelo Ikeda e Dellani Lima, Alexandre Barbalho e Teixeira Coelho.

O Capítulo 2, Dimensão espacial: Mapas, paisagens, espaços e territórios, segue por uma reflexão teórico-epistemológica, de onde partimos para o aprofundamento nas relações com o espaço e o cinema como elemento constituidor e construtor de espaços e seus desdobramentos em mapas, territórios e paisagens. É o capítulo em que o diálogo entre espaço, cultura e comunicação geram as cartografias. Serão trabalhados os conceitos de espaço, paisagem e técnica, de Milton Santos; de espaço comunicacional, território, (des)territórialização e re-territórios, Martín-Barbero, Rogério Haesbaert e Gilberto Giménez; espaço local e espaço virtual, de Serres; e finalmente as ideias de cartografias e mapas do cinema compreendidas nas obras de Dudley Andrew e Alfredo Suppia. Entendendo a relação entre o espaço, a cultura e a comunicação, poderemos visualizar inicialmente um mapa geográfico espacial do fazer audiovisual paraibano e sua cadeia produtiva, e por meio dos desdobramentos deste mapa aprofundarmos no quesito qualitativo direcionado às dimensões sociais/cidadã e midiática.

Principais autores a serem trabalhados neste capítulo: Gilberto Giménez, Milton Santos, Jesús Martín-Barbero, Dudley Andrew, Rogério Heasbaert.

O Capítulo 3: Dimensão Social e cidadã, pretende-se relacionar a cidadania cultural e comunicativa no contexto atual do cinema paraibano, Inicialmente trabalharemos os conceitos de: cidadania comunicativa do Efendy Maldonado, Thays Teixeira e Maria Cristina Mata; cidadania cultural sob o ponto de vista da Adela Cortina e da Marta Elena Bravo , que também nos servirá de aporte para as discussões sobre políticas culturais, em que Alexandre Barbalho e Teixeira Coelho serão fundamentais; Em seguida, Marilena Chauí contribuirá sobre a cultura e sua dimensão cidadã, fazendo uma interligação entre os conceitos iniciais e deixando-os bastante ‘amarrados’ com a nossas proposta.

Encerrando o capítulo, aproximaremos este diálogo com o contexto do audiovisual paraibano e suas experiências iniciais no campo prático da cidadania no audiovisual. Os textos relatados por Torquato Joel e Virginia Oliveira serão fundamentais para este processo.

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- Cidadania Cultural e comunicativa, formação e composição da cadeia produtiva, políticas culturais de fomento e coletivos audiovisuais;

- O elemento da cidadania/cidadania cultural e comunicativa

Principais Autores: Efendy Maldonado, Marilena Chauí, Adela Cortina, Marta Elena Bravo, Maria Cristina Mata, Torquato Joel e Virgínia Oliveira

Este roteiro de capítulos nos permite debruçarmos de modo panorâmico acerca da complexidade das ações que compõem o audiovisual paraibano, envolvendo elementos que, mesmo sendo analisados em separado nos seus respectivos capítulos, se entrelaçam e desvelam uma conjuntura que perpassa pela historicidade do cinema no estado, possui ligações com a cultura política e economia da cultura em nível nacional e local, acompanha as evoluções e mudanças relativas às tecnicidades, e revela seus aspectos comunicativos, nos seus modos de organização e produção de espaços simbólicos, que por sua vez estão alinhados com as perspectivas das cidadanias.

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METODOLOGIA

Este momento preconiza sobre os processos e organização metodológica realizados nesta investigação sobre audiovisual e sua localização no espaço sociopolítico e nos remete à busca de aproximações entre os campos das ciências sociais, da comunicação e da geografia. A metodologia proposta neste capítulo propõe um diálogo entre os três campos de conhecimento alinhados na perspectiva da cartografia e da cidadania empreendida nas ciências sociais aplicadas.

