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Relatório estágio profissional

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Academic year: 2021

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Carlos Alberto Salgueiro Galhardo Branco Ferreira

Estágio Profissionalizante – Relatório Final

NOVA Medical School/Faculdade de Ciências Médicas

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I – INTRODUÇÃO / ENQUADRAMENTO

Desde o séc. XVIII que os sucessivos modelos de educação médica

ambicionaram saber refletir as dinâmicas de exigência da sociedade portuguesa.

A este propósito é incontornável evocar a portentosa e afamada reforma de

1911. É, todavia, a derradeira das reformas do ensino médico, que começou a

bosquejar-se em 1988, que, pessoalmente, reputaria de sem precedentes;

ademais exacerbada pela concomitância com o avassalador processo de

Bolonha. Posiciona-se na interface entre: a) o progresso imparável do

conhecimento biomédico e do desenvolvimento tecnológico; b) a mudança do

paradigma reivindicativo dos doentes atinente quer à qualidade/segurança dos

cuidados de saúde prestados, quer aos meios implicados para tal e c) o frenesim

das reiteradas adaptações na gestão e política de cuidados de saúde. Desde a

sua génese, que remonta Comissão Interministerial para a Revisão do Ensino

Médico (1989), até à atualidade, a formação pré-graduada em Medicina sofreu

um cômputo de marcantes alterações. Uma das mais pungentes é,

indubitavelmente, a conversão do 6º ano num estágio profissionalizante,

incorporador de uma percentagem apreciável de treino clínico ex-alocado à

formação pós-graduada. Desta mudança decorreu a necessidade de definir,

para os estagiários, a aquisição de objetivos cognitivos, desempenhos

clínicos/aptidões e atitudes/comportamentos curriculares; suscetíveis de

consubstanciar as competências nucleares que se estabeleceram como

(4)

4 A conclusão dos seis estágios parcelares que – ao abrigo do disposto no

regulamento do curso de Mestrado Integrado em Medicina da NMS/FCM –

perfazem o estágio profissionalizante aludido, pressupõe o presente relatório

final.

Posto este enquadramento traço, como objetivo principal do mesmo, no

decorrer da minha análise (secção III), a verificação e respetiva discussão do

cumprimento das metas de ensino/aprendizagem delineadas para o 6º ano; tal

como vertidas quer nos documentos pluri-institucionais concertados, quer nos programas dos estágios parcelares – para tal recorrerei à discriminação ex ante,

na secção II, dos elementos que, durante o ano letivo, considero mais relevantes

para saldar esse desiderato. Considero que aquela verificação se coloca com

tanto mais acuidade quanto, recentemente, foram publicados estudos (efetuados

em amostras de alunos estagiários) denunciadores de resultados sombrios

quanto à performance de alguns indicadores que, nesta matéria, reputaria de

fulcrais.

II – CORPO/DESENVOLVIMENTO

Apresento uma súmula dos elementos mais valorizados durante o estágio

profissionalizante, que permitiram praticar os 4 níveis de diferenciação: teórico,

observarão/demonstração, aplicação/realização e rotina.

i) benefício de um programa formativo contínuo, consistindo em: a) seminários

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5 de fim de estágio (pelos grupos de estagiário/todas as especialidades)

ii) presença em reuniões clínicas de serviço (especialidades hospitalares), por

vezes multidisciplinares (ex. na Psiquiatria com: psicólogos, enfermeiros,

assistentes sociais) e em reuniões de decisão terapêutica, com várias

especialidades (ex. Cirurgia )

iii) participação nas seguintes actividades clínicas: a) consulta externa

(diferentes consultas de todas as especialidades), em regime observacional ou

autonomia; b) urgência (excepto MGF); c) enfermaria (excepto MGF e

Psiquiatria); d) bloco operatório (Cirurgia, Ginecologia-Obstetrícia), em regime

observacional e de 2º ajudante; e) Pequena Cirurgia, em autonomia (Cirurgia); f)

técnicas diversas (GO, Gastrenterologia, Pneumologia, Cardiologia), em regime

observacional e g) sala de tratamentos em autonomia (ex. Cirurgia).