Sabemos que a pesquisa em comunicação necessita muito mais do que o empirismo tradicional para se alcançar resultados que contribuam para o entendimento do estudo e o seu lugar na ordem social apontada pelo recorte (MALDONADO, 2011). Para isso, é importante considerarmos as trilhas históricas e a contextualização do lugar do objeto para que a problemática de pesquisa se configure viável em suas etapas empíricas e teóricas.

Entende-se por metodologia como sendo uma junção de técnicas e combinações de procedimentos e ferramentas de aplicação, que seguem uma orientação da investigação a fim de elucidar a problemática de pesquisa. Soma-se a isto o emprego de análise dos resultados obtidos, respeitando as complexidades do objeto investigado. Em nosso caso, compreender como está disposta a cadeia produtiva do audiovisual paraibano na atualidade, requer, a princípio, uma imersão em sua historicidade onde se faz necessária uma contextualização de valor sócio-histórico (MALDONADO, 2011) e sua multiplicidade (acadêmica, social, geopolítica, cultural, tecnológica, econômica, etc.), na tentativa de aproximar a dimensão sócio-política dos contextos midiáticos e comunicativo presentes no audiovisual paraibano.

Para isso, a abordagem sobre transmetodologia de Efendy Maldonado (2012) nos dá uma pista na compreensão do método de investigação do nosso objeto. Segundo Maldonado (2012, p. 31), a transmetodologia é uma “vertente epistemológica que afirma a necessidade de confluências e confrontações entre vários métodos [...] Nutre-se de conhecimentos transdisciplinares, na dimensão teórica, e promove estratégias de exploração, experimentação e reformulação metodológica”. Com o nosso intuito de estudar a dimensão cidadã na cultura e na comunicação, encontramos respaldo em Maldonado, para quem a comunicação cidadã “é um campo de luta e criação que deve ser

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assumido mediante a confluência transmetodologica de estratégias, táticas, culturas, que configurem dimensões de conhecimento, liberdade, arte, prazer e energias produtivas” (MALDONADO, 2012, p.29).

Isto denota que o campo de confluência entre cultura, arte e comunicação possui complexidades, e aliado aos movimentos que desempenham ações neste campo, requer conhecer a heterogeneidade (VELHO, 2012) dos indivíduos e seus projetos. Ao estudarmos o Movimento Audiovisual Paraibano – aqui alinhado ao conceito de movimento social de classe profissional (GOHN, 2000), estamos diante de entidades e sujeitos comunicantes (MALDONADO, 2012) que possuem projetos individuais suficientes para se gerar um projeto social coletivo, no entanto não estão abolidos dos conflitos, tensões e embate (VELHO, 2012). São nestes pontos de crises em que a pesquisa ganha um potencial de investigação a mais. Considerando que a descrição de um grupo social e a análise sobre suas possíveis identidades possuem uma magnitude investigativa.

Empiricamente, foram feitas conexões entre os coletivos espalhados pelo estado, as relações entre si e entre o segmento e o poder público através das consequências das políticas de incentivo e os prováveis desdobramentos destas ações. Esta escolha se pauta na condição nata do olhar empírico no campo da comunicação, e seu caráter imprescindível para descrever e compreender de maneira analítica o funcionamento e a organização dos sistemas, estruturas e campos midiáticos do audiovisual paraibano e seus usos sociais, apropriações simbólicas culturais e seu lugar nas esferas micro e macrossociais, sendo estas questões alinhadas e pertinentes para averiguação de um possível alinhamento do audiovisual com o campo da cidadania. Para Maldonado (2011, p. 284), “o empírico, em termos metódicos, compreende o conhecimento adquirido pela prática, o conhecimento sensível baseado na experiência, o conhecimento factual que foi experimentado e não tem necessariamente uma observação controlada”. Seguindo essa lógica:

O empírico na produção midiática exige a realização de atividades de pesquisa que permitam entrar na lógica interna do meio, nas práticas profissionais, nas culturas empresariais e comunicativas, no habitat construído com fins produtivos simbólicos. Centrais de jornalismo, cidades cenográficas, produtoras audiovisuais, agências de publicidade, meios alternativos, indústrias imprensas, redes radiofônicas, produtoras cinematográficas, indústrias e empresas do disco e mídias independentes requerem de pesquisa empírica sistemática, que enriqueça as concepções e as teorizações em comunicação. (MALDONADO, 2011, p. 286)

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Para isso, o passo inicial foi fazer um levantamento bibliográfico acerca do tema, buscando intersecções entre as questões do audiovisual, políticas públicas, cidadania e identidade coletiva. Em seguida pretendemos aproveitar o mapeamento feito em nossa pesquisa anterior e dar a aprofundamento necessário, unindo com o levantamento das ações de políticas do audiovisual e elencando quantitativamente os coletivos e dados estatísticos oficiais.

Posteriormente, fizemos um estudo aprofundado em observação-participante com os coletivos, com o intuito de analisar os elementos gerador de identidades individuais e coletivas, abarcando suas potencialidades e fragilidades, próprios da fragmentação eminente dos grupos sociais, onde podemos também reconhecer limitações provindas da dinâmica dos projetos dos indivíduos inseridos no contexto (VELHO, 2007), uma vez que, segundo Velho:

O projeto é o instrumento básico de negociação com a realidade, com outros atores, indivíduos ou coletivos. Assim ele existe, fundamentalmente, como meio de comunicação, como maneira de expressar, articular interesses, objetivos, sentimentos, aspirações para

o mundo (p. 103).

Desta forma, respeitando a complexidade do fenômeno, entendemos que o audiovisual pode ser ao mesmo tempo o segmento, projeto e meio de comunicação dessa identidade coletiva, o que poderá será melhor compreendido através da pesquisa de campo, pois é válido ressaltar a dinamicidade e a natureza conflituosa da construção das identidades coletivas. Ao criarmos essa aproximação com o objeto, tivemos mais chances de lograr êxito na descrição e detalhamento dessa cartografia social do cinema na Paraíba.

Para tal, lançamos mão de técnicas de coleta em profundidade, como entrevistas com representantes dos coletivos, indivíduos atuantes e membros gestores da inciativa pública, documentação audiovisual dos eventos e ações dos coletivos, análise dos documentos das negociações entre os indivíduos e o poder público e coleta para análise de material audiovisual proveniente das ações dos coletivos e resultados das propostas contempladas em editais. Este percurso segue a uma lógica multifocal na abordagem e observação do fenômeno, tão recorrente nas pesquisas em comunicação, como nos atesta Maldonado:

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Pesquisar um meio requer concebê-lo como um complexo de estruturas, pensá-lo como um campo de produção e contradições e observá-lo no seu funcionamento concreto, buscando sistematizar procedimentos operativos e ideias em raciocínios que incluam experiência, as vivencias da realização diária, as condições de produção e os produtos fabricados nesses processos (MALDONADO, 2011, p.285).

Sendo assim, foram feitas conversas com realizadores que também organizam festivais para fins de coleta de dados, a exemplo de Lúcio Vilar (Fest Aruanda), Hipólito Lucena (Comunicurtas UEPB), Kennel Rógis Paulino (Curta Coremas), Veruza Guedes (Cine Açude Grande) e José Dhiones (Cine Congo) e João Paulo (Cine Paraíso), para compreender o contexto da formação destes eventos, suas características e atividades, além de obter informações acerca da produção do estado, através das listas de filmes paraibanos inscritos nos seus festivais nos últimos dois anos.

Em seguida, coletamos informações sobre os projetos de formação com Hipólito Lucena (Comunicurtas Itinerante), Torquato Joel (ViAção Paraíba e Projeto Jabre) e Ana Barbara Ramos (Semente Cinematográfica), para compreendermos os processos metodologias de abordagem destes projetos, os recursos utilizados na execução das atividades e o histórico de penetração no território estadual.