iv) observação/realização/rotina da abordagem/gestão do doente numa

conceção biopsicossocial/holística; respeitando os aspetos pessoais, culturais,

familiares, laborais, religiosos, económicos, etc. (muito patente em MGF, mas

válido para todos os doentes)

v) abundante incentivo, por parte dos tutores dos diferentes estágios, à

responsabilidade clínica, à revisão teórica e à autonomia na realização até à

rotina de: anamnese, uma miríade de manobras de exame objetivo (mais ou

menos direcionado), determinação de diagnósticos, prescrição de terapêutica e

de exames complementares de diagnóstico simples

vi) autonomia na observação de doentes complexos internados (ex. Medicina

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6 anamnese, exame objetivo, listagem de problemas ativos/relevantes (com

interpretação dos ECDs requisitados) e plano (prescrição, requisição de exames

ou consultas de outras especialidades, etc.)

vii) acompanhamento de reuniões com doentes e/ou respetivas famílias para

discussão dos seus casos clínicos; nomeadamente em situações limite (ex.

malformações ou aborto em Obstetrícia) e graves ou paliativas (ex. cancro

avançado, em qualquer especialidade)

viii) observação da gestão de aspetos administrativos associados a

procedimentos clínicos (ex: indução do trabalho de parto e aborto em GO; baixa

médica, renovação da carta de condução em MGF );

ix) acompanhamento da gestão de processos de articulação: a) de UCP com

outras unidades de saúde (ex. referenciação em MGF); b) de unidades de saúde

com outras instâncias como tribunais, penitenciárias, escolas, etc. (ex.

Psiquiatria); c) de uma especialidade com outras do mesmo ou outros hospitais

(ex. Medicina Interna)

x) elaboração de notas de alta ou de transferência (para o domicílio ou outras

unidades e saúde) e de certidões de óbito

xi) acompanhamento de visitas domiciliárias e/ou prestação de cuidados

médicos em ambiente rural (MGF), com especificidades próprias

xii) prática de prevenção primária (consultas de diferentes especialidades),

secundária e terciária (ex: ginásios de reabilitação cardíaca em Cardiologia)

xiii) promoção da auto-suficiência na utilização dos diversos softwares usados

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7 acompanhantes em Pediatria) – aptidões interpessoais de comunicação

xv) elevada rotatividade dos estagiários por vários médicos subespecializados

do Serviço (GO), fomentando a relação com colegas

xvi) observação de consultas de enfermagem (MGF), fomentado a relação com

outros profissionais de saúde

III – REFLEXÃO CRÍTICA FINAL

Dos elementos enumerados na secção II, decorre a possibilidade de

elencar os objetivos atingidos. Assim:

- a revisão/consolidação de conhecimentos teóricos previamente obtidos

(abundantemente discriminados nos doc. de consenso e nas fichas de cada

unidade curricular) fica assegurada pelas seguintes vias: a) as expostas em i);

b) pelo estudo requerido pela necessidade de saber gerir, em autonomia, os

doentes (tantas vezes com co e multimorbilidades) e saber discuti-los com os

tutores (como decorre de iii), v) e vi)) nos diversos ambientes de observação

(consulta, internamento, urgência, etc.); c) por ser esse um dos critérios de

avaliação do estagiário. A rotação pelos 6 estágios parcelares predispõe o

contacto com as patologias mais prevalentes em crianças, grávidas, adultos e

idosos, fomentando o conhecimento sobre as mesmas – quer na dimensão

clínica, quer na básica que lhe está subjacente. Nem todos os utentes são

doentes. O esforço que incumbe ao médico fazer na prevenção primária requer

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8 alguns que não são atingidos na sua plenitude. Não valerá a pena estar a

discriminá-los caso a caso. A elevada carga teórica, teórico-prática, o trabalho

de enfermaria, a apresentação de casos clínicos e respetivas revisões teóricas, etc…. em simultaneidade com a pressão omnipresente da Prova Nacional de

Seriação tornam a revisão teórica de todos os temas, por vezes, inviável. A título

de exemplo cito os objetivos de aprendizagem definidos pela UC de Saúde

Mental ou os conhecimentos de bioética e direito médico que de espera que o

médico detenha. É claro que, em contrapartida, outro objetivo que considero

atingido é a capacidade de aprender autonomamente; pelo que,

atempadamente, acredito ter oportunidade de rever os conhecimentos em falta.