Também foram feitas entrevistas com membros que atuam na articulação política do audiovisual paraibano, os realizadores João Carlos Beltrão, Ely Marques, Kalyne Almeida, Kennel Rógis, Abraão Matheus, André da Costa Pinto e David Sobel foram procurados para esclarecer informações sobre o contexto histórico da organização da comunidade audiovisual no estado, no qual nos serviu para compreender como funciona as dinâmicas das agendas de trabalho destes grupos, e como o processo de construção de uma cultura cidadã participativa é forjado dentro destas comunidades. Também consultamos uma representante da gestão estadual, a realizadora Cristhine Lucena Rolim, gerente de audiovisual da FUNESC/PB, para tratarmos sobre as ações em nível estadual e as políticas implementadas na área nos últimos quinze anos.

Por fim, participamos de festivais e mostras na Paraíba, nas condições de jurado, curador ou participante, podendo ter uma experiência de observação-participante nos eventos de contato entre a produção paraibana e o público em geral, o que nos possibilitou enxergar como se dá as mediações entre os atores sociais no processo de exibição, nos possibilitando fazer descrições mais fidedignas de como estas atividades são construídas.

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Como em nossa pesquisa de mestrado já havíamos percorrido o estado e seus festivais. Para esta investigação, nos detivermos a frequentar os seguintes eventos: Comunicurtas UEPB (Campina Grande, nos anos de 2016 a 2018), Festival de Cinema de Rua (Remígio, 2018), Fest Araunda (João Pessoa, 2018) e Mostra de Cinema de Sumé (Sumé, 2019).

Como acréscimo aos nossos estudos, o recurso de “vigilância epistemológica” de Guillermo Orozco (2012) pode nos apontar um caminho interessante na delimitação do objeto e ordenamento da pesquisa uma vez que busca “apreender os feitos e as ações dos sujeitos em princípio, visualizando sua rede de significados construídos” (OROZCO, 2012, p.62). Ao elencarmos os sujeitos, os cenários, as temporalidades e os processos, assim como ao apontarmos quais paradigmas metodológicos que contribuíram com nossa pesquisa, observamos com clareza por onde nossa cartografia se propõe construir, quais territórios foram mapeados e produzidos, numa tentativa de esboçar um roteiro. Para nossa pesquisa, está proposto a análise:

• Dos sujeitos: coletivos e organizações do audiovisual paraibano (integrantes da cadeia produtiva); gestores públicos; realizadores/produtores e movimentos sociais que utilizam o audiovisual;

• Dos cenários: espaços de práticas audiovisuais: festivais e mostras, projetos, espaços públicos de exibição.

• Das temporalidades: ciclos de realização 60, 70, 80 e 90 (pesquisa de contexto); Implementação do SNC e FSA; 2015 a 2018

• Dos processos: estrutura da cadeia produtiva (formação, produção, circulação e exibição), políticas públicas de audiovisual; produção de conteúdo independente; estéticas, gênero e narrativas empregadas; atuação e articulação política;

• Fenomenológico; dedutivo; qualitativo/quantitativo; ideográfico; ação; • Paradigma interacionista: associação/descrição qualitativa

Estes tópicos nos orientam para a elaboração de nossa cartografia, termo que segundo Rolnik: “é um método com dupla função: detectar a paisagem, seus acidentes, suas mutações e, ao mesmo tempo, criar vias de passagem através deles. ” (ROLNIK, 1987, p. 6). Ela complementa que diferentemente do “mapa [que] só cobre o visível a

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cartografia acompanha a transformação da paisagem. É para isto aliás que ela serve. Senão não serve. ”

Rosário e Aguiar (2012) nos apresentam uma afirmação que muito coaduna com o método etnográfico:

A cartografia não busca estabelecer desde o início um caminho linear. Ao contrário de outras metodologias que oferecem um modelo orientador, ou seja, que direcionam o pesquisador a seguir determinado caminho – e nele previamente mostram um início, um meio e um fim possíveis de serem adotados – a cartografia não traça uma técnica padrão que pode ser pré-determinada desde o início da investigação. (2012, p.10)

Continuando nossa aproximação, o método etnográfico permite uma imersão através da observação participante onde o pesquisador participa da construção do espaço subjetivo, compreendemos esse método pelo seu enquadramento no ponto de vista do fazer prático antropológico e pela noção de descrição de um grupo, a perspectiva que nos interessam mais é a de Michael Angrosino (2009, p. 30), o qual define que “a etnografia é a arte e a ciência de descrever um grupo humano – suas instituições, seus comportamentos interpessoais, suas produções materiais e suas crenças”.

Já a cartografia propõe um debate e um percurso metodológico que vai se formando na medida em que o pesquisador se defronta com o objeto estudado permitindo, dessa forma, o desenvolvimento de paisagens psicossociais, através da observação e da experiência de contato que o sujeito tem com o seu objeto de estudo (ROSÁRIO, 2012).

Assim, o investigador, no processo metodológico, vai traçando novos territórios e percorrendo outros caminhos que ampliam os conhecimentos desse sujeito. Pelas suas confluências e aproximações, é pertinente o uso da cartografia enquanto método e do método etnográfico de forma transversal, e isto nos serve de alicerce à transmetodologia como forma segura de chegarmos aos resultados.

Para esta tese, optamos seguir os mapas cartográficos de Martín-Barbero (LOPES, 2019), por nos oferecer uma possibilidade de cartografar seguindo os princípios das mediações. Segundo Maria Immacolata Vassallo de Lopes:

A incorporação desses mapas das mediações nos estudos de comunicação dá origem a novos lugares metodológicos. A apropriação dos mapas pelo pesquisador depende da estratégia metodológica que adotar em uma dada pesquisa empírica, de modo que a escolha pode

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recair em determinadas mediações e não em outras dependendo do destaque que ganham na abordagem analítica. (LOPES, 2019, p.53)

Desta forma, optamos em seguir o percurso proposto por Lopes, através dos estudos de Martín-Barbero, que parte da relação entre Comunicação, Cultura e Política, seguimos pela análise das mediações dos eixos centrais: Formatos Industriais, Matrizes Culturais, Lógicas de Produção e Competências da Recepção. Estes quatro eixos e suas submediações (institucionalidades, ritualidades, tecnicidades e socialidades) formaram as bases de análise do nosso objeto. Acrescentamos ainda outras mediações de menor intensidade como as identidades, espacialidades, cidadanias e redes por estarem intrinsecamente ligadas aos nossos objetivos específicos, corroborando na construção dos mapas sobre o audiovisual paraibano.

Reconheço a necessidade de cautela ao trabalhar com variadas técnicas, e aplicação de conceitos, para evitar conflito teórico ou obtenção de dados de forma equivocada. Porém, consideramos por igual que a riqueza do objeto e sua heterogeneidade nos levou a tomar posturas de engajamento e ousadia do ponto de vista metodológico, que certamente nos exigiram fôlego e dedicação.

Mas considero viável a minha proposta metodológica e um fator preponderante para conseguir alcançar meus objetivos é o fato de estar inserido dentro do segmento, uma vez que este pesquisador também é realizador em audiovisual, desempenhando funções de direção, atuação e produção, bem como exercendo militância por políticas públicas. A observação-participante também auxiliou a ter o distanciamento entre o pesquisador e o membro integrante da comunidade do audiovisual paraibano, na medida em que se possa ter isonomia durante o processo, garantindo também um exercício de autocrítica dentro da pesquisa, que foi de grande valia no que tange ampliar minha maturidade acadêmica.

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Capítulo 1 – Cenário paraibano e o Cinema enquanto prática social e

cidadania

[...] nossa própria experiência não pode ser separada do modo pelo qual podemos nos dar conta de nós mesmos. É contando nossas próprias histórias que damos, a nós mesmos, uma identidade. Reconhecendo-nos, a nós mesmos, nas histórias que contamos sobre nós mesmos. E é pequena a diferença se essas histórias são verdadeiras ou falsas, tanto a ficção, como a história verificável, nos provêm de uma identidade (LARROSA,, 2003, p. 41).