Essa determinação de desenvolvimento pessoal constitui, aliás, um atributo

pessoal que se requer do jovem médico. Outro quesito teórico que se exige ao

médico é o conhecimento da história da medicina. Por subscrever essa

importância e ser uma área que desde sempre me apaixonou, frequentei,

durante o ano letivo que agora termina, o ano curricular de um mestrado em

História e Filosofia das Ciências e, ainda, estou no final do ano de tese do

mestrado em Museologia noutras faculdades da Universidade de Lisboa. Esse

facto sobrecarregou-me o ano letivo e não me deixou tempo para atender

formação extracurricular de índole médica/clínica. Todavia, este novo modelo

educativo valoriza a aquisição de conhecimentos ajustados às necessidades

individuais. Defende-se, aliás, que as características extracurriculares de cada

candidato podem representar um valor acrescentado em relação aos demais

- em termos de atributos pessoais, penso os valores do respeito, da

responsabilidade, do empenhamento, etc. não decorrem de uma lista de

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9 A necessidade destes valores é sistematicamente posta à prova nas várias

especialidades e todos os contextos – a título de mero exemplo confrontei-me,

no estágio de MGF, com valores culturais de uma vasta comunidade cigana no

Alentejo que, inclusivamente, interferiam com a relação médico-doente. Em

termos de relações profissionais, neste ano mais que em qualquer outro, somos

confrontados, sobretudo quando assumimos doentes em autonomia (tutorada),

com a necessidade de saber comunicar com colegas e outros profissionais de

saúde e, obviamente, com os doentes e seus familiares. Na secção II referi-me

a todos estes aspetos. Quanto à relação com a sociedade, qualquer um dos

estágios em questão deu repetida formação sobre os princípios de

confidencialidade e consentimento informado (por ex. num âmbito os

procedimentos invasivos nas subespecialidades médicas ou cirúrgicos). A

rotinização das consultas sensibiliza para os aspetos da relação custo-eficácia

despertados pelas situações de dificuldade financeira de muitos utentes e

também pela própria proatividade do sistema (por ex. as receitas discriminam os

custos dos fármacos ou pela estatística de ECDs requisitados por casa médico)

- em termos de aptidões clínicas, em todos os estágios se insiste até ao zénite

no treino de histórias clínicas que suscitam a capacidade de desempenhar um

exame físico completo. O mais exigente a este respeito é o de Medicina Interna

onde o estudo exaustivo de cada doente precisa do treino exímio desta aptidão.

O seguimento de um doente requer as capacidades diagnóstica e terapêutica

que foram repetidamente praticadas, assim como a capacidade de saber quando

referenciar (que, ademais, mostra conhecimento dos próprios limites). Tudo isto

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10 dispensa a habilidade de comunicar com o doente e/ou sua família, não apenas

para obter uma boa história como para assegurar inteligibilidade e adesão

terapêutica. Considero ser mais uma aptidão adquirida. Por fim há necessidade

de domínio das ferramentas tecnológicas ao dispor da atividade clínica. Acresce

a necessidade de produzir e manter registos rigorosos e adequados dos doentes

por todas as razões: segurança do doente e do médico, boa gestão do caso por

outros especialistas que necessitem de ver o doente, etc.

No que se refere a objetivos não alcançados: a) não tenho presentes os

fundamentos teóricos, básicos e clínicos, de todas as patologias nomeadas nas

fichas de cada UC (já falei sobre isso); b) sinto insegurança, em algumas

circunstâncias de maior complexidade, de estabelecer um plano de investigação

das hipóteses diagnósticas versus estabelecimento de prioridades relativamente

aos problemas críticos e identificar os múltiplos fatores que contribuem para o

sofrimento do doente e desenvolver estratégias de alívio em conformidade; c)

tenho, nalguns casos, fragilidades em termos de terapêutica, especialmente no

que concerne à dosagem, frequência das administrações, estabelecimento do

plano de seguimento e d) apresento debilidades em identificar e,

fundamentalmente, explorar diferentes oportunidades para adquirir experiência

e formação em investigação e, neste domínio, compreensão de todos os

problemas que se colocam à prática médica e ao exercício da investigação,

nomeadamente ao nível dos conflitos de interesse.

Para terminar considero ter atingido a maioria dos objetivos do estágio

Referências

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