1.1 Contexto e historicidade do audiovisual paraibano

Cartografar prescinde uma relação de espaço-tempo em que a delimitação do objeto tome forma e acabe por estabelecer o sentido da investigação. Esta tese se pauta nos processos de produção do audiovisual paraibano, com ênfase na contemporaneidade. No entanto, para que se consiga olhar os processos que configuram a cadeia produtiva do audiovisual paraibano, é necessário fazermos uma imersão na história do cinema paraibano com o foco na sua produção e os seus atores sociais, uma vez que os meios em que se foram construídos os processos antecessores acabam por influenciar no desenho atual da produção paraibana, com maior ou menor efeito, nos permitindo uma compreensão do contexto e as práticas sociais resultantes tanto nas obras quanto nos sujeitos.

O cinema paraibano demonstrou ter traços de identidade cultural desde seu trabalho dito inaugural2. Quando a obra de Walfredo Rodriguez - um longa-metragem de 80 minutos, Sob o Céu Nordestino (1929), passeia de maneira cartográfica por algumas das manifestações icônicas da cultura paraibana, podemos antever que o cinema paraibano buscou um olhar para dentro do seu território desde o princípio.

Como nos relata Trevas Falcone (2013, p.119), “Os fragmentos de Sob o Céu Nordestino trazem registros de momentos da pesca da baleia em Cabedelo, de uma vaquejada nos arredores da cidade de Cabaceiras e imagens da feira de algodão de Campina Grande”, soma-se também o uso do mapa da Paraíba, mostrando

2 Existe uma discordância entre qual foi a obra fundante do audiovisual paraibano. Teóricos como Lúcio

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gradativamente a trajetória do filme via malha ferroviária e rodoviária (FIGURA 1). Essa natureza documental e espacial, mesmo que intuitivamente, corrobora com a nossa percepção de cinema enquanto prática social e cria aproximação com a ideia de território, uma vez que o olhar geográfico de Rodriguez se fixa em ações e modos de vida do povo da Paraíba e a sua relação com a paisagem tanto no âmbito econômico quanto cultural.

FIGURA 1 -: Frame do filme Sob o Céu Nordestino, de Walfredo Rodriguez

FONTE: YouTube/Cinemateca Brasileira

Durante quase toda a trajetória do audiovisual na Paraíba, os olhares empreendidos pelos realizadores se voltaram para as práticas inerentes aos costumes, memórias e imaginário, bem como os dilemas sociais vividos pelo povo do litoral ao sertão (LEAL, 2007). Outra característica recorrente no fazer cinematográfico no estado é a inventividade criativa autoral ante à escassez de recursos. Filmes com baixo custo, em decorrência da fragilidade das políticas públicas no setor, acabaram por tomar a cena e, nem por isso tiveram sua recepção comprometida.

No chamado “ciclo antropológico” (LEAL, 2007, p. 38), o cinema paraibano, mais do que “apresentar” a cultura do estado ao mundo, empregou-se a estudá-la. Com Aruanda (1960), de Linduarte Noronha, temos um filme modesto, experimental dentro

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de suas possibilidades técnicas, mas um trabalho honesto e integrado com a paisagem sertaneja da Paraíba, alinhado com a rusticidade dos homens e mulheres que o protagonizam. Linduarte inaugura uma perspectiva nova de se fazer cinema documentário com crítica social longe dos grandes centros, longe das políticas de estado, e evidenciando um Brasil oculto e poético.

Seguindo a premissa de Linduarte, realizadores como Vladmir Carvalho, Ipojuca Pontes e João Ramiro Mello investem neste cinema de cunho antropológico e crítica social, desvelando a realidade paraibana sob a poética de suas paisagens variadas, do litoral com Homens do Caranguejo (1967), de Ipojuca Pontes e Romeiros da Guia (1962), de Vladmir Carvalho e João Ramiro Mello, ao alto sertão, País de São Saruê (1971), de Vladimir Carvalho. A tônica da busca desse olhar para dentro rende uma notoriedade do audiovisual paraibano em nível nacional, onde Aruanda figura como referência do cinema documentário brasileiro.

Esta mesma tônica também procede no cinema feito no final dos anos 70 e início da década de 80, que é denominado de “terceiro ciclo do cinema da Paraíba” (NUNES, 2013, p. 58). Aqui, a nova geração faz um salto de ordem técnica e inicia uma ruptura com o cinema eminentemente documental. Prevalece o uso das câmeras amadoras de Super-8 em detrimento as filmadoras de 35mm, barateando ainda mais os custos de produção e a mobilidade de equipe em gravação, uma vez que as câmeras Super-8, voltadas para o uso doméstico e com filmes de 8mm, tinham um fator estético que foi incorporado ao hábito dos cineastas brasileiros, como afirma Trevas Falcone (2013, p 121):

No Brasil, o Super-8 possibilitou a experimentação e democratizou a realização cinematográfica, limitada pelos custos altos dos equipamentos para filmagem em películas de 35 mm, predominante no circuito comercial, e bem menores que os filmes de 16 mm, usados no telejornalismo e em algumas produções cinematográficas a partir da década de 1960.

Neste cenário surgem inicialmente nomes como os de João de Lima e Pedro Nunes, aliados ao experimentado Manfredo Caldas – vindo da geração anterior, vão manter a tradição da narrativa documental de crítica social, porém, evidenciando a paisagem urbana em maior potência do que a geração antecessora. É válido ressaltar também, as ações oriundas de Campina Grande, no curso de Comunicação Social da então

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Universidade Regional do Nordeste (1974)3, através do professor Machado Bittencourt e sua Cinética filmes, além da atividade cineclubista contando com nomes como Braúlio Tavares, Luiz Custódio, Romero Azevedo, Rômulo Azevedo e José Umbelino. Pela primeira vez teremos um núcleo produtivo fora da capital do estado, o que será de suma importância para o processo de descentralização da produção paraibana.

Este acréscimo técnico fora potencializado com a junção de alguns fatores que mesclam o passado recente, com uma militância articulada do segmento, como nos atesta Pedro Nunes (2013, p. 58):

A consolidação do então “novo” movimento de cinema na Paraíba brota no esteio referencial de uma forte tradição de cinema dos movimentos passados ancorados desde as experiências pioneiras de cinema na Paraíba, articulações cineclubistas, crítica cinematográfica e o ciclo de cinema documentário envolvendo a realização de filmes basilares para a cinematografia nacional, a exemplo de Aruanda (1960), de Linduarte Noronha, e O País de São Saruê (1971), de Vladimir Carvalho, dentre outras iniciativas no campo do audiovisual.

Tais articulações, aliadas à criação do NUDOC (Núcleo de Documentação Cinematográfica da Universidade Federal da Paraíba), onde “a nova instituição adquire equipamentos de filmagem e assina acordo com o Comitê do Filme Etnográfico de Paris, ligado ao cineasta Jean Rouch” (FALCONE, 2013, p. 122), acabam propiciando um ambiente de experimentação estética ligado ao Cinema Direto (Associação Varan) e aumenta significativamente o número de produções em conjunção a uma variedade temática mais abrangente.

O NUDOC incorpora aos seus quadros personagens importantes do segundo ciclo do cinema, tanto realizadores quanto críticos e cineclubistas a exemplo de “o fotógrafo Manuel Clemente, o crítico Paulo Melo, Lindinalva Rubim, Pedro Santos, o montador Manfredo Caldas, Jurandir Moura e José Umbelino”, e que:

Podemos dizer que o terceiro ciclo de cinema na Paraíba apresentou uma feição extremamente heterogênea, integrando realizadores com destacada vivência profissional que interagiram com cineastas principiantes. O traço distintivo do terceiro ciclo de cinema na Paraíba é então essa pluralidade de vozes que se agrupam em torno da reflexão sobre a natureza do cinema paraibano, processo de produção e circulação de filmes, tendo com predominância a utilização da bitola Super-8 (NUNES, 2013, p. 59).

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Abaixo temos uma tabela (Tabela 1), formulada por Pedro Nunes, e que demonstra a evolução quantitativa da produção em super-8 no estado da Paraíba. O envolvimento da produção paraibana com a técnica do super-8 e sua viabilidade de produção, inspirará modelos de produção nas décadas seguintes, aproximando o fazer cinematográfico do cotidiano de maneira gradativa, também sendo influenciado pelas diretrizes das políticas públicas a nível nacional.

Tabela 1- Produção do ciclo do super-8 na Paraíba

FONTE: (NUNES, 2013, p. 59)

Na esteira, a parceria com o Associação Varan, vieram os promissores Torquato Joel, Elisa Cabral, Bertrand Lira, Marcus Vilar e Vania Perazzo. Esta geração acaba por influenciar o ambiente de produção da década seguinte, atravessando antes o período de redemocratização brasileira, em um momento em que ainda não existia Estações de Televisão locais na paraíba, apenas retransmissoras, as obras da década de 80 tiveram um papel significativo no registro das atividades políticas no estado e sua mediação com o público local, como um exemplo claro deste momento temos Abril (1984), de Marcus Vilar. Segundo Falcone (2013, p. 131)

Marcada pela diversidade temática e pelos formatos – indo do 35 mm ao Super-8 – percebe-se o traço comum do engajamento social no cinema paraibano das décadas de 1960, 70 e 80. Dos trabalhadores

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explorados por multinacional japonesa no litoral, aos excluídos da capital e do campo, passando por lutas estudantis, há um movimento constante dos realizadores no sentido de captar momentos importantes da luta por uma sociedade diferente daquela limitada pela pobreza e pelo autoritarismo.

Os anos 90 provoca outra reformulação no cinema paraibano, tanto de ordem tecnológica quanto de ordem ideológica e estética, porém, sem perder o traço documental e o engajamento social das décadas anteriores. É nesse período que a produção em curta-metragem se consolida no estado (VILAR, 2015, p.54), tendo a premissa tecnológica a seu favor. Se nos anos 80, o super-8 se deu como alternativa tecnológica, na década de 90, o vídeo se consolida enquanto formato de produção alternativo. Embora venha a coexistir com os formatos de películas tradicionais, o vídeo através dos formatos Betacam e Super-VHS acabam por serem incorporados nos processos de produção do audiovisual paraibano. Embora no quesito de representação ainda estejamos relegados à capital do estado, temos o início de uma produção diversificada, tanto no campo documental quanto ficcional e experimental. Será na década de 90 que a “geração Varan” irá se consolidar, com produções constantes. Bem como o NUDOC será a base do surgimento de novos nomes como João Carlos Beltrão, Renato Alves, Carlos Downling, Ana Barbara Ramos, Bruno de Sales e Cristhine Lucena.

Porém, as obras significativas da cinematografia do estado ainda são rodadas em película, a exemplo de Verme na Alma (1998) e Passadouro (1999), de Torquato Joel; A Canga (1999), de Marcus Vilar e a Sintomática Narrativa de Constantino (2000), de Carlos Downling. No final da década temos a criação do coletivo Las Luzineides (1998), formado por Ana Bárbara Ramos, Luiba de Medeiros e outras, as produções do coletivo introduzem o formato digital na cinematografia paraibana e ditam o ritmo da primeira metade da década seguinte. O que ainda marca o fazer audiovisual do paraibano é a centralidade das ações como desdobramentos da formação acadêmica.

Nos anos 2000, o audiovisual paraibano atravessa uma virada determinante no que diz respeito ao seu processo de descentralização da produção. Para além das inovações tecnológicas do cinema digital, que iriam beneficiar os custos e as lógicas de feitura, surgem por todo o estado festivais e mostras, que permitem ao público local um contato mais proeminente e constante com as obras produzidas pelos realizadores do estado.

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